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Consultório Poético

Blog

Quinta-feira, Maio 31, 2007

BANHEIRO MASCULINO
Arte de Basquiat

Fabrício Carpinejar



Os homens são grandes amigos desde que não tenha uma mulher envolvida.

Homens quando desejam uma mulher são capazes da mais crua peçonha. Podem romper uma amizade de décadas para seguir um amor. Ao trair o amigo com facilidade, não se pode esperar fidelidade deles com as mulheres.

A concorrência masculina é truculenta quando o negócio é arrebatar alguém, golpes baixos camuflados de camaradagem. O homem é direto para amar e odiar, e não consegue nem se conter e esperar para falar pelas costas: fala mal do amigo em sua frente para adquirir terreno e influência.

Quando o homem é fofoqueiro, nunca traz boas notícias. Ele é a má notícia.

Há muito observo essa espécie híbrida, que se desculpa com a discórdia. Amigos preguiçosos, onde sua sedução consiste em destruir a do colega. São fáceis de serem encontrados. Deve haver algum aí babando na balada, ou no bar, ou na universidade. Eles se infiltram em grupo, nunca sairão sozinhos para beber e dançar. Não têm coragem de serem avaliados. Fingem cumplicidade e intimidade para justificar suas presenças. Estão atentos e vigilantes, não falam praticamente nada, mas quando arreganham os dentes é para desarmar a conversa de quem se esforçava para se aproximar de uma mulher. Eles não têm a capacidade de articular idéias, superar a timidez e se apresentar ao combate. Permanecem na valas de seus ombros jogando terra. São os invejosos das conquistas de seus amigos. Os ciumentos. Os ácaros dos copos de cerveja.

A frase-típica do amigo invejoso é: "Ele fala isso para todas".

Amaldiçoado pela perda da companhia, por estar isolado subitamente em sua mesinha, chega perto da menina sendo paquerada pelo amigo no balcão, dá um leve tapa nas costas (duvide de quem dá impunemente tapinhas nas costas!) e solta o veneno.

A menina que estava rindo, feliz com a iniciativa e o papo, logo congela com a hipótese do interlocutor ser mulherengo e repetir procedimentos anteriores. Das duas uma, o homem encerra a conversa ou aceita que tudo será mais difícil com a mulher após a perda do encanto. Porque uma mulher não suporta um homem que use a mesma conversa com todas - essa é a maldade do comentário. Até suporta, caso não tenha conhecimento.

Ao invés de levantar a moral do colega, a frase disfarçada de brincadeira o empurra para o descrédito. Ao julgamento.

Raramente um homem vai ajudar um outro homem a conquistar, só mesmo se for sua irmã encalhada.

O mistério é por que o homem não levanta com seu amigo, para ir ao banheiro comentar sobre os rumos da noite? Não, não é para afirmar sua virilidade. Ele quer que o outro vá por cobiça, pretende se livrar do seu concorrente, para ficar com o mundo somente para si.



12:15 PM :: Comentários:

BANHEIRO FEMININO
Arte de Miró

Fabrício Carpinejar



Prosseguindo nossas hipóteses (nada de moralismo, são hipóteses), a mulher é indireta, oblíqua e educada. Não será óbvia, nem fará ameaças infantis para seu conclave, como "ela fala isso para todos". Suas artimanhas são secretas. Nasceu para a intriga, para as ruas paralelas das palavras.

Um olhar e já está flertando. Um olhar e o homem somente escuta a música.

Uma mulher numa mesa de bar está imaginando o que pode aprontar na semana seguinte. O homem ainda se lembrando do que fez ontem.

O que pode estragar o encontro feminino é o excesso de imaginação. A expectativa. Ela se prepara tanto que é difícil o pretendente não se tornar um pensamento usado.

Se estiver interessada no mesmo homem que a amiga, tratará de minar o homem, não a amiga. E nada de forma escancarada, duvidará do rapaz-alvo como se estivesse prestando um favor para sua colega. É o mal pelo bem. Examinará rigorosamente a aparência dele, suas possibilidades e intenções, encontrará trejeitos estranhos para ajudar o descenso ("Viu a gargalhada dele? Parece uma hiena pedindo ajuda"). Afundará nos detalhes ("Se ele ri dessa forma, imagina quando ronca?"). Não haverá conclusões diretas, como as masculinas, que exaltam o corpo, mas elaborações imaginárias sobre o temperamento. Ficções.

Não será esquisito se ela aparecer em seguida beijando fervorosamente o homem que julgou inadequado.

A saída conjunta ao banheiro é uma estratégia para complicar a noite. Como a relação entre as mulheres é baseada na sinceridade, surgirá um feixe de insinuações entre o batom e o lápis. Insinuações! A sabedoria de influenciar e não fechar as aspas. Não emitirá a opinião fixando o rosto da amiga, esconderá a gravidade do assunto, comentará diante do espelho repondo os traços, como se não fosse importante. Torna secundário o principal. O aparente despojamento desorienta, engana o endereço de sua verdade.

O homem é grafite; a mulher, pintura. O homem é explícito, a mulher implícita, nunca deixando claro o que ela acredita. Ela diz sem dizer. Sopra sem assinar a voz. Faz entender, mas deixa que a conclusão seja feita pelo outro. O homem é didático em seu desejo. A mulher é enigmática, dobra o silêncio como um leque.

A mulher realiza o que deseja, sem perder as amigas e o próprio desejo. Ela se reconcilia com facilidade, porque tem uma explicação para aquilo que não disse. Uma mulher ama se explicar porque ela tem segredos. O homem é raso de segredos para subir à tona.



11:55 AM :: Comentários:

UMA TENTATIVA DE DESFILIAÇÃO

Ricardo Silvestrin
Poeta



Não se pode acusar Fabrício Carpinejar de acomodação. Sua poesia vem buscando encontrar caminhos próprios e, em muitas vezes, conseguindo. É o caso deste seu novo livro de poemas Meu filho, minha filha (Bertrand Brasil, 144 páginas). Elege o tema da paternidade e o cerca por vários ângulos e matrizes de discurso. Embora a aparência externa de texto escrito em versos. E mais, em tercetos. Embora a cara de livro de poemas, correm por baixo de tudo quase-contos, quase-ensaios, quase-crônicas, quase-confissões. Algumas vezes, é quase uma frase que se quebra em linhas curtas (ou mesmo longas, mas que não abrem mão de virar terceto). Em outras, são versos. As imagens percorrem os poemas entre os ritmos e repetições, tentando harmonizar o dizer com o sugerir, o afirmar com o surpreender. Trata-se de uma empreitada difícil desenvolver um tema sem cair na dissertação - na estrutura introdução-desenvolvimento-conclusão. Para fugir a isso, aparece um clima de narrativa, de prosa. Há um narrador, que se funde num eu-lírico, e dois filhos-personagens. O tom de prosa, de uma história contada empresta uma certa originalidade. Parece uma confissão, mas pode não ser. Pode ser tudo ficção. A imprecisão entre o vivido e o criado joga o texto ora para prosa e ora para poesia. Acima de tudo, correm a tese, o tema, a abordagem. O pai e seus sentimentos. A leitura que ele faz da sua aventura paterna e do que apreende da vida de seus filhos. Mas louvar um livro pelo tema é coisa da prosa. Pelo projeto, é coisa de vanguarda. O que vale a leitura de Meu filho, minha filha são vários excelentes poemas. São tão bons que independem do projeto. Não precisariam fazer parte de uma estrutura que o justificasse. Aliás, esse parece ser um dos embaraços que a poesia enfrenta hoje na nossa cultura. Parece exigir que ela se justifique. Mas é só poesia? Fala do quê? Vamos animá-la, musicá-la, encená-la... Tragam um ator, um ilustrador. Vamos emprosá-la de uma vez por todas para ela ver o que é bom. Cito um dos poemas do livro que prescindem de justificativa para as suas existências de bons poemas: "Não há tantos terrenos baldios./Não há tantos pátios ou quintais./Meus filhos moraram em apartamentos toda a vida./Não tinham para onde fugir de mim./Não tinham uma reserva de invisibilidade./Um canteiro para guardar confidências/e fazer experiências com formigas./Sempre próximos de uma apreensão,/sempre com vontade de sair mais do que voltar./Eu já me abastecia de saudade/dos pais dentro de casa." Lembra um trecho de um dos ótimos poemas do Mario Quintana, Arquitetura Funcional: "Tu nem sabes/A pena que me dão as crianças de hoje!/Vivem desencantadas como uns órfãos:/As suas casas não têm porões nem sótãos,/São umas pobres casas sem mistério./Como pode nelas vir morar o sonho?/O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso/(Como bem sabíamos)/Ocultá-lo das visitas(Que diriam elas, as solenes visitas?)". E não pensem que cito Quintana pelo fato de ele e Fabrício serem gaúchos. Ou porque Quintana é um modelo a ser seguido. Todo bom poeta segue a si mesmo. Cito porque os poemas dos dois se encontraram. Por isso, insisto na leitura isolada dos poemas do Fabrício mesmo num livro que pede a seqüência, o projeto. Cada poema vai seguir sozinho o seu rumo daqui até sabe-se lá quando. Quando todos nós não formos senão um nome num arquivo, ou nem isso, alguém vai abrir um livro, ou uma página da internet, ou sabe-se lá que mídia real ou virtual e vai ler um poema, pensar sobre ele e, talvez, mostrar para um amigo.



Revista Aplauso, Livros, Porto Alegre (RS), número 84, junho

11:54 AM :: Comentários:

ITAPEMA FM (POA)

Passo a colaborar com dicas de cultura (literatura, cinema, gastronomia, artes plásticas, o que me conquistar ao longo dos dias) para a Rádio Itapema, 102.3 FM. Será um comentário semanal. O primeiro acontece nesta sexta (1º/6), a partir das 10h.

11:53 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 27, 2007

TOMADA DE CONSCIÊNCIA
Para Solegue
Desenho de Vicente

Fabrício Carpinejar



O inverno havia virado uma saudade, não descia os blusões do terceiro andar do armário para as estantes próximas, até que viajei ao interior do estado e ouvi novamente os estalos mais finos e insignificantes dos meus ossos. Temperatura de 0°, espera em rodoviárias bruxuleantes e a necessidade de puxar conversa com estranhos como uma forma de fogo para recuperar a cor. Respirar, rezar.

Matei a vontade de observar o potreiro estrelado do céu. Que prazer olhar o céu antes de dormir. É um lucro morar em Tapera, Passo Fundo, São Borja e ter aquelas lanternas chinesas para nunca menosprezar o destino de uma rua. Aqueles estrelas estão tão perto, que poderiam me dizer onde fica determinada praça.

E o que me consola quando cristalizo os pés na geada é seguir o rosto das mulheres. São mais sensuais do que se estivessem nuas. Não estou defendendo teses muçulmanas, mas os seios e as curvas já estão em seus rostos vibrando. E me explica, como não sucumbir a uma mulher mordendo os lábios? As mulheres no inverno mordem os lábios com mais freqüência. Sim, é a boca seca, sei a explicação, não decifro o mistério. A mordiscada no lábio inferior é uma pressão na medida certa, um dobrar de joelhos da face, que desvia qualquer pensamento ao quarto. Limpar o canto da boca com a língua não chega perto de uma mordida secreta. Uma mordida em si que as mulheres fazem, uma mordida de seu próprio gosto. É como uma fruta se mordendo inteira, se provando depois do sol.

O frio invernoso de outono me fez recuperar o sentido de cozinha. O sentido de família. Não que eu tenha perdido, mas ele voltou com uma generosidade a ligar os fios de meus cabelos.

Puxar uma cadeira de vime e prosear ao redor do fogão a lenha. Como eu me esqueci disso? Você não notou que ninguém mente diante do fogo? As conversas são verdadeiras entre o nó de pinho e a chama. Não se quer ir dormir cedo. Fala-se com uma pausa de vinho. Uma pausa de contador de história.

Como é fundamental para uma família permanecer inteira que almoce e jante junto, um olhando o outro, um respeitando o lugar do outro ("aqui senta meu pai, aqui senta minha mãe"), narrando seus dias, seus problemas e irritações. Cada assento, uma promessa da voz.

A casa de madeira da nona ressurge intacta nas cidades pequenas. Não foi vendida às pressas, não foi desmembrada pela gula de seus parentes. Existe sempre um chapéu de feltro enorme, agarrado a um prego, como uma mancha de azeite que vai crescendo. O chapéu é imensamente vivo, tanto que produz sombra de lustre. Perto dele, uma fotografia antiga, uma caixinha enferrujada, um Deus pintado, um armário com a maçaneta quebrada.

Reparo que escondemos a eletricidade. Em nossas residências e apartamentos urbanos, as tomadas não podem aparecer. Ficam no rodapé do chão, intrusas e insensíveis. Fios e fios nos cantos para não denunciar sua origem.

No interior, as casas têm tomadas no centro das paredes. No meio. E não são feias, não são grotescas; são sinceras. Fáceis de encontrar. Como deveria ser a vida quando precisamos escutar o próprio corpo. Seus longos silêncios e curtos tremores. Seu inverno.

9:44 PM :: Comentários:

Jornal O GLOBO, caderno Prosa e Verso, página 02

LÍRICA DESPUDORADA DE PAI PARA FILHO
Carpinejar faz meditação em versos sobre a paternidade no mundo de hoje

Marcelo Backes*


CARPINEJAR: capaz de fazer poesia épica, quente, demorada e real

Carpinejar é o escritor mais conhecido de sua geração, o único do mundo a vender poesia. Sua obra joga por terra a "constante de Enzensberger", criada pelo poeta e crítico alemão de mesmo nome: ela diz que, por razões inexplicáveis, há sempre, em qualquer país do mundo e qualquer época, 1354 leitores de poesia.

Meu filho, minha filha é o nono livro de poesias de Carpinejar, se incluída na lista a coletânea Caixa de sapatos, que bebe de suas quatro primeiras obras. É tanta lírica que eu quase poderia voltar a lembrar Enzensberger, criador da máquina de fazer poesia, capaz de produzir um poema a cada 30 segundos. Mas Carpinejar é bem mais do que lírica serial.

UM CARPINEJAR MAIS PERPLEXO E MENOS CATEGÓRICO

Quais as razões de tanto sucesso? Muito além do marketing engenhoso, uma delas certamente está no vigoroso subjetivismo narrativo do poeta, que invoca cumplicidade. Se a lírica sempre foi o mais subjetivo dos gêneros - pelo menos antes da ascensão do ensaio -, Carpinejar ficcionaliza sua vida em sua poesia. Em Terceira sede, seu terceiro livro, mergulhou na terceira idade, "antecipando a velhice"; em Como no céu / Livro de visitas discutiu o próprio casamento; mesmo a árvore Avalor, narradora de Biografia de uma árvore, não deixa de ser Carpinejar em lenho e seiva. Em Um terno de pássaros ao sul, o poeta cantou sua relação com os pais - com o pai sobretudo, tanto que a obra pode ser considerada uma nova Carta ao pai em versos, um Pedro Páramo sulino - na condição de filho, e em Meu filho, minha filha canta a relação com os filhos na condição de pai, em um diálogo alternado "Meu filho comigo", "Minha filha sem mim". Embora mais simples na linguagem, mais limpo e plano nos tercetos elegantes, que não aparecem inçados de figuras de linguagem, Carpinejar segue pisando sem pudor no brejo do lirismo. Como autor, se mostra mais suave, um pouco mais perplexo e menos categórico, mais dubitativo em relação ao mundo.

Sobretudo nas partes relativas à filha, há versos de altíssima voltagem: "Tudo que ensino/ não tem uma segunda-feira/ e uma terça-feira para permanecer". A família esfacelada do mundo contemporâneo volta a ganhar fundamento na subjetividade lírica do poeta quando brada: "Deixei de ser pai e virei a pensão de tua mãe." O dedo toca a ferida da incompreensão da filha, deixando as luvas de pelica de lado, quando diz: "Esperas me afastar para limpar meu beijo/ as costas dos teus braços estão sujas da minha boca." São achados de valor, que adquirem forma sob o machado de um poeta mergulhado na recordação dolorosa, que tem, ademais, o domínio no manejo da lâmina e o conhecimento preciso de seu peso.

Carpinejar é o pai amoroso que é derrotado de propósito nos jogos com os filhos, se repete nas histórias e é chamado de louco. É o pai que protesta, que sofre com a distância e ainda comove o mundo ao dizer que não deixou de viver devido à paternidade precoce, mas se formou e trabalhou - viveu! - justamente por ter se tornado pai. Buscando abrangência universal na subjetividade de seu exemplo, constrói uma obra que medita sobre a paternidade no mundo de hoje, que tateia no escuro e às vezes toca em cheio ao tentar compreender o significado da família depois do fim do casamento indissolúvel, afirmando teimosamente o caráter indissolúvel de sua paternidade; apesar da família separada em vários tetos, dos finais de semana alternados, dos retalhos de outras famílias.

MAIS UM CAPÍTULO NO ROMANCE EM VERSOS DE SUA VIDA

O próprio Carpinejar volta a lembrar Um terno de pássaros ao sul quando diz: "Queria ser logo pai/ para deixar o encargo/ de ser filho." Depois do acerto de contas, do pedido de desculpas e da disposição à luta mostrada ao pai na obra anterior, Carpinejar agora aborda o mundo de seus filhos em imagens que continuam a desenhar a infância, encontros e desencontros, despedidas, separações. Assim, Meu filho, minha filha, apesar das diferenças estilísticas e formais, não deixa de ser mais um capítulo no grande romance em versos de sua vida, essa biografia em lascas, esse patchwork curricular cheio de "conficções" - para referir um termo que o próprio autor usou em uma de suas entrevistas - e pautado na relação pai-filho, mesmo em uma obra quase alegórica como Biografia de uma árvore.

A capacidade fabuladora, a necessidade de narrar que o autor volta a demonstrar em sua nova obra, aliás, é rara entre os poetas de sua geração; louvado seja também, pois, por não se amasiar ao modismo de haicais fáceis, mas responder com arcaísmos narrativos de calibre. Em tempos frios, rápidos e virtuais como os de hoje, Carpinejar é capaz de fazer poesia épica, quente, demorada e real.

MARCELO BACKES é escritor, tradutor e ensaísta.

Meu Filho, Minha Filha
Fabrício Carpinejar
Editora Bertrand Brasil
144 páginas
R$ 28

12:35 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 24, 2007

SETE SEGUNDOS
Arte de Basquiat

Fabrício Carpinejar



Sete segundos é o tempo de diferença entre a transmissão de uma tevê a cabo da narração do rádio. Sete segundos: parece nada, nem pesa. Mas nenhum velocista alcançou sete segundos em um recorde de 100 m rasos. Mas sete segundos em uma partida de futebol culminam em drama. Na cobrança de uma penalidade, por exemplo, o jogador já está comemorando com a torcida e o telespectador ainda o observa ajeitando a bola na marca de cal. A bola apanhou da trave e confiamos que pousará nas redes. E se for uma decisão de pênaltis, o atraso provoca uma histeria. Uma desvantagem que aumenta a frustração e tira o sabor da vitória. A sensação é que somos os últimos a comemorar e a lamentar.

Sete segundos é a expressão da paternidade e da maternidade. Todo pai e toda mãe são sete segundos. É uma atenção multiplicada ao extremo, uma posição intermitente de luneta aos pequenos desenlaces domésticos. Sete segundos para apanhar um copo que a criança não segura direito. Sete segundos para censurar o filho no momento me que enfia seus dedos na tomada. Sete segundos para se dar conta que ele prova a ferrugem de um parafuso. Sete segundos para evitar uma mordida de cachorro. Sete segundos para segurá-lo na escada. Sete segundos para agarrar a gola no momento de atravessar a rua. Os pais não têm tempo para pensar, são sete segundos afinal dentro de seu corpo. O gesto não avisa o pensamento. Não somente vestimos os filhos, os filhos nos vestem de premonições. Os pais deslizam entre duas estações, duas freqüências. Exageram os cuidados, nunca definindo ao certo o que é do que pode ser. São profetas enrustidos.

Pai e mãe não se distraem. Criam um radar involuntário pela respiração, exercitam uma intuição que faz olhar mesmo quando não olham. Todo pai e toda mãe são paranormais. Não entortam talheres, não levantam objetos até o teto; em compensação, previnem-se de qualquer tragédia quando não existe possibilidade imediata. Descobrem quando a criança está com febre no meio da noite. Desconfiam do silêncio do quarto quando os filhotes brincam.

Lembro que minha filha colocou um enorme botão na boca, como se fosse uma bala soft. Foram sete segundos para identificar que faltava uma peça na extensão do edredon. Não vistoriei o chão, não cogitei a hipótese de estar em outro lugar, o que era mais lógico, senão na dentição miúda da pequena. Sete segundos para correr determinado em sua direção, bater nas costas e vê-la cuspir meu medo. Tirei aquilo com uma agilidade que não seria capaz de usar em meu favor. Um pouco de indecisão e ela engoliria.

Sete segundos demonstram o tamanho da responsabilidade que o pai e a mãe carregam no pescoço, como se o mundo dos filhos fosse responsabilidade integral deles. Dentro ou fora de casa. Os pais se vêem como onipresentes - é uma fragilidade onipresente, uma vulnerabilidade onipresente.

Não dependem de explicações e de telefonemas para compreender. Os pais se ressentem de não oferecer exclusividade. Os pais se amaldiçoam pelo sofrimento (imaginado ou real) de suas crianças. Quando o filho se machuca na escola, o pai e a mãe pedem "desculpa" a ele. Pedem perdão inclusive no momento que não têm culpa.

Entre pai e filhos, há um amor inexplicável. Um amor pacientemente rápido.

11:26 AM :: Comentários:

eraOdito

Gritei bem baixinho no blog de Marcelino Freire:

O GRITO
[ de Fabrício Carpinejar ]

Quem grita não chama ninguém, quem grita nem chama a si mesmo, porque não se escuta. O grito não tem altura de chegar, não tem ombros. O grito esquece rápido do que estava dizendo. Para gritar mesmo, o grito não sai, o grito é mais repuxo do que repouso. O grito é a lembrança do que seria o grito se tivesse menos força, mais direção. O mistério é não falar alto. Recomendo sussurrar, aí sim as pessoas se aproximam.

9:50 AM :: Comentários:

POESIA SEDUZ

O escritor Elson Teixeira Cardoso, de Poço de Caldas (MG), escreve em seu blog sobre as diferenças entre prosa e poesia (ou a falta de diferença) e ainda me presta uma homenagem. Confira.

9:48 AM :: Comentários:

PRÓXIMOS DIAS

25/5 (sexta), todo o dia - Palestra na XVII Feira Municipal do Livro de Tapera (285 km de POA, Alto do Jacuí), para escolas de 5 a 8ª séries. Informações: educação@tapera.rs.gov.br

30/5 (quarta), manhã e tarde - Palestra em Lindolfo Collor (RS), sobre O Amor Esquece de Começar.

1º/6 (sexta), 19h - Lançamento de Meu Filho, Minha Filha e palestra em Caxias do Sul (RS), promoção da rádio Itapema, na Livraria Arco da Velha (Rua Os 18 do Forte, 1690, 54 3028 1744). Apresentação Paulo Ribeiro.

3/6 (domingo), 16h - Lançamento de Meu Filho, Minha Filha e palestra na XX Feira do Livro de Santa Cruz do Sul (RS). Informações: (51) 3713-3222

9:45 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 22, 2007

EU ESPERO A CHUVA NO ALTAR
Pintura de Turner

Fabrício Carpinejar



Não precisa ser poeta para fazer poesia.
A poesia não pergunta sua ocupação, ela pousa.

Estava na casa do meu cunhado, Gérson, quando o vejo xingar seus filhos Natasha e Lucas, que não paravam a mútua provocação. Aguardava um corretivo fúnebre, uma imprecação de trânsito, um palavrão gordo e ruidoso.

Mas que nada, que elegância para desaforar. Não ardia a ofensa. Não foi aquele pp, fm, m. Foi como uma música de Dorival Caymmi, mais plágio do mar do que coisa do homem. Ele disparou: Vai dormir pra chover.

Ouviram isso? Vai dormir pra chover. Essa é a reprimenda, a terrível reprimenda que saiu de sua voz. Eu ouvi e pedi para também ser insultado.

Troque um desaforo por um poema. A boca não ficará mais perfumada, mas a terra sim.

Uma combinação mágica: quem não deseja dormir com chuva? Chuva e telhado, chuva e paz, chuva e meio-fio, chuva e janela, chuva e lençol limpo. Afinal, quantas madrugadas eu fui descansar esperando que a água lá fora alisasse minha testa e sufocasse a sirene do despertador com suas elegias de limo?

Dormir pra chover. Dormir para ver se a chuva chega logo. Aguardar a chuva no altar. Casar-se com a chuva e seu toldo de neblina. Eu quero dormir pra chover, como Manuel Bandeira gritava pela Estrela da Manhã. Deixar que um lago se acumule nos vasos, que os chapéus fiquem murchos, que as plantas se estiquem em exercícios aeróbicos.

Dormir pra chover. Assim como meus filhos falam boa-noite quando vou cochilar de tarde no final de semana. Nem estão aí para o horário, estão preocupados em ser fiel com o escuro que toma o quarto e a respiração dos pais. Dormir e pescar meus pecados, dormir e se arrepender.

A chuva é quando me confesso. Nunca poderei me salvar num dia de sol, numa manhã esquartejada de azul. Como pedir desculpa com a luz me empurrando para a rua? A redenção surge com a chuva, os relâmpagos montando pandorgas nos morros. A chuva me transporta para a casa, para as gavetas, para o abajur. Aos lugares mansos e pantanosos de mim. A chuva e lá vão os olhos a nadar ida e volta. Ida e volta. Ida.

1:01 PM :: Comentários:



O Consultório Poético está bem mais atraente, todo reformulado no site da Superinteressante, com espaço para comentários. Confira como ficou.



MINHA IRMÃ ESTÁ COM UM PILANTRA
Arte de Basquiat
Do Consultório Poético

Fabrício Carpinejar



"Fabricio,

O problema que quero escrever agora não é exatamente meu, mas da minha irmã. Mês que vem vai completar um ano que ela está namorando, este é o seu primeiro sério e mais longo namoro. O problema é que o cara é um pilantra. Desde que eles começaram a ficar, a vida dela desandou. Começou a faltar aula. Morávamos juntos em um apartamento em Goiânia e ela passou a gastar seu dinheiro com o cara, até o dinheiro que deveria ser utilizado para pagar sua faculdade. Reprovou um semestre, e parou de estudar em outro. Perdeu o estágio, se endividou com os bancos. Ninguém na família gosta do cara, ele não tem coragem de aparecer na nossa casa. É um malandro, todo mundo na cidade o conhece assim. Sempre que vêm comentar comigo sobre ele vêm contando histórias que envolvem drogas e polícia. A situação na minha casa está muito ruim por conta disso. Não preciso ficar contando todos os detalhes. Ninguém quer proibir a Liliane de namorar, esse aspecto eu acho ótimo, faz bem pra pessoa. O que não dá para aceitar é ela escolher uma pessoa que está, de um ponto de vista, desestabilizando a sua vida e a vida da sua família. Ela anda muito arredia nesses dias, não vai mais às reuniões da família, se eu chego para conversar com ela, ela finge não escutar e fica resmungando.

Fabrício, por que as mocinhas gostam tanto dos bandidos?

Um abraço,

Mário"


Mário, os bandidos exercem a atração do proibido, do enfrentamento. Sua irmã permanecerá ainda com o rapaz, porque já percebeu que está monopolizando a atenção, que vocês, da família, não pensam em outra coisa.

Há paixões que anulam a personalidade. Ela só tomará uma atitude quando se sentir atingida pessoalmente: ou com uma infidelidade ou com uma mentira. Com um fato que envolva a lealdade do relacionamento. Não será suficiente falar que o cara não tem caráter, não presta, e é interesseiro. Desse modo, creio que não mudará. Não importará o tamanho da dívida e do desastre financeiro. Está na fase do sacrifício, confundindo fé com obsessão. E a privação não tem limites para que possa declarar sua crença. Fará tudo por ele, assim como largou a faculdade e passou o dinheiro da matrícula. A renúncia aumenta a importância do amor. É uma valoração masoquista: quanto mais sofro por ele, mais mostro que ele é importante. Além do mais, crê que ele depende dela, e que nunca a abandonará em função da necessidade. É o tipo aspirador de pó, que suga violentamente as referências da mulher, a ponto dela perder os amigos e familiares e qualquer apoio crítico. Ele conseguiu o que desejava: são os dois contra o mundo. Mais ninguém. A exclusividade o protege.

O amor assume uma atmosfera de doença solitária, uma religião individual. Ninguém que está dentro acredita que alguém de fora compreenderá. Ela pensa que deseja censurá-la ou escolher seus namorados. Não entenderá sua intenção ou seu Deus.

Não é um conselho que transformará sua condição. É a vida mesmo. Quando terminar, não diga nada que lembre "eu avisei", apenas a ajude.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:27 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 20, 2007

VIVER DE MENTIRAS
OU VIVER NUMA MENTIRA?

Arte de Basquiat
Para Silvana

Fabrício Carpinejar



Ela ressuscitava lembranças, gargalhava horrores com suas amigas, bebia e não deixava a voz descansar no guardanapo. O telefone tocou. Era seu marido. Buscava saber como ela estava.

Por uns minutos, trocou o timbre, para uma escala preocupada e grave:

"Aqui está horrível, o vinho é ruim, estou com dor de cabeça, só preciso encontrar um jeito de sair educadamente".

E desligou, com beijos e não se preocupe. Voltou a se animar como se nada tivesse acontecido.

Ao seu lado, efusivamente indiscreto, não absorvi a confissão, destoava do que enxergava. A jovem lépida e incontrolável, propondo brincadeiras e teimando para que a noite fosse uma criança em seu seio, de repente afirmava que nada prestava. Dupla personalidade?

Não, ela explicou: "Se eu conto para meu marido que estou feliz e me divertindo, ele pensará bobagem e ficará doendo de inveja".

Sou infelizmente igual. Maldição viril. Ela tem razão. É uma mentira - não diria saudável - terapêutica. O homem não agüenta que sua mulher seja feliz sem ele por perto (a mulher também, mas em menor grau). Botou um marca-passo no coração e exige exclusividade secreta e informal. É possessivo, mesmo que finja que é despreocupado. Em sua imaginação, há demônios jogando carniça. Não suporta que ela tenha passado, muito menos suporta que tenha futuro solitariamente.

Isso afeta diretamente sua independência. Ele raciocina de um modo distorcido e infeliz: se sua mulher descobrir que é mais alegre na rua, fará uma varredura na relação e perceberá que vem perdendo tempo, encalhada em casa e no estado civil.

Não dormirá ao constatar que sua mulher é mais plena ao voltar do que ao sair. Tem a noção de que unicamente a alegria é capaz de separá-los. A alegria separa mais do que a tristeza, porque a tristeza reúne e a alegria dispersa. Casais atravessando uma crise financeira, atravessando a morte de um familiar, atravessando uma briga na Justiça, atravessando críticas tendem a se fortalecer.

O homem morre de medo da comparação, teme que ela descubra novos gostos, novos olhares, em outras esferas e gentilezas. Ele escolhe a retranca para manter o resultado. Perde o jogo por excesso de cautela.

O homem tem a síndrome passiva do corno. Todo homem sozinho dentro de si é corno, filho mimado de sua insegurança. É corneado pelos seus próprios pensamentos.

O homem não confia em si por isso não confia em sua mulher.

Talvez seja uma explicação para que os casais percam seus amigos de solteiro. Seus amigos de infância. Aceitam assinar um contrato de cessão de direitos autorais e desistem de conviver em nome do que julgam ser destino, mas é apenas acomodação paranóica.

O amor é uma ameaça, porque depende de um nível de desprendimento que se aproxima da fé e não pode escorregar na indiferença. O amor - no fundo arenoso de suas dúvidas - não aceita amadores.

11:14 AM :: Comentários:

HELP!




O Café de Bordo de São Leopoldo (Av João Correa, 997, Telefone 51 35913320) será uma espécie de Cavern Club nesta terça (22/5), às 20h30.

O talk-show Em Busca do Tempo Perdido reconta a história dos Beatles (um trocadilho de "beetles" - besouros - com "beat" - batida), a maior banda inglesa da história, com mais de um bilhão de álbuns vendidos em todo o mundo, detentora do recorde de 20 músicas no topo das paradas nos Estados Unidos. O grupo atingiu o primeiro lugar com composições próprias como "She Loves You", "I Want To Hold Your Hand", "Can't Buy Me Love", "Help", "Yesterday", "Eleanor rigby", "Hey Jude", "All You Need Is Love" e "Let it Be" entre outras.

O programa mais retrô da Região Metropolitana está de volta para lembrar a trajetória meteórica, conturbada e fascinante de John Lennon (guitarra e vocal), Paul McCartney (baixo e vocal), George Harrison (guitarra e vocal) e Ringo Starr (bateria e vocal), que permaneceram juntos de 1960 até 1970.

A apresentação e animação são por minha conta e do músico e escritor Frank Jorge.

11:11 AM :: Comentários:


Sábado, Maio 19, 2007

Da série PERGUNTA DO FILHO SEM RESPOSTA



- Por que acordo com gosto ruim na boca se escovei os dentes antes de dormir?

11:40 PM :: Comentários:

DUPLAMENTE CAXIAS DO SUL

Descobri que Cinco Marias (Bertrand Brasil, 2004) é um dos três livros obrigatórios do Vestibular de Inverno da UCS (Universidade de Caxias do Sul), ao lado de Dias Gomes (O berço do herói: um prólogo e dois atos) e Graciliano Ramos (Infância). Tomara que a obrigação vire prazer.

Um breve poema do livro:

"O homem escreve como quem grita.
A mulher escreve baixo, em prece."

Aliás, a convite da Rádio Itapema, estarei autografando meu novo livro Meu Filho, Minha Filha e fazendo palestra em Caxias, minha terra natal, no dia 1º de junho (sexta), às 19h, na Livraria Arco da Velha (Rua Os 18 do Forte, 1690, 54 3028 1744)

11:35 PM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 15, 2007

QUERIDO SÉRGIO "PREGO" FISCHER


Não consigo me livrar de sua morte. Eu tomo banho, e ela continua me rondando. Eu escovo os dentes, e ela está lá, um cabide onde ponho o casaco na entrada e saída das minhas conversas.

Eu faço amor, eu dou aula, e ela permanece inteira, vigilante. Já cumprimentei sua morte e ela não mudou de posição. Já chorei, já rezei, e ela não vai embora. Decidiu ficar comigo, sua morte, tenho que me acostumar. Assim como você se acostumou a andar de bengala em função da poliomielite da infância.

Sua morte não me pede nada, nem um prato de comida, não emite um som. Incomoda quem nos olha sem falar. Sou capaz de dar tudo para que ela falasse alguma coisa.

Não, longe de ofender sua morte, sua morte não me suja, não me incomoda; ela me desequilibra. Eu fico desnorteado, como quem tem pouca roupa para o inverno, como quem senta nas mãos enrugadas para se aquecer. Estou sem saber onde é o meu lugar e não descobri a pergunta a fazer para retomar o esquadro. Sua morte não mudou a cidade, Porto Alegre continua como estava, o cais brincando em ressuscitar dinossauros, as ladeiras esperando a sombra como uma puta, a luz verde do outono. Como a luz é injusta sem seus cabelos crespos!

Sua morte mudou meu jeito de enxergar Porto Alegre.

Não era grande amigo seu, talvez um conhecido amigo, mais amigo de seu irmão, Luís Augusto.

Vontade de me desculpar por estar escrevendo sobre você, não tinha esse direito. Sua morte não me torna importante, nem sublinhará o que passamos juntos. Mas sua morte me transforma repentinamente em seu familiar. A morte tem disso: de aproximar telepaticamente quem se viu uma ou duas vezes. A morte é a intimidade que deveríamos ter criado em vida.

Fizemos palestras juntos, você me convidou para falar de poesia no cursinho Anglo, li seus sonetos e ensaios, conheci seu filho de fotografia, nos encontramos em vestibulares. Somaremos umas quatorze horas lado a lado e alguns silêncios involuntários.

O que me assusta (de ternura) em sua morte é que você está nela rindo. Não me lembro de seu rosto tomado de severidade. Não o vi sofrendo - o câncer não derrubou sua vontade de levantar o pescoço.

Meu primeiro impulso é tomar da morte seus caninos da volta. Denunciar o furto. Ela poderia ter deixado o riso embrulhado numa gaveta. Não necessitava mexer na gargalhada que demorou 42 anos para soar límpida e segura.

Ah, sua morte é como a blusa de crochê. Daquelas feita pela avó em nossa cor preferida. Puxo um fio e ele não termina de se esconder novamente no conjunto. Fio ardiloso, fio caseiro, frio para dentro.

Começo a falar de sua morte e me bate uma urgência. Vontade de proteger meus filhos, de ser mais domingo quando chego do trabalho. Você morre e eu me apresso a existir. Sinto-me egoísta, porque sua morte me faz pensar em mim e assim esquecê-lo. Eu me defendo da minha morte em sua morte.

Você não podia morrer. Quanta orfandade em seu apartamento. Onde ficarão teus óculos, quem sofrerá do mesmo grau de miopia para empunhá-lo? E o time de botão? E os bilhetes em letra maiúscula? E a lista de chamada? E as chaves que brincava nos bolsos da calça?

Seu filhote, Alfredo, de 1 ano, terá que perguntar muito sobre você. Deixará espaço entre os ossos dos ombros para o livre trânsito de seu braço. Descobrirá como dividir as sílabas recordando de seu soluço. Ele nunca esquecerá que sua barba o arranhava. Nunca. Você será uma premonição na hora triste e uma lembrança na hora alegre. Você não será um pai ausente, mas uma ausência paternal. Uma ausência abrasada, eu lhe garanto, querido Prego. Uma ausência que cuida. Uma ausência que entusiasma. Uma ausência que freqüentará seus sonhos com a pontualidade de quem o espera na escola. E, acima de tudo, seu filho não precisará inventá-lo. Você fez sua parte no amor.

Com todo afeto,

Fabrício Carpinejar
(Arte de Basquiat)

5:27 PM :: Comentários:

UMA ESCRITURA QUE NÃO SE OFENDE COM O SUJO
Renato Rezende investe em sua quarta obra, Ímpar, um livro de transição, na organização de uma poética dos dejetos

Fabrício Carpinejar*
Especial ao Estado



Renato Rezende radicalizou sua poética em seu quarto livro. O escritor carioca tenta reavivar a filosofia na poesia com "Ímpar" (Lamparina, 92 p.), prêmio da Fundação Biblioteca Nacional em 2006.

Ao largo da filosofia ocidental, de conceito e forma, filia-se à tradição oriental de iluminação, perplexidade e desapego, mediante anotações de um cotidiano irrisório.

O predominante na obra é uma contemplação descompromissada. Observar a menina na parada de ônibus, imaginar o que falar com ela, ter o desejo de beijar seu calcanhar duro e não trocar ao final nenhuma impressão. Morrer com a imagem.

Em seu livro anterior, "Passeio" (2001), o autor ainda estava preso a si, o que não apaga momentos de vívido desencanto: "Sei apenas/ que não ressuscito, e já é tarde/ para morrer jovem bonito".

Não havia renúncia, talvez serenidade, talvez a sensação de que a chuva é sempre a continuação da anterior.

O poema discutia a própria identidade e habitava ostensivamente um nome - "Que Renato seja uma máscara/ vazia - mas este espaço/ não seja ausência - mas luminosidade" - e um lugar - o Rio de Janeiro. Ele fingia não ver o pior, por isso não reagia.

Agora, em "Ímpar", não há jogo de cena, não há par possível, nem localização determinada.

A expectativa é de que, cansado de ser ele, seria um outro rimbaudiano. Só que ele constata que sendo um outro continua sendo o mesmo. "A parte que resiste sou eu". Então não foge, suporta-se. descasca o olhar correndo o risco de perder o amor. A escatologia (sêmen, urina, latrina) funciona para despressurizar a emoção.

Em três poemas, narra diferentes quadros envolvendo a defecação. Não tem o propósito de agredir, porém de retratar a mais completa e desinibida naturalidade. Inicia com a desmistificação da cegueira sobre a namorada: "o corpo da amada/ não parece ser carne/ como os outros; e mesmo o que ela come e caga/ está impregnado/ por uma aura sagrada/ como se fosse tudo olhos/ amorosos, e alma". Segue com a observação de uma mendiga cagando em via pública e sua indiscrição incontrolável de enxergar detalhes. "Eu que costumava me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi, e não me senti diante de um ato estranho e transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível sensualidade."

A superação de suas fobias sociais aparece também ao enfrentar uma descarga travada no banheiro de bar. Temeroso da reação da menina que entra, recebe um inesperado olhar convidativo.

A literatura reedita o confronto entre o narrador e o nojo (A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector). Dessa vez, o poeta é parte do nojo. Não rivaliza com um elemento externo, onde projeta suas censuras e vacilações. O nojo é um sujeito, não ofende. Rezende comete a impostura de não usar a poesia como forma de redenção. Não beatifica o que toca, ou toca o que é beatífico. Não sublima o fim para reduzi-lo. Não torna o feio belo, nem o belo mais belo ainda. Interessa-se pelo feito transitório. Em sua concepção, o que é fugaz pode ser completo.

Sua máquina fotográfica cai numa privada "inacreditavelmente suja" e ele terá que escolher entre a luz e o escuro. Não titubeia em ceder a mão ao grotesco.

Na obra, nota-se um plano para o desaparecimento perfeito. Ao invés da morte, em que prevalece a figura da vítima, escolhe o abandono da representação. "eu desisto do coração, do umbigo/ que me ligou à minha mãe, eu desisto de minha mãe// e de todas as palavras que usei/ quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém".

Impregnado de uma solidão impessoal, a escritura procura o que está solto, o que não é palavra coesa. Está perto de uma mudez total, que não quer ser parcial e defensiva como a memória. Um vazio agressivo que não pretende ser alguma coisa mais do que sua desordem. "nem homem, nem mulher, nem anjo,/ nem cachorro, nem demônio/ nada"

A dicção é de um viajante que retorna e não conta que foi. Descarta o recurso do depoimento para provar que esteve lá (Alhures). Cala-se porque nunca inteiramente volta.

A essencial virtude de sua linguagem é não tornar prosaico o poético, nem poetizar o prosaico. Deixa as coisas brilharem por sua conta e juízo. Há uma combustão, como aponta um dos subtítulos, das imperfeições. O poema são os dejetos. Não o fogo, alto e volumoso, mas as cinzas, baixas e dispersas.

"Impar" não é um livro brilhante, é um livro de transição. Menos achados líricos, mais apreensão bruta do som. Renato Rezende não tenciona atravessar a ponte. Descobriu o caminho do meio (e faz o meio crescer no caminho).

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), entre outros.

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno Cultura, ps. 10-11, 13/05/07

11:23 AM :: Comentários:

CATANDUVA
Fotografia de Renata Stoduto



Participo do Encontro Marcado com o Fazer Literário, em Catanduva (SP), organizado pelo Sesc. O bate-papo será às 20h30, no ginásio de eventos do SESC Catanduva. Estarei autografando meu novo livro, Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil), que já está na segunda edição.

Desde abril, educadores estão trabalhando minhas poesias nas escolas da cidade, além de oficinas de criatividade para professores a partir de crônicas e versos. Informações (17)3524-9200

11:13 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 13, 2007

MINHA LINDA MULHER ESTRÁBICA: MÃE DE MEU FILHO

Fabrício Carpinejar






Menina vesga. Menina bonita. Menina zarolha. Ana ficou olhando para dentro, devido a uma febre assustadora na infância. Um mormaço que deslocou suas órbitas. Nem o nariz dividia seus olhos. Olhos que não regressavam para jantar com o grito da mãe. Olhos de rua puxando corda. Olho esquerdo apaixonado pelo direito. Ambos conversando na hora de piscar.

Ana sofreu por ser estrábica. Sofreu pelos seus irmãos, que explicavam o que havia acontecido. Ela não se explicava. Ela conservava um olho como um brinco de pérola. O segundo olho era o estojo. Ela dizia que só usaria os dois olhos quando casasse. Menina vesga. Menina romântica. Menina zarolha.

Quando dormia, um olho permanecia acordado, coçando as costas das pálpebras. Queria ter mais cílios para se cobrir. O que pensava o olho na insônia de olho? Que não tinha vivido o suficiente para voltar ao seu lugar. Olho teimoso, birrento.

Ana nunca pediu para que tirassem o cisco do seu olho. O cisco era o próprio olho. Bem que desejava receber o sopro quente de uma boca para alinhar o firmamento. Para acalmar, com a mesma doçura cálida dos panos na febre.

Ela se enroscava nos joelhos de sua mãe. Para que um olho não fosse reparado. Com exceção da carteira de identidade, suas imagens são de lado. Ela viveu de lado.

Um de seus olhos não tirava fotografia. Não gostava de aparecer. Corria sem olhar para trás.

Ana foi julgada pelo olho. Foi constrangida pelo olho. Colegas olhavam seu olho e não a convidavam para dançar. O olho ansiava o fim da festa para voltar a ser olho, e não buraco do olho, ausência do olho, um copo na mesa. Os cabelos pretos daquele olho não conheciam o pescoço do olho.

Repare, o olho era uma sobrancelha. Uma terceira sobrancelha. Uma segunda sombra.

O olho abraçava sem mostrar o rosto.

O olho tremia, encerava o piso da pupila, para receber visita. Ninguém vinha, a casa limpa do olho cheia de perfumes do olho.

Seu corpo ficou com ciúme porque as pessoas somente notavam seu olho. O corpo cresceu rápido para fugir do olho, do apelido do olho. Os seios, o quadril, a mulher inteira para combater o olho baldio, o olho que não desejava crescer e sair da infância. Olho de boneca, de vidro. Olho que dói sem doer, que não escorregava com o colírio, não secava direito suas pernas.

Enquanto os outros não tinham certeza para onde ela olhava, Ana temia ser olhada. Tampouco tinha certeza para quem olhava. Olhava a si mesma enquanto esperava que alguém a olhasse. Menina vesga. Menina tímida. Menina zarolha. Ana suportou seus apelidos com elegância. A dor sempre é elegante, a única forma de conversar com uma dor é pela dor.

Ana enxergou duplo toda sua vida. Enxergou duas vezes quando alguém chegava ou deixava de chegar. Enxergou duas vezes a tristeza, duas vezes a euforia. Um dos olhos da Ana já guardava o Vicente, espiando de canto para as pequenas veias desenhando uma criança.

Vicente foi o movimento de proteger o olho, de cuidar do olho, de não se diminuir com a troça, de não contar o troco, de não pedir a troca do olho.

Mãe não percebe somente quando seu filho chuta o ventre, percebe quando seu filho anda na ponta dos pés em cada palavra que usa. Esse movimento imperceptível de filho que avança como um soluço, um calafrio, uma contração - e que a mãe escuta como uma louca porque é parte de seu ritmo.

Mulheres têm pressentimentos longos. O Vicente esperou sua mãe dentro do seu olho.

Ao nascer, Ana apenas o reconheceu. Era o olho que sobrava. Seu olho preto. Pretíssimo. Olho de brinco de pérola.

11:10 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 11, 2007

O AMOR É ANALFABETO
Arte de Basquiat

Fabrício Carpinejar



Sou homem de rituais, julgava que tinha fé.

Desde criança, me proponho desafios. Superstições. Teria que correr mais do que o carro para conseguir uma namorada. Caso o pião permanecesse três minutos de pé, passaria de ano na escola. Se acertasse o papel no lixo, eu me transformaria num jogador de futebol. Se a porta estivesse fechada na segunda tranca, receberia um convite para um novo emprego. Se ela olhar ao lado, é que devo insistir com a conversa. Se o telefone tocar quando atravessar na frente daquela casa, é que terei sucesso. Queria provas. Passava todo o dia trancado em mim, conferindo se haveria coincidência entre o que fantasiava e as reações externas. Da janela do trem, da janela do carro, da janela do ônibus, da janela da casa, fazia palavras cruzadas gigantes entre as árvores e a chuva, contando as letras, contando os olhos, contando com a boca a distância de um relâmpago de sua queda. Fui formando convicções a partir de disputas secretas, de apostas que ninguém entenderia, extremamente gratuitas e somente plenas de sentido para uma carência que buscava me livrar.

Transferi a mania de resultados para o relacionamento. Pareço assim um mendigo ansiando algo com o estardalhaço de um milagre. Mas o milagre é imperceptível. Nem faz barulho. Ele abre a porta, não arromba. Qualquer um pode abrir a porta, o milagre tem a mesma energia de uma mão na maçaneta. O milagre é humano. O milagre não usa Deus. O homem usa - infelizmente - Deus. O milagre não emprega nada mais do que a nossa própria força.

O milagre é não condicionar o amor a um entendimento. A uma cerca. A um endereço. Dominar o amor é extingui-lo. Dominar o amor é não compreendê-lo.

O amor é contraditório, não compare as frases, não esprema o suco do que é semente. Não pressione quem você ama com perguntas, esperando que ele responda o que já formulou. Você não está amando, está testando. É repetir o jogo infantil da confirmação de sua expectativa. O amor não nos confirma; na maioria das vezes, nos nega. O amor não termina, desistimos dele. O fim do amor é nossa desistência.

Eu me importo mais com as provas do que com os desejos. Examinando, suspeitando, avaliando o que não é perfeito. Tentando domar com a clareza, assumir o controle do que é destinado a não ter direção. Eliminando os erros com o corretor ortográfico para não chegar à verdade da minha insuficiência. Não aceito ser por mim, fico querendo me resolver por fora.

De tanto que pedi sinais a Deus, eu deixei de me ler. Deus não concede sinais. Deus é analfabeto. Não precisa ler para entender, entende antes da leitura. Ele escuta o que pensamos. Escuta até o que deixamos de pensar. Nós é que precisamos escrever para provar que existimos e ler para ter uma segunda chance.

Deus nos deu o amor para sermos analfabetos e errar a linha.

11:10 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 08, 2007

AUDIÇÃO CUIDADOSA
Arte de Kelly Ellsworth

Fabrício Carpinejar*
Especial Crescer



Eu não poderia ter cometido maior traição: roubei a manicure de minha mulher.

A manicure já era ocupada e tratei de me antecipar. O horário que restava era o do almoço. A esposa ficou inconsolável, mas deve ter pensado "melhor trocar de manicure do que de marido".

Ao fazer as unhas, eu me coloquei no lugar de minha esposa. Por que ela deixava tão radiosa o salão? Por que sua alegria era leveza ao visitar o carrinho de esmaltes, acetonas e algodão? O que eu me esforçava para fazer e a manicure resolvia sem sofrer? Não estou me referindo à beleza, mas à verdade.

Minha mulher chegava em nossa casa confiante, disposta, num estado semelhante ao meu quando voltava do estádio em vitória do time ou de um jogo triunfante com os amigos. O que passava lá?

Meses sucessivos observando as mesinhas com ardor indiscreto, levantando conversas absurdas, descobri a resposta: a manicure sabia ouvir. Ouvir com atenção. Ouvir com delicadeza. Ouvir frente a frente, ouvir com os olhos postos na boca. Não ouvir com os ouvidos, e sim com todo o corpo. Não ouvir correndo como eu, do quarto à sala, como quem já está pensando em outra urgência. Ouvir parado, com os pés mergulhados nos olhos. Não ouvir como eu, mudando de assunto como quem cumpre um inventário rápido do dia para se ver livre da preocupação.

Ouvia com disposição. Como se estivesse dentro de uma igreja ou de uma sinagoga. Ouvia baixinho, com a atenção cúmplice, como um pássaro diante de um miolo de pão, provando devagar e virando a migalha para o lado mais seco.

Como podemos compreender nossa mulher sem ouvir? Sem ouvir o que não interessa, justamente para criar novos interesses?

Ao invés de ficar pensando o que ele deseja, deveria desejar junto.

Minha mulher é minha amante, é mãe, trabalha, estuda, está preocupada com a bagunça da casa, com a agenda do nosso filho, com o almoço e a janta, ainda encontra humor para sair comigo, ir ao cinema, me acompanhar a eventos, adora dançar, ler histórias, brincar de videogame com a criança, visitar os pais, telefonar para os amigos.

Ela pode estar na maior faceirice num restaurante, e emudecer de apreensão. Pergunto o que foi. Ela reparou - sem anular o fio da conversa - que está chovendo e as roupas ficaram fora. Quando que me lembraria disso?

Minha mulher está em todos os lugares, mas nunca abandona o meu corpo.

O homem quando é dispersivo, está desligado. Simples, direto, funcional. Fora da tomada. Quando a mulher está dispersiva, está ainda mais ligada, atenta à ordem secreta da amizade. Não há maior doação ao mundo.

Até hoje, o sono de minha mulher depois que ganhou o filho é leve. Acorda para o mínimo barulho. Pode acontecer um incêndio no próprio quarto e estarei roncando. Ela não, se acostumou a ouvir a criança no ventre. Será capaz de ouvi-lo em qualquer freqüência. Escuto seu choro, ela escuta além: sua respiração.

Minha mulher suspira pouco ou não a observo direito?

Conheço sua rotina, ela põe os travesseiros na janela ao acordar, dispõe os chinelos debaixo da cama como um tapete, toma café pingado, adora provar a comida na concha da mão, é colorida como um prato de salada. Conheço o quanto ela se desgasta para ser feliz, o quanto ela aposta na relação, o quanto ela desenvolve o deslumbramento no filho.

Apesar da intimidade, necessitei aprender de sua manicure o mais importante: o quanto ela quer ouvir de mim que simplesmente estou ouvindo. Não pede uma declaração de amor, pede meu silêncio compreensivo. Um silêncio alegre da identificação. Um silêncio seresteiro, de musicar o convívio pelas janelas.

A maior dor é quando não temos pele para envolver o que amamos. A mais grave dor não é a dor de osso, é a dor da pele. A dor da superfície, a dor de não ser simples. Ouvir é dar pele, embrulhar cada palavra com a seda dos cuidados.

Ao ouvir, tomaremos sol que as lembranças não queimarão, tocaremos na memória que ela não gritará de ardência, brigaremos e não faremos as malas.

Não deixar que a vida passe sem dar-lhe a pele da audição. A indiferença é a queimadura de terceiro grau do amor.

Na única vez em que nos separamos, esqueci - como sempre - de pegar a tolha na hora do banho. Ameacei gritar, porém não adiantaria, não havia ninguém em casa. Ela havia deixado sua toalha molhada no banheiro. Não reclamei de seu triste hábito. Eu me sequei exaustivamente com ela. Com o seu cheiro.

* Fabrício Carpinejar é poeta, autor de "Meu filho, minha filha" (2007).
E-mail: carpinejar@terra.com.br


Crônica especial para a revista Crescer, edição de maio de 2007

9:52 AM :: Comentários:

NA ESTRADA GAÚCHA

Dia 8/5, terça, 20h - Estarei acompanhando o sarau dos alunos do Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos na 25ª Feira do Livro de Ivoti (RS), que acontece nao auditório do Instituto de Educação (IEI).

Dia 9/5, quarta, 19h - Faço palestra no I Seminário Nacional de Estudos Literários (SENAEL), "Narrativas Contemporâneas", com o tema "Literatura e Criação", na URI (Universidade Regional Integrada), de Frederico Westphalen (RS).

9:33 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 07, 2007

ALEGRIA, ALELUIA
Arte de Matisse

Fabrício Carpinejar



Logo após o almoço e a janta, demonstro o fastio sem querer. Soletro: comi demais. Não suporto ficar na mesa, herança de meu avô materno, com os sinais da batalha, os pratos sujos e os talheres cansados. Além do cinto, é como se houvesse o elo de um suspensório entre a toalha e a roupa sobrecarregando a cintura. A vontade é gritar e me expulsar. As mãos que delicadamente empunhavam o arroz perdem a sutileza do biombo dos dedos. Largo a conversa, viro anti-social em segundos. Patas e guardanapo. Levanto-me para respirar o cheiro do café. Ou procurar um jeito de acomodar a respiração.

No momento de parar, é natural confessar que está satisfeito ou gemer e exclamar adjetivos pausados. Comigo é diferente, a comida pode ser a predileta, o grau de encantamento não muda o final, repito que comi demais.

O amigo Marçal Aquino mostrou-me sua elegância de eremita. Eremita não é o solitário, é aquele que sabe o seu lugar e o leva para todo outro. Talvez nem tenha reparado.

Quando saciado, ele não afasta repentinamente a bandeja, não mostra sinais de horror e fartura. Não apela ao estertor de baleia na areia. Não é agressivo por ter cumprido seus desejos e não saber o que fazer com a lembrança da vontade.

Ele recusa qualquer novo prato com "Estou feliz".

Dei-me conta que não comunico que estou feliz, em nenhuma situação. Porque imaginava que a felicidade não se verbalizava. Felicidade se via na cara, no gesto largo, no abraço removedor de rugas do chão.

Escutando a expressão de Marçal, certifiquei-me do meu despreparo em pôr a alegria para a varanda. Ao invés de sair, ele pedia licença para ficar. Há uma generosidade em dizer o que se pensa.

Declarar-se é uma sabedoria inútil, como arrumar a verticalidade das flores num vaso. Mas essa inutilidade heróica é que nos mantém concentrados e afasta o remorso. Dissipa o arrependimento de não ter sido claro, óbvio, pontual.

Falar quando não se precisa para precisar do que se fala. Ir ao cinema e olhar para o filho com estou feliz. Transar e debruçar o corpo na diagonal da cama e estou feliz. Ler um livro, ouvir um amigo e estou feliz. Observar a mãe e o pai repetindo a história de seu dia e estou feliz.

Minha vida ruidosa como uma igreja. Que cada "estou feliz" seja o equivalente a "aleluia irmão!". Aleluia!

9:24 AM :: Comentários:

FABRÍCIO CARPINEJAR APRESENTA SEU MONÓLOGO A TRÊS
Em Meu Filho, Minha Filha ele transforma experiência paterna em tema e revive e permite ao leitor reviver seu passado

Moacir Amâncio
Especial para o Estado


Foto de Renata Stoduto

A série de poemas que Fabrício Carpinejar reuniu em "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil, 144 páginas, R$ 28) forma um monólogo a três. É assim que se pode entender a expansão do pensamento, as reflexões dadas também no sensorial dos toques, dos olhares, se é que aí não está o ponto em que as coisas se resolvem: a emoção do pai diante da ausência-presença da filha na casa da mãe e da presença-ausência do filho sempre ao alcance. Assim o poeta desenvolve o seu drama. Parênteses: para escrever sobre o livro é preciso pedir licença, pois a melhor atitude diante desses poemas será deixar de lado qualquer pretensão ao distanciamento crítico, principalmente se o resenhista é desesse que ao ser pai se descobriu mãe. E pode-se dizer mesmo que a busca da identificação de certos momentos mais a entrega geral a eles é o melhor meio para participar daquele monólogo marcado por uma pungente sinceridade, que dessa maneira ganha, na leitura, mais um parceiro.

Ao deixar de lado as reservas de praxe, entra-se na conversação, na alegria e na grande sombra subjacente. Uma das funções da poesia é universalizar o particular. Detalhes insignificantes ganham sentido e conteúdo, tornam-se reveladores. Ao transformar sua experiência paterna em texto, o autor a revive e permite que o leitor também reconstitua o seu passado ou perceba uma iluminação do seu presente, como ser social e indivíduo. Todos chegamos ao mundo sozinhos e assim nos mandamos dele - a grande questão -, mas ninguém existe sem pai, mãe e os demais, as circunstâncias variadas.

Percebe-se, então, que o livro talvez pertença àquele grupo de obras que de repente podem interessar também e muito a áreas situadas fora do âmbito literário. Carpinejar não esquece em nenhum momento a profissão do poeta em sua caça às melhores palavras para se expressar, mas talvez pense, com razão, que se a literatura se esgotar nela mesma, acaba-se em primeiro lugar como literatura. O tema é dificílimo porque já parece dado. No entanto, ao contrário de autores que pensam estar fazendo poesia ao escrever pela trilionésima vez a mais rançosa das palavras, amor, ele sabe que o clichê precisa ser desfeito. E nessa reconstituição inventiva da experiência está o motivo da série poética que transborda e se espraia para outros campos.

Os estudiosos da família vão encontrar aí o problema do filho de pais separados, do pai separado, do pai solteiro; os psicanalistas têm no livro generosa quantidade de material; os educadores vão achar motivos de inspiração no trato com as crianças; mães e pais verão refletidas suas memórias ou seu presente; e os filhos com certeza terão uma idéia sincera de que os espera quando assumirem o lugar dos pais. Embora pareça claro, deve-se chamar atenção para o fato de que não se trata de auto-ajuda disfarçada de poesia. Pelo contrário, as situações não se resolvem, pouco abaixo da superfície das palavras existe algo inquietante e inevitável, como está sugerido acima, a respeito da "grande questão". Algo tão permanente quanto insolúvel enquanto se respira: o enfrentamento da morte, do qual a infância às vezes parece um momento de trégua a ser festejado com toda a intensidade.

* Moacir Amâncio é poeta, autor de "Óbvio".

Publicado em O Estado de São Paulo, Caderno Cultura, página 7, 06/05/07

9:22 AM :: Comentários:

BLOG

Daniel Piza mostra poema e comenta meu novo livro Meu Filho, Minha Filha em seu blog:

"Um poeta não é apenas quem faz um texto rico em imagens, sons e idéias. É também quem nos comove ao dizer o que estava entalado em nós. No novo livro de Carpinejar, "Meu Filho, Minha Filha", ele diz muito do que eu queria dizer para meu filho e minhas filhas. E diz melhor."

9:19 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 03, 2007

SAMPA!
Foto de Renata Stoduto



É nesta quinta (3/5), às 19h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, minha sessão de autógrafos de "Meu Filho, Minha Filha" em São Paulo. Celso Lafer e Marcia Tiburi apresentam a obra. Prometo ficar quietinho, fazendo de conta que não é comigo.

A cena de cima com meus filhos é o que desejo que se repita em minha vida. A deliciosa rotina. Espero vocês. Quem eu amo e quem eu posso amar. E que não falte tinta para um longo abraço.

12:20 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 02, 2007

CUSPE
Arte de Basquiat

Fabrício Carpinejar



Com o casamento, perdi a chance de cuspir. A liberdade de cuspir. A irreverência de cuspir.

Não sei se você está entendendo: cuspir na rua. Perdi. Casamento custa caro e alguns sacrifícios.

Ainda no cortejo do relacionamento, em que se abre o guarda-chuva e a porta, minha mulher foi decisiva numa frase: - Não tolero homens que cospem na rua.

Não fez nenhuma outra restrição, exclusivamente essa, o que aumentou a gravidade da censura. Não entendi como um pedido. Não entendi como uma observação descompromissada, nada é dito no início do namoro para que seja esquecido, não foi sequer uma advertência, entendi como uma sentença. Era assim ou nada.

Eu me encolhi, avisei que também não agüentava essa porquice: onde já se viu cuspir na rua? Nunca faria isso! Ela sorriu satisfeita, baixando lentamente a cabeça. Ela sempre abaixa a cabeça quando ri, como a colocar o riso devagarinho no chão. Seu riso é um embrulho delicado.

Há mais de uma década que não cuspo publicamente. Nem de lado. Nem escondido no bosque ou sozinho. Na minha infância, cuspir era obrigação viril. Havia até escarradeiras para facilitar o hábito. Cuspir tinha uma ideologia, uma convicção. Respondia a uma sina ingênua e controlável. Cuspir o fumo. Cuspir a gripe. Cuspir a mentira. Cuspir o bagaço da fruta. Cuspir a grama. Cuspir a distância com os meninos.

Cuspir era uma arte do arremesso, da hombridade rural. Sem treinar, não adiantava se expor. Não podia pagar a prenda da baba ficar presa na boca no momento de uma briga. Seria ridiculamente inofensivo.

Cuspir como um cão late. Cuspir por determinação de se misturar ao ar ou à chuva, de pregar a voz no nevoeiro e na relva. Cuspir para antecipar os passos, já que o corpo sempre foi muito lento. Cuspir para avisar que havia chegado ou que estava por chegar. Cuspir quando se fala com amor ou raiva.

Sinto-me que estou me renegando, espumando contido. Eu me reprimo na doença e na saúde. Eu me enciúmo com doentes cuspindo a luz pela janela. Eu me enciúmo ao assistir jogos de futebol. Não suporto mais ver os jogadores cuspindo aleatoriamente, com ou sem água. Um chafariz dos lábios deles, sem nenhuma reprimenda feminina e nojo. Um cuspe espontâneo de corrida e bafejo. Cuspe de homem, imperioso, sem premeditar.

Eu não cuspo mais. Engulo a saliva. Não posso cuspir numa promessa. O que me consola é que meu filho, do terraço, já está regando a procissão dos telhados.

8:00 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 01, 2007

CULTO DO VIZINHO
Arte de Basquiat

Fabrício Carpinejar



Cidade do interior é previsível. De noite, o tapete sonoro das cigarras e grilos. De manhã, os galos e os pássaros descosturando as árvores. Entre um e outro, a ladeira ao trabalho.

Breno detinha-se quando uma laje ficava solta. Parava seu trajeto para acomodá-la de novo. E resmungava: - Amanhã trago cimento para o rejunte.

Tinha sua padaria e a obrigação de madrugar. Seu pai fora padeiro. Seu avô fora padeiro. Garantia-se na certeza de que era padeiro porque seu pai fora padeiro e seu avô fora padeiro. Mais do que isso, não pensava em ser, nem prometia frete.

Dormia e acordava cedo. Sua água benta era a loção pós-barba. Já quis depilar as pernas para ver todo seu corpo ardendo em álcool. Arrepende-se de ter pensado nisso e, em seguida, de não ter feito. Por último, arrepende-se do arrependimento.

Adorava a ardência daquele perfume de homem. Ardência encorpada. Como se fosse cachaça tirada da bica. Depois de laminar o bigode e sair para rua, o vento parecia colocar uma toalha lavada e quente no seu rosto.

Quando não vendia e fazia pão, Breno cultuava o ranço. Ranzinza. Cutucava amigos com a discordância.

Suspeitava do vizinho Amélio, especialmente quando ele se converteu e transformou sua residência num templo. Jovem se convertendo tem alguma coisa errada. Converter de quê, se nem teve tempo de fazer maldade? Devia estar caçando um rabo-de-saia. Fingindo serventia.

De todos os modos, ajeitando os travesseiros nas posições menos ortodoxas, Breno não conseguia dormir com a cantoria na casa do vizinho. Esperou uma, duas noites, a preguiça de sair maior do que a de reclamar. Grasnidos, grunhidos, exclamações vigorosas. Melhor seria se fosse um puteiro; depois do gozo, é certo o silêncio. Reinava ali unicamente uma tortura infindável, entremeada de apelos e agradecimentos.

Desconfiado, colocou o casaco e saiu de chinelos a bater a porta ao lado.

Atendeu um senhor muito envergonhado.

- Cadê o Amélio?
- Ele não pode atender...
- Por quê?
- Está caminhando para a salvação.
- Pois é, não consigo salvar meu sono.
- Desculpa o barulho, já vai acabar.
- Chame o Amélio!
- Não dá, senhor, é que Jesus está operando.
- Tá explicado. Pede ao menos para que ele use anestesia.

6:43 PM :: Comentários: