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Consultório Poético

Blog

Sexta-feira, Março 30, 2007

AMOR DISCRETO
Arte de Leonardo da Vinci

Fabrício Carpinejar



Conheço bem o amor discreto entre pais e filhos adolescentes. O amor fica escandaloso só depois.

É um amor tênue, quase invisível. Um pouco complicado de se detectar em espaços públicos.

Descubro agora o que os pais enfrentaram comigo. O que sofreram. Como humilhava os dois sem perceber.

A mãe me levava de carro para festas e a obrigava a parar duas quadras antes, para que ninguém me visse com ela.

- Aqui tá bom!
- Não, eu levo até ali, onde é? Não custa nada.
- Mãe, me deixa aqui. Por favor...
- Não, levo no endereço certo. Qual é?
- Chega mãe, você não me entende.
- Não quer me dizer onde vai?
- Mãe, é que gosto de caminhar.

Batia a porta e não me despedia, levava qualquer discordância como ofensa pessoal. A mãe fazia um favor e ainda a xingava como um taxista que não me dava troco.

Não vendi minha mãe, mas a escondia no estoque. Temia ser vítima das piadas dos amigos, e virar o "filho queridinho". Isso poderia custar a reputação de malandro, a noite com uma menina e meses de gozação entre os colegas. Como explicar que tinha vergonha de me mostrar dependente? Os filhos adolescentes acreditam na telepatia. Nada precisa ser dito, tem que ser entendido.

Receber beijo e abraço dos pais na escola era uma agressão. No máximo, um cumprimento de mão e um sinal com o rosto.

Fui buscar minha filha de treze anos em seu colégio. Estou na entrada, eufórico, conversando com os seguranças do prédio e aguardando o sinal. Centenas de alunos correm, desesperados pela luz, e pulam a escada de dois em dois degraus. Eu me esforço em emoldurar seu jeito, sua mochila e seus cabelos diante do tumulto. Quero ser o primeiro a descobri-la. Vejo ela vindo, encabulada, com o uniforme branco e azul. Ponho os braços para cima, e passa pela lateral. Ela me dribla sem pudor. Finjo, mudo o destino do corpo, mexo na cabeça para justificar os braços erguidos.

Resmunga "vamos!", como se estivéssemos sendo seguidos. Caminho lado a lado com ela, um traficante buscando ser o mais natural possível. Tento repassar sigilosamente minha mão. Passar a cápsula de minha mão. A droga de minha mão. Ela espana os movimentos insistentes.

Andamos três quadras em silêncio fúnebre. As árvores cansavam suas sombras. Já havia perdido a esperança de aproximação. Nenhum assunto suspendia o mal-estar do encontro. Até que, ao virar a esquina, longe de todos, ela me abraça furiosamente:

- Paizinho, paizinho, que bom que você veio!

10:28 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 29, 2007

TODA VIDA DARIA UM LIVRO
Estamos cercados de narrativas e histórias inventadas por todos os lados. E isso é muito bom. Entenda por que uma dose diária de ficção é essencial em nossa vida

Fabrício Carpinejar



A história foi a seguinte: eu estava trocando dois dedos de prosa com a escritora Ana Miranda sobre a importância da ficção em nosso cotidiano, tema desta matéria. Ela então me olha muito estranha e diz: "Como assim?" Em seguida, parecendo imediatamente refeita do susto, faz uma declaração exultante, apaixonada: "O cotidiano não passa de uma ficção. Deus inventou o dia e nós, o dia-a-dia".

Não é preciso ser escritor para desconfiar que estamos cercados por ficção desde o raiar do dia até o pôr-do-sol - nas tiras de quadrinhos do jornal, nos games, na novela das 8, nas peças de teatro, nas histórias, causos e anedotas contados por todos em conversas corriqueiras e (evidentemente) nos livros. Essa dieta de ficção começa bem cedo em nossas vidas: ainda crianças pequenas, ouvimos as fábulas contadas pelos nossos pais, imaginamos histórias sobre cigarras e formigas, contos arrepiantes sobre monstros marinhos, somos platéia para alegres enredos sobre a turma de uma menina dentuça e muito brava, as aventuras de um certo camundongo...

E isso tem prosseguimento por toda a vida. Depois, aprendemos a ler e vamos procurar livros de aventuras, romances, vamos ao teatro e ao cinema, jogamos Mario Bros, participamos de RPGs - enfim, perpetuamos nossa busca por histórias inventadas. Por que acontece isso? Melhor dizendo: por que é universal e atemporal esse desejo por ficção? Por que é essencial essa dieta de sonhos? Quais são os ganhos para quem consegue ter uma vida equilibrada entre a realidade (às vezes, a dura realidade, aquela que só costumava aparecer em alguns livros lidos na adolescência) e a imaginação? Muitas perguntas, não resta dúvida. Mas segure-se na poltrona, vire a página, respire fundo e acompanhe os próximos capítulos dessa história. Porque você também é protagonista dela.

Era uma vez...

A magia da ficção está ligada aos contos de fadas. O famoso "Era uma vez" é a tecla play do imaginário das crianças, capaz de dar movimento, luz e som aos sonhos vida afora e expulsar o medo do escuro. A disponibilidade para a ficção nos anos de maturidade depende do que é capturado nessa primeira fase da vida. Assim como nosso equilíbrio entre real e irreal, entre o prosaico e o imaginado. "A infância é a época em que essas fantasias precisam ser nutridas", escreve o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990) em A Psicanálise dos Contos de Fadas. Isso porque, sendo um estágio que vai definir um bocado da nossa personalidade futura, a infância é o terreno mais fértil para plantar os sonhos e despertar os pequenos para a necessidade da invenção para enfrentar a realidade.

Os contos de fadas representam um corrimão para as crianças firmarem os próprios passos, brincarem com as idéias e tentarem entender seu universo. "Oferecer para a criança o pensamento racional como forma de organizar seus sentimentos e compreensão do mundo só servirá para confundi-la e limitá-la", afirma Bettelheim, que comprou a briga na defesa dos contos de fadas como o pontapé inicial de uma vida mental mais saudável. Contrariou os pais que identificavam nas histórias fantásticas uma fuga da realidade. "Não lhes ocorre que a verdade na vida de uma criança possa ser diferente dos adultos. Não percebem que os contos de fadas não tentam descrever o mundo externo e a realidade. Nem reconhecem que uma criança sadia nunca acredita que esses contos descrevam o mundo realisticamente", diz. "A verdade dos contos de fadas é a verdade de nossa imaginação."

Quando um pai ou uma mãe conta uma história ao filho, está se aproximando ainda mais da criança. "O potencial que teremos de abstrair vem dos encontros com nossos responsáveis. Da qualidade desse encontro. O conto de fadas é um pretexto para o diálogo", diz o psiquiatra e poeta gaúcho Celso Gutfreind, doutor em Psicologia Clínica pela Universidade Paris XIII, na França.

O pesquisador realizou terapia durante seis anos com crianças separadas de seus pais e com transtorno de conduta no grupo hospitalar Pitié-Salpetrière, na capital francesa. Seu método utilizava contos de fadas. A experiência está reproduzida no livro O Terapeuta e o Lobo. Entre muitas crianças, Gutfreind notou que elas não tinham capacidade de abstração. Confundiam os personagens com a realidade, não como mediadores dela. "Tive que recorrer às canções de ninar e às cantigas, como se fossem bebês, porque não se distanciavam de seus problemas", afirma.

Com as crianças, o psiquiatra aprendeu duas virtudes que são benéficas nos contos de fadas - e que, no limite, valem para todos nós, que adoramos ouvir (ou ler, ou assistir) uma história. Primeiro, a situação de plena troca. O menino ou a menina, durante meia hora, tem toda a atenção voltada para si. Alguém está olhando firmemente para seus olhos, dando seu tempo, importando-se com sua reação, alisando seus cabelos. "A criança é o ator e a mãe ou o pai é sua platéia", diz Gutfreind.

A segunda se refere à estrutura aberta e simbólica do conteúdo. "A criança se projeta na história, joga nela seus conflitos, seus desejos, suas brigas, sem que a história a ameace. É ela mas não é ela. As fadas, as bruxas e os ogros formam imagens indiretas do pai ou da mãe. São eles mas não são. O filtro simbólico sossega o coração da culpa pelos sentimentos adversos", completa. Para atiçar a alegria criativa e mantê-la acesa durante a vida inteira, o Gutfreind tem a receita na ponta da língua: "Conte para seu filho histórias que dão prazer a você. Só podemos nos encantar quando estamos encantados".

Reeducação

Estamos cercados de linguagem e narrativas por todos os lados, da manhã à noite. Na TV, nos papos de bar, na crônica lida entre um compromisso e outro. Ao descansar, ainda estamos operando fantasias e sob o encanto da ficção. Tanto que a escritora Ana Miranda não desperdiça o mistério de nenhum dos seus sonhos. A autora de Boca do Inferno, romance sobre o poeta Gregório de Matos, anota seus devaneios em uma série de caderninhos, hábito preservado de menina. "Tudo o que faço em minha vida tem conexão com o mundo onírico", diz. Ainda hoje se vendo como uma criança, de olhos graúdos e penteados pela luz, o excesso de infância está guardado dentro dela como um alçapão de histórias fantásticas. "O silêncio formou-se em mim como um mundo ficcional. Eu não dizia nada, não respondia a perguntas, depois abria o caderno e escrevia o que eu não havia dito. E escrevia corrigindo o mundo, adequando-o a minhas necessidades internas", afirma.

As dores e as alegrias de nosso cotidiano e dos nossos sonhos não sobreviveriam sem uma narrativa, que une todas as manifestações culturais num único DNA. Como escreveu o filósofo alemão Walter Benjamin: "A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorrem os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos".

A arte é a vida organizada, distribuída em capítulos e episódios. Dependemos de uma síntese, para que os milhões de gestos, vozes, palavras, sons, tiques, hábitos e cheiros não caiam no vazio. Onde estariam os milhões de frases ditas nas manhãs, nas tardes e noites, se não houvesse uma coerência invisível interligando-as, cruzando os fios em longa tapeçaria e formando um sentido para a memória?

Por isso, deixar-se encantar por histórias é essencial. E não só as fábulas, cuja origem é mesmo fornecer uma explicação fantasiosa da realidade. Parece até um paradoxo digno de um conto, mas não é: a ficção, por nos permitir sair um pouco da realidade, é como aqueles períodos de férias em que várias idéias e resoluções para nossa vida aparecem com clareza. Distantes das preocupações do cotidiano, mais leves para encarar a vida e com a cabeça mais descansada, as férias nos permitem esses vôos mais distantes. Assim pode ser entendida a ficção. Ela é como esse período longe de tudo, férias da mente e do espírito, em que afastados das durezas diárias e encantados com enredos que muitas vezes (ainda bem!) em nada se parecem com a vida real, somos obrigados a rever nossos valores, nos defrontamos com outras alternativas para a vida. A ficção - as histórias, a imaginação - nos reeduca para a vida.

Por isso é que alguns personagens da literatura (e, mais tarde, aqueles surgidos do cinema, das histórias em quadrinhos, das séries de TV) ajudaram a moldar a visão de mundo de gerações inteiras de leitores em todo o mundo. O cavaleiro delirante de Dom Quixote, de Cervantes: o sonho e aventura. O Hamlet da peça homônima de Shakespeare: a dúvida. A provinciana dona-de-casa adúltera de Madame Bovary, de Flaubert: a insatisfação. Sentimentos e modos de encarar a realidade que, em larga medida, serviram de - modelos - para que milhões de apreciadores desse livros pudessem interpretar a realidade e preecher seus dias com outras maneiras de tocar a vida.

Observação

A jornalista Eliane Brum, autora de A Vida que Ninguém Vê, uma coletânea de reportagens em que recupera a história de anônimos, encarna no jornalismo o espírito de Sherazade, a contadora de histórias das Mil e Uma Noites. "Contamos sempre a mesma história. A nossa. E quem lê também lê sua própria história, mesmo que esteja lendo a do outro. Contamos e lemos histórias para ter certeza de que existimos. E de que não estamos sós na nossa dúvida sobre ser", afirma. "Acho que contamos histórias na tentativa de preencher nosso horror. Nosso horror de vazio."

A repórter descortinou - numa série de reportagens escritas como se fossem contos literários, repletas de recursos que estamos mais habituados a encontrar nos livros de ficção - personagens invisíveis da rua, acostumados a ser olhados com esquisitice, como produtos da loucura urbana, ou com indiferença, apagados como estátuas que perderam a novidade e fazem parte da paisagem. Para ela, olhar o cotidiano sem preconceito, buscando enxergar as muitas histórias de cada um, é um dos elementos que a empurraram para a profissão de repórter.

"É o que me fascina nas pessoas. O quanto elas são capazes de reinventar sua história apesar da brutalidade da vida. Em meus momentos de crise, declives de auto-estima nos muitos serpentários humanos desse mundo, eu costumo dizer a mim mesma: ninguém vai me dizer quem eu sou, não dou a ninguém o poder de dizer quem eu sou, eu escrevo minha história", diz Eliane.

Reinvenção

A ficção não é exclusividade dos artistas, e sim uma reserva de sanidade acessível democraticamente. Converse com o encanador, com o eletricista, com o carteiro, com o cobrador de ônibus, e eles contarão sua vida como se fosse um livro. Qualquer um acredita que sua vida rende uma obra. A ânsia pela história sinaliza o desejo diário de ser importante, de ser útil, de ter feito o certo.

A invenção representa uma catarse, desplugar-se por alguns instantes de um mundo repleto de exigências, cobranças e demandas profissionais e migrar para um faz-de-conta, feito de formas, sinais, tramas atemporais. Algo como uma dimensão paralela, em que o prazer grita mais alto. Uma saída para juntar os cacos, preservar a solidão e a unidade. O que explica o corretor de ações fazendo trabalhos de marcenaria nas horas vagas, a psicóloga pintando quadros em seu lazer, a professora costurando bonecas no intervalo das aulas, o engenheiro compondo versos durante as noites. A gula pelo conhecimento e sensibilidade não tem limites.

Um exemplo é o taxista de Porto Alegre Mauro Castro, 43 anos, casado e pai de uma filha adolescente. Um passageiro mudou sua trajetória. Ao conduzir com freqüência o diretor de um jornal popular da capital gaúcha, foi convidado a escrever crônicas sobre o que acontecia em seu veículo de prefixo 1296. Já são mais de 200 textos em quatro anos, que resultaram no livro Diário de um Taxista. "Escrever é exercitar. A ficção me salvou de ser mais um entre 4 mil taxistas da cidade. Eu seria mais um, sou menos um", afirma Castro.

A ficção foi quase como um programa de reabilitação. Na época anterior às crônicas, Mauro se impacientava com o trânsito, com os sucessivos engarrafamentos e com o relógio apertado. Cumprindo o turno das 7h às 17h, enfrentava a sina de morar no carro praticamente o dia inteiro numa capital movimentada. Saía engavetado do assento do carro. "Aprendi a deixar um pouco a direção e a entender a posição dos pedestres e dos demais motoristas. Não sofro mais de ansiedade. O engarrafamento pode ser lúdico. É um tempo maravilhoso para bolar enredos", diz.

Imaginação

Toda família forma uma biblioteca. Cada elemento dela é como se fosse um livro único. Tente conversar com os irmãos, com a mãe, com o pai, consigo mesmo, e verá versões de uma mesma cena - mais do que verdades. O pai descreverá igual lembrança de um modo bem distinto do seu. Quem tem razão? Por mais que se discorde: ambos. Contar é alterar. Inviável a tarefa de repetir perpetuamente, tintim por tintim, uma fábula aos filhos antes de dormir. Haverá alguma mudança de plano, um detalhe adicional, uma adaptação que fará a maior diferença. E a criança espera justamente a variação, não o que já ouviu e sabe de cor.

A incompetência de ser igual e a tentativa de pessoalizar a existência é que enche as estantes de livros, filmes e CDs. "Somos todos ficcionistas... Alguns, profissionais", afirma Luiz Alfredo Garcia-Roza, escritor, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de Freud e o Inconsciente.

De acordo com ele, que se consagrou também ao gerar o detetive Espinosa em uma série de romances policiais, a curiosidade é a principal característica da ficção, que leva à suspeita e desemboca na descoberta. Entre as três atividades que realiza - filosofia, psicanálise e literatura -, todas têm em comum a prática da desconfiança em nome de um entendimento maior da realidade.

O detetive Espinosa (dos romances O Silêncio da Chuva e Uma Janela em Copacabana) não o tornou melhor. "Eu diria que me deixou satisfeito", diz, brincando. As vantagens com a elaboração de histórias de investigação no Rio de Janeiro foram subjetivas. "O grande ganho pessoal resultante da ficção literária decorre da potência que ela tem de aumentar indefinidamente os limites do universo de cada um de nós, autores e leitores. É um ganho semelhante ao da criança que fantasia. Ela está 'em obras', construindo seu mundo."

Era uma vez...

Para saber mais
Livros:
* A Psicanálise dos Contos de Fada, Bruno Bettelheim, Paz e Terra
* Fadas no Divã, Diana e Mario Corso, Artmed
* O Terapeuta e o Lobo, Celso Gutfreind, Casa do Psicólogo


Matéria de Capa da revista Vida Simples, edição de abril. Confira.

10:15 AM :: Comentários:

TROCANDO EM MIÚDOS A FICÇÃO
Família capixaba cria todo um repertório vocabular para chamar amigos e nomear atitudes e sentimentos

Fabrício Carpinejar
Texto e fotografia


Na varanda: Cesarina e Laurita reinventam o idioma

"O marido da vizinha recém virou gambá, ela puxou melão e caiu na cacimba". Alguém compreendeu? Não é gíria de uso comum de um Estado, nem em qualquer lugar. Ou "o rei dos carrapatos, titica de lobisomem, está soltando tapioca". Piorou?

Não é fácil escutar uma conversa entre as irmãs Laurita Grifo Almeida, 85 anos, e Cesarina Grifo Rohr, 87, naturais de Rio Novo e radicadas em Vitória (ES). Não enlouqueceram, estão muito bem de saúde. A ficção as encoraja para a longevidade.

O primeiro impulso é chamar um tradutor. Mas que tradutor? Só elas, os onze filhos e 14 netos conhecem o que significa entre os mais de 300 mil habitantes capixabas.

Na primeira frase, querem dizer que o marido da vizinha morreu (virou gambá), ela mal ficou viúva, assanhou-se para outro homem (puxar melão) e ficou feliz (caiu na cacimba).

Na segunda, uma criatura muito feia (rei dos carrapatos) e branca (titica de lobisomem) confidenciou intimidade alheia e coisas que não devia (soltar tapioca).

As duas já criaram mais de duzentas expressões dessa linha imaginária. Praticamente conversam o dia inteiro com rompantes e neologismos. E se entendem perfeitamente. Júlia Rohr, 62, filha de Cesarina e também praticante da magia vocabular, comenta: "Para que escrever? Falar é mais rápido".

Nas casas da família Grifo Almeida, a língua portuguesa ganhou uma nova ramificação. Parece Guimarães Rosa em estado puro. "É uma farra", suspira Cesarina. "Damos apelido para tudo e sempre educadas: só falamos mal pelas costas".

O glossário não tem ordem. Para permanecer, as expressões dependem do uso rotineiro, senão se transformam em "mororó" (sabão vagabundo, esquecimento). "Ninguém é poupado, nem a gente", ensina Laurita.

O estranho e encantador dialeto familiar surgiu na infância, fundado pelas duas e a mana Aurora, já falecida. "Foi bobice feminina, de comentar e fofocar sobre a cidade, sem que a mãe entendesse. A língua evitava castigos", entrega Laurita.

O dicionário mágico das irmãs origina-se da ingenuidade infantil e reúne impressões dos costumes. Eternizam o corriqueiro. O marido de Cesarina saía esbaforido de madrugada para levar doentes ao hospital. Invariavelmente esquecia o fecho da calça aberto. Daí surgiu a expressão "socorrendo enfermos" para significar "braguilha aberta". É constrangedor advertir do lapso a um parente em público. "Socorrendo enfermos" torna-se um aviso polido que não provoca vexame, pois ninguém - além dos envolvidos - irá entender.

O que parece não é. Os códigos enganam sua aparência e dificultam a dedução. "O tupi vai tomar café na casa do brilhante". A reação inicial é concluir que o pobre irá visitar o rico. É o contrário. Quando pequenas, as irmãs tinham dois cachorros no pátio: Tupi era o bonito e Brilhante, o estuporado.

As relações não são gratuitas apenas para o grupo. Nascem por simpatia particular. A interação literária assume sua condição agregadora, em criar vínculos rápidos e permanentes.

A diversão consolida a amizade e a união da família. Há ainda um fundo terapêutico, porque cada história é um modo de conservar a infância intacta e as principais e mais engraçadas passagens de suas vidas. São como fotografias verbais. Um ininterrupto domingo de recordações.

Laurita e Cesarina são ficcionistas a passeio. Não procuram remédios, procuram aumentar o repertório. Não colocaram nenhuma de suas história no papel, nem querem, deslumbram-se imaginando o vocabulário. O riso franco não as deixa envelhecer. O riso cheio de botões é o mesmo da primeira vez que encontraram cumplicidade para compor um livro de várias bocas.

Confira outras expressões criadas pelas irmãs Laurita e Cesarina:

Bolo tem ovo: pessoa cafona. Um amigo da família perguntou - para a perplexidade dos presentes - se havia ovo no bolo.

Babeca: recordar o passado.

Bicota: professora que não é formada. Apelido de uma das professoras da infância, voluntária na escola.

Buzina: perdulário

Cadáver do Zezinho: qualquer coisa escondida. Zezinho foi um famoso caso de polícia na infância de Cesarina e Laurita: um jovem que desapareceu e nunca foi encontrado.

Carneiro preto: não gosta de criança.

Catarata: namorado(a) cego(a)

Catinga de vaca: mulher que casa com homem mais novo.

Coruja: grávida. Quando Laurita engravidou, ganhou de presente um vestido com bordados de coruja.

Dona Zezé: banho rápido. A vizinha Zezé, na falta de água em sua casa, pedia banho emprestado. Era uma lavagem expressa.

Epitama de Pamplona: gente importante, graúda. Origem desconhecida.

Ficar romântica: receber salário no fim do mês.

Galinha gorda: casal separado que não deixa de freqüentar a casa do outro.

Gato: bobo, esquecido

Lilica: ovo. Em homenagem a uma moça que entregava ovos na residência dos pais.

Limpar cana: coisa difícil, sofrida.

Jorgelina: desafinado. Que a homenageada não saiba, mas é uma prima que cantava muito mal.

Macaca Catarina: homem assanhado. Partiu de uma macaca famosa no zoológico do Rio de Janeiro, Catarina, que fazia strip-tease aos visitantes.

Polenta: lindinha

Petit: fazer rápido. Um pouco de francês adaptado.

Pó-credo: menstruação. É educado não explicar sua origem.

Orelha inchada: doente. Vem do leproso, que ficava com a orelha bojuda.

Rádio-ouvinte: pessoa sem cultura, escuta tudo de ouvido, pela metade. Faz referência a um pastor, que chegou na praça para discursar com a seguinte saudação: "Meus rádio-ouvintes..."

Terezinha: café

Tia Chica: inconveniente. Na igreja, havia assentos reservados para moças (solteiras) e senhoras (casadas). Tia Chica olhava para a moça, sabendo que era moça e perguntava se ela era moça. Loucura, né?

Tia Tereza: que não suporta visitas e vive encontrando um modo de se despedir. A tia realmente existiu e sempre falava preocupada para os familiares que a visitavam: "Já é noite, já é noite, é perigoso demorar".

Volta do sapo: gente maluca, avoada.

Matéria de Capa da revista Vida Simples, edição de abril. Confira.

10:12 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 27, 2007



FUGI DELE, PORQUE É SOROPOSITIVO
Arte de Paul Delvaux
Do Consultório Poético
Confira outras consultas no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Fabrício,

Preciso muito de um conselho teu, pois a questão é delicada e não sei o que fazer...

Descobri (por acaso) que o cara com quem namorava há 6 meses é soropositivo e, por total incapacidade de falar sobre o assunto com ele e/ou por pura falta de coragem de enfrentar uma relação tão delicada, optei por terminar o relacionamento, sem explicar o porquê, mesmo amando-o pra caramba. Passados 6 meses do término da relação, não consigo superar tudo isso, esquecê-lo e ainda o amo.

Além disso, sofro por saber que meu ex está ficando com outra garota. Já fiquei com outros caras, mas não consigo esquecê-lo! Estou tentando tocar a vida adiante depois de perder meu amor por medo, por covardia, mas tá muito difícil, me sinto mal com esta situação e queria que tu me dissesse algo... Por favor, me dá uma força!!!

Obrigada,
Um beijão,
Elizabeth"


Oi Elizabeth.

Sempre que fico arrependido de alguma coisa, esqueço táticas e estratégias, modos e timidez e me abro, mesmo que eu perca qualquer possibilidade de relacionamento depois. Posso parecer um tolo, um frágil, um desajuizado. Não me importo, o tempo é linguagem e nunca estamos atrasados para recuperá-lo.

Se você foi covarde antes, não será covarde sempre. Essa é a diferença!

A franqueza vai ajudá-la para ajudá-lo. O que está em jogo é sua consciência, a certeza de não ter sido madura para enfrentar a realidade. Uma realidade que não é a idealizada, mas que - ainda assim - é necessária e a deixa feliz. A vergonha não existe mais. Hoje está madura, entendeu o que ele significa, tentou esquecê-lo e não conseguiu, pode demonstrar com discernimento e exemplos a paixão que guarda e pretende cultivar.

O seu ex não deve ter entendido nada. Ou, o mais grave, entendeu e se calou de remorso com o preconceito. É o preconceito impregnado de medo e desconfiança, de supor que o soropositivo não tem mais vida, não tem mais escolhas, que está a um passo da morte e que pode contagiar o parceiro.

O primeiro passo é esquecer que ele é soropositivo, para não sobrepor a doença à espontaneidade do cotidiano. O segundo passo é fazê-lo esquecer que é soropositivo, fazendo com que a prevenção e os cuidados médicos sejam mais naturais possíveis.

Tenho convicção que ele a compreenderá.

O amor se perdoa sozinho.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:32 PM :: Comentários:

EU NÃO TE AMO MAIS
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar



Já me observei pecando. Eu digo "Eu te amo" para me despedir. Bem rápido. Como um tchau. Teamo!
O beijo não adiantou, e o teamo funciona para encerrar educadamente a conversa. Convenção de troca de parágrafo e de atividade. Vê se você não faz o mesmo?

Afora a declaração apressada, há aquela que expressa arrogância: "apesar de tudo, eu te amo". Quem afirma se mostra compreensivo e põe o outro numa situação inferior. "Apesar de tudo" é desculpar, sem esquecer o que aconteceu.

"Te amo demais" tenho até medo. Parece que não é com a gente.

O que lamento e poderia mandar para o sacrifício é o "Eu não te amo mais". Incorrigível. É o avesso do amor. Agride mais do que "Não te amo".

Não te amo é uma passagem de volta. Viramos as costas e seguimos em frente. Dói, mas não sangra.

"Eu não te amo mais" é uma passagem de ida e volta. Sinaliza que um dia você foi amado. Traz a história da relação para o centro da conversa. Esfrega a memória em tua boca. Sinaliza que o teu amor não foi suficiente. É um aviso de que está sendo rebaixado, não demitido.

Não é um furto, que ninguém sabe como aconteceu, é um assalto, que todos viram, menos você.

"Eu não te amo mais" é descobrir o câncer tarde demais. É receber uma faca no peito e girar o cabo para melhor acomodar a lâmina entre os ossos. Aquela mesma mulher que amou não é mais capaz de amá-lo. Você chegou ao ponto máximo sem ter percebido. Você chegou a sua decadência. É conhecer o fracasso sem nenhuma preparação para reagir. Deveria aparecer um comercial nos momentos decisivos em nossa vida.

Você não tem como recuperar partes que deixou com ela. Você não tem como se arrepender - ela refletiu antes de dizer, ela ensaiou antes de falar contigo, você não, você está pasmo com a notícia de que sua relação já não existe quando programava o final de semana. Resmunga tudo bem. Qualquer reação será de conformação, como se não fosse importante. O desespero virá depois. Não se é inteligente diante da dor.

Você desiste de comentar que comprou dois ingressos para o show do Chico Buarque. Os bilhetes se tornam cheques sem fundo. Você não acompanhará o resto da história dela.

Você se vê duplamente traído: por ser o último a ser informado e porque viver junto não a convenceu do contrário. Se você tivesse sido omisso, indiferente, desatento nas últimas semanas, estaria explicado o motivo do término. Teria alguma culpa para expiar. Mas você se mostrou amoroso e pontual, dedicado e atento. Explica, vai, explica?

Terminou apenas. Ela cansou de você, como se cansa de um doce, de uma roupa, de uma música, de um livro. O amor dela fez as malas e o seu estava arrumando o armário. O amor dela botou roupa de festa e o seu suspirava com bermudas e chinelos.

Possível voltar atrás com "Não te amo". Não há como desmentir "Eu não te amo mais". Dissuadir, reverter o quadro.

"Eu não te amo mais" é uma forma ainda de dizer "eu te amo". Mas no passado. O problema não é o futuro dos dois que terminou por decisão de um, é que o passado também foi embora.

"Eu não te amo mais" é "tentei, não consegui". Ainda houve um esforço da parte dela para amar.

4:06 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 23, 2007

MEU VIZINHO SADY

Fabrício Carpinejar



Cinco sapos, nove patos, três cogumelos, um galo, uma tartaruga, uma Branca de Neve, um Pato Donald, cinco anões de jardim.

Não havia criança que não parasse um pouco mais para observar o pátio de Sady na rua José Bonifácio.

Crianças se atrasavam na escola. Crianças se atrasavam para o almoço. Crianças se atrasavam para o ônibus. Se um dia ocorreu um atraso dos meninos e das meninas de São Leopoldo, culpem a bondade de Sady. Um peixe que voava. Um homem que nadava em sua voz.

Crianças estacionaram suas idades de propósito. Algumas devem ter ficado três anos nos sete anos; outras, quatro anos nos oito anos.

Cinco sapos, nove patos, três cogumelos, um galo, uma tartaruga, uma Branca de Neve, um Pato Donald, cinco anões de jardim.

Crianças mudavam seus trajetos para espiar, entre as grades, as estátuas na grama conversando e trocando confidências num churrasco familiar. Suas flores, seus cactos, suas folhagens não cansavam de repetir piqueniques.

Sady arrumou aquela roda de miniaturas para os netos. Mas todos os pequenos que se aproximavam de sua residência se sentiam seus netos. Meus filhos, inclusive.

A casa verde centenária, com janelas altas e estantes de compotas, bocejava logo cedo e soprava o velhinho bem-humorado para o mundo. Ele apanhava o jornal VS, preparava café para sua esposa e saía para trabalhar a alegria em cada um que encontrava. Sempre catava alguma lembrança no bairro para contar de noite.

Girava entre as quadras, preocupado em aumentar o intervalo das sinaleiras e das conversas.

Do alto do meu terraço, assistia o cortejo de seu chapéu. Ele estava mais perto do céu do que eu no quarto andar. Quando o localizava, a manhã prometia sol. Nunca aposentou a gargalhada (e que gargalhada! De ir três passos para trás, de ir três dentes para trás).

Só não falava nada, só caminhava rápido, quando partia em segredo com um buquê enorme nas costas. Entrava apressado no silêncio quando era amor. Amor de cinco décadas por uma mesma mulher.

Cinco sapos, nove patos, três cogumelos, um galo, uma tartaruga, uma Branca de Neve, um Pato Donald, cinco anões de jardim.

Sady não ostentava dinheiro nos seus bolsos, não guardava documentos, não escondia cheque, não conservava santinhos. Deixava os bolsos livres para as balas. Acredito que gastou suas economias comprando balas. Acredito que usava cinto somente para segurar as balas. Um carteiro de balas. Agachava-se para entregar as guloseimas na altura da criança, não subestimava a infância com sua altura.

Cinco sapos, nove patos, três cogumelos, um galo, uma tartaruga, uma Branca de Neve, um Pato Donald, cinco anões de jardim.

Ele puxava assunto com as caixas do mercado, troçava de si, perguntava sobre namorados. Elas se encabulavam até entregar o nome de suas paixões. Nervosas e eufóricas com a delicadeza, passavam mais as mãos do que os produtos na esteira.

Cinco sapos, nove patos, três cogumelos, um galo, uma tartaruga, uma Branca de neve, um Pato Donald, cinco anões de jardim.

Numa rua de cinco igrejas exigindo Deus aos domingos, Sady permitia Deus descansar durante a semana. Era como se cada abraço dele fosse uma faixa de segurança na própria calçada. Eu reencontrei o cheiro de minha família em suas golas.

Evito agora olhar para o lado esquerdo da minha janela, para o lado esquerdo do meu corpo. Seu portão fechado com cadeado.

Infelizmente, as crianças vão crescer mais rápido na cidade.

Cinco sapos, nove patos, três cogumelos, um galo, uma tartaruga, uma Branca de Neve, um Pato Donald, cinco anões de jardim. E um cata-vento parado.



12:12 PM :: Comentários:

OFICINA EM POA

Vou começar Oficina de Criação Poética no Studio Clio (José do Patrocínio , 698 Cidade Baixa), em Porto Alegre (RS). As aulas serão aos sábados, das 9h30 às 11h30, a partir da segunda metade de abril. Há vinte e cinco vagas. Quem deseja participar, pode contatar (51) 3254.7200 ou mandar e-mail para clio@studioclio.com.br

12:11 PM :: Comentários:

SESC

'Casa entre vértebras', do inventivo amigo goiano Wesley Peres, e 'Correio litorâneo', de Nereu Afonso da Silva, de São Paulo, são os vencedores do Prêmio Nacional Sesc de Literatura 2006, com direito a publicação pela Editora Record e lançamento na Academia Brasileira de Letras. Confira.

11:18 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 21, 2007

MINHA PRIMEIRA NAMORADA

Fabrício Carpinejar



Ela não me abraça, está com a ternura tão à vontade que não depende de um gesto de aproximação.

Não a beijo, mas não poderia existir maior intimidade do que segurar sua mão.

O pão só miolo de sua mão. Sua mão: pálpebra de minha mão. Lembro que suas saias eram lençóis que acordaram. O conjunto retirado do enxoval pela sua mãe. Recortado como se não tivesse sido outra coisa.

Ela é a porta daquela casa, daquela tardezinha, daquela Guaporé preto-e-branco. Tenho cinco anos, ainda não entrei na escola, ainda não sofria a obrigação de me traduzir. Faço um sinal com a boca. Meu pai pede para sorrir, minha boca miúda escapa do controle do rosto e olha para a menina.

Sou seu guardião, apesar dela ser mais alta. Mesmo de pé, minhas pernas estão sentadas. A bota ortopédica me levanta alguns centímetros. Exibo uma espada de madeira, que servia para protegê-la dos bichos do quintal (galos, cachorros e animais invisíveis).

O amor não significava uma ameaça. Não tinha que acontecer, acontecia. Era amizade, a vontade de estar junto, a confidência de crescer e não se mostrar crescido. Não nos cumprimentávamos, chegávamos.

Não havia necessidade de esconder nada, havia pouco espaço em mim; deveria sonhar mais do que vivia e me lembrar dos sonhos logo que despertava.

Veja o vão direito da entrada. Um braço está pendurado, o corpo todo escondido. Um braço de folhagem guardando-se do humano. Não sei quem é. Talvez seja um irmão ou irmã dela. Talvez seja ela adulta espiando o que já foi. Ou querendo me avisar que nunca estaremos completos na fotografia.

3:54 PM :: Comentários:


Terça-feira, Março 20, 2007

A EXECUÇÃO SUMÁRIA DO AMOR
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar



Você não a ama. Mas ela o ama.

Ela vai acusá-lo com ou sem motivo, você passará os restos dos dias se defendendo.

Amar é um indiciamento. Você se torna suspeito por toda a vida. Suspeito por não ter dado amor quando estava recebendo. Suspeito por negar sua aproximação. Suspeito por assassinar um amor quando ele estava se formando. Suspeito por não ter sequer tentado.

Você pode humilhar a mulher que o ama. Pode desaforá-la publicamente, encontrar as coisas mais indelicadas para dizer aos seus ouvidos, pode inventar desculpas que não coincidem os dados. Ela confundirá sua resistência com medo. Ela não compreenderá que você não o quer, nenhuma mulher compreende, nem no inferno, nem no apocalipse.

Ela dobrará seus esforços para convencê-lo. Ficará ainda mais encantada com a dificuldade.

Deseja seduzir uma mulher? Negue-a. Constranja-a.

Você pode zombar dela, rir dela, utilizar o escárnio. Ela ainda se manterá inabalável pelo amor. Mandará recados, ligará ao celular, enviará flores, como se nada de ruim tivesse acontecido. Você odeia submissão, mas ela não está mais pensando se está certo ou errado, está o processando de amor.

Quem ama não repara o jeito que ama. Não se conscientizará que é uma chata, uma filhodaputa, uma suicida, uma inconveniente. O amor a torna nobre. Ela se vê uma aristocrata do amor, porque acredita que o amor redime os erros e os exageros, que o amor justifica o ímpeto e a indignação, que o amor lava as escadarias do passado.

Você poderá avisá-la que não terá chances, que não adianta insistir, que não suporta imaginá-la junto de seu corpo. Ela fechará os ouvidos. Em todos os porres, lembrará de seu nome, irá até sua casa silenciosamente fazer sentinela. Com uma mulher apaixonada perto de você, não precisa de zelador, de guarda de rua, de guarda-chuva. Ela estará contando seus passos. É seu leão-de-chácara de graça.

Você poderá mudar de estratégia, não revidar com violência suas investidas. Com calma e senso, mostrará uma série de razões para se afastar. Ela entenderá de modo distorcido, que está aceitando finalmente o amor. Colocará palavras em sua boca já que não consegue sua boca. Você declara que deseja a amizade. Ela responde que já é um começo. Armado ou indefeso, qualquer atitude não surtirá efeito, ela não aceita ser recusada.

O amor condena.

A EXECUÇÃO SUMÁRIA DO AMOR
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar



Você não o ama. Mas ele a ama.

Ele vai acusá-lo com ou sem motivo, você passará os restos dos dias se defendendo.

Amar é um indiciamento. Você se torna suspeita por toda a vida. Suspeita por não ter dado amor quando estava recebendo. Suspeita por negar sua aproximação. Suspeita por assassinar um amor quando ele estava se formando. Suspeita por não ter sequer tentado.

Você pode humilhar o homem que o ama. Pode desaforá-lo publicamente, encontrar as coisas mais indelicadas para dizer aos seus ouvidos, pode inventar desculpas que não coincidem os dados. Ele confundirá sua resistência com medo. Ele não compreenderá que você não o quer, nenhum homem compreende, nem no inferno, nem no apocalipse.

Ele dobrará seus esforços para convencê-la. Ficará ainda mais encantado com a dificuldade.

Deseja seduzir um homem? Negue-o. Constranja-o.

Você pode zombar dele, rir dele, utilizar o escárnio. Ele ainda se manterá inabalável pelo amor. Mandará recados, ligará ao celular, enviará flores, como se nada de ruim tivesse acontecido. Você odeia submissão, mas ele não está mais pensando se está certo ou errado, está a processando de amor.

Quem ama não repara o jeito que ama. Não se conscientizará que é um chato, um filhodaputa, um suicida, um inconveniente. O amor o torna nobre. Ele se vê uma aristocrata do amor, porque acredita que o amor redime os erros e os exageros, que o amor justifica o ímpeto e a indignação, que o amor lava as escadarias do passado.

Você poderá avisá-lo que não terá chances, que não adianta insistir, que não suporta imaginá-lo junto de seu corpo. Ele fechará os ouvidos. Em todos os porres, lembrará de seu nome, irá até sua casa silenciosamente fazer sentinela. Com um homem apaixonado perto de você, não precisa de zelador, de guarda de rua, de guarda-chuva. Ele estará contando seus passos. É seu leão-de-chácara de graça.

Você poderá mudar de estratégia, não revidar com violência suas investidas. Com calma e senso, mostrará uma série de razões para se afastar. Ele entenderá de modo distorcido, que está aceitando finalmente o amor. Colocará palavras em sua boca já que não consegue sua boca. Você declara que deseja a amizade. Ele responde que já é um começo. Armada ou indefesa, qualquer atitude não surtirá efeito, ele não aceita ser recusado.

O amor condena.

4:29 PM :: Comentários:

MISS CULTURA PREPARA SUA ARCA DE NOÉ
Arte de Bosch



Miss Cultura volta com pose de National Geographic. O mais animado concurso de leitura de Porto Alegre, com dois anos de atividade, inicia a temporada de 2007 soltando os animais da literatura. Quem fez o maior bestiário? Qual o animal mais enfático da poesia? O tigre de William Blake ou de Borges? Ou a pantera de Rilke? Ou o zoológico de Lautréamont, que somente em Cantos de Maldoror apresenta 185 bichos diferentes?

Os enjaulados escritores e missólogos Fabrício Carpinejar e Marcelo Carneiro da Cunha decidem fazer uma Arca de Noé literária. O encontro acontece nesta quarta (21/3), às 19h30, na Palavraria - Livraria-Café (Rua Vasco da Gama, 165 - Bom Fim 51 32684260), em Porto Alegre (RS). A entrada é franca.

O convidado dessa edição é o narrador, tradutor e editor Daniel Pellizzari, que participou de diversas antologias desde o início dos anos 90. Com Daniel Galera, fundou a editora Livros do Mal (Prêmio Açorianos de Literatura 2003), por onde publicou "Ovelhas que voam se perdem no céu" (2001) e "O livro das cousas que acontecem" (2002). Em 2005 lançou o romance "Dedo Negro com Unha" pela editora DBA. Traduziu diversos autores, como William S. Burroughs, Lawrence Durrell, Hunter S. Thompson, Irvine Welsh e Neil Gaiman.

O programa funciona como um "karaokê recital". A cada encontro, é possível assistir à interpretação dos enredos e fragmentos preferidos dos apresentadores sobre um tema específico. O público vota na peça mais bela da noite, que será consagrada Miss Cultura durante o mês, com direito a exposição na livraria. O terceiro colocado ganhará o título consolação de Miss Simpatia. Os votantes poderão desbancar os concorrentes com outras opções - basta levar uma obra pertinente sobre o assunto.

A competição não esquece dos detalhes. Tanto que o artista gaúcho Leopoldo Ernesto Schneider, figurinista de espetáculos teatrais e de dança, confeccionou as faixas para os livros premiados. É o mesmo estilista que já fez as faixas de Miss Rio Grande do Sul e desenhou as coroas de Miss Santa Catarina e Miss Rio Grande do Sul.

11:13 AM :: Comentários:

SE BEBER, NÃO DIRIJA
A poeta gaúcha Angélica Freitas autografa seu livro de estréia, "Rilke Shake", hoje, em Porto Alegre

Fabrício Carpinejar*
Especial para ZH


Foto(s): Renata Freitas, divulgação/ZH

Graça é pouco. Ironia não é suficiente. Sarcasmo é o que move a poesia de Angélica Freitas em seu livro de estréia, Rilke Shake (Cosac Naify e 7 Letras, 61 páginas). A jornalista gaúcha faz sessão de autógrafos hoje, às 19h30min, na Palavraria (Rua Vasco da Gama, 165 , fone 3268-4260), em Porto Alegre (RS). A obra integra uma trinca de lançamentos de novos autores da coleção Ás de Colete, ao lado da carioca Marília Garcia (20 Poemas Para o Seu Walkman) e do paulista Ricardo Domeneck (A Cadela Sem Logos).

Esqueça o rótulo da poesia feminina, o cheiro inconfundível e confessional da cozinha. Rilke Shake é um desaforo de trânsito entre as estantes da biblioteca. Inconseqüente desde a medula, mas embrulhado no pleno domínio melódico e sintático. É desbocadamente livre e divertido para dizer o que pensa, ao mesmo tempo denso e coerente para perdurar. É performance, porém não deixa de ser silêncio.

Raro surgir uma poeta que não pague pedágio a outros poetas. Angélica atropela com uma dicção definida, rimada, cheia de rompantes e de uma violência fundadora.

Não é nenhum risco evocar Carlos Drummond de Andrade e seu primeiro livro, Alguma Poesia (1930), com pérolas de humor entrópico como a briga do poeta municipal com estadual e federal, Poema de Sete Faces e Quadrilha. Angélica é uísque, Drummond é conhaque, ambos comovem como o diabo. Articulam um deboche para dentro, concentrado como veneno. Um lirismo caçula, que produz comicidade pelo tom falsamente sério.

A conversa miúda com Drummond está debaixo do bigode: "O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa./ Tem poucos, raros amigos/ o homem atrás dos óculos e do bigode" (Drummond).

"Ai que bom seria ter um bigodinho/ além das lentes dos óculos ficar/ escondida por trás de uma taturana/ capilar" (Angélica Freitas).

Ou debaixo do tapete. O poeta mineiro pode ser percebido em A Família Vende Tudo, que resgata a Liquidação (1968). Mudam-se a época, as carcaças do peru, permanece igual o inventário de um imóvel com todas as lembranças, e pecados cometidos ou em vias de cometer.

A voz que surge é conclusiva, nada tendo a perder, muito menos a ganhar. O contraste entre o timbre leve e os temas canônicos fortalece a atenção dramática. Um exemplo é quando Angélica imagina o que se passa na cabeça de um violinista durante a queda de um avião. Ela mistura a sensação de início de um arranjo com a contagem regressiva do desastre: "o chão é lindo e vem vindo/ one/ two/ three".

A negatividade de sua visão do mundo é filtrada pelo otimismo musical. Se não conquista pelos olhos, conquista pelos ouvidos.

O livro poderia ser um tributo intelectual, se não fosse uma ária de demolição. Começa zombando de Shakespeare ("é muito bom, mas e beterrabas, chicória e agrião?"), passa por Andersen e seus contos de fadas, despreza Chaucer, ri do bundão de Gertrude Stein, lembra dos momentos mais pateta do que poeta de Keats, faz campanha para se livrar de Ezra Pound e de Mariane Moore, instaura uma política de desarmamento de Mallarmé ("Você sabe quantas pessoas morrem por ano/ em acidentes com Mallarmé?"). Sem contar o título, que transforma Rilke numa bebida cremosa.

* Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e professor.

(Publicado no jornal Zero Hora, Segundo Caderno, página central
Porto Alegre, 20/03/2007. Edição nº 15184)

8:46 AM :: Comentários:


Sábado, Março 17, 2007

MEU FILHO, MINHA FILHA



Depois de um ano de jejum lírico, volto a publicar um livro de poesia. "Meu filho, minha filha" será lançado em início de abril pela Bertrand Brasil. Reúne uma série de poemas que medita sobre a figura contemporânea do pai, a partir da experiência de um filho que mora comigo e de uma filha que fica com sua mãe, em outro estado. A obra foi escrita ao longo de cinco anos, e acompanhou o crescimento dos filhotes e nossas alegrias, tristezas, interrogações e perplexidades.

Duas sessão de autógrafos já foram marcadas, em Porto Alegre e São Paulo:

PORTO ALEGRE: 9/4, segunda-feira, Livraria Cultura, no Shopping Bourbon Country, às 19h30, com apresentação do livro por Celso Gutfreind, Carlos Nejar e Mário Corso.

SÃO PAULO: 3/5, quinta-feira, Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 19h30, com apresentação do livro por Celso Lafer e Marcia Tiburi.


O Caderno Pensar, do Correio Braziliense, antecipou alguns poemas neste sábado (17/3). Leia abaixo:


INÉDITOS DE CARPINEJAR
Arte de Antoni Tàpies

MEU FILHO COMIGO



Meu filho, eu me isolo
em algum lugar que não sou eu.
Não abro a correspondência,

Mantenho-me absolutamente calado.
Sentes algo parecido?
Não é solidão, solidão me deixaria inteiro

E sou pela metade.
Ligo o rádio antigo e encosto
Os ouvidos no aparelho

Como se fosse um cofre.
Colho a senha e o estalo.
Vejo as válvulas acesas,

O sangue verde de luzes,
Os fios meticulosamente
Dormindo.

Desapareço no ruído.
O rádio é meu autorama.
Brinco de correr vozes.

***

MINHA FILHA SEM MIM



Não há tantos terrenos baldios.
Não há tantos pátios ou quintais.
Meus filhos moraram em apartamentos toda a vida.

Não tinham para onde fugir de mim.
Não tinham uma reserva de invisibilidade.
Um canteiro para guardar confidências

E fazer experiências com formigas.
Sempre próximos de uma apreensão,
sempre ao alcance de um chamado antigo,

Sempre com vontade de sair mais do que voltar.
Eu já me abastecia de saudade
dos pais dentro de casa.

***

MEUS FILHOS SEMPRE



Quando leio meus filhos,
conto as páginas que faltam
para o final do livro.

Por mais que me apresse,
não estarei aqui
para completar a leitura.

11:55 AM :: Comentários:

PORTO ALEGRE - 235 ANOS
Foto de Renata Stoduto



O Jornal Zero Hora selecionou textos de dez moradores gaúchos para comemorar o aniversário de 235 anos de Porto Alegre. Minha mulher Ana Lúcia abre a série. Confira nossa história de amor no Arco da Borges de Medeiros.

10:49 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 16, 2007

ENTRE O QUE FIZ E O QUE NÃO FIZ
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar



Tenho um porta-jóias de remorsos.

Eu me arrependo de roubar rosas da casa da minha professora. Eu me arrependo de não permitir meu irmão caçula entrar em campo para me substituir. Eu me arrependo de estragar a festa de quinze anos de Aline com minha bebedeira. Eu me arrependo de troçar de amigos para me dar bem com a turma. Eu me arrependo de não dançar com medo do vexame. Eu me arrependo de mentir para me valorizar. Eu me arrependo de não ser paciente com o tempo dos outros. Eu me arrependo de maldade com o cachorro que se aproximava de casa. Eu me arrependo de arrogância da última palavra. Eu me arrependo da cola que neguei ao Thiago. Eu me arrependo de faltar voz nos pesadelos e não contar os sonhos. Eu me arrependo do mau-humor em algumas viagens. Eu me arrependo de terminar relacionamentos com o esquecimento. Eu me arrependo de furtar lâmpadas e quebrar vidraças na vizinhança. Eu me arrependo de não ajudar colegas que foram demitidos. Eu me arrependo de provocar briga para transferir minha raiva. Eu me arrependo de não ir ao enterro de meus avôs. Eu me arrependo de não ter sido honesto em minha primeira transa. Eu me arrependo da porcelana chinesa que quebrei. Eu me arrependo de não juntar os cacos debaixo da geladeira. Eu me arrependo do sofrimento que foi fácil. Eu me arrependo de decidir minha morte para chamar atenção. Eu me arrependo de não trancar a porta, o diário, a boca. Eu me arrependo de me masturbar pensando nas freiras. Eu me arrependo de não ter sido fiel ao abacateiro e abandoná-lo ao corte. Eu me arrependo de não lutar contra o ódio da ex-mulher. Eu me arrependo de dizer o que penso quando deveria dizer o que sinto. Eu me arrependo de piorar minha letra para não ser compreendido. Eu me arrependo de inventar febre para escapar das provas. Eu me arrependo de esperar meu pai fazer as pazes. Eu me arrependo de não compreender a carência de minha mãe. Eu me arrependo das fofocas que espallhei em nome de um segredo. Eu me arrependo de ter magoado minha mulher pela soberba. Eu me arrependo de procurar razões aos meus desejos. Eu me arrependo das promessas aos filhos de chegar cedo.

Mas o que me arrebenta é o que deixei de fazer.
O remorso do que aconteceu é sempre menor do remorso do que não fiz.



10:07 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 13, 2007

DESISTÊNCIA?
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar




Não recrimino quando uma amiga me diz que largará o marido ou o namorado, que ele tem feito somente mal, que não suporta seu egoísmo e seu descaso, e na semana seguinte faz as pazes com ele e todos os meus conselhos são virados de lado como rascunho para anotar telefone. Não recrimino nada quando é amor.

Não recrimino porque entendo que ao lamentar "tudo está terminado!", ela está somente começando a terminar. Nem de longe é uma conclusão, talvez seja uma descrença.

Não recrimino quando ela me observa com compaixão e confessa que teve uma recaída com ele, que não foi tão bom assim, quando sei que foi o suficiente para ela deixar - durante um mês - mais um botão aberto de sua blusa.

Não recrimino suas reincidências - o corpo tem lembranças próprias.

Não recrimino quando ela chega aos lugares que freqüentava com ele e jura que o esqueceu. Jura que foi lá se divertir com os amigos, mas escolhe a mesa de frente à porta, para imaginá-lo entrando com alguma roupa que ela deu de presente.

Não recrimino quando declara que ele é passado quando não vê futuro.

Não recrimino quando ela escolhe a lingerie, se prepara no salão, fica ainda mais bonita, para despistar o abrigo que veste por dentro.

Não recrimino sua alternância entre a depressão e a euforia, a fragilidade de sua opinião. Não significa que não cumpriu as promessas. As promessas mudam.

Não recrimino quando ela é seca nas mensagens, mas demora imensamente entre uma letra e outra.

Não recrimino sua compulsão em contar a mesma história do início do relacionamento, de fazer as mesmas perguntas para ter as mesmas respostas, de me usar para não sentir tão sozinha em sua solidão.

Não recrimino porque já fui separado, já fui solteiro, já fui casado, já fui o que não quis ser, já doeu uma alegria, já gargalhei uma dor.

Não recrimino quando uma mulher se aproxima dos amigos do ex, somente para continuar falando dele. Não vou arrancar dela a necessidade de reconstituir o seu cheiro.

Não recrimino a loucura de esperar uma ligação e culpar os que ligam pelo simples fato de não serem ele e ainda ocupar a linha.

Não recrimino o choro, o chocolate, a falta de vontade, as palavras que não se formam a tempo de virar palavras.

Não recrimino. Sei que desistir é ainda aguardar, que separar-se não é abandonar quem amamos.

12:13 PM :: Comentários:


Domingo, Março 11, 2007

NÃO QUERO MAIS SUA DESCULPA
Arte de Paul Delvaux e Jim Dine

Fabrício Carpinejar



O pior orgulhoso não é o que não deseja pedir desculpa.
É o que exige desculpa.

Eu peço desculpas com facilidade, aliás, antecipo desculpas do que ainda não fiz. Posso me desculpar pelos outros, para não perder o hábito. Choro os enfermos para não chorar os mortos.

Por me ver em excesso, nunca compreendi minha mulher. Assim, definitivo: nunca. Quando ela erra, eu a cobro com uma criança pela palavra mágica. Deixo de ser o marido para me tornar um pai, indeciso com qual castigo tomar. Um pai que educa pela severidade e esquece que erra tanto quanto, que não está um passo acima e nem um degrau abaixo.

Nas brigas intermináveis, diante do suicídio dos copos de geléia, ela chora, esperneia, grita, sacode os cílios das onze-horas na janela, e não a consolo para esperar ouvir sua desculpa. Mostro-me frio e indiferente. Maldita obrigação de se desculpar. Uma maldade ambiciosa de ver quem você ama sofrer e se ajoelhar com os dentes.

Nem é o "desculpe, errei", eu pretendo ouvir o "desculpa, está certo". Nada mudará com essa ignição verbal. O carro não partirá.

Eu a forço a se desculpar e dizer que não mais fará. Porém, sei que ela fará. Ela pede desculpas somente para sair daquele elevador claustrofóbico da linguagem, não por acreditar naquilo que falou. Eu a ameaço quando poderia estar a convidando a se abrir. Ela se fecha pois não demonstro vontade de entender seu temperamento, feito mais de atitudes do que de conclusões.

Ninguém se sentirá bem e aliviado após a súplica. Ambos estão derrotados. Eu porque coagi, ela por responder coagida. Alguma coisa será enterrada, mas não deixará de existir para as mãos.

Pedir desculpa não anula a vontade, talvez aumente. Ao completar a catequese, ia ao confessionário arrependido de todas as masturbações da semana. Aliviado da catarse por uma seqüência rápida de pai-nosso e ave-maria, repetia exatamente os pecados logo que saía da igreja.

Pressionar desculpa é uma covardia, um ato violento de humilhação. É cobrar imposto da tristeza. É retirar o riso, as falhas, as indefinições e as aberturas do caráter. É rebaixar você e ela a indigentes do amor.

Não interessa que ela tenha concordado comigo, que esteja a fim de uma conversa franca, que já tenha retirada a defesa. Não canso de brigar até que ela se dê por vencida. Eu quero a desculpa, não a sua compreensão. Eu imponho a desculpa, quando a desculpa é apenas um cumprimento como o bom-dia ou o boa-noite.

A intolerância vem de mim, que não entende que a desculpa pode ser uma mudança tênue de comportamento, um abraço amansado com o rosto no ombro, um beijo trêmulo, a troca de assunto.

A desculpa não resolve, não remove a lembrança, não elimina a ansiedade. É o ponto final de uma frase, não do livro.

Há o crime de reduzir a consciência a uma expressão. Será que eu quero o seu melhor ou não ser ameaçado pela falta de palavras?

Não pedirei desculpa a ela. Para finalmente me perdoar.



10:38 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 06, 2007

LAPSO PATERNO
Arte de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Como posso contar sem ofender?

Meu pai começou esquecendo os óculos. Na maior parte das vezes, em cima da cabeça.
Ele nem procurava direito e já gritava pedindo ajuda:
- Alguém viu meus óculos?

Todos deveriam largar sua função em casa, seja televisão, seja estudo, seja conversa ao telefone e sair na expedição de suas lentes.

Meu pai não se contentou em esquecer os óculos. Passou a esquecer as canetas abertas em seus bolsos da camisa. O que era fácil de achar, mas causava uma borra incalculável. Ele ainda tentava atenuar com o pano molhado e aumentava mais a mancha. As canetas eram de tinta azul, bem pegajosa. Seu guarda-roupa vivia baleado no coração.

Meu pai não se contentou em esquecer as canetas. Decidiu esquecer as chaves de casa. Sempre na hora de entrar. Não foi uma vez que o vi na frente do portão, indigente, esperando um dos filhos regressar da escola. Sentava no degrau de entrada com seus livros. Semana sim semana não, um senhor trocava a fechadura para nos prevenir da perda.

Meu pai não se contentou em esquecer as chaves. Mas os compromissos. Não é que esquecia, chegava um dia antes ou depois, com o olhar maravilhado do engano, de quem escapara de uma reunião chata e não precisava arrumar uma justificativa, além do natural lapso.

Meu pai tinha a mania de levar a comida que sobrava do restaurante. Mentia que tinha um cão em casa. O cão de casa era ele. Tudo bem se ele não esquecesse a marmita no porta-mala. Não preciso comentar o cheiro que emanava de seu veículo. A disputada carona para escola deixou de ser solicitada.

Meu pai foi iniciando esquecimentos cada vez maiores. Uma tardezinha voltou para casa de ônibus. Esquecera que havia ido de carro.

Noutro dia, procurou o carro onde estacionou e nada. Devassou a quadra e nenhum sinal de sua Belina amarela. Foi para delegacia registrar o furto. Estava nervoso, atropelando as palavras. "Roubaram meu carro! Roubaram meu carro!" Tempo em que o seguro era um requinte, não uma necessidade. Lamentou a perda a cada jantar, com renovadas juras de desânimo.

Duas semanas depois, ao caminhar pelo centro, meu pai avista sua Belina numa rua paralela. Concluiu - um tanto envergonhado - que estacionou ali, e confundiu de lugar. Em seguida, a Polícia o prende como suspeito do furto de seu próprio carro, ao parar em mão dupla na rodoviária para buscar jornais.

De noite, eu o encarei longamente.
Ele me explicou:
- São os poemas, meu filho, são os poemas que me fazem esquecer de tudo. Ou esqueço os poemas ou esqueço o mundo.

Olhei apavorado, carente, com a conclusão que viria de sua boca.

- Mas não te preocupa, filho, não vou te esquecer. Não sou tão bom escritor assim!

4:10 PM :: Comentários:

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO "MUSICANALISA" ROBERTO CARLOS
Talk-show é apresentado por Carpinejar e Frank Jorge e apresenta as melhores músicas do fenômeno


Roberto Carlos em ritmo de aventura

"Em busca do tempo perdido" abre nova temporada. O tema do encontro é Roberto Carlos, maior ídolo da música popular brasileira, há mais de meio século emplacando sucessos. O encontro aproveita também para refletir sobre a briga na Justiça entre o cantor e Paulo César Araújo, autor da biografia "Roberto Carlos em detalhes"(Planeta).

Em animada hipnose retrô, o músico Frank Jorge e o escritor Fabrício Carpinejar definem qual é a melhor fase do rei, autor de hits como "Detalhes", "Emoções", "Outra vez", "Quero que vá tudo pro inferno", que fazem parte da memória afetiva de milhões de brasileiros. O talk-show acontece nesta terça-feira, 06/03, às 20h30, no Café de Bordo do Paralelo 30 (Av João Correa, 997, Telefone (51) 35913320), em São Leopoldo (RS).

Haverá concursos de sósias e de karaokê de Roberto Carlos, além do quadro "Conte sua vida". No clima descontraído, Em busca do tempo perdido usa a pedagogia do humor. Esclarece momentos históricos da cena cultural do país e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. Caracteriza-se pela interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.

8:33 AM :: Comentários:


Sábado, Março 03, 2007

XÍCARA COM PRATINHO
Para Fabiana Lopes
Arte de Paul Delvaux

Fabrício Carpinejar



O telefone toca na pior hora. A pior hora é quando você esqueceu de esperar.

Você esperou o dia inteiro por ele. Mas ele toca e você não deixa de atender com medo que ele não insista. É Ele. Não Deus, Ele. Tiveram uma noite leve, divertida, quase perfeita se não estivesse arrependida de ter sido tão fácil. Deu um 'não' morno, um 'não' vacilante, um 'não' desistente, até que aceitou subir ao apartamento dele no primeiro encontro. Mas Ele era convincente e verdadeiro, envolveu com sua timidez: qualquer adiamento seria uma mentira. Ele era um homem com talento para casar, já que tomava o café da manhã segurando a xícara com o pratinho.

Quem faz isso? Estava acostumada com homem segurando aquela xícara enorme, decorada e infantil, galão de viking, sempre solteira, sem nenhum conjunto que a complete, nenhum parente na porcelana da cozinha.

O dia seguinte sempre é confuso como a véspera. Não sei qual é o mais difícil: esperar antes de acontecer ou esperar depois de acontecido. Acho que as mulheres votariam no pós, os homens no antes.

De qualquer modo, é Ele no seu visor. Passou a tarde com folga no serviço para aguardá-lo, cheirosa ao telefone. Ele sentiria o cheiro, sim, sentiria, acredita na superstição de que a voz transmite o cheiro das roupas. De tanto que conversou em pensamento com Ele, aprendeu a ficar calada.

Quando decidiu continuar a rotina, deduzindo que não seria mais procurada, ele veio de repente buzinar no fundo da bolsa. A música do U2, With or without you, como trilha do celular, a mesma que vocês dançaram ontem.

Dentro do táxi, indo para uma rua que nem sabia onde ficava, com a desconfiança de que o taxista também não soubesse, pois o taxista costuma dizer que sabe para descobrir contigo no meio do caminho.

Do outro lado, ele pergunta, sestroso:
- Você pode falar?

Não é o melhor momento, está assustada com o mapa desenrolando desconhecido na janelinha lateral. Para qualquer um, diria sem demora:
- Ligo depois.

Menos para Ele. Engole a seco a preocupação:
- Sim, claro que posso.
- Adorei a noite de ontem, ele confessa, direto, ensaiado.

Escuta agora a colherinha do café mexendo no fundo.

O taxista faz uma pergunta ao mesmo tempo, tenta usar dois cérebros, mas há um curto-circuito e responde para Ele o que estava apontando ao taxista.

- Não vamos por esse caminho!

Ele não entende sua frieza repentina. Nem você mesma entende a atrapalhação. O homem não imagina que, ao atender o celular, você está na situação mais escabrosa. De toalha na cintura, fazendo comida ou as unhas, cuidando do filho, gritando com um motorista, recebendo multa, perdendo um brinco. Eles acreditam que as mulheres estão disponíveis eternamente. Ou será que são as mulheres que não aceitam as imperfeições dentro da disponibilidade?

Você pediu ao taxista parar ali mesmo. Nem se importou onde havia descido, se haveria novo táxi perto, se sua vida estava em perigo. Pagou e desceu.

Para ele, apenas confessou, exclusivamente aliviada:

- Vamos por todos os caminhos.

8:11 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 02, 2007

ECOLOGIA POÉTICA
Salve uma palavra antes que morra no senso comum

Fabrício Carpinejar

Como pensar em ecologia sem incluir a preservação das palavras? E com a ecologia das palavras, quem se preocupa? E os lençóis subterrâneos da fala que são contaminados pelo sarcasmo, pelo cinismo e, sobretudo, pela indiferença, quem cuida de sua prevenção?

Corremos o risco de perder a natureza quando deixamos que a linguagem fale em nosso lugar e não mais falamos por ela. Quando somente transferimos a responsabilidade de dizer e de nomear pelo ato de repetir. Não é o comportamento que condiciona as palavras. Mas as palavras formam o comportamento. As palavras são o comportamento. Somos palavras.

De que adianta separar o lixo seco do orgânico se não separamos a linguagem orgânica da seca em nossa rotina? E a coleta seletiva da língua, onde fica?

De que vale cuidar do desperdício de água se não cuidamos também do desperdício de linguagem?

Não será igualmente criminoso usar palavras desnecessárias, sem entusiasmo, sem força de vontade, sem alegria? Por descaso ou por descanso. Para ser compreendido e não pensar. Pela pressa, sendo que a pressa aumenta o esquecimento, inibe a lembrança.

Por dia, quantas palavras são reproduzidas desprovidas de sentido? Lançadas na terra como latas de alumínio, que demoram mais de um século para se decompor.

Um lugar-comum é tão poluente quanto pilhas e baterias do celular. Expressões que nada têm de pessoal, que não permitem a descoberta ou o deslumbramento, estancam a circulação do afeto. Cessam o gosto de falar. Interrompem o gosto de ouvir.

Quantos fósseis são abandonados no cotidiano do idioma, quantos verbetes esperam sua chance de tratamento no aterro sanitário do dicionário? Será que não viramos fantasmas se portamos uma língua morta?

Poderíamos latir, poderíamos miar, poderíamos uivar, tudo isso é ainda comunicação. Mas falar não é somente comunicar, é se comprometer com a direção do timbre.

Palavras são de vidro. Palavras são de metal. Palavras são de plástico. Palavras são de papel. Não se pode colocar todas com o mesmo peso, no mesmo destino. É preciso discerni-las. Uma criança me entenderia.

Tolerância, por exemplo, é de vidro. Reboa por dentro. Faz volume antes de acabar. Não pode ser jogada fora, pois levará milhões de anos antes de virar pó.

Respeito, por sua vez, é de metal. Inteiriça. Difícil de quebrar. Fala-se de uma única vez como uma lâmina.

Condescendência é de papel, o acento vai lá no fim, suscetível aos rasgos da tesoura e das mãos ansiosas. Soletre, veja, imagine. Deite a voz, não fique de pé.

Assim como reciclamos o lixo, as palavras dependem da renovação. Mudar a ordem, produzir significação, exercitar gentilezas, valorizar detalhes. Não deixá-las paradas, desacompanhadas, viúvas.

Talvez seja daí minha incompetência em me desfazer do arranjo de rosas que recebo no aniversário de casamento. Desligo as pétalas do miolo e espalho as rosas nos livros. Fazem sombras para as frases.

É poluente dizer ao filho "nem se parece comigo" para ameaçá-lo. Uma convenção a que a maioria recorre para se livrar do cuidado, sacrificando um momento de particularizar sua experiência paterna e materna. Por que não procurar afirmar "você se parece comigo mesmo quando não se parece"?

Ou há algo mais solitário e desolador que resmungar "eu avisei" para sua mulher quando ela erra? Mostra que já a estava condenando antes de qualquer resultado e atitude. Em vez de cobrar, por que não compreender? Transformar o lixo hospitalar (sim, corta-se um braço dela com essa sentença) em adubo de frutas com a simples concisão de "a gente resolve".

São períodos postiços, artificiais, fingidos, que corrompem a respiração. Ao encontrar um colega antigo, logo nos despedimos: "Vamos nos ligar?" Isso significa o contrário, não vou telefonar nos próximos três anos.

Até que ponto não se empregam palavras para se esconder o que se quer, para disfarçar, para ocultar? Quantos sinônimos para não dizer absolutamente nada. Para se afastar do que realmente se desejava declarar. Foge-se da palavra certa pela palavra aproximada. Uma palavra vizinha não mora no mesmo lugar da verdade.

Palavra é sentimento. Mas - cuidado - as palavras não podem sentir sozinhas.

Palavra é poder. Ao esgotar seu significado, esgotamos nossa permanência.


Artigo na Revista Vida Simples, estréia da seção "Dois dedos de prosa"
Março de 2007



12:27 AM :: Comentários: