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Terça-feira, Agosto 28, 2007

MAIORIDADE DA SOLTEIRA
(VINTE E UMA DICAS)

Arte de John Piper

Fabrício Carpinejar

1) Não pense que ele vai mudar sua vida. O erro é supor que você é menos sozinha. Agirá como se estivesse pagando uma dívida, e transformando cada saída num favor.

2) Não pense que você mudará a vida dele. O segundo erro é deduzir que ele não era nada sem você, que não tinha hábitos, manias, obsessões e compromissos. Ele não deseja ser convertido. Caso seja tão errado, não se aproxime.

3) Esqueça que sua mãe espera um neto.

4) Esqueça que sua mãe gostaria que casasse.

5) De novo, esqueça sua mãe!

6) Não diga que ele é parecido com seu pai ou seu irmão ou qualquer primo. Preserve a estranheza.

7) Não finja que ele é dispensável se assim não sente. Não finja que ele é importante se assim não sente. Somos traídos pelas aparências.

8) Discorde de suas opiniões, para testar sua paciência e verificar se é influenciável. Ao mudar de ponto de vista para concordar contigo, mostrará que é mascarado e somente quer agradá-la (ou comê-la).

9) Ele não precisa entendê-la. Aliás, o mistério aumenta o interesse.

10) Não dê o telefone, não sofrerá no dia seguinte. Pague recompensa se ele a localizar.

11) Ciúme nem depois de casada, por favor.

12) Nada de acreditar que a primeira transa tem que ser comedida. Aja como se fosse a última, para ele aprender que tem que ser melhor. Asseguro que o cara irá se esforçar. Essa história de não transar no primeiro encontro é lenda. A vida sexual é determinada pelos compromissos iniciais - são postas as exigências e o ritmo futuros.

13) Não seja escatológica, ele não é seu psiquiatra, não fique comentando casos antigos e ex-relacionamentos. Ele a imaginará falando mal dele para outro pretendente.

14) A melhor forma de não esquecer um papel é sendo você mesma. Mais fácil de decorar as falas e ser infiel ao texto.

15) Planejar demais frustra a expectativa. Planeje o mínimo. O que sai errado pode ser um modo de ganhar ainda mais cumplicidade. Nada que uma gafe compartilhada para aumentar a empatia. A intimidade se consolida de momentos engraçados juntos.

16) Senso de humor, rir é oferecer o rosto. O modo como geme, o modo como chora, o modo como soluça nada se compara à risada. Um homem quando se sente engraçado tem confiança para contar seus segredos. Deixará de mentir.

17) Não esconda seus defeitos, nem faça questão de mostrá-los. Eles serão encontrados no tempo certo.

18) Converse com os amigos dele, não dispute exclusividade.

19) Se receber um elogio, aceite. Não tente se boicotar logo agora.

20) Jeitinho de pura, ingênua, inocente até serve para fantasias sexuais, mas enjoa rapidamente. Não duble a sua voz ou banque a vítima.

21) Pontualidade para dizer algo. Diga logo antes que a vontade passe. Não faça carinha deprimida ou desapontada, esperando agrado. Birra não é excitante. Talvez para pedófilos.

Daniela Pessoa, do site Bolsa de Mulher, me pediu dicas para a mulher encontrar seu par. Leia a matéria na íntegra.

5:04 PM :: Comentários:


CONSULTÓRIO POÉTICO

FUI USADA (será que você também não usou?)
Arte de John Piper
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Olá Fabrício!

Tenho dificuldades com relacionamentos. Especialmente com relacionamentos com o sexo oposto no sentido romântico da coisa. Minhas amigas costumam falar muito sobre o padrão que sigo e o quanto ele me é prejudicial. Ontem, conversando com uma delas, voltamos a esse assunto e ela me chamou a atenção pra um detalhe que eu ainda não tinha percebido, o fato de me sentir atraída sempre por pessoas mais novas e que de certa forma tiram mais de mim do que podem ou estão dispostas a me dar. Relações desproporcionais.

Não vou falar de cada um dos relacionamentos que as fizeram chegar a essas conclusões porque seria cansativo pra você. Mas a verdade é que quase sempre me vejo envolvida por pessoas mais novas, ou não tão novas assim, mas simplesmente imaturas, pessoas que não se dedicam a mim na proporção que eu me dedico a elas. Explicando melhor essa afirmação: acho que eu tenho uma grande tendência a dar uma de mãe dos homens pelos quais eu me apaixono. No sentido de cuidar, ouvir, compreender e tudo o mais. Eu, sinceramente, gosto disso. Gosto de perceber a pessoa, nos detalhes. Tenho para com esses meninos uma complacência que não me é natural, pelo menos não no dia-a-dia. Pelo contrário, às vezes sou bastante intolerante. Mas se apaixono, automaticamente me torno a tolerância em pessoa, capaz de permanecer em relacionamentos que flagrantemente são prejudiciais, quase doentios às vezes.

O caso mais recente é um exemplo bastante claro desse meu "padrão". Eu já o conhecia, trabalhamos na mesma empresa. Ele é casado e não éramos amigos. Eu trabalho em uma gerência e ele em outra. Sentei à mesa com ele e mais um monte de gente, incluindo sua esposa, algumas vezes. E nunca prestei atenção nele mais do que dois segundos. Então, depois de um ano mais ou menos em minha nova gerência (havia me mudado para o RJ e, por isso, houve a proximidade física que antes não havia, como os almoços por exemplo), por conta de uma amiga em comum que hoje já nem é minha amiga (uma outra longa e feia história. Difícil eu? rs), nos aproximamos. Passamos a nos falar frequentemente via e-mail. E quando digo frequentemente quero dizer todo dia e o dia inteiro. Falávamos muito dessa amiga a princípio, pra logo depois começarmos a falar de nós dois. E como falamos. Eu, particularmente, contei quase tudo. Ele contou muita coisa, não sei se tudo. Falamos, falamos e falamos. E era uma brincadeira muito divertida porque ele fazia questão de deixar claro que tinha, como ele dizia, "uma quedinha" por mim. Minha diversão residia em espinafrar com ele. Eu tinha prazer em ser a má da história. Ele dizia que eu era exigente nos meus relacionamentos. Que eu sempre pareci ser uma pessoa assim e que depois de me conhecer ele teve certeza. E eu retrucava dizendo que não era tão exigente assim, afinal era amiga dele e tudo. Era assim a nossa dinâmica. Ele me cantava, discretamente, e eu dizia não, com fervor. E isso me divertia muito e fazia muito bem à minha estima, que na época, estava especialmente debilitada.

Até que eu resolvi baixar a guarda e ele resolveu me cantar de verdade. Eu me entreguei com prazer a um flerte solto. Sabendo já o que ia acontecer, mas levada pela irresponsabilidade que sempre me acomete quando me encanto por alguém. Não consigo fazer as reflexões que a maioria das pessoas fazem, do tipo, analisar defeitos, prós, contras e tudo o mais. Eu simplesmente vou. Sem pensar em nada. Levada pelas emoções e achando tudo maravilhoso. Caio do cavalo frequentemente. Mas nem essa vida pregressa me inibe esse comportamento irresponsável comigo mesma.

Pois bem, ficamos juntos e houve uma química maravilhosa. Foi a primeira vez que um beijo provocou em mim aquela sensação louca, um torpor, um não sei o quê que me deixou lenta, mareada. Como dizem os românticos, nas nuvens. Sim, claro, já tive beijos maravilhosos com outras pessoas. O ineditismo desse caso é que foi imediato. O primeiro já foi perfeito. Me apaixonei. Mas ele não. Era casado e ama a esposa. Pelo menos diz amar. Não sei. Acho que é verdade.

Depois de umas duas semanas de beijos intensos ele resolveu que o melhor a fazer era voltarmos à condição de amigos. Eu me senti usada, ludibriada. Ele me falou sobre essa decisão por e-mail e eu usei isso como motivo para massacrá-lo com toda eloqüência de que sou capaz. Quando na verdade minha ira se devia ao fato de estar sendo descartada. Ele pediu desculpas e pediu repetidas vezes pra permanecermos como amigos. Que minha amizade era importante e blá, blá, blá. E eu fiquei. Burra, burra, burra. Sim, como toda mulher tola, eu o queria de volta. Queria o que não houve. Queria uma chance. E vi naquele pedido de manutenção da amizade um sinal de que ele ainda me queria também. Essas leituras tortas que fazemos quando estamos apaixonados.

Bom, essa história toda tem mais de um ano. De lá pra cá já houve muitas idas e voltas de minha parte. Ocasiões em que eu achei melhor me declarar, argumentando que estava apaixonada e que não poderia ser amiga de alguém por quem estivesse apaixonada. Pedindo distância e silêncio. Ele aceitou todas as vezes em que eu fiz esse pedido (acho que foi umas quatro vezes) com ressalvas de que não era assim que se fazia, que não precisava disso, que podíamos ser amigos mesmo com esse sentimento. E eu sempre voltei, porque não tenho amor próprio (é a única conclusão a que posso chegar) e motivada por uma saudade angustiante das palavras dele, da presença dele, ainda que virtual. Da voz também, simplesmente adoro a voz dele, embora hoje em dia consiga evitar o ímpeto do contato via telefone.

Hoje, por exemplo, ele está de férias. E sinto saudades, mesmo sabendo que ele não lembra sequer da minha existência. Quando ele retornar serei eu a sair de férias e acho que esse período, quase dois meses no total, seria positivo se eu conseguisse sair desse círculo vicioso que desenvolvi com ele. O problema que não sei como resolver e que sei que permanecerá enquanto eu não tomar uma atitude é que eu ainda quero. E me sinto como uma criança obcecada com aquilo que não pode ter.

Perdoe o texto imenso, sou prolixa, não alcanço a arte da síntese.

Brigada por ouvir.
Beijo,
Telma”


oi Telma!

Estou ouvindo agora a música “Hungry Heart”, de Bruce Springsteen. Entre tantas coisas, ela diz:

Eu peguei uma direção errada e apenas continuo indo
Todos têm um coração faminto
(...)
Nós nos apaixonamos e eu sabia que isso teria fim
Nós levamos o que nós tínhamos e nos separamos
Agora aqui estou eu abatido em Kingstown de novo
Todos têm um coração faminto...

Todos precisam de um lugar para descansar
Todos querem ter um lar
Não faz diferença
O que ninguém diz
Ninguém gosta de ficar sozinho


A letra alerta para os equívocos amorosos que qualquer um comete para esconder o que de fato deseja. Será que somos realmente francos ou fingimos que não precisamos para não nos parecermos com os demais? Todos querem um lar e não ficar sozinho, uma verdade tão elementar. Percebemos que o caminho é errado, e seguimos. Percebemos que haverá um fim, e nos enganamos.

Por mais que você chame a fome de apetite, ela continuará sendo fome, e não se contentará em receber menos do que ofereceu a alguém. Por mais que você chame o amor de atração ou de qualquer outro eufemismo, ele continuará sendo amor, e não se contentará em receber menos do que ofereceu a alguém.

Só você pode se enganar, mais ninguém. É o que está acontecendo.

Entrar somente em roubada não é azar, seria muita coincidência negativa. Na minha avaliação, ingressa de propósito, escolhe os casos mais difíceis e complexos por uma mortificação consentida. Para aliviar-se do peso de acertar. Faz o impossível para não acertar. É uma conspiração impensada, como se não merecesse a própria alegria (não sei o motivo).

O prazer vem com o desafio e quita parte do sacrifício: o torpor do beijo, a adrenalina da dependência, as fantasias realizadas.

Mas o que procura, acima de tudo, é a sensação de ser a única no mundo. Quando não consegue a singularidade no amor, procura a singularidade no sofrimento.

Aparece como vítima do amor, só que você é também a algoz. A sedução é um compromisso, como que não? Ser seduzida e seduzir, ação e resposta. Se você se sente usada, você igualmente usou. Estou errado?

O que me preocupa é seu destaque para a “desproporcionalidade”. Há confusão na origem de sua iniciativa. Estava brincando ou não, estava desinteressada ou não? Vejo que precisa ter bem claro o que deseja. Mesmo que a clareza sirva para perdê-la depois.

A transparência evita mal-entendidos. E sinaliza sensualidade, poder, opinião.

Mostrou - desde o princípio - que desejava ficar com ele? O que me sugere é que ele entendeu que era um caso, não havia seriedade. “Eu me entreguei com prazer a um flerte solto”. Passou a cobrar atitudes depois com a separação.

Mas será que ele não cumpriu as expectativas que alimentou no início, e você mudou as expectativas no decorrer da relação?

Ele não quis continuar porque transmitiu o enunciado errado. De repente, se realmente conhecesse sua intenção, não teria começado a história.

Mudou o contrato no meio. Ele se aproximou pela diversão. Você por amor. Ele entrou podendo optar. Você começou sem opção. A opção era ele e só.

Não identifico nenhum problema em procurar homens mais jovens. Desde que não queira descontar sua idade ou adotá-los. Deve ter paridade, igualdade no trato. Não ser complacente, muito menos senhora da razão. Experiência não tem idade. A postura materna não seduz, afasta. Posso garantir que o homem não vai casar duas vezes com sua mãe.

Beijos,
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:22 AM :: Comentários:

UM POETA SUBINDO DO POÇO

Fabrício Carpinejar
Autor de “Meu Filho, Minha Filha” (Bertrand Brasil, 2007), entre outros.
Especial Zero Hora



Livro de estréia é subestimado. É ainda visto como uma promissória. O autor terá que provar que não foi sorte.

É um crime deixar de cultivar estreantes tal Luiz Paulo Vasconcellos com o cínico-maravilhoso "Comendo pelas beiradas" e Carlos Besen com o metafórico-aforístico "Luz no aquário". Todos lançados em 2006, sem estardalhaço.

Uma outra surpresa esquecida do ano passado é o lançamento de Wiliam Celestino, jovem escritor de Santa Maria (RS). A primeira obra é o marco de um estilo e de uma obsessão. Perdendo ela de vista, sacrifica-se a possibilidade de seu futuro.

Celestino publicou "Cronologia do Poço" pela coleção 2000, do Instituto Estadual do Livro.

O volume traz um ego debatendo-se com os fantasmas familiares, sua herança, sua falta de saída da própria cidade e dos compromissos paternos. Há a retomada do cenário da poesia gaúcha dos anos 60: o poço, tão caro a Carlos Nejar e Heitor Saldanha.

É no fundo desse símbolo que ele empreende um solilóquio, disposto em três cantos: o silêncio do lugar, a revolta das águas e o espelho.

Suas qualidades são bem maiores do que seus defeitos. Os defeitos até asseguram charme.

Dos defeitos, verifica-se um pé aterrado na prosa, em certos momentos a música fica sufocada pela sobrecarga de pensamento. È um pensar ininterrupto que impede a respiração, reverberando uma voz por vezes ofensiva, gratuita e estancada. Anula-se a ligação mágica dos versos e o ritmo hipnótico que a poesia exige, característico da dança. Uma ilustração: “Sempre gozei liberdade nas minhas orações. Nas provas, contava com os milagres. Nos delitos, a defesa era permanecer no local”. Tanto faz que o discurso aconteça em linhas quebradas ou em um único parágrafo. Um detalhamento excessivo da posição ideológica impede a espontaneidade. Trava o livre deslocamento das imagens.

As virtudes nascem do controle dos defeitos. Em especial, o poder de síntese, retorcendo as expectativas, e fundando uma soma de contradições e ambigüidades. É o filho que se cala para não ser insultado , o que rouba livros das bibliotecas para não ler, o que se divide nos irmãos. A inversão progressiva das certezas aumenta a imprevisibilidade do texto e produz máximas de grande valor poético:

“Sangrar água diminui a dor”
“Meu silêncio não pode ser/ em outras línguas”
“Conheci os homens por suas mulheres”
“Depois de certo tempo,/ o corpo vem antes da roupa”
“Os remédios no armário/ não sabem guardar segredo”

Os momentos de clareira, quando resultados pacientes de uma necessidade, correspondem à marcação de um posicionamento contrário ao que lhe é dado. Na insubordinação, na procura ensandecida por uma saída de todo adolescente, o escritor revela sua autoridade:

"Suicidei-me três ou quatro vezes
nas duas últimas semanas.

As coisas são assim:
há homens que lavam as mãos
e morrem ao mesmo tempo."

Não se pode matar o que não foi compreendido. Celestino está aí para não ser um fantasma. Há muita vida em suas reflexões.

Publicado no jornal Zero Hora, Segundo Caderno: 12ª Jornada, seção "Orelha, p. 3, 28/08/07

9:20 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 26, 2007

O AMOR É SÓ ESPERANÇA
Arte de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



Numa palestra, uma adolescente me questiona como o amor vem.
São aquelas perguntas que precisam de noventa minutos de retrospectiva e uma sala de cinema vazia.
Respondi por evasivas. Ela não insistiu por educação.

Na manhã seguinte, inclinei-me na varanda para boiar o rosto no ar. O vento foi barbeando o pescoço. Levantei obediente o queixo para cima.
O vento tem uma mão mais segura do que a minha.

- Do nada. O amor vem do nada.

Na escola, não era capaz de dar um beijo sem pedir licença enquanto meus amigos beijavam primeiro para conversar depois. Terminei mais solteiro do que o professor de Religião. Jurava que a palavra viria me dizer o que tinha que fazer. Fiquei com a palavra, os outros ficaram com os lábios.

Na festa de fim do segundo ano do 2º Grau, Silvia passou todo o tempo comigo de mãos dadas. Faria um desenho amarelo, com telhados e árvores, jardim nas calhas, se pudesse reproduzir meu orgulho ao circular com ela. Concluí que estava namorando. Idiota, fui contar a notícia a um colega, bem no momento em que ela beijava a boca de meu melhor amigo.

Laura, Eugênia, Rita, nenhuma das minhas amigas soube que eu as amava. Um pouco por incompetência, outro tanto porque o amor dificilmente se confessa.

Eu já me arrumei para um encontro que só eu havia marcado, já tomei banho por uma mulher que nem me conhecia, já mudei meus horários para puxar conversa, menti coincidências para criar empatia. Já fiei anos por uma declaração, meses por uma notícia, dias por um cumprimento.

Nunca dependi de grande coisa para amar. Amava por antecipação. Amava por esmolas.

Eu me apaixono por nada, por bobagem. Posso dedicar minha insônia a uma pálpebra feminina. Confundo a irritação dos olhos como uma mensagem. E tentarei explicar os gestos subseqüentes dela como uma articulação premeditada para me conquistar.

Quando o abraço de uma mulher desliza para o quadril, pressinto que ela está me deixando existir. Talvez seja casualidade, mas o amor é uma casualidade. Entendo como quero. Quando o aperto da face escorregou ao pescoço, não tomarei como falta de jeito, avalio que tenho chance. Quando uma amiga telefona fora de horário, desconfio de um interesse maior.

O amor não desperdiça nenhum indício. Nenhum início.

Qualquer erro de entendimento é a possibilidade do amor. O amor é o erro de entendimento. Flerto com quem não foi avisada de que está flertando comigo.

O amor é só esperança. A obsessão da esperança. Imagino ter dito, nunca deixo claro para continuar amando. A ausência de confirmação não me modifica. Prefiro não descobrir se o desejo é mútuo para prosseguir sonhando. Ao descobrir que não sou correspondido, é tarde para desistir.

Não falo porque vivo a ansiedade de que alguém escute os meus pensamentos.

Recorto frases, isolo sons, guardo expectativas.

Deus não joga os rascunhos fora. Por isso, temos o amor.

O amor vem por nada. Do nada. De nada.

9:05 PM :: Comentários:

PRÓXIMOS EVENTOS
Foto Lucas Uebel


Eu e meu filho Vicente em um momento de "caixa mágica"

28/08/07 (terça), 19h30 – Porto Alegre (RS)

Palestra "Saúde com Amor" para Associação Brasileira Colite Ulcerativa e Doença de Crohn
Auditório do Hospital da PUC
Contato: mbrenner.voy@terra.com.br

28/08/07 (terça), 21h – Porto Alegre (RS)

Edição especial do SARAU ELÉTRICO, celebrando os verdadeiros PAPAS DA LÍNGUA.
Faço a leitura de textos ao lado de Cláudio Moreno e Katia Suman.

Apresentação da banda Papas da Língua.

Local: Ocidente (João Telles, esquina com Osvaldo Aranha, fone 51-3312-1347), R$ 8

30/08/07 (quinta), 08h30 - Passo Fundo (RS)

12ª Jornada Nacional de Passo Fundo

Encontro Estadual de Escritores: a criação literária gaúcha em debate
Local: Auditório do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - Campus I – UPF
Coordenação: Luis Augusto Fischer
Mesa-redonda: O local, o nacional — temas, mercados, histórias
Ao lado de Daniel Galera, Letícia Wierzchowski e Moacyr Scliar

31/08/07 (sexta), 19h - Porto Alegre (RS)

Palestra sobre "Meu Filho, Minha Filha" no colégio João Paulo I
Unidade Higienópolis
(Rua Filadélfia, 314 Bairro Higienópolis - CEP 90550-060)
Telefone: (51) 30134540
E-mail: jphigi@joaopaulo.com.br

2:37 PM :: Comentários:

LÍRICA FORJADA EM DISCRETA BELEZA
Almadéna, de Mariana Ianelli, imita um transe religioso com o objetivo de fazer uma síntese do espírito

Fabrício Carpinejar*

Almadéna, o quinto livro da paulista Mariana Ianelli, já carrega no título uma promessa de reza. Significa pequena torre de mesquita de três ou quatro andares, de onde se anuncia aos muçulmanos a hora das orações. É um posto privilegiado, no qual o passado, o presente e o futuro estão suspensos pela profecia e pela convocação de seus fiéis. Não há tempo, apenas desígnios e destinos sendo cumpridos.

Desde o início, a autora firma um pacto, não é uma poesia que se lê, é uma poesia que exige uma adesão melódica como um hino. Entende-se “seguir” como aceitar a penumbra, a cláusula da devoção e da hipnose. Não estamos diante de uma poética de acontecimentos físicos, mas de “desacontecimentos”. Envolta em círios, Mariana Ianelli canta a capela. Sem instrumento. Com uma passada longa e repetitiva (tomada de advérbios), que tenta trazer à tona a espera de uma mulher por seu amor, desde sua gestação, passando pela infância marcada de presságios, os dias juntos até a despedida para o alto-mar, gerando a perda.

É um livro que rumina influência dos cancioneiros portugueses e dialoga com o oceano, com um timbre essencialmente contemplativo e clássico, que se diferencia do minimalismo e realismo coloquial que dominam a poesia brasileira contemporânea. O mar como território oscilante e temerário, de descobertas e de tensas partidas. Há sempre o lugar íntimo - corpo e casa - abrindo-se ao lugar aberto, de risco e sofrimento.

Essa é a primeira surpresa, a aparição de uma voz ambiciosa, ainda jovem, antes dos 30, que pretende fazer uma síntese do espírito, uma súmula heróica subjetiva. Ao lado de Alexei Bueno, seu estilo destaca o enigma, mais romântico do que parnasiano, explorando com helenismo o dom sensorial. É a intuição que manda no jogo culto de paráfrases e dialética. As epígrafes de padre Antônio Viera anunciam o teatro do claro e do escuro, das aparências e máscaras. Não é uma arte da descoberta, e sim uma arte de releitura, de reviver os clássicos e reinstaurar um mundo de arquétipos pela mímesis.

O real não está em questão, mas o mandamento e o símbolo. A vida como a determinação dos deuses, ao invés de escolha e livre-arbítrio humanos. “O que finge existir não nos importa”, diz um dos versos. A escritora lança uma problemática de estilo com sua obra. É um livro de vozes, não de voz, o que o tornará - para alguns - etéreo e hermético. São vozes oniscientes e onipotentes, conclusivas, que não estão partilhando intimidade, mas impondo sabedoria. O conhecimento já se deu, ele está sendo apenas transmitido. Daí a afluência de ligações como “portanto”, “porque”, “então” e “logo” na conjunção dos versos, e a pouca presença das perguntas e das dúvidas no decorrer do livro, que fariam do espaço mais atormentado e participativo.

Carece de uma vinculação com o perecível e o circunstancial, operando em um território mítico que nem sempre explica ao leitor como chegar a ele. As memórias, as visões, as miragens e as profecias se entrelaçam, provocando uma incessante dispersão. Isso posto, a delicadeza de Mariana Ianelli e seu esplendor estão justamente quando ela quebra a ascese espiritual pela descrição carnal das cenas. Quando ela volta do transe e atua como mediadora. Deixa a mensagem atemporal pela sua miudeza. Desce do mirante para o solo. Passa a ser voz individual e singular.

“Por um gole de rum,/ Por teus olhos antigos, / Ainda estar aqui. /Por pouco, muito pouco,/ Ainda acordar e vestir-se.”

Nesse caso, cria uma aproximação, um doer das coisas, e permite a visualização de gestos simples e cotidianos. No momento em que assume uma persona polifônica e divina, de caráter coletivo, o tom fica ora determinante, ora abrupto. Fascina-se pela retórica e pela generalização do mundo, sem escolher um condutor concreto para focar tanta abstração.

“O ócio pelo ócio, /Fogo nos compêndios da História!/ Torne-se outro o que era um/ E nenhum o que era vário./ Perca-se o fio da memória./ Mais funda a noite,/ mais a fêmea se contorce./ Escuridão prostituta,/ Cruzes empestando as covas./ Não há dias que se desenrolem,/ Só um imenso atoleiro de horas /Onde dura o irracional./ Crianças contaminadas pelo tédio,/ Velhos fartos de deboche./ Vai subindo a fumaça do riso/ O pó do que eram ossos./ Toca uma flauta, esta flauta/ Universal como a treva/ E os irmão se consomem,/ Ladram e se consomem./ A necessidade de falar de tudo esvazia a intensidade do que se desejava falar.”

As palavras agem, nem sempre interagem numa “obediência líquida”. Perpetua-se uma troca de assunto e ambiente com aparente desapego. As imagens ficam abertas e em seguida desaparecem, como se não houvesse necessidade de compreendê-las. Abre palco para vaguezas sentimentais (“regência de uma alma', “escombros de teu tesouro, saudades” e “mar de grãos”) e despersonaliza sua escrita com adjetivos (“indecifrável alegria”, “antigos rancores”, “erros formidáveis”). O adjetivo corresponde a uma forma de comunicar e não se comprometer.

Depara-se com um dilema entre glorificar o instante, próprio da poesia religiosa de Péguy, de Coleridge, de Lowell, de Hopkins, ou de resumir a ação e, assim, apressar o interesse. Quando glorifica o instante e fecha uma imagem, tem-se a beleza discreta e o ânimo de seus melhores versos:

“Encontrar a chave anos mais tarde/ Quando a passagem já está perdida;/ Descobrir uma carta selada,/ Quando a palavra secou na raiz.”

Ou: “Porque cada coisa, para ser,/ Em seu todo se divide. /As fases da lua, a pele da orquídea,/ As cores com que se faz o branco.”

Ou: “Talvez a roda de bicicleta/ Envelheça o menino.”

E: “Antes que tenhas partido, já te espero./ No cheiro do carvalho e das cerejas./ Sei por onde vais e com que sede.”

Em todos os quatro casos acima, identifica-se a imanência emocional a partir de um elemento. Existe algo para olhar e se debruçar, algo para tocar e permanecer: a chave ou a carta, a orquídea e a roda de bicicleta, o carvalho e as cerejas. A poesia deixa o narcisismo do discurso geral, a transcendência dominante, para cultivar aparições e desvendar relações metafísicas com o visível. Não mais sair e sair, mas entrar e sair. Reparar que a roda da bicicleta talvez envelheça o menino é uma preciosidade imagética.

No entanto, Mariana Ianelli tem intrepidez de sobra, em admirável composição lírica-elegíaca próxima da filosofia e vizinha do versículo. No canto De Agno, ela exercita o novelo exemplar de complementação de idéias e sensações, este, sim, com paciência no desdobramento da história. Narra o entusiasmo do sexo como se fosse um sacrifício e interpõe alusões bíblicas do campo a determinar a oferta:

“Eu, placidez de cabra, perdão de joelhos./ Dentre os animais, um sim que pranteia./ Eu, estado de graça, salvar e adoecer.”

Talvez Almadéna valorize a delícia dos ouvidos e ressente-se justamente da ausência de um cuidado visual, de voltar para encerrar o impulso inicial do pensamento. Ocorre uma “vontade de nuvem”, de cobrir e logo se afastar. O andamento perde em densidade à medida que as metáforas são maiores do que seu conteúdo aforístico. Soam afetivamente arbitrárias porque não se interpenetram. Num barroquismo manso, a poeta solta mais comparações do que a possibilidade narrativa de contê-las e significá-las. O deslocamento rápido de um plano íntimo para outro geral anula a concentração. A gula por abarcar distâncias interrompe a credulidade. E para amar a poesia de Mariana Ianelli, pede-se a crença irrestrita.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007), entre outros livros

Publicado em O ESTADO DE S.PAULO, Caderno 2/Cultura, p. 5, domingo (26/08/07)

10:49 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 24, 2007

EU SOU...
Da nova série "Tabela Literária"

Fabrício Carpinejar

Quando amamos alguém ou estabelecemos de imediato uma amizade, costumamos dizer que houve "química".

Química é tradução para cheiro, tato e empatia, é algo quase inexplicável se não existisse a tabela periódica.

Inauguro a seção "Tabela Literária" em meu blog. Descobriremos curiosidades sobre escritores e artistas a partir da pergunta: você representa qual elemento químico?

De tabela, encontraremos a solução de outras questões do universo estético: qual o ingrediente de sua literatura? Qual o seu segredo explosivo? Como define a si e seu fazer artístico?

A cada quinze dias, terei a imagem de um convidado definindo sua escolha (sempre no mesmo paredão).

O espaço foi inspirado no livro A Tabela Periódica (1975), do escritor (e químico) italiano Primo Levi. No romance autobiográfico, ele compara seus amigos e conhecidos a elementos químicos. Assim resume seu encantamento: “A Tabela Periódica de Mendeleiev era uma poesia, maior e mais solene do que todas as poesias digeridas no ginásio: pensando bem, tinha até rima!”

Mais do que uma confissão, destilaremos escritores e artistas numa brincadeira inteligente. “Destilar é bonito”, explica Primo Levi. “Antes de tudo, porque é um ofício lento, filosófico e silencioso, que te mantém ocupado mas deixa tempo para pensar noutras coisas, um pouco como andar de bicicleta. Mais ainda, porque comporta uma metamorfose: de líquido a vapor (invisível), e deste novamente a líquido; mas neste caminho duplo, para cima e para baixo, atinge-se a pureza, condição ambígua e fascinante, que parte da química e vai muito longe.”

Afinal, não decoramos a Tabela Periódica somente para o vestibular.



LUIZ RUFFATO (Cataguases, MG, 1961)



Elemento químico: Cobre
Motivo:
"Cobre - é um metal dúctil e maleável. Como tento ser na vida: aceito mudar de opinião, porque não sou dono de verdades; adoro ouvir, aliás, é o que mais gosto de fazer; ouvir é aprender. Mas, ao mesmo tempo, em algumas questões, como ética, sou duro..."

Poeta, contista e romancista
Autor de
Histórias de remorsos e rancores (1998, contos)
(os sobreviventes) (2000, contos) - Menção especial Prêmio Casa de las Américas, de Cuba
Eles eram muitos cavalos (2001, romance) - Prêmio APCA de melhor romance de 2001 e Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional
As máscaras singulares (2002, poesia)
Os ases de Cataguases (2002, ensaio)
Mamma, son tanto felice (2005, romance, Inferno Provisório - volume 1) - Prêmio APCA de melhor ficção de 2005
O mundo inimigo (2005, romance, Inferno Provisório - volume 2) - Prêmio APCA de melhor ficção de 2005
Vista parcial da noite (2006, romance, Inferno Provisório - volume 3) - Prêmio Jabuti 2007 - 2º lugar - categoria "Romance"

9:26 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 22, 2007

É ADORÁVEL UMA MULHER TODA NUA, OU QUASE, DE MEIAS BRANCAS
Arte de Egon Schiele

Fabrício Carpinejar



Tenho aversão por algumas convenções. Tomar café não me desperta. Bebo pelo cheiro. Invento de acreditar que funciona por superstição. É somente um apoio moral e reconfortante para enfrentar a semana. Alheio às pesquisas científicas, bocejo na fumaça. No terceiro gole preto, fico com mais sono. Reativo a preguiça da noite anterior e o impulso é voltar para cama. Esqueço que acordei. Sou o efeito colateral do café. Ele deve ser menos agitado do que eu.

Um outro tabu é transar com meia. Se confessar aos meus amigos que gosto de mulheres assim, vão contar que sou louco para meia cidade.

Quem determinou que é errado? Por que ela é mais pijama do que acessório?

Não enxergo a meia como inibidor. Ela me excita. Meias altas, soquetes, 3/4, meias baixas, 7/8, meia-sapatilha, um tipo de meia para cada dia. Eu gosto tanto de olhar os pés quanto de imaginá-los. Identifico-me pedólatra do escuro.

Transar com meia não é mania de velho. Caso fosse, o velho não viveu em vão, sabe das coisas.

Não pode ser considerado travado. Travado é não encontrar beleza em sua síntese de pluma.

Nas meias, um recato que me deixa mais malicioso. Um resguardo que amplia a vontade de transgressão.

Sem meias, não há mais nenhuma peça a depor. A meia guarda o mistério. Não apressa o fim. É como se o início não terminasse.

Agradável ainda que – como representante discente da roupa – permaneça e seja testemunha da devoção.

Meia é ter caráter na cama. O que mais me incomoda é a falta de opinião. “Não sei”, “você que sabe” e “se quiser” são expressões insuportáveis no quarto.

Não constranja a mulher a tirá-la, muito menos fique esperando uma atitude. A meia já é uma atitude.

O amigo Mário Corso me telefona durante o texto. Ao descobrir o assunto, confidencia:

“A meia é o salto alto que resta para a mulher na cama.”

Exato, disse que precisava desligar e retomar aqui. A elegância do salto continua com a meia. Prossegue. É o que a mulher pode levar dos seus sapatos. Uma mulher transando de meia está soberanamente calçada. Não existe homem que a diminua. Nem fantasia que a complete. A meia é a fantasia. O cadarço do lençol. As unhas brincando de fantoches.

Os pés vendados se desdobram para nos achar. “Os pés vendados”, que assombro, para perder o chão. Tontura que não se iguala a tapar os olhos.

Proponho lançar a campanha “Respeite sua mulher de meia”. No inverno gaúcho faria sentido.

A mulher é um teatro, que sua narração seja como ela quiser.

Nenhuma chantagem ou golpe baixo, dissuadindo que não consegue se concentrar. Concentre-se no trabalho, não na intimidade.

Meia não é um insulto, é a confiança das pernas. Para deitar com uma mulher de meia, deve-se conquistá-la inteiramente. Não é para qualquer um. A meia é um anel de noivado dos amantes.

Há mulheres que estão mais despidas com os pés cobertos. São mais desnudas com meias.

Transar com meias não será grosseiro, não será cafona, não insinua repressão.

Meias no frio, pele no verão.

É adorável uma mulher toda nua – ou quase - de meias brancas. Os pêlos realçados pelo contraste. A moldura do quadro. O jogo avançando. Uma cinta-liga dos pés.

Transar com meias é reservar o som para a boca. É pisar sem fazer barulho. A lã aprende a ser corpo.

Amor não se pede licença, amor é a própria licença.

A verdadeira libertina transa de meias.

8:54 PM :: Comentários:

40 ANOS DE TROPICÁLIA EM TALK-SHOW



Em busca do tempo perdido faz homenagem aos quarenta anos da “Tropicália”, movimento cultural que deu uma verdadeira sacudida na caretice e no conformismo em plena ditadura militar.

Nesta quinta (23/8), às 20h30, canções cheias de alegria e preguiça como Alegria Alegria, Panis at Circenses e Baby criam clima e gênero no Café de Bordo de São Leopoldo (Av. João Correa, 997, Telefone: 51 35913320)

É para baixar os santos e demônios de Caetano Veloso, Torquato Neto, Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé, Glauber Rocha, José Celso Martinez Corrêa, que proibiram o ato de proibir e politizaram a atitude de vestir, falar e amar.

Com apresentação de Frank Jorge e Fabrício Carpinejar, o programa empreende uma retrospectiva sonora de 1967, dos Festivais de Música Popular Brasileira, até a consolidação dos principais representantes do movimento. Uma viagem de volta ao espírito de vanguarda e irreverência libertária, resgatando toda a audácia de incorporar ritmos estrangeiros (guitarra elétrica, por exemplo) a uma música nacional e propor articulações inusitadas com o concretismo e pop-art de Hélio Oiticica (valorizando o elemento plástico das letras e os jogos lingüísticos).

No clima descontraído, Em busca do tempo perdido emprega uma espécie de humor cantante e lírico. Esclarece momentos históricos da cena cultural e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. È contra-indicado aos insensíveis à nostalgia. Caracteriza-se pela interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural.

P.s: Quem é a loira da foto, ao lado de Frank Jorge, na edição do talk-show de julho? Aceito palpites. O primeiro a descobrir ganha um livro.

4:07 PM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 21, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

POSSO RESSUSCITAR UM CASAMENTO?
Arte de Toulouse-Lautrec
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Oi, Fabrício

Tive muita resistência em te escrever, afinal, acredito que, apesar de toda a ação terapêutica e catártica da escrita, ela também traz uma concretização ou legitimação de pensamentos, aflições... Assim, não sei se consigo te contar toda a minha história, talvez seja um esforço que eu não estou pronta pra fazer, ou uma ferida que ainda vai doer demais, caso seja mexida. Enfim, o que você acha da "ressurreição" de relacionamentos? Você acha que aceitar de volta em nossa vida uma pessoa que no passado nos machucou muito é pedir pra sofrer de novo? Você acha que dar uma nova chance pra essa pessoa é ferir o amor-próprio, é negar a aprendizagem (através do sofrimento) que a vida um dia proporcionou? Durante o tempo em que ficamos separados, nunca nos distanciamos de verdade. Sempre quisemos nos aproximar um do outro. Agora que finalmente tivemos coragem de conversar de novo, não sei o que eu faço. Não sei se tento de novo (e é isso que o meu coração pede!) ou se continuo minha vida o tendo apenas no passado.

Um abraço e obrigada!
Laís”


Laís

Podemos aceitar de volta. O reencontro de um casamento é admitir que a separação modifique os parceiros.

Não duvido que amores terminem por estresse, e não pela ausência de autenticidade e sintonia.

Cansaço mesmo, exaustão psicológica, forçamos conversas que não rendem, cobramos o que não desejamos, rodamos o novelo do ciúme por insegurança. O fim é um momento de um casal, não a sua constante. Um momento sublimado.

Desviamos as dificuldades para a relação, esquecendo que ela é igualmente frágil e é capaz de arrebentar.

Quem está por perto sofrerá mais do que aquele que está longe. Marido e mulher são pára-raios de nossos problemas. Ferir, ser ferido, mas, em compensação, cuidar e ser cuidado. Se o curativo não surge, fica a mágoa e a culpa por essa veia aberta (que não sangra) dentro das palavras.

Negar a aprendizagem é não acolher quem você ama. Isso tem outro nome: orgulho. Seu coração já decidiu e vá em frente. Perceba o que estou aconselhando: vá em frente!

Não tente corrigir o que aconteceu de errado no passado, remediar ou fazer com que ele entenda que você tinha razão. Dessa forma, as brigas retornarão com o entusiasmo da ruptura. A dor adora se repetir.

O que acabou, acabou. É uma nova relação, um novo casamento.

Nem todos têm a possibilidade de retomar uma convivência. Trata-se de uma primeira chance, não de uma segunda ou terceira.

Ressuscitar é passar por uma morte. Não exija uma vida perfeita, não ouse apagar as feridas, sequer mexa nelas.

A memória se acomoda sozinha, ela achará um jeito de dormir, ainda que sentada.

Apresente-se novamente ao seu amor: "Muito prazer, sou Laís"

Beijos

Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:20 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 19, 2007

ATÉ OS AMIGOS TÊM QUE MARCAR HORA
Arte de Gilbert e George

Fabrício Carpinejar



Amigos de meu pai apareciam em nossa casa na infância a qualquer momento. A campainha mal bocejava e trabalhava de novo. Nossos cães envelheceram histéricos.

Eu não previa se o almoço e a janta seriam para os cinco da família ou para quinze. A mãe subia nas tamancas com o improviso permanente e a dança das cadeiras. Mas logo se enredava numa conversa e deixava de sofrer com o assunto. Tinha que arrumar cardápio de emergência para atender um batalhão. Com freqüência, instruía algum filho a sair discretamente pelo portão de lado e passar no mercado.

Desde essa época, minha alma familiar tem vocação para hotel. Eu tomava atitude semelhante, gostava quando os colegas freqüentavam a minha residência. Com um pátio, uma garagem e uma bola, era o menino rico da escola pública. A aula iniciava às 13h30, o boleiro Iraji inventava de me esperar para ir à escola com tediosas duas horas de antecedência. Permanecia mudo no muro branco da esquina, com a mochila de lona no chão. Todo dia era igual: eu o reconhecia, convencia a mãe e o convidava para almoçar junto. Nunca veio direto. A senha dele era encostar-se na murada e confiar na possibilidade de ser visto. Não chamava atenção. Logo que o procurava, dissuadia de que já cumprira a refeição. Na mesa, por suas repetições e desembaraço de tigre, descobríamos que isso era uma mentira educada.

Não compreendo se a culpa é do celular, do e-mail, da socialização do telefone. O excesso de canais para se encontrar tem contribuído somente para provocar desencontros.

Perdemos a mística da casualidade. Amigos não batem à porta. Quando batem, sem anunciar o movimento, são indesejados.

Para uma visita, deve-se ligar e pedir autorização. O marido falará antes com a mulher. A mulher falará com o marido. Os filhos serão avisados. Descortina-se uma votação de condomínio às pressas. Prepara-se o acaso com antecedência. Só falta expedir mandado de segurança. Não há mais amizade, porém consultas. Tudo é agendado como um consultório. O final de semana é também uma agenda. Transformamos o sábado e o domingo numa extensão do nosso expediente.

Ai de quem surgir de repente apertando o interfone e interromper o sono, a janta e o jogo de futebol. “Como que não ligou?”, reclamarão os anfitriões.

Ele será massacrado de indiretas ou provocará uma discussão de casal ou os residentes fingirão que não há ninguém. Usarão uma desculpa na ponta da língua para espantar a intimidade: reunião no início da manhã, viagem, doença.

Ai de quem desejar pedir ajuda e conselho, ai de quem contrai uma pontada súbita de desespero e parte com suas pernas ingênuas em direção ao endereço de um nome mais leal. Ai de quem depende dos olhos nos olhos de uma companhia para se ouvir melhor. Ai de quem sofre de um amor separado e de solidão no fim de semana e está prestes a enlouquecer de ansiedade.

Antes os amigos ajudavam com os problemas, hoje os amigos são vistos como os problemas.

Por serem amigos, eles entenderão, assim acreditamos, e perdoamos nossa intolerância. Não nos permitimos interferências em nossos planos, roteiros e rotinas.

Antes os amigos corriam para dentro da família, hoje os amigos são corridos (o que sobrará aos inimigos?)

Temos mais comida na mesa. Bem mais. Nossa avareza está engordando.




9:51 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Agosto 17, 2007

POR ONDE NÃO OLHAMOS
Imagem de Vicente

Fabrício Carpinejar



Meu filho pequeno tomou a máquina fotográfica numa tarde. Avisou que seria rápido. Após aprender onde se apertava e que deveria tomar cuidado, saiu orgulhoso de seus cílios.

Havia esquecido disso até baixar minhas fotos no computador.

Apareceram dezenas de imagens totalmente estranhas. Os botões da máquina de lavar. A hora no DVD. Os olhos pintados do boneco da sala de jantar. Os documentos da gaveta. O cantil de pedra do pássaro no pátio. Suas roupas no armário. A argola do banheiro. O ralo. Os desenhos dos tapetes.

Nenhuma pessoa por inteiro, mas fragmentos, recortes de uma revista imaginária. Criança usa lupa nos dedos. Aumenta o que enxerga enquanto os adultos diminuem.

Não reconhecia o mundo porque ele estava deslocado de seu significado. E era o meu mundo, a minha casa, por onde seguidamente andava apressado, fumegando os sapatos para cumprir um destino. Vicente fotografou a casa com o ritual de um museu, passo-a-passo, parando nas esquinas, dando nome de ruas para as mesas e capturando o vento quando ainda tem pétalas.

A sensação é que ele me abraçava devagar a partir dos objetos. Reunia a luz nos esconderijos.

Para meu filho, a casa não é funcional, é lúdica. Ele se detém em cada palavra, ao invés de resolver as frases. Com os olhos baixos de prece, com os olhos levantando pouco a pouco.

Não queria dar sentido, queria dar atenção.

Não havia um ar de superioridade, e sim de entendimento, de paz com os seus movimentos.

Ele não seleciona o que é importante, porque torna importante o que escolhe. No amor, será que somos assim?

Eu apago o que é meu, pois já me pertence. Mas pertencer é ainda uma primeira etapa, tenho que me despertencer. Encontrar minha mulher em sua própria ausência, vê-la surgir de seus hábitos menores, reencontrá-la mesmo quando não preciso, chamá-la por engano para brincar com seu nome em minha língua. Não é isso o que ansiamos? Ficar, pulsar onde há madeira e possibilidade de som. Que eu seja permanente, que ela seja definitiva.

Será que não pensamos de um modo macro, início-fim? Será que é necessário a separação para entender as pequenezas que diminuem o frio, que tornam a casa casa, a família família?

A convivência aprofunda a observação, a ponto de desejar a lembrança mais do que lembrar.

Agarrar a aldrava com a suspeita de que sua mulher realizou o mesmo movimento nos dias anteriores. Agarrar o dia anterior de sua mulher mais do que a aldrava. Tocar a mão de sua mulher mais do que a aldrava. A aldrava é ontem, anteontem, sempre.

Perceber que aquela porta da sala é sua mulher chegando com os pacotes do mercado e um grito faceiro que começa a noite. A noite só começa quando ela entra, mesmo que seja 23h.

Não é mais uma porta, é um ouvido soletrando as escadas.

Meu filho desembrulhou as peças como se fossem de novo presentes. Inaugurou a antiguidade. Fotografou os chinelos cruzados no banheiro. Fotografou o jornal em cima da mesa. Fotografou as tomadas. Fotografou os aros amarelos de sua bicicleta. As cordas do violão da irmã. O fundo da bolsa.

E, por último, fotografou meus braços em torno dos braços de sua mãe durante a sesta. Um laço firme, um nó que não se desfaz acordando. Ele descobriu de onde nasceu e deitou ao lado.

12:23 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Agosto 13, 2007

PIAUÍ
Arte de Jim Dine e Magritte



Sou o poeta convidado da revista Piauí. Na edição de agosto, número 11, apresento uma série inédita de "poemas impublicáveis". Os poemas podem ser ouvidos (encarnados pela voz de Sílvio Vasconcellos) no portal da revista.

POEMAS IMPUBLICÁVEIS
Inéditos de Fabrício Carpinejar

VICIADO

Antes da aula,
eu cheirava cola.
Confesso: cheirava cola com ânsia.
Levava os saltos da mãe
para consertar no sapateiro.
Escorado no balcão,
não apressava Anastácio,
boiava os olhos do olfato.

Ria depois dos colegas
que se contentavam
com o álcool do mimeógrafo.



DEPOIS DAS ROMÃS

Atirar a pasta pesada na cama,
livrar-me do uniforme branco
fechado até o último botão,
não falar nada na mesa
para ficar sussurrando com os cães
de chinelo e calção no pátio.

Da escola, o que mais aprendi
foi voltar para casa.

PONTO FRACO

Existe um único jeito de me envelhecer,
um único e irremediável.

Nenhuma perda em especial
me fará envelhecer.

Nenhuma dor em particular.
Nenhuma morte, eu me arriscaria a dizer.

Não será a barba grisalha, o tédio,
a dificuldade de subir a escada.
Não serão os ombros caídos,
o lápis sem ponta e os óculos
que enterro na cabeça para nunca mais.

O definitivo jeito de me envelhecer
é corrigir meus dentes.

Os dentes tortos
são minha infância.



PAPEL CARBONO

Ela reclama de minha fraca memória.
Fala alguma coisa, escuto, mas não guardo.
Juro que escuto, a deficiência não é auditiva.
É que não encontro um local seguro para guardar.

Há muito tempo deixei
de ser um esconderijo confiável.

PAPEL CARBONIZADO

Ela não reclama de minha fraca memória.
Agradece quando esqueço para aperfeiçoar a história.
Agradece porque nunca será repetitiva para mim.
Estou sempre interessado quando sua voz emudece.

Ela perdoa homens sem memória,
mas não perdoa homens sem imaginação.



OPORTUNISTA (ou Chamfort)

O fim ainda é um meio.
O político vê em seu cadafalso
mais uma chance de subir ao palco.

7:49 AM :: Comentários:


Domingo, Agosto 12, 2007

SER PAI



Publicado no Correio Braziliense, Revista do Correio, matéria de capa "Ser Pai é...", 12/08/07. Leia a íntegra no jornal.

11:23 AM :: Comentários:

PRÓXIMA SEMANA
Ilustração Vicente



13/08/07 (segunda), 9h, Novo Hamburgo (RS)
Palestra aos alunos da Escola Castro Alves, em Novo Hamburgo (RS), pelo projeto AUTOR PRESENTE, do Instituto Estadual do Livro.

14/8/07 (terça-feira), às 19h, Porto Alegre (RS)
Colégio João Paulo I - Porto Alegre (RS)
Palestra sobre "Meu Filho, Minha Filha"
Telefone: (51) 30134540

15/08/07 e 16/08/07 (quarta e quinta), 15h, Campo de Goytacazes (Rio de Janeiro)
(Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro)

No Enletrarte (Encontro de Letras e Artes), realizo oficina de criação imaginária na quarta (15/08), às 15h. No dia seguinte, na quinta (16/08), às 8h, participo de mesa-redonda sobre Tecnologia no Processo de Criação Literária, ao lado das professoras Vera Follain (PUC-RIO) e Ana Cláudia Viegas (UERJ). Os encontros acontecem no CEFET Campos.

A programação completa está no site do evento. E-mail: enletrarte@cefetcampos.br

11:19 AM :: Comentários:


Sábado, Agosto 11, 2007



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Ilustração de Mariana Zanetti, paulistana, artista plástica, já ilustrou "Zôo" (Hedra) e "O Anjo do Lago" (Biruta), entre outros livros.

(Publicado na Folha de S. Paulo, caderno Folhinha, p. 6, 11/08/07)

8:36 AM :: Comentários:

O PAI POETA, MAIS PERTO DA CRIANÇA
Na véspera do dia dos pais, uma dica de leitura: nos poemas de "Meu Filho, Minha Filha", Fabrício Carpinejar oferece sua versão para a aventura de ser pai e de ser filho no século 21

CELSO GUTFREIND*
Fotos de Júlio Cordeiro



Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 144 páginas, R$ 28), o livro mais recente de Fabrício Carpinejar, passeia pela parentalidade, esse caminho de se tornar pai e mãe. Não o faz com intenção, não premedita.

Faz poesia simplesmente, e é aí que o texto se parentaliza. Na primeira estrofe, canta: "Meu filho, meu filho / volto a te recolher deitado / no azulejo frio". E é assim, criando o cenário de sons como esses, que a aventura de pai (ou mãe) inaugura-se. Porque desconfiamos, já com fortes suspeitas, de que começamos a ser sob a forma de um apego. Que é feito de desejo e olhar, mas logo vem a linguagem provar que estamos separados e nos inunda de assonâncias (frio e filho) e aliterações (filho e frio) e silêncios entrecortados pela música. A linguagem quer restabelecer o calor. Precisamos ser ponte de prosódia com mãe (ou pai) para ser. Tivemos de ser música um dia, portanto, poesia. Meu Filho, Minha Filha é poesia desde o começo, na musicalidade de cada verso, mas também no livro como um todo, que retoma o estilo do autor, adepto do poema longo. Ser pai, ser mãe é longo. E é ritmo como o de cada poema ali impresso, sobretudo, na intercalação constante de um poema para o filho (Meu Filho Comigo) e outro para a filha (Minha Filha Sem Mim).

Ser pai, ser mãe já estaria desenhado nessa aparente falta de significado, amparada pela melodia, como é o começo de uma vida de filho ou pai. Mas como reconhece o autor, em um de seus versos, não fomos feitos com a perfeição do cavalo; já no primeiro ano dessa vida, começamos a balbuciar, desesperadamente, em busca de sentidos.

Meu Filho, Minha Filha não o toma com intenção. Mas vai, a cada página, ritmando sentidos do que hoje se pensa e se expressa para o trajeto de tornar-se pai e mãe. Poucos sons depois de seu começo, encontramos os versos lapidares: "Não há água benta na bacia, apenas a sede de uma família /que se espalhou por medo." Cantando, Carpinejar encontra uma verdade que enxergamos no cotidiano de quem ouve pais e filhos dentro e fora de nós: encontrar o filho é encontrar o filho que fomos, é reencontrar-se com o bem e o mal do que (não) passou. O passado sai de seu lugar e, à beira desse futuro, tudo é presente. A psicanalista Monique Bydlowski chama esse trajeto de transparência psíquica. Porque nada nos retira tanto do opaco ou das defesas do que um filho. Esse filho, essa filha que recebem desse pai o olhar, a empatia, a palavra, filtros para os dentes de um passado, sempre disposto a morder afiado e pontiagudo. A mesma transparência psíquica que se escreve mais adiante: "És meu filho e o pai que não tive, /ou o filho que ainda não nasceu". Sem digestão de passado, a poesia tranca, mas aqui ela digere e flui como as vidas que destrancam em quem se propõe a cantar.

As mordidas doem menos se houve o que há em Meu Filho, Minha Filha: olhar, empatia, palavra. O resultado é imagem, metáfora, poesia aos borbotões como em uma vida bem amada e expressada. Um exemplo: "Meu filho, meu filho, /suave e manso filho, de cílios maiores /do que a ponta dos dedos..." O psicanalista Serge Lebovici chama isso de empatia metaforizante. Fomos feitos, enfim, para a acolhida e, acolhidos, criamos. Esse é o livro de um pai que acolhe filho e filha e jamais será abandonado pelo símbolo.

Meu Filho, Minha Filha aproxima-se ainda mais do que é ser pai e ser mãe no século 21. Porque o amor de que fala não é o do século 19, idealizado, trágico ou romântico. Ou o do 20, acomodado em suas velhas formas. O amor de que fala é imenso e humilde, vagaroso e progressivo: "Até para ficar em pé com o filho, /o homem tem que se preparar." É amor desajeitado, como expressa ("enraiveço /de tanto amor desajeitado") e como amamos quando amamos sem cobranças de amor maduro (e falso), que nos faz, mães e pais, com alta prevalência de depressão pós-parto.

Meu Filho, Minha Filha é um livro novo, de uma família nova, recomposta, reconstituída, repleta de discórdias, desencontros e acusações tal qual uma família antiga. Contra os solavancos dessa condição - ser réu de filha, perder-se em críticas, sobrar na dor dos filhos, chamados feiamente de meio-irmãos - , Carpinejar conta com o antídoto antigo de propor olhar, empatia, palavra. Assim é que vai achando, a cada verso, uma nova representação, aproximando a tarefa do poeta à da criança (Freud), que é brincar, inovar, criar; cria versos inéditos, achando nome para a dor de tantos pais (homens) que não cessam de procurar, desesperadamente, o seu lugar: "Eu não te eduquei, não te corrigi em seqüência, / sou o pai que vai voltar tarde. / Tudo o que ensino / não tem uma segunda-feira."

A todas essas, Meu Filho, Minha Filha nos conta o que já sabíamos, sem nos autorizarmos a dizer sob a patrulha dos exigentes: como é difícil ser pai nessas ou em quaisquer outras condições: "Não há como pedir que entendas a verdade. / A verdade é passar / fome ou frio na linguagem." Ao mesmo tempo e sem receitas, essa aprendizagem longa e inacabada passa por poder contar-se, e o livro conta: "Meus pais brigavam, / a mãe se trancava no quarto // e o pai se trancava no escritório. / Sentava na sala entre os dois aposentos / com pavor de tomar partido." Como é difícil ser pai, olhar o pai que tivemos, separar-se do filho que temos, que entra na creche, da filha, que entra na adolescência, e o pai permanece na medida em que suporta ausentar-se, perder, mais adepto das separações que dos encontros: "Te deixei mais ir do que vir."

E como é difícil ser filho: "Treinei para ser pai. / Queria ser logo pai / para deixar de ser filho". Contando é que o filho se esvazia para ficar repleto do pai que pode ser e é; salta de filho para pai, e a confissão salta de confissão para poema, porque houve linguagem entre a empatia e a metáfora (Lebovici), entre o silêncio e a sonoridade. É quando confessa que nada fez por si - fazia-o pelos pais - até os 25 anos, que se torna livre para ser poeta e pai. E ambas as trajetórias - a de um pai e a de um poeta - precisam do mesmo caminho, que é brincar: "Eu te divirto, sem querer", canta, a certa altura, o pai poeta. Entre empatia e metáforas, ele soube fazer sons e significados que o fizeram capaz de juntar-se e separar-se de seu filho. E dar lições de apego e desapego do olhar ao toque: "Não dependo de toda a mão para te manter perto de mim."

O que mais gosto desse livro é que ele aceita ser triste para desprender-se da tristeza e chegar no belo, no alegre. Transmitindo a idéia de que, se olharmos e dissermos com empatia, não há século 21, lei materna ou gravidez na adolescência, que impeçam ser pai de ser tão prazeroso como ir à praça ou à arte.

Já no final, Meu Filho, Minha Filha dá novo sentido para quem pensa e sente a parentalidade. E sugere que quem olhou e contou (com afeto) pôde filiar-se. Mais ainda: ser pai de um filho que, no sagrado desse ritmo, há de ser pai um dia.

Que pai e arte autênticos como esses prometem transmissão e duração. Assim, retornamos ao começo do livro, onde um poeta, mal saído dos 30, dedica o que criou para os seus netos. E, nessa dança bem-sucedida de passado, presente e futuro, não está mentindo.

* Psiquiatria da infância e escritor, autor de, entre outros livros, "A Almofada que Não Dava Tchau!"

(Publicado em Jornal Zero Hora, caderno Cultura, página 03, Porto Alegre, 11/08/07. Edição nº 15330)

8:32 AM :: Comentários:

ESCRITORES BRASILEIROS ESTÃO VOLTANDO PARA CASA
O Filho Eterno reflete a necessidade dos autores contemporâneos de pensar sobre relações filiais após a implosão da família

Fabrício Carpinejar
Especial para O Estadão



Os escritores brasileiros contemporâneos estão voltando para casa. Cíntia Moscovich desenha a simbiose entre filha e a tutela materna em Por Que Sou Gorda, Mamãe? (2006), Luiz Ruffato narra em O Inferno Provisório a cartografia do lar operário no interior de Minas, Michel Laub flagra o fantasma da separação dos pais em Segundo Tempo (2006) e Milton Hatoum refaz a parábola no Rio Negro de Caim e e Abel em Dois Irmãos (2000). Não é casualidade, há uma latência em entender o que seremos a partir das variações filiais.

Um dos melhores narradores do País, Cristóvão Tezza reestréia na Editora Record com o romance O Filho Eterno (224 págs., R$ 34), além da reedição de suas obras anteriores num abrangente projeto gráfico. Trapo, Aventuras Provisórias e O Fantasma da Infância estão circulando no selo com elegantes capas monocromáticas.

O Filho Eterno enfoca a relação de um pai com um filho portador de síndrome de Down. Assunto que foi tema de uma novela recente da Rede Globo, Páginas da Vida, de Manoel Carlos, e que é enredo de outros dois preciosos romances, Uma Questão Pessoal (Companhia das Letras, 2003), do japonês Kenzaburo Oe, Nobel de Literatura, e Nascer Duas Vezes (Companhia das Letras, 2002), do italiano Giuseppe Pontiggia.

Curioso é que nos três livros (Tezza, Oe e Pontiggia) o protagonista é um professor que precisa assumir sua vocação paterna com o nascimento de um filho deficiente. Talvez a figura do professor seja a mais próxima do escritor, um alter ego preferido, já que é uma deliciosa soma contraditória, talhada para ensinar e, de repente, obrigada a aprender. Em todos eles, ocorre a mesma pergunta: o que é normalidade?

Tezza produziu uma pequena obra-prima. Sua mais autobiográfica ficção, com referências diretas à sua privacidade, formação e aos inéditos do início literário. É um mergulho camicase no mais absoluto amor a uma criança. A narração em terceira pessoa torna o livro suportável, senão as lágrimas viriam embaralhar as letras.

Descortina o ingresso definitivo na fase adulta de um estudante de Letras, 28 anos, que vive de bicos como aulas de redação e correção de monografias. Mistura de ideologia e desajuste, o rapaz terá que digerir sua frustração diante do surgimento do bebê trissômico 21.

Uma das grandezas do volume é que não ocorre nenhuma omissão das etapas de aceitação da paternidade. Não há atenuantes e meios-termos. 'Ainda não existe um filho na sua vida; existe só um problema a ser resolvido.' A princípio, a culpa e a resistência. Em seguida, os exercícios de estimulação e a convivência. Por último, a simbiose plena e inadiável.

Desarma os preconceitos entrando neles, assumindo-os, conceituando a evolução de sua consciência e não censurando os medos mais primários e infantis (não se pode esquecer que estamos no fim da ditadura militar, nos anos 1980, em que a expressão usada para a síndrome de Down era 'mongolóide').

Logo no nascimento, o personagem imprime o inconformismo pela dificuldade. Não era um filho para exclamar, mas um filho para se perguntar. Sua mulher lamenta que estragou a vida dele, esperando que diga o contrário e ele não retruca. Aceita. Empreende uma romaria com especialistas para encontrar um erro na avaliação médica. Não encontra. Ao descobrir a pouca expectativa de vida com a deficiência, cogita a morte prematura do pequeno, para aliviar-se da responsabilidade. Quem seria capaz de declarar isso, de um modo tão corajoso, sincero e desconcertante? 'Jamais partilhou com a mulher a revelação libertadora.'

Enfrenta o dilema entre quem faz da diferença uma discriminação e de quem nega a diferença e exerce uma discriminação ainda mais grave.

O que Tezza indica é que o filho com a síndrome pode virar um filho privado, não um filho público, para passear, fofocar e ostentar sem dar explicações. Por receio da ausência de compreensão dos demais, transforma-se em segredo de família.

O Filho Eterno desmantela o tabu. A obra é o escritor andando publicamente com sua criança e emendando comunicação e intimidade. 'A afetividade é uma forma de compreensão.'

É de arrepiar a transformação gradual e consistente do pai, desde quando tira fotografias caçando os ângulos em que o filho ficará com a feição dita comum até a revelação de que é ele que está em treinamento. 'Sou eu que preciso de avaliação', confessa.

O filho Felipe vai demonstrando sua personalidade e esvaziando falsas ilusões. Antes o pai se defendia do filho, agora o pai defende o filho das adversidades, das censuras veladas da escola, que alega não ter 'conhecimento' para cuidar de uma educação diferenciada.

Não são poucas as epifanias. Uma delas é quando repara que a criança especial vive um presente absoluto. Todo olhar não é um regresso, porém um espanto da primeira vez. 'Como se cada instante da vida suprimisse o instante anterior.'

O pai encarna o menino. Rejeita seu ponto de vista etéreo para tomar uma posição calcada na experiência. A autocrítica pesada do começo ultrapassa a resignação e atinge o improviso da esperança. Da rejeição ao desespero de extraviar o filho, quando ele some do apartamento.

É do conflito que nasce a lucidez, a lembrar das palavras sobre o herói de Bakthin: 'Quanto mais forte a tensão, sempre maior será a clareza.'

Cristóvão Tezza poderia naufragar na pieguice, flagelação e orientação moral. Mantém o pique em praticamente o livro inteiro. Desacelera somente nos últimos dois capítulos, nos quais discursa mais do que narra e reprisa o companheirismo do pai com o filho num tom ensaístico.

Vale-se da sincronia entre o pensamento trepidante do personagem e a atmosfera tensa envolvendo a família (Felipe, mulher e a filha que nasce depois), sem nunca desautorizar a voz de comando do narrador. Contrapesa a ironia com o arrebatamento, a ebulição reflexiva com a objetividade. É um romance coeso, bem amarrado, onde a ação da subjetividade se ampara em fatos para abrir a casca das aparências.

Serve também como um diário de um escritor em formação, com duas dicas fundamentais. A recomendação de interromper o texto num bom momento, para manter a vontade de continuar imediatamente, e a de que ninguém está pedindo para o escritor escrever. É ele que criou sua necessidade e arcará com sua opção. 'O fracasso é coisa do autor.'

E as vitórias, como a do O Filho Eterno, parecem ser dadas de modo generoso ao leitor.

Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007)

(Publicado em O Estado de S.Paulo, CADERNO 2, Capa e Página 2, 11/08/07)

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Quinta-feira, Agosto 09, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

CONTRADIÇÕES DO AMOR
Arte de René Magritte
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Olá

Lendo suas colunas, resolvi escrever, preciso de algumas palavras:
Sai de um relacionamento difícil, namoro de três anos que me consumia. O fim foi lastimável, todo o respeito foi desconsiderado. Descrente no amor, tive relacionamentos esporádicos, pessoas pelas quais não sentia interesse nenhum, mas, para evitar as crises de carências, tornaram-se necessárias.

Conheci um homem, em um encontro casual, com amigos em comum, alguém de quem nunca tinha ouvido falar, mas que morava na região. Isso era bom. O encanto se deu IMEDIATAMENTE.

ELE: CASADO! Não soube de cara, só após o primeiro beijo, imagino que por ele estar se sentido culpado. Nem mesmo com a notícia, quis parar de beijá-lo. Por mim, beijaria ele a minha vida inteira.

Não sou uma mulher desprezível, não passo despercebida, tenho tudo o que preciso, sem falsa modéstia, não precisaria estar envolvida nessa situação, porque nunca tive problemas com relação a homens anteriormente. Não se trata de testar meu poder de conquista, nem porque é proibido. É amor verdadeiro, desejo constante. Apesar de várias vezes falar o contrário, não acredito que largará sua família, seu convívio social, seu status e admiração por algo incerto. Nem sei se eu conseguiria conviver com esse peso, de destruir uma família, como fizeram com a minha. Odeio a mulher que destruiu minha família. E ODEIO PENSAR EM FAZER O MESMO.

Só preciso trocar experiência, alguém que me dê força pra continuar minha vida, dar um basta, porque meu coração não me permite, a angústia é grande quanto à falta de notícias, ou a falta dos beijos dele. Ambos já tentamos, e sempre voltamos a nos ver. Sempre fui inteligente, perspicaz, mas não sei ao certo o quanto ele gosta de mim. SÓ SEI DO MEU SENTIMENTO, que é infindável, imensurável.

Pela vergonha, todo mundo desconhece esse meu relacionamento, portanto tenho uma vida DUPLA, nem eu mais sem quem eu sou. Está muito complicado esconder, não poder dividir, nem contar que sou feliz, que tenho alguém que se preocupa comigo. Esse sentimento é, de longe, o pior que já senti e está acabando comigo.

Abraços

Cecília”


Cecília!

Confiamos controlar o amor, e ele nos controla. Alimentamos uma equivocada impressão de que podemos planejar com antecedência nossos atos, e perdemos o domínio. Somos arrogantes com o amor, e ele nos enreda em contradições.

Arrogantes porque ao começar um relacionamento nos sentimos fortes e com tempo a pensar, independentes e capazes de sair ou entrar a qualquer hora. Queremos aproveitar o que vier e depois não conseguimos mais sair. O desprendimento converte-se em dependência. E mudamos de papéis com facilidade em nome da autenticidade de uma emoção. Ora somos as vítimas, ora somos os algozes. Ora somos a família destruída, ora destruímos a família de alguém. Com facilidade, terminamos sendo o que antes praguejamos e julgamos como desprezível.

Seu desespero vem exatamente de só saber de seu sentimento. Mas ele não resolve, precisa descobrir permanentemente o que ele sente por ti. Quer casar com ele, morar junto, está pedindo exclusividade, ou não notou? E aguarda provas, por mais que diga ou cogite que não.

Não deseja que ele termine com seu casamento, mas deseja que ele fique contigo.

Busca encontrá-lo cada vez mais, mas não suporta a clandestinidade.

Fala uma coisa, faz outra. Porque não consegue mais decidir, a decisão não é mais sua, e está ansiando que ele resolva por você. Infelizmente, ele não vai dar um ponto final. Será eternamente uma vírgula se mantiver essa postura passiva e compreensiva.

Não precisava estar envolvida nessa situação, concordo, não se apaixonou por conquista e sedução, concordo, porém a realidade existe e deve enfrentá-la. Já que não está feliz com o dilema, eu não tentaria me afastar, eu me afastaria. Tentar é permanecer. Deixaria que ele viesse sem culpa no futuro ou nunca mais.

Aceitará ser menor do que o convívio social e o status dele? O amor não é um negócio para sairmos com lucro. Se ele está pensando em manter sua estabilidade, não a ama. Seu amor é verdadeiro, e o amado também? Já vi amores verdadeiros por pessoas que não existem, pessoas que são projeções.

No caso de vida dupla, temos que descobrir o mais rápido possível qual delas é a falsa.

Beijos

Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

4:14 PM :: Comentários:


Terça-feira, Agosto 07, 2007

NOS ENCONTRAREMOS LÁ EM CIMA
Arte de Egon Schiele

Fabrício Carpinejar



Eu me aguardo mais do que tenho paciência.
Nem sempre eu me encontro, tem dias que vou ao trabalho sem me levar, tem dias que sou uma lembrança do que precisava ser.

Há quem acredite que está inteiro sempre?

Não, não é possível. Nunca seremos inteiros sozinhos. Eu me aproximo da inteireza na praia. Uma praia do entardecer, quando o vento arrasta suas redes e os barcos se entendem com as estrelas. Uma hora em que o mundo parece que está voltando para casa e não decidindo nada.

Nessa hora imprecisa entre a tarde e a noite, gosto de ser insultado pelas gaivotas. Elas se aproximam e se afastam. Arrulham com a violência das crianças jogando futebol, brincam com a bola imaginária de minhas mãos, zombam de minha âncora para voar mais alto.

Eu sempre fui virgem para cada mulher. Porque não sou completo. Sou o adolescente que se deslumbra para conhecer. Que abre o sutiã para logo aproximar o peito. Como se o meu peito fosse proteger os seios. Como se meu peito fosse uma camisa envergonhada. O adolescente que arrisca pela intuição, por ouvir os ouvidos. Que ainda não encontrou algo mais excitante na vida do que tirar a calcinha. E olha para os pés dela para que a ânsia complete o que faltou enxergar. Que tem cuidado para entrar, um cuidado viril, um cuidado autêntico, um cuidado permanente que não perderá quando estiver distante.

A segurança me tornou insensível. Não dependo dela. Não sou um ator para ler o texto antes de interpretar. Interpreto a minha própria ignorância.

Até sei que isso não conta pontos na sedução e me fará passar uma imagem de inexperiente. Sou cada vez mais inexperiente. Minha mulher que o diga.

Amar é inexperiência, é esperar que a minha mulher se espere. Posso me faltar, mas ela não. Não fazer nada que não tenha sido aquecido pelo sopro. Essa praia que é a cintura: as águas mexendo as pedras sem ninguém ver, deslocando o som, conchas correndo secretas.

É a inexperiência que me toca. A experiência da inexperiência. O que me agrada sinceramente é quem recebe o esquecimento e ainda assim não se esquece. Quem não retira o cumprimento atrás da porta. Mas o que se contenta com um abraço ou um deslizar mútuo dos dedos.

Não desejo impor meu ritmo. Toda a transa é a primeira. Os lábios se multiplicam no rosto. Há mais bocas do que duas bocas. Sombras de bocas. A respiração ajuda a espalhar o beijo. Uma excitação pela próxima palavra. O corpo é um ditado. Uma palavra por vez. Não ter idéia de qual seja a próxima palavra. Suspirar dentro do gemido. Não ter idéia de subir e descer, e descer e subir na própria indecisão. Cada olhar como a repetir: “Vem, eu a ajudo a subir”.

E só gritar, como as gaivotas, quando estiver no alto.

3:39 PM :: Comentários:


Domingo, Agosto 05, 2007

LUTO DE BRANCO
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Não consigo prever o que é, nem sempre o amor pela cidade é recíproco ou acontece à primeira vista.

São pequenas resistências que nos esfriam até pensar que não valerá a pena insistir.

É um ensaio, um segundo, um terceiro para puxar conversa e não há um parco esboço de simpatia do lado inverso. E passo a crer que o problema é comigo.

Eu amo Belém, eu amo Campo Grande, eu amo Recife, eu amo Goiânia, eu amo Brasília, eu amo Curitiba, eu amo Belo Horizonte (e seu interior de capela), eu amo São Paulo, eu amo Rio de Janeiro, eu amo Fortaleza. Sem contar o meu estado, onde a minha respiração já é vento. Não foi escancarar a minha poligamia pelas cidades. São muitas, cidades que me engravidaram, cidades que fizeram esquina com a minha infância, cidades que demorei a me despedir, cidades que abriram bairros em meu pescoço.

Pois é, sofri horrores para me entender com Joinville. E não me compreendi tampouco com sua natureza sigilosa, encravada entre morros, acostumada ao sobrevôo perpétuo da garoa. Município invisível na estrada - é preciso entranhar-se em seu miolo para descobrir as primeiras casas. As praças não têm bancos, são ruas desertas. Não esbarrei com ninguém gargalhando na rua, satisfeito, embriagado de si, pensando alto uma bobagem. Será impressão?

Virei um fantasma sem trocar de roupa. Não serei injusto, certo, conheci gente ótima: Sílvio e sua família, Juciano, Elisa, Josiane, Rubens, Tiago. Mas uma série de equívocos me deixou indefeso. Podem ter sido dois dias infelizes, também pode ser conflito de temperamentos. Quem diz que não foi azar? Talvez regresse na primavera e não experimente nenhum contratempo.

Busquei jantar numa lanchonete em frente ao clube. Restava uma mesa vaga, só que imunda de batatas, guardanapos e boçalidade de catchup dos últimos fregueses. Uma mesa sangrando, para sugerir o mínimo. Aguardei que o garçom limpasse para sentar. O garçom gritou, totalmente indisposto: "Só um minutinho, não dá para fazer tudo". Ele não murmurou boa-noite, não abriu seus braços com cordialidade para me acomodar. Sentiu-se agredido pela menção à sua ajuda, quem era eu para dirigir a palavra?, e partiu em direção à cozinha. Foi a única conversa que tive com ele - e a última. Limpar a mesa seria um favor, não uma regra do local. Dez minutos depois, o garçom recolheu os pratos, e fez de conta que não havia mais sujeira. Para provocar, retirava os destroços em lentas etapas. Desapareci para ele. Entenderia se a hostilidade surgisse por minha impaciência com a chegada do pedido, sequer espiei o cardápio. Enganei a fome no McDonalds mais próximo. Comer na rede americana mostra a impessoalidade da minha passagem.

Apresentei-me antes num bar. Convidado de propósito para o sarau, carregava a generosa expectativa de interagir com os novos autores. O espaço aberto não contribuiu para criar intimidade, a luminosidade dispersava os copos, o trânsito à margem buzinava com seus insetos metálicos e trepidantes. Deveria ter percebido o desajuste quando escutei “Amor e Poder” no alto-falante. Tocou mais de uma vez “Como uma deusa”. Pela repetição exagerada, desconfiava que era o hino do estabelecimento.

Li textos que julgava engraçados e não recebi eco, riso, espanto, esgar, névoa de palavra. Palmas formais para encerrar e sair. Não que tenha fracassado, eu não existi. Fracasso ainda é nascimento. A ironia não fora compreendida, uma rua na linguagem para ir e outra paralela para voltar. Terrível foi o dono do lugar, que me censurou na quarta crônica. Comentou que a quantidade de palavrões afugentaria os clientes. Esqueceu o espírito do contexto, a literatura, o próprio humor, para reencarnar meu professor de Moral e Cívica do Ensino Fundamental. Faltou apenas me mandar ao SOE.

Não me desembaracei da estranheza. Vi dois carros se espatifando nos postes em menos de uma hora, vi casais virando o rosto com brincadeiras, vi o organizador desmarcando a carona ao aeroporto por estresse, vi a indiferença perante a poesia. Joinville estava cansada de amar naquela noite. Indisposta. Louca por um cobertor xadrez para fugir de mim e da chuva.

De lá, guardarei a lição de uma mãe que perdeu o filho. Desde que o guri morreu, há dois anos, ela veste exclusivamente branco. Parece desafiar Deus. Ao invés de enegrecer a dor, seu luto é de esperança. Ela, sim, teria todos os motivos para chorar, e rezava com vigor e entusiasmo.

8:37 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Agosto 02, 2007

SE SAIR, NÃO VOLTE MAIS!
Arte de Gustav Klimt

Fabrício Carpinejar



Quem já não ouviu de alguém: “se sair, não volte mais!”

Há algo mais desolador do que espiar o quarto pela última vez? Essa ânsia de decidir o que não foi compreendido. A vergonha de ter duas pernas para andar. A vergonha de ter dois braços para concordar com as pernas.

Há algo mais demolidor do que ouvir esse desabafo sem concessões, sem releitura? Ouvir essa ordem de quem nos convidou para entrar. Esse ultimato “pense agora”, “rápido”, “depressa”, como se fosse possível pensar alguma coisa aos berros. Não ter tempo de definir se é fingimento ou verdade. Não ter tempo de pedir mais tempo.

Essa relação que era tudo o que você tinha, era tudo o que você acreditava.

Essa relação agora jugo, propriedade, demolição.

Essa imposição que nos constrange a tomar partido, a tomar uma atitude, a tomar a própria voz a contragosto.

Tentar descobrir um abraço entre os empurrões. Falar e parecer ironia. Explicar e parecer zombaria.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que os adultos não brigam, eles se suportam aos poucos.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o ódio seduz.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que a cobrança é maior do que a memória.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o desejo era vizinho do despejo. Ao subtrair uma letra, subtrair uma vida.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que a maçaneta está presa somente por um prego.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o casamento libertou até aquele momento.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que seu casaco é roupa de cama.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que a despedida é desaparecer.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o filho é uma rua sem saída.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o gancho do cabide servirá para desentupir o ralo.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que a visita tem hora marcada.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o fecho perdeu seu trilho, mastigou metade dos seus dentes.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que o pescoço é curto para espiar lá fora.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir que a paz dali por diante será trégua.

“Se sair, não volte mais!” Descobrir a ofensa dentro da oferta.

E desistimos de sair, mas também desistimos de voltar.

Uma lealdade se rompe com essa frase, a alegria de ir e vir. A fidelidade some com essa frase, entra outra coisa em seu lugar: submissão, desencanto, arrependimento.

O amor é quando faltam palavras.
O desespero é quando sobram palavras.

Quando sair, me leve junto. Em silêncio.

10:50 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Agosto 01, 2007

ELA NÃO VAI ENXERGAR
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Ela poderá ter amnésia, alzheimer, mas dele não esquecerá.
Esquecerá de si, mas dele não.
Dez anos separada, mas dele não esquece.

É ele. É ele. É ele.

Encontra sempre um jeito de falar dele. Mesmo quando não há jeito. Mesmo quando não há assunto. Mesmo quando não há gente para ouvir.

Ele Ele Ele.

Ele já a esqueceu, ele já mudou de vida. Casou três vezes. Nem quer voltar, traiu e se despediu. Colocou na carteira a dor, a pressão, a angústia de não ser ele. Fechou a estrada, partiu, estornou cada palavra.

Ela, não. Ela acredita que o melhor dele depende dela. Nenhuma mulher o conhecerá como ela.

Ela não tentou de novo. Não mudou. Comenta que ele ficou estranho, diferente, forasteiro, que deveria conhecê-lo quando estavam casados. Era outro, era límpido, era lindo.

Ela Ela Ela.

Ela sonha que ele morre e pede desculpa. Ela sonha que ele morre por um dia com ele.

Ele nem pesadelo com ela. Nenhuma franja por ela, uma barba por ela, uma cicatriz por ela.

Ela é seu segredo. Ela não faz segredo.

Ele não vai enxergar. Ela não vai se enxergar.

Ele Ele Ele.

Quando ele chega perto dela, ela prepara o cabelo, compra roupa, atende o telefone no primeiro toque.

Quando viaja longe, põe uma cadeira na varanda e escreve sobre ele.

Ela não amou mais. Não beijou mais. Não dançou mais. Guardou-se para ele. Para ser fiel a ele, sem padre, sem pastor, sozinha. Fiel mais do que a própria sanidade. Amor preso como uma freira no pátio da igreja, amor escandaloso como uma feira no meio da rua.

Só se casa uma vez, ela responde.

Só se separa uma vez, ele responde.

Ele guardado na boca como um dente. Uma aliança no dente.

Ela Ela Ela.

Ela prometeu não esquecer.

Ele esqueceu as promessas.

Ele já trocou de escada, ela no mesmo degrau. Ele não menciona o nome dela. Nem lembra de sua idade. Enterrou. Apagou. Deixou o silêncio sem tocar na comida.

Ela não ouviu direito, ouviu torto, ouviu o que pensava. Comemora ainda o aniversário de casamento, o aniversário do noivado, o aniversário do namoro.

Ele se despediu e ela o chamou para dentro. Ele vendeu sua parte da casa, ela manteve o quarto.

Ela não cansa de contar a mesma história com ele.

Naquele tempo, naquele tempo, naquele tempo.

Ele não cai na cilada. Não abre a guarda. Não manda cartas. Não mexe em fotos.

Ela o insulta para qualquer um. Avisa que ele não presta. Só presta com ela.

Fala mal para falar bem. Fala bem para falar mal. Mas fala, fala, fala.

Ele Ele Ele.

As amigas não têm como avisá-la. Os amigos não têm como avisá-lo.

Ele é meu Ele é meu Ele é meu.

Ela finge que terá uma segunda chance. Ele foge da primeira.

Um hábito que já virou sina. Uma calma que já virou cama.

Um amor doente como se fosse certo como se fosse santo como se fosse puro. Como se os demônios cortassem as unhas, como se os anjos comessem as asas.

Ela acredita que deve salvá-lo.

Ele acredita que deve se salvar dela.

Ela Ele Ela Ela Ela.

9:38 AM :: Comentários:

OFICINAS DE CRÔNICA E POESIA



Farei duas novas oficinas de criação no Studio Clio (José do Patrocínio , 698 Cidade Baixa), em Porto Alegre (RS).

Uma de crônica, "A insustentável leveza do texto", às segundas, das 19h30 às 21h30. Serão sete encontros: 20/08, 27/08, 03/09, 10/09, 17/09, 1º/10, 8/10.

No programa, a história comentada da crônica; jornalismo literário ou literatura de jornal; lirismo, simplicidade, leveza e surpresa; o cuidado para não perder o foco; os três "E" do texto: Estranheza, Exemplo, Emoção; diferenças entre crônica e conto; o humor no gênero brasileiro: de Sérgio Porto a Luis Fernando Verissimo.

Outra de poesia, "A vida do poema", aos sábados, das 9h30 às 11h30. Igualmente sete encontros: 18/08, 25/08, 1º/09, 08/09, 29/09, 06/10 e 13/10.

Entre os tópicos do curso: a) identificação ou intimidade,b) Nomear não é explicar, c) Falar de si como se fosse um outro - falar do outro como se fosse pessoal, d) O argumento do poema, e) O contra-senso, f) A história invisível e a surpresa, g) O espaço e a atmosfera, h) A voz do autor e a voz do poema, i) Contenção e densidade, j) Linhas narrativas na poesia, l) Cantar uma história contada, m) A metáfora e a montagem (o poema é um desenho animado), n) A oralidade e o ritmo, o) Persuasão e sedução e p) Diferenças entre a consciência do poema e a consciência do poeta.

Ambas as experiências pretendem conscientizar da importância da brincadeira da linguagem e das inversões do ponto de vista, além de exercitar a observação da realidade e disciplinar o senso crítico.

As inscrições estão abertas. Há vinte vagas para cada uma delas. Quem deseja participar, pode contatar (51) 3254.7200 ou mandar e-mail para clio@studioclio.com.br

9:28 AM :: Comentários: