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Consultório Poético

Blog

Terça-feira, Outubro 30, 2007

AVISO PRÉVIO
Arte de Alessandro Cenci

Fabrício Carpinejar



Eu me despedi, vou sempre me despedir de você a cada domingo e voltar.
Estou treinado a me separar para retornar mais forte.
Não tenho mais vergonha de recuar ou pedir à frente.

Minha vergonha não tem mais orgulho.

Quando não a vejo, eu a pressinto.
Quando não a escrevo, eu a leio em sinais e caligrafias estranhas pelos postes e toalhas de mesa. Tudo faz sentido; pichações, cartazes, canhotos; tudo é uma correspondência a violar e não me permite descansar. Meus olhos são seus cabelos. Solto seus cabelos em minha íris.

Sou fraco, pode concluir que sou covarde. Vou voltar.

Minha insônia não muda a claridade.

Confessa que não está pronta. Não fique pronta. Tampouco estou preparado. Vamos assim mesmo. Meu corpo não tem mais espaço para se regenerar. Não posso salvar minha carne retirando a própria carne. Preciso da sua para me cobrir. Dói onde não fui beijado.

Não consigo arrancá-la do que sou.
Tentei, tento, tentarei, como se pudesse reinar com as palavras.

Duvide de minha alegria. Duvide de minha indiferença. Estou rindo com o vidro na boca. Faço o vidro virar dente. O que mastigo se acostuma. Mas não é o que sinto.

Há namorados tristes em dias de sol, namorados alegres em dias de chuva.

O que sinto nem falo. Não me cabe encerrar a vida de ninguém. A minha sempre está começando ao seu lado. Termino para não me repetir. Não consigo definir: “aquele foi o último abraço”, “aquele foi o último beijo” e conservar e sublimar para me lembrar do fim. Eu guardo todos os abraços e beijos pensando que foram os últimos.

Desembrulho minhas roupas para descobrir seu cheiro.
Refaço o ritual da merenda da escola, o fino guardanapo que envolvia um pedaço de bolo ou um doce. Meu cuidado para não ferir a fome.

Eu me abandono, me troquei várias vezes, mas não me despeço.

Seu amor me estragou por inteiro. Não amarei menos do que recebi de você.

Seu amor tornou impossível qualquer outra história de amor. Seu amor é um estelionato, nenhum homem deveria aceitá-lo porque não terá tempo de quitar. Seu amor é uma generosidade injusta. Uma extorsão. Uma maldição. Porque ele me cura do que ainda nem adoeci.

Sou covarde, pode concluir que sou fraco. Vou voltar.
Como o esquecimento dos cachorros, que são castigados e logo estão lambendo o rosto de novo.
Como o esquecimento dos pássaros, que regressam aos mesmos telhados e antenas para secar os farelos.

Não sei me despedir de você.
Já briguei, já fiz as malas, já a ameacei com chantagens, já prometi que não seria mais feliz.
Já apanhei as chaves, já devolvi as chaves, já avisei aos amigos.
Já, Já, Já.

Não sou mais o mesmo. Nunca serei mais o mesmo.

Só queria encontrar alguém mais louco do que eu para voltar à normalidade.

4:21 PM :: Comentários:

EU SOU... ÍNDIO
Da nova série "Tabela Literária"
Foto e projeto Fabrício Carpinejar

MILTON HATOUM (Manaus - AM, 1952)



Motivo:
"Todos temos alma de índio, não?"



Romancista

Autor de

- Relato de um certo Oriente (Companhia das Letras, 1989 ) - 18 mil livros vendidos. Prêmios: Jabuti Melhor Romance, Prêmio Governo do Estado do Amazonas.
- Dois Irmãos (Companhia das Letras, 2000) - 53 mil livros vendidos. Prêmios: Finalista do Jabuti. Eleito o melhor romance brasileiro (1990-2005) por críticos e jornalistas numa enquete do Correio Braziliense/Estado de Minas. Indicado para o Prêmio IMPAC-DUBLIN e para o Prêmio do jornal londrino The Independent.
- Cinzas do Norte (Companhia das Letras, 2005) - 15 mil livros vendidos. Prêmios: Jabuti Melhor Romance, Livro do Ano, Portugal Telecom, BRAVO!, Grande Prêmio de Literatura (APCA).



ELEMENTO ANTERIOR (26/09): PAULO SCOTT, POLÔNIO
PRÓXIMO ELEMENTO (15/11): DANIEL GALERA, DÚBNIO


3:35 PM :: Comentários:



O AUTOR MAIS DEDICADO, E O LEITOR MAIS EMOCIONADO
Concurso da melhor dedicatória da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre (26/10 a 11/11)

De Fabrício Carpinejar, poeta

Valorizando a relação pessoal entre autores e leitores, o momento mágico em que o escritor encontra-se com seu público, a Câmara Rio-grandense do Livro e o Curso de Escritores e Agentes Literários da Unisinos criam o concurso "O AUTOR MAIS DEDICADO, E O LEITOR MAIS EMOCIONADO".

Os interessados podem apresentar fotocópias da folha de rosto dos livros autografados durante a Feira e concorrer a melhor dedicatória recebida de 26 de outubro a 09 de novembro. As inscrições devem ser feitas no balcão de informações na Praça da Alfândega até o dia 09 de novembro de 2007. Uma comissão de professores do curso de Escritores e Agentes Literários e de Letras da Unisinos fará a seleção dos inscritos e anunciará o vencedor no dia 10 de novembro de 2007 pelo site do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários e da Feira do Livro de Porto Alegre.

O vencedor receberá um vale de compras de livros no valor de R$ 300,00 (trezentos reais) para adquirir os volumes que desejar nas bancas da Praça da Alfândega, a serem descontados no último dia da programação oficial (11/11).

A idéia da iniciativa é destacar o espírito alegre, próprio da feira ao ar livre, que consolidou a aproximação entre os leitores, os livreiros e os escritores.

Mario Quintana conta uma anedota de que uma leitora se aproximou para seu autógrafo, enganou-se na hora de falar e pediu uma dedicação. Será que o leitor não deseja mesmo dedicação? Esse ato falho tem a dimensão de um acerto amoroso.

A campanha "O AUTOR MAIS DEDICADO" é um modo de entusiasmar à busca pelo autógrafo e inspirar a conversa sobre os livros. Reconhece a lealdade do leitor, que não se incomoda em esperar a fila de autógrafos (algumas bem longas) para um abraço e uma troca de olhares e palavras com seu escritor preferido.

Não serão reparados garranchos, lapsos de nervosismo, esquecimento de nomes. O que estará em evidência é a mensagem de afeto que todo o escritor deixa na sua obra.

Com a dedicatória, aquela folha de rosto inicial torna-se um poema à parte, um cumprimento a mais, uma forma de eternizar um momento de empatia e cumplicidade. Um sinal de que naquele determinado dia, sob a benção dos jacarandás, fora firmada a amizade pela literatura. A dedicatória personaliza o livro, intimida sua troca, revela um ato de extrema confiança. É uma fotografia escrita, uma carta à mão, uma saudação íntima, um marcador de página.

A mobilização teve como inspiração o volume "Mafuá do Malungo" (Versos de circunstância), de Manuel Bandeira, formado de dedicatórias a seus amigos e conhecidos, que completará 60 anos de sua primeira edição em 2008.

Eu sinceramente acredito que o escritor autografa um livro por emocionada ansiedade, para que o livro comece mais cedo, já na primeira página.

Confira a entrevista que concedi para Sara Bodowsky, ao jornal da TV COM (RBS TV), no sábado (27/10)

3:24 PM :: Comentários:


Domingo, Outubro 28, 2007

PATIFARIAS
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



O homem quando quer é pródigo em patifarias. Quando não quer também.

Meus três amigos são refinados em suas obsessões. Abertos a mais sublime fidelidade desde que não escutem uma frase. Uma frase e colocam sua vida em leilão. Agem por recalque infanto-juvenil. Alheios aos motivos, são indestrutíveis em seus planos. Com uma frase, ficam perturbados, virais e carregados de segundas intenções. Páram seu trabalho, sua rotina, cancelam jogos de futebol, passam a freqüentar lugares inéditos e a responder defesas femininas com uma alta velocidade de pensamento.

Se não fossem meus amigos, seriam doentes. Destroem o que enxergam pela frente sem compaixão. Eu fico com dó das vítimas. Ajudo a patifaria tentando atrapalhar. Elas supõem que minha advertência é uma brincadeira, que não seria direto e deixam rolar.

Tudo o que os meus amigos desejam é que elas deixem rolar.

Não expliquei qual é a frase. Não vou denunciar o nome de meus comparsas, ainda em atividade, já que o amor é um crime inafiançável. Empregarei pseudônimos: Bob, Bil e Brejo.

O Bob está casado há cinco anos. Nunca passou de cinco anos num casamento. Ele é um poodle para sua mulher. Lambe, mexe o rabo, pula em seus braços. Não depende de coleira para retornar ao lar. Sua biografia seguiria normal, pacata, ao permanecer longe de uma única sentença. A Sentença.

Estávamos numa mesa de boteco e uma conhecida de um colega sentou junto. Desprevenida, ao lado dele. Bonita, com um pescoço largo que dá vontade de voltar ao inverno imediatamente. Não sou de controlar a conversa vizinha, porém ouvi a menina comentar cabisbaixa:

- Eu tenho namorado!

Feito! Bob engoliu a própria língua e abriu a gula dos braços. Ao invés de se intimidar, avançou. Não pode escutar essa frase que vira solteiro de novo. Reconhecível o medo de vidro da moça. Ela estava prestes a se quebrar, não tem idéia de onde se meteu. Ele não pensaria em outra coisa senão conquistá-la. Permaneceriam casados cincos anos.

O Bil é tarado por noivados. Considera o namoro muito provisório e pouco emocionante. Já o vi atuando em uma padaria. É solteiro, mas paga pensão a três filhos de três mulheres diferentes.

Uma beldade de tranças loiras e olhos azuis, cara de pura e de noviça, pedia cacetinho numa padaria. Quatro cacetinhos, fremindo o bilhetinho no balcão.

Ele a esqueceria como esquece a si mesmo com facilidade. Entretanto, ela se corrigiu a atendente:

- Cinco, meu noivo nunca fica nos dois.

“Noivo? Ela tem noivo?”

Bob puxou papo de velório, de turfe, de vernissage, desesperado à cata de informações. Ele se assanha com mulheres noivas. E não sossega o pito até destruir a festa de casamento. Suas três ex foram noivas dissolutas.

Brejo é o mais cachorreiro dos rapazes. Ele não ambiciona casar. Procura as comprometidas, espécie de desafio de alto risco e periculosidade, que não vão incomodá-lo com pedidos, súplicas e promessas.

Não atua com os ouvidos, e sim com os olhos. No primeiro encontro, beija a mão esquerda das mulheres, beija a aliança que buscará cuspir para fora do dedo. Larga a companhia ao transar na cama do marido.

Meus amigos são patifes. Belos patifes. Se soubessem o que fazem, continuariam fazendo.

10:16 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 25, 2007

DEUS É PASSIONAL

Fabrício Carpinejar



A morte bateu na minha porta. Não estava em casa, estava no meu carro. Tive que atender.

Meu carro girou uma, duas vezes na pista. Eu apenas me lembrava de segurar firme o volante. As instruções da auto-escola vinham intactas de alguma aula de algum sala escura e apertada.

Motorista de uma D-20 saiu da faixa do canteiro, obrigado a fazer curva, e decidiu seguir reto. Como se fosse um jogo de xadrez, maquinou pular pistas e esqueceu de localizar as demais peças. Entrou na minha porta lateral enquanto eu dobrava. Ele me atravessou.

O erro foi dele, mas não me interessava isso no momento. Ouvi um tranco no meu lado, um forte baque, e reagia.

Gritava "merda" "merda" "merda" para me conter. Chegamos ao céu por desaforos.

Tentava dominar o carro, não minha saúde, e rezava para que nenhum outro veículo me rebocasse na avenida Farrapos no início da tarde de quarta (24/10). Vulnerável no cruzamento, no meio do caminho da rua Sarmento Barata, dedicava-me a desvencilhar do fluxo de uma sinaleira aberta. Vi um ônibus, um Gol cinza, uma Variante branca tirarem lascas de vento de mim.

Minha vida não tinha retrovisores.

Até o meu Cross Fox amarelo parar demorou dois minutos. Dois minutos sem controle. Uma fúria incompreensível.

Se estivesse mais lento, a camionete entraria em minha porta. E nem estava aqui dois dias depois do aniversário. Pelo estrago produzido na lateral, não me deixaria hipótese de sair. Respirei, aliviado, que não havia nenhum dos meus filhos atrás.

É possível passar anos falando "se" a partir do acidente. Mal dormi, pois vivi o pesadelo por antecipação.

Aquilo de reprisar sua história em segundos não ocorreu comigo. Não revi ninguém, não tive chances de me rebobinar, experimentei unicamente repuxo físico, contração muscular, atavismo das mãos. Não pensei. Não imaginei. Não valorei. Vazio como um lótus boiando.

Apavorei-me de morrer a seco, direto. Sem nenhuma frase sábia legada ao Vicente e Mariana, sem passar coragem a Ana, sem confortar meus pais e irmãos.

A sobrevivência esgota as palavras e as recordações. Não sobra força de ser gentil e nobre.

Constatei o óbvio, morrerei sem aviso, urgente, e todo ato feito no dia será sublimado como um movimento de despedida. Mas não foi despedida, porque não me despedi. Não acenei. Não alinhei as malas. Não separei minhas roupas aos amigos. Não falei o que realmente desejava.

A morte não é uma despedida. É sair de repente. É ser arrancado do que julgava impossível. Ela nos interrompe sem permitir que se leve nada ou se conclua algo.

Deus é passional.

O menino infalível e esperançoso que sonhava ter barba grisalha poderia nunca ficar velho.

Somos capazes de planejar paixões e marcar encontros para janeiro, mais ansiosos pelo futuro do que pelo passado. Mas paixão é não premeditar, viver é não prever, amar é um despropósito e não há tempo para fundamentar nossas escolhas. Nossas escolhas já nos justificam.

Eu me explico quando tenho tempo. Eu amo quando não tenho tempo.

Apavorei-me com a possibilidade de morrer sem pedir perdão.

Tenho que pedir desculpa um pouco por vez, um pouco por dia. Por aquilo que não fiz, não farei. Para não morrer tão inconformado da próxima vez.

8:54 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 24, 2007

DUAS VEZES MONOGÂMICO
(DRUMMOND NÃO FOI VINICIUS DE MORAES)

Arte de Alessandro Cenci

Fabrício Carpinejar



Há homens infiéis que são mais monogâmicos do que os fiéis. Antes que alguém me acuse de disparate, explico.

Lembro de Drummond que durante trinta e seis anos teve uma mesma amante, Lygia Fernandes, não interrompendo seu casamento de meio século com Dolores.

Ele entrava na residência de sua namorada em Ipanema como um marido regrado. Sempre de tarde, após o serviço no Ministério da Educação. E voltava de noite para seu apartamento em Copacabana, poucas quadras dali, com igual severidade, aos braços de sua mulher. Sofro com sua hesitação – curta no tempo, longa no espírito - diante das chaves em seu molho no momento de abrir a porta.

Não bastava uma casa, ele ajudava duas. Duplamente monogâmico. Fazia o tipo conservador. Nenhuma das duas mulheres o poderiam trair. Mas não julgava traição estar entre as duas.

Não fugia de um casamento por uma aventura, fugia de um casamento para outro casamento. Deixava uma estabilidade para uma outra estabilidade. Deixava os problemas de um lar para os problemas do outro. As contas de um pelo outro. As preocupações de um pelo outro.

Nossa... Não posso classificá-lo de amante, mas de doido pelo matrimônio, incapaz da infidelidade que deveria ser provisória.

Ele não aspirava ao sexo casual, ao prazer momentâneo, à euforia inconseqüente, buscava o compromisso. Qualquer rua o levaria ao cartório. Ele não se apaixonava de cara, ele amava de cara, sem curso preparatório para noivos.

Não percebia que quando a amante passava a recebê-lo em casa, ele já era da família. A comodidade o embaraçava.

Não o vejo dotado da indiferença, preparado emocionalmente a não atender o telefonema e enterrar as suspeitas. As suspeitas o enterravam.

Suscetível às ameaças, ao charme da carência, à inteligência da culpa. As mulheres transformadas em filhas, em que ele tenta igualar a criação e a distribuição de mimos.

Ao toque de um interurbano secreto, saía correndo. Tinha emergências de um cardiologista (e era enorme o risco de morrer de coração). Ele apegava-se, enraizava-se, moldava-se e não largava mais. Ele nunca escolhia, acumulava.

Conheço homens que são tão apaixonados pelo casamento que mantém duas ou três histórias duradouras. E a duplicidade só será descoberta no velório, quando é perigoso apontar qual é a verdadeira viúva. Todas choram com ímpeto espartano, e acariciam as alças com os caprichos de uma aliança.

Eles não estão procurando encontrar algo que falta no casamento, e sim repetir o que encontraram. O lado bom e o ruim. Não duvido que o lado ruim mais do que o bom. Talvez se sintam tão ameaçados pela desvalia, carentes, que multiplicam suas estradas e criam cadernetas de poupança para evitar uma das falências.

Se um casamento é complicado, pesaroso entender o esforço de sustentar dois ao mesmo tempo. Ele trocará lâmpadas em duas casas, matará baratas em duas casas, pagará duas vezes IPTU, abrirá os potes de pepino em duas casas, trocará a resistência do chuveiro em duas casas?

É muita valentia. Ou burrice.

Reclamar que não há nada na geladeira eternamente e freqüentar o mercado mais vezes do que um caixa. Será que um cachorro o esperava em cada área de serviço com lambidas no rosto?

Como não se confundir no sono, não soltar um nome fora de hora? Não embaraçar o que foi vivido num bairro do que foi vivido noutro? Não denunciar que não conhece um restaurante quando o garçom se aproxima com indisfarçável ironia? Não se tornar paranóico com seus conhecidos, querendo eliminar as suspeitas?

A memória tem que ser prodigiosa, para decorar as datas de aniversários das mulheres. Não me refiro a um dia, que seria fácil, porém o imenso e repetido calendário que envolve os cuidados amorosos. O dia do primeiro encontro, o dia do primeiro beijo, o dia da primeira transa, o dia de morar junto. Eu já fiquei cansado ao simular. Na hipótese dele se esquecer de alguma delas, estar pronto para discutir o relacionamento. Imagina brigar em duas casas? Largar uma discussão para começar a seguinte, com motivos e ciúme parecidos. Passar a vida se explicando, em crise, e se explicando sem ter razão.

Coitados dos homens que não conseguem se separar, e se casam e se casam com os casos para caçar loucamente o amor de qualquer jeito. Qualquer jeito não é amor.

10:07 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 21, 2007

COMPLETO 35 ANOS INCOMPLETOS

Fabrício Carpinejar



Aniversário mexe comigo. Não porque envelheço, mas por não me curar dos que já aconteceram.

Arriscado concluir que faço 35 anos nesta terça (23/10), vários deles foram incompletos. Números inteiros, emoções quebradas.

Aos 25 anos, há uma década, avisei a mãe que passaria rapidinho em sua casa em Porto Alegre para um abraço. Ela me armou uma surpresa e buscou a Mariana. Entretanto, estava com o horário apertado, tinha compromisso na noite com a minha nova namorada Ana, em São Leopoldo. Dependia de ônibus e da generosidade dos relógios.

Mariana me abraçou com um vestido azul, alegria atiçada. Seus três anos me mordendo de beijo: usava a gengiva como dente.

Ela pulou em meus ombros, me entregou um cartão com um sol cabeludo e uma árvore rebolando, naqueles movimentos de giz que unicamente uma criança captura. Eu fiquei envergonhado - não tinha folga. Na minha vida, acho que nunca fui tão insensível. Insensível a mim. Pela vergonha de cumprir o planejado.

Deveria desabafar:

- Foda-se o mundo.

Ana entenderia. Caso soubesse, não aceitaria e providenciaria um encontro a três.

Preferi seguir o que havia combinado. Decidi sozinho, para não estragar com os filhos o início do namoro. Como se os filhos estragassem! Como se os filhos me impedissem de alguma coisa! Mas pai jovem tende a impressionar e mostrar uma liberdade que não existe, uma liberdade que é patética perto da paz de ser amado pela sua pequena. Ele omite que tem uma biografia para nascer com a nova mulher.

Não seria marido de ninguém sem meus filhos.

A filhota não assimilou minha pressa. Ou, se absorveu, fingiu que mastigou, naquelas distrações que unicamente uma criança permite. Não permaneceria com ela de noite, contrariando sua expectativa de jantar comigo.

Ela era a minha vida. Meu rosto. Meus cabelos encaracolados e uma palidez de praia deserta. Por mais comovido, segui adiante, contra ela. Pois comover pode ser apenas o primeiro passo. Comover-se não é retribuir.

O coração de pai solteiro vacilou. Como vacila entre uma história de amor e a história dos filhos, aguardando o momento em que as duas possam se cruzar. Coração de pai separado é próprio para transplante, já foi transplantado do peito à garganta com freqüência.

Eu me enervei, não dominei as palavras, quando ela me puxou pela calça.

- Pai, não pode ir.

Ela veio com um bolo da cozinha. Passos miudinhos, segurando o suspiro para não tropeçar.

Colocou na mesa e emprestou sua vela de dois anos.

Ela não se importou com a minha tristeza. Cantou o parabéns com cada pausa que aprendera na creche.

Houve tempo para três fotografias feitas pela minha mãe. Essa é a única que não ficou tremida.

Comi a torta de pé. Ela, sentada, equilibrava o garfo no recheio, no merengue. Espiava a contração de minha boca, ansiosa por uma reação intempestiva.

Ao me desembaraçar do portão, me alcançou um balão azul, como o seu vestido.

Mantive o balão perto de mim a noite inteira. A corda substituindo sua mão.

Ela acendeu a vela e demorei para apagar. Sou uma faísca atrasada, choro aos 35 anos por ter faltado à festa de aniversário aos 25, a primeira festa preparada pela minha filha.

Hoje ela está em Brasília. Queria tanto que estivesse comigo para dizer pessoalmente, dizer pessoalmente o que ela nem se lembra. Porque minha filha sempre foi maior do que o passado que dei a ela.

8:54 PM :: Comentários:

FEIRA DO LIVRO DE POA E OUTRAS PARAGENS


Magrinho, 9 anos, inovando na combinação: camiseta laranja desbotada, calção azul, carpim marrom do pai e tênis preto.Anos 80? Não, cafonice atemporal...

Não será agora que vou descansar. Nessa semana, inicia a 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, minha adoração. Participarei de oito atividades entre palestras e oficinas, afora a sessão de autógrafos de "Meu Filho, Minha Filha" (que parte para a 4ª edição) no dia 3/11, às 19h30. Espero encontrar vocês.

26/10/07 - manhã e tarde - Catuípe (RS)
Palestra aos alunos da 5ª e 8 ª séries
Contato: Silvana smec@catuipe.rs.gov.br

27/10 - 28/10 - 29/10 (sábado, domingo e segunda), às 19h30, Porto Alegre (RS)
Oficina de Criação Poética Fabrício Carpinejar
Local: Biblioteca O Continente
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223)
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega
Gratuita (inscrições com a Câmara Rio-grandense do Livro)

28/10 (domingo), às 16h, Porto Alegre (RS)
Ainda há lugar para a poesia?
Com Armindo Trevisan, Sérgius Gonzaga e Juremir Machado da Silva (mediador)
Sala O Arquipélago
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223)
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

29/10 (segunda), às 9h, Porto Alegre (RS)
Encontro Papo-Cabeça
Faça Literatura com amor: transforme as cartas de amor em Literatura
Casa do Pensamento
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

31/10 (quarta), às 19h, Porto Alegre (RS)
Sarau no café
Caffè di Trento
Homenagem e leitura de meus textos
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223)
Contato: expressoletras@yahoo.com.br

1º/11 (quinta), às 19h, Porto Alegre (RS)
Leituras Compartilhadas - O Pequeno Príncipe - Saint Exupéry
Com Celso Gutfriend
Sala Retrato do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223)
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

2/11 (sexta), às 19h, Porto Alegre (RS)
Literatura e psicanálise: o poder criador da palavra
Com Lea Thormann e Vera Cardoni
Sala Oeste do Santander Cultural
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

3/11 (sábado), às 19h30, Porto Alegre (RS)
Sessão de autógrafos de "Meu Filho, Minha Filha"
Pavilhão Central
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

6/11 (terça), às 16h, Porto Alegre (RS)
A palavra de coordenadores de oficinas literárias
Com Charles Kiefer, Deonísio da Silva e Moacyr Scliar
Sala Arquipélago
Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1223)
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

6/11 (terça), 21h, Porto Alegre (RS)
Sarau Elétrico Especial
Rua João Telles esquina Osvaldo Aranha Bom Fim Fone (51) 3312.1347

7/11 (quarta), às 19h30, São Paulo (SP)
Bate-papo com Fernando Moreira Salles, ao lado de Affonso Borges, no Sempre um Papo.
Faço leitura dos poemas do autor, de inéditos e dos livros “Habite-se” e “Ser Longe”, ambos da Editora Companhia das Letras.
Local: Teatro-Auditório da Unidade Provisória do SESC Avenida Paulista (Av. Paulista, 119).
Entrada franca.
Contato: sempreumpapo@globo.com

8/11 (quinta), às 9h, Porto Alegre (RS)
4ª Feira do Livro da Biblioteca da Escola Municipal Mario Quintana
Vila Castelo, Bairro Restinga
Contato: denisegq@uol.com.br

8/11 (quinta), às 19h, Porto Alegre (RS)
A Biblioteca ideal de Fabrício Carpinejar
Biblioteca do Patrono
Território de Pasárgada (entre o Memorial do RS e o Santander Cultural)
53ª Feira do Livro de Porto Alegre
Praça da Alfândega

9/11 (sexta), às 9h, Ijuí (RS)
18ª Feira do Livro Infantil do SESC e 15ª Feira do Livro de Ijuí.
Promoção Sesc/RS
Contato: sschorn@sesc-rs.com.br

15/11 (quinta), 18h, Pelotas (RS)
35º Feira do Livro de Pelotas
Palestra: RIR É REMEDIAR: a paternidade hoje e sempre
Sessão de autógrafos de "Meu Filho, Minha Filha"
Praça Coronel Pedro Osório (praça central da cidade)

8:39 PM :: Comentários:


Sábado, Outubro 20, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

NOTA FISCAL DO PECADO
Arte de Botticelli
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Bom dia Fabrício!

Resolvi apelar para o "consultório sentimental" de teu blog. Quero desabafar um pouco, e acho isso muito válido quando é com alguém que não tenha nada a ver com a tua história, se não, as opiniões e conselhos tornam-se muito pessoais.

Pois bem, vamos aos fatos:

Conheci um rapaz no inverno do ano passado e começamos a conversar por telefone, já que ele mora em Canoas e eu na serra. Enfim, papo vai, papo vem, ele começou a ir me visitar seguidamente nos finais de semana, sendo assim, o namoro começou, lindo e perfeito. Nosso namoro já durava mais de um ano quando semana passada ao remexer nas coisas dele (mania que sei que é errada, mas que não consigo me livrar) descobri um comprovante de pagamento de motel em um dia, local e horário onde a pessoa em questão que o acompanhava não era eu!

Como estava sozinha na casa dele, tive que ligar no celular dele e contar que havia descoberto tudo, que a máscara havia caído. Ele negou até a morte que não foi ao motel, que me amava e etc e tal, mas não assumiu que traiu, apesar das provas estarem ali, sem deixarem a menor dúvida!

Então, nosso namoro lindo e perfeito (até aquele momento eu achava que fosse) terminou.

Mas terminou cheio de mágoas, porque ele não assumiu a traição, disse que eu sou louca e me bloqueou da vida dele de todas maneiras: orkut, msn, e-mails, telefones...

Antes disso me mandou um e-mail onde assumia mais ou menos seu erro, dizendo que sabia que havia errado e que não era para eu sentir raiva dele. Queria poder sentir raiva dele, mas a cada dia que passa sinto mais saudades. Queria poder sentar com ele, conversar, olhar olho no olho, receber uma explicação, um pedido de desculpas, qualquer coisa! Essa história está me enlouquecendo. E o amor e a saudade também. Tínhamos vários planos juntos, inclusive morar juntinhos no começo do ano que vem. Fico pensando nessa hora: cadê todo amor que ele disse que sentia? Cadê aquele cara que disse que iria cuidar de mim pra sempre? Cadê?

Será que não mereço uma explicação, um pedido de desculpas? Será que esse tempo todo ele foi um personagem do meu lado? Será que ele não vai brigar pelo meu amor e para me reconquistar?

Tantas perguntas sem respostas...Ai, ai... Se eu soubesse que naquela noite que me despedi dele fosse a última vez, teria dado um abraço mais apertado e um beijo mais demorado. Saudade dele...

Um beijo amigo

Eneida
P.s: Espero um dia encontrar alguém que me ame e não tenha vergonha e nem medo de expressar isso, assim como tu faz tão bem..."


oi Eneida,

Não se tira nota fiscal do pecado, muito menos comprovante. A ingenuidade do seu namorado prova que ele não a traía sistematicamente, o que não o absolve da malandragem. Posso afirmar que ele não é um cafajeste. Ele errou feio, mas não demonstra ter nascido para a infidelidade. Quem deixaria uma peça de contradição no bolso, na carteira ou na gaveta? Só quem não está acostumado a pular a cerca e confia que não será descoberto. Os próprios motéis já ajudam o cliente ao colocar no detalhamento do cartão de crédito um nome-fantasia do estabelecimento, que lembra loja de brinquedos ou restaurante...

Ele negou, como todo homem é exercitado para negar. "Negue até a morte" é o que ouvimos, mesmo com todas as provas ao contrário. Seguiu o condicionamento social. Se ele admitisse e pedisse desculpa no momento, não suportaria a continuidade da relação. A verdade é dura e cobra as promessas. Arrumaria um escândalo. Seria até mais agressiva e contundente. Hoje está tomada de saudade. É uma outra pessoa, apartada da mágoa e de toda a raiva justificável. A falta alivia o desespero e até a faz crer que o perdoaria se ele admitisse. Mas na hora estava imbuída do sentimento normal de vingança e catarse. Quebraria os pratos e sei lá o que faria com os garfos.

Agora, depois de um tempo, vocês têm o distanciamento para conversar, o ex deve detalhar o que aconteceu, o que passou pela cabeça, os motivos de sua fuga. Do mesmo modo, Eneida, você errou ao mexer nas coisas dele e invadir a privacidade. Incomoda a sensação de ser vigiado. É não contar com sua confiança absoluta. Um suspeito nunca será um homem completo.

A conversa às claras tem um ingrediente de retomada. O momento de reabilitação é excitante. Deflagra a sedução com o ânimo do início. Trata-se de uma possibilidade, ainda que remota.

Afora resultados diretos, a transparência será sadia para os futuros relacionamentos dos dois. Perdoar é se lembrar do que foi bom, ao invés de se fixar na despedida e na ferida.

Entretanto, dificilmente ele vai voltar, pois já acredita que não presta para você e terá medo de decepcioná-la novamente. A idealização não existe mais, e depende de muita maturidade masculina para reagir com mais sinceridade e desprendimento.

Ele foi infantil. Encurralado, não enfrentou a situação e fechou as portas: MSN, e-mail, telefone. Ficou constrangido com a atitude.

O amor pode se transformar em vergonha. Não que tenha desaparecido e fenecido. Quando ameaçado, contrai-se em recalque. Seu ex-namorado não teve forças para lidar com os defeitos e deslizou numa vaidade amnésica e protetora. Ao tropeçar, sumiu. Ao falhar, desapareceu.

Esqueceu que a confiança não vem em linha reta, não é um conto de fadas, e sim decorre da vontade de seguir de mãos dadas e da oscilação nervosa – cheia de desvios e tentações - de superação dos medos.

beijos
Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

12:50 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 18, 2007

O ORGASMO FEMININO E O QUINDIM
Arte de Alessandro Cenci

Fabrício Carpinejar



Minha avó acordava pregando a vontade de comer quindim.
Logo cedo, no café, suspirava dedilhando o fundo da porcelana.
- Desejos de quindim, meu neto.

O doce estava vulnerável, feito na noite anterior, e ela não o retirava da bandeja. Não o tocava, sequer em pensamento.

Ela falava dele numa tortura dócil e maníaca. Uma seqüência obsessiva. A cada quinze minutos, o quindim aparecia de um jeito em sua conversa, como prendedor de palavras. Desde cedo, o dia ensolarado e ela ia lavar as roupas, mexer a horta, fazer compras, com a camada do quindim enrubescendo as idéias.

No almoço, garantia que terminaria a extravagância da espera.

Mas não, o quindim era a exclamação do final de suas frases. Postergava. Tomava o café e seguia com seus afazeres de pano e paciência.

Simulava que não estava pronto. Simulava aguardar uma jangada para circular nos canais venezianos de gema e açúcar.

A guloseima lembrava um parente distante; ela a arrumar a casa para sua visita.

Talvez a avó não estivesse pronta ao quindim. E não o esquecia e não sofria por lembrar.

Durante a tarde, o quindim permanecia surdo. Na jantar, o quindim ainda imóvel. Ela explicava a receita, o controle do coco, o tempo para construir as paredes cristalinas de seu doce. E não o devorava.

Na manhã seguinte, o quindim não mais residia nas grades da geladeira.

Ela comeu de madrugada, em segredo, depois de um dia inteiro a mastigá-lo sem os dentes.

Minha avó – e a afirmação cheira a blasfêmia - me possibilitou entender o orgasmo feminino.

A mulher é feita de narração. Ela deve engravidar o desejo. Cortejá-lo, rodeá-lo, ouvi-lo. Não dar conta dele para que ele passe a dar conta dela.

Diferente do homem, a mulher avisa o seu corpo. Prepara seu corpo. Informa seu corpo. Mantém seu corpo atento.

Seu prazer demora porque ela vai mais longe do que o homem.

O homem entenderá a mulher caso o seu prazer seja o dela, assim como toda a vida a mulher entendeu que seu prazer era o dele. Nenhuma pressa, não entrar na água, seguir o rio andando pelas margens.

Abandonar mais de uma vez, e recomeçar. Não finalizar. Abrir um lado da cama ao vento, ao som da língua, ao alarido da rua.

Permitir a ela acreditar que não conseguirá após vários adiamentos. Quando ela duvidar, prosseguir. É na desistência que o corpo cresce.

O prazer feminino mente a si. Mente que está chegando e volta, mente que está concluído e volta.

E quando vem, percebe-se que tudo o que voltou não foi desperdiçado.

12:47 PM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 16, 2007

O QUE EU DIRIA PARA VOCÊS DOIS
Arte de Modigliani
Para um casal secreto de namorados de Concórdia, sem coragem de contar o enlace para suas famílias.

Fabrício Carpinejar



O amor é uma loucura para todos, menos para os dois apaixonados.

A solidão de um apaixonado seria insuportável se não houvesse uma testemunha.

Solidão já é difícil, quando acrescida de segredo não tem cura.

Uma solidão sem acesso. Mais grave do que Barreirinhas no Amazonas, onde só se chega de canoa.

A solidão do apaixonado é uma mentira que cria uma nova mentira para proteger a verdade.

A verdade está contaminada. Não há como estabelecer a origem. O apaixonado não andará de gangorra. Não há peso. O desejo emagrece o corpo.

Os apaixonados são inoportunos, indecisos, péssimos amigos.

Não procure um apaixonado para falar as novidades. Ele reprisa sua língua.

Eles passam o dia fazendo nada. Mas é um nada trabalhoso, um nada polido, articulado, um vazio severo que engole o sono. Pensar no outro é um trabalho urgente para entregar na manhã seguinte. São folhas e folhas em branco, lidas linha por linha. Tentar escrever exige mais revisão do que escrever. Tentar falar exige mais voz do que falar.

Não estão interessados em combater o desânimo. Crescem por surtos. Aumentam por sustos.

Os apaixonados são extremamente solitários em suas decisões. Eles não têm como contar o que estão sentindo. Inclusive porque são impressões mais do que fatos. Como narrar estremecimentos, silêncios, hesitações, gestos indiretos?

Falta coerência, sobra sentido.

Ensaiam uma conversa ao tomar uma xícara de café, mas o barulho da colherinha afasta a coragem. Qualquer barulho que não seja o do corpo incomoda.

O apaixonado caça a transparência e encontra a confusão. Repete a conversa pelo esforço de retomar o fio da meada. Não pode explicar o que está acontecendo - nem ele sabe. Ele não esclarece seus lapsos. Não poderá falar com o pai, não entenderá. Com os irmãos, não entenderão. Com a mãe, não entenderá. Com os amigos, não entenderão. O terapeuta até entende, mas não vale, representa uma opinião profissional e o amor é destinado aos amadores.

O apaixonado evita o julgamento. Vira um menor de idade, quase a pedir autorização para viajar. Cochicha com os cachorros, os travesseiros e os livros. Foge de si pelos fundos da casa.

É igual a um biólogo, obrigado a cadastrar o que não estava procurando. O apaixonado é o material não-identificado que vai para a gaveta.

O amor está errado para todos, menos para os dois apaixonados.

6:11 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 12, 2007

DO LIQUIDIFICADOR À CHALEIRA
Arte de Georges Braque

Dica: A luz do corredor é a única claridade que deve entrar pela porta. Criança que tem medo do escuro está imitando um dos pais. Em algum momento, um deles consentiu em deixar a luz acesa.

Fabrício Carpinejar



O mistério de uma criança dormindo. Os braços largados, os cabelos boiando. Só uma criança sabe dormir como quem está nadando. A impressão é que o colchão é a mão de Deus. Ou uma saboneteira. Parece que ela está flutuando.

O pai e a mãe caminham no sono, rastejam, debatem-se, encolhem-se, numa atitude defensiva ou de ataque.

A criança, não. Ela encontra a serenidade própria das águas. Desprotegida na confiança.

Uma das minhas euforias de pai é se aproximar do nariz do filho e receber o fio doce e cálido de seu sopro na boca.

O filho descansando é um enigma. Mas adormecê-lo mais se assemelha a um milagre.

Alguém pode me explicar por que crianças cochilam no carro, sempre quando estamos chegando e nos condenam a subir cinco vãos de escadas com elas nos ombros?

Com dois filhos, passei por quase todas as maneiras de convencer a criança a fechar os olhos. Freqüentador da cozinha, o microondas já virou meu relógio de bolso.

O primeiro filho é a insônia. Mariana só dormia no colo, agarrada nos cabelos. Hoje ela não poderia fazer isso (não há mais cabelos). Nasceu no tempo certo. Foi minha fase de liquidificador: balançar, balançar, balançar. Não tenho certeza se ela dormia ou ficava tonta. De tanto andar pela casa, conheci todas as rachaduras das paredes e as infiltrações do corredor (pensava obsessivamente em reforma). Era obrigado a cantar, inventei uma série de músicas. Quando iria largá-la na cama, ela acordava e reiniciava tudo de novo. Você pode concluir que não dependia de academia para manter a forma. Só que me angustiava com a demora e ela se aproveitava da minha ansiedade para adiar o descanso. A primeira coisa que a criança sente é quando o pai ou a mãe querem se livrar da tarefa. Finja que tem uma eternidade e não há nenhum compromisso dali por diante. A tranqüilidade exclusiva dá sono.

Numa noite qualquer, decidi ouvir uma fita da poesia de João Cabral enquanto dava colo. Quando a olhei, ela dormiu pesadamente. Capotou. A poesia de João Cabral é maravilhosa, porém a voz de sacristão do poeta lendo diferentes poemas no mesmo tom monótono era um verdadeiro calmante natural.

Ao nascer Vicente, o segundo, acredito que me tornei mais esperto. Ingressei no meu período de chaleira. Comecei a roncar (não tive trabalho para isso) e ele nunca quis dormir entre o casal. Eu respirava barulhos insuportáveis no seu cangote. Acho que ficou traumatizado. Dorme unicamente em sua caminha, com seu leite, com seu quarto, com suas janelas pela metade. Um livro ou uma canção servem para mudar o dial da brincadeira para a quietude. Valorizamos o ritual. Cada dia ele escolhe um boneco para acompanhá-lo. De vez em quando, há mais bonecos em suas cobertas do que no armário.

Os filhos sonham quando estamos relaxados.



Minha coluna na revista Crescer, “Primeiras intenções”, p. 50, Outubro 2007, edição Nº. 167

9:24 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Outubro 11, 2007

NA GARUPA
Arte de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Na saída do cinema, no centro de Santos, um jovem anda de mãos dadas com sua namorada. Dispersa um dos braços e retira o cadeado de sua bicicleta.

A menina observa constrangida o desenlace das rodas do poste. Um nervosismo suspeito, negando a firmeza do queixo.

- Quando você me ofereceu carona, achei que tivesse um carro.
- Você tem um motorista, já é alguma coisa.

Não havia banco de trás, qualquer outro apoio formal. Ele abriu seus braços e ela sentou de lado, na barra da bicicleta. Antes de pedalar, o rapaz a protegeu de uma chuva imaginária. Foi um abraço de garoa, gentil e compreensivo. Até a esquina se espichou para olhar.

Ela estava novamente surpresa. Agora de ternura.

Partiram lentos. O som multiplicando os aros.

Foram devagar, para a casa demorar de propósito. A casa não dependia de mais nada.

O ladear chinês da bicicleta, a montaria altiva, a aceitação da própria condição financeira sem recalque ou decepção. Uma elegância que nunca será superada por quem puxa a cadeira ou abre a porta do carro a uma mulher.

Não faço idéia do nome, da idade e do time de futebol daquele rapaz, mas ele virou meu ídolo. Dentro de mim, as calhas se encontraram.

Quando criança, não aceitava a garupa. Era sinônimo de imaturidade. Ia nas costas da colega que morava na mesma rua. Menina ruiva, de sardas e pinta no nariz. Ia por obrigação. Ou não alcançava o horário da aula. Louco para chegar e abandonar o papel de coadjuvante. Só quem dirigia existia, eu não.

Recebia contrariado o pedido de não balançar para nenhum lado. Compreendia a garupa como uma limitação obediente.O desequilíbrio e a culpa do tombo seriam exclusivamente meus.

O que indica o quanto sou despreparado para receber da vida a própria possibilidade de ser levado. De confiar em quem me leva.

Não se pode trair uma alegria. Mas eu a desobedeci por desejar aparecer. Esqueci que um casal numa bicicleta forma uma única sombra.

Hoje aceito carona. Flertar o vento, e deixar as pálpebras ao léu, leves como devem ser: leque das ruas.

9:57 AM :: Comentários:

"NÃO TEM COMO SE SENTIR SOLITÁRIO COM O BLOG"
Entrevista: Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista


Para o poeta Fabrício Carpinejar, o blog é um espaço para exercer a literatura em estado bruto e também a sua permanente atualização, sendo ele seu próprio editor
Foto(s): Adriana Franciosi


O poeta e jornalista Fabrício Carpinejar criou o seu blog em 2003 como uma forma de exercício público.

- Eu queria perder aquela arrogância da gaveta. A arrogância da gaveta é eu pensar que estou pronto.

Para ele, o blog lhe oferece a liberdade da atualização e é também uma necessidade de decifrar o leitor.

DC - Como é o retorno dos leitores?

Carpinejar - É uma convivência saborosa. Tem leitores que me acompanham desde 2003 pelo blog, com seus nomes e codinomes, que eu chego a imaginar eles, como eles são. É fascinante porque eles estão fazendo um blog dentro do meu blog. Pelos comentários que eles deixam eu percebo o temperamento, o caráter, a carência, a necessidade, o que eles pensam, o que eles desejam. Não tem como se sentir solitário com o blog. Você está povoando a sua solidão, abrindo sua solidão. O blog não é uma ferramenta. É mais do que isso. É um espaço para exercer a literatura em estado bruto. E também atualização. Vai que eu escreva um texto e pense "ah não tá tão bom assim" e vá lá mudar. Eu sempre tive um sonho, como jornalista, de ser meu próprio editor. No blog, que é um espaço mais de crônica, eu faço minhas reuniões de pauta comigo mesmo.

DC - Em que momentos você costuma escrever no blog?

Carpinejar- Sempre de manhã. Chega a ser doentio. Eu faço a lista daqueles lugares comuns que podem ser desfeitos, ou seja, aquela agulhada própria da crônica. A crônica vai desfazer um condicionamento. A crônica acorda assuntos dorminhocos. Eu tenho uns quatro ou cinco temas e discuto comigo mesmo qual vai ser a crônica do momento. Hoje (terça-feira) estou pensando em escrever uma crônica sobre aquela mentira de que quem volta das férias fica mais disposto. Toda vez que eu volto de férias, eu não volto disposto. Eu volto com raiva do trabalho, eu volto com vontade de pedir demissão. Você percebe que tudo que você faz é meio inútil. Eu demoro muito tempo pra ficar disposto.

DC - Você também reproduz material que sai na imprensa.

Carpinejar - Eu sou um provador de roupas, sou vários personagens. Sempre tento chamar a atenção para aspectos que podem ser trabalhador por outras pessoas e agentes culturais nas suas cidades. E também tem a questão do "persona". Quanto mais eu me mostro mais eu me guardo. Eu sempre digo que se você quer guardar um segredo, conta. Porque, aí, você não vai ser prisioneiro dos segredos. Eu conto meus segredos e muitas vezes os misturo com a ficção.

DC - E a idéia do consultório poético?

Carpinejar - Eu parto do princípio que onde você não espera encontrar um poeta, eu vou estar. Eu sou um terrorista. Você imagina que um poeta vai responder dúvidas amorosas? Não! Mas lá estou eu. A poesia tem capacidade de dar humor. Eu recebo mais de 50 e-mails por semana de pessoas que pedem um norte, e evidentemente como um poeta eu dou o sul. As pessoas estão procurando mais atenção, audição, elas querem ser ouvidas. Acho muito importante esse consultório poético pela aproximação, pela empatia. O blog foi meu auditório. Agora eu falo sem parar.

Publicado no jornal Diário Catarinense, caderno Variedades
Florianópolis (SC), 11/10/07, Edição nº. 7853
Leia a matéria na íntegra de KARINE RUY no caderno Variedades.


12:35 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 10, 2007

CANSEI DE BRINCAR DE MODERNISTA
Ingenuidade é não ler os contemporâneos para reler os clássicos.

Fabrício Carpinejar
Arte de Francis Bacon



A nova literatura brasileira tem futuro. Ora, isso todo mundo sabe.

Quando um crítico quer elogiar um jovem autor, sem se comprometer, avisa que ele é uma promessa.

Tantas promessas que já confio que há mais santos a serem beatificados além de Frei Galvão.

Falando sério. O que fará a geração 90, ou 00, ou xy ficar não é o futuro, é perguntar se ela já tem passado.

Com quem cada autor está conversando dentro de sua obra? Quais são seus antecedentes? O que ele continua?

É possível encontrar ecos de Castro Alves nas leituras violentas e melodiosas do contista Marcelino Freire.

A crítica feita a Marcelino, autor de Contos Negreiros, é mais extraliterária do que de conteúdo. Consiste no fato dele ser midiático. É condenado pela sua visibilidade. Aparece na tevê, em festivais, declamando e interpretando com toda a ironia. Castro Alves era midiático em sua época. Não tinha televisão, óbvio, a televisão era o camarote dos teatros. Nos intervalos das apresentações, declamava seus poemas do alto de sua cadeira, enfrentando conterrâneos como Tobias Barreto em duelos verbais.

A arte do diálogo, por exemplo, que atingiu a maestria com Luiz Vilela segue com Marçal Aquino.

Escrever é continuar, trata-se da primeira lição de humildade. Não se funda nada, somente se prossegue, como professor e aluno. Escrever é gerar uma família. É gerar pai e mãe.

Talvez um dos pecados das novas gerações seja não admitir a herança. Fingem que são donos de idéias novas, elucubrações originais, grandes movimentos.

Todos, sem exceção, confessam ser filhos de Machado de Assis. É uma origem indiscutível, porém cadê as demais paternidades?

Continuar não é repetir. Quem esconde, copia. Quem prossegue, declara.

Não se deve viver de patentes. Não julgo higiênico.

Até para transgredir há um grau de dependência com quem está sendo violentado. Transgredir não é matar os mortos, eles já estão mortos, isso é necrofilia! Transgredir é ressuscitar os mortos, ressuscitar autores esquecidos.

Não ande sozinho na estrada de Jack Kerouac. Há mais lugares dentro do livro. Dê uma carona para Campos de Carvalho, Samuel Rawet, Pedro Nava e Maura Lopes Cançado. Repercutir outras vozes é refinar o estilo.

Não há vanguarda que não vire tradição. Ou algum aspirante a poeta fará de conta que Galáxias de Haroldo de Campos não existiu e repetirá novamente um livro-constelação?

Ingenuidade é não ler os contemporâneos para reler os clássicos. Aliás, acredito que todos os grandes autores se sentem culpados pelos clássicos que não leram e passam a dedicar seu último sopro a saldar as dívidas. Reler é finalmente ler.

Portanto, incito que os grandes autores passem a reler os contemporâneos.

Identifico dois nomes que são tradição e não deixam de participar da atualidade: Sérgio Sant´Anna e João Gilberto Noll. Eles não fecharam sua ficção para balanço, são absolutamente modernos ao dialogar com os escritores que vem surgindo.

Orientar é melhor do que influenciar - e isso eles exercem com uma dedicação generosa. Resulta dessa escolha a capacidade espantosa de renovação de ambos, tantos em contos como em romances.

Raduan Nassar parou de escrever. Ele sim, não sua busca. Luiz Ruffato e Milton Hatoum, cada um em sua esfera biográfica, procuram explorar os meandros da família brasileira. Um copo de cólera não transbordou o suficiente. Procure Inferno provisório, de Ruffato, a saga em três volumes da classe operária brasileira, suas relações com o mundo e fragilidades. Procure Dois Irmãos, de Milton Hatoum, e a luta desigual pela permanência de um nome e um legado.

Alguns podem rebater que Hatoum e Ruffato são tradicionais, como a apontar uma falha, uma covardia. Tradicional por quê? Pois escrevem com domínio e maestria, com transparência fabuladora? São legíveis? Graciliano Ramos é tradicional, não? Cuidado com os rótulos.

Hatoum já virou leitura obrigatória de vestibular, mostrando que a literatura contemporânea é canônica. Ruffato é um dos autores mais solicitados no exterior, ao escolher ser uma cidade (Cataguases em “O Inferno Provisório” ou São Paulo em “Eles eram muitos cavalos” ) mais do que um habitante .

São escritores com uma visão de mundo. Um jeito próprio de pegar a palavras. Não escrevem livros, escrevem universos.

Como Jano, deus romano, recomenda-se ter uma cabeça voltada para trás e outra para frente. E, se possível, por precaução, criar uma para os lados. Para cuidar da inveja dos vivos.

Leia o texto no Jornal de Debates, Portal do IG

4:16 PM :: Comentários:


Terça-feira, Outubro 09, 2007

UM ESCRITOR À MESA
Autores visitaram 10 empresas caxienses para divulgar o amor pela leitura
JANAÍNA SILVA


Juliana Pazzini (D) surpreendeu-se com Carpinejar
Foto(s): Tatiana Cavagnolli


Ao chegar para o almoço ontem, os funcionários da metalúrgica Intral foram surpreendidos por um sujeito nada convencional, gritando trechos de textos intrigantes. Era o poeta e escritor Fabrício Carpinejar participando do projeto Fábrica de Leitura.

Sabendo que é difícil ser melhor do que um prato de comida, Carpinejar deixou o microfone de lado e elevou o tom de voz. Caminhava rapidamente entre as mesas. Chegou a subir em uma cadeira e abordava os trabalhadores, sem cerimônia.

- Não é lindo quando uma mulher chama um homem de canalha? Me chame de canalha, por favor - solicitou o autor a Juliana Pazzini, 17 anos.

Carpinejar não havia enlouquecido repentinamente. Ele estava interpretando um texto seu, na tentativa de mostrar que a literatura pode falar de coisas do cotidiano.

Juliana chamou o autor de canalha. No começo, tímida. Depois, entrou na brincadeira.

- Nossa, foi uma coisa muito diferente, mas todo mundo se divertiu - disse Juliana.

O trabalhador Fernando Klein, 20, viu Carpinejar erguer seu prato, exibindo-o para todos os colegas de refeitório. Ao mesmo tempo, o escritor relatava a teoria de que é possível saber como um homem se relaciona sexualmente vendo a maneira como ele se porta à mesa.

- Não achei ruim, ele falou coisas do dia-a-dia - comentou Klein, que visitou a Feira do Livro no sábado.

Ao final da performance, Carpinejar convidou a todos para participarem da Feira do Livro até o dia 21, e anunciou a chegada da Mala de Leitura, uma caixa com 80 livros que permanecerá na empresa por tempo indeterminado.

- Foi a coisa mais louca que eu já fiz! É muito difícil abordar os trabalhadores nesse momento, pois é o único horário de lazer que eles têm. Estão almoçando, estão armados. Não com facas e garfos, mas no sentido de poder fazer outra coisa além de me ouvir - argumentou.

( janaina.silva@jornalpioneiro.com.br )

(Publicado no jornal O Pioneiro, Caderno Sete Dias
Caxias do Sul, 09 de outubro de 2007. Edição nº 9945
)

* * *

PERUCA


Foto(s): Elaine Cavion, divulgação

Peruca das letras gaúchas, o poeta Fabrício Carpinejar apareceu montado domingo de manhã, no encerramento do Encontro do Escritor Gaúcho, no Clube Juvenil. Entre um mate e outro, conferia tudo por trás das lentes coloridas do óculos, que combinavam com a cor do esmalte das unhas da mão esquerda.

Estilão, né?!

(Publicado no jornal O Pioneiro, Caderno Sete Dias, coluna 3 por 4, Carlinhos Santos
Caxias do Sul, 09 de outubro de 2007. Edição nº 9945
)

8:55 AM :: Comentários:


Domingo, Outubro 07, 2007

A NEBLINA E A CONFUSÃO DO AMOR
Arte de William Turner

Fabrício Carpinejar



A neblina abotoou seu casaco no final da manhã, em Caxias do Sul. Eram onze horas.

Estou habituado a vê-la de manhãzinha ou de noite. Foi um susto de ouvido. Porque eu a ouvi antes de tudo. Descobri que neblina faz barulho. Barulho de cavalo pastando. Barulho de velho se agachando para apanhar papéis. Barulho de vassoura de palha.

De repente, todos fumavam, crianças e senhores. Não havia como controlá-la, tomar um atalho e se desviar dela. A respiração aumentava a fumaça. A tosse aumentava a fumaça. O suspiro aumentava a fumaça. O soluço aumentava a fumaça.

Os moradores foram incitados a se olhar enquanto falavam, justamente porque não olhavam. A dificuldade facilitava o abraço. Não dava para gritar e propor gestos. Nem o assobio agia na neblina. As canções esfacelavam-se, pão dormido aos pássaros.

Ela não apareceu pedindo licença, comentando os jogos do final de semana, com educação e cuidado. É como se ela já estivesse dentro dos objetos, das casas e das pessoas e saísse de assalto ao mesmo tempo, numa passeata infatigável. A neblina de cada um atendeu uma convocação extraordinária e se lançou a almoçar com a família.

Aquela nuvem escurece por fora para iluminar a voz. Não me permitia enxergar mais de cinqüenta metros. Fiquei cego para o longe. Não podia avistar a esquina da quadra que andava. Ou contar os andares dos edifícios. Ou quem surgiria em minha frente. O mundo tornou-se uma cabine telefônica.

A neblina tem um único motivo: aceitar conviver com as dúvidas. Aceite-se não compreender com clareza o que se vive. Aceita-se ser menor do que os desígnios e o destino. Aceita-se a complicação sem que ela seja vista como uma praga e uma maldição.

E eu que gosto de ter a semana adivinhada, o mês alinhado, a rotina protegida, e eu que parto de uma segurança e uma previsão mínimas para contrabalançar os desatinos, e eu que não sei acordar sem revisar a agenda na noite anterior, não poderia tomar uma decisão que não fosse perto. Teria que suportar não depender de mim. Forçado a caminhar a curto prazo.

Não definir é admitir ser definido. Passo a ser o que não planejei. Assim como falta água e energia, a neblina pára o abastecimento dos olhos por um instante. Não preciso entender para ser feliz. Não devo responder para ser sábio.

A neblina nos desenvolve a confusão do amor. Quanto mais se pensa, menos se conclui.

7:44 PM :: Comentários:

OS PÁSSAROS APRENDERAM A NADAR
Crônica em livro é como passarinho afogado, dizia Alceu Amoroso Lima; seleção prova o contrário

Fabrício Carpinejar*



Nelson Rodrigues afirmava que a grandeza desumaniza. Involuntariamente, com esse aforismo, explicava a atração exercida por uma categoria literária considerada menor, que se põe no patamar do leitor para se comover com ele. A verdade é essa: a crônica saiu do boteco e está nos menus mais chiques de leitura.

As Cem Melhores Crônicas Brasileiras (Objetiva, 360 págs., R$ 48,90), organizada por Joaquim Ferreira dos Santos, comprova a predileção brasileira por textos leves e coloquiais cheirando ao calor da hora. É uma biblioteca inteira num único livro. Ou um bar inteiro num solitário copo. Vem na esteira das antologias Boa Companhia (Companhia das Letras), compilada por Humberto Werneck, e O Melhor da Crônica Brasileira, da José Olympio, com seleção de crônicas de Ferreira Gullar, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Luis Fernando Verissimo.

Dita como uma invenção brasileira mais por ufanismo do que pela realidade (afinal, ela se aclimatou aqui, não surgiu de nossa pena), ainda não recebeu uma definição precisa. O que é crônica? A resposta será sempre evasiva. Crônica recebe impressões, nunca conceitos. Há mais apontamentos de seus autores do que de críticos. Vinicius de Moraes esclarecia que é igual ao prazer do cafezinho e do cigarro depois do almoço. Machado de Assis conceituava como 'um falar à fresca'.

REGRAS

A escassez de verbete acarretou o apelido de vale-tudo, induzindo a crônica a ser mais o que o escritor batiza em vez daquilo que realmente faz. Tornou-se uma convenção paliativa para quando se quer falar de qualquer coisa. A confusão é reinante. Uma carta, um desabafo, uma descrição de objetos pela casa dos avôs podem ser crônica.

A crônica tem sósias por todos os lados da estante. O risco é confundir anedota e causos com ela. Contos que são crônicas e crônicas que são contos. Assim como colunas em jornais, com o cabeçalho de crônica, pendem mais à natureza de editoriais e artigos. Ou seja, a crônica é para ser um espaço da literatura no jornalismo, não para redundar o jornalismo com informações e comentários.

A antologia de Joaquim Ferreira dos Santos coloca ordem na casa. Esclarece que o 'vale-tudo' goza também de regras. Escolheu 62 autores, do século 19 aos dias atuais, e pontua a evolução do gênero a partir da criação de mestres como Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Drummond, Clarice Lispector (lamentável a ausência de Manuel Bandeira e Cecília Meireles por problemas de direitos autorais).

ACHADOS E PERDIDOS

A crônica parte de um contra-senso, um contraponto mínimo. Fala daquilo que não se fala. Descreve aquilo que abandonamos por embotamento nos olhos e conformismo. É uma segunda chance dos costumes, a seção de 'achados e perdidos' dos afetos. Como interpõe Antonio Candido, 'está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas'. É irmã caçula da poesia, pois organiza o vácuo e confere importância ao inútil e irrisório.

Nunca poderia atuar na Promotoria de Justiça. Funciona melhor na Defensoria Pública. Advoga o lado mais fraco do cotidiano. Uma ilustração é a crônica Café com leite, de Antonio Maria, que faz um pedido especial para os amantes transarem só de noite, quebrando com o rito da clandestinidade da traição. Os infiéis também merecem café da manhã e não deveriam usar lençóis emprestados.

Escrita dos instantes luminosos, a crônica é uma fotografia, o congelamento de um ato eletivo, de um fato que produz entendimento, graça ou clareza. Vai contar uma história, ainda que seja uma história bordada do nada. Diferente do conto, a história invisível já está à mostra, o avesso já está exposto, não esconde o jogo. Não muda o foco, concentra, apresenta todos os pontos de vista possíveis de uma cena. Exerce alusões inusitadas, como a de Clarice Lispector evocando a primeira vez que mascou um chiclete. Lispector compara a goma de mascar à eternidade quando sua irmã ensina que 'deverá mastigar a vida inteira'.

Simples, porém não fácil. A virtude da crônica é que o escritor deseja falar junto com o público. É uma falsa narração. Ou uma falsa dúvida. Nelson Rodrigues era o maestro das hesitações, provocando uma sensação presencial inigualável, como se estivesse escrevendo linha por linha em nossa presença e ganhando consciência no decorrer da conversa. 'Sou um obsessivo. E, aliás, que seria de mim, que seria de nós, se não fossem três ou quatro idéias fixas? Repito: não há santo, herói, gênio ou pulha, sem idéias fixas. Só os imbecis não as têm. Não sei por que estou dizendo isso.'

EPIFANIAS DO ÓBVIO

Em outra crônica na antologia, Lispector narra o sortilégio de receber uma folha no cabelo. O que ela deseja? Mostrar as coincidências entre os pensamentos e os sinais externos. Aquilo que Jung caracterizou como fusão da realidade interior com a simbólica. A cronista exemplifica. Exemplificar é sua argumentação. Não haverá nenhum corte brusco, nenhum choque como nos contos, nenhuma virada de mesa. A crônica segue acumulativa em linha reta. De uma observação estranha cria a intimidade. Retira as epifanias do óbvio. Seu texto termina com uma folha da árvore caindo em seus cílios. 'Achei Deus de uma grande delicadeza.'

O cronista não pretende impressionar e sim ter uma interlocução sincera e caseira. Ao não se dirigir para posteridade, sua mensagem envolve-se de premência e carnalidade. Um escrever sem importância que se importa com o destinatário. Uma gratuidade na superfície, uma profundidade de espírito. Influi pela despretensão. Convence porque sua seriedade é lúdica. Não projeta a voz como o romance e responde ao apelo da oralidade, simplificando idéias com desembaraço. A crônica é a beleza do gemido, a beleza da banalidade, a beleza da dispersão, a beleza da miudeza.

De um caso irrelevante, de um encontro acidental, de uma perda e incompreensão, a crônica atinge seu clímax. Zuenir Ventura é uma prova disso. Em Um idoso na Fila do Detran, compõe seu drama quando uma senhora grita que ele merece ser atendido primeiro. Ele se faz de surdo, busca despistar, para não receber esse reconhecimento de que já faz parte da terceira idade. Ele descobre que envelheceu ali. E, por ironia, ao 'renovar' sua carteira de motorista.

O que se acredita na infância e o que se deixou acreditar sempre é assunto para uma prosa interrogativa. Carlos Drummond de Andrade emprega somente palavras desativadas de sua meninice (Antigamente) e João Ubaldo Ribeiro flagra o Papai Noel na cama com a empregada. Ilusões, desilusões, uma fórmula que sempre dá certo.

PEDAGOGIA

Joaquim Ferreira dos Santos valorizou a cronologia e dividiu o livro em fases históricas: de 1850 a 1920, de 1920 a 1950, os anos 50, os anos 60, os anos 70, os anos 80, os anos 1990, os anos 2000. Sua organização é pedagógica e mais apropriada do que a separação por temas. Facilita a compreensão do estudante ao situar os textos fundadores do gênero no País com Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, João do Rio e Lima Barreto, elucidando que eles começaram a registrar a vida nas grandes cidades, puxando o cotidiano mais informal para dentro da formalidade dos jornais. E o longo 'folhetim' foi se essencializando no tamanho e na forma e virou 'ganha-pão' dos escritores dos anos 30 (Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond) até se emancipar em estilo nos anos 50, década de concorrência 'desleal' entre os periódicos cariocas: Rubem Braga tinha coluna no Diário de Notícias, Paulo Mendes Campos, no Diário Carioca e Fernando Sabino, no O Jornal.

É possível contestar a escolha dos textos, mas não seria justo. Toda seleção é subjetiva. E o organizador de livro sofre como técnico de seleção brasileira, suportando a enxurrada de palpites sobre a escalação. O máximo permitido nessa crítica é problematizar o esquete, o que não gera polêmica.

PERCALÇOS

Complicado extrair quatro textos somente de Braga, o único que viveu unicamente desse gênero e fez o gênero viver somente de si (sua poesia foi publicada depois de morto). Se quisesse, Joaquim teria condições de encher as cem melhores crônicas brasileiras tendo somente Braga como fonte. Basta lembrar as crônicas que ficaram de fora, como Um Sonho de Simplicidade, A Borboleta Amarela, Partilha, Viúva na Praia, O Morto, A Casa e Recado ao Senhor 903.

Todavia, está bem representado no divisor de águas Aula de Inglês, Homem no Mar, Meu Ideal Seria Escrever e Os Amantes (com sutileza, mostra que a realidade é que separa os casais enamorados). Figura como o campeão de incidências, ao lado do justificado Luis Fernando Verissimo. Entre as que não são omissões, Aldir Blanc aparece com uma crônica, renderia mais uma, talvez História de Amor, em que induz o leitor a pensar que está falando da esposa quando relata a convivência com a filha. Ferreira Gullar tinha cacife para ser incluído também com um par na jogada: além da lírica Sobre o Amor, a cômica Frango Tite. A geração da internet tem bons interlocutores, entretanto, é cedo para falar e se corre o risco da arbitrariedade. Fracas realmente são as peças Por que Sonhas, Minas, de Roberto Drummond, e Ter ou Não Ter Namorado, de Artur da Távola. A primeira soa como um hino panfletário e a segunda peca por trocadilhos e reflexões datadas de comportamento. Drummond e Távola carecem de outros textos mais representativos.

EIXO

Uma grata surpresa é a correspondência imaginária londrina de Campos de Carvalho. Aposta e trunfo do organizador. Risada do princípio ao fim. Sobre a pontualidade britânica: 'cada um é pontual, mas dentro do seu próprio horário'. O autor de A Lua Vem da Ásia consolidou sua fama de cronista no ano passado (morreu em 1998) com a organização de Cartas de Viagem e Outras Crônicas, pela José Olympio, reavivando colaborações do Pasquim (1972) e transparecendo uma unidade de espírito sarcástico em suas intervenções. De objeções, o livro valorizou cronistas do eixo RJ-SP e perdeu de vista os articulistas influentes em estados como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Ceará. Escolheu o caminho mais seguro e confortável da consagração e não o de diminuir o abismo regional de nomes pelo Brasil. Paulo Sant'Ana é um caso. Cronista mais popular de Porto Alegre, do jornal Zero Hora, atuando há mais de 30 anos, nem houve menção de sua existência. Ausências injustificadas são as de Affonso Romano de Sant'Anna (Pequenas Seduções), que escreve para O Estado de Minas e contou com espaço fixo por muito tempo no Globo, e de Adriana Falcão, com muitas crônicas sob aparência equivocada de contos em O Doido da Garrafa. Senti falta do humor viperino de Joel Silveira e de Fausto Wolff, que dividiriam ressonância e cumplicidade com os incluídos Millôr Fernandes e Ivan Lessa.

Além deles, José Castello, que tem ótimas crônicas de sua passagem pelo O Estado de S. Paulo. Na coleção Melhores Crônicas da Global, a pescaria seria farta. O texto O Dia em Que Adoeci de Um Livro, trazendo os dilemas de um autor ao receber um inédito e sua indecisão entre tomar o caminho da sinceridade ou da loucura estaria no nível de João Ubaldo Ribeiro (Dialogando com o Público Leitor). Uma outra falta é a do próprio Joaquim Ferreira dos Santos, de O Que as Mulheres Procuram na Bolsa, que não entrou no time para não ferir a credibilidade do volume - sua inserção apenas confirmaria o brilho dos escolhidos.

Mesmo com senões, que não comprometem em nada a qualidade da edição, Cem Melhores Crônicas Brasileiras consagra o gênero e instaura uma baliza às novas gerações, da mesma forma em que a série Para Gostar de Ler, da Ática, criou uma referência didática no fim da década de 70. Nascida para durar um dia, na glória fugaz dos jornais, e na manhã seguinte embrulhar peixes e forrar sapatos, a crônica contrariou seu destino. A maldição de Alceu Amoroso Lima de que ela em livro 'é como um passarinho afogado' não tem mais efeito. Os passarinhos aprenderam a nadar.

Fabrício Carpinejar é poeta, cronista e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007)

Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, CADERNO CULTURA, p-12
Domingo, 7 outubro de 2007


10:19 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Outubro 05, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

O SEXO SÓ ACABA ENTRE AMIGOS
Arte de Francis Bacon
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



“Olá, Fabrício Carpinejar!

Primeiramente preciso dizer que descobri seu blog só hoje, e já devoro cada linha como se eu fosse um sobrevivente de guerra à frente de um prato de comida.

Como vejo que você também dá ótimos conselhos resolvi arriscar com uma dúvida que tem me atormentando por estes dias... Bom, na verdade ainda não me atormentou diretamente, mas como vejo acontecendo isso com outros casais - que inclusive sempre admirei -, eu acabei me assustando com a possibilidade disso um dia vir acontecer comigo.

Bom, estes tempos atrás conversando com uma colega que é apaixonada pelo marido e está casada há 14 anos (ainda não tem filhos) me confessou que não sentia mais tesão pelo marido, e antes que pensasse que era um problema biológico ou de stress ela comentou que sentia muito tesão por outros homens.

Olha, Fabrício, acredito no amor, acredito que duas pessoas possam viver pelo resto da vida juntas, acredito na fidelidade, mas não quero acreditar que um dia chegarei a este ponto...

Mas também não gosto da idéia de usar fórmulas pré-estabelecidas para manter a chama do tesão entre um casal, este negócio de usar fantasia de enfermeira safadinha e mascarar algo que você não é se torna muito artificial e pouco sexual para mim.

Sou daquelas que encaram o sexo como algo natural, com seus cheiros, sons, toques e paisagens que lhe são inerentes.

Fabrício, eu até entendo que com 80 anos eu não vá mais querer transar como quando eu tinha 20, que com esta idade terei que cultivar longos e deliciosos papos sentados na varanda ou aprender a arte de esquentar meus pés nos dele.... mas me diz, como é que se pode chegar na maturidade do amor entre um casal plenamente jovem e saudável sem que haja esta perda de tesão? Me diz??

Um abraço e obrigada desde já!

Márcia”


oi Márcia,

Garanto que as fantasias de sua amiga são normais. Desde que ela não as isole e seja capaz de reuni-las em seu marido.

Assim como não existe problema do homem fantasiar com desconhecidas e guardar a coleção de revistas pornográficas e assistir vídeos pornôs.

Imaginar não é trair.

Tem um livro interessante Sexo no Cativeiro, da americana Esther Perel, da editora Objetiva. Ela comenta que fantasiar com outros homens e mulheres é sadio no casamento. O terceiro personagem não pode ser reprimido. Se ele é censurado e castigado, o risco da traição aumenta. No momento em que o marido e a esposa não podem mais sonhar, elas vão fugir da realidade.

O terceiro personagem é a manifestação do nosso desejo que equilibra o relacionamento e o renova. São emanações do passado e do cotidiano: o namorado da escola, a linda garota do supermercado, o professor da quinta série.

Fidelidade não é submissão, é independência.

O casal perfeito não são dois, porém três: ela, ele e a fantasia.

Sobre o casamento, não é o tempo que o consolida. Se existe crise dos dez, dos quinze anos, existe crise do primeiro e do segundo dia. Tudo será crise.

O casamento pode passar por vinte anos, sem perder a autenticidade. Por dois meses e já não oferecer excitação. Sei de mulheres que amaram loucamente, viveram uma década com sua companhia, e num abraço descobriram que não amavam mais. Um abraço. Não houve nada de concreto para terminar o relacionamento, assim como não havia nenhum interesse objetivo para iniciar. Não houve nenhum motivo explícito, foi um abraço. A química estava desfeita. Até o cheiro da pessoa mudou. Até o jeito de apertar os braços. O amor também cansa. E cansa porque se acostumou a ser mais amizade do que amor, mais concordância do que implicância.

O beijo vem sem as pernas e torna-se selo. As conversas passam a ser feitas no mesmo tom. O mesmo tom de janta no café da manhã, no almoço. O tom de fim de dia.

Amizade é linda, só que pacifica a veemência da descoberta. Amizade é como se fosse uma enorme claridade de noite. Amizade é um dia sem noite na relação. É sol e a insônia das coisas certas, fixas e conhecidas. É não ter mistério. É seguir mais um dia como a repetição de ontem.

Há uma cilada no casamento: queremos a segurança, mas não podemos dissipar a insegurança. A medida é encontrar uma segurança insegura. Uma segurança atenta, ansiosa, nervosa. Dizer: "ele está aqui comigo, mas ele não sou eu. Não me pertence, nem eu". Prevenir-se da gentileza automática e da posse.

Por isso, o amor é uma trabalheira. Reconquistar quando não se espera, seduzir quando se está distraído.

Para a história continuar, não deve aceitar a amizade como base. Não casar com ninguém pela amizade. Sexo é a permanência da estranheza dentro da intimidade. Não é se vestir de enfermeira ou de policial, mas não esgotar a vontade de conhecer. Intrigar, amadurecer, fazer pensar o desejo e repor o valor de cada ato pelo espanto.

Não se deve matar a estranheza entre o casal. O ardor das perguntas.

Muitos casais se compensam. Compensam os defeitos um do outro. Compensam os sacrifícios um do outro. Compensam o voluntarismo no trabalho um do outro. Compensam os filhos um do outro. Compensar não é compreender. Compreender é nunca compreender de todo, é se assustar com a resposta - para realmente ouvi-la. Confio cada vez mais que amor não é reconhecimento, e sim desconhecimento para reconhecer de novo. O amor é amnésia diante do excesso de memória que traz a amizade.

Lanço uma provocação: talvez não queira alguém que a entenda perfeitamente, a ponto de definir o que fará, mas alguém que não a entenda e não desista de tentar.

Beijos
Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

4:15 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Outubro 03, 2007

CIÚME E CIÚMES
Arte de George Grosz

Fabrício Carpinejar



Ciúme mata. Ciúme ressuscita línguas mornas.

Quem não mentiu por ciúme?
Quem não falou a verdade por ciúme?

Ciúme pode aumentar o amor.
Ciúme pode arrebentar o amor.

Foi pelo ciúme que descobri que amava. Foi pelo ciúme que descobri que odiava.

O ciúme tranqüiliza. O ciúme atormenta.

Por ciúme, cometi a mais imprudente declaração. Por ciúme, cometi o pior dos vexames.

O ciúme é o agente infiltrado. Dois patrões (a virtude e o defeito), dois empregos (a paixão e o desespero), dois salários (o início e o fim).

É um cargo-fantasma. Recebe por fora. Trafica informações para a paranóia e neurose. Mantém a loucura atenta. Exerce contrabando nas calçadas de casa, soltando quinquilharias nos tapetes do corredor. Vende artigos pirateados e fornece notas fiscais falsas.

Ciúme é doentio. Mas sem ciúme não seremos normais. Longe dele, somos insensíveis. Com ele, sensíveis em excesso.

Já sofri de ciúme e ciúmes.

Ciúme no singular é o inteligente, o velado, o contido, ajuda a sedução. Alegria de ser reparado. Quando a namorada demonstra preocupação pela primeira vez. Ciúme para cumprimentar e desaparecer. Não permanece incomodando e tomando conta da conversa, dos programas, dos horários.

Ao insistir e cobrar explicações, deparamos com o ciúme burro, ciúmes, o que não se pia de vergonha, o descarado, o preconceituoso, que destrói a empatia.

Ciúme inteligente é próprio da fagulha, mal e mal forma uma pontada. Não chega a abrir escritório. É pessoa física. Quase um charme se não fosse uma necessidade de prestar atenção.

A mulher fareja o comportamento estranho do namorado, disposto em reuniões e desculpas despropositadas. Evita o questionário mais severo, e vai aparecendo nos lugares em que ele menos espera. O ciúme inteligente provoca o terror em quem está provocando o ciúme.

(Um homem traindo ressuscita amigos antigos porque lhe faltam álibis. De repente, encontra colegas do Ensino Fundamental, do Médio, da faculdade, do futebol, para explicar atrasos. Sua vida só será igualmente numerosa no enterro).

Se ele anda aprontando, ela não menciona nada. Não prepara chantagem e escândalo, não valoriza a fuga. Inibe as tramas ilícitas ao surgir de surpresa e mostrar confiança. Ele não terá provas de que ela desconfia.

Ciúme inteligente esconde o nervosismo. A tendência é perder a paciência e descambar para a briga sobre o-que-está-acontecendo-conosco.

Não existe inquérito. O namorado se verá culpado subjetivamente. Deseja todos-os-motivos-do-mundo-para-terminar e encontrará todos-os-motivos-do-mundo-para-tentar-novamente.

Não dá para se despedir sem ofender. O fim de um relacionamento depende de um bom desaforo. Ninguém entra na briga com motivos, briga-se para procurar motivos. O ciúme inteligente elimina o barraco.

O ciúme burro, ciúmes, não tem fundamento ou noção para diferenciar cenário e amigos. É um pré-ciúme. O medo de sofrer leva o ciumento a sofrer antes.

É mais do que ciúme, é inveja do que o outro experimenta sozinho. Inveja que não permite que o outro esteja mais feliz. O ciúme burro, ciúmes, é quando a pessoa não tem vontade de melhorar para equilibrar a relação, tem vontade de piorar sua companhia para equilibrar a relação.

Cria ciúme mesmo quando não há motivo. O ciúme burro, ciúmes, cria o ciúme mais do que cria amor pelo ciúme. Acontece sem escala e hierarquia, as memórias serão extintas pelas suspeitas. Não é o caso do ciúme servir o amor, é o amor que serve o ciúme.

Seguir secretamente o namorado, instalar escutas, deixar doze chamadas e três recados telefônicos em menos de cinco minutos, escrever cartas de despedida, procurar amigos para confirmar histórias, desenvolver a mediunidade do desastre.

Não se agüenta o ciúme burro. Emburrece todo o resto, inclusive o que não se viveu.

11:17 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Outubro 01, 2007

O QUE É PRECISO TER EM MENTE
(sem mentir)
QUANDO UMA MULHER
EXPERIMENTA ROUPAS ANTES DE SAIR

Arte de Arthur Bispo do Rosário

Fabrício Carpinejar



O homem nasceu para o halterofilismo. Levantar a moral da mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede opinião ao marido.
- Linda!
(Ele pensa que ela finalmente está pronta)

Com o impacto, ela vai trocar de roupa e propõe um novo arranjo.
- Linda!!
(Ele pensa que ela finalmente está pronta)

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido.
- Linda!!!
(Ele não pensa mais)

Foram três combinações e cada vez que o marido inflacionava os pontos de exclamação, ela duvidava e alterava o conjunto. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Casal sai atrasado de casa ao tentar a democracia.

Mulher não confia na sugestão do marido, confia na observação de outra mulher.

É como se o marido fosse obrigado a dizer aquilo. Mas se ele não declarasse, o que aconteceria?

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião ao marido.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Como abarrotada?
- Parece um saco.
- Tá me chamando de cimento?
- Não, pediu para que a ajudasse, pode colocar algo que deixa a bundinha mais arrepiada.
- Tá falando que minha bunda caiu?
- Não....

Decide trocar tudo, do jeans e blusa põe um vestido. Parte ao trabalho emburrada, com a certeza de que o marido não a ama mais.

Casal sai atrasado de casa ao tentar o golpe militar.

Qualquer comentário surgindo de uma boca feminina, não agrediria.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede a opinião a uma amiga.
- Olha acho que a calça está um pouco abarrotada na cintura.
- Também acho, lembra um saco.
- Pois é, pode tentar algo para valorizar as curvas.
- Boa idéia, nunca gostei mesmo desse jeans. Usei pouquíssimo.

Homem não é espelho de mulher, nem dele mesmo. A mulher tem independência e domínio no gosto, ela o deixa assistir, apenas isso. Entenda, é texto somente para leitura.

Quando confia no acerto, não desistirá da roupa, ainda que seja um parangolé. Quando não gosta de um detalhe ou uma peça, nada a demoverá. Nada. Nem o Tratado Lógico-filosófico, de Wittgenstein.

É uma coerência secreta. O homem não está ali para concordar ou discordar, apesar do pedido ter sido esse. O homem está ali para amá-la. Do jeito que vier.

Sempre que cobrar atraso ou pressa, ela derrubará o guarda-roupa, montará um brechó em cima da cama e encherá uma caixa de campanha do agasalho com o que não presta naquele amanhecer. Fica irritada com a pressão. Mas quando ele deixa o tempo livre, sem nenhuma irritação e aviso de despejo, botará a primeira roupa que cogitar e sairá determinada da melhor escolha.

O homem nasceu para o halterofilismo. Utiliza apenas os halteres errados. Deve levantar a imoral da mulher.

De manhã, ela no banheiro, prova uma roupa e pede opinião ao marido.
- Tira só um pouquinho essa blusa para enxergar melhor a inclinação de seus ombros. Assim, está linda.
- Gostou?
- Tira só um pouquinho essa calça, para andar em suas pernas. Assim, está linda.

Casal sai atrasado - e feliz - de casa porque sempre foi monárquico.

9:43 AM :: Comentários: