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Consultório Poético

Blog

Terça-feira, Julho 31, 2007

ELES TAMBÉM GOSTAM DE UM ROMANCE
Desejo, sedução e cotidiano a dois são temas abordados pelo escritor e jornalista gaúcho Fabrício Carpinejar, 34 anos, autor, entre outros, de Como no Céu/Livro de Visitas (poesia) e O Amor Esquece de Começar (prosa), ambos da editora Bertrand Brasil. Observador atento do universo feminino e dos preconceitos masculinos, ele falou a Bons Fluidos sobre o comportamento do homem romântico, a paixão e o consultório poético/sentimental de seu blog, em que responde a e-mails de leitores.

Cacilda Guerra
Foto Ricardo Wolffenbüttel


Fabrício Carpinejar:
"O HOMEM ROMÂNTICO NÃO FAZ UMA MULHER SE SENTIR AMADA.
FAZ O MUNDO DA MULHER SE SENTIR AMADO"


BF - Como surgiu a idéia de fazer o consultório poético?
FABRÍCIO - Nelson Rodrigues teve um consultório em jornal na década de 1950, com pseudônimo de Myrna. Ele me serviu de inspiração. Sempre fui o melhor amigo de minhas colegas e costumava ouvir mais do que falar. Talvez tenha sido covarde, ensaiava várias vezes o que poderia dizer sem nunca me declarar. Mas foram esses ensaios que me permitiram descobrir várias perspectivas dos relacionamentos. A covardia me ensinou a paciência, a antecipar os diferentes desfechos de uma situação. O tímido serve como espelho ao Narciso. Um consultório com ares de crônica era um jeito de entusiasmar o leitor a se abrir e escrever suas dificuldades. Escrever é organizar e, de certo modo, cuidar do amor e se responsabilizar pelo próprio destino. Ao publicar um comentário na coluna, o leitor ganha o distanciamento necessário para se descobrir.

BF - A maioria dos e-mails é de homens, o que mostra a preocupação deles em acertar o passo com as mulheres. Você diria que esses leitores são românticos?
FABRÍCIO - Parte dos homens se finge de romântico no início da relação para mostrar vulnerabilidade. Parte das mulheres se finge de anti-romântica para mostrar segurança. Há uma curiosa e estranha troca de papéis. Todos somos românticos para a conquista. O teste para o verdadeiro romântico é depois de dez ou 15 anos de casado, quando ele não abdica da gentileza pela pressa dos costumes. Quando ele, mais do que guardar segredos, cria novos segredos com a mulher. O homem romântico é o que tem uma atitude passional pelos detalhes, pela construção da atmosfera, pelo enredo. O homem romântico não faz uma mulher se sentir amada. Faz o mundo da mulher se sentir amado.

BF - Fale um pouco de paixão e de amor.
FABRÍCIO - A paixão é a dependência física, o nervosismo de não saber diferenciar se realmente se quer aquilo ou não se sabe viver sem. Não gosto de uma visão hierárquica dos sentimentos, como se houvesse um plano de carreira para a convivência a dois ­ primeiro amizade, depois paixão e, por fim, amor.
Acredito que a paixão não leva ao amor, leva à paixão simplesmente. É um caminho sem volta. Ela descaracteriza, é uma despersonalização. Homens mudam de atitude, mulheres alteram sua forma de se mostrar. A paixão desemboca no anonimato, na mais completa estranheza. O amor é desde o princípio uma escolha, uma confirmação, uma eleição, reforça nossa personalidade. No amor, escolhemos. Na paixão, somos levados. O amor tem uma consciência louca do futuro, de fazer passado com o futuro. A paixão vive fora do tempo. O amor vive no tempo porque deixa rastros. Paixão se esquece, e amor nem enterrando acaba.

Reportagem de capa da revista Bons Fluidos, Agosto 2007, nº 100. Leia a íntegra da matéria "Por que ainda somos tão românticas?".

4:28 PM :: Comentários:


CONSULTÓRIO POÉTICO

NÃO SE TERMINA UMA RELAÇÃO SUBSTITUINDO UM AMOR PELO OUTRO
Arte de Matisse
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Olá, querido Carpinejar!

Encontrei você na "rede" há pouco mais de 03 meses, justamente no período em que minha vida virou de ponta à cabeça. Talvez por isso lhe faça de confidente agora...

Influencia muito em seu julgamento ou aconselhamento saber que sou gay? Por via das dúvidas, resolvi iniciar com essa declaração.

Tenho 29 anos e há 05 saí da casa de meus pais para morar com minha primeira "namorada", que também era iniciante nessa opção.

Ânimos familiares acalmados com a descoberta, posso afirmar que nossa vida contava com a estabilidade financeira e sentimental: éramos companheiras, tínhamos nossa casa própria, viajávamos com freqüência... Passamos por diversas situações que contribuíram para estreitar nossos laços.

De uns tempos para cá, comecei a perceber que estávamos nos "coisificando": era a rotina eivando nosso relacionamento. Percebi isso, verbalizei, mas não demos a devida importância e os dias se seguiram.

Acontece que, depois de uma briga homérica por motivo banal, algo se quebrou em mim e, numa sala de bate-papo, encontrei (estava buscando?) outra pessoa que mexeu com minha imaginação e com meu desejo adormecido.

Um mês depois do primeiro contato, sem comunicar à minha companheira, passei um final de semana com o "terceiro elemento" (que mora a cerca de 200 km de mim). Foi a realização de um amor-romântico! Ela é linda, carinhosa, fogosa... Ainda hoje nos vemos, aos finais de semana, e estamos na fase da "descoberta".

Não acredito em destino, e atribuía essa interferência de uma outra pessoa à receptividade natural, quando me descobri descompromissada com meus antigos sentimentos. Estou me fazendo entender? Naquele ínfimo instante, entre trair ou recuar, me convenci de que, se dei margem a outrem, era porque não amava mais minha namorada.

Após o acontecido, tive uma conversa visceral com minha querida companheira e expus a traição e minha resolução em sair de casa, porque estava apaixonada por outra. Feito. Aluguei um apartamento e saí quase somente com a roupa do corpo. Estava decidida, e não queria aumentar nosso sofrimento com o término.

Resumindo: acho que me perdi em algum momento...

A confusão está em não me sentir inteira nesse novo relacionamento, embora o saiba promissor. Ao mesmo tempo, ainda me sinto estranhamente ligada à primeira namorada.

Meu antigo amor não entende minha saída repentina de cena, diz que me ama muito, que está disposta a passar por essa "fase" comigo e que aguarda o meu retorno... O novo amor se mostra compreensivo, afirmando que toda minha angústia se prende ao costume e ao medo do desconhecido; quer vir morar comigo e fala de muitos planos.

Ai, ai... Será possível que eu esteja dividida entre dois amores? Ou apenas me sentido culpada e não merecedora da felicidade?

Um grande beijo, cúmplice dos meus infortúnios.

Pietra”


oi Pietra!

Não influencia nada. Não faço distinção. O amor não pergunta o sexo.

Sua história demonstra que estava buscando uma nova pessoa. Não se entra numa sala de bate-papo para assistir. Queria fugir do enfrentamento, o que é normal. Mas aviso, raros são os pares que brigam por motivos justos. Toda grande rixa de separação parte de um motivo banal. Poucos são os casamentos dissolvidos por justiça e nobres pautas. As brigas homéricas são feitas de haicais: levar o lixo, um atraso, uma palavra áspera. E não se conhece o motivo da discussão e se discute a noite inteira para investigar a origem. Quantos casamentos ruíram pelo desejo de resolver algo que não tinha início?

A briga cansa - entretanto, fortalece a liberdade e compreensão do casal. Numa espécie de desafio ao seu relato, chamaria a “coisificação” de respeito, um momento estável da relação, que pode esfriar a rotina e eliminar a adrenalina da conquista. Trair não significa que não ama mais sua namorada, talvez signifique que deveria mudar a forma de amar para amar ainda mais.

E vejo que está sentindo a ressaca do casamento. Após a embriaguez, recolher as garrafas vazias pela casa. Só que está acompanhada de uma nova namorada para se curar do porre da memória por outra. Entende? Daí a confusão. Enquanto não acertar o que ficou para trás, o pescoço no máximo vai girar para os lados.

Não terminou o relacionamento por sua escolha. Terminou em nome de um terceiro elemento. Foi um desvio, ao invés de uma saída. Não pagou a própria conta.

Reparo que não teve espaço para o luto. Zerar uma experiência. Faltou sentir aquilo que pode soar como caixinha de fósforos de Lupicínio Rodrigues: sofrer, arder de ansiedade, conter a saudade, fazer o balanço das alegrias e frustrações.

Conheço casos que chegam a um estágio na relação, e pulam para uma nova sem intervalo. E passam a vida inteira interrompendo namoros na mesma etapa e fazendo suplências. Elas não avançam, repetem o que haviam conseguido nos começos passados. Trocam apenas de álibi para manter a fórmula. Interessam-se pelo início explosivo, pela fase da provação, e escapam ao entrar na etapa do reconhecimento e da consolidação. E amor é reencarnar – assumir corpo e temperamento distintos a cada enlace.

Separe um tempo para permanecer sozinha. Substituiu um amor pelo outro. Emendou, não permitindo que a voz e o silêncio separassem os dois cenários. A confusão não é culpa, é insegurança. Você não decidiu, você adiou. E o adiamento nunca será um fim.

Beijos
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

4:23 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 30, 2007

TEMPO A PERDER
Arte de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Pára um pouco, sem nada para fazer. E veja o medo que temos de não estar respondendo alguma coisa, alguma ordem, alguma urgência.

Pára um pouco, o mundo não vai nos demitir. A família não vai nos demitir. Os amigos não vão nos demitir. Só perderemos o que não somos.

O medo de ser esquecido nos afasta da própria solidão. Transformamos tudo em urgência. Então, não há mais urgência.

Há a imperiosa aparência de se manter ocupado e ativo. Ocupado é reagir cada vez mais rápido no trabalho, no amor, no repertório prosaico. Reagimos, não ponderando se é realmente uma opção, ou apenas uma seqüência. Desvalorizamos as escolhas ao igualá-las.

Não encontrava o carnê do IPTU previsto para pagar na terça. Sofro de azia com a mais remota inadimplência. O purgatório não morreu nos meus intestinos. Nem os juros me aquietam. A paranóia de ser cobrado e perder de repente a fama de honesto (só aqui mesmo a honestidade é fama, não hábito).

Limpei as gavetas do armário. A primeira e a segunda, explorei as reentrâncias de minhas bolsas, os bolsos dos casacos, empreendi uma faxina na dispensa, convoquei a mulher a mexer em suas coisas, meu deus, já não importava achar a maldita prestação, eu amaldiçoava o tempo que estava perdendo ao procurá-la. Foram três horas e os nervos remoídos: deixei de ler livros, de escrever, de assistir filmes, de passear.

Eu me cobrava – de um jeito patético – por não aproveitar meu domingo. Com dois dias de folga, recriminava-me ao desperdiçar parte deles durante a caça de um folheto horrível branco e preto quadriculado. Olha o ponto em que cheguei?

Criei uma oração para diminuir a ansiedade:

Que bom que faço algo que não será lembrado.
As árvores ainda existem quando não estão florescendo.
Amém.


Lembrei de meu avô e sua religião de permanecer meio-turno na garagem aplainado madeiras. Não buscava o reconhecimento pelo material de sua carpintaria, nem se preocupava com exposições. Quando gostava, colocava anonimamente um dos objetos na estante. Nunca assinou as peças. Ele sempre se atrasava para jantar, aparecia na terceira chamada, sentava e saía de novo para lavar as mãos. Ele perdia seu tempo? Ou de minha avó com seu tricô no sofá. Uma malha que daria para um dos netos, enovelada por meses em suas unhas de cera, com o rigor das basculantes se fechando a cada entardecer. Ela perdia seu tempo?

Duvido, ele pensavam seu tempo.

Ainda sentia dó deles, confundia aquilo com tristeza e abandono. De onde eu tirava esse pensamento?

Eles sofriam de solidão porque desfrutavam de solidão para sofrer. A solidão é admirável. A solidão é o caráter do homem. A solidão é a sua fidelidade ao corpo. Continuarei revirando meus papéis, até entender, depois da raiva, depois da minha limitação, que a quinta parcela do IPTU me devolveu o direito de estar em casa.

Não sei se você pensa igual, mas hoje tenho tempo a perder.

12:09 PM :: Comentários:


Domingo, Julho 29, 2007

IDENTIFIQUE A NOSSA DOR
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Fabrício Carpinejar
Especial para o Correio
Foto Genaro Joner/Agência RBS



Não pode identificar os nossos mortos, identifique a nossa dor. Só isso que peço. Identifique a nossa dor antes que ela se transforme em pavor, em pânico, em doença. Nossa dor é o que há de mais fiel ao corpo do passageiro. Escute a ansiedade cardíaca de nossa dor: ela vive uma morte que é o jeito que encontramos de continuar vivendo.

Não é uma aliança, implante de platina ou um objeto que nos dirá que é ele. É a nossa dor.

A nossa dor carbonizada. A nossa dor destroçada. A nossa dor atropelada. A nossa dor que não tem um rosto do filho, do pai, da mãe, do irmão, da mulher, do marido, do amigo para se despedir. Talvez não entenda a importância de passar os dedos no nariz do morto, nas pálpebras do morto, nas orelhas do morto, no pescoço do morto, nos cílios do morto, na boca do morto e consolar:

— Vá em paz.

Que hoje não temos nem paz para doer. Não há nem como completar uma ave-maria, um pai-nosso sem esquecer metade da reza. Rezamos rápido para lembrar a letra, e não adianta. Pensamos tão rápido que não desejamos pensar. Temos fé, mas não temos um lugar seguro para pousar as palavras.

O filho que fica, o filho órfão desses acidentes, vai passar frio o resto da vida. Frio porque não terá um pai ou uma mãe a insistir para colocar o casaco ao sair. Frio porque não terá um pai ou uma mãe para cobrir seus pés de madrugada.

Frio porque o caixão paterno e materno estará sem vidro para a criança fazer desenhos com a respiração. Sem nenhuma vidraça para desenhar o caroço de um coração. O caroço. Porque nossa dor é caroço de uma polpa que não existe mais. De um suco que não existe mais. De uma árvore que não existe mais. Só há caroço no lugar do coração. Um caroço apertado como um dente doendo, como um dedo preso eternamente numa porta que não abrirá.

Frio de osso, frio porque o pequeno terá de completar a memória que falta com a imaginação.

Identifique a nossa dor, nossos mortos não estão mais naquele vôo. Estão em nossas casas. Venha entrar em seus quartos. Não tivemos coragem de informar às suas roupas que eles não vão voltar. Permanecem aguardando no cabide a força dos trilhos. Você precisa descobrir o que foi a vida de cada passageiro para entender a importância de sua morte. Tomar café da manhã com o passageiro morto, almoçar com o passageiro morto, jantar com o passageiro morto, para entender que ele não é uma exceção. Ele era toda a esperança de quem fica.

Quantos cadernos escolares ficarão sem assinatura dos pais? Quantas formaturas ficarão com assentos vazios? Quantos pequenos terão vergonha de escrever como foram suas férias para seus professores?

Não deve supor o que é mexer na agenda de um pai ou de uma mãe e ver todos os compromissos do mês de agosto como se fossem acontecer. O que é revisar as fotografias para conversar em segredo, baixinho, entre a loucura e o medo. O que é deitar na cama deles para cheirar os travesseiros. Cheirar as fronhas com ganas de abraçar.

O que é dizer está tudo bem para não desvalorizar a tristeza.

O que é ouvir suas vozes ainda na secretária telefônica:

— Embarcamos no vôo 3054, retornaremos em breve. Te amamos.

E escutar centenas de vezes a mensagem para descobrir alguma diferença sutil de um som a outro. Tentar achar alguma ameaça no tom, um pressentimento. E concluir que eles não anteviram nada de errado. Nada estranho. Errado e estranhos são os que brincam em transferir a responsabilidade. Não foi um acidente aéreo, foi um acidente ético. Uma catástrofe ética.

Eles só foram viajar, você entende? Eles só desejavam estar em casa, entende?

Identifique primeiro a nossa dor, respeite a nossa dor, os mortos estão reunidos na frente do rádio de nossa dor para esperar os seus nomes.

Minha dor, eu entrego a Deus. Mas minha raiva, essa raiva de querer viver quem eu amo até depois de sua morte, está aqui, quente do meu hálito, à sua espera.


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Publicado no Correio Braziliense, Especial Vôo 3054, Editoria Brasil, Brasília, domingo, 29 de julho de 2007

11:17 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 27, 2007

O MARIDO NOS FILHOS
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Os filhos não desanimam o casamento. Eles nos ensinam novamente a casar.

Sei que não é razoável o que estou afirmando. Não sou razoável, alguém deseja ser?

Razoável é sentenciar que os filhos tiram o tempo do namoro, interpelam a todo segundo por banalidades, brigam quando estamos lendo, atendendo ao telefone ou concentrados. Razoável é concordar que não há com quem deixar as crianças em mais de uma noite para sair e os programas tornam-se mais caseiros, a falta de opção converte os incansáveis sedutores em amigos dorminhocos. O frio, um DVD, o cansaço do trabalho são desculpas para não tentar algo diferente e superar a escassez de assunto numa mesa de restaurante. O risco da separação aumenta porque o amor não é mais prioridade.

Mas não consigo confiar nessa hipótese. Os filhos estão nos oferecendo aulas de graça (força de expressão; trata-se de fiado, um dia eles cobram).

Vicente me prepara para ser um bom marido. Com seus cinco anos. E sua timidez carismática.

Não dependo de muita concentração. É seguir seus gestos. Virar um mímico em minha casa. Um clown de suas pausas e feições.

Eu me preparei para assistir ao jogo do meu time no estádio. Fazia frio (6º), a noite ia alta e teria uma estrada pela frente. Convidei o Vicente, com a certeza que aceitaria no ato, logo agradeceria e correria ao quarto para se fardar. Porém, ele me questionou:

- Que horas vou voltar?
- 1h, acho.
- Desculpa, pai. Mas vou pegar a mãe dormindo, e quero ver sua boniteza acordada.

Notei que ele roubou minha fala. Era a resposta perfeita de marido. A frase consagradora. Compensaria uma louça empilhada, uma toalha molhada na cama, um pote de xampu virado, divorciado da tampa, o azedume no almoço da sogra, a lâmpada que não troquei na área de serviço. O filho me substituía enxergando a minha demora. Se sua mãe não estivesse escutando, cometeria um plágio sem pudor.

Ao sair, enxergo o guri no quarto, com uma vozinha esquisita, abafada, de marionete. Intuí que estivesse brincando com seus bonecos, falando por eles, como criança gosta de fazer para povoar a solidão. Mas conversava com sua mãe. Interrompi.

- Que voz é essa, Vicente?
- Voz? A minha!
- Não, nunca usou essa voz comigo. É uma vozinha dodói, diferente.
- É a voz que uso com a mamãe. Tem uma voz para cada amor.

Espantei-me. Ele seqüestrou pela segunda vez a minha parte no roteiro. Descobri que utilizo a mesma voz com a minha mulher, e deveria ser outra, para ela não me confundir comigo mesmo.

11:19 PM :: Comentários:

JOINVILLE

Vou autografar "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil) em Joinville (SC) no dia 4/8 (sábado), às 16h, e comemorar que o livro parte para a 3ª edição. Será na Livraria Curitiba, do Shopping Mueller (1º Piso - Loja 1, Fone: 47 3433-6400). Depois, às 19h, participo do sarau Palavras Acústicas no Visconde Café (Fone: 47 3028-9828), na Via Gastronômica da cidade.

Abaixo depoimento de André Seffrin sobre a obra, publicado na última revista Entrelivros.

"Fabrício Carpinejar, por sua vez, sabe caldear muito bem suas heranças e afinidades e sobretudo sabe filtrar-se a cada novo livro: Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil). Ele de fato mantém cadeira cativa entre os poetas mais intensos, prolíficos e importantes do momento e muitos dos seus movimentos poderiam estampar esta máxima de Murilo Mendes: 'Fantasticar é preparar a realidade concreta da futura metáfora'"

OUTROS EVENTOS:

03/08/07 (sexta-feira), 9h

Palestra sobre "Literatura e invenção" no SICREDI (Sistema de Crédito Cooperativo), de Porto Alegre
(Av Assis Brasil, 3940, Jardim Lindóia, Fone: 51 3358-4205)

03/08/07 (sexta-feira), 18h30

CEP de PA - Centro de Estudos Psicanalíticos de Porto Alegre
Literatura e a Psicanálise: a obra poética de Carlos Drummond de Andrade, ao lado do crítico Flavio Loureiro Chaves e Paula Daudt
(Rua Tobias da Silva, 287, Fone: 51 3222-3900)

7:29 PM :: Comentários:

BAGUAIS IRREDUTÍVEIS
Talk-show faz homenagem ao rock gaúcho, contando histórias dos bastidores e cantando seus principais sucessos.


Frank Jorge: meu amigo punk

Rock cafajeste. Letras debochadas, líricas e psicodélicas. O melhor do rock gaúcho estará vibrando no Café de Bordo de São Leopoldo (Av João Correa, 997, Telefone 51 35913320) nesta terça (31/7), às 20h30.

O talk-show Em Busca do Tempo Perdido passa a limpo a ficha técnica do som perturbado, irreverente e cult feito no estado, a partir de depoimentos de dois sobreviventes intelectuais dos anos 80, que acompanharam a evolução das principais bandas: Jimi Joe, radialista, apresentador da Unisinos FM, guitarrista, três décadas roqueiras e autor do CD Saudades do Futuro, e Frank Jorge, com passagem por bandas como Cascavelletes e Cowboys Espirituais e integrante da Graforréia Xilarmônica.

Momento de reencontrar a adolescência do rock porto-alegrense, cantar Taranatiriça e Bandaliera, Replicantes e Júpiter Maçã, De Falla e Bixo da Seda. O programa mais retrô da Região Metropolitana está de volta para reprisar hits como "Menstruada" (Cascavelletes) e "Surfista Calhorda" (Replicantes) e, evidentemente, encher os pulmões para a letra de “Amigo Punk“ (Graforréia), uma espécie de hino bastardo gaúcho.

A apresentação e animação são por conta do poeta e jornalista Fabrício Carpinejar e de Frank Jorge.

No clima descontraído, Em Busca do Tempo Perdido emprega uma espécie de humor cantante. Esclarece momentos históricos da cena cultural e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. É contra-indicado aos insensíveis à nostalgia. Caracteriza-se pela interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.

7:25 PM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 24, 2007

A CALIGRAFIA DE ALESSANDRA

Fabrício Carpinejar



No restaurante A Favorita de Belo Horizonte, não foram a comida e o doce que me arrebataram, apesar de ambos serem saborosos.

Não foi a decoração charmosa. Os três ambientes. A estante de pães franceses. Os pratos. A cristaleira. O guardanapo dobrado como uma gravata de primeira comunhão. As cadeiras altas. A mesa envidraçada. O atendimento gentil e rápido.

Foi a letra do quadro-negro. A letra emendada, linda, que mostrava o cardápio do dia e as recomendações da cozinha. Uma letra desenhada, sem erro. Uma letra calçadão de praia, para caminhar várias vezes a mesma guarida. Uma letra que não enjoa, assim como olhar ao mar.

Uma letra que nunca usaria para limpar a minha boca. Uma letra longa como uma echarpe. Letra com suspensórios, não cinto. Uma letra que me fazia ler quem escrevia e não o que estava escrito. Uma letra com alma de arrebentação. Pessoas dentro da letra. Cheiros, sons dentro da letra. Letras sobrepondo-se como aros de bicicleta em movimento.

Não havia como adiá-la, desviar o pescoço, pedir licença, avisar para a luz passar noutro dia. Era ofender o sol.

Entendo o remorso de quem é escalado para apagar aquela letra a cada madrugada. É muito pecado para digerir de pé.

Uma letra de água quente. De bacia de manicure, vapor de banho. Uma letra que foi feita com giz, mas é bordada. Uma letra como os blusões trabalhados durante meses pelas gestantes. O crochê paciente diante da novelo e da expectativa do filho.

Uma letra que acalma, esperançosa. Uma vida pela frente. Como os nomes postos em lençóis dos recém-casados. Como as iniciais nos aventais dos médicos e dos piás no jardim de infância. Como as guirlandas de Natal na porta. Como os desenhos feitos por crianças nas traseiras sujas dos automóveis.

Uma letra que tem as linhas nas próprias palavras e não tropeça. Uma letra que carrega quatro pratos ao mesmo tempo. Uma letra sem cacos de vidro no muro. Uma letra de convite de casamento. Uma letra que é uma boa notícia, alguém chegando, um amor voltando. Uma letra que é uma escada de pano, os andares das palavras tocando suas arestas.

Eu que tenho uma letra pavorosa, me redimi de toda pressa. Perante aquela letra, quis tentar de novo os cadernos de caligrafia. Quis conversar com as aves, os cachorros, os gatos. Entendia, entendia o que nunca pensei que fosse comigo. Quis conversar com os policiais nas portas das farmácias e dispensá-los do serviço. Quis me aventurar. Quis me inscrever em cursos de russo e mandarim. Mastigava as palavras com gosto e sequer conseguia repetir a voz.

Aquela letra me puxou de saudades das apresentações em turma na escola, das cartolinas que preparava com as fôrmas de metal. Fiquei com vontade de ser desmemoriado para reescrever o que vivi. Aquela letra me converteu. Aquela letra me folheou livros novos no rosto.

Saciados, eu e minha mulher cumprimentamos o chef.

Ele não entendeu quando prometemos voltar para rever a letra.

6:13 PM :: Comentários:

SEMPRE UM PAPO

Não dá para falar de literatura no Brasil sem espiar antes o Sempre um Papo. Além de organizar encontros com autores por todo o país, está formando bibliotecas comunitárias em Minas Gerais.

No início de minha trajetória literária, andava de táxi em Belo Horizonte e o motorista comentava o evento com entusiasmo futebolístico. Tal partida no Mineirão. E insistia, cético, comigo: "você ainda não foi?" Gaguejava que não, todo constrangido. Ele me humilhava: "Então, você tem que se conformar, ainda não faz sucesso!"

É a quarta vez que vou para o projeto de mais de 20 anos do jornalista Afonso Borges. É óbvio que continuarei indo, pelos leitores, e para me vingar do taxista, disposto a me exibir e devolver a corrida.

Até hoje não consegui me encontrar com Afonso, o idealizador incansável da proposta. Marcamos desencontros. Quando chego, ele parte para outra cidade. Quando eu parto, ele volta. Nos falamos ao telefone, e acredito que sua imagem é uma fotomontagem a partir do estilista Jean Paul Gaultier. Ou uma voz onisciente que dá instruções e organiza as conferências, tipo o Charlie do seriado As Panteras.


AFONSO: ELE EXISTE?


GAULTIER É O SÓSIA MAIS POBRE DE AFONSO

Apaixonei-me pela amizade de seus colaboradores: Rafael, Ray e agora Lilian. Minha alegria fica mais agressiva perto deles. Mais desembaraçada. Mais circense. Com Rafael, não dependo de muitas palavras e já estamos rindo, aprontando, comprando roupas em brechós, relembrando gafes históricas. É um irmão que mora longe. Se ele não apressar em escrever seu romance, não me responsabilizo caso sua história aparecer na minha biografia. Ray tem um linhagem elegante, não faz barulho com o salto, olhar esguio e sedutor de quem não pisca para o cálice de vinho. Misteriosa: deve ter segredos invioláveis. Ou a ausência de segredos é seu segredo. Faz um gênero de pouca conversa, no princípio transmite a impressão de braba, mas é a brabeza carnosa da fruta doce (tomara que não fique braba de vez). Ela é segura e determinada na aparência, por dentro romântica e sensível. Uma mulher generosa já pelo seu perfume, espalha pelo pulso para nos fazer aproximar. Lilian está começando. Metade assustada, a outra metade também. Presta atenção inclusive quando não falamos. Sequiosa e arrebatada. Louca para escrever, ainda escreverá para enlouquecer.

Para comemorar, mostro algumas fotos de meu último encontro. Cliques de Daniel de Cerqueira:






3:42 PM :: Comentários:


Domingo, Julho 22, 2007

ESCOMBROS DE MIM
Texto e fotografia de

Fabrício Carpinejar



Viver é um susto; morrer, um pânico.

Custo a acordar. Ainda reconto os lugares do vôo 3054, da TAM, que escorregou da pista de Congonhas na terça (17/07) e explodiu no hangar nas proximidades do aeroporto. Foram 187 pessoas carbonizadas a bordo, além das que se encontravam nas imediações, totalizando cerca de 200 mortos.

Fiz o mesmo trajeto, Porto Alegre-Belo Horizonte, com a mesma companhia e o mesmo horário (17h), um dia antes. Poderia ter adiado a passagem, escolhido aquele horário entre as cinco opções que recebi antes de embarcar. Era só colocar um x no lado e traçava minha despedida. Um x e não estava mais aqui, nem poderia pensar em me comunicar com você. O que me impulsionou a escolher uma outra escala, uma outra data? Quem mexeu minha mão, a intuição ou a casualidade ou a sorte? Deus me poupou, mas será que é ele que escolhe a dedo as vítimas? Não acredito nessa crueldade.

Centenas de gaúchos, conhecidos de conhecidos, personalidades sumiram entre o pouso e o fogo. Não há quem não valorize hoje sua vida se aproximando daquele vôo. A rotina é reprisar o que não aconteceu. O que mais escutei foi "eu poderia ter estado lá", mesmo que a hipótese seja improvável. Mesmo que ninguém tenha ainda conhecido Porto Alegre e o ponto de partida daquela conexão. Há um exercício de intimidade com as perdas, um "se" interminável em cada conversa. Há uma ansiedade em deixar um pouco mais de nossa morte nas poltronas vermelhas, como se fosse uma doação de sangue e roupa. Porque estamos vivos para fazer isso. Ainda podemos morrer e doar nossa morte. Porque essa tragédia - seja pela ausência do reversor, seja pela carência das ranhuras na pista, seja pelo descaso do Governo - me torna culpado por permanecer. Eu me sinto culpado por todos os que faleceram sem entender o motivo. Por todos os que não se despediram. Eu me sinto culpado por ser brasileiro. Eu me sinto culpado porque não entendo o que escuto, não acredito no que vejo, nada diminui minha ansiedade por uma resposta que não virá. Sou uma resposta com ênfase de pergunta.

Conversei com o deputado federal Julio Redecker, uma das vítimas, num seminário em Canela no início de julho. Ele assistiu a minha palestra na Associação dos Procuradores do Estado. Se eu soubesse que ele teria apenas mais duas semanas de vida, se ele soubesse. Ele me cumprimentou, ele me abraçou, alheio ao que aconteceria. E fui rápido para me desembaraçar da conversa, pois concluí que teríamos novos encontros pela frente.

Amigos embarcaram naquele dia às 15h30 pela TAM, para São Paulo. Por uma hora e meia, estão a salvo. Teve gente que remarcou a passagem. Teve gente que se atrasou. Teve gente que cancelou. Como não se atormentar ao perceber que o destino é decidido por um detalhe? Um detalhe.

Viajava na semana com Ana, minha mulher, sem meus filhos Vicente e Mariana. Se eu estivesse no fatídico Airbus A320, Vicente não veria mais seus dois pais num só lance. Com quem ficaria? Eu me engasgo ao amarrar os cadarços de minha aliança. Eu me engasgo ao definir a roupa de minha criança para a escola. Chovo premonições. Assim desmarcarei compromissos porque não me sinto confiante, desmarcarei encontros porque ouvi uma música triste e pode ser um aviso. Assim, sim, não. Não sei se o que penso é ou não é, estou lendo placas e anúncios para jogar no bicho e ganhar de volta o domínio de minha vida. Choro por não me pertencer. Eu nunca me pertenci, como os 187 passageiros.

Meu Vicente, de São Leopoldo, tem cinco anos, a idade de Roger, de Ijuí. Roger perdeu os pais, Sandro e Lisiane, no vôo. Roger esperava os presentes da viagem, costume da família. Eu entreguei os presentes de Vicente ao chegar, um violão em miniatura, uma camisa e um balanço artesanal de bonecos. Ele cheirou minha barba e beijou minha nuca, pediu para fazer aviãozinho com seus braços esticados pelo corredor. Sandro e Lisiane não conseguiram dar as lembranças, os pacotes embrulhados para sempre, o nó-cego da balconista. Roger aguarda o capacete da bicicleta, a joelheira e um quebra-cabeça prometidos. Recebeu um quebra-cabeça invisível para toda sua história, sem as duas principais peças do seu crescimento. Um quebra-cabeça incompleto eternamente, por mais que ele procure em sua boca, entre seus brinquedos e debaixo do sofá. Não adianta esperar na janela ou na porta, rezar salve-rainha para recuperar. Ninguém tem coragem de contar a verdade. A verdade é insuportável quando injusta. Não sabe que seus pais morreram. A infância é esperançosa. Vicente não sabe que seus pais podem morrer.

No momento da tragédia, meu telefone não parou de tocar. Eu não parei de ligar. Tendo a certeza, queria ter certeza que ninguém da família estava perto do desastre. Queria confirmar a certeza. Telefonei até para minha mãe que não anda de avião. Renunciei as certezas, será espinhoso recuperá-las.

Minha filha Mariana mandou e-mail, enlouquecida de afeto:

----- Original Message -----
From: mariananejar
To: carpinejar
Pai, você está bem? E a Ana? Soube ontem de noite que vocês viajaram pra Congonhas com a Tam um pouco antes do acidente. Puxa vida!!!
Tá, mas vocês estão bem, né? E a vó Maria Elisa? Não ficou mal depois do acidente?
Se você puder responder hoje mesmo, tá? Te lembra daqueles meus maus pressentimentos, nos quais eu falava de morte? Eu sabia que algo estava pra acontecer.
E olha só, você pegou mesmo um avião da Tam umas horinhas antes do acidente? Isso pode ser um alerta divino.
Bjs. Te amo. (viu como as adolescentes podem ser diretas?)


Recebi dez e-mails dela, repetidos, com a diferença de um minuto:

----- Original Message -----
From: mariananejar
To: carpinejar

Pai, eu tô falando sério, me liga. Ou melhor, liga pra minha vó Maria Helena e ela passa o celular pra mim. Eu ainda estou com dúvidas sobre tua viagem.


O desespero dela era por quem não tinha morrido. Procure imaginar o desespero por quem morreu. A imaginação não suportaria avançar – ela se repete para se proteger.

Eu tive a chance de responder. Cento e oitenta e sete pessoas, não. Sem deixar uma justificativa e um último pedido. Sem reação.

Cento e oitenta e sete nomes que correm vivos no orkut, vivos na caixa postal, vivos no guarda-roupa e nos hábitos da casa, vivos nas contas e nas cartas, vivos no banco. E não respiram. E não têm um mínimo do corpo para atestar que são muito mais do que nomes.

Não explicarei a dor dos que ficaram órfãos. A dor é uma acusação. Não explicarei a dor dos que partiram. A dor é Deus.

Dói para esquecer, dói para lembrar.

Desapareci no vôo 3054 sem ter entrado na aeronave. Milhões de pessoas desapareceram como eu. Não tenho agora medo de avião. Tenho medo de ser feliz.

1:06 PM :: Comentários:


Sábado, Julho 21, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO


COMO COLOCAR UM PONTO FINAL?
Arte de Karl Schmidt-Rottluff
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar




"Carpinejar

Sempre acompanho seu blog. Poucas foram as vezes que tomei coragem e me arrisquei a te deixar um comentário. Mas sempre passo por lá. É como se fosse um refúgio, uma procura por respostas. Um momento em que viajo pelas palavras, um momento que faço meu.

Considero minha história meio complicada (rs), mas é mais ou menos assim minha situação atual:

Meu último namoro durou dois anos, Eusébio. É tão estranho pra mim olhar nossas cartas, nossas fotos, nossos e-mails, relembrar nossos momentos, nossas conversas... relembrar até o que senti em cada situação... é estranho porque não parecia ser eu. Eu não o amo mais.

Confesso que quando disse “eu te amo” a ele foi meio que por pressão. Como ouvir isso e não dizer também? Não consegui agüentar por muito tempo e acabei dizendo. E como dizer “Não te amo” depois de já ter dito o contrário?! Ufffff.

Foi algo diferente, tanto eu quanto ele tínhamos saído de outra relação que não havia dado certo. As “relações’ que não deram certo eram muito parecidas. Acho que tudo começou daí, ele me tratou como o outro não havia tratado, ele me passou a confiança, ele me disse, ele me assumiu, ele me apresentou pra família, pros amigos. Ele fez tudo, cada detalhe. Mas tudo que eu esperava do Outro.

Ele é um cara que qualquer outra mulher quer. Assumo, vejo isso.

Só que ele sempre quis muito de mim, por ser mais velho, por realmente me amar, sempre me cobrou muitas atitudes. Em meio a tanta briga, tanto ciúmes, tanto vaivém, fui sufocada e qualquer sentimento que existisse ou que fosse existir também.

Pode ser carinho, atração, pena, mas não pode ser amor.

Durante dois anos fiquei ausente de muitas coisas, e pra muitas pessoas. Foram dois anos certos demais, sérios demais, dois anos estáveis. Com apenas um cara, com a certeza de que era aquilo e pronto.

Mesmo depois do “fim”, ainda temos um “rolo”. Ou como diz uma amiga minha: “Eu apenas tirei a aliança”. É como se pudesse ter a minha curtição, e ao mesmo o tenho na mão também, a hora que quiser. Ainda o tenho, mas pra mim acabou.

Só que ao mesmo tempo não consigo resistir a certas coisas: ligar pra ele, vê-lo, conversar nem que seja por MSN. Coisas que eu sei que deveria evitar.

Acabou, está fazendo muito mal a ele, a nós. E qualquer contato que poderíamos manter depois de tudo isso. E a cada estação que passa as coisas pioram. Por ainda ficarmos existe cobrança, mas entendo que ele não consiga ver o limite, existe limite?

Ele diz estar acabado, sem chão, sem esperança, sem saber pra onde ir, o que fazer. Sei que é o “golpe” mais antigo, mas tenho medo que ele faça algo com ele. Comigo, com alguém.

Até onde vai a dor de “amar e não ser amado”?

Preciso colocar um ponto final, mas por onde começar, como fazer? De onde tirar forças? Depois de dois anos é tudo tão cômodo, uma rotina, costume, EGO!

Beijos e Obrigada.

Elisa”


Oi Elisa

Não considero sua história complicada, está resolvida. Seu erro - se há um - é não ter sido sincera no início. Sincera mesmo. Sinceridade reduz muitos enganos. Sei que falamos "eu te amo" para retribuir um desejo ou ser educada e não estragar um momento. Mas o "eu te amo" tem uma força irrecuperável e depois ficamos reféns dessas palavras. É o que disse: "como voltar atrás depois de declará-lo?"

Mas aí que a verdade se estabelece: amamos em alguns momentos, não sempre e em linha reta. Podemos amar sempre uma pessoa, desde que o sempre seja devagar e aos poucos. O que nos dá a certeza de amar sempre é não ter uma folga sequer em desamar. As lembranças vão se concentrando e não deixando fresta para a dúvida.

Pior que não amá-lo, é apiedar-se dele. Não faça isso: a complacência o torna dependente e inerte. Ele hoje é a projeção de seus medos. A dor tem a capacidade de regenerar o amor, mas não dê esperança quando não existe fé. A esperança confunde. Ele precisa saber odiá-la. Aprender a se defender. Aprender a recusá-la. Uma trégua ao telefone, no MSN e nos encontros seria consolador. Para ele, falar contigo é decisivo. Para você, falar com ele é confortável. Vê só a diferença. Não é questão de coragem, e sim de discernimento e respeito.

Acredito que está testando o amor dele. Desde o princípio, admira o que ele sente por ti e gosta de vê-lo atuar. Por isso, "parece que não foi contigo" ao relembrar cartas e mensagens entre vocês. De um certo modo, ama o amor que ele tem por ti, não ama ele. Deseja ver até onde o sentimento consegue chegar. É uma vaidade, e até uma inveja. Não duvido que gostaria de retribuir, porém virou a platéia dele. Tanto que agora está receosa do que ele fará - tal destino de uma novela. Não participa, assiste a própria vida com distanciamento. Ao cobrar atitudes, ele estava tentando igualar a motivação entre vocês. Identificou sua postura passiva e desinteressada.

Não larga o osso e a carne pela posse. Assim quando ele aparecer com outra, terá uma séria crise de ciúme, que não significará paixão, porém ameaça ao ego. No instante em que afirma que é um homem que toda mulher quer, demonstra que está o exibindo (algo como: as mulheres querem o que eu tenho). O correto seria pensar: é o homem que eu quero, e não se preocupar com o ibope e as aparências.

O excesso de segurança, essa possibilidade charmosa de contar com a exclusividade de um olhar, subtraiu – ironicamente - a masculinidade de seu companheiro. Ele transformou-se num amigo, onde pode reinar soberana e pedir o que quiser sem constrangimento. Não precisa nem marcar um encontro - ele estará a aguardando. Cadê a aventura de não ser a mesma? Uma mulher - e desculpe a generalização - não quer ser sempre a mesma para um homem. Ela deseja ser sempre diferente para o mesmo.

É possível que não queira também alguém com o perfil dele, e deve considerar a hipótese, ainda que a trate como nunca antes.

Divido o amor em “cortês”, o bajulador, e o “herege”, o transgressor. É raro o primeiro vingar; porque o elogio exagerado não faz crescer e anula a autocrítica. O segundo não tem uma gramática definida, é inquieto, transtorna e perturba. Corremos o risco de perder a cada dia. Não concordamos com ele, mas a discordância excita ao prometer novas variações. Pode ser que o atraía um parceiro herege que seja mais independente, difícil e inesperado. Tem a necessidade de conquistar e amadurecer e se descobrir.

Pergunto agora: até onde vai um amor sem dor?

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

12:18 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 16, 2007

COMO CONVERSAR COM ADOLESCENTES
(Um pouco mais de riso, menos siso)

Desenho do boneco de neve de Vicente

Fabrício Carpinejar



Adolescente não merece pagar a conta pela crise de identidade. Não é culpa do hormônio.

A crise já eclodiu na infância. Ruim mesmo são as espinhas, que buscam o lugar fixo das sobrancelhas.

Estou farto da sentença "é adolescente, tá explicado" como desculpa para a azia do comportamento. Explicado o quê?

Seu filho bate a porta, não conversa com as visitas, passa emburrado e embirrado pela sala, não troca um olhar digno no almoço, logo justificamos: "é a adolescência". E os adolescentes deitam e rolam aproveitando a fama.

Adolescência virou uma entidade divina. Uma força sobrenatural para explicar a falta de paciência, humor e entendimento dos pais.

Os adolescentes só perdem para os políticos no ranking "É assim mesmo". É necessário reconhecer, eles são grosseiros, mas os pais são carentes desesperados pelo reconhecimento. O problema não é a compreensão, é a freqüência. Eles estão rindo, e os pais falando sério.

Na adolescência, exercita-se o avesso da linguagem. Tudo é ao contrário. A linguagem está se olhando no espelho. A ironia é talhada, assim como a crítica.

O adolescente não fala nada direto, fase das tangências e transversais. Deixa as avenidas para os adultos, andam pelos becos, vielas, ruas sem saída.

Minha filha de 13 anos não me elogia, sequer faz declarações apaixonadas. Não vai me abraçar e denunciar que sente saudades. A fase dos cartões com desenhos e legendas "eu te amo, papai" terminou na 3ª série. Edição esgotada, reimpressão fora de cogitação. Quem guardou, guardou.

Ela me critica de um modo implacável. Manhã, tarde e noite. Nem meus inimigos seriam tão atentos. Estou colocando uma roupa e ele espicha sua voz. Juro que vou receber um carinho e ela tasca:

- Que barriguinha charmosa.

Primeiro round. Sento-me para escrever no computador, ela logo vem e diz toda melosa:

- Minha carequinha.

Em dez minutos, sou barrigudo e careca. Segundo round. Atendo o telefone e ela me imita, destacando as palavras que pronuncio enroladas:

- Ingrês, pai?

Agora sou fanho. Quarto round. Ela ouve meu texto, e comenta vigorosa:

- Gosto mais do que escrevia antes.

Sou repetitivo. Quinto round. Reclama que herdou meu nariz e meus dentes.

- Seus olhos de mel ficaram com quem? Seu egoísta!

Pronto. Acrescente narigudo e dentição torta ao prontuário.

Sexto round. Preparo-me para sair, ela me investiga:

- Vai sair assim?
- O que há de errado?, replico.
- Nada, a única coisa que faz bem é se vestir.

Nocaute.

Nenhuma dos apontamentos maliciosos me incomoda. Depois de respirar fundo, encontro uma satisfação esquisita. Ficaria deprimido se ela não falasse comigo. Na adolescência, as frases têm que ser entendidas ao revés. Agredir é seu modo de me elogiar, de interpelar, de se fazer presente, de se preocupar comigo. Ela não me ama menos, é o jeito que encontrou de se aproximar. Seu deboche me valoriza. O adolescente não deseja ser óbvio. Procura o contraponto e as conexões secretas.

A verdade é que ela não deixou de brincar comigo. Continuamos com o esconde-esconde de antigamente.

10:09 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 14, 2007

MÃOS FRIAS
Arte de Michelangelo

Fabrício Carpinejar



Elas são bonitas, macias e do tamanho de uma romã.

Mas são cadavéricas. Embaraço-me com as minhas mãos. Lilás, lilases, no momento em que a floração do bairro é rosada, gérbera.

Elas teimam em morrer semanalmente. Desde a escola, são gélidas. Os pêlos loiros não cobrem a pele.

Sou condenado a me explicar quando cumprimento alguém. E desisti de responder educado: "mãos frias, coração quente". Cansei dessa justificativa infantil.

Até no verão. Em qualquer estação e temperatura, aqui e alhures, estarão frias. Já espantei conhecidos com meu tato. Renunciei namoros pelas mãos. Extraviei amigos pelas mãos. Colegas arrepiando-se com rancor, expulsando-me com ranço, ralhando que não agüentavam a textura nevada.

Eu assombrava os cotovelos desavisados, os ombros distraídos, as palmas ingênuas.

Na aula, colocava as mãos debaixo das pernas. Para não tirá-las do lugar, folheava os livros soprando as páginas. Na rua, vivia com as mãos nos bolsos do casaco, algemado em segredo. Tanto que abria o forro por dentro e destruía o muro de pano entre o lado esquerdo e o direito. Em casa, encostava as mãos no forno à lenha, voando parado como carvão.

Cobertores, edredons, luvas – a lã nunca me concluiu.

Nada aquecia as mãos. Minhas mãos esqueceram de nascer, para salvar o corpo. Empurraram o corpo ao mundo, não conseguiram nadar e ficaram acenando da outra margem.

Enfrento constrangimentos na intimidade. Ao entrar na blusa da mulher, iniciar as carícias e esculpir o dorso, ela logo me afasta. Não paramos porque podemos ser vistos, porque ela não está pronta e não quer. Não é resultado do recato e do desânimo. São as mãos frias. Minhas mãos frias são contraceptivas. Ela me observa com censura: “vá esquentar primeiro as mãos!"

A nudez em minha frente e a impaciência. A atmosfera totalmente interrompida. Ficava matutando: como esquentar as mãos sem tocá-la? Como chegar sem usar os braços?

Minhas mãos precisavam de preliminares antes das preliminares. Era patético friccionar, em separado, os dedos para tentar de novo.

Minha boca, ah minha boca, sempre teve que trabalhar em dobro.

3:44 PM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 10, 2007

APAIXONADO E AMANHECIDO
Arte de Jean Arp

Fabrício Carpinejar



Apaixono-me quando vejo uma calçada sendo lavada.

Na rua de minha infância, entre as 8h e 9h, os moradores deixavam a reclusão da varanda e varriam as lajes com a mangueira. O sol batia de leve seus cascos para não cair.

Arrepiava-me os desejos de limpar o mundo de tanta gente logo cedo.

As brigas de casais, as rusgas com os filhos, as rugas do rosto, as pendências financeiras eram resolvidas varrendo a rua. A missa cuidava somente dos casos mais graves.

As entradas de casa transformavam-se em saboneteiras. As poças espumosas e os passarinhos curiosos com a concorrência súbita das bolhas de sabão.

A harmonia dos movimentos, o som da palha esfregando o limo e as manchas, limpando o sangue de alguma tombo de bicicleta, as marcas duplas do rolimã, o jogo da amarelinha.

Que vontade de consertar a vida havia naqueles cotovelos girando de cima para baixo. Remadores a seco, cumprindo a porção de suas quadras. Alinhados. Concentrados em expiar os pecados antes do meio-dia. Viúvas, senhoras em licença-maternidade, empregadas, zeladores, aposentados em trajes humílimos, irreconhecíveis em sua pobreza matutina.

A vitrola da vassoura, tchumtchumtchum.

Lavar ruas, lavar escadarias, o cheiro agudo do alvejante. Meu cuidado para passar, torcendo que o esguicho se distraísse e fosse me banhar nos dias quentes da primavera.

Fui para a escola, fui para universidade, sempre me encontrando com a juventude da água e as velhas mãos de seus moradores dançando no meio-fio. A corrente ia vagarosa e obediente descer a lomba até saciar a boca-de-lobo.

Na ordem mínima de meu bairro, a rua escovava os dentes. E as mulheres e os homens saíam ao trabalho com as noites coladas em seus corpos.

Apaixono-me quando vejo alguém lavando o piso. A manhã vaporosa dos sapatos cuidando para não escorregar. Olho otimista para o chão. Olhar para o chão não é desvalia, depressão, fracasso. Olho para o chão mais do que ao céu. E me levanto pouco a pouco, firmando as pernas da esperança.

Creio que sofri fome de amor nos meus primeiros dias, e o que enxergo chegando perto de mim é visita. Eu me apaixono por qualquer motivo. Eu me apaixono até pela falta de motivo - a verdade é essa. Apaixono-me por estar amanhecido.

3:28 PM :: Comentários:


CONSULTÓRIO POÉTICO

FICAR É FÁCIL, E DESFICAR?
Arte de Lucio Fontana
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Oi, tudo bem? Sou a Emanuelle. Hoje tu esteve lá no meu colégio e deu uma "palestra" para a minha turma e disse que podíamos mandar um e-mail pra ti e tal.. Bom, é que eu estou com um problemão e não sei mais o que fazer! Gosto muito de escrever e me identifiquei muito com o seu estilo (também sou muito romântica).

O problema é o seguinte; estou namorando com o meu colega e eu amo muito ele, amo mesmo! Não é aquele foguinho de palha de adolescente, sabe? Já tive outros dois namorados mas nenhum deles me fez sentir como este, o Wilson. A gente namora há seis meses mas estamos juntos (indo e voltando, ficando e "desficando") há um ano e ele não tem me tratado muito bem...

Ele erra naquelas pequenas coisas, sabe? Começou com uma falta de atenção e agora quando brigamos chegamos até a nos bater! Isso é uma falta de respeito, nunca tolerei isso e não vai ser agora que vou tolerar, não é? Já conversei com ele milhões de vezes, mas nada muda! Ele continua me deixando de lado, só quer saber dos amigos dele (que, por serem da mesma turma que eu, são meus amigos também) e das suas coisas! Nunca ganho um carinho, um beijinho, um elogio... Nada! E nada do que eu faço, ou tento fazer, por ele parece ser o suficiente! Como sou uma pessoa muito emotiva, acabo chorando e fazendo aquele "showzinho" todo. Mas ontem liguei pra ele e tivemos uma conversa super sincera; achamos melhor dar um tempo (quer dizer, ele achou -. por mim nós continuaríamos tentando) e ver como ficam as coisas, os dias de um sem o outro. Isso foi ontem!!! A tua palestra foi hoje e quando tu leu "O que uma mulher quer" e "Medo de se apaixonar" quase comecei a chorar, mas sei que se eu fizer isso ele vai "pular fora" de vez. Ele ficou surpreso por eu não ter chorado (e eu também) quando conversamos ontem.

Confesso que foi muitíssimo difícil vê-lo hoje e saber que não posso chegar perto e dar um abraço, um beijo...

Obrigada pela atenção! :)
Beijos,
Emanuelle”


No momento em que escrevo, de repente vocês voltaram, Emanuelle.

Mas não deixarei de comentar o que acredito. Há uma fissura que não deixa o amor entrar, o amor sentar e se acalmar. O amor ter tempo de ser de dois corpos também, não somente de um.

Sofrerá com sua ausência, sofrerá ao vê-lo com outras, sofrerá porque a turma é a mesma e haverá encontros e festas de sobra para reatarem. Mas toda vez que retornar, estará aumentando a ansiedade - e a insatisfação.

Você está apaixonada. E não permite enxergar que a paixão seja somente sua. A paixão funciona como uma obsessão, sem bússola e limite. Numa breve retrospectiva: ficaram seis meses juntos e durante um ano brigam e voltam. A única estabilidade que existe é a da discussão. Na verdade, ele somente quer ficar contigo quando lhe agrada. Deve sentir uma atração ou carência - nada mais do que isso, além de se envaidecer do seu show de ciúmes (por mais que a critique). O ciúme enfraquece se o outro lado não ama. O ciúme fortalece a relação quando há reciprocidade.

Quer descobrir se ele a ama? Observe como seus amigos reagem perto de você. Risinhos? Cochichos? Mostra que eles a observam como a insistente apaixonada. Cuidado para não virar motivo de gozação ou de pena.

Não duvido que ele adore quando você se escabela e demonstra exclusividade e incapacidade de viver longe. Você abdicou da própria personalidade para cultuar a dele. Anulou-se. Não poderia admitir que o cenário atinja a violência física - sinaliza uma humilhação que tende a se agravar. Ele não peca nas coisas insignificantes, peca nas grandes coisas, que é não aprender com os pequenos erros.

Será que não é você que puxa sempre a reconciliação? Ou admite deduzir o que ele não pensou, para seguir com a idéia de que é possível?

Quando apaixonados, escutamos o que queremos, entendemos o que precisamos, concluímos o que nos agrada. Não duvido que ele não tenha falado que não desejava namorar ou prosseguir o relacionamento. Com um gesto. Ou ausência de gesto, já que ele não diz nenhum elogio, muito menos oferece carinho e beijos. Você não quer ouvir. Finge que não ouviu. E tentar convencê-lo de que suas palavras são também as dele. Está falando sozinha. Um dia entenderá que o distanciamento dele infelizmente é uma resposta.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

1:46 PM :: Comentários:

MEU FILHO, MINHA FILHA EM BELO HORIZONTE



1:39 PM :: Comentários:


Sábado, Julho 07, 2007

AMAR É ACREDITAR
Arte de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar



Não é mais o caso de pintar os cabelos grisalhos de caju, mascarar a barba com tinta preta. Não é mais o caso de implante e de plástica. Não é mais o caso de musculação e academia no finalzinho de tarde. Não é mais o caso de esconder os pneus em casacos de motoqueiro. Esses casos são compreensíveis. Uns patéticos, outros necessários.

Patético é pintar o cabelo de caju, o mesmo que usar peruca. O homem faz tão malfeito que esquece das sobrancelhas. Se bem que pintar as sobrancelhas de caju é usar duas vezes peruca. Um bicho cabeludo não consegue ser discreto como a lagartixa.

Sempre envelhecemos e vamos envelhecer mesmo que não tenhamos vontade.

O que tento falar é que o homem deu para mentir sua idade. Agora nada mais o separa das mulheres. Não é disfarçar, camuflar, dissimular, é mentir descaradamente.

Mentir que é mais velho é maturidade. Mentir que é mais novo é covardia.

As mulheres têm o direto de deslocar sua data de nascimento, elas são as idades que imaginam. Mas os homens, eles não desfrutam desse talento e são completos amadores. Serão - no máximo - as idades que se esqueceram.

Nem sabem onde estão se metendo. Falta-lhes sutileza, preparo. Falta-lhes, acima de tudo, unidade.

Penso melhor, as mulheres decidiram não mentir mais a idade. Olhe ao redor. Agora são sensuais e altivas com 50, 60 e 70. Confessam abertamente onde e como nasceram. Ficam irresistíveis desprezando a cronologia. Está acontecendo uma inversão. Os homens começaram a mentir a idade e as mulheres a não mentir mais.

Na minha adolescência, levantava a idade para cima. Eu me promovia dois anos para entrar em boates e assistir filmes pornôs. Para seduzir uma menina e dirigir. Para beber e me forçar adulto. Trocar a idade na adolescência é um ritual de passagem.

Todas as situações em que falseava eram com o propósito de existir. Desde o princípio, quis ser mais velho (acho que exagerei, com 34 aparento com folga mais de 40).

Vamos ao local do crime. Numa balada, um amigo conversava com uma menina de 19 anos. Ele, com 45, falou que tinha 35 anos. Ouvi mal? Vontade de rir, o cinco no final era igual e podia ter me confundido. A sorte é que ela perguntou de novo, mostrando que, como eu, não acreditava.

Ele gritou: "35!". Juro que ouvi o bar inteiro se virar. Foi no intervalo de troca de música.

Uma década. Apagou uma década de sua vida sem nenhum remorso. Apagou sua ex, seu filho, sua promoção, sua viagem ao Chile, as roupas que usava naquela noite e o campeonato sênior que ganhamos no ano passado. Eu, portanto, nem o conhecia. Ele me apagou de sua vida também.

Estava adiantado e o deixei fazendo fiado no balcão. Não iria pagar chope a estranho. Só irei o conhecer quando ele completar 38 anos.

11:33 AM :: Comentários:

GENTILEZA
Arte de Henri Michaux

Fabrício Carpinejar



Gentileza é quando não pensamos se é patético ou não. Gentileza não é algo obrigado. É espontâneo como procurar a luz no inverno.

Não pensamos em recompensa ou retribuição.

Tudo que é feito com dedicação. Inclusive gestos simples como dobrar a roupa de quem amamos ou recolher os chinelos ao redor dos móveis. Eu amo colocar o colar em minha mulher. Lentamente, deixar que o colar se aquiete nos seus seios. Ou somente começar a comer quando ela começa. Não é um hábito, é uma necessidade.

A cena mais comovente de gentileza foi protagonizada por um casal de vizinhos. No meio do vaivém de uma segunda-feira, no centro da cidade, ele se ajoelhou no meio da calçada para amarrar os sapatos dela. Ela não pediu, sequer fez alguma menção com o rosto. Discretamente, amarrou o buquê de seus cadarços. Em seguida, a mulher soltou os cabelos para poder voar melhor de mãos dadas com seu marido.


Depoimento para o Jornal Cruzeiro do Sul - Sorocaba/SP - 07/7/07

11:32 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 04, 2007

A SINCERIDADE DO PÃO
Desenho de Vicente

Fabrício Carpinejar



Eu preciso do café da manhã para começar a relação. Mais do que um jantar romântico, velas tremulando, um vinho de boa cepa e um prato refinado.

Teria que me acordar com ela antes mesmo de dormir. Não sei como se faz isso. Como convidar: encontro em minha casa às 8h? Vou esperá-la com frutas, croissants e frios? Ficaria esquisito, distante do roteiro básico: cinema/teatro/show, restaurante e motel.

Nada de levar o café para a cama. Mas levar a cama até o café. A mesa e seu jogo xadrez imbativelmente sem graça. As pernas procurando um consenso da neblina com os chinelos. A naturalidade de quem desperta, entre a cara lavada e o espírito engatinhando.

É no café da manhã, na dificuldade embaraçosa da luz sobre o rosto, que respiramos descompassados, que se começa a relação. Não quando estamos preparados para seduzir, decorados para sermos melhores, confessando à meia-luz o que há de mais precioso no passado para indicar o futuro. Ora, não tem graça.

Se o problema é o dia seguinte, vamos direto ao dia seguinte para depois procurar a noite. Vamos nos separar antes mesmo de casar. Vamos partilhar intimidade antes mesmo de terminar a estranheza.

Vivemos praticamente em duas freqüências: pressionar ou impressionar. Impressionar ou pressionar. Pressionar em casa e no trabalho, impressionar na rua e no lazer. Sacrificamos a naturalidade, que está no café da manhã.

Ninguém impressiona amanteigando um pão, ritual tão simples, presta atenção: é o pão bocejando. Usamos as palavras mais tolas no lugar das mais vistosas, as primeiras que se acordam, que pouco expressam o que desejamos. Se bate a vontade de reclamar, reclamamos; se bate a vontade de silêncio, silenciamos. Nem projetamos o peito ou escondemos os vincos e as rugas. Ajeitamos os ombros no prato, com a perfeição acústica de uma roldana no poço.

No café da manhã, ela vai se espreguiçar. Parece que se estica para logo se contrair com gentileza.

Ao derramar o leite no prato da xícara, ela soltará o riso mais desprotegido que conhece. Um riso que é um pedido de desculpa e um agradecimento. Um riso que talvez lembre os recreios na escola, os aniversários de criança, os filhos no sofá.

E quando ela sorrir, descobrirá que é possível cortar o mundo com o garfo, e dispensará a faca.

E quando ela baixar a cabeça, um pouco encabulada porque não pára de observá-la, descobrirá que pode comer o mundo com as mãos, e dispensará o garfo.

A timidez é sensual. O café da manhã com as alças do sutiã escapando das linhas da blusa. A franqueza do café da manhã, a fraqueza do café da manhã.

E não poderá mais mentir e dissimular dali por diante se ela ainda é mulher que abre o iogurte e lambe a tampa, para não desperdiçar nenhum resto daquela manhã.

10:56 AM :: Comentários:

VAI RESERVAR MESA?

Conduzo sarau em novo espaço em Porto Alegre: no Café da Oca (Gen. João Telles, 512 - Bom Fim). Será nesta quinta (5/7), às 21h. Além de meus textos, aproveito para ler meus cronistas prediletos: Rubem Braga, Aldir Blanc, Antonio Maria, Luis Fernando Verissimo. Informações em (51) 30244998

10:56 AM :: Comentários:

NA ESTRADA

Participo da primeira edição da revista Way, da Nissan. Faço uma crônica sobre a importância de lavar o carro com os filhos. Confira o belo projeto gráfico.

10:35 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 01, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

O TERCEIRO (SECRETO) ELEMENTO
Arte de Jacques-Louis David
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Fabrício!

Leio sempre seus textos e aprecio o Consultório Poético em especial, por isso resolvi escrever. Veja só: Conheci um homem muito interessante em uma festa, há um mês atrás (eu tenho 23 anos e ele, 34). Começamos a sair e ele dava sinais inequívocos de que estava muito interessado em mim, eu diria, sem exagero, que até mesmo apaixonado. Porém, de uma hora para outra ele disse que estávamos indo rápido demais (sendo que era ele quem estava imprimindo este ritmo à relação), que estava confuso e que não estava com cabeça para um compromisso sério (ele foi casado por nove anos e está separado há pouco mais de dois). Isto tudo depois de dizer diversas vezes que me adorava (depois do sexo, inclusive), dar flores durante o jantar, apresentar para os amigos, mandar torpedos afetuosos de madrugada, dizer que nunca tinha tido uma sintonia sexual tão perfeita com uma mulher em tão pouco tempo, dentre outras coisas. E estas palavras e atitudes pareciam mesmo verdadeiras, eu sentia assim. Fiquei sem chão. A mudança nos sentimentos dele em relação a mim foi rápida demais, não houve aquele "esfriamento" típico do período anterior ao rompimento. Pergunto: homem pode mesmo ter medo de envolver, estar confuso e racionalizar, ou isso é apenas conversa pra boi dormir, desculpa que se dá quando não se está muito a fim de alguém? Eu creio que a segunda hipótese é a mais viável, não tenho muitas ilusões. Mas gostaria de ouvir uma opinião masculina. Mesmo porque situação parecida já aconteceu comigo previamente...Freud explica, não é?!

Um grande abraço e obrigada!

Laís”



olá, Laís!

Não é conversa para boi dormir, acontece de o homem ficar confuso e pedir uma trégua para compreender seu papel. Depende da dor que já enfrentou em relacionamentos anteriores. Depende da reação e do temperamento. Um perfil dramático tende a se deprimir e procura a vingança em si mesmo. Ao invés de fazer sofrer, sofre pelos dois, inclusive pela ex. Os tipos leves e otimistas superam melhor. Vingam-se reencontrando a alegria.

Mas não acredito que seja o caso. Afinal, dois anos se passaram da separação.

Entendo que nenhum amor é rápido demais para um homem. Homem tem paciência para morrer, viver nunca, pelo menos não conheço a exceção. Ele reclama da rapidez porque deixou de vê-la como sua única possibilidade. Criou um outro interesse durante o relacionamento, pode ser um caso ou um flerte platônico. Existe, na minha condição de palpiteiro, um terceiro elemento. Não faltou sinceridade dele, as atitudes e palavras devem ter sido verdadeiras.

Por aquilo que me conta, ele demonstrava exclusividade e empenho no início, não? Mudou no decorrer do envolvimento. Não veio assim, por isso a complicação. Você guarda uma imagem do que era para aquilo que se transformou, e faltam peças para compreender a transição de comportamento. Concordo com sua dúvida, a tortura está em não esclarecer, ele esconde uma razão. A razão não é falta de desejo, é a transferência do desejo. Minha opinião é que tomou distância para não feri-la.

O que costuma irromper na conduta masculina é o renascimento narcisista. Ele se sentiu envaidecido e viril com uma conquista e almeja partir para novas. Devolvesse o poder a ele, a autoconfiança, e não contou com discernimento para desenvolvê-la somente contigo. Uma hipótese é que o longo período no casamento criou um alerta contra reincidências passionais, concluiu de que perdeu tempo e quer experimentar mais. É uma fase infantil e carente. Ele está se demorando no espelho.

Beijos
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

8:51 PM :: Comentários: