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Consultório Poético

Blog

Domingo, Fevereiro 25, 2007

FALTA MUITO PARA CHEGAR À SALA
Arte de Paul Delvaux

Fabrício Carpinejar



Eu falo homens, mas entenda como a primeira pessoa do singular.

Como homem, há um equívoco irreparável. Ele supõe que transar com uma mulher é tê-la. Esquece que transar com uma mulher pode ser perdê-la.

Oferecer o corpo ainda não é oferecer a cozinha, oferecer o território sutil das lembranças e vontades. Chegar à sala é mais complicado do que chegar ao quarto.

O raciocínio é mais complexo: amar, na visão masculina, significa se perder. Protege-se, então, de amar porque não mais será o mesmo. Será ela.

Transar não significa posse, mas ele já quer se sentir desobrigado de reconquistar. Recompensado do esforço de se entregar, como se a doação fosse um pré-requisito para a estabilidade. O homem depende de recompensas para continuar. Só vai com a convicção de voltar a ser ele mesmo. Até admite ser ela no início do namoro, desde que não seja ela durante.

O homem desiste de seduzir uma única mulher, pois se irrita com a insegurança. Ele precisa ter certeza de que a mulher o espera. Não retribui a ponto de fornecer a certeza de que ele a espera.

Foi criado para conquistar, como já pontuou Sílvio Vasconcellos na caixinha de comentários. Enamorado, o homem se dedica tanto para a relação engrenar que não verifica se há reciprocidade. Convencido, não convence. Não vai checar se ela está respondendo como ele.

Dar e receber estão misturados, embaralhando o discernimento. Um dos males do amor é a crença de que não se está amando sozinho (grande parte das vezes, é o que acontece). O que o outro não diz, subentende-se. Subentende-se o que não se disse. O narcisismo ilude o amor.

O homem finge que é romântico, para provar que é vulnerável. Ele não é romântico. A mulher finge que não é romântica, para não parecer vulnerável. Ela é romântica.

O homem nasceu para a devoção do começo, não para a compreensão dos problemas. Repleto de fascinação pelo novo, reverencia qualquer atitude ou hábito dela. O modo como penteia os cabelos, abraça o travesseiro, geme para a comida, seus penduricalhos na parede, sua bruxas no bidê, o celular rosa. Enquanto projeta a diferença com seu mundo, encanta-se. À medida que iguala os mundos, afasta-se. Enquanto se vê escolhendo, fica. Quando não há escolha, parte.

Identifica o casamento como uma prisão, uma cilada, uma armadilha. Na última semana, comemorei efusivamente a notícia do enlace de meu amigo Júlio.

Ele me entreolhou, curioso:

- Você é o primeiro a me cumprimentar. Os demais só criticaram e me falaram barbaridades.

O homem tem a cabeça de gomos, deixa rolar, pois não suporta o intervalo do primeiro tempo.

Sofre com sua objetividade. Uma mulher não deseja que o homem faça o que ela deseja. Ele conclui que deve fazer o que deseja. Conclui errado: não nota que ela também não deseja que ele faça o que deseja.

O que ela pede, então?

Uma prova: não ser ela nem ele. Ser outro homem, resultado dos dois.

5:40 PM :: Comentários:

VADIA
Arte de Paul Delvaux

Fabrício Carpinejar



No meio de um tema de aula, sozinhos no quarto, uma colega me perguntou se queria brincar de boquete, aproveitando que a mãe não estava em casa.

Confundi boquete com beijo na boca, na minha mania de deduzir o que as palavras significavam.

Foi uma promoção para mim, mas ela não entendeu nada. Nem entendeu que eu não entendia.

Estava eufórico de tê-la beijado. Quando contei ingenuamente para um amigo que fiz e recebi boquete de nossa amiga, ele se escandalizou. Sua reação não foi a que aguardava, de troça e leveza. Ele ficou nitidamente sério, como um galo que se esforça para voar.

O que voou alto foi a fofoca. No dia seguinte, minha amiga era vista como "vadia".

A escola inteira a tratava como "vadia" no sussurro, no bocejo, nos sinais. Vadia no jeito de se aproximar com cautela e de se afastar com alvoroço.

Ela foi vítima de meu engano. As palavras brincam com o que não compreendemos.

Encontrei-a na escadaria entre duas ruas, chorando copiosamente. A voz dela chegava lá embaixo ladeando o meio-fio.

Ela me desaforou por ter contado. Não consegui desfazer o mal-entendido, com mais vergonha de não conhecer o boquete do que em confidenciar o encontro.

Ao mesmo tempo em que ela era discriminada, minha reputação cresceu e as meninas se aproximavam de mim com o dobro de freqüência. Era visto como um homem experiente. Mal adivinhavam que era mais um bobo do que um boquete.

Mesmo se tivéssemos feito sexo oral, ela não poderia ser caracterizada como vadia. Ou, no mínimo, eu também seria.

O preconceito contra as mulheres estava implícito no comportamento, nos comentários indiretos e conclusões precipitadas. O sexo convertia a mulher em puta e o homem em sedutor.

Por mais que se entendesse que era natural transar e curtir o máximo possível, o descrédito ecoava naqueles recreios da escola: "ela é uma vadia, numa festa ficou com todo mundo" ou "ela é fácil". Predominava um julgamento subterrâneo, ardiloso na lacuna, que irrompia na inveja e no ciúme, uma inquisição desconfiada inibia amar e se aventurar com liberdade. Sem cobrança. Sem prazos. Sem relatórios.

As mulheres foram educadas a não relatar suas experiências, para não sofrer com as críticas. Os homens foram educados a narrar suas experiências para se vangloriar da masculinidade.

A mulher condenada a ser um segredo. O homem condicionado a ser um escândalo.

Se antes a maioria das mulheres disfarçava que era virgem, hoje disfarça que é experiente. A mudança de comportamento é justa, porém falsa. É uma vingança, não igualdade de direito.

Elas se reúnem para enaltecer até o que não fizeram. Se uma delas não tem o histórico de Mata-Hari, sente-se tolhida, culpada por não ser liberal. Logo inventa uma ficha corrida para não ficar em desvantagem com as colegas. Abrem - sem remorso - que comeram o fulano, que transaram com sicrano, que pularam a cerca, nem sempre condizentes com a realidade.

O exagero não produz a verdade. O exagero continua sendo uma mentira.

5:33 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

JOGO DE ARMAR
Arte de Robert Delaunay

Fabrício Carpinejar



Nos finais de semana na casa de minha irmã, realizamos sucessivas rodadas de ludo. Por incrível que pareça, as crianças ficam de fora, apesar da justa reclamação de roubo, pois tiramos o jogo delas.

Para quem não sabe, ludo é um tabuleiro em que o participante recebe quatro peças e precisa completar uma volta inteira com cada uma delas. Há pouquíssimos ferrolhos para se livrar de atropelos e da sina de voltar ao início.

O ludo foi utilizado como entretenimento na Guerra Civil Espanhola, nos intervalos das batalhas. Sua origem explica a desproporção bélica. Os adultos amigáveis se transformam em cães de guarda durante a partida. Não dá nem para tocar no braço do adversário, que ele leva um susto com a ternura despropositada. Arrepia-se de raiva.

O engraçado é que os quatro participantes costumam ser dois casais, que lavam suas rusgas no conflito. Entre as esquinas coloridas, escutamos revelações de intimidade surpreendentes. Ela vai mexer em sua peça vermelha, perigosamente próxima do avanço da verde dele.

Ela o ameaça: "Se me comeres, nada de caminhoneiro".

Caminhoneiro?

É óbvio que ele a come. Ela completa, com esgar decidido: "Eu avisei!"

Dificilmente o jogo termina com risos. É crise e catarse. O perdedor empurra a cadeira, denuncia o esquema de corrupção, desafora o oponente, isso quando o tabuleiro não voa com os pinos pelas paredes.

A intempérie emocional se agrava porque no ludo um deve "comer o outro", aproveitando que a peça oponente não está protegida para ser ultrapassada e devorada.

Se houvesse escuta telefônica, a Polícia entenderia a sala como uma tremenda orgia. Um swing sem precedentes. "Vou te comer" para cá, "vou te comer" para lá. Dava para dublar um filme pornô e não se perceberia a diferença. Tem até gemidos e apelos indecentes.

Um simples jogo desperta impulso homicida e greve repentina de sexo. Extravasa cobranças e transborda confissões indiscretas.

Não descobri se jogamos pelo prazer de brincar ou pela possibilidade de brigar. Mas a provocação vicia. Fácil perder a censura na infância - ainda mais quando estamos fora dela.

O casamento é uma disputa discreta. No ludo, ela vem desordenadamente à tona, precipitando recalques e frustrações.

O resultado não fará diferença. Não aprendemos a perder, muito menos a ganhar no amor. Os dados têm o peso de pedras e ferem. Todos esquecem de uma ferida fechada, ninguém esquece da ferida aberta. A reconciliação surge sempre menor do que a agressão.

Quer se separar? Esqueça as discussões de madrugada, a devassa de documentos, a comparação de diálogos, a arrumação das malas. Não gaste a voz com indiretas, nem projete o desastre. Isso é coisa do passado.

Jogue apenas ludo. O jogo lhe dirá o quanto vocês se odiavam secretamente.

11:38 AM :: Comentários:

CAMPO GRANDE
Arte de Robert Delaunay


Fui convidado para abrir o ano literário da Fundação Municipal de Cultura (Fundac) de Campo Grande (MS). Farei oficina de criação poética, de 26 de fevereiro a 2 de março. As aulas acontecem na Sala Rubens Corrêa, do Centro Cultural José Octávio Guizzo (Rua 26 de Agosto, 453), das 19 às 22h.

Informações: FUNDAC, pelo telefone (67) 3314 3220, com a Prof.ª Iolete.

9:32 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

GIRAR O VIDRO DO BALEIRO
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar



Somos o que pedimos ou o que deixamos de pedir?

Não tinha coragem em minha infância de pedir o que desejava, eu desejava o que vinha.

Poderia roçar meus olhos nas vitrines das lojas, mas não apontava e dizia:
- Quero agora!

Não me envergonhava dos meus sonhos, justo por isso. Meus sonhos aumentavam os brinquedos que recebia.

Não ganhava mesada, tinha direito a ficar com as moedas quando a mãe trocava de bolsa. Repartia com os irmãos em chicletes e balas para rodar o vidro do armazém. Meu carrossel era girar o baleiro.

Um pouco de nostalgia não fere a barba. Meu filho completa cinco anos. Eu perguntei e perguntei o que ele queria. Como de costume, replicou com um abraço nas pernas:
- Qualquer coisa, qualquer coisa tá bom.

Qualquer coisa que eu desse para ele estaria realmente bom. Não estava fingindo com "não precisava". Ou escondendo o que pretendia. Clipes coloridos, uma lupa, um carimbo, e ele se veria espelhado.

Fui com ele olhar uma bicicleta. Já que não consegui ensinar a minha mulher, ensinaria a ele. Revistamos o shopping, até que ele ficou em dúvida entre duas.

O cansaço me agitava: - Escolhe logo!

Ele me indagou, suave: - Levo a mais barata.

A noção de que ele deve ajudar a família é maior do que seu desejo de ter tudo em seu quarto.

Outra história, agora com meus sobrinhos. Joãozinho, 4, e Nana, 7, pediram presentes aos seus pais. Nana gritou: Playstation II! Joãozinho, com olhar de bolinha de gude, recitou baixinho para seus pés: - Sementes para plantar arvorezinhas na chácara.

Ofertas cumpridas, até hoje o Playstation está parado no armário e Joãozinho plantou melancia, laranjeira e o diabo de flor durante uma semana, com a alegria escandalosa da bananeira.

Somos o que pedimos ou o que deixamos de pedir?

No amor, a ambição destrói a possibilidade de criar com pouco. O luxo é uma espécie de esmola. Por mais que se dê, menos se está se oferecendo do corpo. Dar é subtrair a invenção.

A imaginação prefere a modéstia. Amor não é para ocupar o tempo, mas desocupar. Comprei muitas vezes um pacote faraônico para não precisar brincar e estar junto. Algo para me dispensar de participar, que me isente da proximidade.

A compulsão de surpreender com presentes e jóias esconde uma avareza por dentro. De algum modo, estamos dispensando a comoção acompanhada de uma música ou da própria voz. Estamos nos substituindo.

Um afeto inesperado, uma palavra espichada como colar, uma meninice na hora de acordar correspondem ao apelo. Criar escolhas pode ser mais prazeroso do que escolher.

Penso isso ao encostar na árvore que Joãozinho plantou, com meu filho andando de bicicleta pelas lombas, num entardecer de ferrugem dos morros. De repente, nem vou escrever esse texto.

Encosto nas árvores para meu corpo crescer.



11:54 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

CARTA AOS AMANTES
Arte de Matisse

Fabrício Carpinejar



Desculpe o tom moralista. Mas nos envergonhamos hoje da moralidade quando deveríamos nos envergonhar da falta dela.

Se alguém fala de seus valores, logo censuramos: quem é você para dar sermão? De pecados, estamos cheios e, se fosse por isso, ninguém falava mais nada.

A infidelidade é um ato infantil. Não estou esvaziando nossa responsabilidade.

Um casal infiel não é formado por adultos. Nem sei como o motel nos deixa entrar, já que não aceita menores.

Somos duas crianças fugindo de suas casas, como fazíamos antes na infância.

Ao invés de pular a janela para cair em festa ou enfiar travesseiros nas cobertas para sugerir presença, duplicamos os compromissos para selar encontros. Há culpa e alívio, há apreensão e desejo, solúveis à água dos olhos.

Ao invés de esconder o cigarro ou a maconha, escondemos a consciência das palavras.

Não enganamos mais os pais (muito menos estamos enganando nossa mulher ou marido), mas a si mesmos. Alegramo-nos por conseguir nos iludir com perfeição e esmero. Fingimos que nossa vida não é conosco.

É como alguém que não tem coragem para se demitir, e aguarda a demissão para contar com o Fundo de Garantia.

O que me intriga não é o fato de sairmos ao encontro sem remorso. É voltar para a residência e participar da rotina com alegria redobrada.

Mentimos ao chegar, não ao sair. Mentimos o que somos em nome do que parecemos ser.

Escrevemos juras adolescentes, mensagens de infinita afinidade; efetuamos pactos de imortalidade, porque não estamos juntos para nos duvidar.

Estamos brincando que nascemos agora. Brincamos um pouco mais do que a conta. Brincamos que não há filhos, que não há tarefas, que não há aluguel e mensalidades, que não há encargos, que ainda podemos escolher o que seremos quando crescer.

Brincamos até que somos namorados entre as quatro paredes.

Não nos importamos com a babá. Ou com a hora de voltar. Afinal, estamos numa reunião importantíssima.

Fácil ser criança. Por isso, maridos tediosos são maravilhosos às amantes. Por isso, mulheres irritantes são suaves aos amantes. O que fazemos além de amar?

E amar, sem precisar deslumbrar quem os conhece. Complicado surpreender a esposa ou o marido que decoraram nossas estratégias. Os amantes são preguiçosos para o final, portanto, repetem inícios.

Não brigamos, porque não nos preocupamos em preservar esse amor. Quem briga está com medo de perder. E não temos medo de nada.

Não temos passado para sermos questionados. Não há sogra ou sogro, ração de cão ou gato a comprar, não há ex-namorados e ex-namoradas.

Somos vaidosos: queremos elogios e menos realidade. Acreditamos que temos razão, como todas as crianças que choram no supermercado.

Participamos de um jogo erótico, de ir até onde pudermos suportar. Tentamos nos diferenciar perdendo a memória, pois nos achamos iguais a quem nos casamos.

Não mostramos nossas manias, nosso ciúme, nossos defeitos, nossa incapacidade de compreender o silêncio como prova de doação. Não haverá tempo para captar as frustrações e os traumas. É o intervalo de uma risada, não da cumplicidade eloqüente da dor.

Compreendemo-nos no ato, não discordamos, não prestamos satisfações. Somos adiamentos, detestamos conversa séria. Um anula a personalidade do outro.

À semelhança de férias na praia, nos entregamos a uma segunda infância. Vamos pensando na volta, voltamos pensando em ir de novo. Dizemos que é tarde para mudar e é cedo para assumir o futuro. Trocamos promessas desmedidas, incomensuráveis de paixão, tal estudante que esquece o tema da escola e inventa brincadeiras com os amigos.

Durante os momentos de envolvimento, somos livres porque concebemos a liberdade como uma transgressão. Ainda enxergamos a liberdade como desrespeitar as regras quando a liberdade é não precisar delas.

Como crianças, bagunçamos o quarto e sequer arrumamos a cama.

Como crianças, desejamos - no fundo - o castigo.

9:30 AM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 13, 2007



O EXCESSO DE AMOR PODE HUMILHAR
Arte de Magritte
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Boa noite,

Pois bem, Carpinejar, aqui estou.

Sempre li seus conselhos para outras mulheres e agora, senti-me à vontade para o mesmo. Não sei se seria um conselho ou uma solução para meu questionamento...

Caro Fabrício, sempre fui daquelas mulheres quem amam demais (demais mesmo!). Quando amo, entro de cabeça (pés, mãos e também o que posso acrescentar que esteja a meu alcance). Nunca consigo medir a intensidade de meu sentimento.

Recentemente, saí de um relacionamento que hoje vejo ter sido extremamente estressante para ambas as partes. Descobri que namorava sozinha há tempos, ou seja, amava por dois. Fiz de tudo para que desse certo. Abdiquei de mim mesma para proporcionar felicidade a alguém que hoje diz sentir raiva de mim. (Pode? Pode.) Passei dois anos da minha vida fazendo o que estava (e não estava) ao meu alcance para ver um sorriso brotar nos lábios "dele". E o que recebia e recebo até hoje? Palavras ásperas e pouco generosas.

Carpinejar, realmente, não sei se o problema sou eu, ou as pessoas com as quais me relaciono. Preciso ser má? Amar menos? Não amar? Colocar um cérebro no lugar do coração? Help.

Beijos, Lina"


Lina,

O homem, às vezes, pode assistir à relação, por não se sentir parte dela. Talvez ele tenha se paralisado pelo seu ímpeto de decidir pelos dois. Ele se enxergou consumado por dentro, sem ter o que oferecer. Será que não se adiantava excessivamente e não o deixava responder os seus apelos? Não perguntava e não completava por ele?

Entraria ainda mais na ferida. O excesso de amor pode humilhar. Constranger. Se o outro não consegue participar, ele vai se isolando, se afastando, até criar raiva. Raiva por ter sido uma ausência.

É como uma criança aprendendo a falar. Se corrigimos a todo instante e não deixamos sua fala correr espontânea, ele tratará de evitar as palavras.

Você foi mãe de seu sentimento quando poderia ter sido filha.

Cada um precisa encontrar a consciência do seu amor para se responsabilizar por ele. Abdicar de si é anular a felicidade sua e a dele - um dia iria cobrar o investimento.

Não confundiria doação com submissão. A submissão começa quando deixamos de fazer pelo nosso prazer para dizer que fizemos em nome do outro. Ou seja, nem você queria isso, e, possivelmente, nem ele. Pensar pelo outro é pensar sem ele. E ainda avisá-lo sadicamente que ele não conseguiu pensar.

É uma generosidade avarenta: porque estamos oferecendo para exigir igual atitude.

Concordo que se deve mergulhar de cabeça numa relação. Mas não viver mergulhada. Nadar requer sincronia, subir à tona, respirar na superfície, ver se o nosso par está nos alcançando ou necessitar que voltemos um pouco para resgatá-lo.

Não recomendo ser má, cerebral ou amar menos, porém não subjugar o amor que não é sua cara ou que não oferece o que se espera dele.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:34 AM :: Comentários:


Sábado, Fevereiro 10, 2007

ELA NÃO SABIA ANDAR DE BICICLETA
Pintura de Magritte

Fabrício Carpinejar



Minha mulher um dia confessou que não sabia andar de bicicleta.

Enlouqueci. Jurei que fosse zombaria, disse que não era possível, mas ela insistiu como um pão puro: "eu não sei".

Um pão puro, sem que submetesse ao sabor da manteiga e da geléia.

A partir daquele momento, fui tomado pela missão de ensiná-la. Ela não me esqueceria se a conduzisse pelas costas, como se faz a um filho, dando um impulso e fingindo que permaneceria junto quando já não estava. Teria a paciência de voltar e prosseguir o exercício várias vezes. Se ela caísse, beijaria seu machucado e explicaria que isso é normal, que deveríamos insistir para que nada ficasse em aberto, sem tentativas. Beijaria seus ombros para empurrá-la com a boca. Recuperaria seus anos perdidos e devolveria sua caligrafia.

Cheguei à ambição de deduzir que havia casado com ela apenas para dar o prazer dos pedais girando e do vento esculpindo o pescoço. Pois vivo à espera de uma chance de ingressar perenemente na vida dela. Percebi que era uma delas. Sonhava que me levaria depois na garupa, e ela olharia para trás, perguntando-me se estava indo muito rápido.

Num entardecer, na praia, em fevereiro, iniciei minhas aulas. Era patético meu tom professoral diante da espontaneidade do mar. Imprimia sermões, alheio às cambalhotas das gaivotas bicando a espuma, dos surfistas conversando relevos e das crianças recolhendo a ressaca das conchas com baldes coloridos.

Ela fingia que me ouvia. Raro ouvir qualquer coisa com a areia subindo ardilosa pelas pernas, como mosquitos invisíveis.

Ela sentou no banco, decidida, e correu em linha reta. Sem parar. Foi como uma locomotiva, pedalando exaustivamente em direção às dunas. Fugindo de mim, fugindo de si, da família que não a concedeu nenhuma bicicleta no Natal ou no aniversário para reconhecer as casas antigas e o feitio das calçadas.

Fiquei perplexo, nulo de reação. Não a amparei, talvez tenha gritado: "mais devagar". Talvez não tenha soltado o grito da âncora, por não conter seu peso sozinho.

Ela não caiu, não bateu em nada, não se afogou no ímpeto. Desceu da bicicleta mansamente e voltou caminhando para mim. Como alguém que não depende mais da pressa para desembarcar em casa.

Confessou com um fôlego um pouco cansado: "eu sei andar de bicicleta, eu só não sei fazer curva".

Era eu que precisava ensiná-la, ela não precisava aprender.

11:44 AM :: Comentários:

Jornal O Globo, Prosa e Verso, coluna "No Prelo", 10/02/07
Arte de Arshile Gorky

Um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa contemporânea, Gonçalo M. Tavares, escreveu na revista literária "Magazine Artes" um texto elogioso sobre a coletânea de poemas "Caixa de Sapatos", que o poeta Fabrício Carpinejar lançou lá na terrinha pela Quasi. Para Tavares, a poesia de Carpinejar "é um convite por vezes delicado, outras vezes brusco, ao exercício da reflexão"

O texto pode ser lido na íntegra no Prosa Online

GUERRA E POESIA OU BIOGRAFIA DE UMA ÁRVORE

Gonçalo M. Tavares - escritor



A audição é um risco.
Ao perceber uma roldana chiando,
Posso não me recuperar.

Carpinejar



1. fechar os olhos para chegar ao sítio

Fechar os olhos nunca foi o melhor modo de avançar em cima de um caminho estreito. O passo para a floresta (de que Ernst Junger, de outro modo, também fala), esse afastamento lateral que subtrai um homem dos dois lados da emissão do ódio, é um meio do passo fechar os olhos ao Homem que caminha, porém esta não é uma forma cobarde, mas simplesmente o acto do indivíduo que, no meio da confusão do mundo, prefere ser individual a combatente. Não é fugir nem ser neutro no meio de duas balas em sentido contrário, o avanço para fora das cidades, essa trajectória surpreendente e portanto quase artística (que é a melhor forma do ser artístico: o quase) coloca o cidadão ao lado das árvores, portanto cidadão-natural, cidadão animalesco mas intelectualmente robusto; cidadão sem influências dos outros homens da mesma geração ou dos livros. E não há livros numa floresta porque tal seria considerado pela natureza uma ofensa do humano que quer entrar nela, mas não quer perder a cidade. Na cidade deverá ficar a biblioteca, e o Homem há muito deixou cair a capacidade de estar nos dois lados: um pé descalço e outro com a bota pesada provocará feridas nos dois pés; o cidadão tal como o individuo selvagem e isolado - nasceu para a simetria, isto é: um dos seus lados copia o outro. E só os loucos se copiam mal.

2. fechar os ouvidos pois não se pode suspender a respiração

"Escutar minha respiração
é conviver com o terror"

escreve Carpinejar, e na cidade, os carros; na floresta: o vento e os pássaros: ninguém e nada não surgem ao lado de um homem para sua defesa, para sua segurança, isto é: para que o homem não escute a própria respiração. É para isso que existem os sons. O nada que anula o algo, e o ninguém que anula o humano, eis dois factos de que o indivíduo foge: o isolamento completo nunca existe porque se o homem estiver por completo isolado está ainda (começou) em convivência com o terror. Nem no bosque te atreverás a colocar os teus pulmões à frente de tudo.

3. fechar a boca porque não se pode fechar a linguagem

Claro que no bosque, ao contrário da cidade onde não existem factos, mas apenas interpretações, no bosque, sim, só existem factos, pelo menos até à chegada desse bicho-de-interpretar que por o ser deixou tragicamente de ser bicho: o homem, essa excepção feliz e infeliz.

Certo que estes versos de Carpinejar:

"tal relâmpago que acende o bosque
para as aves pousarem nele."

colocam a natureza em diálogo interno entre pássaros e árvores, e entre uns e outros estabelece-se, porventura provisoriamente, relações de empregado de mesa, cuidadoso, - a luz - que conduz os seus clientes - os pássaros - até ao galho certo na árvore que os aguarda no bosque.

Mas se a luz do relâmpago - aceitemos que por prazer - fará isto aos pássaros, não se acredite que repetirá procedimentos desta delicadeza quando os homens pedirem favores. Não há rancor na Natureza, mas há linguagens privadas que se incompatibilizaram há milhões de anos: o que não se pode dizer pela linguagem dos homens aumentou de quantidade a partir do primeiro nome introduzido no mundo: o indizível cresceu desde o primeiro instante em que alguém começou a dizer. Quanto maior discurso mais coisas se escapam à sucessão de palavras: a natureza aumentou com a invenção das línguas, e numa álgebra equilibrada e absurda acredite-se (é um pedido) que se de um lado um punhado de homens lúcidos inventa uma linguagem com novos nomes, do outro lado, num sítio oposto, algo - que não é alguém - será fortalecido: uma montanha, o caudal do rio, duas pedras, a velocidade de voo de um pássaro. Carpinejar escreve: "O pássaro é um vento orquestrado", um vento de organismo igual ao vento, mas mais explícito: tem patas e o vento não, um estômago que o vento prescinde, e o canto que não varia apenas de intensidade na mesma monotonia como no vento; o pássaro é da mesma natureza que o vento, diremos: da mesma cidade, mas distinguiu-se não pelos nomes, mas pelo que é indizível: a narrativa que a energia toma. Porque o mundo material é isto: cada coisa é o final temporário de uma narrativa que a energia comum conta. Se a energia é uma ("O pássaro é um vento orquestrado") a forma da narrativa é outra: todas as histórias podem começar com o era uma vez, mas nenhuma tem o direito de repetir a sua irmã. Como irmãos - vento e pássaro - terão raciocínios diversos e sobressaltos individuais e o seu último acto será não o último propriamente, mas uma espécie de média dos actos anteriores, tal como em qualquer narrativa o final da história concentra todas as particularidades do percurso numa intensidade que se deseja capaz de iluminar quem lê ou ouve. Carpinejar escreve: "O pouso pesa o que foi voado"; chegado a esse fim provisório - não há fim que não o seja - esse galho de árvore onde repousa depois da corrida - os pássaros correm, isso é evidente, correm como alguém que ao mesmo tempo que faz suceder um pé a outro está a aprender música - esse galho -dizíamos, fazendo de balança da natureza, num rigor de números instintivos só alcançável pelo que não é humano, pesa, não o organismo do pássaro, com as suas duas patas, estômago e música, mas a narrativa do pássaro, o passado do pássaro. O galho responde, afinal, à pergunta: por onde tens andado?, apresentando números concretos - um peso que reflecte toda a existência anterior: o que foi voado antes está naquele pouso, tal como Montaigne, copiando os sábios antigos, dizia que nada se poderá concluir de um homem antes de assistirmos à sua morte. Só a morte pesará com exactidão uma existência: como nos atrevemos a elogiar ou insultar um ser vivo? Que imprudência, que falta de rigor.

4. fechar o peso (a leveza)

E a guerra também tem um peso, como um pássaro lírico o tanque compacto não é feito apenas de movimento, também pára: a guerra é uma narrativa orgânica, com os seus galhos particulares, os seus armistícios, acordos entre vencidos e vencedores.

Um tanque, olhemos para esse símbolo que faz fogo (do fogo, Carpinejar diz que "é uma noz que não se quebra com as mãos"), o tanque será também, não um vento, mas uma pedra - avança junto ao solo e não junto ao ar como os pássaros - uma pedra, sim, mas orquestrada; porque o fogo também tem sons, a lareira doméstica há muito nos ensinou os sons tranquilos do fogo e a guerra insiste em dar o negativo da lareira, sons que inquietam, sons que trazem o terror colectivo tal como o som da própria respiração traz o terror individual. A guerra produz, assim, o som de uma respiração colectiva (produz, esta palavra é correcta, produz como se fosse uma instituição autónoma: um agrupamento de vontades humanas com deve-e-haver, balanços semanais e de século, contabilidade e burocracia) e essa respiração colectiva não deixa ninguém de fora: quem desviou os seus passos para a floresta, por muito que esta se encontre afastada, ele, esse humano, não deixará nunca de pertencer ao colectivo que fundou as cidades. Mesmo se um homem, a si próprio se amputar um dedo ou a mão inteira, enquanto olha para as árvores e fala sobre elas, mesmo aí o homem não deixa de o ser. Não somos menos humanos porque temos menos um dedo, a humanidade não pesa quantidades de anatomia como se ser humano dependesse daquilo que a fotografia apanha ou do que fica no papel do desenho que um bom retratista faz de nós. Não é fácil desistir da humanidade e entrar por completo na natureza - não se trata propriamente de despir um casaco e fazer esforço para esquecer todas as línguas humanas e cada um dos nomes que se aprendeu; a boa memória de quem se afastou e ficou mudo mantém no organismo tudo o que se disse (o dizível não se esquece mesmo em frente à árvore); "Depois de morto tudo pode ser lido", escreve Carpinejar, e poderíamos também escrever: até depois de morto o homem pode ser lido, como se afinal este não fosse mais do que um livro, repleto de palavras até ao topo, até ao enjoo.

O que faz um tanque parado, um bombardeiro que pousou já no seu porta-aviões? Um tanque parado pesa o que destruiu. O bombardeiro também. O pouso pesa o que foi destruído. Eis porque é importante dar atenção à biografia de uma árvore: a sua narrativa, ao contrário de muitas, começa junto ao solo, sim, mas terminará mais perto do céu. A poesia não é fuga: é olhar demoradamente para aquilo que cresce na direcção certa. "Sei o quanto/ um boi mal guiado/ causa estragos na plantação", escreve Carpinejar.

11:41 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

EXCESSIVAMENTE TOLERANTE
Pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Sou impiedoso com as manias dos outros, esqueço das minhas. É natural que me perdoe na mesma proporção em que condeno e troço de terceiros, segundos e primeiros.

Minha tolerância é sinal que desisti de tentar me mudar. Casei comigo para me aprumar e me piorei. Um divórcio agora será tarde.

Busquei me observar um momento, como se não fosse comigo. Colhi dados desagradáveis, que não julgo desagradáveis porque são meus. Vejo como características da personalidade. Diria até do caráter, para insistir no tom inflexível e imutável.


Quando preciso lavar a louça e arrumar a casa, deixo para o último instante perto de sair. Assim conto com o socorro dos familiares, que não têm alternativa senão me ajudar para diminuir o atraso.

Não durmo depois do sexo. O sexo me dá insônia. Fico acordado de madrugada. Há um defeito em mim que não reduz a eletricidade após gozar.

Antes do almoço e da janta, telefone tocando e porta apitando, grito "um minutinho" e resolvo cumprir as pendências da semana em sessenta intermináveis segundos.

Não levo toalha para o banho. Não posso ser solteiro.

Não me seco ao sair do banho. As roupas exercem o trabalho das toalhas.

Faço caretas involuntárias quando me oferecem comidas que detesto. Tipo vagem.

Devoro um doce por meses e anos, e depois não consigo vê-lo em minha frente. Já fui adepto das panelinhas de coco, dos quindins, da torta de nozes, do chocolate preto, do chocolate branco, agora serei fã dos brownies até a próxima gravidez masculina.

Depois de comer, sofro para permanecer na mesa, ainda mais com os pratos sujos.

Deixo ileso o morango do sorvete Napolitano.

Imagino a comida toda manhã. Se um restaurante que desejo está fechado, perco o apetite. Não consigo trocar de lugar, porque já me preparei para determinado prato. Minha imaginação é gulosa; minha memória, bulímica.

Levo dezenas de livros na mochila e não consultarei nenhum deles no percurso. Peso os livros que não li.

Eu brigo quando tenho certeza que estou certo. Na hora em que estou errado, eu fujo.

Não suporto discutir duas noites seguidas. Tem que ser dia sim dia não.

Escuto a conversa dos outros de modo indiscreto. Meus ouvidos nunca estão sozinhos.

Se meu time perde, termino mal-humorado toda a semana. Se ganho, fico igualmente insuportável e não canso de provocar os gremistas.

Não posso comprar camisa e calça nova, que reviro meu armário para organizá-lo. Na aquisição de uma peça, faço o inventário das antigas.

Ando por surtos. Ao colher um boleto na gaveta, vejo que a gaveta está desarrumada, adio a vida para ordená-la. Volto uma semana depois para minhas atividades.

Finalmente botei a biblioteca em ordem alfabética. Agora passei a esquecer os nomes dos autores.

Quando desaparece o nome de um amigo, invento um apelido para ele.

Levo meus filhos ao cinema para comer pipoca.

Obsessivo, não termino alguma coisa antes de me terminar.

Não gosto de adiar, vivo me precipitando. Em alguns casos, chego bem antes dos convites.

Mal ponho os pés no hotel, limpo a mala e distribuo as roupas e os produtos como se fosse minha casa. Tenho que me sentir enraizado mesmo de passagem.

Gosto de dirigir falando no celular. As vozes dos amigos são minhas músicas.

Ao enxergar alguém irritado, irrito ainda mais. Minha ironia é sádica. Ao enxergar alguém triste, não paro de perguntar "o que aconteceu?" até que o triste vira irritado.

Sou o último a dormir para não colocar remédio de mosquito e trancar as janelas. Sou o primeiro a acordar, para não arrumar a cama.

No futebol, ponho a minha força e fôlego nos primeiros lances, para assistir o resto de dentro do campo.

Odeio abrir pacotes fechados de café e das caixas do leite. Finjo que não preciso deles.

Mato as baratas com medo que voem. E não com o meu chinelo.

2:27 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007



O Consultório Poético da Superinteressante completou um ano em outubro e nem fiz festa de aniversário. Foram mais de 40 colunas. Que sua vida seja longa no diálogo.

EU ME DECLAREI ANTES
Arte de Edward Hooper
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Caro Fabrício,

Nos conhecemos há dois meses. Trabalhamos juntos, almoçamos juntos, jantamos juntos. Nossa afinidade é absurda. Mil semelhanças nos unem. Mas ele tem 22 anos e muito medo. Eu tenho 31 e muita vontade de viver. Há poucas semanas terminei meu casamento de oito anos. E ele não me quer, diz que não está preparado. Noto que é torturado por uma namorada-vítima à distância. A moça o escraviza por causa de uma traição e ele sente culpa, tanta culpa... Em relação a mim, de antemão já sente culpa porque garante que um dia vai me magoar. Ah, não me encaixo no papel de vítima nem de culpada. Mas ele não me entende. Diz temer o dia em que virarmos inimigos. Já escancarei a minha paixão, já me expus sem máscaras, já assumi os riscos. Acho fui precipitada. Ele fugiu. Agora estou à deriva, apesar de manter nossa "amizade". É terrivelmente angustiante me controlar para não tocá-lo, beijá-lo e amá-lo.

Sou mulher que se atreve. Ele finge que não percebe ou recua e se controla. Já não sei o que fazer. Virei adolescente sem saber das novas regras.

Um beijo, Yara"



Yara, o amor tem a mania da sincronia. Pune quem se antecipa ou chega atrasado.

Logo o amor que não é para ter tempo sempre anda com um relógio cardíaco no pulso. Diz que o tempo não importa, mas é o primeiro a condenar a perda de tempo. Diz que o tempo não separa, mas não se mexe quando a distância toma conta.

Quando o homem declara antecipadamente seu amor a uma mulher, ela vai odiá-lo por isso. E até esnobá-lo. Se ela se declara antes, ele vai castigá-la com a indiferença. Não é curioso?

Ambos temem falar o "eu te amo" para não perder o próprio amor. É um jogo nervoso. Uma competição silenciosa e teatral. Nenhum dos dois pode se precipitar, é o mesmo que assegurar o poder ao outro de fazer o que quiser, inclusive de machucar.

Uma vez declarado, o amor torna-se tortura, encarcerando quem se expôs na espera e na promessa. Abre-se uma dívida, sacrifica-se o equilíbrio.

O amor somente valoriza a convergência. Os dois devem gostar ao mesmo tempo, na mesma hora, no mesmo desejo. O que exige uma dose generosa de telepatia. E ninguém é profeta.

Quantos casais demoram a dar notícias de sua união. É natural que namorem sem saber que estão namorando, que se casem sem saber que estão casados. Toda consciência do amor é julgamento. Estão juntos dia e noite, preferindo não nomear a irrestrita convivência. Ficam boiando, distantes da margem e das palavras. Não se mexem nos sons, repetem-se exaustivamente para fingir não apressar o corpo já afobado. Não assumem o risco de dizer o que sentem para não estragar o que podem sentir ainda.

O amor tem a mania da sincronia. Não precisava.

Yara, o fato de estar entregue fez com que ele não se esforçasse mais para se aproximar.

Você é adolescente e ele, o velho.

O que ele demonstra é medo de ser subjugado, pela tua experiência (nove anos a mais), pela tua audácia (vontade de viver), pela tua determinação (sacrifício, término de casamento de oito anos) em não deixar que nada possa separar as vogais das consoantes.

O rapaz tem dificuldades em não repetir o passado, de cumprir algo diferente do que já realizou. Por aquilo que me conta, não costuma contrariar seus hábitos e segurança. Namorá-la é entrar numa esfera sem domínio, com leis a serem criadas diferentes daquelas que conhece. Antecipa o fim porque não está disposto a recomeçar. Quando fala que teme o dia em que vão virar inimigos, já está se despedindo e testando se vai ficar braba ou não com a separação. Ou quando avisa que um dia vai magoá-la está querendo confessar que já está a magoando.

Se ele carrega a culpa do relacionamento diante da namorada, provavelmente não vai apostar na relação de vocês. Guarda o remorso, está preso à traição e não conseguiu transformá-la em amor.

Esconderá a culpa ou fugirá do que a causou.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:40 PM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 04, 2007

A MÚSICA REENCONTRADA DE ASSIS BRASIL
Na história de um desacordo entre ambição e vocação, escritor gaúcho realiza contenção máxima dos recursos do romance

Fabrício Carpinejar*



Procura-se a revolução do romance no fluxo de consciência, numa linguagem poética, na alternância frenética de espaço e tempo, nos diálogos epiléticos. Mas é possível que ela esteja acontecendo onde ninguém espera, dentro do próprio romance tradicional.

Luiz Antonio de Assis Brasil, 61 anos, admirador de Eça de Queirós, romancista premiado com o Jabuti e o Portugal Telecom (3º lugar) em 2004, tinha tudo para se acomodar: 17 livros publicados e mais de 250 mil exemplares vendidos, especialmente no Rio Grande do Sul. Mas o que fez foi justamente o inverso: procurou mudar seu texto para dentro, não mudar para fora.

Trocou o romanção de mais de 500 páginas, representado, por exemplo, em Videiras de Cristal (que ambienta o conflito dos Muckers), de 1990, pela singeleza de 220 páginas de Música Perdida (L&PM).

Não que tenha renunciado à sua obra pregressa. De modo nenhum, até acentuou o valor do que realizava desde sua estréia há três décadas, com Um Quarto de Légua em Quadro. Justificou e serenou suas decisões anteriores.

O escritor gaúcho empreende uma contenção budista em sua nova fase, um breviário epifânico. Aquilo que é feito no conto por Dalton Trevisan, de suscitar a narrativa do mínimo lírico com duas ou três frases, à semelhança dos haicais, Assis Brasil executa no romance. Retira toda a pompa, todo o fundo pantanoso e psicologizante dos pensamentos das personagens para deixar apenas a musculatura da história. É uma transgressão impensável a um gênero que pede cada vez mais palavras e explicações. Sua violência está no enxugamento da estrutura, ao invés do dilaceramento joyceano ou da desestabilização pós-moderna. Mostra que a novidade pode estar na coerência máxima, em apertar ainda mais o nó-cego de Flaubert.

Se Dalton Trevisan empregou o haicai para desidratar o conto, Assis Brasil recorreu à partitura para afunilar o romance. Porque a partitura é um ponto de partida para o músico, nunca a música.

Além do sentido individual de cada instrumento, há um sentido geral do maestro, que só ele sabe. E é justamente na capacidade de harmonizar sugestões e os dois caminhos (o músico-personagem e o maestro-enredo), que o autor vem essencializando seu estilo para consolidar a idéia do conjunto, prevenindo-se da adjetivação excessiva e da gordura ideológica. A descrição do mundo é o universo interior do personagem. Em sua escrita, os desejos estão nas ações.

Música Perdida completa a trilogia Os Visitantes do Sul, ao lado de O Pintor de Retratos (2001) e A Margem Imóvel do Rio (2003). São obras gêmeas, sempre curtas e contundentes, que retratam a passagem de um estrangeiro pelo Estado gaúcho.

O novo livro desfaz alguns equívocos. Claramente, Assis Brasil não é um romancista histórico, é um romancista da imaginação. Um fabulador moral. O enfoque a um período é um pretexto para evolar a trama. Não medita sobre vidas reais, mas vidas possíveis.

Música Perdida apresenta um personagem verídico, o maestro Joaquim José de Mendanha, que criou o hino rio-grandense. Mas o que ocorre são suposições ficcionais: a fidelidade de pupilo ao padre José Maurício Nunes Garcia; seu envolvimento filial com um mecenas mineiro, Bento Arruda Bulcão; a composição de uma cantata do maestro, Olhai os Cidadãos do Mundo, que teria sido enviado a Rossini; sua relação amorosa com Pilar, copista de seus trabalhos, e inclusive a criação fácil do hino, num punhado de horas, para não ser morto.

A partir de cinco capítulos e dois planos simultâneos da vida de Mendanha, a proximidade de sua morte em agosto de 1885, em Porto Alegre, e sua peregrinação cigana, de Itabira do Campo (MG) ao Rio de Janeiro, Assis Brasil aborda a busca pela composição perfeita. Mendanha, que tem o "ouvido absoluto", ou seja, o dom de ler musicalmente os sons do cotidiano, enfrenta uma série de resistências para se propor como artista. As limitações começam com sua família, onde o pai apenas quer que seu filho o substitua na banda da cidade, e prosseguem com a convivência com o padre-mestre José Maurício Nunes Garcia, que sempre alerta para a incompreensão do público brasileiro de criações mais sofisticadas.

Mendanha percebe seu sonho como um castigo, seu talento como um estorvo. É censurado quando deseja fazer uma música de tradição européia num contexto submisso (caracterizado por apadrinhamentos políticos), acuado pelas dificuldades materiais e remói a culpa de não atender às expectativas (sua e dos outros). Migra de cidade a cidade, até o ponto de se alistar numa banda militar e ser enviado às gélidas planícies sulinas. "Mendanha soube que os músicos são, ao mesmo tempo, os mais desprezíveis numa guerra, a ponto de serem indignos de fuzilamento, mas também os mais necessários."

Assis Brasil, que já foi integrante da Ospa (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), expressa nas desventuras de Mendanha uma parábola do - complexo de vira-lata -, expressão alcunhada por Nelson Rodrigues, de que o brasileiro se sente ameaçado pelo próprio talento, e não apaga a desvalia ancestral de colonizado. No fim de sua trajetória, o personagem sobrevive de fazer hinos sob encomendas e sufoca sua aspiração estética, encarnada na cantada inédita.

Um parâmetro ao enredo de Assis Brasil são dois contos de Machado de Assis: Cantiga de Esponsais, em que o mestre Romão tenta inutilmente fazer sua grande peça e acaba a descobrindo, após anos de infortúnio, na forma de assobio de uma moça, e O Homem Célebre, no qual o compositor Pestana submete-se a criar polcas para o sucesso de público e se afasta da arte erudita.

Mendanha seria como amálgama machadiano entre Romão e Pestana: a cisão entre ambição e vocação, o desacordo entre a solidão criadora e a aprovação social, além de questionar a identidade nacional, o que é nativo e o que é herdado e a refração histórica ao estranho e minoritário.

A principal qualidade da narrativa é a coesão do discurso, a redução da história a somente os episódios marcantes de Joaquim José de Mendanha, permitindo a compreensão panorâmica das escolhas e do limite de atitude do protagonista.

Entretanto, ao cuidar com precisão de cada período gramatical e da sonoridade exata, Assis Brasil corre o risco de dizer menos do que precisa, de interpor vazios narrativos e cair na arrogância da lacuna. Correr riscos não é os infligir.

O romancista modula uma vida rica de episódios em pouquíssimas páginas, não matando a fome e abrindo largamente o apetite. Tem sempre à sua disposição o fraseado legível, lapidar e conclusivo, que fermenta o subtexto, como no momento que Bento Arruda Bulcão se sente abandonado: "Aquela seria a voz de um morto, se os mortos falassem", ou no momento em que Mendanha reflete sobre o suicídio: "É a forma mais cruel de permanecer dentre os vivos".

São esses grandes momentos que fazem qualquer livro voar. Mesmo que as asas sejam as silenciosas da coruja.

* Fabrício Carpinejar é jornalista e escritor, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006), entre outros.

Música Perdida, Luiz Antonio de Assis Brasil, L&PM, 220 págs., R$ 28

(Publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, página D4, 04/02/2007)

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