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Consultório Poético

Blog

Quarta-feira, Janeiro 31, 2007

UMA LETRA ENTRE AS PEGADAS
Arte de De Chirico

Fabrício Carpinejar



O benefício de ser pai é justamente assistir o que fazia na infância por outro ângulo.

Durante as manhãs de janeiro, montei castelos de areia com o meu filho e havia me esquecido de como dedicamos tempo a acertar a estrutura da composição, a mistura das paredes, o formato das colunas. Cada gesto é apuro: o cuidado com a distância do mar, o poço fundo para evitar a enxurrada, o peso das torres. Há uma ciência em moldar o barro, como se o rosto não pudesse se fixar sem os lábios. Eu explicava a decisão por um contorno e estendia o cotovelo da voz.

O que me incomodou foi minha ansiedade. Não a ansiedade de aprontar o forte, mas a ansiedade do dia seguinte para descobrir se estaria de pé. Se ele sobreviveria aos pontapés das crianças ciumentas, aos acessos de raiva do mar, aos contrabandos de margens do vento.

Custava a dormir pensando nisso, e me assustava como poderia me preocupar, agora adulto, com as emanações ingênuas da terra. Afinal, a insônia deve ser um cansaço da infância.

Assim que o sol trocava de casaco, já me postava de sunga pronto para ir à praia.

Qual era meu contentamento ao encontrar ainda um montinho cravejado de conchas. Mesmo que significasse somente um banco de areia, uma reentrância das dunas, em que me permitia localizar onde ele estava construído. Eu pulava de alegria, com a permanência de algum jeito do trabalho das mãos. O castelo estava disforme, reduzido, inofensivo (unicamente eu e meu filho poderíamos definir que aquilo fora um castelo).

Era um sinal de que nem tudo é apagado: a escrita é também leitura. As ruínas me davam satisfação para continuar. Começava a reinventar a fortaleza das sobras.

Toda vez que repetia a cena, reparei o quanto se desiste fácil da esperança. Amores são reduzidos a aventuras. Não se deixa mais nem um pontinho daquilo que foi levantado. Nem uma marca, sequer uma cicatriz.

Os relacionamentos não mais terminam, ficam em aberto. Casos se dissolvem, namorados ou namoradas somem e não assumem a separação. Não avisam, são demissionários do amor. Abandonam o serviço. Deixam o destino decidir para não se incomodar em explicar.

Independência nunca será virar o rosto, desimportar-se.

Sou contrário a desaparecimentos, insisto em fixar castelos quando é impossível conservá-los. Quero a despedida, quero ouvir o adeus nítido. Quero uma imagem derradeira e não caçar à toa na memória o que deve sobreviver.

A saudade torna melhor quem foi, não quem fica. A saudade é mentirosa. Não desejo que a confusão me desperte a vontade de voltar aos lugares para ver se existe um aviso.

Um amontoado de areia pode ser apenas um amontoado de areia. Ou uma letra entre as pegadas para afundar mais o corpo. A dúvida não substitui o amor.

12:15 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 30, 2007



SOU AMANTE DO MARIDO DE UMA AMIGA. VIVO O AMOR ATÉ ACABAR?
Arte de Arshile Gorky
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Oi, Fabrício

Vi seu site e gostaria de falar sobre meus problemas.

Eu me separei há cerca de três anos e por quase dois fiquei esperando pela volta do meu ex-marido, até porque ele não me deixava em paz, apesar de contar com outra desde que nos separamos.

Temos um amigo em comum que começou a me assediar, resisti por algum tempo, primeiro porque ele é casado, e depois por ser amiga da mulher dele.

Teve um dia em que ele me ligou, pediu para conversar comigo, e resolvi ir. A partir daí começamos a sair. Ficamos uns quatro meses juntos, nos separamos por dois e agora estamos mais ligados do que nunca. Sei que o casamento dele acabou há bastante tempo, mas sei também que ele é muito família e não vai sair de casa. Fico pensando, vivo este amor até acabar ou acabo agora e parto para outra?


Beijo, Isabela"


Oi, Isabela

O casamento dele acabou? É o que ele afirma, mas não sabe ao certo o que acontece assim que vocês se despedem. Ele não manteria um inferno por passatempo. Caso ele tenha filhos, aí sim complica, e é possível explicar sua inércia: porque envolve a perda da criação deles e da proximidade física.

Já há algumas distorções na história: envolveu-se com o amigo de seu ex e, igualmente, marido de sua amiga, o que penaliza a amizade com o fundo passional. Existe uma concorrência invisível entre vocês, acentuada pela ruptura da lealdade.

O homem tornou-se um prêmio de consolação, por assim dizer. Até para atenuar a dívida e justificar a perda de confiança.

Se ele é muito caseiro, poderia ser família contigo, não? Isso não é problema: o corpo é a casa.

Seu romance com ele é como um vício, com abstinência e fissura, altos e baixos. O proibido intensifica a doação. Dessa forma, podem prosseguir por anos como amantes, sem alteração na formalidade do compromisso. Dependência não se discute, arruma-se qualquer desculpa para mantê-la. Vão brigar e vão voltar indefinidamente. Dirá que não quer isso e fará o contrário do que acredita. Sacrificará primeiro o juízo e a consciência, depois a compreensão, e, por fim, a capacidade de decidir.

Um verso de Rimbaud sempre me ilumina quando estou indeciso entre falar a verdade ou me censurar para o melhor momento: "por polidez, perdi minha vida".

Chega de fazer suposições. Está repetindo o erro. Antes esperou a volta do ex-marido, agora espera que o amante decida ficar contigo. Tome a frente da história por bem ou por mal e seja contundente.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:26 PM :: Comentários:


Sábado, Janeiro 27, 2007

EMOÇÕES DE SCOTT

Fabrício Carpinejar

Estava certo de que me tornaria adulto quando engordasse.

Passei esfumaçado durante a infância, até diria raquítico. A única barriga que fazia era de vermes. A barriga não era minha, era deles. Eu apenas emprestava.

Meu pai ficou gordo, após ter sido magro. Assim como meus tios. O casamento aumentou o apetite. Não puderam mais enganar a família e aceitaram a fatalidade da vida adulta. Condenados a engordar como os bois e as ovelhas da fazenda do Hélio. Não correspondia a uma opção, e sim a um destino masculino, que necessitava ser assumido com convicção desde cedo, ao lado de raspar a barba e matar as baratas.

Eu iria começar a envelhecer quando não conseguisse mais coçar as costas. Apresentaria uma cintura fofa, obscena de tantas camadas interpostas.

Os pais tentaram apressar meu amadurecimento. Vinham de manhãzinha em meu quarto com uma colher. O cheiro de peixe podre já avisava do pesadelo. Insistiam que dependia de um remédio para me fortalecer, pois não era normal alguém frágil, levado pelo vento sem mostrar defesa. Quando descobri o rótulo do remédio, identifiquei logo o peixe podre - devia estar longe do mar há décadas. Um homem o segurava nos ombros. O líquido viscoso e nojento impedia qualquer gole consciente. Aceitava tomar remédio na febre e delirando, mas considerava imoral recebê-lo em plena saúde.

Errava o nome do tonificante. De "Emulsão de Scott", chamava "Emoções de Scott". Queria bater no "Scott" que se emocionou e obrigava os outros a chorar junto.

É óbvio que fingia engolir, esperava que os pais saíssem do quarto e cuspia na tigela do cão Argos. Não foi uma tática apropriada, preferível sorver de uma vez por todas do que bochechar a borra. Prendia a respiração para suportar a ânsia e a repulsa. Se vomitasse, terminaria ainda mais magro.

O cachorro permaneceu excitado nos dias seguintes, antes de acordar duro e irreconhecível, bem acima do seu peso.

Meu medo aumentou. Troquei de alvo e joguei na roseira, que murchou em seguida, apesar das insanas regadas maternas. Depois larguei na privada, finalmente não mataria mais ninguém. Ao menos, perto de mim.

Cresci fora da garrafa, delirante. Observo minha barriga com simpatia. Não recrimino os quilos a mais.

Estou engordando. Demorei a sair da adolescência.

9:56 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 25, 2007



SOU ÍMÃ DE HOMENS COM NAMORADAS
Arte de Marc Chagall
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Olá,

Tenho 19 anos e nunca namorei ninguém sério. Ficava com um cara há quatro anos, era coisa muito forte entre a gente, coisa de química mesmo! Sou virgem, mas foi com ele que eu quase perdi a virgindade! Sei que ele não presta, mas quando o vi ficando com outra na minha frente me decepcionei bastante e daquele dia em diante decidi não ficar mais com ele.

Não gosto muito de homens preguentos, pareço ter um ímã - só atraio homens com namorada ou sem atitude. Não me incomodo em ser solteira, vou pras baladas com as amigas, não saio beijando qualquer um. Acho que às vezes escolho demais. Não acontecem amores ou paixões para escolher continuar ou terminar. Nada sério de verdade.

Ainda não conheci meu amor de verdade, e sinto falta.

Será que vou ficar assim até quando? Minha família já está falando que vou sobrar!

O que devo fazer?

Tomara que neste ano de 2007, tudo mude.

Priscila"


Olá, Priscila!

Não é que você seja um ímã na geladeira de homens com namorada e sem atitude, é que talvez a própria impossibilidade de namorá-los estimule sua vontade. Como é mais difícil dar certo já justifica qualquer frustração posterior. Eles diminuem suas exigências com resultados. Você se protege no pessimismo. São seus álibis para continuar sozinha. Se gosta de ficar sozinha, não há nada de criminoso nisso. Pode descobrir a si mesma a partir da observação. Esperar é também uma forma de caminhar.

O que deve determinar é se a pressão de namorar vem de uma decisão pessoal ou de uma pressão externa. Brincadeiras da família e cobranças das amigas são sadias. Sobrar, não vai. Posso lhe garantir. É um medo bobo e conservador de ficar para tia. Aliás, as tias hoje são muito atraentes.

Quando fala que não conheceu o amor de verdade, expressa sua verdadeira intenção. Está procurando um amor romântico, um amor idealizado, que seja cuidadoso com seu ritmo. Infelizmente os homens e as mulheres são predadores nos relacionamentos, mais preocupados em abater a ave do que voar com ela. Não se abrem para não se machucar. Vive-se uma sociedade com medo da dor, com casais encerrando histórias de modo prematuro para não sofrer. E não há como se comover sem a contrapartida da ferida. Magoar-se é decorrência da sinceridade, da vulnerabilidade, da entrega.

Demorar nas escolhas não é negativo. Mas aviso que o amor pode surgir justo de personagens que não damos a mínima, nem fazem o nosso tipo. Temos que quebrar os pré-requisitos para não cometer injustiças. O amor é contraditório. Não serve para nos confirmar ou nos conformar, e sim desafiar. Fique atenta, e nunca blindada.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:27 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

DIABETES
Pintura de De Chirico
Para meu pai

Fabrício Carpinejar



O que absorvo vira açúcar. O que recuso vira açúcar.

A massa vira açúcar, o trigo vira açúcar, o arroz vira açúcar. Os livros que não folheei viram açúcar, os livros que não escrevi viram açúcar.

Meu sangue não me lê direito. Apressado. Salta as páginas. Confunde tudo em açúcar.

As formigas casaram com as abelhas em meu sangue. Procriaram asas e ferrão. Meu sangue ficou cego pela boca.

Não é a brandura do açúcar, é sua agressividade secreta. Não é o branco do açúcar, são as sombras misturadas no sopro.

Não é o açúcar amistoso, o açúcar que completa, é o açúcar que desfalca, faminto.

Não se tira o açúcar depois de posto. O açúcar se acumula e me espera.

É o açúcar árabe. O açúcar cigano. O açúcar ancestral. Caravelas e caravanas de açúcar chegando.

Pedi duas colheres no café. Vieram meus olhos inteiros de açúcar.

Os dentes viram açúcar. A língua, os ossos do queixo. O açúcar me morde, me lambe, me mantém preso em sua quietude, inchando os pés e as mãos.

O açúcar me devora. Me empresta para a neblina.

O açúcar é a infância que não mais terei.

O açúcar me roubou os doces de meu aniversário.

As passagens de ônibus viram açúcar. Os óculos grossos. As camisas listradas. Os bolsos dos casacos. As bermudas folgadas. O escritório vira açúcar. O ar. O cheiro de minha mulher. As árvores do quintal. O suor. Os canhotos das contas.

Os latidos do cão viram açúcar. Os gatos na porta. Os ganchos da rede. As lâmpadas de insetos. A chuva verde. Os amores correspondidos. O ressentimento dos filhos. O perdão da água.

O mar de bruços vira açúcar, as cordas do violão viram açúcar, a voz de minha mãe vira açúcar. As noites que demoram em fugir. Os desenhos dos azulejos. Os chinelos velhos.

A irritação caminha na pele, imitando os pêlos. As manchas nervosas. As manchas atômicas. As manchas atônitas de mapas.

O açúcar amarra meus sapatos. Costura os cadarços azuis e verdes. E me põe a andar na areia movediça do açúcar.

As veias são visitadas toda a manhã. E meu corpo manda um telegrama para me avisar de que estou vivo.

1:34 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 23, 2007

O FRIO EM MIM
Arte de De Chirico

Fabrício Carpinejar



Sou um homem do sul. Pareço mais cansado quando durmo muito, mais disposto quando não durmo. As olheiras são sonhos que se repetiram.

Minhas lembranças remotas vêm da chaleira fervendo e do mate roncando como um urso na varanda, das duas meias que inchavam os sapatos, da calça de pijama debaixo da calça, dos casacos pesados, que me aparentavam a uma cama andando.

O cheiro de lã tornou-se, por adoção, o cheiro da minha pele.

Acordar na neblina, respirar sem encarar o ar, procurar o sol nas cores adocicadas dos telhados: o inverno fazia a família ouvir o fogo como um oráculo. O inverno respeitava silêncios.

Se minha memória pende ao frio; a memória da família está toda na praia. Tomei por acaso os álbuns antigos e vejo apenas a família reunida no mar. Estou ali, mas é como um estranho semelhante, não eu. Um branquela de alegria tímida e desajeitada com a nudez repentina.

Cadê as pilhas de lenha, em que os irmãos se estapeavam para não ter que buscar no porão? Cadê meu poncho, que competia em uso com o uniforme escolar? Cadê o café suspirado, entre goles e fumaça? Cadê a coberta imensa que cobria seis pernas no sofá na hora de assistir filmes? Cadê os bolinhos de chuva de sábado e as pipocas de mel? Cadê o cachecol amarelo, que proibiu meu pescoço de participar do rosto? Cadê as nuvens cinzentas que imitavam a chuva, mas eram ventos andando em bando? Cadê as árvores acenando para o ônibus?

Por ser um período de entressafra, resistência e alheamento, o inverno não aparece em minha história. Talvez o inverno seja o fotógrafo da minha vida.

Era no verão que os pais se preocupavam com as fotos. Quem consulta os registros irá concluir que nasci numa cidade marítima. Nenhuma imagem de recolhimento, da fachada de casa, do convívio miúdo na mesa e na sala.

O mar sempre foi mais verídico como fundo. O mar e sua extensão baldia de areia. O mar e seus unicórnios de espuma. O mar e sua propensão a fazer amigos. O mar e seus amores intempestivos.

Ao ir à praia, entro em outro país. Tanto faz que seja num estado longínquo ou a 100 km de minha residência. É outro país.

Amo o mar desde que eu não o veja todo dia. Estremeço diante dele. É muito Deus para abraçar.

O mar não pousa nunca, sempre está voando.

Ele fala e fala e vira as costas quando o respondemos.

O mar não permite tristezas, e às vezes estou triste.

O mar é inconfessável.

O mar é minha vontade de voltar para casa.

9:49 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 21, 2007

UM RIO DE JANEIRO ABENÇOADO POR DEUS
Marcelo Moutinho retrata a capital carioca com leveza e otimismo

Fabrício Carpinejar*



O que se espera da literatura urbana do Rio de Janeiro: guerra do tráfico, ônibus queimados, medo de assalto, mortes estúpidas? Não é o caso de Marcelo Moutinho, que publica Somos Todos Iguais Nesta Noite (Rocco, 124 págs., R$ 19), reunião de contos singelos, líricos e que em nenhum momento tematizam a violência.

Essa é a primeira coragem do autor de 34 anos, que tem na sua bagagem ainda Memória dos Barcos (7 Letras, 2001). Ele não imita a vida, não usa a literatura como uma forma mimética de produzir desconforto e aumentar o desespero, escapou da cilada das gerações contemporâneas de escandalizar pelo sangue e ser mais real do que o rei.

Não é o Rio de Rubem Fonseca, portanto trash e incontrolável. Nem do Nelson Rodrigues, com as traições à flor da pele. É um Rio possível, um Rio abençoado por enganos e amizades, dos almoços no meio da tarde na casa dos parentes, dos namoros à beira-mar. O Rio da bossa, de Braguinha, de Orfeu da Conceição. Com insegurança, sim, mas também com o devaneio amoroso do mar.

Marcelo Moutinho está longe de ser rotulado de alienado. É um impressionista, como João Carrascoza (O Volume do Silêncio) e Adriana Lisboa (Caligrafias). Um flautista dos fios telefônicos. Pinta as cenas pelo impacto emocional mais do que pela sucessão cronológica e pela ordem tátil das lembranças. Um tapa dado por erro pelo pai na coxa do filho, justamente no dia da estréia do carro novo em um passeio, continua a arder na maturidade, apesar do pedido de desculpa. É uma bofetada comum, leve e relapsa, em que o pai se confunde e pensa que seu filho bateu na irmã. Mas é um ruído na canção favorita e serve como bússola da eterna incompletude do rapaz.

Moutinho inverte as expectativas. Na verdade, ele converte a falta de expectativa em derradeira expectativa. Não há sequer um solavanco, soco, choque no fim do túnel. Há desencanto e amadurecimento em cada desenlace. Uma menina espera a visita de um cantor romântico todo o dia diante da televisão, insuflada pela mãe, que garante que ele vem, e ele não aparece mesmo. Um travesti, Teresa, precisa conseguir cinco clientes para garantir o pagamento das contas. Surge o primeiro, o segundo, o terceiro, já estamos aguardando um desfecho trágico, o quarto, sempre com as minúcias de uma descrição lenta, até que prorrompe o quinto e o trabalho termina, e nada acontece. Ela volta para casa com uma rosa escorregadia do banco de trás do Honda Civic do último programa. Quer mais anticlímax? É justamente a normalidade que deslumbra em Moutinho, a vida que continua sem estrondo. Como um suspiro. Entra-se nos personagens nunca pelo resultado de um obituário, porém para compreender a sensação interminável de sua rotina.

São 20 contos divididos em duas seções, Iguais e Noites, permeados por textos aforísticos, que acentuam o caráter iluminista do volume. 'Pescar nada tem a ver com pegar peixes' ou 'Às vezes, a solidão é a cafeteira vazia' ou 'Ignoravam que chorar é um fato, não uma opção'.

Apesar de achados, o único incômodo do conjunto reside nesses respingos de sabedoria em breves pausas, que escancaram o que está implícito nos contos. Não que seja ruim, destoa. A série de reflexões expõe abruptamente as vísceras da linguagem, uma poesia moral, quando a delicadeza do livro estava em não ensinar, mas mostrar e acompanhar com compaixão a evolução das figuras. A autêntica sabedoria encontra-se nas falas dos personagens, no jeito peculiar de lidar com os atrasos e urgências. Ali, o escritor parece se intrometer no território sagrado da fruição.

Um exemplo de como funciona a engrenagem assobiada de Moutinho é no conto Desfile, em que registra a confecção de fantasias do carnaval por uma tradicional costureira. A costureira retarda a entrega até o último momento e fica-se indeciso entre concluir que ela já envelheceu e não acompanha o processo ou é caprichosa e tenta honrar seu passado. É inspirador perceber que, quase cega, ela combina as cores pelo som. As duas conclusões coexistem no final. A câmera de tinta de Moutinho convive, sem reduzir as sugestões. Ela mente que comparecerá no desfile e fica em casa assistindo à cobertura televisava. Sua recompensa é a felicidade dos outros. Um dos diálogos da Dona Dita cabe como norte do livro: 'Lembrança até quando é boa dói.'

As narrativas concentram-se no ambiente familiar, nas ilusões da infância que deseja mais do que lembra. Emblemática a narrativa em que a criança não entende como desaparecem os objetos de seu quarto. É uma parábola inversa de Peter Pan. O mobiliário infantil some simplesmente porque a criança vai crescendo. E assim a sala, os domínios, os corredores esfumam-se, incluindo a mãe, restando somente a bicicleta. Moutinho torna sua escrita matéria-prima de recalques.

Inteligente e criativo é o capítulo feito de dedicatórias, em que um casal troca livros de presente. Compreende-se a evolução do romance dos dois e o fortalecimento da intimidade pelos recados deixados na folha de rosto. A partir deles - e unicamente deles -, a trama se espirala em contradições, em fugas e falta de tempo, desembocando no término do namoro. O conteúdo das obras presenteadas aumenta o significado de cada carta. Moutinho renova o gosto pela metalinguagem de um jeito irreverente e nada óbvio.

Somos Todos Iguais Nesta Noite merece a seguinte dedicatória: 'Ler uma vida já é escrevê-la.'

* Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006), entre outros

(Publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, 21/01/2007)

7:55 PM :: Comentários:


Sábado, Janeiro 20, 2007

MEUS FILHOS
Arte de Sigmar Polke

Fabrício Carpinejar



Há pouco tempo, Vicente, de 4 anos, falava errado o nome de sua irmã, Mariana, 13 anos. Dizia "Maliana".

Uma manhã acordou ansioso:
- Preciso ligar para minha mana.

Perguntei o que tinha acontecido:
- Aprendi a falar Mariana, MA-RI-A-NA. Ela tem que saber. Eu chamava a pessoa errada, agora vou chamar a certa.

11:41 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

SINOS DE PEDRA
Arte de Sigmar Polke

Fabrício Carpinejar



Busquei ser invisível quando pequeno. Não me esqueço um dia que tirei as minhas roupas e atravessei a sala, para horror das visitas de meu pai. Como ninguém comentou nada, jurava ter alcançado meu objetivo. Fui de novo. O casal congelou a xícara no queixo. Fiquei de castigo um longo tempo, que dava no mesmo que ficar invisível, já que não podia aparecer no futebol. Meus amigos vinham em casa perguntar onde estava e a família mentia que tinha adoecido.

As experiências unicamente funcionavam comigo sozinho (nunca me olhei direito).

Outras mirabolâncias foram testadas. Eu também me untei de minâncora para desaparecer. Usei o estoque das espinhas de minha irmã. Virei um fantasma rosado. O cachorro levou um susto. Ao invés de sumir, chamei mais atenção, além de manchar todas as minhas roupas. Tentei também com vick, o que gerou acessos de calafrios madrugada inteira. Aos poucos, notei que não havia fórmula miraculosa.

Conversei com o colega Iraji sobre o problema Ele me entendeu e, um pouco espantado, explicou:
- É simples.
- O que faço, então?, perguntei, já indignado com a sua demora.
- Basta ser pobre como eu.

Cheguei em casa determinado a ser pobre. Separei minhas calças e camisas, minhas medalhas escolares, meu cofrinho de lata, meus gibis, meu kichute, o autógrafo de Zico, botei numa mala e coloquei na rua. A mãe capturou de volta antes da ação dos carroceiros. Ela resmungou apenas que era muito cedo para ser São Francisco de Assis, que esperasse um pouco mais.

Passei do tempo de ser santo, mas o desejo da invisibilidade da infância permanece intacto. O que explica meu horror aos sinos de pedra. São atraentes, melódicos, honestos, apesar de não tocar como os bambus ou como as telhas de zinco. Sim, decoram a casa e os ouvidos. Sim, aproxima o teto do chapéu. Sim, reflete a luz. Sim, é o enfeite de berço dos adultos. Não estou fazendo campanha contra eles. Não é o som que me irrita. É sua função.

Transforma o vento num invasor. É como se o vento tivesse que bater a campainha para entrar na residência. É depender de um aviso e de um sinal para localizá-lo.

É menosprezar o vento. A brincadeira do vento. A cabra-cega do vento. Diminuí-lo ao tamanho do corpo: doméstico, inofensivo, terrestre.

É colocar uma coleira no vento e ainda demarcar seu território.

Ou obrigá-lo a tocar oito horas de violino por dia antes de mergulhar no mar com seus colegas.

É cortar os cabelos do vento com pedras. É fazer o vento se engolir.

O vento não merece isso, logo o vento, a única criança que conseguiu ser invisível.

9:30 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 16, 2007

FERIDA DE LÃ
Arte de Richard Hamilton

Fabrício Carpinejar



O destino das crianças é definido por acidente. Uma palavra com ênfase, um cumprimento efusivo, uma homenagem recebida na infância pode se tornar uma profissão. É só dizer para um menino que tem talento para o futebol que ele guardará essa promessa ao amarrar, todo o dia, os cordões do tênis. O interlocutor adulto nem precisa entender de futebol, o fato de se importar com ele o restitui de confiança.

De todos os meus tios, o que não esqueço é Otávio Caruso da Rocha. Tanto pelo cheiro típico de cachimbo e loção pós-barba, como pelo vozeirão me chamando ao nos visitar: Ó Santo, Ó Santo.

Ele me chamava de santo, enquanto outros me reduziam a guri e piá.

"Dá a benção!", insistia. E me pegava no colo e beijava meu nariz. Eu me enchia da importância de vidro. Lembro que não dormia de luz acesa quando ele vinha.

Era uma criança problemática, mas Otávio me tratava com um respeito de Antigo Testamento, como se não houvesse pálpebras nos separando os olhos. Enxergava vocação em meus resmungos de tinta. Pedia para que eu desenhasse anjos porque ele tinha perdido o seu. Logo colava com durex o desenho nas costas. "Agora tenho asas; se houver vento, já embarco".

Eu vejo sua voz dentro de mim, isso que faz vinte anos que não o encontro desde sua morte.

Não queria que a gente saísse para falar assuntos sérios. Não proibia nossa entrada na sala. Mantinha o ritmo da casa do jeito que encontrou ao entrar.

Não conheci o político e o advogado, conheci o amigo leal da família, que tirou minha mãe de uma internação forçada no hospital. Não perguntei o que aconteceu com a mãe com medo que voltasse a acontecer. Criança se cala para não repetir o que não entende.

Otávio tinha um bigode raso, desenhado (Quem desenhava para ele?). Mais parecia sobrancelha da boca.

Usava gravata, o terno alinhado, apertava as chaves no bolso no meio da conversa. Sofreu muito na vida, perdeu um filho de quatro anos de câncer. Mas ainda não tinha perdido quando vinha. Deixou de vir depois que morreu por dentro para acompanhar a morte do filho.

Ao sentar no sofá, a primeira coisa que fazia era tirar os sapatos. A meia direita, invariavelmente, estava furada no dedão. Dos pares estranhos e de cores mais diversas, metade tinha um rasgo, uma ferida de lã. Não o via como uma meia intacta, sóbria, completa. Não que morasse sozinho e não soubesse costurar. A meia furada era ele. Sua compulsão caseira. Sua pobreza insana comendo os pés e repassando gentilezas. A meia furada lembrava que ele não estava imune. Não estava salvo.

"Por algum lugar, preciso respirar", brincava.

Quando crescer, eu quero ser santo e costurar suas meias.

9:52 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 14, 2007

MULHER-VÍTIMA
Arte de Robert Motherwell

Fabrício Carpinejar



Não tenho nada contra mulheres arrogantes, pretensiosas, arrivistas, carreiristas, fatais. Não me importo. O sadismo não me incomoda, expressa vontade e determinação, ainda que insuportavelmente exageradas.

O que me provoca alergia é a mulher-vítima (assim como existe o homem-vítima), a que se considera injustiçada por antecipação. Vítima do mundo, de si, que conspira contra qualquer boa notícia, que desconfia do otimismo e se empenha para a tragédia. Ela não lutará pelo seu talento, vai logo se desculpar ou esperar que tudo fique igual.

Será extremista: ou é como ela quer ou não vale. Não aceita gradações, modulações, intervalos. Não respeita meio-termos, demora, paciência. Carrega sua verdade para todas as mentiras. No primeiro confronto com os pais, replica: "não pedi para nascer". Na primeira resistência: "nada funciona comigo". Na discussão de casal: "eu não o mereço". Na primeira celebração: "não sei por que você me escolheu". No primeiro filho: "ele não se parece comigo".

A mulher-vítima se defendeu do que podia na infância. Agora nem a infância a acalma. É vingativa. Só que não com os outros. Renuncia e abdica de sua própria história para provar que tinha razão.

Ela se enxerga como a última das criaturas. Aliás, a penúltima das criaturas, pois se lembrará das baratas ao pensar nisso. Não seria capaz de casar consigo mesma. Não que não seja bonita, inteligente, sensível. É, na maioria das vezes. Mas não suporta a idéia de fracassar e fracassa na véspera por não controlar a ansiedade. Não que tenha medo de fracassar, esse é o problema: tem certeza de fracassar. A mulher vítima tropeça já avisando como vai cair. Faz a derrota premeditada. Não economiza água para contar os dramas, e toma os dramas dos outros como seus. Se ela usasse todo o discurso quando se lamenta para dar certo, não haveria concorrência.

A mulher-vítima não desabafa, chora antes. Em algum momento, não foi vítima. Em algum momento, se sentiu traída e não trocou de papel.

A mulher-vítima se isola, acha que ninguém entenderá seu sofrimento. Não permite que sua angústia converse com estranhos. Ou que sua alegria tenha amigos. A mulher-vítima é uma mãe que não deixa o corpo sair dessa encarnação.

É como o fogo, começa uma história e não consegue terminar.

Será vítima do casamento, será vítima da falta de oportunidade, será vítima dos filhos, será vítima das contas. Ela não reage, ela concorda quando está apanhando das dificuldades - até ajuda a bater.

A mulher-vítima não muda, aguarda que o mundo mude por ela. É triste o jeito que ela se trata, ou o jeito que ela não se trata.

Fui criado por uma mulher excepcional, que não precisava de provas para ser percebida. Apesar de todas as qualidades, era uma mulher-vítima. A mulher-vítima não apaga suas virtudes, ela se esconde delas.

Não cansava de explicar aos filhos que foi abandonada pelo marido. Nunca a ouvi dizer algo de bom dele. Tudo que era bom dele vinha dela e do tempo que viveram juntos. Nunca se casou de novo para contrariar o passado ou absolvê-lo.

A mulher-vítima é romântica. Pelo motivo errado. Não trai suas dores e mágoas pelo orgulho de ter sofrido sozinha.

10:24 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

O APARTAMENTO DA FRENTE
Arte de Jean Dubuffet

Fabrício Carpinejar



Eu apagava as luzes do terraço, colocava os pés na piscina de plástico e ficava assistindo ao apartamento do edifício da frente. Com uma cervejinha gelada na mão, bebericando goles no gargalo (eu odeio cerveja, mas acho que dá autenticidade ao texto).

Havia um casal que não deixava minha noite entediada. Pela sacada, curtia uma visão panorâmica da sala. Ainda podia ver pelas sombras da cortina a movimentação do quarto. Lembra daquela casa de boneca aberta ao meio, de madeira, só com a fachada? É uma sensação parecida.

Arrependo-me de não ter adquirido um binóculo. Se eu tiver que colocar óculos, não será pelas leituras de madrugada, e sim resultado da minha indiscrição aos vizinhos.

O casal brigava com freqüência. Era bonito acompanhar a guerra doméstica. Inquietos, confusos, discursivos. Estavam jantando em paz e, subitamente, se levantavam com indelicadeza. O cara ameaçava bater nela. Eu já pegava o telefone para discar o 190. Ele desistia, botava minha vida de novo no gancho. Ela o xingava com fúria (pena não ter feito curso de leitura labial), arrumava as coisas, fugia correndo, ele ia atrás, conversavam na esquina tensos e reprimidos, ele conseguia convencê-la a permanecer, subiam, ficavam rapidamente despidos e não se importavam em curar as desavenças no tapete ou no sofá. Eu via tudo. Era meu canal hot da Net.

Sempre produziam a mesma rotina temperamental, de separações repentinas e pazes passionais. Já me sentia íntimo. O cara gostava de café sem açúcar, tomavam vinho nacional, ela evitava sair com os cabelos molhados. Adivinhava se a mulher assumia sua porção matadora ao vestir a lingerie rosa. Quando botava a branca, era dia de trégua. Nem valia subir com engradado.

O homem tinha a mania de roupão. Um roupão azul que usava no inverno e no verão. Encarnava um pistoleiro, bem canastrão. Nunca parei para pensar, deve ter diferenças de caráter entre homem que dorme de pijama, daquele que prefere roupão e o que recorre a roupas esportivas. O que dorme nu - com certeza - é o que não abandonou a condição de solteiro.

Agora você entende meu desapontamento. O apartamento está para alugar. A placa vermelha e branca em lugar da impetuosidade.

Eles me traíram. Não poderiam ter saído sem me avisar.

1:55 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 11, 2007



ELE QUER EXPERIMENTAR ANTES DE DECIDIR
Arte de Allen Jones
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Sempre acompanhei várias pessoas pedirem sua ajuda nos relacionamentos. Até fico com outra áurea depois de ler os seus textos tão lindos aqui. E hoje chegou a minha vez.

Em uma festa, eu conheci o P. Ficamos lá, foram apenas beijos, ele me perguntou se eu gostaria de levar adiante, disse que sim, e ele me avisou que já estava ficando com uma outra há um tempo, sem compromisso. Disse que tínhamos que nos conhecer para que ele pudesse se decidir entre eu e ela. Enquanto isso, sairíamos escondidos, diz que é importante me conhecer antes de terminar com ela, pois nosso caso pode não dar certo. Cheguei à breve conclusão de que ele está apenas tentando manter as duas ao seu lado e quer uma garantia de que se ele perder uma, vai ter a outra ao seu lado. Eu não sei mais o que falar com ele... O que eu posso fazer?

Beijos, Beatriz"


Olá, Beatriz!

Não entraria no raciocínio dele. É muito cara-de-pau. Ninguém fica com uma outra mulher, sem compromisso, ainda mais mantendo sigilo sobre a relação contigo.

Infelizmente, prevejo que ele não ficará com nenhuma das duas, porque uma dependerá da outra. Uma será a cúmplice do destino da outra. Para aliviar a consciência, partirá para uma nova relação, sem os vícios das anteriores. E se ele começou um relacionamento já com a expectativa de treino, não levará adiante nenhuma intenção mais séria. Ninguém começa um compromisso pensando que pode dar errado. Haja pessimismo. É o mesmo que fazer DR antes de qualquer coisa. A véspera existe para intensificar o mistério, não assassinar os meios-tons.

Já no beijo, sabemos onde estamos indo. Não precisamos de nenhuma confirmação além dele. É romantismo, sim, mas o beijo é o corpo em miniatura. Não há como conceder um pouco na esperança de que ele depois virá inteiro. Esse pouco é a própria possibilidade da atração inicial se converter em namoro.

Considero grosseiro experimentar para ver se é duradouro. Que isso? Estamos lidando com o quê? Agora mulheres têm prazo de devolução? O amor envolve doação irrestrita, ainda que o destino seja a ingratidão. Não se olha o fundo antes de pular, cria-se o fundo com os pés.

Eu pularia fora com as duas mãos, sem sujar os ouvidos.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

7:53 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 09, 2007

ÁRVORE DE VENTO
Pintura de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Eu me ensaboava e me ensaboava, passava camadas de xampu, meio pote de condicionador e não deixava o banheiro cheiroso como os cabelos de minha irmã.

Minha irmã cruzava soberana a casa, uma rainha egípcia. A toalha na cabeça, turbante consagrando os traços. A lavanda saborosa conseguia superar o olor do almoço sendo preparado. Por melhor que fosse a comida, seus cabelos perfumados ainda ditavam o cheiro da casa. Eu poderia estar no pátio que meu olfato recebia a rajada morna de seus fios. Todos da família, por algum momento, eram sacudidos para olhar ao lado.

É um mistério: o cheiro incontrolável dos cabelos femininos. Nenhum homem, ainda que lixe sua pele com flores, que faça serão na barba, que deite num tonel de amêndoas, será capaz de reproduzi-lo ou, ao menos, chegar perto.

Depois do banho, qualquer mulher cruzará o corredor até o seu quarto com a leveza de um sábado. Será sempre sábado quando uma mulher deixa o banho.

Não é o perfume imposto, é um perfume herdado. Um perfume que já estava na superfície subindo. Um perfume que já estava na carne esperando.

Seus cabelos são árvore de vento. Nem os pássaros fazem sombra para não manchar a luz.

É quando as vestes discursam.

Um mar em suas núpcias. As mechas embebidas das linhas harmoniosas de uma vinha, amarradas a um perfume imperdoável, que embriaga qualquer fumaça que venha a surgir.

Sempre esperei toda mulher sair do banho. Como um milagre. Meus cílios infantis formam o tapete de seu retorno.

Em casa, os cabelos lavados da mulher fecham as janelas. Na rua, abrem as portas.

O cheiro dos cabelos lavados de uma mulher entra nas frutas, entra nos pratos de quem aguarda no restaurante, entra nos carros parados nas sinaleiras, entra no papel de carta, entra nos bolsos sem chaves. O dia pode ter gosto de noite de repente.

Os homens ficam com os ouvidos inseguros diante do enxame de abelhas.

É a água em marcha, imponderável. Como uma tempestade do chão. Sem barulho. Que vai lavando as escadarias, os arranha-céus, as sacadas, as bocas das crianças tomando café, a borra da neblina nas marquises.

Quando ela passa, redime os pecados da gula, as brigas entre os casais, os problemas financeiros, o tédio dos peixes.

Os cabelos lavados de uma mulher nunca terminam de secar.

9:53 PM :: Comentários: