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Consultório Poético

Blog

Domingo, Setembro 30, 2007

OUTUBRO LITERÁRIO
Foto poltrona-varal



Com alegria aérea de pintassilgo, sou patrono de quatro feiras do livro: Niterói (Canoas), Lajeado, São Sebastião do Caí e Cachoeirinha. Farei o possível - com todas as minhas perucas e óculos - para ninguém enjoar de mim. Programação abaixo:

2/10/07 (terça), 10h, Canoas (RS)
5ª Feira do Livro do Bairro Niterói (bairro com mais de 40 mil habitantes em Canoas)
Abertura - Praça Dona Mocinha - Niterói
Palestra no dia 5/10/07 (sexta), 18h
Contato: nei.mora@terra.com.br

2/10/07 (terça), 19h, São Leopoldo (RS)
22ª Feira do Livro Ramiro Barcellos de São Leopoldo
Mediador do debate: As possibilidades do romance brasileiro, com Cristóvão Tezza e Luiz Ruffato
Contato: jaridarocha@yahoo.fr

3/10/07 (quarta), Lajeado (RS), 19h
Palestra na 2ª Feira do Livro de Lajeado
Contato: jhaubert@sesc-rs.com.br

4/10/07 (quinta), São Sebastião do Caí (RS), 18h
Palestra na X Feira do Livro de São Sebastião do Caí
Contato: lrodrigues@sesc-rs.com.br

5/10/07 (sexta), Arroio dos Ratos (RS), 10h
Palestra na VI Feira do Livro de Arroio dos Ratos
Contato: biblioruibarbosa@ig.com.br

8/10/2007 (segunda), Caxias do Sul (RS), 12h20
Palestra na 23ª edição da Feira do Livro de Caxias do Sul
(que ocorre de 5 a 21 de outubro na Praça Dante Alighieri, Patrono Paulo Ribeiro)
Projeto Fábrica de Escritores
Converso com funcionários de uma fábrica sobre a importância da leitura
Contato: ppel@caxias.rs.gov.br

11/10/07 (quinta), Santos (SP), 19h
Convidado do Café Cultural da FENALBA 2007 - 6ª Feira Nacional do Livro da Baixada Santista
Mendes Convention Center, em Santos
Contato: thais@promofair.com.br

15/10/07 (segunda) - Concórdia (SC), manhã
Palestra sobre "O Amor Esquece de Começar" no Colégio Concórdia, em SC
Contato: rosana@cnecnet.com.br

16/10/07 (terça), Cachoeirinha (RS), 19h
21ª Feira do Livro de Cachoeirinha
Palestra em 17/10 (quarta), às 19h.
Local: Big Cachoerinha (Av Flores da Cunha, 4000)
Contato: smep@cachoeirinha.rs.gov.br

17/10/07 (quarta), Sapucaia do Sul (RS), 9h
Palestra na escola Rubén Dario
Projeto Autor Presente do Instituto Estadual do Livro

18/10/07 (quinta), Porto Alegre (RS), 20h
Palestra na X Jornada de Cardiologia do Hospital São Lucas do PUCRS
Tema: "O coração feminino por quem entende"
Teatro do Prédio 40 da PUCRS

26/10/07 - Catuípe (RS), manhã e tarde
Palestra aos alunos da 5ª e 8 ª séries
Contato: smec@catuipe.rs.gov.br

27/10/07 (sábado) - Porto Alegre (RS)
Oficina e início de série de palestras na 53ª Feira do Livro de Porto Alegre

12:21 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 27, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

QUAL É O NOSSO PROBLEMA?
Arte de Paul Klee e Modigliani
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Caro Fabrício

Somos leitoras assíduas do teu blog, amigas de longo tempo e estamos passando por uma mesma fase (se é que se pode chamar de fase) da nossa vida, em que tentamos encontrar respostas pra tantas perguntas. Sempre nos identificamos muito com suas palavras, suas reflexões e ponderações, por isso, tomamos a liberdade de lhe escrever.

Pensamos que temos crises de carência, mas parece que ela se tornou crônica. As observações aqui relatadas já vêm sendo colhidas há um bom tempo...

Somos jovens (23 anos), formadas e atualmente fazendo mestrado em universidades públicas. Somos atualizadas em assuntos de interesse da maioria das pessoas, temos uma certa independência, gostamos de músicas, barzinhos, acreditamos que temos um bom papo (pelo menos, até o momento, nunca ninguém falou que temos conversas chatas ou desinteressantes), temos opiniões próprias e definidas em diversos assuntos. Não somos modelos, mas achamos que temos nossos atrativos, porém, há uma sensação de que existe um pavor terrível do outro lado (rapazes) e que não querem se envolver. Isso me lembra um suposto texto do Arnaldo Jabor: 'Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário, os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta'.

O que é preciso então? Qual o problema em criar vínculos, laços? Estabelecer um contato que vá além, que se tenha a liberdade de ser você mesma, sem ouvir um 'você é maluca', 'você é muito boazinha' ou coisas do tipo... Existe por acaso, alguma explicação para essa falta? Parece que as pessoas querem passar anestesiadas pelo mundo, com vínculos virtuais e fluidos, como diria Zygmunt Bauman (Amor Líquido – Sobre a fragilidade dos laços humanos, Jorge Zahar Editor).

Será que você percebe esse tipo de comportamento também?

Será que é real aquilo sobre as pessoas aparecerem na vida da gente somente quando estamos prontos pra recebê-las? Se é isto, porque não estamos prontas? O que será que nos falta? Qual o problema com a gente?

Imensamente gratas pelo conforto que tuas palavras proporcionam...

Inês e Roberta”




Queridas Inês e Roberta,

Não sou adepto de que está errado quando nada está errado. Não surgiram relacionamentos estáveis para as duas, ainda. Não devem mudar. O que cansa vocês é a expectativa. Esperar que a cada saída noturna apareça a tão sonhada figura. A esperança é que nem cartão de crédito, cobra juros depois de um mês. A angústia de vocês é um exemplo. Estão sendo vítimas do perfeccionismo, entravadas entre a cobrança própria (o que está errado comigo?) ou do mundo (os rapazes querem anestesiados passar pelo mundo). Ambas são barreiras imaginárias.

O namorado vai aparecer de onde menos aguardam. Numa fila de banco, num parque, num restaurante a quilo, puxando o mais trivial dos assuntos ou tossindo desajeitado pela gripe. Chegará com facilidade, a questão é reconhecê-lo sem a solenidade do encontro ou dar chance para quem não atende o biótipo festejado. Raro é identificar porque nos preocupamos com o lugar, não com a pessoa, nos preocupamos com as circunstâncias, não com o tom. Deixamos as segundas intenções para os barzinhos e baladas - no espaço tarimbado de caça - e apagamos a malícia durante o dia. A sedução funciona quando ninguém a cogita. É (faço uma provocação) mais diurna do que noturna.

Cantar durante o dia tem o dobro de chances de virar amor do que à noite, quando os desejos já estão socialmente engatilhados e embotados pela pressão de não voltar sozinho para casa. Perguntem aos casais com longevidade nos dedos.

Falta-nos gratuidade. Cobramos tudo, o que fazemos e o que deixamos de fazer, o que pensamos e esquecemos de pensar. Tudo depende de uma finalidade. De um preço. De uma compensação. De um significado.

Repararam que a tradicional pergunta feita antes de realizar alguma coisa é “o que eu vou ganhar com isso?”?

Quem diz que não é o momento de empreender atos para perder? Trocar a utilidade pela afirmação contundente: eu estou disposto a perder com isso. Melhora muito a espontaneidade.

Eu assobio pelo movimento da boca. Vinte anos assobiando e ainda não sei entoar uma canção legível. Não assobio para os outros, assobio para me conhecer. Assobio para me chamar.

Assim como me encanta o modo como uma criança toma um picolé. Ela lambe olhando para sua camada de cor. Os adultos mordem direto, como se fosse um hambúrguer.

A carência é traiçoeira. Perde-se a liberdade de sugar os pequenos momentos pensando num modo de se poupar para os grandes. Não existe um grande amor, existe um amor miúdo bem cuidado. As vivências mínimas tornam-se avassaladoras com a memória. Somos retrospectivos por natureza. O amor fica grave com o tempo, é uma viagem violenta e demorada.

Um amor não bate à porta, o amor é a porta.

Vocês estão ansiosas, e a ansiedade não permite enxergar o que se aproxima. Vão correndo atrás de uma explicação. Mas explicação é desistência.

A melhor forma de ser visto é não saindo do lugar. Minha vontade é gritar: - Estátua! Para que permaneçam onde estão.

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

6:25 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 26, 2007

EU SOU... POLÔNIO
Da nova série "Tabela Literária"
Foto e projeto Fabrício Carpinejar

PAULO SCOTT (Porto Alegre, RS, 1966)



Motivo:
"Sempre simpatizei com os metalóides, pois eles têm propriedades dos metais e dos não-metais. Dentre eles, o mais simpático é o PO, nome dado em homenagem à Polônia. Hoje, o PO é considerado metal, ele é altamente radioativo e tóxico, é bastante usado na laminação do papel. Para mim, isso basta. Resumindo: PO é OK."



Ficcionista, roteirista, dramaturgo e poeta

Autor de

Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Porto Alegre: Sulina, 2001, contos, com o pseudônimo de Elrodis)
Ainda orangotangos (Porto Alegre: Livros do Mal, 2003, contos)
Voláteis (Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2005, romance)
- A timidez do monstro (Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2006, poesia)
- Senhor escuridão (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, poesia)

Blog do escritor

Colunista do Terra Magazine

Curiosidade:


Filme inspirado em seus contos, dirigido por Gustavo Spolidoro, foi exibido no Festival de Cinema do Rio de Janeiro.

ELEMENTO ANTERIOR (09/09): IRÍDIO, ANTONIO CICERO
PRÓXIMO ELEMENTO (15/10): ÍNDIO, MILTON HATOUM


7:39 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 25, 2007

AMOR É COISA DE BOTECO
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



O amor encontra sua dignidade na vergonha. Envergonhar-se de um amor é ter orgulho dele.

Choro por um amor. Despedaço-me por um amor. Fragmento-me por um amor. Faço chantagem por um amor. Digo o que não devo por amor. Estrago uma festa por amor.

Amor desesperado é ainda o jeito mais tranqüilo de amar. Não conheço outra paz senão a de guerrear no fundo de um copo.

Não sou homem de tranqüilizantes, de remédios na cômoda, de sono induzido. Meu quarto é o bar, público e derradeiro. Meu travesseiro é uma toalha de mesa plastificada. Amor só sabe gemer falando alto.

O amor é aguardar uma resposta. A fossa é o período de uma resposta a outra. Não há como amar sem prejuízo. Sem acreditar que não deu certo. É inacreditável como apaixonados contam as mais absurdas confidências a estranhos e escondem os detalhes dos mais próximos. Todo garçom já foi nosso padre um dia. Nosso confessor. A gravata-borboleta é nossa batina.

Amor é esse estágio necessário de loucura para suportar a normalidade. Quando amo, não preciso de psiquiatra, preciso de um táxi para voltar.

Amor mesmo é coisa de boteco, com potes de ovinhos de codorna e cachaça nas prateleiras. Amor não tem nojo, repulsa, pudor de sofrer. Sofremos de amor para abrir espaço por dentro e desalojar antigos moradores.

Amor não é próprio de restaurante ou de guardanapo nos joelhos. Não haverá um porteiro saudando com "boa-noite", não haverá recepção ou um senhor para abrir a porta. Aliás, não terá porta, é uma garagem para o corpo balançar à vontade e não quebrar nada.

Não espere cardápio no amor, espere cartazes nas paredes. As lâmpadas estarão com as braguilhas abertas no teto.

Amor mesmo é devasso, cafona, cadeira de metal amarela, dobrável e enferrujada. Deve-se tomar cuidado para não sentar na ponta.

O amor não vem da elegância de um lugar, vem da nobreza da dor.

O amor é o solitário do balcão, a retirar vagaroso o rótulo úmido da garrafa porque não pode despir sua mulher. Fica delirando em braile. Aprende inglês com as moscas. Joga dama com os cascos. Reza dez ave-marias para cada pai-nosso. Descobre que o terço é feminista. A cada vez que pensa em si, pensa dez vezes no corpo dela.

Não se limpa um amor no banheiro. Limpa-se com as mangas da camisa na frente de todos. O amor é a boca assoando.

O amor não pede a conta na mesa, é a conta. Não há amor se você não for o último cliente. O último a sair é que está realmente amando.

Quem ama não guarda o dinheiro na carteira, deixa avulso e amassado no bolso. É sintomático. Estará cantando Amado Batista sem querer. E se espantará que conhece a letra, egressa de alguma estação da infância.

Só pode ser do radinho materno, ao lado do fogão. Sua mãe colocou aquelas canções em sua comida.

2:22 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 22, 2007

AFOGADO EM COPACABANA
Arte de Man Ray

Fabrício Carpinejar



Meu celular morreu afogado em Copacabana na última sexta (21/9), às 11h35. Nem tente me ligar até terça, não há como reanimá-lo.

Por mais que tentasse fazer uma respiração boca-a-boca, ele não mais emitia sinal. Seu display apagou eternamente e qualquer transplante custaria mais do que uma nova vida. Sua agenda, suas fotografias, seus vídeos, mensagens de texto e torpedos migraram para um terreno de maresia, nuvens e neblina– inacessíveis às mãos, talvez agora vizinho das pipas desaparecidas entre os morros.

Estava com a família descansando na praia. Experimentava a discreta harmonia de férias. Uma felicidade de não me fixar em nada a não ser em manter a felicidade pelos próximos minutos. Brincava de cavar com o Vicente e recebia o sol com a disciplina dos grãos do café. Diante de qualquer ameaça à tranqüilidade, respondia com determinação. Reclamei de Ana que - involuntária - derrubou areia na sacola dos livros e documentos.

Admiro sua capacidade de transferir a culpa. Não é gozação, reconheço sua virtuosa naturalidade de me descobrir culpado antes de cometer um crime.

- Ana, toma cuidado com o balde. Pô, vai encher os papés de terra!
- A culpa é sua, que deixou a sacola aberta.
- Ah, o erro foi meu...

Vejo que nunca serei devidamente prevenido. Ela tem uma vidência vingativa. Depois de um banho gelado na orla, fui matar a sede, me distrai e virei a garrafinha dentro da sacola. Quase impossível descrever minha idiotice. Pequenos goles rumaram para as teclas do celular. Deslizaram no teclado luminoso, fingindo limpar a resina do dia. Conclui que fosse uma banalidade contornável com a camisa. Usei os punhos do algodão e o celular apagou para sempre. Ficou inteiramente embaçado. Sem tempo de reação. Deu uma tragada funda e engasgou na fumaça.

O que era uma manhã intocável transformou-se num tormento. Em trânsito, não teria como receber ou efetuar ligações, dependia do celular para cobrir o trabalho a distância e confirmar palestras em aberto. Não existia forma de trocar de aparelho em outro estado, inútil correr ao conserto para o atendente fuçar e limpar a caixa interna e logo completar: - Desculpa, fiz o possível.

Custosa uma viagem para o Rio de Janeiro, organizar frestas no calendário, conter a ansiedade do filho, que preparou uma contagem regressiva há mais de um mês. Toda a alegria arrruinava-se em um gesto desequilibrado. Franzinho e atolado em preocupação, teimava em mexer naquele bicho escuro desfalecido, não mais encantado com a luz soluçando, as ondas escorregando pelos ouvidos e a sucessão de campos de futebol pela extensão albina. Ansiava voltar para casa, como um menino contrariado.

Por uma aparelhinho, perdi meu entusiasmo. Que euforia é essa? O quanto ainda sou inapto para aceitar que não preciso ser chamado para atender, procurado para me encontrar. Não admito nenhum desvio do que planejei.

Inconsolável, prossegui cavando o túnel para minha criança. Na areia, encontrei uma vela branca de Umbanda.

Acendi e rezei para que fosse salvo de mim.

8:16 PM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 18, 2007

FAMÍLIA NÃO É UMA EMPRESA OU COMO CATAR COQUINHOS
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Estava na mesa-redonda da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Ouvi atentamente a palestra de Içami Tiba, colega de painel, que falou de modo elétrico, seguro e convincente.

É um orador no estilo de grande auditório, conciliando humor com exemplos.

Mas, em algum momento, ele disse: “A família é como uma empresa”.

E aquilo me incomodou profundamente. Aquilo me arrancou a audição.

“É na família que forjamos vencedores. Se os filhos não obedecem, não fazem nada, tem preguiça para qualquer coisa, não ficariam numa empresa, é o mesmo processo.”

Caso meu avô Leônida escutasse isso, soltaria um de seus xingamentos prediletos: "Vai catar coquinho e deixar de ser besta".

A família não é uma empresa. Nem deve ser. Não vou demitir ninguém em casa. O pai ou a mãe não é o que queremos deles, mas o que eles podem oferecer.

Estou de saco cheio de ouvir que uma família deve trazer rentabilidade, organização e competência. A cobrança não fixa um lar.

Na minha residência, cada um tinha uma tarefa. Mas não era uma empresa, ou uma cooperativa. Não fui promovido. Não esperava cargos de confiança. Os irmãos me continuavam.

Quando fui demitido uma vez do serviço, expliquei para minha filha de 4 anos o que havia acontecido.

“O trabalho não me quis mais.”

Ela respondeu bem calma:

“São bobos, fique calmo, será meu pai sempre.”

Eu dependo de um lugar para falir na minha vida. Deixe-me ao menos a família.

Eu posso perder tudo, menos a família. A família é meu despertencimento, a adoração dos telhados, o avental no gancho da cozinha. Nem Deus, nem seus capatazes tiram aquilo que foi desejo. Podem subtrair minha memória, mas guardarei o desejo fora de mim. Em minha mulher.

A família é o único lugar que continuaremos vivendo sem a expectativa de acertar. Mente-se diante da agenda, não de um prato de comida. Precisamos de um espaço para falir, para errar e se debruçar em nossas fraquezas. Já tenho que ser funcional no emprego, no lazer, nas relações com os outros. E agora a sugestão é que trabalhemos também na família. Isso é exploração infantil, isso é jornada dupla, isso é transformar elos naturais em conexões automáticas.

A família depende de uma única coisa: a intimidade. E intimidade não é emprestada, intimidade é não pedir de volta.

A família é o único lugar que me permite ser verdadeiro. É o único reduto de autenticidade. Não vamos colocar a competição dentro dela. Ou encher os nossos filhos de horários e de obrigações para que não pensem bobagens. Eles carecem das bobagens para escolher seus caminhos. Ser ocupado não nos torna importantes; não nos torna responsáveis. Envelhecer é se desocupar para a amizade.

Quando pequeno, não fiz natação, não fiz inglês, não fiz informática, não fiz o raio-que-parta. Eu tinha o tempo livre depois da escola e jogava futebol com os colegas, roubava frutas e brincava na casa dos vizinhos. Voltava para a casa quando a mãe gritava: “tá na mesa!”. A infância é própria para a vadiagem. Quando iremos vadiar de novo?

Se a família é uma empresa, um dia os filhos vão pedir demissão, um dia o pai e a mãe vão se aposentar, um dia os tios vão pedir concordata, um dia o genro vai desviar recursos.

Na família, os laços são eternos e não provisórios como uma empresa. Família não é trabalho, família é experiência. E nunca haverá perdedores na família, mas irmãos e filhos e pais. Eles são a família, não um referencial de realização.

Essa exigência de sucesso na família implica em não aceitar os perdedores. O que são os perdedores senão os mais sensíveis à pressão? Por isso, famílias se assustam com os problemas e escondem filhos alcoólatras, drogados e doentes em clínicas. Sofrem com a cobrança pública. Temem a exposição de seus defeitos.

Família é ter defeitos, é ter fantasmas, é ter traumas. Frustração é não contar com uma família para se frustrar.

Família é compreensão, não um acordo.

Não temos que alimentar vergonhas de nossas vergonhas. Família é onde tiramos os sapatos e deitamos os casacos. Não promoverei reunião-almoço na minha sala. Não afastarei um parente pela malversação. Não solicitarei a restituição das mesadas. Não exigirei que minha filha escolha Medicina ou Direito pela estabilidade. Não condiciono minha paixão a resultados.

Um patrão nunca será um pai. Não procuro disciplinar meus filhos, o amor é a mais suave disciplina. E o abraço é a minha desordem.

3:05 PM :: Comentários:


Sábado, Setembro 15, 2007

COLUNISTA DA REVISTA CRESCER



Faço a minha estréia como colunista da revista Crescer. Meu cantinho foi batizado de Primeiras intenções, com crônicas sobre a relação pai e filho. Abaixo, o meu primeiro texto. A revista já está nas bancas, toda reformulada, colorida e gostosa de ler.

A INFÂNCIA TERMINA, A BRINCADEIRA NÃO

Fabrício Carpinejar

Meu sonho era ter rugas, papada, cabelos brancos e uma sabedoria de fogão à lenha: contar minha vida como se ela nunca fosse terminar. Invejava o privilégio dos pais, que ficavam conversando até tarde. Eu tinha que dormir rigorosamente às 21h. Saía na melhor parte das histórias. Debaixo das cobertas, tentava discernir o assunto, mas me perdia no cansaço. Cada gargalhada que surgia da sala me acordava e produzia em mim a sensação de não ter sido convidado para festa. Ansiava fazer parte da insônia misteriosa da gente grande. Quem não se sentiu assim?

A inveja é uma maneira de dizer que admirava. Minha ambição era crescer logo, tanto que na parede da cozinha o pai arrumou uma régua gigante para medir a altura dos filhos. Marcava com lápis verde-musgo os avanços da noite, dos meses, dos anos.

Lembro da primeira vez que andei de bicicleta, da minha primeira gravata, da minha primeira gilete para tirar o bigode, em que o pai emprestou seu pincel e criou espuma e ardeu um novo mundo em minha pele, lembro quando minha mãe me convidou a dirigir o carro, quando sentei na cabeceira da mesa do restaurante. Pequenos reconhecimentos que me estimulavam a ir adiante com convicção.

Hoje as crianças não querem crescer e os pais decidiram ser adolescentes de novo.

Não há mais adultos no mundo. Ninguém mais pede para ser adulto. O tempo parou afetivamente e raros são os corajosos que desejam envelhecer.

Nem dependo do sexto sentido para descobrir a resposta. Os adultos só falam mal de sua maturidade. Vivem reclamando, reclamam vivendo.

Os filhos recebem de nós uma visão triste e doentia da responsabilidade. Ser adulto virou sinônimo de trabalhar dois turnos, sem direito a trégua, incomodação, enxaqueca, ausência de dinheiro, separação. Não vejo nenhum amigo argumentando ao seu filho que amadurecer é ser amigo da alegria. Ou no mínimo seu vizinho.

Não duvido que as crianças logo desabafem: ”quando crescer, serei tudo, menos adulto”.

A rejeição foi criada pelos próprios pais, que teimam em voltar para a infância quando deveriam abandoná-la. Pelo medo da independência dos filhos, retardam os rituais de passagem.

Não é o que eu faço que me torna importante, é o modo como faço. A profissão é de menos, procuro mostrar onde trabalho para meus filhos, explico o que estou cumprindo, lembro de causos e trapalhadas.

Nada de um minutinho e depois eu ligo. Nada de isolar o assunto e sentir vergonha porque se recebe pouco ou não se é conhecido. Fale no momento da pergunta. Partilhe as dúvidas que são melhores do que as certezas incomunicáveis.

Quando brinco com meu filho, eu sei que ele é a criança. Quando meu filho brinca comigo, ele tem a noção de que sou o adulto. Um dia ele vai ser o adulto e eu, o velhinho. Um dia ele vai ser pai e eu, o avô.

Ao prepará-lo para aula, inventei de comentar que a infância é um casaco com forro peludo. Ele replicou que ser adulto é apenas virar o casaco para usá-lo.

- O casaco continua igual, só mudou o lado, completou

Foi bom ter crescido.

10:34 PM :: Comentários:

ARTIGO

FUTEBOL É AMOR

Fabrício Carpinejar



Não compreendo quando o futebol torna-se vestimenta da truculência. Ao invés de estender o pano e alcançar com a bandeira a graça sinuosa das pipas, arranca-se a flâmula para empregar a madeira como arma. A bandeira nasceu para o céu, mas é rebaixada progressivamente ao chão.

Não compreendo que a rivalidade entre gremistas e colorados tenha atravessado a fronteira da provocação para o fanatismo terrorista.

Não há diferença nenhuma em quem coloca uma bomba no corpo ou quem emprega o corpo para explodir os outros. Futebol não é uma causa religiosa, não é uma causa nacionalista, não é uma causa separatista. Futebol é um esporte. Haverá trabalho no dia seguinte.

Não compreendo que assassinatos possam ocorrer entre torcidas organizadas pelo simples motivo da vítima ser colorada ou gremista. E que espancamentos tenham como pretexto fora do campo o fato de alguém estar usando vermelho ou azul, branco e preto. Não entendo essa normalidade de não contar mais com a possibilidade de torcer no campo adversário.

Eu levo meu filho de cinco anos para o estádio e desejo que ele ame seu time mais do que odeie qualquer rival. Não ensinarei meu filho a odiar.

É muita covardia usar a paixão de uma torcida para cometer atrocidades. É muita covardia mobilizar a força retrógrada do bando quando um torcedor está sozinho e desarmado.

Isso não é futebol, é crime. Não importa que seja no estádio ou na rua, é crime.

Não é mais questão de paz, é questão de justiça.

Sou colorado, faço piadas, toco flauta, mas nunca parti para a briga porque respeito os gremistas. Eles são como eu. Iguais em sua fé e esperança de que um título venha para recompensar a fidelidade. Iguais, nem melhores, nem piores. Sofrem como eu. Amam como eu. Brincam como eu.

Sem os gremistas do outro lado, nunca absorveria as derrotas. Os gremistas transformam a dor da derrota colorada em humor. Na segunda-feira e quinta-feira no emprego, gremistas estarão me esperando para rir daquilo que considerava sério, trágico e fatal, e logo percebo que foi mais um jogo de futebol, não o último, e sigo minha vida mais leve.

A gozação dos gremistas, assim como a dos colorados, é terapêutica, porque nos possibilita diminuir a gravidade das derrotas e aumentar o entusiasmo das vitórias. Cada um tem suas razões, e ninguém tem a palavra final.

È um despropósito um colorado tenta converter um gremista e vice-versa.

Ambos os times cresceram para alcançar o outro. Os três títulos nacionais do Inter na década de 70 resultaram nos títulos nacionais e no Mundial do Grêmio nos anos 80. O Mundial do Grêmio na década de 80 desencadeou o Mundial do Inter em 2006. São raras as cidades com dois times campeões do mundo. A concorrência estimulou a criatividade e a superação dos limites regionais.

Não é caso de pregar tolerância. Tolerância é para quem não tem respeito. Respeito se ensina em casa.

Sou de uma família padrão em que só a mãe não tem time, para não denunciar sua preferência aos filhos. Mãe é igual a comentarista esportivo, não diz seu time de coração para não entregar de bandeja seu filho predileto (mas desconfio que ela é gremista). O pai e dois irmãos torcem pelo Grêmio e eu e a minha irmã pelo Inter. É uma residência que sai gritando pela chaminé. Explique-me: como posso odiar meus irmãos? Ou alguém acha que não sofri com os “secadores” na própria sala? Ou alguém acha que não tive que segurar a raiva quando escutava o trio narrando o gol adversário? Faz favor, eu convivi com meus medos e frustrações, meus recalques e dissabores, até reconhecer que a cidade não era dividida entre os gremistas e os colorados, a cidade é multiplicada.

Reconheço no futebol meu melhor amigo. Queria ser jogador, é claro, quando menino. Queria ser Paulo Roberto Falcão. Nunca pedi um autógrafo a ele por não saber o que falar - ainda não decorei o discurso. Seu jeito de jogar sem olhar para as chuteiras não me condicionou a jogar bem, mas agora danço melhor. Ao menos, não olho para meus pés. Era um menino retraído, feio e que falava errado. A bola foi minha companhia na infância. Seu cheiro de terra e asfalto é camada sempiterna em minhas mãos. Curtida, o gomo descolando pelo uso tal língua de cão, o estômago da câmara pulando pra fora. Ela diminuiu minha solidão, ajudou a fazer turma, favoreceu o surgimento de namoradas.

Futebol é amor.

Precisamos de mais colorados e gremistas sadios, menos colorados e gremistas doentes. Que o futebol seja a cura das moléstias, não morte cerebral. E que inicie no Gre-Nal deste domingo, às 18h10.

Publicado no jornal ZERO HORA
Página 11, Opinião, Porto Alegre (RS), 16/09/2007


10:22 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 13, 2007

EU JÁ FUI FLORZINHA
Arte de Andy Warhol

Fabrício Carpinejar



Não tenho nenhum embaraço com o sexo. Mijo sem problema em banheiro público, não fico controlando os outros, não me envergonho de usar colares e exibir unhas pintadas, ponho perucas para imitar figuras, tenho grandes amigos que são gays e não me importo de ser indicado como um deles. Não desminto boatos, o preconceito surge da defesa mais do que do ataque.

Minha sexualidade não está à venda. Não vou me sujeitar a um discurso para ser aceito ou compreendido. Homem que é homem não funciona comigo. Homem que é homem não precisa fazer voz grossa, não se mostra ameaçado. Eu me facilito para a vida, me complico para a falta dela.

Por um motivo de franqueza, para finalmente fazer com que a minha vida seja um livro aberto, tenho que confessar que já fui florzinha.

Uma margarida, para ser mais exato.

Perdi qualquer medo do ridículo em uma única dose. Num único dia. Sou o voluntário perfeito para realizar qualquer protesto pelado.

Na escola, antes da abertura democrática, ainda no regime de João Figueiredo, as escolas desfilaram em peso no dia 7 de setembro. Eu ia para escola jogar futebol na Educação Física e no recreio. O professor inventou de suspender os jogos para aprendermos a marchar. Com minhas botas ortopédicas, tive que decorar os nomes das ruas de meu bairro em caminhadas e caminhadas repetindo o ritmo "um, dois, um, dois". A contagem nunca aumentava. Eu me tornei binário sem perceber. É incompreensível exercitar durante meses três combinações monótonas de passos. Mas a mobilização histérica da escola não permitia discordâncias.

De puto da vida para a vida puta foi um passo. A diretora decidiu transformar a primeira série num jardim. Num imenso e colorido canteiro. Ela pediu a palavra no início de uma das aulas: "Meninos e meninas, mostraremos a cidade que somos o jardim mais perfumado". Todo mundo aplaudiu, inclusive eu. que fosse uma metáfora. Que nada.

Na hora do desfile, na concentração, no portão da escola, recebi uma fantasia de margarida. Marcha militar disfarçado de flor?

Meus colegas igualmente ganharam adereços e babados. A cabeça era para ser o pólen das pétalas. A cabeça amarela enfiada na cartolina (meu pijama de estrelas e de lua era mais sociável).

Vi guri de rosa, vi guri de camélia, vi guri onze horas. Mergulhei em apoteótica rinite alérgica. Arrisquei fugir do alinhamento, logo a professora de Educação Moral e Cívica me repreendeu. “Não é momento de ir ao banheiro." Voltei engasgado, o terror subindo do meu estômago.

A escola me obrigou a marchar de margarida pelas ruas em que roubava frutas, assobiava e jogava bolinha de gude. Eu me enxergava como a boneca da minha irmã. Travestido.

Olhava unicamente para frente ou para baixo. E esperava que aquilo terminasse o mais rápido possível, mesmo com aviso que o passeio duraria uma hora a pé.

Pegajosa a determinação do professor, mesclando apito e gritos de afogado. "Acenem ao público!"

Além de margarida, restava-me ser uma margarida acenando. Fingi que era surdo. Ele se aproximou: "Fabrício, não está contente? Seja orgulhoso e mostre que é homem".

Homem? Acenei, acenei, acenei, me despedindo da minha reputação.

Imaginava meu pai: "Fabrício, você é uma florzinha tão linda". Imaginava a perigosa gangue da rua Larvas: "Não toca nele, que ele desabrocha". Imaginava a Priscila, a menina mais bonita, puxando meus cabelos: "Bem-me-quer, mal-me-quer".

O que ninguém esperava é que na metade do caminho começou a chover. Pancadas surdas de água. As fantasias de papelão murcharam, a turma se dispersou procurando abrigo nas marquises, os pais vieram socorrer os indecisos.

E eu continuei marchando e acenando, até o centro. Não sou homem de voltar atrás, de recuar semente.



3:09 PM :: Comentários:


CONSULTÓRIO POÉTICO

EU ESTOU CANSADA DE SER O HOMEM DA RELAÇÃO!
Arte de Man Ray
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Olá, Fabrício

Sou leitora assídua da sua coluna e sempre quis escrever pra você, e hoje finalmente decidi fazê-lo.

A minha inquietação é a seguinte: tenho 22 anos e meu namorado é bem mais velho do que eu, ele tem 40 anos, e nós trabalhamos juntos... Nosso relacionamento já foi motivo de fofoca, pois falavam que ele me usava para obter informações (trabalhamos em um órgão público). A primeira vez que ficamos juntos foi um tanto desgastante, pois só eu queria e ele mal falava comigo pelo telefone (outro defeito dele, o telefone - quando não está desligado - ele não atende, ele detesta o bendito celular); enfim isso durou 3 meses, quando o chamei para conversar ele me disse que não queria ou não estava preparado para um relacionamento e aí então decidi terminar tudo ali mesmo.

Passaram-se uns 3 meses desde que rompemos e nesse meio tempo sempre conversávamos muito; em uma dessas conversas decidimos nos encontrar fora do trabalho e então ficamos juntos mais uma vez. Começou tudo de novo, ou seja, ele não me ligava, só eu que o procurava...Tivemos outra conversa, pois não queria ficar pisando em ovos como da outra vez, então decidi ir devagar, e continuamos juntos, só que estava no ar a questão de ele não querer um relacionamento sério, e que me angustiava bastante. Hoje estamos namorando, apesar de ele nunca ter me pedido em namoro, só que estou cansada de fazer o papel de homem na relação. Sei que ele gosta de mim, apesar de não falar muito nisso, pois seus gestos me dizem o que ele não diz. Gosto dele e quero ficar com ele, mas o que fazer para que a nossa relação dure???

Espero uma luz...

Abraços,
Rose”


Oi, Rose

Está cansada de assumir o controle e definir a direção da história.

Exige mais disposição, talento para encontrar o momento certo de acelerar e frear. Não faz o papel tutelar e acomodado de mãe, mas exerce uma liderança indiscutível e atenta no namoro, de não deixar o cotidiano esmorecer. Sempre rompe ou discute quando necessário, fala quando está incomodada.

Mas será que teria condições de agir diferente? Não diria que é o homem de casa. Em todo casal, há o grande e o pequeno (leia “O doido da garrafa”, de Adriana Falcão). Um não é menor do que o outro, ambos se completam. Se ele fosse igual ao seu temperamento, não suportaria.

Talvez queira mesmo sentar no banco de motorista. Seu olhar é voltado a para estrada enquanto o dele, para dentro do carro. Está preocupada com o futuro, com o destino, em chegar a alguma lugar, em durar, enquanto o comportamento dele é o do passageiro, interessado na música que está tocando na rádio ou na conversa durante o percurso. Quando comenta que sabe que ele gosta de você, já tem o essencial.

Ao exigir dele uma outra atitude, continuará mandando. Não há saída.

O que a incomoda são as desconfianças acrescidas ao severo silêncio: as fofocas no trabalho, a dificuldade dele com o celular e dar notícias, a resistência por um amor mais sério. A dúvida não pode virar suspeita. Por não comunicar, não significa que ele não está participando. Não confio naquela máxima "quem cala, consente". Quem cala de repente não encontrou um outro modo de sentir.

Recordo de uma frase sábia de Fernando Sabino: "não se pode exigir das pessoas aquilo que elas não podem dar". Costumamos regrar a convivência por aquilo que somos e queremos, e esquecemos de que não casamos conosco.

Vou além: não se pode exigir das pessoas aquilo que elas não sabem que têm.

Ou seja, conversar com as paredes nos torna paredes. Podemos pressionar, podemos persuadir, podemos até cobrar, mas nunca substituir o parceiro ou anular a diferença. Ele não deve repeti-la, e sim entendê-la.

Ao mesmo tempo, a instabilidade a excita, pois procura extrair o melhor de si para encontrar a paz. Sua paz é permanecer em guerra, desafiando as formalidades.

Não tenha culpa por dominar, esqueça os antigos papéis e as expectativas sociais. Caso ele queira ser a ovelha e você o lobo, não procure só a carne, aproveite a lã. Aquecerá seu esforço.

Beijos,
Fabrício

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

12:02 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 12, 2007

ABRINDO A TORNEIRA COM OS PÉS
Arte de Man Ray

Fabrício Carpinejar



Eu poderia me fiar toda a minha vida numa imagem.

Faço fiado com os olhos.

Sempre estou devendo para alguém um olhar que não devolvi.

Ou não paguei. Ou, entretido com ele, levei sem avisar.

Depois de um tenso inverno, tive a trégua do sol. Reencontrei meu corpo com bermudas e camisetas.

Reencontrei o que sobrou do meu corpo depois do vento.

Na casa dos amigos Diana e Mário, vi sua filha de 14 anos, Júlia, abrindo a torneira com os pés. Divinamente com os dedos dos pés. Sem encarar o resultado. Como se fosse uma aula de balé. Não procurava a água por um espelho, procurava a água pela distorção.

A unha, sua sapatilha. A unha colorida a dobrar as dificuldades.

Aquilo me bastou para o final de semana. A firmeza de usar os dedos dos pés com a flexão das mãos. O giro certo para a água correr desesperada, tossindo de tanta ânsia por sair. O jorro do veio liberto, ainda confuso para onde ir. Faria uma jarra com aquela água. Brincaria de argila e moldaria bonecos que receberiam nomes esquisitos. Penso que a nudez demora de propósito a completar a curva.

A menina nem teve noção do que gerou em mim. As mãos estão dentro do rosto. Estão dentro dos lábios. Estão dentro dos dentes. Estão dentro dos pés.

A menina nem percebeu meus ouvidos derrubando os copos de vidro da infância.

Eu ia concluindo que não permiti escolaridade a meus pés. Não deixei freqüentarem cadernos e estudo. Cometi trabalho escravo, exploração infantil com eles.

Logo os pés, que não descansam nos bolsos. Logo os pés, que exigem que todo o corpo participe do gesto - diferente das mãos, egoístas e solitárias.

Logo os pés. Eles abrem e encerram o meu dia. Só chego em casa quando tiro os sapatos. Só acordo quando coloco os sapatos.

Logo os pés que carregam as dores das costas, logo os pés que me obrigam a me ajoelhar para amarrar os cadarços e rezar na rua sem nenhum Deus esperando.

Os pés, tão pouco sei deles, a não ser no momento em que doem.

Eu não dependo das mãos para ficar preso.

A vez em que colhi uvas das parreiras com a boca.

A vez em que desci a temida ladeira da Lucas de Oliveira de bicicleta e soltei o volante.

A vez em que uma mulher me abraçou com seus seios, comprimindo levemente o peito contra o meu.

A vez em que fiz massagem com a barba.

A vez em que desabafei com meus filhos enquanto dormiam e eles entenderam sem escutar.

Eu não dependo das mãos para me soltar.

12:42 AM :: Comentários:

Da série "PERGUNTA DO FILHO SEM RESPOSTA"
Desenho do Vicente, 5, responsável pelo diálogo



- Amanhã nunca mais vai existir o dia 12 de setembro de 2007?
- Não, meu filho. Ele não se repete.
- E como posso sair dele para não desaparecer junto?

12:40 AM :: Comentários:

SÃO PAULO - DIA 19/9 - COM MARCIA TIBURI:
(palestra e sessão de autógrafos em mais uma edição do divertido Sempre Um Papo)




12:28 AM :: Comentários:

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO AO SOM DA POESIA DE BOB DYLAN


O bagual Frank Jorge à procura de novas experiências

Em busca do tempo perdido celebra Bob Dylan e a Beat Generation: 50 anos de lançamento de "On the Road", de Jack Kerouac

Apresentado pelo poeta Fabrício Carpinejar e o músico Frank Jorge, talk-show apresenta os mais singulares e esquisitos textos da "beat generation" e principalmente, as canções de Bob Dylan, um ícone da contracultura e da música pop, contando ainda com a participação especial de Jimi Joe, um autêntico "filho de Zimmermann", com sua harmônica e o violão.

O túnel do tempo está localizado no Café de Bordo da Paralelo 30 Agência de Viagens (Av João Correa, 997, Telefone 35913320, www.paralelo30turismo.com.br), em São Leopoldo. A abertura para a terceira dimensão está marcada para quinta (13/9), às 20h30. Couvert R$ 5,00.

Dylan rende uma fortuna extensa não só de elogios, mas de referências sólidas, nem sempre lúcidas, mas no mínimo fascinantes: saiu cedo de casa para tentar a sorte como cantor; botou literalmente o pé na estrada numa América conservadora; afinou e desafinou o seu discurso ao lado dos que batalhavam pelos direitos civis; desbundou totalmente e eletrificou a folk-music deixando a todos de cabelo em pé no Festival de New Port - reduto folk clássico; dividiu microfones em bares boêmios e enfumaçados com negros e brancos; colocou poesia na música pop soando natural, espontâneo; influênciou The Beatles, The Rolling Stones e meio mundo da música; enfim...contraditório e inconstante mas sempre Bob Dylan.

De quebra, leituras de trechos de "On the Road", emblemática bíblia da geração beat, obra de Jack Kerouac, que comemora 50 anos de lançamento neste ano, e também trechos de outros escritores referenciais do período como Allen Ginsberg, Charles Bukowsky e Willian Burroughs. Transgressão, lirismo e loucura em doses cavalares.

Venha ouvir "Mr Tambourine Men", "Blowin the Wind", "Like a Rolling Stone" e lembrar do tempo em que existia "esquerda" e "direita". Tóin.

Em cada sessão, a dupla apresenta os melhores (e piores) textos de uma época. Em clima descontraído, trata-se de um revival para saciar os nostálgicos e informar os curiosos, dissecando os costumes e as manias a partir da cena literária e musical. Haverá interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas.

12:03 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 11, 2007

MÁQUINA ZERO



Mudei radicalmente meu visual. Estou com 50% de desconto.

A imagem é de agora. Cansei das luzes, sou mais leal à ausência. Terei que exercitar as sobrancelhas.

Novos apelidos virão.

ACOMPANHE A TRANSFORMAÇÃO









1:53 PM :: Comentários:


Domingo, Setembro 09, 2007

EU SOU... IRÍDIO
Da nova série "Tabela Literária"
Foto e projeto Fabrício Carpinejar

ANTONIO CICERO (Rio de Janeiro, RJ, 1945)



Motivo:
"Gosto do irídio porque, quando dissolvido em ácido clorídrico, tem as cores do arco-iris: daí o seu nome, de íris. E gosto da abreviatura do irídio: ir, simplesmente."



Poeta, letrista e ensaísta
Autor de

O mundo desde o fim (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, ensaio)
Guardar (Rio de Janeiro: Record, 1996, poesia) - Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira 1997
A cidade e os livros (Rio de Janeiro, Record, 2002, poesia)
- Finalidades sem fim (São Paulo: Companhia das Letras, 2005, ensaio)

Blog do escritor



ELEMENTO ANTERIOR (24/8): COBRE, LUIZ RUFFATO
PRÓXIMO ELEMENTO (25/9): POLÔNIO, PAULO SCOTT

8:46 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 07, 2007

SOU REAL
Arte de Man Ray

Fabrício Carpinejar



Em algum momento do meu dia, serei mendigo. Por uma fração de tempo, serei um indigente e esquecerei de me arrumar, esquecerei de me produzir, esquecerei de me preocupar em ser visto. Por exemplo, ao apanhar o jornal. Desço as escadas do prédio, rezando para que nenhum vizinho abra a porta. Exceto um homem imaginário não é mendigo numa parte de sua rotina. Exceto um homem imaginário não aparece despojado num relance.

Ainda em trajes indefinidos, meio cama, meio mesa, olho para a janela do edifício da frente e percebo uma senhora, bem senhora, de cabelos cinza e um olhar duro observando o que acontece pela manhã. Quando a descubro, ela recua e entra. É fatal: recua e entra ao coincidirmos os olhos. Tenho a impressão de que ela ficaria o dia inteiro naquela posição se ninguém a descobrisse. Ela se envergonha de estar reparando na vida alheia, mas não deixa de olhar. Ela quer olhar (por prazer) e fingir que não olha (para mim). Alimentamos essa relação platônica por cinco anos. Eu chego, ela sai. Eu saio, ela volta.

Cláudia Moon comentou no meu texto anterior que os homens se apaixonam por personagens, não mulheres reais. Ela está coberta de razão. No início do relacionamento, somos como eu e a velha. Fugimos de nos ver, pois um denuncia a pobreza do outro.

Tentamos segurar o idealismo nos primeiros meses do namoro. Recalcamos a enxaqueca, a irritação, as contas, nossos pânicos. A alma de mendigo e os segredos permanecem em cidade próxima até conseguirmos intimidade e coragem para contar e mostrar quem realmente somos. Apaixonar-se é ganhar tempo. Temos vergonha do que somos, porque guardamos a impressão de que não somos apaixonáveis. Apresentamos um terceiro em nosso lugar, para que esse personagem enfim nos apresente quando chegar a hora de morar junto. Todo princípio de namoro, um não conhece o outro, mas versões aproximadas e adaptadas. Há relações que terminam antes do personagem sair de cena.

Trancamos a realidade no armário e o quarto parece limpo e organizado. Os apaixonados vivem com as portas trancadas do armário, já reparou Cláudia?

Não há como despistar por toda a vida. Tantas vezes namorei e não podia ter dor de barriga. É ridículo. Mas o estômago do apaixonado não pode funcionar. É um crime ele continuar na ativa, mesmo jantando desesperadamente. Eu sentado na privada, ela toda sensual na cama lendo e me esperando. Eu tentando não fazer nenhum barulho. Um pânico. Tentando não deixar nenhum cheiro. Um pânico. Tentando que a descarga funcione direitinho. Um pânico. Eu tinha que ser um homem imaginário, mas era real. Meu estômago é real. O que ela iria pensar se descobrisse que seu homem ideal é como todos os demais?

O que é real é mais fácil de voltar. Na minha horta, é real que tenha um espaço para colocar a erva-mate do dia anterior. É real que eu tire os ossos dos peixes para a minha mulher e os ossos das palavras para meus filhos. É real que cometa desenganos, que seja rude sem querer. Assim como é real pedir desculpas envergonhado. É real cobrar quando não tenho razão. É real que sou chato quando sinto fome. É real que lave os pratos depois do almoço. É real que faça fofocas e intrigas. É real que não sou poeta em tempo integral. Que me preocupe se haverá sol amanhã para ligar a máquina de lavar. É real que tenho meus hábitos e minhas frases prediletas. A minha é “não acredito que estou em casa”, a da minha esposa é “Gostosa”, a do meu filho “é final de semana”, a da minha filha é “fiz uma música”.

Sou real. É minha decepção e minha glória. Ser entendido é bem melhor do que imaginar.

Cansei de ser um homem imaginário. Pode ser a crise dos trinta anos ou uma crise eterna. Eu diria que sou mendigo grande parte do dia; em alguns momentos, momentos inspirados, sou rei. É mais honesto para amar.

11:28 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 06, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

FALAR OU PROVAR O VENENO DA INCOMPREENSÃO
Arte de Man Ray
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Fabrício!

Hesito desde o instante em que "recortei e colei" o teu endereço de e-mail.Tive dúvidas ao escolher que endereço eletrônico usar. Senti receio. E, confesso, julguei a vontade de te escrever agora um tanto ridícula. Sei lá."O que ele pode me dizer que os meus amigos todos já não tenham dito?", pensei. E tuas linhas me responderam. Tua poesia. A poesia comunica um outro tipo de sensibilidade. Dirá a canção que "os poetas como os cegos podem ver na escuridão.", nisto me fio, confio. E aposto!

Vou te contar minha história!

Convivi com "Pedro" durante uns três anos ou pouco mais que isto, cotidianamente, sem saber o seu nome. Cumprimentava-o. Estabelecíamos longas conversas de corredor. Tínhamos amigos em comum, mas não éramos próximos. E, embora eu o achasse simpático, nunca consegui gravar seu nome. Nossos compromissos e rotinas mudaram e passei a encontrá-lo raramente. Encontrei-o algumas vezes, por acaso, nas ruas, n'algum evento cultural ou no campus universitário. Constrangida, disfarçava para que não se desse conta de que eu não sabia o nome dele. Numa dessas ocasiões, ele propôs trocarmos os números de telefones. Que nome registrar na agenda?!? Não quis perguntar.

Não nos víamos há um bom tempo, quando por conta do "orkut", eu "descobri" o seu nome (e me dei conta de que ele estava entre os contatos do MSN e em todas as minhas listas de e-mail. (rs). Por conta de um interesse comum, entrei em contato "on line" para avisá-lo de um evento que aconteceria no mês seguinte. Desde então passamos a nos comunicar freqüentemente pela internet. Eu, no entanto, não tinha interesse nele. Estava envolvida em outras histórias. ademais, eu sempre pensara nele como um rapaz sério que tinha um namoro fixo já longo (que eu não sabia, havia acabado). Ele também não demonstrava estar flertando.

Ao aproximar-se o evento, marcamos de nos encontrar para comprar ingressos e conversar um pouco sem o intermédio da tela de um computador. O primeiro encontro foi marcado e seguiram inúmeras coincidências. Foi, então, que comecei a me sentir envolvida e atraída por ele e percebia (de modo claro) que era recíproco. No entanto, não obstante as "deixas" e sugestões mútuas (pessoalmente, na internet ou por telefone), ninguém explicitou intenção alguma. O nosso primeiro beijo aconteceu em um dos inúmeros encontros acidentais e foi um beijo intenso, longo e absolutamente nos desligamos da situação: estávamos de pé, em um ponto de ônibus, numa avenida movimentada, mas paralisamos o tempo, ali.

Nosso começo trazia uma intensidade e um desejo que eu não havia experimentado. Ele era intenso, delicado, envolvia-me com sua sensibilidade escancarada e inteligência. Vivemos dias muito bons. Sei que era bom para ele também. Não era apenas pele. Não era apenas "tesão". Apesar da intensidade do contato físico, havia muito sentimento explicitado (ou flagrado) nos gestos.

Quando nos afastamos, após um mês e sem explicações nem conversa de "the end", fiquei tentando me convencer de que ele seria o maior mentiroso do mundo por criar situações românticas. Se o objetivo dele (após o fim, era assim que me parecia) era um caso passageiro porque trazer tantas palavras, tantos gestos, belíssimos para aqueles instantes?

Amigos que nos viam juntos diziam perceber uma "sintonia" muito grande. Sabe aquela definição (externa) de "casal bonito"? Parecíamos formar um. Perplexos, os meus amigos não sabiam me conformar. Ainda não sabem. Todos e todas têm se empenhado em me fazer sair com outras pessoas. E, assim, tenho procedido. Não fico só. Não dispenso convites pra sair. Mas não me faz bem. Não me sinto bem (nem do ponto de vista do desejo) com os outros. As coisas têm acontecido. Tenho seguido minha rotina. Mas estou engasgada com um "fim" não pronunciado. Inconformada com um interdito para não seguir vivendo um amor bonito e profundo.

Permanecemos amigos (bem mais do que antes). Fazemos algumas coisas juntos, profissionalmente ou pra nos divertir. No entanto, me dói (quase como dor física) não poder tocá-lo como desejaria. E o pior é que, às vezes, fica a impressão de que ele quer que eu retome os rumos das coisas. Hoje (ontem), ele se confessou bastante triste. Disse que estava em crise. Eu dei minha opinião sobre algumas coisas dos campos profissional e acadêmico que, para mim, refletem um certo estado emocional dele. Ele calou. Perguntei se ele se incomodava que estivesse analisando sua situação e ele me disse que eu tinha o direito de dizer o que entendesse e que ele ouviria. Retomamos, há bem pouco tempo, uma maneira mais carinhosa de nos tratarmos ao telefone, nos e-mail's, no MSN, pessoalmente. Mas o contato físico virou tabu. Embora, às vezes, eu suspeito que chegar mais perto, e o mais simples toque, o desestabilizam tanto quanto a mim.

Ele (sabemos todos os que somos seus amigos) se feriu muito no relacionamento anterior. Quando eu falei em estabilizar a relação, inclusive, ele disse que não estava pronto ainda.

Por ele ser, de fato, um homem bastante sensível, duvido que tenha sido um caso temporário para ele. Duvido que ele tenha apenas me usado. Mas algo "estancou" o que ele sentia. Eu, no entanto, não encontro caminhos para tentar voltar e nem consigo arrancar dele uma só palavra definitiva me dizendo que não temos mais chance.

Some-se a todo este processo descrito (exaustivamente), o fato de que todas as pessoas (amigos ou não) ainda hoje, ao nos ver juntos, mesmo sem carinhos, identificam-nos como casal. Construímos rapidamente uma intimidade que não desfizemos depois que paramos de "ficar" (estávamos ficando? !rs).
Sinceramente... boba ou não, eu ainda acredito em tentar reconquistá-lo.

Fala, poeta! Um grande abraço em você, Fabrício!
Beijos
Silvana"


Querida Silvana

Entendo seu sofrimento. Mas não entendi a separação, pois não houve fim. Não houve briga, quebradeira, juízo final, o que faz parte da negociação do desejo. O que identifico é a conformação pelo silêncio.

Temos uma mania de resolver a história por nossa conta. Concluímos e esquecemos de perguntar o que o outro está querendo. De sua alquimia com o colega, flagrantes são suas impressões. Não tem nada mais do que impressões.

Ao definir: "Sei que era bom também para ele". Sabe como? Ele afirmou? Tememos falar durante o amor para não cobrar, só que deixamos de falar e permanecemos cobrando. Cobra agora uma resposta que deveria ser dada durante, não depois. Tornou-se uma relação resolvida publicamente, sem definição interna pelo casal. Carrega o fantasma de que "Todos sabem, menos eu".

Será que ele sentiu tudo isso que você sentiu? Ou está ainda pensando por ele, para ele? Quando diz: "Embora, às vezes, eu suspeito que chegar mais perto, e o mais simples toque, o desestabiliza tanto quanto a mim..."

É uma suspeita, não uma constatação. As suspeitas não cresceram em verdades, carecendo do mínimo elo? Não seria mais fácil encará-lo e arrematar: o que você deseja comigo? Voar mas de olhos abertos, senão o risco de cair aumenta. Voar sem perder os referenciais do chão, da casa, do caminho.

No momento em que confessa: se é um caso passageiro porque trazer tantas palavras, tantos gestos, belíssimos para aqueles instantes? Respondo: para se convencer de que não é um caso passageiro. O amor é puro convencimento. Reprisa seu início com ele: não guardava o nome, não descobria seus rastros em sua vida, até que uma sucessão de aproximações e conversas a convenceu que o amava. Você se convenceu da importância do encontro, talvez ele não.

Por que ele permanece ao seu lado, desprovido de culpa? Entendeu que foi um caso. Na concepção dele, ficaram somente juntos. Não toca no assunto para não perdê-la. Aproveita sua dificuldade de iniciar a conversa para não ter que decidir ou opinar. Ele abusa de sua tolerância. Tem sua vida sob controle, sua amizade e pode seguir livre e independente. Ou acha que ele não percebe que está apaixonada? Claro que sim.

Não diria que ele a usa, ele a domina, que é diverso. Nota que você perdeu o poder de revide e vive tentando justificar qualquer atitude dele. Ele não precisa se justificar porque o perdoa antes mesmo de qualquer ação. Na carta, disse que ele era sensível e delicado e que um relacionamento abrupto anterior o machucou. Sua mania de compreendê-lo termina por desculpá-lo previamente. Entender não pressupõe aceitar.

Duvido que um amor possa se contentar com menos depois de conhecer o máximo. Isso é exílio.

Quer reconquistá-lo? Afasta-se sem motivo, como ele mesmo fez. Sem dizer alguma coisa. Sem explicar. Deixe ele conhecer o gosto do próprio veneno.

Quando um homem entende demais, seduz. Quando um homem não entende o que está acontecendo, ele se apaixona.

Beijos

Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:55 AM :: Comentários:

DUAS VEZES RIO DE JANEIRO



Finalmente vou autografar "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil) na capital carioca.

Será no dia 24/9 (segunda), às 18h30, dentro do projeto Livro Aberto, da Escola Superior de Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ). O encontro é distribuído em três momentos: no primeiro, serei entrevistado por Marcelo Backes, num bate papo informal; no segundo, há uma leitura encenada de fragmentos de "Meu Filho, Minha Filha" pelo Curso de Direção Teatral da UFRJ ; no terceiro, converso com o público e lanço o livro.

Local: EMERJ – Av. Erasmo Braga, 115 - 4° andar – Centro – RJ (Prédio do Fórum Central)



Quem não tiver condições de comparecer, estarei antes na XIII Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que acontece no Riocentro. Participo do Fórum de Debates, Pavilhão Azul, no dia 16 de setembro (domingo), às 14h. Falarei do "Jovem na ordem do dia", junto de Alberto Goldin, Ana Beatriz Silva, Içami Tiba e Zíbia Gasparetto.

E ainda, em 23/9 (domingo), às 19h30, depois da praia, aproveito para fazer performance e leituras ao lado de feras no CINEMATHÈQUE JAM CLUB (Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo - RJ - 21 25390216):



Enfim, matarei as saudades do Rio.

10:41 AM :: Comentários:

53ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

Sou um dos dez patronáveis da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, que ocorre de 26/10 a 11/11, ao lado de Airton Ortiz, Antônio Hohlfeldt, Carlos Urbim, Charles Kiefer, Jane Tutikian, Luís Augusto Fischer, Luiz Coronel, Paulo Flávio Ledur e Juremir Machado da Silva. É minha quarta indicação consecutiva nos últimos anos. A Câmara Rio-grandense do Livro divulgou a lista nesta quarta (5/9). Na próxima etapa, um colegiado formado por associados e diretoria da CRL, patronos de feiras anteriores, reitores de universidades, diretores de faculdades, titulares de entidades culturais e associativas votarão em três nomes, dos dez indicados. O resultado será informado no dia 25/9, em coletiva à imprensa, quando o patrono da edição passada, o romancista Alcy Cheuiche, transmitirá o cargo a seu sucessor.

9:20 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 04, 2007

INSISTA
Arte de Claes Oldenburg

Fabrício Carpinejar



Sempre insista. Fale mais do que seja possível pensar. Insista. Temos que ter a capacidade de superar as resistências. Toda primeira conversa enfrentará uma série de inconvenientes. Mas insista. Não recue com a gafe, com o estardalhaço, com a vergonha. Siga adiante. Comece a rir sozinha. Rir é receber a pergunta: o que você está rindo? Rir é ser perguntado. Não há motivo para rir, rir é se abraçar. Minha risada é meu gemido público. Acordar me deixa excitado.

Talvez aquela amiga não queira namorá-lo para não estragar a amizade. Portanto, diga: quero hoje estragar nossa amizade. Estragar de jeito. Arruinar nossa amizade. Corromper nossa amizade.

Estrague fundo, o amor pode estar recolhido nela. Mas não aceite tão rápido o que ela não acredita. É disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, de retraído, porque a verdade quando surge faz atitudes impensadas, como comer algodão-doce nesta terça-feira diante de uma escola de normalistas. Que saudades de acenar para uma freira dirigindo um fusca. Deus é uma freira dirigindo um fusca. Tenho saudades de me exibir cortando laranjas. As tiras simétricas, os cabelos loiros da laranjeira. Tenho saudade de passear com a minha laranjeira.

Não se explique, insista. Eu não vou ficar esperando alguém me salvar. Eu mesmo me salvo. Eu mesmo me arrumo para a loucura.

Insista. O apaixonado cria sua boca. Cria sua boca para cada boca. Caso tenha prometido ir atrás dele, vá. Telefone, ainda que atrasada dois anos da promessa. Volte atrás, não queria pensar com os olhos, a boca são olhos mais atentos.

Não se intimide ao encontrar seu homem no momento errado. É sempre o momento errado. Seja o momento errado da vida dele. Mas seja parte da vida dele.

Seja o erro mais contundente da vida dele. Seja a vida do seu erro, para ele errar mais seguido.

Talvez aquele amigo não converse para manter a aparência de misterioso. Talvez ele nem saiba conversar, seja incompetente. Insista. Uma hora ele vai tomar um porre do seu silêncio, sentar no meio-fio e falar aramaico. Todo homem guardado uma hora fala aramaico. Insista, esteja perto para o sermão dos pássaros no viaduto.

A vida mete medo quando ela não é formalidade, não temos como nos defender do que parte dos dentes. Tenha um medo assombroso da vida, que é mais justo, deixe a morte com ciúme e inveja, deixe a morte sem dançar.

Não fique articulando frases inteligentes, comoventes, certas. Insista. Sei o valor de uma fantasia, mas insista. Tropeçar ainda é andar, pedir desculpa ainda é avançar, concentre-se na dispersão.

Ninguém quer falar com ninguém. Mas insista. Na sala do dentista, no trem, no ônibus, no elevador. Insista. O que mais precisamos é estranheza para reencontrar a intimidade. Não há nada íntimo que não tenha sido estranho um dia. Seja estranho com o ascensorista, com o porteiro do prédio, com a colega. Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar. Ame por empréstimo. Ame devendo. Ame falindo.

Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores.

Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista.

Estou cansado de me defender - sou só ataque. Insisto.

11:12 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 01, 2007

ELA VAI ENVELHECER
Arte de Egon Schiele

Fabrício Carpinejar



Ela vai envelhecer para o carteiro, que passa por ela às 11h, com sua sacola azul e seu escapulário sobre a camisa amarela. Ela vai envelhecer para os colegas do Ensino Fundamental. Ela vai envelhecer para suas amigas do Inglês. Ela vai envelhecer para seus vizinhos, que disputam orquídeas nas varandas. Ela vai envelhecer para seus amigos de infância, que somente conhece pelos apelidos. Ela vai envelhecer para seus animais de estimação, mortos e vivos, lembrados ou esquecidos. Ela vai envelhecer para a floreira da esquina. Ela vai envelhecer para a menina da janela que espera a mãe voltar do almoço. Ela vai envelhecer para seus filhos, que comentarão com piedade entre si que ela já não é a mesma. Ela vai envelhecer para seus alunos, que ainda dirão que está conservada. Ela vai envelhecer para as balconistas do mercado, do banco, das lojas, que não se incomodarão em verificar o saldo. Ela vai envelhecer mudando de roupa, conferindo o batom no espelho, alisando o quadril pelos bolsos de trás. Ela vai envelhecer a cada gripe mal curada, a cada choro engasgado. Ela vai envelhecer ao estender suas toalhas. Ela vai envelhecer ao aproximar incrivelmente os olhos dos livros. Ela vai envelhecer em sua melhor risada. Ela vai envelhecer ao renovar a carteira de identidade. Ela vai envelhecer ao cobrir as rasuras da geladeira com imãs, as falhas das mesas com fotos. Ela vai envelhecer para seus irmãos que moram longe. Ela vai envelhecer quando alguém abraçá-la na rua: “não acredito que é você”. Ela vai envelhecer na primeira reforma da casa, mais ainda ao migrar de casa. Ela vai envelhecer ao desistir da calça de cintura baixa. Ela vai envelhecer para seu analista. Ela vai envelhecer para seus colegas de trabalho. Ela vai envelhecer para os garçons, para os mendigos, para os vendedores de jornais na sinaleira. Ela vai envelhecer, por mais que seu rosto não se apresse no bom-dia ou suas pernas cancelem o boa-noite. Ela vai envelhecer descendo as escadas. Ela vai envelhecer ao sair do cinema. Ela vai envelhecer quando não for compreendida, continuará envelhecendo ao ser entendida. Ela vai envelhecer tomando banho de sol, de mar, de vento. Ela vai envelhecer ao perder a contagem dos números romanos. Ela vai envelhecer com as veias saltando, com a pele de vidro. Ela vai envelhecer ao trocar as sardas pelas manchas. Ela vai envelhecer ao suspirar mais do que o chá. Ela vai envelhecer com sapatos usados uma única vez. Ela vai envelhecer com vales de números quebrados. Ela vai envelhecer ao recuperar sua boca no buquê do vinho. Ela vai envelhecer ao não dar conta do serviço. Ela vai envelhecer pela cervical. Ela vai envelhecer ao escorregar os pés para o fundo das poltronas do avião e do ônibus. Ela vai envelhecer ao deixar cair o guardanapo de pano. Ela vai envelhecer ao escutar a música favorita de sua adolescência. Ela vai envelhecer ao tingir seus cabelos brancos. Ela vai envelhecer ao sentir a urgência do casaco dentro da cama. Ela vai envelhecer como um pião envelhece na corda, como uma colcha envelhece em seus retalhos, como uma criança envelhece ao aprender a escrever.

Ela vai envelhecer para os outros. Todos os outros.

Eu é que não saberei de nada disso envelhecendo com ela.

5:28 PM :: Comentários: