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Segunda-feira, Abril 30, 2007

SOZINHA!, NÃO SOLITÁRIA
Arte de Edward Hopper

Fabrício Carpinejar



Mulher não é reboque, não é complemento. Mulher é inteira mesmo que esteja ausente. Mulher não precisa de outro para afirmar que é ela.

Fui jantar sozinha, para acompanhar a refeição de um chef italiano. Meu marido não veio porque cuidava de nosso filho pequeno no hotel. Jantar chique, meia-luz, a suspeita começou na entrada. Ao procurar meu nome na lista, a jovem perguntou: - Espera alguém?
- Não, não espero ninguém.

- Vieste sozinha?
- Vim, algum problema?

Eu era o problema. Uma mulher sozinha sempre é um problema para o equilíbrio ecológico, uma ameaça à cadeia evolutiva da noite.

A dificuldade foi escolher uma mesa. A dificuldade mesmo foi andar pelas mesas com os convidados me olhando. Eles não me olhavam, eu me sentia olhada, esperava o olhar deles por antecipação e não conseguia responder a tempo. A maioria ficou sem retorno.

Sentei de canto. E percebi que não tinha muito assunto comigo. Fazia anos que não puxava assunto comigo. Minha conversa é monogâmica, meus pensamentos são solteiros.

Os homens não podem enxergar uma mulher sozinha que já querem seduzi-la. As mulheres não podem enxergar uma mulher sozinha que já ficam com pena.

Homens iniciavam gracejos que caberiam para qualquer uma. Qualquer uma é a mãe deles. Sei o que é uma cantada pela falta de criatividade. Homem pode vir sozinho que não é estranho, você reparou? É escolha, independência. Mulher sozinha é ausência de opção e incompetência, não conseguiu trazer sequer um homem junto.

Concluo que passei a noite me defendendo. Mulheres apontavam para aquela morena alta, que estava destoando entre dezenas de casais. Procuravam me entender, como se dependesse de compreensão. Estava caçando? Sim, caçando o cordeiro no meu prato, que não mostrava muita resistência empanado de mostarda e farofa.

O vinho serviu-me de amante. A bebida é amante de mulheres suspeitas como eu. Suspeitas por não estar com seu marido ou namorado. E ainda nos falam que os costumes evoluíram. O que me restava fazer se não beber para me sentir ocupada e aliviada da desconfiança?

Até o garçom vinha com mais freqüência. Até o garçom entendeu minha aflição. Um casal de conhecidos tentou me resgatar. Toda mulher sozinha é identificada como uma afogada. Uma suicida. Salvar de quê? Salvar de mim? Desejou que sentasse em sua mesa. Como se estivesse no lugar errado.

Toda mulher sozinha está no lugar errado, é o que se acredita. Eu escolhi o lugar, não se cogitou isso? Ou a solidão é errada? Um crime a solidão.

O senhor insistiu, confundindo a vontade com educação:

- A gente põe uma cadeira a mais em nossa mesa!

O convite migrou para mendicância. Colocar uma cadeira a mais é dizer que não era planejada e apertar os acomodados. Nunca diga que vai colocar uma cadeira a mais. É um favor. Mulher não depende de favor para existir. Nem de nenhum homem.

10:32 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 29, 2007

O colunista da Folha de SPaulo, Marcelo Coelho, escreve sobre meu novo livro em seu blog. Motivo de orgulho participar de sua reflexão. Confira abaixo.

UM POETA E SEUS FILHOS

Marcelo Coelho
28/4/07

"Nem todos os pais podem dormir com seus filhos na mesma casa em que vivem. Como eu, alguns pais são separados, que dispõem apenas de um sábado e domingo para confirmar a paternidade e reencontrar o significado da família. Pai separado sempre está sob a ameaça de despejo. De ser trocado. Ou de ser esquecido".

É o que escreve o poeta Fabrício Carpinejar, na contracapa de seu último livro, Meu filho, minha filha (ed. Bertrand Brasil). Há muito sofrimento, acusação e culpa nesses belos poemas. A filha mais velha, já adolescente, é tema de versos magoados, de uma sinceridade difícil de encontrar:

Quando brinco com as crianças// e faço palhaçada, elas se divertem,/menos tu, encabulada pela maneira/como converso de igual para igual.//Tantas vezes ouvi tua vergonha/ explicando aos colegas,/com os olhos virados para cima:// 'Meu pai é louco'./Louco por quem? Já perguntaste?

Ou ainda:

Corto tuas unhas e reclamas/ que aparo muito rente da pele./Desculpa, tudo que vivi foi rente à pele.//...Eu te alfabetizei e foste/me tirando o espaço entre as linhas./Guarda-me apenas uma fresta.//Não importa o que os adultos falam,/serei o pai da insistência./Até onde posso ir para te resgatar?/Eu faço a cama com o travesseiro/debaixo das cobertas. Conforta-me a idéia/de que alguém está dormindo.//Preferes que o travesseiro/ fique por cima. Abominas a sensação/de que há algum morto em tua cama.//Reclamas do teu pai, como se ele tivesse/ condições de se inventar de novo./Desculpa, corto as palavras/ muito rente da pele,/assim como descascava maçã e levava com a faca/ uma lasca por vez em sua boca.//Tudo o que vivi foi rente à pele./Deixei de ser pai e virei a pensão da tua mãe./Não esqueço o dia em que o oficial de justiça/bateu à minha porta a cobrar/ o que já concedia naturalmente./No papel timbrado, teu nome contra o meu.//O nome que escolhi contra o meu./O nome que sonhei contra o meu./Fui teu primeiro réu, sem que tu soubesses.

Dá vontade de respirar fundo antes de fazer qualquer comentário. Os próprios versos, aliás, parecem ter uma respiração difícil, entrecortada, de quem mal conseguiria articular um discurso prolongado de viva voz. Na verdade, a seqüência de poemas deste livro constitui menos uma escrita lírica do que um texto dramático. Imagino essas falas no palco, quem sabe com novos poemas declamados pelos personagens que ficaram mudos neste livro; seria uma peça impressionante. Mas já o que se tem no livro é de uma verdade, de uma precisão nas imagens, e de uma força emocional (sem derramamento, mas também sem reticência ou hermetismo) incomuns na poesia contemporânea.

8:41 PM :: Comentários:

HOMEM DE FAMÍLIA
Carlos Marcelo - Da equipe do Correio
Sérgio de Sá - Especial para o Correio



Foto de Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar, 34 anos, dois filhos, nove livros. Entre seus favoritos, os poemas de Terceira sede e Cinco Marias. Ele coordena o curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos, no Rio Grande do Sul, e se desdobra em diversas outras atividades literárias. Formado em jornalismo, Carpinejar escreve sem parar. Acaba de publicar Meu filho, minha filha, poemas sobre a família brasileira contemporânea, em que pais e filhos nem sempre podem viver sob o mesmo teto.

Tatuagem no braço direito, unhas da mão esquerda impecavelmente pintadas de vermelho ("os homens ficariam decepcionados ao ouvir as conversas das mulheres no salão de beleza, elas não falam sobre eles"), o poeta performático não quer a discrição. Tem por lema o "terrorismo na linguagem": ataca em todas as frentes para inocular poesia no dia-a-dia. Na passagem por Brasília para participar do caderno especial 4+7, publicado no sábado passado no Correio, ele concedeu uma longa entrevista pontuada por interjeições, entre escapulidas para fumar um cigarro e a saudosa pressa para reencontrar a filha ali perto, numa superquadra da Asa Norte.

Para manter o tom coloquial da conversa, a concordância da segunda pessoa do singular permaneceu como é própria da fala de um gaúcho que afirma suas raízes. A camisa vintage do Internacional dos tempos áureos de Falcão, usada durante a entrevista, é um símbolo pouco discreto dessa paixão pelo Sul. Confira o bate-papo com um dos escritores brasileiros de maior projeção, dentro e fora do país:


Meu filho, minha filha
De Fabrício Carpinejar. Bertrand Brasil. 144 páginas. Preço: R$ 28


O que você descobriu com Meu filho, minha filha?
Eu tinha saído de uma observação feminina que é o livro O amor esquece de começar. Levei cinco anos para fazer Meu filho, minha filha porque veio da vivência, desde que o Vicente nasceu. Foi feito a partir da minha relação com minha filha que morava longe, aqui em Brasília, e com um filho que mora comigo em Porto Alegre. Porque o pai separado nunca consegue ser inteiro; é horrível. Na hora em que falo com minha filha no telefone, posso ter um papo saboroso, mas sei que ela não vai estar comigo e isso vai me machucar. E, quando aparece a separação, tu te torna um diplomata: não precisa nem fazer o Instituto Rio Branco. Diplomata porque tem que conciliar a tua ex-mulher com o teu filho, a família do teu primeiro filho com a tua nova família, e tudo isso com um alto grau de seriedade e alegria, na base da delicadeza: não pode haver cobranças diretas. Acho que a figura do pai é subestimada, tratada como algo secundário. Tive que treinar para ser pai. Não é algo natural.

Por que a família é tão importante para a sua poesia?
Toda a minha poesia trabalha com a questão da família. Não vou sair desse nicho. Acho que todos os fantasmas sociais estão ali engavetados. Sou um reflexo da minha família naquilo que tem de bom e naquilo que tem de ruim, no que tem de virtuoso e de perverso.

O que há de virtuoso e de perverso na sua relação familiar?
Virtuoso? Acho que sou muito leal, muito fiel, muito organizado, muito apegado. Mentir é o lado perverso porque sou filho de uma família de ficcionistas em que cada um quer trazer a versão definitiva dos fatos. Ou seja, é como se, no almoço ou no jantar, eu vivesse um julgamento permanente porque não bastava contar a verdade: tinha que impressionar com a verdade. E isso já muda tudo.

A família começa na adoção do nome Carpinejar, a junção dos sobrenomes de seus pais, os escritores Maria Carpi e Carlos Nejar?
Foi uma maneira de enfrentar a família. Mas como eu poderia enfrentá-la sem tomar as dores da mãe nem as do pai? Criando um personagem. Foi a partir daí que eu saí da minha timidez. Porque sempre fui uma criança retraída. Vivia na saia da mãe, tinha vocação para ser coroinha. Mas foi importante aquela fase para consolidar os espaços imagináveis, dos amigos secretos, dos esconderijos. Sempre vou retornar a essa caixa d¿água ancestral que é a infância, mas sem idealização porque é uma fase de provação. Estudei em escola pública, tinha que me virar. Quantas vezes eu ganhei amigos ao ceder minha merenda?

Onde e como entra a infância na sua literatura?
A infância é a velhice antecipada. A infância e a velhice têm o mesmo impacto. Na infância eu sonhava muito e me lembrava dos meus sonhos. Hoje sonho e não me lembro muito bem dos meus sonhos porque havia espaço vago, ou seja, a memória é pressentimento na infância. Já na velhice você tem um excesso de memória que dificilmente tu vai sonhar, tu vai recordar. Então, acho que são dois pólos. O que tem de mais forte na infância realmente é ser autêntico. Por isso, defendo: para ter autenticidade, tu tem de escrever cansado, sem mostrar resistência, sem o vigor da mentira.

Como se ensina essa autenticidade, a espontaneidade que vem do cansaço, em um curso de formação de escritores que, de alguma maneira, tem de oferecer base teórica?
O vértice da autenticidade é justamente o despojamento, a humildade. Quem entra num curso de criação, parece dizer: estou disposto a aprender, não estou pronto. Isso te libera da pressa, da fobia de logo querer publicar o livro e dizer que é escritor. Com esse despojamento, dá para tomar a vida dos outros como se fosse a tua e tomar a tua vida como se fosse a do outro. Ou seja, a minha infância pode me banhar, mas a infância do outro vai entrar na minha infância: eu vou falar de ti como se fosse eu, vou fazer essa transferência. O escritor é aquele que vai doar sangue toda a vida: é o doador universal. Para sair de si, vai ter de fazer uma reencarnação forçada: sair do seu mundo. Porque se eu fosse escrever sobre somente aquilo que vivi seria muito pouco, eu não teria vida para fazer literatura. O que faço? Tomo emprestado a vida dos outros.

Ou você teria de estar sempre atrás de experiências que consideraria narráveis.
Sim. E, se fosse assim, seria um projeto de suicídio: tentar se superar sempre na vida para ter uma obra. Meu Deus do céu, isso seria utilitarismo, usar a vida para um fim comercial!

Como tem sido a resposta ao curso de formação de escritores e agentes literários na Unisinos?
Como é escrita criativa, não pode haver mais de 20 alunos por semestre. São personalidades, temperamentos, tem que ter um tratamento individual. Mas o legal é criar turmas. Isso é importantíssimo, como foi para o rock. A literatura teria de aprender um pouco mais com o rock. Nós, os escritores, temos muito pouco convívio social. É cada um por si. Acho que este tipo de convívio social fundamenta escolhas individuais. Outro aspecto importante é ser confrontado com diferentes métodos de trabalho. Porque na verdade você vai ter de encontrar o teu método de trabalho a partir dos outros, mas sem imitar ou copiar.

E o que é possível aprender em sala de aula?
Dá para derrubar alguns tabus. Por exemplo, o mito do escritor solitário, no porão, marginal, não sobrevive porque há convivência dentro da universidade com estudantes de outros cursos. São dois anos e meio, ninguém precisa sair como escritor. Pode ser agente literário, produtor cultural, consultor, enfim, lidar com a literatura de forma profissional em vários aspectos. Isso vai fazer o escritor ter menos criatividade? Não, porque a criatividade vem do desespero. Acho uma maravilha estar encurralado, emparedado, ter contas para pagar no final do mês, uma família para sustentar. Lidar com a urgência sem ficar enrolando, me adiando. É quando a literatura deixa de ser um luxo e vira necessidade.

Você é considerado uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. Mas, no Brasil, se a literatura tem interesse segmentado, na poesia isso acontece ainda mais.
Adoro este fato: o desafio sempre me estimulou. Poesia não vende? Ótimo. É aí que eu quero entrar! Se as pessoas procuram poesia na música por que a gente não pode trazer a música na poesia? Nunca vou me entregar à mendicância prévia. Se não me sustentar pela literatura, vou trabalhar como balconista ou qualquer outra coisa e deixar de escrever. Na hora que der, eu volto. Sempre vou voltar.

Como foi a experiência de escrever crônicas, reunidas no livro O amor esquece de começar?
As crônicas têm o meu raciocínio poético, de lidar com o invisível do cotidiano, do princípio da descoberta. A poesia está lá, dormindo, preguiçosa, e tu vai acordá-la. As pessoas estão buscando o mistério sobrenatural. Para mim, esse mistério está nas coisas mais corriqueiras. Arrumar a cama pode ser um trabalho maravilhoso: tu estás envelopando quem tu amas, olha que coisa mais linda!

Blogues, livros, colunas em jornal e revistas, palestras... Como você lida com a eventual superexposição?
Tenho um projeto de terrorista na linguagem: onde você espera não me encontrar? É aí que eu vou estar. O poeta tem de ser desmistificado, tomar um banho de realidade. A poesia brasileira saiu para a rua desesperadamente e virou mendiga, perdeu a casa. Está no momento de voltar para casa, para a tradição. Drummond e Bandeira nunca saíram da tradição para chegar ao público. Escrever já tem um fundo terapêutico, evidentemente, que tu não te cura com a escrita, mas tu pode curar os outros.

E a rotina?
Sou defensor da rotina, eu quero a rotina. A rotina é aquilo que tu gosta tanto que tu vai repetir. Não é aquilo que tu detesta. Acho que o casamento se quebra pela falta de rotina, porque todos precisamos de uma rotina. Não quero viver em hotel como o Quintana, quero arrumar minha cama ou saber que meu quarto está bagunçado e fui eu quem bagunçou.

Como está a poesia contemporânea brasileira?
Acho que ainda existe a fachada monárquica. Ou seja: tu é mendigo, mas aristocrático. Quanto pior, melhor. Se o poeta não consegue entrar no mercado, ele se sente no luxo da miséria. Passa a se achar um grande poeta por não entrar no mercado.

É alimentado pela aura de maldito.
É isso. Só que é uma mentira. De repente, o mercado pode acertar. O mercado não é criminoso.

O que seria do mito da Hilda Hilst sem a recusa do mercado...
Exatamente. Ser recusado não significa que é bom, pode ser que seja ruim e tu tem que se dar conta disso, ter consciência da própria imperfeição. A poesia cresce no Brasil, mas os sentimentos ainda são muito primários. Temos dentro da gente vários sentimentos, mas nem todos com a mesma escolaridade. A esperança pode ser pós-graduada, mas o ciúme e a inveja podem estar no jardim de infância. Tu tem de se demolir e não incomodar os outros.

E a literatura brasileira?
A literatura brasileira vive um grande momento. Nunca escritores jovens conseguiram a sua independência literária tão cedo. Quantos escritores vivem de literatura? Não sabemos se a literatura vai viver deles, mas isso não está em questão agora. Este é um segundo passo.

Faz sentido falar em literatura gaúcha?
Ainda faz sentido, mas no futuro não fará, assim como não faz sentido hoje falar de literatura paulista, de literatura carioca... A gente tem, hoje, uma literatura urbana forte, com o Amilcar (Bettega Barbosa), o (Daniel) Galera, a Cíntia (Moscovich). O Rio Grande do Sul olha o Brasil com nostalgia. Se pergunta: como seria a minha vida lá? Mas tem uma coisa boa lá no Rio Grande do Sul.

Além do Internacional...
(risos) Além do meu Colorado, claro. Bom, aliás, que tem o Grêmio também, porque o que seria do Colorado sem o Grêmio? Mas o bom é que as diferentes gerações não lutam entre si, há uma solidariedade cavalheiresca. Nos outros estados, há uma divisão entre o velho e o novo. No sul, a única divisão que existe é entre o escritor vivo e o morto.

Como você vê Brasília?
A primeira impressão foi terrível, um choque. Sou um caminhante, não tenho destino quando saio para andar. Em Porto Alegre, posso atravessar a cidade caminhando. Em Brasília, parece que a cidade é para o carro, um grande autorama. Aliás, Brasília é o autorama que eu sempre quis ter quando era pequeno. Mas aos poucos você vai descobrindo a Brasília das pessoas, de gente emotiva, que se esforçou pra domar o lugar. Brasília é um animal selvagem: só não vai latir para quem já está aqui dentro. Parece que o urbanismo tentou domar Brasília, mas a cidade, com sua terra vermelha e a face agreste, se rebelou. Isso eu acho bonito: uma cidade que parece ter um vulcão prestes a explodir. Eu gosto disso.

Entrevista publicada no Correio Braziliense, Caderno Pensar, 28/4/07

8:31 PM :: Comentários:

VERSOS DE INCÔMODA RESSACA
De intensa rebeldia e inclinação erótica, Estudos para o Seu Corpo reúne 4 livros de Fabrício Corsaletti

Fabrício Carpinejar*



Montaigne avisava que na morte chegamos novatos. O poeta italiano Cesare Pavese contestava a afirmação: todos antes de nascer estávamos mortos.

O novo livro de Fabrício Corsaletti, Estudos para o Seu Corpo, aposta acertada na área de poesia da Companhia das Letras, fecha com a segunda hipótese. Traz o desencanto de quem já morreu várias vezes. A antologia do escritor paulista reúne seus livros anteriores Movediço (2001) e O Sobrevivente (2003), mais dois novos Histórias das Demolições e Estudos para Seu Corpo. O que mais identifica o conjunto é uma escrita feita para a despedida. O poema é o momento de puxar o gatilho. Ou melhor, o momento de não puxá-lo.

Apesar da juventude do autor, entrando na casa dos 30, seus versos pulsam uma atmosfera de incômoda ressaca. Há o charme do inconformismo e rebeldia, mas, acima dele, persiste uma autenticidade de crença, de preparação para a morte. Como se cada livro fosse uma tentativa, não uma previsão, de encontrar justificativas para permanecer entre os seus. "Morrer não posso/ não assim/ maravilhado."

Não são poucos os momentos em que ele avisa: "A sensação de que tudo já foi/ ou poderia ter sido/ de outra maneira" (Meninos Soltando Pipa); "se a morte vier, que venha de uma vez" (Tenso), "julguei minha vida encerrada"; "eu embarquei não há dúvida/ para a última viagem" (Canção do Barco de Madeira e Couro). Antes de sacramentar o desfecho, ele muda de repente de idéia e sua poesia vira uma desistência da própria desistência.

Dois pólos se alternam na antologia: a crueldade da infância e a suavidade do amor pelas mulheres. Impinge, de modo crescente, uma bipolaridade permanente do olhar entre a destruição (as ruínas) e a construção da sensualidade. A ambivalência encontra-se também na dicção, com a facilidade que parte do sussurro e alcança o grito, que vai da poesia mais realista fundamentada em arrolamentos aos rompantes surrealistas, que trafega da concisão irônica aos versos longos dialogados.

OPOSTOS

A infância tem uma maldade inconsciente. Uma maldade curiosa. É uma violência sem sentido, de testar a força ou provar o conhecimento, que poderia trazer o arrependimento com a reprimenda dos adultos, que nunca vem. Os familiares apenas oferecem a agressividade maior da omissão.

Em Parceria, o menino de 6 anos joga o gatinho no muro, o vô chega e diz: "Esse não tem mais jeito", e faz pior ao enterrar o bicho ainda vivo. Já no O Sobrevivente, crianças enfiam lascas de madeira numa baleia agonizante na praia, para "conhecer a textura dos músculos". Gratuidade infantil que se agrava com a indiferença adulta.

No outro lado, o mais intenso de Fabrício, é sua inclinação erótica. A originalidade do escritor nasce de sua imensa capacidade de reconceituar as relações afetivas e desembaralhar confusões: o cansaço não é paz, a sombra não é a alma que perdi. Sua estratégia é descrever o cotidiano pela negação, tudo passa a ser quando não se é.

É um Fabrício mais livre, mais plural, mais meditativo, que aprende a se deslocar em diferentes pontos de vista, ora da mulher, ao visitar a perspectiva do sol do escritório dela, ora dele mesmo, apresentando a perspectiva do sol de seu apartamento.

Seu "cântico dos cânticos pop-art" mistura loucura - "Amo aquela mulher/ desde o momento/ em que a vi mijando/ descontrolada em pé" - com a serenidade - "seu passo aperfeiçoa o amor".

Se nos primeiros livros resistia uma imposição ególatra de escandalizar pela amputação e sacrifício ("a única/maneira de/ mostrar o osso/ desta/ perna sangrando// é arrancando/ a perna") ou pela exaltação das ruínas, do apodrecimento e das sobras, nas recentes obras de 2007 cresce uma mudança de temperamento em direção a uma autocrítica confiante, um otimismo tímido e um lirismo bem-humorado, flertando com a canção e os epigramas à maneira de Francisco Alvim ("sua bunda jamais terá/ ideologia").

Monta um painel teopoético sobre anatomia feminina. Ainda que a agressividade apareça, o escritor deixa a orfandade do sofrimento e parece agora se divertir. Não mais a raiva pela falta de lugar, e sim a ternura da adaptação madura, último desdobramento de sua revolta.

São observações acuradas sobre diferentes partes do corpo:

"Orelhas sejamos práticos e sinceros
orelha nenhuma
tem que ser bonita
têm que ser simpáticas
ou inteligentes
Braços
seus braços são a única coisa do mundo
sem morte."

Sintomático que o livro termine com um pedido de perdão. "Sei que existe um mundo/real atrás dos mundos/ em que nos defendemos." Fabrício Corsalleti se redime em nome de todos os que não colocaram limites para a dor e para a alegria em sua infância e se encontra dono de si.

Estudos para o Seu Corpo
Fabrício Corsaletti
Companhia das Letras
168 págs., R$ 36


* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006), entre outros

Publicado em O ESTADO DE S. PAULO, CADERNO 2, página 05, 29/04/2007

8:23 PM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 24, 2007

UM QUARTINHO PARA NÃO-SER
Arte de Peter Blake

Fabrício Carpinejar



Projetei o apartamento para a utilização total do espaço, até porque as casas hoje em dia são bem mais limitadas. Ansiei ocupar cada peça com personalidade. Não deixar nada sem a assinatura de meus pés. Idealizava uma sala com folga, um quarto com trânsito para os chinelos, uma cozinha para girar os braços, um terraço com árvores para descansar e boiar de costas pela luz da cidade.

Depois da construção mobiliada, organizada e limpa, quando deveria respirar o alívio e deitar as chaves na gaveta, constatei que cometi um grande equívoco: onde coloco o que não preciso?

Meus avôs tinham um porão ou uma água-furtada como extensão da residência, para depositar os restos e as tralhas. Meus pais tinham uma garagem a destinar o material que não estava sendo usado ou os objetos de mudança que não combinavam com a nova disposição dos móveis. E eu?

Minha ambição esqueceu da essência do ordinário, não posso ser perfeito, dependo de uma peça como um baú para conservar o que fui ou o que não estará à mostra. Nem tudo pode ser visível. O que faço com a rede, com a piscina de plástico, com a bicicleta do filho, com os azulejos adicionais, caso quebre algum da varanda ou do banheiro, com o montante de revistas, com o quadro-negro que ensinei minha filha a ler, com os chapéus de palha, com os halteres, que esperam dias de maior disposição, com as cadeiras verdes, que destoam do conjunto vermelho e ouro, com a caixa de ferramentas? Não posso pôr em nenhum aposento, que quebra a coerência, a sincronia e o alinhamento.

Na mania de tornar tudo casa, proibi-me de ter memória. E de conservar a memória de outras casas. Obrigado a colocar fora o que não queria jogar fora, o que não me servia momentaneamente, mas que guardava um valor sentimental, de cuidado com o passado e respeito com o que vivi.

Necessitava urgentemente de um quartinho para não-ser. Um quartinho da inexistência - todos deveriam contar com um, para manter seus segredos. Um quartinho para trabucos, objetos quebrados, mesas lascadas, amores excomungados.

Um quartinho de preferência fechado, inacessível, a aumentar o suspense e o mistério diante dos filhos e da mulher.

Um quartinho sem nenhuma atualidade. Sem nenhuma pressa. Um quartinho para a insônia (não para dormir). Um quartinho com meus defeitos e obsessões, com os selos antigos de minhas unhas. Um quartinho de minhas taras, dos pensamentos vulgares e infames. Um quartinho mortiço, como noite nublada. Um quartinho de escurecer coisas. Sem ele, apago também a possibilidade prazerosa de reencontrá-las e rezar evocações. Um quartinho de empregada que havia nos apartamentos, mas que foram transformados injustamente em escritório pela síndrome de ocupar os corredores e utilizar completamente os olhos.

9:55 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 22, 2007

PRÓXIMOS DIAS

SARAU ELÉTRICO - PORTO ALEGRE (RS) - 24/4

Participo do Sarau Elétrico nesta terça (24/4), às 21h, no Bar Ocidente (R. João Teles , 960 Bom Fim Fone: 51 3312-1347).
Ao lado de Cláudio Moreno e Kátia Suman, falarei de Erotismo. Leituras e comentários sobre a arte de amar. Na canja musical, Feijoada Completa. O ingresso custa R$ 8.

OFÍCIO DA PALAVRA - BELO HORIZONTE (MG) - 25/4

Palestra sobre criação poética nesta quarta (dia 25), às 19h30, no Museu de Artes e Ofícios (Praça da Estação - Centro), em Belo Horizonte, dentro do projeto Ofício da Palavra. Mediação de Alécio Cunha. A entrada é franca.



UNIFICADO - PORTO ALEGRE (RS) - 26/4

Bate-papo conduzido pelo professor de Literatura Flávio Azevedo, no Projeto Cultural do curso Unificado. Comentarei minha trajetória poética. O encontro acontece na quinta (26/4), às 17h45, na sede da Nilo Peçanha (Fone: 51 3328.6098).

FEIRA DO LIVRO - TAQUARA (RS) - 2º/5

Sou o patrono da 2ª Feira do Livro de Taquara, homenagem com um gosto todo especial. A cidade foi uma das primeiras comarcas de minha irmã Carla, em seu início de carreira como promotora de Justiça, e onde aprendi a dirigir.

Estarei na abertura na quarta (2/5), às 10h, e, logo depois, converso com o público. No encerramento, no sábado (5/5), às 18h, interpreto poemas.

LANÇAMENTO DE "MEU FILHO, MINHA FILHA" EM SÃO PAULO (SP) - 3/5

Autografo meu novo livro de poesia. "Meu filho, minha filha" (Bertrand Brasil) na quinta-feira (3/5), às 19h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, com apresentação de Celso Lafer e Marcia Tiburi.

A obra reúne uma série de poemas que medita sobre a figura contemporânea do pai, a partir da experiência de um filho que mora comigo e de uma filha que fica com sua mãe, em outro estado. A obra foi escrita ao longo de cinco anos, e acompanhou o crescimento dos filhotes e nossas alegrias, tristezas, interrogações e perplexidades.



12:43 PM :: Comentários:


Sábado, Abril 21, 2007

CADERNO {4+7}
Correio Braziliense, 21/4/07

Desde 2002, o Correio convida escritores e artistas a se pronunciar sobre Brasília no dia do aniversário da capital inaugurada em 1960. Em sua sexta edição, o suplemento especial inclui moradores, figuras ligadas de maneira umbilical à cidade e quem nunca havia pisado na terra vermelha do cerrado. São 11 percepções de um lugar que não pára de crescer, especialmente na dimensão simbólica. O livre itinerário permite a liberdade de expressão. O convite ao leitor é para se deliciar na plasticidade das imagens superpostas, nos contrastes das fotografias, nas esquinas dos relatos de viagem, nos labirintos da memória recuperada, nos meandros da prosa de ficção, nas entrequadras da linguagem poética. Veja você também esta outra Brasília, sempre reinventada.

A LUZ BATE E NÃO VOLTA
Fotos de Edilson Rodrigues

Fabrício Carpinejar



Não se entende uma cidade
enxergando.
Não se entende uma cidade
ouvindo.
Não se entende uma cidade
decorando os números e as letras.
Não se entende uma cidade
atravessando sua cintura de filhos.
Não se entende uma cidade
dividindo suas estrelas entre o Norte e o Sul.
Não se entende uma cidade,
partindo ao meio os cabelos das estradas.

Não se entende uma cidade
dormindo nela, dormindo com ela.
Não se entende uma cidade
caminhando e anotando as bainhas de suas calças.
Não se entende uma cidade
com agulhas, moedas, lápis.

Uma cidade não se entende
se não estivermos com ela até depois da morte.
Até enjoar da morte.
Até que o fim altere o nascimento.

Explicam-me Brasília, como se ela fosse uma máquina.
Como se fosse o próprio mapa.
Brasília não é para funcionar.
É para delirar.

Brasília não é uma cidade pronta, uma cidade armada.
Lamento dizer: Brasília não acabou.
Candangos, voltem às obras!

Não é o desenho de um único homem,
uma pista de pouso, as ruas largas., um emprego.
Um busto, uma catedral, o planalto.
Brasília não é caligrafia,
por mais que se escreva entre as linhas.

Brasília não é objetiva, concreta,
por mais que se mostre inteira.

Brasília não é a falta de umidade.
Um aquário de ostras.
Um quarto de solteiro.
Os prédios não são boiadeiros.
Os prédios são prédios somente,
fingindo escavar o céu.

Brasília não é dormitório.
Não é para fazer a vida, ganhar dinheiro.
É a cauda de um piano, um peixe andando a cavalo.
Brasília é uma criança sentada na pedra,
chateada porque a terra vermelha não brinca.
A terra vermelha suja, mas não brinca.
A terra vermelha logo vai com o vento caçar passarinho.

Tente moldar a terra vermelha, ela escapa. Nem molhada,
se acalma. A terra vermelha é uma árvore voando.

Brasília é ruiva.
Brasília tem sardas.
Brasília tem medo de dormir sozinha.

Candangos, não são vocês que devem se adaptar à cidade.
Quem disse isso? Brasília não está concluída.
É a cidade que precisa se adaptar a vocês.

Brasília está cansada de ser real.
Cansada de ser resumida, reduzida a um sopro de luz.
Brasília está cansada de ser real.
Não desistam de imaginá-la, candangos.


ONZE VISÕES DE BRASÍLIA

Pelo sexto ano consecutivo, o Correio brinda o leitor com visões inéditas sobre Brasília. Em seu aniversário de 47 anos, quatro artistas locais e sete de fora foram a campo em busca do melhor ou mais pessoal ângulo de abordagem para a capital que se aproxima do cinqüentenário. Pela primeira vez, um escritor em língua estrangeira foi especialmente convidado para o projeto de narrar os artifícios do urbanismo e da arquitetura modernos, como já fizeram com palavras e imagens, entre outros, Ana Miranda, Verissimo, Elisa Lucinda, João Moreira Salles, Miguel Rio Branco, Milton Hatoum, Marcelo Camelo, Mauricio de Sousa, Ney Matogrosso, Jorge Furtado, Paulinho da Viola e Ziraldo. Ao chegar de outra capital, Buenos Aires, o escritor argentino Alan Pauls não teve dúvidas ao definir sua primeira impressão: acabara de entrar numa ficção científica.



Uma invenção futurística com viés poético, garante o gaúcho Fabricio Carpinejar, poeta em tempo integral. "As ruas de Brasília são pontes. Há sempre um mar de claridade por baixo. Minha filha Mariana mora aqui, tudo o que vivo na cidade vem com a voz dela. Ela me narra. Ela me leva de ônibus. Brasília me dá uma vontade danada de ser feliz", ri Carpinejar, para vergonha da filha adolescente. Como não poderia ser diferente, ele saiu da visita deixando para trás versos bem brasilienses, que Mariana lerá para sempre. "Para chegar aos braços de minha filha, tenho que tomar a L2."

Curioso por natureza, o jornalista paulistano Marcelo Duarte foi em busca do inusitado. Encontrou Jesus na Feira do Guará. "Você não sabe a emoção que estou sentindo", confessou na hora o autor do Guia dos curiosos e o editor por trás (ops) do fenômeno Bruna Surfistinha. A vinda a Brasília fez Marcelo adiar uma viagem ao Maranhão para tomar o guaraná Jesus. Na primeira visita à cidade, em 1978, ele não encontrou a camisa do Brasília Esporte Clube. Trinta anos depois, deparou-se com mais do que imaginava: "Parece que todo o Brasil está de alguma forma dentro de Brasília. Voltei entusiasmado, falando do sorvete de mel de engenho com queijo coalho, do guaraná Jesus, do Conic..."

Já o fotógrafo Luis Humberto, 72 anos, em Brasília desde 1961, aceitou o desafio de reencontrar o que conhece muito bem. Ficou decepcionado com o que observou há duas semanas na Praça dos Três Poderes. "Tomei um susto. Colocaram umas grades horrorosas em volta do STF. Não dava para chegar perto da estátua da Justiça, estava tudo cercado." Decidiu buscar imagens mais adequadas aos tempos que Brasília vive. Munido de câmera Nikon F3, fotografou o novo Museu da República ("muito árido, pouco atraente para o passeio a pé, mais uma prova de que Oscar não é fã do paisagismo") e também o local no Eixão Sul onde foi colocada escultura em homenagem a um ciclista atropelado.

Morador da mesma Asa Sul durante partes da infância e da adolescência, o guitarrista Dado Villa-Lobos nunca esqueceu a cidade onde virou roqueiro, a cidade que viu formar-se a maior banda da história do rock brasileiro, a Legião Urbana. Desde 1985 no Rio de Janeiro e hoje em carreira musical solo, Dado não dá margem à dúvida: "Adoro a cidade. Sou um paladino de Brasília. Sempre a defendo."

Do contrário foi acusado o deputado federal Fernando Gabeira. Para esclarecer a polêmica frase publicada na Playboy, em que dizia que a noite brasiliense só tem "lobista, puta e deputado", Gabeira aceitou o desafio de refletir sobre a capital em seu aniversário. "Tenho estudado há algum tempo a maneira como Brasília é vista pelos grandes urbanistas, buscando sintonizar esses estudos teóricos com a minha experiência pessoal", conta. "O texto que escrevi para o Correio é uma introdução desse estudo. Percebi, por exemplo, que o Setor Hoteleiro não foi um sucesso conceitual, não deu certo, todos ficam muito isolados. O segundo ponto, o mais importante, é que Brasília se legitima pelo mais importante dos aspectos: a satisfação dos moradores com a cidade."

Moradores como o cineasta paraibano Vladimir Carvalho e a escritora mineira Stela Maris Rezende. Vladimir tomou a palavra para ocupar com realidades de documentarista a Esplanada dos Ministérios. Stela Maris, por seu turno, fez ficção situada em Taguatinga, onde morou por mais de 40 anos. "A cidade tem encantos que só se acham aqui, como a sensação de amplidão, o sossego, o silêncio. É o melhor lugar do mundo para escrever. Para publicar, não", diz ela, que tem livros lançados por 12 editoras - apenas uma da cidade.

Outra autora de livros infantis e infanto-juvenis, a carioca Rosa Amanda Strausz, conheceu Brasília de férias em 1968. Passou um mês na Asa Norte. Criada em apartamento no bairro do Flamengo, lembra da sensação de liberdade que o Plano Piloto proporcionava para as crianças. "Parecia uma cidade de brinquedo. A gente voltava para casa totalmente coberto de terra vermelha", recorda. Foi a partir dessas lembranças, incluído aí o clima pesado da ditadura militar, e em confronto com a Asa Norte contemporânea, que Rosa se inspirou para escrever seu texto.

O artista plástico goiano Siron Franco confessa seu amor por Brasília, onde já morou. Ou antes disso: "Estive na inauguração de Brasília. E - para cá - sempre pensa em voltar". Assim como Oswaldo Montenegro, que gostaria de encontrar no palco a nova geração de atores e cantores. Um brasiliense de carteirinha, Oswaldo, autor da música e do musical Léo e Bia, que disputa com Eduardo e Mônica o título de casal mais famoso da cidade. O menestrel retornou ao "centro de um planalto vazio" e constatou: "O período que vivi em Brasília foi um momento especial da minha vida. E minha ligação com a cidade continua forte". Daqui ele saiu para a fama nacional. Mas nunca descobriu pôr-do-sol igual.



10:50 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 20, 2007



DONA GABRIELA E SEUS FALECIDOS
Arte de Paul Delvaux
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Fabrício, sou superfã da sua coluna e, principalmente, do seu estilo de escrever. Você manda bem... Enfim: tenho 43 anos, sou solteira e ainda a procura de alguém legal. Já tive três relacionamentos sérios - com um deles, fiquei casada cinco anos. Mas confesso que com todos aconteceu a mesma coisa: eu acho tudo lindo no começo, mas depois, sei lá, parece que enjôo e faço de tudo pra detonar a relação. E funciona. As coisas se deterioram e...pimba...lá foi mais um....chamo a todos de falecidos...heheh... Mas deixa os mortos em paz. Esse e-mail é para falar de uma pessoa que entrou na minha vida sem chance alguma de "significar" algo, porém, já dura seis meses. O cara é casado, não tem nada a ver comigo em termos intelectuais, sociais, materiais. No entanto, temos uma excelente química sexual. Para mim, isso já basta, pois é muito, muito bom. Com o relógio do tempo passando, estou ficando grilada. Afinal, por que não consigo terminar se só temos o sexo em comum? O óbvio ululante seria concentrar minhas forças em procurar algo mais sério, algo constante - afinal, tenho que dividi-lo --, algo com futuro. Às vezes penso estar apaixonada, o que simplesmente me apavora. Será que estou ou não? Vou esperar ansiosa por sua resposta. Acho que nem tanto pelo conteúdo, mas em especial pela forma. Juro. Será uma honra para mim saber que suas palavras tão bem escritas serão focadas em dissecar um pedaço da minha vida tão ordinária.

Gabriela

P.S: Para enfatizar as discrepâncias da minha relação acabei sendo muito radical. Além do sexo, tenho uma afinidade interessante com o cara. Ele tem uma postura íntegra, honesta e batalhadora e sem cinismo perante a vida - algo que lembra meu pai. Freud explica?"


Gabriela, já pensou que não é problema seu terminar os relacionamentos? Os relacionamentos podem ter dado o que precisava.

Ou não espera mesmo amar. O que a satisfaz é o poder de conquista, usa a sedução como um elástico. Não deseja que os homens a conheçam verdadeiramente - seu tédio, sua rotina, sua normalidade. Talvez seja uma defesa de seu narcisismo. Não suporta ser julgada - e logo mata o amor antes que atinja o grau de intimidade e intervenção. Tem um gigantesco medo de ser criticada e rejeitada e afasta qualquer chance de avaliação externa. Você não enjoa dos namorados, mas de si diante dos namorados.

É um pouco triste - e não há nenhuma reprimenda nisso - de se repetir em toda relação.

O namoro é sempre maravilhoso em seu início: é a aventura da diferença. Mas não chega perto do deslumbramento do meio, quando baixamos as armas e deixamos que nossa personalidade firme a semelhança, deixamos de defender o que acreditamos para apenas mostrar. Confiar em alguém é confiar em si mesmo. O casamento é descobrir nosso saboroso limite. Sempre escrevemos na primeira pessoa. O amor nos permite entender que a terceira pessoa é também biográfica.

Sobre a nova conquista, está desobrigada, já que ele não atende suas expectativas. Como diz: "é casado, não tem nada a ver contigo em termos intelectuais, sociais, materiais". Ele não se enquadra em nenhum de seus receios, o que favorece seu crescimento. Não é uma ameaça, é um aliado para adiar decisões. Continua apaixonada pela sua segurança. Amar é - curiosamente - desapaixonar-se por aquilo que somos.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

12:39 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 19, 2007

O PAI DA INSISTÊNCIA
Pintura de Marc Chagall

Diana Corso
diana.corso@zerohora.com.br



É barbada ser pai quando os filhos são reféns do cotidiano, das suas idas e vindas. Não importa a hora e o humor em que se chegue, a criança está lá, independente do efeito de grandeza, prazer, temor ou embaraço que a presença do pai lhe produza. Minto. Ser pai é sempre difícil, mas mais ainda quando não se mora com os filhos. Nesse caso a negociação fica delicada, o pai tem que agradar para receber o dom da convivência. Se o pai é chato, casmurro ou põe limites, os filhos se esgueiram para longe, escondem-se atrás dos ressentimentos da mãe, chantageiam. Paradoxo insolúvel, pois pai que é pai não agrada, faz o que tem que fazer, duela a quien duela. Como então passar a necessária lição de vida num fim de semana alternado, na noite previamente estabelecida, em meias férias? É como sexo com hora marcada, fica estranho.

Tudo o que ensino não tem uma segunda-feira, lamenta Fabrício Carpinejar em seu recém lançado livro de poesias: Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil). Sujeito intenso, homo faber da poesia, tudo que vivi foi rente à pele, diz Fabrício. Ser pai não seria diferente, a dor de deixar de viver com sua filha mais ainda. Uma separação, quando há filhos, produz também uma dor diversa das mágoas do amor dissolvido do casal: a dor da perda da convivência com os filhos. Quase sempre são os filhos os porta-vozes das seqüelas deixadas pelo fim de um casamento. Quanto aos pais, por serem agentes da fragmentação da família, parece que perderam o direito de queixar-se.

Fabrício não. Ele esperneia, grita, reclama e resmunga pela família interrompida. Sofre com a distância da filha no viva voz. Lamentando a ausência, ele acaba ensinando um pouco do que aprendeu com a presença. Fala também da experiência de ter um filho em casa e, não se iludam, ali também um abismo de incompreensão assola pais e filhos. Eles nascem quando já é tarde para nossa infância, já fizemos dela uma separação litigiosa. Obstinados em suas existências tão incompletas, em seus raciocínios enviesados, os filhos nos impõem um reencontro neurótico com as crianças que fomos, com os pais que tivemos. Eles querem nos devolver a infância quando já não sabemos mais brincar (sic, Carpinejar). Desse conflito são paridos dolorosamente, prematuros, enrugados e aos gritos, os pais que seremos.

Meu Filho, Minha Filha é a prova de que na família reinventada depois da morte do casamento indissolúvel, é a paternidade que é indissolúvel. Claro que há os homens que abandonam os filhos depois de uma separação, como se eles fossem adendos do corpo da mulher não mais amada. Esses, provavelmente, não eram pais nem quando estavam casados. Eram os maridos da mãe, que viviam na mesma casa dela. Se um homem é pai, continuará a sê-lo a cada dia da vida do filho.

Pai que é pai, lamenta o poeta, lê seus filhos, mas infelizmente não estará aqui para completar a leitura. Deve partir antes, é assim que deve ser. Mas se for insistente, ficará tatuado na alma dos seus descendentes. Para o sempre deles, mesmo que eles só reconheçam isso quando se tornarem pais.

(Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, página 05
Porto Alegre, 18/04/2007 Edição nº 15212
)

10:27 AM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 17, 2007

INVOLUNTARIAMENTE PORNOGRÁFICO
Arte de Raoul Hausmann

"Descrito por alguns escritores, o ato sexual é uma fraude. A metáfora os põe a perder. Como levar a sério os 'mastros', 'as espadas', 'os vales úmidos' e as 'florestas' de que lançam mão para referir-se à genitália?"
Marçal Aquino, em "O Amor e outros objetos pontiagudos".


Fabrício Carpinejar



Nunca chamei meu pênis de nome próprio. Ele não é cachorro.

Muito menos tenho personalidade dividida para que ele pense por mim. Não combina batizar o pau com nome masculino. Não soa másculo. É o equivalente a chamar um outro homem na cama.

Já imaginou se eu o nomeasse de Rubens. Coitado de quem é Rubens em primeiro lugar. O papo com a menina seria mais ou menos assim: "Você não conversa com o meu Rubens". Ou "meu Rubens está com saudades de você". É de estrangular a excitação.

Na primeira briga do casal, escaparia da responsabilidade com uma terceira pessoa: "Meu Rubens não concorda com você, está magoado, ele vai embora".

Quando tentamos fugir do sexo, ficamos ainda mais pornográficos. Quando tentamos disfarçar as palavras sexuais, acabamos ainda mais explícitos. A poesia no sexo serve para chamar atenção do que escondemos.

Toda metáfora sacrifica a naturalidade.

Buceta é buceta, pau é pau, cu é cu, não há o que inventar. Sexo é sexo. A simplicidade está na combinação. Quem tenta encontrar outra expressão mais bonita, florear, é involuntariamente grotesco. E grosseiro.

Em roda de conversa, ouvi amigas e amigos comentando que é uma delícia colocar sorvete ou marshmallow para chupar. Sorvete eu tomo no pote. Não pretendo infantilizar a boca para diminuir a culpa. O que me agrada é o gosto natural, a química, o cheiro do corpo.

Além da comicidade, existe a vergonha da dupla interpretação. O constrangimento de sugerir o que não se esperava.

Não consigo chamar a buceta de gruta. Gruta costuma ter uma santa. Gruta do amor é mais terrível: uma procissão de santas. Os seus derivados grota e greta não perdoam. "Deixa acender uma vela" é retornar à Idade Média.

Não consigo chamar a buceta de grelo: lembra churrasco e família. "Salsichão no grelo", bah!

Não consigo chamar a buceta de buraco negro, nem preciso externar o motivo. Triângulo das Bermudas é para desaparecer, deixe um bilhete de suicida por prevenção.

Não consigo chamar a buceta de gaveta, é não sair do escritório.

Não consigo chamar a buceta de perereca, a verei saltando freneticamente. Qualquer outro animal não ajuda o vocabulário, como aranha. Eu que tenho dificuldade com o erre, teria que repetir "alanha, alanha, alanha!".

Não consigo chamar a buceta de estojo (Lápis no estojo é de chorar).

Não consigo chamar a buceta de rachadura e fenda, evoca infiltração.

Não consigo chamar a buceta de mata, parece que ela não está depilada há séculos.

Não consigo chamar de xota, assemelha à dança típica. Ou montanha úmida, é avisar que ela está gorda. Cuidado com a avalanche.

Não consigo chamar de concha e canoa antes de espiar se há um salva-vidas de plantão para não morrer afogado.

Não consigo chamar o meu pau de mastro, de vara e de cassetete. Não tenho fantasia militar. Vá que desembainhe a espada e seja um punhal.

Os efeitos líricos diminuem a grandeza do despojamento. Vira piada: tente comparar os seios com melões. E logo com uma mulher que recém fez cirurgia para diminuir o peito. Ou com laranjas e pêras. Só falta pesar a fruta.

As alegorias complicam a nudez, a linguagem pode vestir os amantes no momento em que estavam despidos.

O pudor na linguagem provoca a maior falta de pudor.

9:45 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 15, 2007

DERRAMANDO-SE
Arte de Matisse

"As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não."

Manuel Bandeira, "Arte de Amar"

Fabrício Carpinejar



Raramente uso a palavra alma. Alma é uma facilidade. Como se a pronunciando, já estamos sendo profundos.

Minha mãe fica ofendida: diz que sou desalmado. Não é verdade, até o musgo tem alma. O musgo da escadaria de casa é um tapete de cadarços. Tem em sua frágil esponja o som dos sapatos que o atravessaram. O musgo é a campainha dos pés.

Não é fácil procurar o corpo. Por estar sempre à disposição, o corpo confunde. Ver o corpo não é chamá-lo. Por isso, tardamos a descobrir o que o corpo sente. Precisa vir um amor para me ensinar o próprio corpo. O corpo se maravilha de visita. Meu corpo só se enxerga sendo admirado por uma mulher. Em mim, o corpo é cego. Tanta faz que tenha passado trinta anos com o meu corpo, o corpo não acorda com a minha voz. Quem não doa o corpo, não pode recuperá-lo.

Eu sou adepto do corpo. O corpo me ensina mais humildade do que a alma. O cansaço do corpo. Os limites do corpo. Os senões do corpo. Os serões do corpo. O corpo me dobra e me convalesce. O corpo manda, não avisa. Por ele, sei quando devo voltar. Quando devo parar. Quando devo me ajoelhar. Quando devo desistir. Quando devo recomeçar.

A alma não, sempre me pede o que não posso fazer. A alma me mata. A alma me condena a não me contentar. A alma é ambiciosa, insatisfeita.

No verão, olhava com compaixão os cachorros e os gatos, com sua enormidade de pêlos. No inverno, eles deveriam me olhar com espanto piedoso, estranhando aquele ser imensamente depilado. O corpo é estranho para quem não pensa com ele.

O corpo me adapta a morar onde não quero, a criar desejos do nada. O corpo é uma insignificância imaginária. Vejo o modo como ela põe os cabelos para trás, e o corpo quer ser a concha de sua mão. Vejo o modo como ela morde os lábios e o corpo quer ser seu dente da frente. Vejo o modo como ela afasta os quadris e o corpo amarra as duas pernas.

Os corpos se esclarecem, as almas complicam. Os corpos não mentem, as almas fogem. Não há como esconder um corpo. O corpo e sua alegria muscular. O corpo e sua euforia de veias. O corpo e sua chuva de olhos no escuro.

O corpo me envelhece e me põe a exercitar outras virtudes. Ele muda, mas não me troca.

Quando amo, sou inteiro corpo. Muito mais corpo do que alma. O corpo não precisa esperar a noite por uma mulher. O corpo já tem a noite dentro de si.

Beije o corpo com suor, não com os lábios. O suor é boca pelo corpo.

O corpo se arrepia. A alma se convence.

O corpo. O corpo. O corpo.

O corpo é essa garrafa que quebro para viver derramado.

10:42 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 13, 2007



O AMOR NÃO EXISTE?
Arte de Paul Delvaux
Do Consultório Poético
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Fabrício Carpinejar



"Caro Carpinejar,

Fui convencido esses dias, por uma amiga, de que o amor não existe.

Segundo ela, uma moça inteligente e sensível, o amor não passa de uma grande ilusão, um meio de enganar-se, uma fuga, já que mais cedo ou mais tarde a idealização desmascara a pobreza de sentimentos que ali existia. Além do mais, alega a menina, já que na impossibilidade de nos aceitarmos, como aceitaremos o outro? Pergunta-me o que é o amor além de uma troca de vagos interesses ilusórios para que a vida vista-se de algum sentido para ambos? Creio que ela me convenceu. O que terias a dizer sobre tais argumentos?

Grande abraço
Rubens"


Olá Rubens!

Se ela o convenceu, não posso mudar sua opinião. O amor é tudo, menos convencimento.

O amor não é razão, é desejo. O desejo arruma razões - as mais diferentes - para se preservar. Por isso, parece tão alucinado e contraditório.

Por dentro, o amor não se mexe. Por fora, o amor modifica.

A idealização não desmascara. Entendo que a idealização salva, porque ela sonda universos imaginários para aperfeiçoar o nosso.

Conhecer uma mulher na sua intimidade é insubstituível. Não se troca interesses, mas assume-se um interesse em comum: o de não ter interesses para permanecer juntos.

É mais do que colocar a escova de dente ao lado da outra, ou de acordar acompanhado, ou de enfrentar as dívidas e os problemas. Amor é recuperar a alegria miúda de não depender de mais nada para ser feliz. Nem de si mesmo. É a pobreza, não a ambição, que mantém o amor acordado.

Está esquecendo toda a generosidade que envolve o amor. A doação. O esvaziamento dos preconceitos intelectuais. A necessidade de mudar os costumes ou enobrecê-los. A partir dele, saímos dos próprios condicionamentos.

Caso não goste de jazz, ela poderá ensinar o quanto é bom. Caso ela não goste de futebol, de repente estará torcendo como se fizesse parte da torcida organizada.

Exato: só nos aceitamos quando o outro nos ensina o que somos. Nossa complacência, nossa tolerância não permite a transparência. Nos perdoamos porque estamos acostumados a fazer sempre igual.

Como o amor, o igual é diferente. O igual é observado com atenção e minúcia. O igual é assistido.

O amor é tão cheio de sentido e fúria, que parece sem sentido quando queremos defini-lo.

Por último, um palpite: talvez ela esteja o provocando para despertar seu amor. Ela não espera sua concordância.

Abraços,
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

11:13 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 12, 2007

O SPAM VEIO DE CASA:
Curiosidade é saúde, desconfiança é doença

Arte de Cy Twombly

Fabrício Carpinejar



Os meios não justificam o fim. Por mais que se convencione de que o amor não tem regras, o amor tem legislação. O corpo tem legislação. As regras não são imutáveis, mas precisam ser respeitadas em comum acordo.

Conheço vários casamentos que terminaram na caixa de correio eletrônico. Não estou falando de um e-mail desaforado ou de um fora virtual, uma esmola diante da possível falência provocada pela indiscrição matrimonial.

Desconfiados de infidelidade, mulheres e homens logo violam os computadores de seus parceiros e devassam a correspondência de e-mails. É mais agressivo do que mexer nos bolsos e na bolsa. É mais agressivo do que conferir o boletim do cartão de crédito e a conta do celular.

Óbvio que alguma coisa será encontrada entre o destinatário e o remetente. Algo que desconhecem do marido ou da esposa. Podem achar mensagens excessivamente carinhosas, ou não compreender o súbito interesse por cavalos crioulos. Haverá textos cifrados, passíveis para qualquer contexto, do motel ao escritório. O que entender? O pior, sempre. A paranóia não procura boas notícias.

Quando se mexe numa caixa postal, o detetive doméstico ou o hacker amoroso tem certeza da traição. Procura apenas comprovar, para chafurdar o passado e reconstituir os últimos meses. Ele não está questionando, está julgando e elaborando a sentença. Como não deseja ser o último a descobrir o caso, elimina o pudor e quebra a etiqueta do convívio e da amizade.

Tomados de vergonha, ele e ela não contarão que invadiram. Começarão a perguntar - de modo inofensivo - sobre alguma pessoa. Toda resposta formal a respeito do assunto desagradará. "Ela é legal" e "ele é um grande amigo" não servem. Inicia-se uma pressão por detalhes em que o interlocutor não entende absolutamente nada - porque não sonha com a possibilidade de que seu e-mail particular virou uma biblioteca pública.

Quando se entra numa caixa postal que não é nossa, a infidelidade já aconteceu. Não adianta fundamentar a insanidade do ato porque foram encontradas provas verídicas de infidelidade. A conseqüência da busca e da apreensão não elimina o constrangimento. Não apaga a sensação de furto. O marido ou a esposa podem ter sido covardes de não contar o que estavam fazendo. Podem ser covardes pelas traições sigilosas.

Mas mexer na caixa postal dele ou dela é freqüentar o mesmo patamar de covardia. É arrebentar o laço de confiança.

Depois, o fio ficará curto para um outro nó.

4:56 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 09, 2007

SURPRESO COM A PRÓPRIA FAMÍLIA
Fabrício Carpinejar autografa hoje seu novo livro de poemas, "Meu Filho, Minha Filha"

CARLOS ANDRÉ MOREIRA


Mariana, 13 anos, que mora em Brasília, e Vicente, cinco, que vive em Porto Alegre com Carpinejar, foram as inspirações para o livro
Foto: Genaro Joner/ZH

Em seus livros, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar ficcionalizou muitas das etapas de uma vida, nem sempre na ordem convencional. Foi a criança em Um Terno de Pássaros ao Sul, o avô idoso em Terceira Sede, o homem que discute o próprio casamento na obra dupla Como no Céu / Livro de Visitas. Dando prosseguimento a essa falsa biografia em retalhos, ele lança hoje Meu Filho, Minha Filha, um livro de um pai que tenta, pela poesia, cantar os filhos.

Carpinejar, 34 anos, conta que este livro foi o que lhe tomou mais tempo. Pai de uma menina, Mariana, 13 anos, que vive com a mãe em Brasília (no dia seguinte à foto que ilustra esta página, a garota embarcou de volta), e Vicente, cinco, filho do segundo casamento e que mora com ele, Carpinejar alterna a obra entre dois motivos de reflexão: "Meu filho comigo" e Minha filha sem mim".

- Foi o livro que me deu mais trabalho. Eu precisava ter esse desenvolvimento da infância do Vicente, foi o nascimento dele que me deu a idéia da obra - explica Fabrício.

Meu Filho, Minha Filha é um livro no qual Carpinejar ainda lida com as imagens inusitadas que são características de sua poesia, sem vergonha ou constrangimento de buscar o lirismo. Mas busca um tom mais suave, uma perplexidade no entendimento desses filhos.

- Eu acho que a poesia anda muito presa no individualismo. O poeta se satisfaz com os próprios olhos. A gente precisa voltar a se assombrar com o outro íntimo, o que está com a gente: nossa mulher, nossos filhos - diz.

O livro é também uma obra de nostalgia: do pai pela filha, do irmão pela irmã, do pai pelo filho que ele próprio já foi. Embora admita que o ponto de partida seja sua própria situação familiar, Carpinejar diz que os poemas são também invenções.

- Eu tenho essa paixão de ficcionista, admito. Eu invento não só a poesia, eu me invento outro na poesia.

"Nenhum pai ensina a derrota ao filho
Não ensinei minhas crianças a perder
Permito que me ganhem nos jogos

e debochem de que sou ruim.
Cedo o resultado no final
quando seria impossível fracassar.

Chuto a bola na trave,
embaralho-me nas peças,
apago a soma das figuras.

Compadecem do meu despreparo
e não cogitam o enorme talento
que demonstro para errar seguidamente."

Serviço
O QUE: sessão de autógrafos de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 150 páginas), de Fabrício Carpinejar, precedido de leitura pelo autor e debate com Carlos Nejar, Celso Gutfreind e Mário Corso
QUANDO: hoje, a partir das 19h30min
ONDE: na Livraria Cultura do shopping Bourbon Country (Tulio de Rose, 80, fone 3028-4033)
QUANTO: o livro custa R$ 28


(Jornal Zero Hora, Segundo Caderno, página 05
Porto Alegre, 09 de abril de 2007. Edição nº 15203
)

8:20 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 08, 2007

AS ESTÁTUAS AMIGAS DE MEU PAI
Arte de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Andava com meu pai pelo centro de Porto Alegre. Ele segura a janela do carro como um chapéu. Debruçado de Deus, confessa: "Vejo nas estátuas homens que conheci".

Essa frase poderá um dia virar um poema. Carrega tanta autenticidade, explica o quanto o tempo não abre seus presentes. Meu pai, por exemplo, conviveu com Mario Quintana e ele está imóvel, em bronze, na Praça da Alfândega, impossibilitado de acenar e contar uma fofoca, sorrindo como se não tivesse sido carne e não se incomodasse com o arrulho das pombas ao derredor.

Essa frase poderá - como tantas outras - não ser escrita, o que não a diminui. Quantos poemas foram feitos sem escrever e não nos lembramos?

Lembrar não faz desejar mais. Ainda prefiro os poemas que não escrevi. Não foram julgados pela releitura. Foram perdoados pela voz.

Emudeço, não quero dizer nada que modifique seu pensamento. Ou que altere sua verdade. Já sentiram isso, de não merecer participar de um diálogo porque não há experiência suficiente para enriquecê-lo? Sou um ouvinte e me respeito de silêncio. O silêncio não humilha se estamos em nossa casa. Só constrange se estamos fora de nosso corpo.

Meu pai está envelhecendo. Não envelhecendo por ele, não deixará de acreditar que continua o mesmo. Ele observa uma bola de futebol e conclui com timidez: "faz tempo que não jogo": e se percebe mentalmente capaz de driblar com a intensidade de seus vinte anos. Nem rolo a bola em sua direção para que não perca a vontade. Ele ama Elza com a mesma franqueza que puxou a primeira conversa. E os cabelos brancos são guardanapos desnecessários, nem reconhece que estão sobre seus ombros, não estranha que estão partindo de sua pele.

Passeando com o pai notei que a cidade vai ficando velha em seu lugar. Ele pede que eu vá por caminhos fechados, usa como referência prédios que não existem, aponta atalhos a partir de restaurantes demolidos, entra em ruas que são contramão. Suas indicações são lembranças. O meu colégio, a minha universidade, a minha praça. A cidade é outra, meu pai, ou eu sou outro e não aprendi a escavar o que vejo?

Recordo dele e da mãe de manhãzinha. Ambos apontavam os lápis com vagar antes de anotar versos em seus cadernos. O que me intrigava é que não tinham pressa de escrever. Pegavam uma faca e descascava a cor chumbo com ternura. Raspavam a grafite, tomados de crespa paciência. Navegavam o caroço sem enjôo. Rolos de madeira em nome do capricho e da caligrafia fina. Eu chegava a supor que gostavam de apontar lápis, e não de escrever. Depois de afilar a ponta, fechavam os livros e partiam, satisfeitos, cada qual para um lado diferente, com nenhuma linha começada. Eles se agradavam em imaginar o poema mais do que transcrevê-lo.

Meu pai, diante de suas amigas estátuas, me alcança sua boca. E ela não é de pedra.

Sentar para escrever nunca será sentir para escrever.

8:21 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 04, 2007

O CHÃO É O LIMITE
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar
Poeta e professor



Acompanhado de minha filha, estava para embarcar em Brasília na última sexta-feira, 30 de março. Fui uma das vítimas da greve dos controladores de vôo.

O avião direto para Porto Alegre não decolou. A paciência também nunca mais voltou do aeroporto Juscelino Kubitschek.

A Infraero pedia para consultar a companhia, não havia ninguém mais da empresa Gol disponível. Coitado de quem estava vestindo laranja naquele dia - deve ter sido atacado. Entrei e saí da sala de embarque três vezes. Os seguranças cansaram de me revistar.

Cinco mil pessoas se aglomeravam nos cantos, nos corredores, nos guichês do saguão projetado por Oscar Niemeyer, que sequer cogitou que aquilo seria uma pensão de desabrigados. Gritos, correrias, discussões. Vi gente desmaiando, crianças e idosos numa romaria incansável sem preferência de atendimento.

Eu cheguei uma hora anterior ao embarque. Pago para sofrer. Fiquei no aeroporto das 18h de sexta às 3h de sábado. Suportei três filas (check-in, recuperação de bagagens e remarcação de passagem). Uma maior do que a outra. Para se ter uma idéia, todo o aeroporto estava remarcando os bilhetes. A última fila ganhava mais de um quilômetro e várias curvas de jibóia. Já escolhia entre a tragédia e o desastre e me contentava com o "menos pior".

Tenho certeza de que a Infraero tem um projeto maior para a classe média. Tenho certeza de que o governo federal está mostrando um ambicioso plano de metas nos aeroportos do país: treinar os usuários para a indigência. Estamos sendo exercitados para sermos mendigos. É como acampamento de treinamento militar na mata, só que num espaço público. O desejo faraônico do presidente é montar uma milícia de sem-teto com escolaridade e profissão. Obrigam-nos a aprender a dormir no chão. Obrigam-nos a perder a raiva e a insatisfação e a nos acostumar com o sofrimento. Obrigam-nos a jejuar, a fazer turismo forçado nos corredores, a gastar dinheiro contado com táxi e hotel, a transformar a calma no ressentimento. Obrigam-nos a convencer-nos de que a culpa é nossa: deveria ter viajado antes ou optado por nova escala. Obrigam-nos a não regressar para casa, a perder amores e compromissos, a nos desapegar dos vínculos. Obrigam-nos a humilhar nossos filhos com condições desumanas. Obrigam-nos a sacrificar qualquer senso de direção e ordem, a baixar a cabeça e aceitar e ainda agradecer o sadismo.

Minha filha Mariana, como uma genuína adolescente, tem como frase predileta: "Cada um com seus problemas". Ela entendeu, com 13 anos, que os problemas não são mais de cada um.

Artigo no jornal Zero Hora, Artigo, p. 23
Porto Alegre, 04 de abril de 2007. Edição nº 15198

9:46 AM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 03, 2007

FALTA DE CRIATIVIDADE
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar


A noite de amigo secreto costuma ser melancólica. Você gastou uma pequena fortuna para agradar o chefe, afinal nunca entende como colhe logo o nome do chefe no sorteio, e recebe de presente um sabonete ou um CD brega ou uma caixinha de lápis. Arrumar uma careta para agradecer é a parte mais difícil. Um pouco de cinismo ajuda os traços: "eu estava namorando na vitrine!" (o produto deve ter sido resgatado de uma caixa de saldos), "que sorte!" (não participo mais desse jogo), "como pode ler meus pensamentos" (se lesse, nem teria ficado para me cumprimentar).

Casar é viver num permanente amigo secreto. Invente de comprar um presente. O risco de errar é assustador. Tente adquirir lingerie, faça o absurdo de botar em cima de seu corpo para desespero cômico das atendentes. Depois do banho, a sacolinha. O número errado provoca o caos. A presenteada logo vai disparar: "Dez anos comigo e você não me conhece!". A média não foi tão ruim: você teve 50% de aproveitamento: acertou a calcinha e tropeçou no sutiã. Pensava que um deveria regrar o outro. Que nada, são números diferentes. Descobriu no exato momento em que entregou. O desempenho não foi o suficiente para se classificar para as finais. Ela dormirá bem vestida de abrigo.

O que era para ser uma celebração transforma-se numa disputa de argumentos. A vergonha é que ela vai até a loja trocar. As atendentes saberão no dia seguinte que você não conhece as medidas de sua própria mulher. Em sua próxima vida, trate de procurar uma loja diferente, esqueça aquela.

Ela não troca apenas o número, mas toda a peça. É uma nova peça. Reparando na mudança absoluta, ela amenizará: "Não tinha mais do meu tamanho".

Quem dá e quem recebe aguarda reconhecimento. Nem sempre vem. A frustração pode ser de ambos os lados. O presente é para ser uma surpresa simbólica. Na maioria das vezes, é só simbólica. Desejamos ganhar aquilo que cobiçamos ou que precisamos. Ninguém tem a obrigação de exercer a confluência. Queremos o nosso gosto confirmado, mas um presente é o gosto do outro, ou o que o outro julgava o nosso gosto. Não é para ser a tábua de salvação, e sim uma maneira de avisar que pensamos na pessoa. Não é para agradar, e sim para perdurar o laço.

Cometi a gafe de comprar o mesmo presente nas últimas viagens para minha mulher. Antes de ser condenado por unanimidade de votos, uma ressalva, sou obsessivo: há minha fase de bolsas, de sapatos, de acessórios, de blusas. Pois estava na época dos colares.

Dei três colares seguidos para ela. Ela suportou os dois primeiros. No terceiro, explodiu.

A reação inicial:

- Por que recebo colares sem brincos? (Não havia pensando nisso... Tem razão)

Procuro dissuadir e sondar se ela ao menos está satisfeita com a peça.

- Marrom de novo? (Não havia pensado nisso... Tem razão)

Procuro observar se sobrará alguma alegria da entrega.

- De bolas? Parece que comprou para sua mãe... Vou dar de presente a ela.

Matou de vez minhas possibilidades de festa. Colocar mãe na jogada é destruir a reputação e reavivar o complexo de Édipo, que julgava resolvido com cinco anos de terapia.

Não observamos que, ao atingir um afinado grau de intimidade, o deboche aparece com mais freqüência. O deboche é anular a reação, ridicularizar a tentativa, e estragar o romantismo. Não recomendo aos casais com histórico de brigas e alfinetadas.

No meu caso, foi usado com sabedoria. Ou o deboche ou ela receberia um quarto colar.

10:24 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 02, 2007

MEU FILHO, MINHA FILHA



Essa é a capa do meu novo livro "Meu filho, minha filha" (Bertrand Brasil, 2007). A primeira sessão de autógrafos será em Porto Alegre, logo depois da Páscoa. Dia 9/4, segunda, a partir das 19h30, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Tulio de Rose, 80 Tel.: (51) 30284033). Debate com Carlos Nejar, Celso Gutfreind e Mário Corso.

12:24 PM :: Comentários:

PARA NÃO ANDAR DESLIGADO
Em busca do tempo perdido celebra a psicodelia do grupo "Os Mutantes"


Dotados da máquina regressiva, Frank Jorge e Fabrício Carpinejar reviram os porões paulistas da Pompéia e Vila Mariana dos anos 60 e congelam o início fervilhante da banda Os Mutantes, que revolucionou o figurino do rock, o uso de feedback, distorção e truques de estúdio. Formado por Rita Lee (vocais), Sérgio Dias (guitarra, baixo, vocais) e Arnaldo Baptista (baixo, teclado, vocais), o grupo foi uma das experiências mais performáticas e radicais da era psicodélica. Um trio de experimentalistas musicais, que fundamentou o Tropicalismo e a cena pop do país. Esnobado pelos Tremendões, de Erasmo Carlos, e recebendo pouco caso da Jovem Guarda, a trupe encontrou seu nome em pleno programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, na TV Record, em 1966. Antes de Os Mutantes, foram Wooden Faces, Six Sided Rocker e O Conjunto.

Em busca do tempo perdido revisita clássicos como "Ando meio desligado" e "Desculpe, baby", faixas do LP A divina comédia.

O talk-show acontece nesta terça-feira, 03/04, às 20h30, no Café de Bordo do Paralelo 30 (Av João Correa, 997, Telefone 35913320, www.paralelo30turismo.com.br), em São Leopoldo.

Haverá concursos de sósias e de karaokê da banda (vale máscaras, vestido de noiva e toga), além do quadro "Conte sua vida". No clima descontraído, Em busca do tempo perdido usa a pedagogia do humor. Esclarece momentos históricos da cena cultural do país e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. Caracteriza-se pela interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.

12:19 PM :: Comentários:

NADA SECRETO

Depois de alguns meses, Mariana retorna ao seu blog. Para mergulhar de ponta cabeça.

12:17 PM :: Comentários: