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Consultório Poético

Blog

Quinta-feira, Junho 28, 2007

NÃO ESTOU ALEGRE, MAS NÃO É TRISTEZA
Arte de Jacques-Louis David

Fabrício Carpinejar



- Você está triste hoje?
- Não, estou bem.
- Mas você está pensativo, com olhar distante.
- É impressão
- Não, eu o conheço. Você está triste hoje. O que foi?
- Nada, juro, estou normal. E você não me conhece tanto quanto eu.
- Viu? Já está mordendo!
- Não, é que fica repetindo a mesma coisa.
- Mas o seu normal é outro, mais confiante, mais alegre.
- É teimosia sua, tudo certo, nada de diferente.
- Não quer contar o que foi, entendo, mas você está triste hoje?

A conversa à toa influencia e, ao mesmo tempo, irrita. Quando não estou alegre não significa que estou triste. É da natureza da alegria ser passagem.

A amiga procura adivinhar o que não encontra. Atrás de um vestígio, cava o meu rosto, atravessando as rugas, a alergia do inverno e a barba mal-aparada.

Se não estava triste, eu fico triste. Permanecia apenas concentrado. Mas de tanto ouvir a preocupação, entristeço. Duvido de mim no ato. Vou me espiar entre as unhas para ver se percebo carne firme para roer. Será que a paz é tristeza? A serenidade é tristeza? Ou porque há tristeza em observar longamente a paisagem sem se preocupar em voltar com as venezianas. Ou porque estava mesmo encabulado e não me permitia acreditar na mágoa.

Não sei qual é mágoa, mas fiquei triste. Sou agora um triste sem tristeza. Que triste parecer triste quando não se é. Não pretendo ser triste sem motivo. Largo a urgência do trabalho para tentar encontrar a dor mais próxima, e sofrer novamente por ela. Vigoroso, contraio os lábios para resgatar uma ofensa e uma indiferença da última semana. Num próximo encontro, terei, ao menos, um motivo.

Como é fácil se entristecer. Preste atenção. Não é só comigo que acontece, chegue para qualquer um e faça o interrogatório insistente. Dependendo do estado de espírito, o interlocutor - antes confiante e impassível - é capaz de chorar.

Somos tristes adormecidos, tristes amansados. Quem não é triste relendo o jornal de ontem? Descascando o rótulo de uma garrafa? Quem não é triste aguardando um ônibus? Esperando um trem com o olhar vaporoso de dia terminando? Quem não é triste com as mãos no bolso? Ou partindo cedo ao serviço, nadando na cerração, sem adivinhar se terá sol em seguida ou um toldo de nuvens negras.

A tristeza vem com a calma, é irmã da simplicidade. A tristeza vem com a sabedoria, é irmã da leitura.

A tristeza permite revisar as gavetas e entortar as golas. Virar a cadeira encharcada com lentidão. Recupera o que esquecemos de cuidar. A tristeza nos empurra a colocar datas nas fotografias, a alinhar em ordem crescente os amores extraviados, a revisar os canhotos dos cheques abertos, a imaginar as alegrias que ainda não vieram. Nossa confiança não resiste aos questionamentos. Nossa confiança está acostumada a rebater com um oi, tudo bem e tchau.

Somos tristes. Sempre tristes. Especialmente aquele que fez as perguntas.

6:25 PM :: Comentários:

CANELA

Participo de mesa-redonda no XVI Encontro Estadual dos Procuradores do Estado. O encontro acontece no sábado (30/6), às 10h, no Hotel Continental, em Canela (RS). A partir da experiência de "Meu Filho, Minha Filha", participo de um painel sobre "A paternidade hoje e suas conseqüências para a sociedade contemporânea", ao lado de Diana Corso.

6:24 PM :: Comentários:

PORTUGAL TELECOM



O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006) é um dos 51 finalistas da primeira fase do Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2007. A disputa contou com 382 inscritos. Somente três livros de crônicas foram selecionados. Partilho da companhia de João Ubaldo Ribeiro (A gente se acostuma a tudo) e Affonso Romano de Sant´Anna (A Cegueira e o Saber). Os dez escolhidos para a segunda fase serão conhecidos em 27 de agosto. O prêmio é dado aos três melhores livros escritos originalmente em língua portuguesa. O primeiro lugar recebe R$ 100 mil; o segundo, R$ 35 mil e o terceiro, R$ 15 mil. Confira a lista dos classificados.

5:16 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 27, 2007

A ÚLTIMA BALADA DE TOLENTINO

Fabrício Carpinejar

O poeta carioca Bruno Tolentino (Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino) morreu na manhã desta quarta-feira (26/6), aos 66 anos, em São Paulo. A causa da morte, ocorrida às 9h30, foi falência múltipla dos órgãos. Pode lhe servir agora o poema que fez para Anecy Rocha, sua namorada de 1959-1960, irmã de Glauber Rocha e que faleceu tragicamente num poço de elevador, aos 35 anos.

"Senhor, Senhor, o Teu anjo terrível
é sempre assim? Não tens um refratário
à hora do massacre - um mais sensível

que atrasasse o relógio, o calendário?
Ao que parece a todos tanto faz
por quem o sino dói no campanário."

(Anulação e outros reparos)

Valorizado por José Guilherme Merquior e Antonio Houaiss, com referências elogiosas de W. H. Auden e Saint-John Perse, Tolentino passou três décadas na Europa após o golpe militar. Ensinou em Oxford, Essex e Bristol.

Retornou ao país no início dos anos 90, quando ganhou o Prêmio Jabuti por "As Horas de Katharina" (1995), repetindo o feito em 2003 com "O Mundo Como Idéia". Neste ano, concorre na premiação com "A Imitação do Amanhecer".

Ele é autor de diversos livros, como "Anulação & Outros Reparos" (1998), "A Balada do Cárcere" (1996), em que narra sua experiência de 22 meses em prisão de Londres, por porte de drogas, e "Os Deuses de Hoje" (1996).

Como homenagem, publico abaixo entrevista inédita que fiz com ele, ao lado de minha mulher Ana Baggio, durante sua passagem por São Leopoldo em 18 de junho de 1997, há dez anos.

SÓTÃO

"Considero a literatura feminina superior à masculina. Cito Orides Fontela (Teia) e Adélia Prado (Bagagem). As mulheres não conseguem fazer poesia e deixá-la na gaveta. Não se contentam com anagramas. Pedem mais ar. Saem do sótão. Querem a sala, o quarto, a cozinha. O homem, se quiser, consegue ficar toda a vida encerrado entre quatro paredes."

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

"Respeito a Academia Brasileira de Letras, como respeito a Igreja e as Forças Armadas. Jamais entraria nela. Teria de mudar meu comportamento. Isso é impossível. Respeito o trabalho de Nélida Pinõn, justamente premiada e injustamente pouca lida no país. Até fiz um trocadilho: Nãoélida Piñon. Ela é uma pessoa extraordinária e merece ser estudada. Aqui no Estado (RS) existe gente boa como o João Gilberto Noll."

POESIA

"A poesia é o celeiro vivo, o refinamento da linguagem. No confinamento, em situações extremas, a necessidade de desaguar, de vir à tona, termina por desmentir a teoria de que ela morreu."

VAIDADE

"Sou vaidoso, como a Vera Fischer. E por que não?"

INFÂNCIA

"Meu avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal. Na minha infância carioca estive amarrado às normas e convenções. Meu desejo na época era voltar para casa um dia de ônibus e não de chofer. No ônibus é que acontecia as bagunças e o fluxo da garotada. Um dia conseguimos - eu e o meu irmão - convencer a vó por causa de uma falsa doença a ir de ônibus. Para quê? Quando estávamos gostando do vento das janelas e do bafo da multidão, a avó apertou a campainha. O motorista perguntou se ela iria descer. Ela respondeu que não. "Então por que puxou a campainha?", retrucou. Ela, com ar majestoso, pediu: "Será que alguém poderia fechar as janelas porque meus netos podem adoecer com o vento no rosto?" Que vergonha."

CRÍTICA

"O que existe hoje é besteira. Uma política de cortesãos. Os novos poetas perderam o que de mais rico teriam a oferecer: a pureza do desafio.

Vamos sair do umbigo e olhar para o Nordeste: destaco Alberto da Cunha Melo."

VIDA

"Não consigo dissociar a poesia do mundo. Não creio que a arte da escrita seja uma atividade autônoma. Ela não se separa da experiência da vida. Até no Romantismo os artistas colocaram-se como cronistas. O poeta tem que criar contribuindo com obras para uma raça mais pensante. A literatura não pode perder essas eternas crianças que são os transgressores."

CÂNCER

"Quando os médicos me avisaram que iriam retirar um tumor benigno, fui radicalmente contra. Vão extrair a única coisa benigna que tenho. Se querem realmente fazer isso, pelo menos guardem para apresentar a opinião pública que havia algo de bom em Bruno Tolentino."

6:05 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 24, 2007

ALEGRES DECEPÇÕES
Arte de Miró

Fabrício Carpinejar




Seguro meu filho no colo, tem cinco anos, e vejo como ele é dependente de mim. Cada vez mais eu seja dele. Ele funga meu pescoço. O pescoço é a gola do meu cheiro. Voltado ao meu ombro, espia o mundo de dentro de sua árvore. O que ele está pensando? Com freqüência, me pergunto o que ele está pensando. O que ele está sonhando? Com freqüência, sento ao pé de sua cama para ver se encontro algum sinal exterior, um tremor de cílios, para descobrir o que sua imaginação desenha e o que tem permanecido de imagem do seu dia. Não há dúvida que ele me guarda, desejava descobrir onde ele me guarda para me buscar de vez em quando.

Qualquer pai deve ter um medo igual: de desaparecer para seu filho. De não entendê-lo. De entendê-lo e não se explicar. De confundir quando se explica.

Meu filho não sabe quem sou, tento ser quem ele imagina que eu seja. E vou me modificando para atendê-lo. Vou terminar sendo o que eu queria ser quando criança.

Eu o protejo ou é ele que me protege?

Ele é sensível aos barulhos de noite - e todo barulho que não seja de gato miando, de cachorro latindo, de cigarras fazendo as pazes com as ervas, já corre aos meus braços a olhar minha boca. Fica esperando que minha voz dissipe a dúvida. Minha boca é sua cama mais segura.

Ele me dá coragem porque me obriga a responder. E passo a acreditar em minhas respostas. Depois de pai é que passei a acreditar em mim, porque há uma fé, como nunca antes, esperando pela minha fala. Não posso me substituir.

Igual acontece com minha filha de treze anos. Ela me telefona para contar que procura emagrecer. Ao reduzir o apetite, lamenta que apenas conserva o seu peso. Juro que não sei o que orientar e oriento. Temos pressa um do outro. E a minha resposta é a pressa de mantê-la presa à minha voz. Nenhum pai é sábio, os pais são seguros pela total insegurança, por isso têm resposta para tudo, inclusive para o que não dominam.

Um dia, é inevitável, vou ouvir de ambos os filhos: você me mentiu? Você não me compreende? Eu o odeio!

Não há problema, tenho decepções com meu pai, mas foram as decepções que abriram as brechas para amá-lo. Quando ele vinha nos visitar, já separado, reunia-se com os filhos na sala para mexer nos livros que havia deixado na residência. Entre brincadeiras e risos, via que ele estava mais interessado em rever e retomar sua biblioteca do que escutar nossa conversa. Cheguei a observá-lo colocar um dos volumes em seu paletó, discretamente. Mostrei desinteresse à cena para alegrá-lo.

A decepção nada mais é do que tomar conta do pai quando ele não consegue mais tomar conta de si.

12:02 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 22, 2007

PIPOCA COM MEL
Desenho de Vicente

Fabrício Carpinejar



Nem ouso repetir. Qual a decepção de abrir um livro adorado na infância depois de adulto e não entender o motivo do fanatismo? Ou uma música cantarolada com freqüência e que já não diz nada?

Pipoca com mel. Minha mãe ofereceu pipoca com mel. Gritei "não!". Não controlei a rispidez.

- Mas você sempre adorou.

- Justamente por isso, mãe.

Não quero estragar uma das lembranças mais quietas de minha infância. Não quero comparar, comprovar se realmente era gostosa. Receio de substituir o gosto que era pelo gosto que é.

- Pára de frescura! É gostoso mesmo, meu filho.

- Não, mãe, já disse não. Deixa estar, deixa estar.

Ela saiu ofendida da sala. Ela às vezes me olha como filho; outras vezes, como visita. Mais do que trocar de voz, crescer é trocar de silêncio.

A pipoca com mel na tarde de domingo iniciava com a porta de correr da cozinha - rangia fora dos trilhos. Em seguida, o arrulho do azeite. O estouro da panela. Pronta, ela vinha para montar. Não era só de comer; fazia bolas enormes e tentava engolir num único arremesso. O mel corava o rosto, atiçava a penugem loira que seria barba dentro de sete anos. Comer rápido para não perder o passo dos irmãos. A vasilha grande, o cheiro entrando nas unhas. O sofá com coberta. O som da televisão sempre baixo diante da algaravia da sala.

Não substituo minha memória. Muito menos atualizo.

Não visito fotografias com ramalhete de flores. Enterro minha agenda de endereços a cada ano que passa. Troco de restaurante e de bar. Não permito que a carência volte a lugares conhecidos, porque é mais fácil, seguro e não preciso me descobrir.

Não repriso antigas paixões. É esquisito e constrangedor encontrar uma namorada do Ensino Médio, desfalcada daquela admiração que a conservava. É injusto analisar se ela está melhor ou pior, como vou definir? Eu engordei, ela engordou, vem aquele pensamento macabro de que como seria a vida se estivéssemos juntos. Talvez muito mais gordos. Eu era um outro quando me apaixonei, e teria que me conhecer de novo para depois conhecê-la, e teria que conhecê-la agora para depois me apresentar.

É um exercício de autocontrole rever uma noiva de cinco anos, sem lembrar que ela adorava ser amarrada e vendada na cama ou que se vestia de colegial para ser subjugada. Ela, com o filho no colo e o marido pelos arredores, perguntando como eu vou e confessando que tentou me telefonar na semana passada. E obrigo-me a não pensar bobagem e resumir minha última década entre trabalho, família e lazer em cinco linhas. Cuido para não emitir nenhuma frase de duplo sentido, que soe como cantada. Não caio na cilada, a saudade melhora até a dor.

Não aceito me repetir. Repetir é enfraquecer o pouco que restou. Não tolero diminuir o que um dia senti por uma mulher. Não suporto reviver a distância e as desculpas. Usar a meu favor uma intimidade que já não é mais minha. Usar informações que já são vencidas para me aproximar. Desejo manter intacto o desejo, o desejo correspondido. Sair com desejo sobrando antes do que faltar com o próprio desejo.

Não aceito revisões, passional em meu rascunho. Não suporto correções, adoeci e nunca me curei por completo.

Abandono meu passado para que não seja abandonado por ele.

Vou parar diante de um livro conhecido e não abrir, diante de um CD decorado e não ouvir, diante de alguém familiar e olhar para os lados. Não que me falte curiosidade: conheço o amor.

Após um longo intervalo, o amor volta ainda mais enfurecido, ainda mais faminto, ainda mais devastador do que da primeira vez. E destrói o que eu tinha escondido. A pipoca com mel.

6:26 PM :: Comentários:


CONSULTÓRIO POÉTICO

VIDA OU FRALDA DESCARTÁVEL
Arte de Paul Klee
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Fabrício

Faz um ano e meio que meu marido veio transferido para esta cidade e eu que sempre fui independente larguei tudo e vim acompanhá-lo. Alguns meses depois engravidei e aqui estou vivendo apenas a vida de ser mãe e dona de casa. O problema não é fazer este papel, mas de não conseguir fazer os outros papéis que me davam prazer.... Confesso que se eu tivesse um tempo para ir ao salão de beleza, eu me daria por muito satisfeita, mas não tenho absolutamente ninguém para deixar o meu bebê nem por poucas horas, é só eu e eu. Aqui é difícil até conseguir uma diarista, imagine alguém para cuidar de uma criança. Estou tentando fazer um tratamento com acupuntura desde dezembro e não consigo por não ter com quem deixar o meu bebê. A minha vida, portanto, se resume em lavar, passar, cozinhar, trocar fraldas e de todas as outras obrigações do cardápio.

Não sei o que fazer para resgatar a minha felicidade nesta situação, aliás, eu diria que estou vivendo literalmente o que minha avó desde ter vivido, apenas com a comodidade de poder usar em meu bebê fraldas descartáveis...

Obrigada pela atenção!

Dulce"


olá, Dulce!

A mais severa solidão é a da licença-maternidade. Momento em que a mulher enlouquece para dentro, que não encontra cumplicidade e apoio para sua dedicação, que vive a ciscar pensamentos e não se sente valorizada, muito menos acompanhada, nem sequer observada.

Ao mesmo tempo em que é um tempo ensimesmado de exílio, passa-se a valorizar o que se era e o que se pode ser. O que antes era natural e automático, simples e desembaraçado acaba recebendo o dobro de expectativa e alegria no período da maternidade. Até um salão é festejado. Até a acupuntura. Não perca a euforia da simplicidade. Ela é sábia e repõe a fruição. Toda mãe sabe ser inteira porque já viveu aos pedaços.

Mas a licença-maternidade tem uma data para terminar, o que não é o seu caso. Tudo bem que hoje há fraldas descartáveis. Que sejam as fraldas, não sua vida.

Assim terminará com a estima e logo mais projetará na criança o que deixou de fazer. Ela será o espelho de suas frustrações. O sacrifício não pode ser maior do que orgulho. O sacrifício tem que ser do tamanho do orgulho, senão vem cobrança e a desilusão. Viver por alguém não é sinônimo de gostar desse alguém. A melhor forma de amar o outro continua sendo gostar de si.

Converse com o marido, não guarde essas palavras para mim. Ele precisa ajudar a reservar um turno livre para se cuidar e exercer os demais papéis, que não o de mãe e o de esposa. Mesmo que ele tenha que ficar um pouco com a criança enquanto não encontra uma babá. Afinal, largou tudo para acompanhá-lo, o que pode pedir agora é que ele largue uma parcela desse tudo. Sua avó não sofreu em vão.

beijos
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

2:27 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Junho 21, 2007

BOCA



Para quem não é gremista, recomendo ler texto que escrevi sobre a final da Libertadores. Está no Terra Magazine.

Clique na chamada:

Após derrota do Grêmio, poeta colorado vê boca em tudo. O escritor Fabrício Carpinejar lança uma provocação em forma de poesia ao comemorar a derrota dos rivais na final da Libertadores.

1:55 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 20, 2007

ASSOBIOS PARA UM VESTIDO
Arte de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



A voz não tem memória. Triste conclusão dessa quarta-feira observando um par de sabiás assobiando no varal de casa. Eles cantavam em cima do vestido de Ana. Pareciam prendedores novos. Cheguei a cogitar que não cantariam com raro ímpeto e melodia em minhas roupas.

A voz não tem memória. Na empresa, seria muito mais fácil levantar o gancho ou conversar com a pessoa do que mandar e-mails para comunicar algo tão simples. Costuma ser um aviso ou uma solicitação. Um minuto e estaria resolvido, além de desfrutar da vibração da voz que realmente transmite como somos e como estamos. Uma voz entusiasmada pode alterar o rumo de nosso rosto. Pode consolar quando não víamos maçaneta. Pode provar que os problemas são reprisados sem necessidade. Quantos suicídios são cancelados com uma ligação ou um abraço? Mas e-mail não mudará a determinação de um suicida, posso garantir.

Ridículo colocar (risos) ou hahaha logo depois de um chiste com medo da interpretação equivocada. Prefiro rir a digitar risadas para evitar mal-entendidos e confirmar que estou rindo. Estamos perdendo a sensibilidade para a ironia. Ligamos as risadas gravadas dos programas de auditório em nossa lista de endereços.

O grave e o cômico é que os colegas trocando mensagens devem estar na mesma sala, na mesma mesa, lado a lado, e escrevem irrelevâncias como se os terminais estivessem separados pelo Oceano Índico. Suponho que está em curso uma epidemia de torcicolo.

Criou-se a mania de arquivista, a mania do monturo, a mania do registro. Ninguém guarda e-mails se não é para cobrar em seguida e se isentar da culpa. O propósito de acumular bilhetes digitais não é mostrar eficiência, porém livrar-se da censura mesmo que o preço a pagar seja censurando os demais. Repara, por que criar uma pasta com horários de reuniões? Para chafurdar quem marcou o compromisso caso a reunião não tenha saído. Cadê o cuidado com o próximo, aquele ritual de proteger e de perguntar primeiro antes de tomar uma decisão e expor discordâncias publicamente?

Viramos alcagüetes mais do que amigos. Porque o amigo conversa, fala e se esforça para lembrar e guardar com cuidado as combinações e as frases verbais. Nossa desmemória é preguiçosa, transferimos a responsabilidade para os "itens enviados". Se os acertos estão lá, tudo bem, nem precisamos sair de nosso lugar.

Hoje a palavra perdeu tanta a força que não existe quando não é escrita. A palavra só aparece na ponta dos dedos. A ponta dos dedos não tem a firmeza de uma mão no ombro ou de uma mão no braço de um conhecido.

Coitado de meus pais, que acreditam ainda que a palavra escrita e a palavra falada são iguais em legitimidade. Como contar a eles? Dar a palavra era assumir um compromisso. Não se voltava atrás. Mostra-se agora que é possível ser irresponsável pela boca, que a tinta redime e conserta.

Estamos formando uma indústria da delação e da cobrança. Somos um SPC doméstico. Todos querem provar que tem razão pelos e-mails. Todos querem ter o controle da vida pelo e-mail.

Antes a placa rígida era nada mais do que meus dentes.

Enquanto escrevemos lembretes desnecessários e impessoais, um casal de sabiás apresenta sua última composição para o vestido de Ana.

12:33 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 18, 2007



AQUELE BEIJO
Desenho de Vicente

Fabrício Carpinejar



Pode-se gostar de uma mulher, mas o beijo, não há como despistar o beijo. Enganar o beijo.

O beijo diz se devemos ficar ou não. O jeito do beijo. O temperamento do beijo. O caráter do beijo. Não se mente o beijo. É como se não houvesse um corpo, um degrau, é um sopro circulado, uma neblina desenhada, a respiração voltando.

O beijo. O beijo de Ana acima de todos os beijos. O beijo dela. O beijo que já foi filha, já foi mãe, já foi namorada. Não é o beijo com medo. É o beijo que me faz beijar de um único jeito. Com o beijo dela. Ou é ela que beija o meu beijo. Não há mudança de beijo, é um só beijo, que não se interrompe mesmo com a voz ou com o silêncio. É um beijo vírgula do beijo. Um beijo possessivo que anda. Um beijo que não engole. Um beijo que cede espaço para a mão. Um beijo gentil, não menos apaixonado. Um beijo que deixa a língua ser língua, o dente ser dente, que não cala. Um beijo que fala enquanto beija. Um beijo que não lava, que leva, um beijo que protege para se expor. Um beijo que é decidido, não arrogante. Não um beijo que conduz, um beijo que informa.

Não o beijo solitário, o beijo viúvo, o beijo desquitado. Não o beijo de provocação, o beijo carente, que poderia ser feito sozinho.

Há beijo que boceja no beijo, beijo que lê no beijo, beijo que não beija porque lambe ou sussurra, porque morde ou varre, preocupado em ser outra coisa que não o beijo.

Não gosto do beijo que vai colando selos. Sem língua. Um beijo de afogado. Um beijo sem personalidade, que logo separa o corpo, porque é mais corpo do que beijo.

Se um não está apaixonado, o beijo é uma boca sem ritmo. Uma boca sem repetição. Uma boca sem vizinho, sem ouvido, uma boca acenando porque esqueceu de seguir.

O beijo é traficante. O beijo é viciado. O beijo não quer ser nada mais do que beijo. O beijo é trocar o parágrafo, não trocar de texto.

A Ana não beija assim. Seu beijo trança os olhos, tranca o quarto. Estou com seus cílios enquanto a beijo. Seu beijo me chama antes do nome. Seu beijo avança os seios. Seu beijo quase me atrapalha. Seu beijo vento de seu beijo.

Mas não adianta procurar o beijo de Ana em outra mulher. A Ana beija dentro de mim, mas não está em mim. O beijo dela depende de imaginá-la me beijando no momento em que realmente me beija.

O gosto do beijo não é o gosto da boca. O gosto do beijo é o que a boca deseja. Há beijo que é mais boca do que beijo. Um beijo que é mais escova do que esponja, mais pausa do que pouso. Um beijo que não volto. Sei pelo beijo que não volto. Um beijo de quem não chupa. Um beijo de quem não mente. Um beijo de quem realmente não foi beijada mesmo beijando. Não foi sinceramente beijada. Um beijo imitando beijo, simulando o beijo, ensaiando o beijo. E não entenderá porque o beijo foi embora. O beijo é a vontade da perna quando o braço cansa, é a vontade da cintura no pescoço. O beijo de Ana. Um beijo que nunca completa a saudade.



10:42 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 17, 2007

ABERRAÇÕES COM SIMPLICIDADE INFANTIL
Veronica Stigger escreve textos tresloucados, bufos, perversos, sobre o cotidiano, como uma criança curiosa a exigir detalhes

Fabrício Carpinejar
Especial para o Estado



Se já causava espanto quando Murilo Rubião colocava um dono de restaurante no bolso de seu personagem (O Pirotécnico Zacarias), o que dizer de um casal de intelectuais que passa a morar no rabo de um amigo, a oferecer coquetéis e danças no interior do corpo dele, até ser devorado por uma lombriga?

A articuladora da façanha é a gaúcha Veronica Stigger, em seu segundo livro Gran Cabaret Demenzial (Cosac Naif, 119 págs., R$ 29,50). Ao redor da jovem autora, a aura de ser a novidade da Festa do Livro de Paraty e de ter sido selecionada entre os 39 nomes com menos de 39 anos mais influentes da América Latina pela Feira do Livro de Bogotá.

São 19 textos tresloucados, bufos, perversos, que misturam poemas, contos, dramaturgia, anúncios de classificados e placas de trânsito. Literatura de intervenção, um exercício delicioso mais do que um enigma. Deve incomodar os puristas e incitar as gargalhadas dos incrédulos.

Veronica é inteligente o suficiente para não ser afetada, culta o bastante para não citar (suas referências não interferem no enredo), preparada para não querer escandalizar simplesmente com piadas ou escatologia. Ela trabalha as informações com o efeito da bola de neve, capturando o diz-que-diz de acidentes e causos. Transforma a literatura em fofoca, em vez de fazer da fofoca literatura. Arca com todo o exagero cada vez maior de investir no resultados. Como se existisse uma criança curiosa a cadenciar os parágrafos e exigir detalhes: "O que mais aconteceu?"

O estranhamento produzido seduz, ao contrário de hostilizar. Ela propõe alegorias sobre as aberrações do cotidiano com uma simplicidade infantil. Há o mimetismo da sinceridade de contos de fadas, das lendas, dos mitos indígenas. O que ela narra é atroz, mas com um desembaraço claro e legível, que não parece tragédia. O tema é fúnebre; o tom, cômico.

O normal acentua-se como o diferente. Em Olívia Palito, uma cidade de gabirus com cabeças enormes, desproporcionais, vê o nascimento de bebês compridos e sadios. Isso assusta e põe em alerta a saúde pública. Só que os "compridões" vão sendo gerados com mais freqüência, dividindo a população entre os cabeções e os "olívias palito". Durante as primeiras brigas das duas facções, um compridão senta no cabeção - e nem preciso contar os detalhes porque o duplo sentido já está implícito. E todos os cabeções querem entrar nos compridões, num ambiente de caça e luxúria. Veronica cria uma lógica dentro do inverossímil. Afinal, não é isso a fábula?

Como um teatro de revista, é desenvolvido um revezamento de esquetes. A adaptação teatral da obra já está naturalmente feita. Identifica-se uma fixação anal. O reto é o centro da leitura - ou seu caminho. Em Marta e o Minhocão, uma enorme família busca se adaptar a uma estranha minhoca que se enfia no ânus de qualquer vivente que ouse falar. Já em Sheila e Miguelão, a perspectiva é de uma patente, que não aceita ser chamada de privada. Arrogante depois de receber decorações de flores, suga todas as bundas que se aproximam.

Como caixas em caixas menores, identifica-se um deslocamento ágil e sempre repentino do ponto de vista macro ao micro, da luneta ao microscópio. A antropofagia segue solta, na libido enrustida da linguagem. Nunca existe um espaço parado, o tempo torna-se espaço. Sempre alguém é sorvido por outro e perdendo seu local de origem. O despejo não é uma ameaça, porém um hábito.

A escritora é Lévi-Strauss sem a antropologia, um Qorpo Santo redivivo, articulando um alto nível de impostura reflexiva, de atitude farsesca. Não que tudo seja possível em seus textos, porque o real não é mais possível. Uma turista é engolida pela escada rolante assistida pelo passivo marido, um velhinho é convertido em árvore de Natal, um par de namorados não consegue sair das engrenagens do carro após acidente. Seria superficial analisar o livro como uma metáfora da sociedade impessoal e insensível. O livro ritualiza o maravilhoso, o insólito e o cruel na literatura. E não pretende soar engajado, e sim cínico, mesmo quando mostra o racismo de uma família germânica.

Um dos motores da obra é a brevidade, que permite o texto surpreender sem enjoar, acelerar o assombro sem sacrificar a espontaneidade. As narrativas apresentam anticorpos contra o marasmo. Quando o leitor está se acostumando, a trama acaba e tem início a seguinte. Ele não consegue se desvencilhar a tempo das ciladas.

Gran Cabaret Demenzial não é órfão de tradição. Além de Hilda Hilst (Bufólicas), penso em Zulmira Ribeiro Tavares e seus ensaios/insights poéticos em Termos de Comparação ou no humor envenenado de Zuca Sardan (Ás de Coletes). Mais ainda em Valêncio Xavier e suas fotomontagens e fotonovelas parodiando os rompantes do amor ou epidemias, como a gripe espanhola. Xavier, por exemplo, tenta decifrar um mistério em Curitiba, ao perseguir o autor de enorme defecção em terreno baldio (Mez da Grippe e Outros Livros). Não é familiar?

Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha, entre outros

(Publicado em O Estado de SPaulo, Caderno 2/Cultura, p. 12, 17/06/07)

10:27 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Junho 15, 2007

BOÊMIO DE CASA
Ilustração de Ana Baggio e Fernando Chuí

Fabrício Carpinejar



Quem chamou minha atenção foi Nelson Rodrigues, mas poderia ter sido minha esposa.

Eu chegava em casa - e como a maioria dos vivos - tomava um bom banho e demorava um tempão diante do guarda-roupa para escolher o abrigo mais velho. Tinha que ser uma segunda pele masculina, dolorosamente surrada, condoída de lavagens. Não dava para alisar muito o pano senão os fios se apaixonavam pelos dedos.

Minha mulher voltava do trabalho e lá estava a recebê-la na sala, impecavelmente desalinhado. Um abrigo antiaéreo. Camisa renegada, calça com leves escoriações e o tradicional chinelo de dedo. Faltava apenas o capuz. Em suma, empertigado com o melhor da minha pior roupa.

Por que não nos vestimos bem dentro de casa? E justamente para quem amamos?

Para sair à folia ou balada, não poupamos espelho, caprichamos o visual, alguma coisa tem que ser nova, ainda que seja um acessório. Talvez um cinto ou uma cueca. Para ver os outros (desconhecidos), para ir ao emprego (aos colegas de sempre), nos esmeramos na composição e sobreposição de cores.

Não me arrumava para minha esposa. Logo para ela. Como confiava que ela me amava, dava o desconto e deduzia que não precisava impressionar. Quando não impressiono, deixava de seduzir e cometia a infelicidade de me contentar com o passado. Nos primeiros meses de namoro, ou dormia nu ou com camisetas que saíram da vitrine diretos ao meu tórax. Após a conquista, virei um abandonado com causa. Além de me suportar acordando com os cabelos em pé (ou o resto de meus cabelos), ela agüentava adormecer ao lado das minhas vestes de mendigo, mesmo que cheirosas.

Depois do casamento, concluo que somos um restaurante demolido que só atende tele-entrega.

Cedi à tradição que para ficar à vontade dependia de trapos. Em casa, um brechó. Na rua, uma loja que não aceita cheques. Por que não guardar o que mais gostamos para desfrutar na residência? Por que confundimos intimidade com desleixo?

Amar não é relaxar, mas se concentrar.

Quem chamou minha atenção foi Nelson Rodrigues, mas poderia ter sido minha esposa.

Na sexta, enquanto os roteiros de cinema e de restaurantes mudam a programação e o cardápio, decidi ser o boêmio de casa. Um boêmio caseiro. Um boêmio do corpo de minha mulher. Ponho música alta, lavo os copos do nosso bar, pontuo o uísque com gelo e conversamos no terraço. Conversamos e dançamos para o nosso prazer - sem a necessidade de mostrar que estamos felizes. Não podemos reclamar de nada, muito menos das músicas do DJ. A ansiedade de sexta é a nossa tranqüilidade, o nosso domingo. Sapatos novos, calça jeans bronzeada e uma camisa com os botões virgens. Eu me arrumo agora para entrar em casa, não somente para sair.

Confira essa crônica no site Viaje aqui, Sexta-feira feliz, a convite de Caco de Paula, 15/6/2007

9:21 AM :: Comentários:

CASAMENTO NÃO PRODUZ MILHAGENS
Arte de Vermeer

Fabrício Carpinejar



Companhias aéreas utilizam a fidelidade para fixar clientes. Quanto mais viagens, mais milhagens, mais conforto e pessoalidade no atendimento. Isso não funciona num relacionamento amoroso. Esqueça! Fidelidade não é amor. Por mais que os dois sejam dependentes, não são sinônimos.

Fidelidade não faz amor, não deve ser encarada como uma obrigação. Fidelidade é uma escolha, não uma renúncia. Primeiro ser fiel a si mesmo, para depois ser fiel a uma outra pessoa.

Ninguém pode se sentir tolhido pelo casamento ou por um namoro. Juntar vidas é para somar, nunca para se diminuir e se envergonhar da própria alegria e descoberta.

Se não há independência, não existe opção. Quem está no casamento escolhe todo o dia estar casado, não somente uma vez diante do padre ou no cartório. É um sucessivo sim a cada bom-dia. Depois de casado, é que o trabalho começa. Casamento não é aposentadoria da sedução. A união pode envelhecer e esmorecer com a segurança de que já aconteceu. Ela acontece diariamente - está acontecendo agora com um telefonema ou uma declaração nos ouvidos.

Fidelidade não se cobra, não se vigia, não se controla. É para ser dada espontaneamente e não conta pontos a favor nem contra. Fidelidade não merece aplausos, é o compromisso de não querer uma situação diferente senão a de cultivar um lado da cama e da história com quem mais se gosta. Fidelidade é se divertir conversando com quem nos entende perfeitamente, almoçar, jantar, dançar com quem já conhece nossos movimentos e hábitos. Não é somente amar quem nos conhece, mas conhecer um pouco mais quem nos ama.

Vejo casais que valorizam mais a fidelidade do que a intensidade. Homens e mulheres enchendo a boca: "nunca trai!". Não tomaria isso como um mérito. É possível ser fiel durante anos sem amar, porque o casal se acostumou a não ter o enfrentamento ou de se escutar. Encontrou uma fórmula e se apaziguou. Calou as fantasias por covardia. Um casal que é fiel por décadas não significa que deu certo. Submissão ou acomodamento não correspondem a respeito. Talvez a inércia seja a maior falta de respeito que possa existir.

Ao invés de ser casado para não estar casado, o comovente é estar casado para sempre ser casado.

Revista Caras, seção Amor, edição RS, Nº 08, 15/6/07

9:17 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Junho 13, 2007

EM SÃO PAULO

Participo de um programa especial da CBN em São Paulo nesse sábado (16/6), das 12h às 15h, no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz. O programa será apresentado pela âncora do Revista CBN, Tânia Morales. Contará como convidados Daniel Piza, crítico do Estadão, e os escritores Ivana Arruda Leite e José Roberto Torero.

O tema do debate ao vivo: os desafios para a literatura na sociedade midiática da internet: o leitor do universo digital de hoje ainda pode ser cativado por um livro? O ato de escrever mudou num mundo onde blogs, notícias em tempo real e a superexposição de personagens convivem intensamente?

O público também pode participar por meio de perguntas escritas.

9:32 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 11, 2007

CONHECER CARPINEJAR
Poeta esteve em Caxias para lançar seu novo livro, 'Meu filho, minha filha'

MARCELO MUGNOL
marcelo.mugnol@jornalpioneiro.com.br


O poeta Fabrício Carpinejar filosofa: "ler poesia é como ler seus pensamentos"
Foto(s): Ricardo Wolffenbüttel/Pioneiro


Diz o senso comum que ninguém lê poesia. Então, é preciso dizer que esse aí no canto da foto é o Fabrício Carpinejar. Ele é poeta, nasceu em Caxias em outubro de 1972. Neste 1º de junho, o cara voltou à cidade para uma sessão de autógrafos e bate-papo sobre o seu 10º livro, Meu filho, minha filha, na Do Arco da Velha Livraria.

Já que ninguém lê poesia, a imagem que as pessoas geralmente fazem de um poeta é aquela construída ainda na escola, quando se estudava somente a poesia romântica: aquela virulência de gente conversando, bebendo e flertando em tabernas.

Dois argumentos, no entanto, esculhambam com esse estereótipo ultrapassado. Primeiro, não é porque Carpinejar bebe uísque durante o bate-papo que o torna mais poeta do que nos momentos em que ele prova o leite morninho que vai dar ao filho.

- Não tenho medo de me expor. Só pode ser imaginário se for biográfico - justifica.

O escritor Paulo Ribeiro, que mediou o bate-papo, diz que o poeta tem um quê de Chaplin. Porque pra ele tudo na vida vira uma boa piada.

- Mesmo quando ele ri de uma situação, no fundo tá falando algo muito sério - argumenta Ribeiro.

E quando a poesia trata de algo sério, que vai além do "perfumar a flor", parafraseando João Cabral de Mello Neto? Como é que chama o nome disso? É ainda poesia, responderia Cabral. Em Meu filho, minha filha, Carpinejar reconhece-se como pai. Não como a figura idealizada por gente que ainda venera Sigmund Freud. Tão pouco o pai que ele buscava e projetava quando escreveu Um Terno de Pássaros ao Sul (2000). Meu filho, minha filha precisava sorver quente das veias de Carpinejar.

- Essa urgência apareceu há cinco anos, quando nasceu o Vicente. Ele me chamou a atenção para tudo que eu não vivi com a Mariana.

Vicente é fruto do segundo casamento. Mariana, 13, mora com a mãe, em Brasília. O livro não pretende resgatá-los.

- Pai separado é como se fosse uma doença. Ele tem sempre que se justificar. Mãe é mãe sempre. O pai não. Não quero dar resposta. Quero questionar - pondera .

E se alguém vier com aquele papo de que não entende poesia?

- Escrever difícil é fácil. Escrever fácil é difícil. Esse livro está mais prosaico. E aí vem o perigo. Mas as pessoas têm de entender que ler poesia é como ler seus pensamentos.

Trechos

Meu filho comigo

Meu filho, não terminamos
de conversar mesmo dormindo.
Nossas tosses continuam o assunto.

Uma responde à outra.
Uma completa a outra.
São tosses educadas,

que não ofendem a noite.
Somos tremendamente
felizes na doença.

Minha filha sem mim

Minha filha, pôr o pulôver em ti é uma arte.
Puxo com força, já receoso
de raspar teu rosto.

Será que termino ou desisto
e escolho nova roupa?
Naquelas frações de segundos

em que permaneces coberta,
no escuro de estopa,
na solidão do tecido,

sofro com a possibilidade
de tua ausência e enraiveço
de tanto amor desajeitado.

Serviço
Meu filho, minha filha
-Bertrand Brasil, 140 páginas
-Preço sugerido R$ 28




JORNAL PIONEIRO, CADERNO SETE DIAS
11 de junho de 2007. Edição nº 9838, Caxias do Sul (RS)


9:03 PM :: Comentários:


Domingo, Junho 10, 2007

CADÊ A CASCA DE AMENDOIM?
Arte de Basquiat

Fabrício Carpinejar



Não sei se isso também ocorre no Maracanã, no Morumbi ou no Olímpico, mas minhas mãos estão mais surdas. No estádio Beira-Rio, está proibida a venda de amendoim com casca, para evitar a sujeira. Pode soar ridículo alguém reclamar do veto do amendoim com casca, mas eu protesto. É como perder a sonoplastia do jogo, o som das minhas batidas cardíacas. Os jogos ficaram silenciosos. Mudos.

A casca de amendoim era mais importante do que o amendoim. A casca de amendoim era meu radinho de pilha. Desde a minha infância, torcia quebrando sua couraça com os dedos, estalando seus aquedutos à procura de suas pequenas jóias escuras. A casca de amendoim me livrou de roer as unhas, me livrou de infartos, me livrou da violência reprimida ao juiz. Eu colocava minha força na casca de amendoim. Ela me tranqüilizava.

A casca de amendoim é terapêutica. Ela me consolava com sua conversa de botões. Na arquibancada, costurava cascas de amendoim. A casca de amendoim é lírica.

Quem censurou a casca de amendoim, não teve mãe rezando terço de madrugada. A casca de amendoim é terço de homem, meu terço das ruínas.

Quem censurou a casca de amendoim não suportou frio no estádio e não foi obrigado a desviar a atenção dos pés gelados e úmidos para as mãos trabalhando a britadeira dos grãos. A casca de amendoim é meu cachecol de relâmpagos.

Quem censurou a casca de amendoim não entende o tamanho da ansiedade do intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Não tem filhos para repassar a arte de quebrar amendoim durante o ano. É uma arte sucessória, para que a criança não passe vergonha ao enfrentar as nozes no Natal.

Quem censurou a casca de amendoim não entende a gravidade de uma derrota no domingo para regressar ao trabalho na segunda-feira. É necessário amassar o pão antes que o Diabo o faça.

Não tenho ostras para irromper, não tenho mariscos, nem mar a me levar para longe. Eu só tinha as cascas de amendoim de cardume para espreguiçar os braços e arremessar o fôlego.

Agora os vendedores me oferecem o amendoim pelado, o amendoim tosquiado, sem a vida de sua terra. O amendoim solitário, sem o condomínio das pedras. O amendoim sem personalidade, sem forma. Como um time sem camisa. O amendoim sem casca é um amor sem os defeitos, é um amor sem a rotina, é um amor sem as brigas ao entardecer, um amor sem ciúme, um amor sem reconciliação.

Não quero, quero a casca de amendoim de volta. Fazer um tapete sobre o meu canto, um tapete de ruídos em meu colo. Um tapete para não me perder quando vou buscar cerveja. Um tapete que formei em décadas de minha vida num degrau de cimento ou numa cadeira de ferro. Um tapete para fixar meu lugar, já que o coração é grande e o mundo mais vasto ainda.

10:41 AM :: Comentários:


Sábado, Junho 09, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

ELE ME CHAMA DE CIUMENTA
Arte de Edward Hopper
Do Consultório Poético
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Bom dia,

Estou namorando há 3 meses com meu primo, a família dele não aceita, já a minha sim, ele tem uma filha, uma ex-mulher que vive enchendo o saco, e outras coisas que não vem ao caso, antes ele falava que nada ia impedir o nosso relacionamento, agora ele me trata com indiferença, frieza, egoísmo, ele só pensa em si, quando brigamos ele não contorna a situação, as brigas são por ciúmes e insegurança, a única solução que ele dá é para terminarmos o namoro ele diz que não agüenta mais, tanta insegurança, sendo que ele não me passa segurança, sou ciumenta e precisava que ele me assegurasse nas respostas das perguntas de ciúmes que faço, já falei isso para ele mas não adianta! Vou citar um exemplo de constantes brigas, ele recebe não todos os dias mais de vez enquanto uma ligação de uma garota que ele jura que nunca teve nada, e isso ela liga de madrugada, pergunto: - Você por um acaso anda ligando para essa garota? Ele fica calado e com raiva dizendo que eu não confio nele, aí quer terminar o namoro, qualquer discussão é motivo para ele falar em término, eu me declaro, eu dou carinho, eu faço tudo para agradar, mais precisava deixar de me preocupar tanto com ele, tenho medo de ser traída, tenho medo de ele estar me enganando, quase todos os dias quando nós discutimos ele vai embora, me deixa falando sozinha, é irônico muitas vezes me agride verbalmente,eu choro! Me afogo em lágrimas, mas não consigo aceitar uma rejeição, me humilho... Falo.. Falo... Mais tarde, ele me liga com um sentimento de frieza, perguntando se estou bem, falo que está tudo + ou - , ele não dá a mínima, para o que eu sinto, se estou bem, parece que está perguntando e ligando por obrigação, por pena, isso acontece sempre! É sempre a mesma coisa! Não sei mais o que fazer, antes eu sentia a todo momento que ele me amava, mas agora, tem horas que sinto que ele me ama, outras não. Ele está sendo bruto, egoísta, impiedoso, quando ele vai para a minha casa só eu que dou carinho, ele nunca retribui, só quer ser servido.

Beijos
Carola"


Carola

Quando o homem ataca para se defender, alguma coisa está errada. Ele anda aprontando. A frase mais comum é "você não confia em mim". A segunda é "vamos terminar". A terceira é dizer que "você está louca". Não estou errado, segue essa mesma ordem. Não sei se existe um curso de preparação aos namorados em apuros, mas é realmente estranho que a maioria siga o receituário de acusar para fugir das explicações. É uma manobra para desviar a atenção. Ele ameaça com o fim para não se ver ameaçado. Não seria mais fácil responder uma por uma das questões, com calma e paciência? A verdade é tranqüila, a mentira que é nervosa. Os motivos da briga sempre são a falta de vontade de terminar a primeira resposta. Se a questão inicial fosse integralmente respondida, não haveria a segunda, a terceira, a quarta briga... O fantasma volta porque não se deu a ele o devido cuidado.

O fato de uma amiga telefonar de madrugada não é o problema, o problema é a freqüência e o tabu silencioso sobre o tema da conversa. Claro que ele liga de volta, pressupõe uma seqüência. A mulher telefonando é a continuidade de uma atitude, não um gesto isolado. E o que ele faz? Afirma que você é ciumenta. A culpa é sua por querer viver de um jeito transparente? A culpa é sua porque desejar ter um homem completo, sem meias-desculpas e vacilações? A mulher tem intuição forte, só se sente perseguida quando realmente estão a perseguindo. Não é paranóia, posso lhe garantir. Pensa que não a perderá e encontra em sua submissão sofredora um modo de controlar a situação. Ele aceitou um papel contigo e não quer fazer outro filme.

Eu diria que ele queimou o filme. Um dia as lágrimas serão rasas - não mais se afogará e compreenderá que a dor é somente sua. Quando a dor é solteira, tudo o mais também o é.

Beijos
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:54 AM :: Comentários:


Terça-feira, Junho 05, 2007

DESPIR NÃO É APAGAR, É DESENHAR
Arte de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Todo homem ajuda a despir a mulher, todo homem tem pressa pela nudez, todo homem é ansioso pelo sexo, pelo seio, pelo corpo aquecido pela mão, como é solícito o homem para tirar a blusa, a tirar a saia, a tirar as meias.

Nem precisa pedir, ele já veio. Não se perde. Não se atrasa em seu próprio sangue.

Entende que a alegria é uma tristeza assustada. Entende que a tristeza é uma alegria calma. Alegre triste, triste alegre.

Para despir, o homem faz tudo certo, tudo exato, tudo educado e incisivo, tudo preocupado e generoso, é capaz de conversar cada assunto até o fim, mesmo que não goste. É capaz de conversar calado. Caso o homem amasse com a mesma vontade que tira as roupas da mulher.

Todo homem pretende se aventurar no declive, no recuo, na bondade do cheiro.

O homem nasceu para a recompensa, o sexo é sua recompensa, quer ser premiado pelo sexo, premido pelo sexo, não se duvidar pelo sexo, envaidecer-se pelo sexo. O homem acelera o zíper, desliza o pescoço como um fecho. Abre os braços em gola. Debrua a linha.

Do frio ao figo, do figo ao fogo, do fogo ao filho, sem retorno. Não tem certeza se vive ou morre, mas não deixa de avançar.

Desenrola a trama, destranca a porta, destrança as redes com cuidado noturno. Solta os cabelos dela: duplica-se na ternura.

Aprendemos a descolar o sutiã com o estalo de dois dedos, a puxar a calcinha com os pés, a beijar e soprar ao mesmo tempo, a dizer luxúria como se fosse simples, abafar a voz para gemer mais rápido. Fazemos no escuro, fazemos de olhos vendados, fazemos de costas, fazemos com os dentes.

Se necessário, somos facas, somos forcas, somos fracos.

Não subestime, somos exercitados a espiar com as unhas. Não há vestido que nos pregue peças. Não nos assusta o inverno e suas camadas de lã e suas camadas de básicas e suas camadas de segunda pele. Não nos incomoda a legging, as botas, os casacos com botões internos. Não pediremos explicações, não há mistérios que não sejam treinados. Enquanto beijamos, desvestimos. Enquanto passeamos, seguimos, obedientes, o novelo.

O homem é preparado para arrancar as roupas, para veranear no quarto. Para escutar o mar pelo vento das venezianas. O homem é a febre, o desejo infantil de ter logo, de ser logo, de não esperar o próximo assobio, o próximo ônibus, o próximo pensamento.

Natural e comum o homem que ajuda a despir a mulher. Raro é o homem que ajuda a mulher a se vestir depois.

11:12 AM :: Comentários:

ESCRITORES E AGENTES LITERÁRIOS

O Curso de Escritores e Agentes Literários da Unisinos está com as inscrições abertas, até 13/6, para sua terceira turma.

Se você tem mais de 25 anos, pode fazer somente a redação e escolher o processo seletivo alternativo. As provas acontecem dia 16/6 (das 9h30 às 12h - redação - e das 14h30 às 17h30 - questões discursivas) e 19/6 (aos aprovados da primeira etapa).

É a primeira graduação no Brasil a contemplar simultaneamente as duas áreas de atuação editorial.

11:06 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Junho 04, 2007

A VOZ NÃO É A LETRA
Para Carla Brambilla

Fabrício Carpinejar



Aconteceu em Caxias do Sul, mas poderia ter acontecido dentro de cada um de nós.

Orestes era ciumento e possessivo. A ponto de rilhar os dentes dormindo e culpar a mulher quando ele tinha um sonho traiçoeiro.

Ele embestou que sua mulher se insinuava para o vizinho, analisava qualquer gesto dela como um indício de infidelidade. Um bom-dia acompanhado de risinho já tumultuava a manhã e provocava brigas e desentendimentos:

- Vê se te comporta, mulher!

Se o que dói no homem traído é ser o último a ser informado da traição, o que mais dói no homem que não foi traído é ser o primeiro a antever a traição.

Ele aparava o corno imaginário, como quem cumpre a barba e corta o cabelo. Um ritual. Puxava muita raiva junto com a erva do chimarrão, que ficava mais amarga e tola. A bomba entupia de ódio. Fazia questão de abrir a janela lateral e espiar o vizinho circulando pelo tablado de madeira, a colocar os pelegos no sol.

Não trabalhava como antes, e passou a transar de olhos abertos para ver se ela fechava os olhos. Quando as pálpebras dela cansavam de prazer, ele a obrigava a levantar os olhos para observar que era ele, e não o vizinho. "Olha para mim, olha pra mim!"

Dois meses e nenhuma prova colhida. Não adiantava chegar mais cedo do serviço e alternar horários para tomá-la em flagrante. Ela não tinha costas. Não gerava um sinal físico que consumasse o caso.

Tomado de amor ressentido, decidiu escrever cartas para sua mulher fingindo que era o vizinho. Era uma maneira de acelerar a denúncia. Conhecido como bronco e objetivo, mudou sua fama na escrita. Colocou em letras garatujas tudo o que impressionava em sua mulher: o nariz que lhe abria a boca, a cintura que nenhuma guitarra seria capaz de imitar, os pés pequenos e brancos que haviam nascido da neblina. Era outro quando escrevia, apaixonado e febril. Um outro que era ele mesmo se soubesse falar e não se envergonhasse da emoção, desde que chorou a primeira vez para trabalhar na roça e apanhou do cinto paterno. A cicatriz no lombo ficara; a fivela de bronze do pai por toda a vida em sua carne, abrindo sua carne, nunca fechando a circunferência.

Foram cartas e cartas arremessadas debaixo da porta e que a mulher lia, sôfrega, trancada no banheiro.



As cartas começavam assim, um pedido que era uma ordem. O homem sussurrava em sua letra. Gemia em sua letra. Tremia em sua letra, o que o deixava ainda mais viril.

Antes de enviar a última correspondência, que daria endereço para um encontro e que serviria para apanhar a mulher em plena contradição, ele estranhou o silêncio fúnebre da casa. O armário estava deserdado, as portas abertas com os esqueletos morenos dos cabides, a mala xadrez não repousava no alto da estante, a cozinha sem alguns talheres de prata do enxoval. E um bilhete na gaveta da cômoda:



Maridos, não importa o tanto quanto falem abertamente ou expressem o que sentem para suas mulheres. A voz não é a letra. Escrevam. Escrevam e assinem cartas de amor de sua própria casa. O vizinho pode ser você.

10:36 AM :: Comentários: