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Consultório Poético

Blog

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

PORTA AUTOMÁTICA
OU AMIGO NÃO TEM PAREDES

Arte de Jean Arp

Fabrício Carpinejar



Eu esperava o instante em que a porta automática iria abrir.

Realmente cresceria em sua passagem, sem ajuda dos adultos.

Uma criança ainda não amadureceu sem atravessar sozinha a porta do shopping. É a verdadeira régua da existência.

Eu me desvencilhava da mãe já no estacionamento, corria na frente para verificar se acionava o dispositivo.

Tinha oito anos. Encostava a boca na imobilidade de vidro e sondava quantos centímetros, quantos quilos me faltavam. Fui um pequeno fantasma. Meu peso não me ajudava, pulava, ameaçava saltar, brincava de saci e a porta era indiferente. Consegui a proeza aos nove anos. Comemorei como quem descobre barba no queixo e passa a tarde esticando o fio para não extraviar sua localização.

Buscamos atravessar a vida de amigos e ela se fecha bem na nossa frente. Como a porta automática.

Paro no tapete, cavo o chão com os pés e sou transparente.

Amigos são raros, conhecidos são muitos. Quer saber qual a diferença entre um e outro? No momento em que começamos a questionar e nos interessar, no momento em que formulamos o que gostaríamos de descobrir, no momento em que percorremos as curiosidades, o conhecido se fecha e o amigo se abre. O amigo tem a paciência de repetir. O conhecido suporta apenas a abordagem inicial. O amigo expõe suas fraquezas como prova de confiança. O conhecido esconde suas fraquezas para não se incomodar. Amigo é um conhecido com humor. Conhecido não tem humor, pressupõe que está sendo testado. Amigo tem autoridade; conhecido, autoritarismo.

Amigo não tem vergonha de dar a mão. Tem a mão mais aberta do que qualquer ferida. Conhecido dirá “chega!” diante da primeira ameaça de invasão. Ao perceber que não tem domínio sobre as respostas, reage com violência. Amigo desarma com o riso.

Conhecido enxerga pedra em tudo, inclusive no bolinho de bacalhau. Amigo come o bolinho de bacalhau. Conhecido leva a sério as bobagens. Amigo faz as pazes com novas bobagens.

Nesta semana, uma amiga ficou irritada quando comecei a fazer perguntas. Conversa de bar, alegria de colecionar bolachas sobre a mesa. Argumentava que a memória é submissa. Minha tese: o desejo manda na memória, guarda ou esconde as lembranças dependendo do seu interesse. Ela confessou de que se lembrava de tudo. Argumentei que não era possível. Citei um exemplo e ela explodiu. Transbordou aspereza, como se estivesse saqueando sua história sem autorização.

“Pára de perguntar, não me interessa responder!”

Um pouco mais e me pedia para apresentar um mandado de segurança. Avermelhou, não usou o elevador da palavra, subiu o pescoço pela escada. Seca e incisiva. Uma mulher linda, quando rude, é muito mais grosseira.

Lógico que confundi sua reação com uma brincadeira. Tentei oferecer um abraço e ela foi ainda mais contundente. Demorei a entender que era sério.

“Fica com suas esquisitices! Não quero participar delas.”

Eu me calei, constrangido. Não havia motivo para a desproporção de sua raiva. Notei que não a conhecia, conhecia sem conhecer, foram cinco anos com a aparência tranqüila de intimidade por e-mails ou cafés. Não era intimidade. Muito menos desejava se apresentar.

Ela não se desculpou ou lamentou. Achou muito natural. Seu orgulho era maior do que a amizade.

Avisou que fui agressivo, que a emparedei.

Não, não a emparedei, ela era a parede.

5:53 PM :: Comentários:

TRISTEZA
Arte de Manet



A edição de dezembro será a última da revista Entrelivros. Estou de luto. Mais uma qualificada e corajosa publicação de literatura que se encerra. Até quando?

5:49 PM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 27, 2007

A FÉ DOS PEQUENOS
Como o filho transforma a fantasia de um pai em sua realidade

Fabrício Carpinejar



Meu filho acreditava em mim. Quando ele completou três anos, montei uma caixa mágica. Uma caixa de papelão simples, com estrelas e outros desenhos inacabados de adultos. Uma mensagem insinuante advertia numa das abas: “Não mexer. Risos perigosos”. A caixa ficou instalada na área de serviço. Num local pouco acessível, mas que ele pudesse enxergar. Colocava perucas, chapéus, óculos coloridos e piscantes, pulseiras, buzinas, spray de espuma e o que encontrasse nos camelôs. A caixa não tinha fundo. Devia tomar cuidado para enfiar a mão, ela tinha a sucção de um aspirador de pó. O conteúdo se mexia, trocava de lugar. Puxar algum brinde remontava à arte de uma pescaria. Cada coisa retirada de seu interior contava com a reposição automática. No começo, Vicente tremia de alegria. Mariana, a irmã mais velha, ajudava a firmar o arrojo das descobertas. Para a criança pequena, o susto é uma alegria. Temer é ganhar coragem e avançar um pouco mais. Ele foi se infiltrando na fantasia. A cada quinze dias, consultávamos as novidades. Tirávamos as mulheres do quarto e girávamos no espelho com as bugigangas. Passei por situações hilárias. Ao esquecer uma vez o volume à sua altura, entrei no local bem na hora de ser desmascarado. Ele se desequilibrou com minha voz e caiu. Culpei a caixa. Avisei que ela tinha vida própria. Nossa, ele dormiu jurando que aquilo fazia sentido. Que a caixa empurrava mesmo. Vicente cresceu e transformou a ansiedade em paciência investigativa. Procurava minhas contradições.

- Como a caixa nasceu, pai?
- Do ventre da casa. Ela estava aqui quando nos mudamos.
- Se ela é importante, por que a esqueceram?
- Para que pudesse servir novamente a uma criança.
- A caixa é minha, então?
- Não, é da casa.
- Mas, pai, tem os mesmos óculos no shopping.
- A caixa entrega óculos para todas as lojas do mundo.
- Onde ela guarda o dinheiro que ganhou com os óculos?
- Meu filho, tá na hora de jantar.

A caixa era mágica, o pai não. Numa manhã, fiquei desesperado: perdi minha agenda. Atrasado por isso nervoso, ou nervoso por isso atrasado. Vasculhei os cantos e nada. Depois de perguntar para a esposa, a filha, restou olhar bondosamente para ele:
- Você viu minha agenda laranja?
- Procure na caixa mágica. Ela é muito faminta.

Exato, lá estava a pequena maldita.

- Sei que a caixa não é mágica, pai. Prometo não contar a minha irmã, para ela continuar brincando contigo.

Meu filho agora acredita nele.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, p. 48, Número 168, Novembro de 2007

5:45 PM :: Comentários:

ÚLTIMO DIA

As inscrições para a nova turma do Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos terminam nesta quarta (28/11). São quarenta vagas. O vestibular de verão acontece na manhã e tarde de sábado (1º/12), no câmpus de São Leopoldo (RS). Quem tem mais de 25 anos, pode escolher o processo seletivo alternativo e fazer somente a redação. Aqui.

5:39 PM :: Comentários:

CARLOS NEJAR EM PORTO ALEGRE



5:32 PM :: Comentários:


Domingo, Novembro 25, 2007

CONVERSA DE HOMEM
Arte de László Moholy-Nagy

Fabrício Carpinejar



"Quero ver se é homem", "diz que é homem", "se não fizer isso, não é homem", "tá parecendo um boiola".

Desde fedelho, o homem perde décadas de sua vida comprovando sua masculinidade. Com os amigos da escola, dentro de casa, na rua com as meninas, na fase adulta com as mulheres e os amigos do trago.

Ele é testado todo momento. Na balada ou no churrasco. Na rua ou no estádio. Ser homem não é natural, é um condicionamento. Um exame infindável de testosterona intelectual. Uma provação incessante, que se inicia nas brigas infantis e não termina com a morte.

Quem já não teve uma mulher em sua história que gritou: "Você não é homem!"? Só para irmos lá e arrancarmos um beijo na boca. Não é triste ser submetido a um concurso público da própria condição?

Observe uma roda de amigos num bar. Haverá provocações de quem é mais macho no grupo. Piadas involuntárias, sempre colocando em dúvida a conduta sexual. Colegas se ofendem como uma forma de amizade.

É uma armadilha. Como o homem pode exercitar sua sensibilidade, obrigado a reiterar seu sexo eternamente? Ele passa maior parte de seus dias se defendendo. Confunde camaradagem com redundância. O que o transforma num IDIOTA, pois se repete e repete sem parar as insinuações coletivas. Como é possível manter as mesmas refregas do jardim de infância à universidade? O homem não ousa, não investe, não contraria o perfil pré-estabelecido para descobrir o que gosta e contar como gosta.

Dói ser homem, é cansativo ser homem. Sim, os homens têm facilidades: mijar de pé. Falei facilidades, retiro, o homem tem uma facilidade: mijar de pé. Ele é adestrado para ser influenciável e sofrer com as comparações. Será comparado ao pai, aos colegas, aos ex-namorados, aos sogros, aos filhos, aos ex-maridos, e, ultimamente, aos cachorros.

Ele não se regra pela intuição, ele se situa pelos outros. Batendo nos ombros, nas costas, exercendo os cumprimentos aos empurrões, ameaçando com indiretas e fiscalizando quem demonstra sair da linha. Homem vive denunciando seus iguais para não revelar seus segredos. Homem é delator. Homem nunca está em si de tanto que espia e controla seus vizinhos.

Na escola, as conversas apenas giravam em peitos, bundas e buceta. JURO. Eu nem tinha condições de comentar alguma coisa. Minha experiência era quase nula. Avaliando bem, era nula. Das páginas médicas da Barsa. Mas era formado a tratar a trinca erótica com vulgaridade. Caso não soltasse um palavrão, não seria aceito.

Ser aceito e se aceitar são coisas bem diferentes. Na infância, meus amigos ou se reuniam para o futebol ou para comentar detalhes sórdidos. Eu não tinha o que acrescentar ao assunto. Demandava um tremendo esforço para não ser localizado como marica. O segundo grau seguiu a mesma sina. Amigos chegavam a ficar debaixo da cama enquanto casal de colegas transava. Claro, com o consentimento do cara, que enrolava a menina no discurso para não identificar os penetras. Logo a menina era classificada como piranha e o comedor, herói. Com pastelina e coca-cola, narrava o que ela aprontou ou deixou de aprontar.

Os homens aceitaram sua burrice. Reforçam seus preconceitos e fobias porque é complicado alterar a virilidade adquirida pela insistência vocabular.

A noção de que todo gay é promíscuo provém de uma teoria machista, porque os homens temem no raso e no fundo os próprios gays que são. Os gays não pensam sempre em sexo (os homens pensam muito mais). Ao pensar somente em sexo, empobrecemos o sexo. O gay tem a liberdade de dizer o que sente, o homem é obrigado a sentir o que dizem e esperam dele.

Além disso, os gays são mais fiéis do que os próprios homens. Quantos casais gays demonstram uma lealdade que não se encontra num par heterossexual? Lembrei de cinco casais amigos antes de completar a frase.

Aviso: esse é o nervo. A inteligência gay deixa espaço e disponibilidade para exercitar seus gostos. Por isso, os gays são melhores amigos das mulheres, tem um temperamento mais refinado, um humor mais espirituoso, um desembaraço invejável para dançar, chorar e se alegrar.

Gay não precisa demonstrar que é gay. Mulher não precisa demonstrar que é mulher.

O homem é treinado a pensar em sexo ou a pensar que é homem. Não sobra tempo para amadurecer. Ele terá que decidir entre se exaurir e se renovar.

Minha alma não é feminina, desculpe a decepção. Como se a sensibilidade unicamente fosse elogiosa sendo feminina. Se a sensibilidade é feminina é mais. Se a sensibilidade é masculina é menos.

Homem sofre, homem geme, homem erra, homem ama escandalosamente.

Minha alma é masculina, o que me faz sensível para não provar mais nada.

12:13 PM :: Comentários:


Sábado, Novembro 24, 2007

HOTEL DAN
Arte de Alfredo Aquino
Para Paulo Scott, Fernando Chuí, Rodrigo Penna e Flu

“Fui como ervas e não me arrancaram”
Fernando Pessoa


Fabrício Carpinejar



Hotel Dan, São Paulo, madrugada de terça, "não é permitido visitas no quarto".

Esposa e amigos não têm visto. “Receba na portaria.”

Não há trato possível com a chave. Amantes fora de cogitação. Um inferno só em cada número. Uma dor só de cada vez. Uma solidão para cada lado.

Sou confundido com putaneiro. Gigolô. Animal. Minha filha não poderia subir comigo. “Apresente certidão de nascimento.”

Sou confundido com carniceiro. Fantasma. Boçal. Não poderia subir aos céus sem ordem superior. “Apresente certidão de óbito.”

Não existe reputação. É dormir uma noite e acordar café frio.

Muda-se o nome. É como atravessar a fronteira da Áustria e França.
Maria Antonia: Maria Antonieta.
Fabrício Carpinejar: 304.

"São as regras", avisa o jovem porteiro, que recém chegou à cidade e não decorou a direção da Paulista.

Toca-se o elevador, desintegramos. Entramos em coma, na Unidade de Tratamento Intensivo do Abandono. O celular não tem sinal.

Esqueça a família. Os pertences pessoais. Os despertences gerais. Dane-se!

No quarto, sacos de lixo no meio do nada. Toalhas molhadas, sabonetes usados. Um algodão de ouvido em cima da cômoda. Pobreza não tem faxineira.

Não encontrei baratas, mas bem que foram chamadas.
Não encontrei ratos, estão pelos bares.

Ligo para a portaria: "Desculpe, isso não vai se repetir".
O embrulho é removido do quarto, as sobras são removidas do quarto, sou removido do quarto.

"Desculpe, isso não vai se repetir." Mudo de andar.

Na cama, mechas, chumaços de cabelos. Uma mulher deitou há pouco naquela cama.
Uma mulher morreu há pouco seus fios castanhos naquela cama. Uma hora atrás, dois dias atrás. Deus é o tempo parado.

Enterro-me em cova dupla. Isso não vai se repetir.

A lua foi embora da calçada. O sol ultrapassa veloz o sinal amarelo da cortina. Na esquina, o brechó coloca suas roupas velhas novas em longos cabides na rua. Um outro vendedor desembrulha a lona de calçados. Três pares de sapatos por um preço de um.

O purgatório está aberto, saiam.

Hotel Dan, São Paulo, não há consolação.

4:25 PM :: Comentários:

DICIONÁRIO MÁGICO DE MEU FILHO
Arte de Miró



Vicente, 5 anos, anda impossível. De uma pergunta, olha o que inventou de responder:

- O QUE É RELEVANTE?
- Um telhado com muitos passarinhos.
- Um tênis molhado.
- Uma galinha comendo uma lagarta.
- Uma mulher pelada com papelão nos seios.
- Uma sombra engolindo o vôo do avião.

1:02 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 23, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

CONTINUO APAIXONADA PELO MEU EX-NAMORADO
Arte de László Moholy-Nagy
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Oi Fabrício!

Acho que sou uma pessoa de extremos... não gosto do meio termo. Prefiro tudo muito claro, definido (não necessariamente definitivo). No momento tenho um questionamento, que me leva a extremos. Mas parece que pela primeira vez o meio termo me conforma... A verdade me trará muita luta ou muita dor e não me sinto preparada pra chegar sozinha a uma conclusão. Sendo assim, vamos ver se você me ajuda.

Sou casada. Encontrei um ex-namorado que também é casado. Um dia ele me disse que se arrepende profundamente de não ter namorado comigo de verdade. Que eu era realmente a mulher da vida dele. Éramos novos. Achávamos que tínhamos uma vida inteira pela frente. E não nos levamos a sério. Passados 18 anos, nos reencontramos. Tempos depois ele me fez a afirmação citada acima.

Faz dois anos que nos reencontramos e por morarmos em cidades diferentes, raramente nos vemos, mas sempre conversamos. Em um dos nossos encontros ele me deu um longo abraço. Eu pedi um beijo. Sabe o que ele disse? "Não. Isso é tudo o que eu mais quero. Mas não desse jeito. Você não merece ser tratada assim. Eu não quero você pra ser um caso."

Adivinha? Sou completamente apaixonada por ele... Contudo, me resta a questão: o que ele sente por mim? Esta não foi a maior declaração de amor que eu podia receber ou o desprezo mais nobre?

Beijos
Raíssa"


Oi Raíssa!

A paixão é ansiosa. Temos sede de concluir, descobrir que a identificação é mútua e sem reservas. Esclarecer de vez para não supor que é uma alucinação solitária. Ainda mais se os dois são casados, redobra-se a vontade de resolver para dissipar a angústia de uma vida dupla.

Nesse momento, procura que ele fale para falar, que ele a beije para beijar. Não está disposta a se precipitar e pagar a conta sozinha.

Por isso, todos, todos mesmo, transformam as respostas em perguntas. Repassam a decisão. Ao invés de dizer "eu te amo", questiona:"você me ama?". Ao invés de expressar o que faria, questiona: "o que você fará?".

Vocês se denunciaram. Não há declaração que não peça cumplicidade depois. Ou algo mais.

Está concluindo: "seria melhor se ele não me contasse..."

É como vinho. Depois de aberta a garrafa, ou se toma tudo ou estraga. Você descobriu que ele também partilha do mesmo arrebatamento. E deseja se embriagar o quanto antes. Não aceita qualquer demora no cálice.

O suspense aumenta o desejo (e também a culpa). O que fazer com essa descoberta?

Não se rompe o lacre de uma safra de 18 anos impunemente. Assim que enxerga a situação. Ao mesmo tempo, não deseja que o amor diminua, até para facilitar sua chance e a abertura de um novo espaço.

Mas ele não agiu errado. Ambos estão casados. A cena poderia ser outra. Você mandando uma carta confessando que se entregaram e ele não larga a esposa, não?

Seria bem pior.

Ele tentou raciocinar e ganhar tempo.

Quando diz:

"Não. Isso é tudo o que eu mais quero. Mas não desse jeito. Você não merece ser tratada assim. Eu não quero você pra ser um caso."

Deve-se ler:

"Não. Isso é tudo o que você mais quer. Mas não desse jeito. Não busco nada sério. Eu não consigo ter um caso com você agora."

Ele projetou em você aquilo que pensa dele. Talvez seja o modo educado que encontrou para dizer "hoje não posso".

Não foi uma declaração de amor, muito menos uma declaração de respeito. Foi uma declaração de limitação.

É perigoso repetir o passado. O passado não se repete, nem retorna. O passado é traiçoeiro, porque os dois se fiam que a história não acabou, que não aproveitaram o suficiente, que não se deram importância. É uma idealização.

Será que ele não é sua ambição de recuperar (e corrigir) o que você deixou de fazer na vida?

Se ele é uma segunda chance, não adianta persistir. Todo amor é uma primeira chance. No presente.

beijos
Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

4:11 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 22, 2007

UMA SOLIDÃO SOLTEIRA
Arte de Vermeer

Fabrício Carpinejar



O que é ser mãe? É nunca precisar responder a essa pergunta. Diferente de pai, que sempre se explica e gosta de se explicar. Mãe parece que nasce sabendo, não importa a idade, não importa a disposição. Julga-se como um dom natural e um desejo de vida, desde o momento em que brincava de boneca na infância e formava uma família imaginária no quarto. Que menina, quando pequena, já não sonhava em trocar a roupa do filho ao vestir e desvestir sua Barbie? Ser mãe não é encarado como profissão nem deve, mas é tão estafante quanto um início de carreira. O papel é visto como prazer e dádiva. Para alguns homens, é reconhecido como o cumprimento de um ideal. Um sonho. Mas não significa que será fácil. E não é. Responde a um dos períodos de maior aprendizado, nervosismo e tensão. Durante a gravidez, a mulher se multiplica. Espiritualmente é duas. Ganha atenção dobrada. Seus pedidos mais estranhos são atendidos. Cavalheirismo e educação exagerados batem à sua porta. Não me refiro aos assentos vermelhos do ônibus e do metrô e dos guichês do banco, reservados a gestantes. Muito além disso: abrem-se os caminhos do entendimento e da cordialidade. Ela encontra uma paz de bosque, uma quietude social. Não é contestada, criticada, desafiada. Nada que prejudique o andamento da gestação. Sua fragilidade a ilumina de carícias.

DEPOIS DO NASCIMENTO, desconfia de que sua barriga serviu para um aluguel de luxo, que os familiares se importavam com a criança a vir, não com a criança adulta que se transforma em mãe. Paparicam o bebê e ela acaba de canto, alheia, sequiosa por um aconchego que não chega. Na hipótese de atravessar uma cesariana, dolorida e custosa, não receberá sequer algum questionamento sobre sua saúde. Andará sozinha, bem lenta, atrás do cortejo. A depressão pós-parto não é uma miragem, sinaliza desvalia.

De uma hora para outra, a mulher não é mais responsável pela sua existência, é responsável por duas vidas. Não poderá se dar ao luxo de pensar somente em si. Pensará em si por último, caso sobre tempo. Aliás, vejo que não é casando que a mulher deixa de ser solteira, ela muda efetivamente de estado civil ao gerar um filho. A dependência é substituída pela independência, no sentido de orientar e educar a criança.

POR MAIS QUE ESTEJA ACOMPANHADA de um marido companheiro e atento, é como se mandasse no campinho. É ela que deverá responder - ou acredita que deve responder - no surgimento de dúvidas e impasses. O homem ainda goza da regalia de coadjuvante, com atenuante de que não precisa conhecer tudo. Pai está aprendendo a ser pai, mãe está ensinando a ser mãe. A crença é que a mulher tem uma enciclopédia embutida no ventre.

Licença-maternidade não é uma licença poética. Não é apenas estacionar o filho na vaga preferencial do seio. Mal se recuperou do parto e enfrenta a multiplicidade de atividades. Não dorme pelo medo de dormir e deixar escapar um apelo do bebê e ser incriminada por omissão. A insônia é o de menos. Até encontrar a posição certa de segurar o nenê para não ter cólicas, até encontrar a melodia adequada que tranqüiliza o choro, até encontrar a postura confortável para não sofrer com dor nas costas, é uma arte.

ENTRE CUEIROS E TIP-TOPS, entre fraldas e lençóis, dificilmente será reconhecida em família pelos seus pequenos e imprescindíveis feitos. De que modo contar a terceiros e ao próprio marido o que fez? Que deu leite, arrumou as roupas, limpou o cocô, deu papinha e que essas operações tomaram o seu dia? As energias gastas em 24 horas serão reduzidas a um relato de três minutos. Dirão que é exagero. Começa a cobrança e a sensação de que não é compreendida.

O marido aparecerá em casa, leve e lépido, mais disposto (é claro), e brincará descansado com o filho, imitará sons de bichos, desfrutará da organização e de uma companhia para dividir as tarefas. Ele curte o que desejava para você. O pai é o parque, a mãe é dia útil. Resta assistir à alegria como se fosse sua.

IMAGINE UMA PROFISSIONAL HIPERATIVA mergulhar de repente nesse mundo em que nada aparenta acontecer e tudo acontece sem jeito de demonstrar? Ter a rotina reduzida a dez quarteirões do bairro, na faixa que compreende a quitanda, a farmácia, a praça e o mercado, como um exílio em sua cidade? Uma mãe recente é uma ótima crítica da televisão à tarde. Pela primeira vez, é capaz de opinar com fundamento sobre a qualidade dos programas.

De um comercial a outro, o filho cresce mais rápido do que supunha. O que adiava para fazer continuará adiando. Se nos preparativos, demorava séculos para definir a cor do enxoval, as decisões agora são rápidas e fulminantes. São para ontem. O filho largou o peito, deve então acertar a temperatura do leite, preparar a comida, optar pelas peças da gaveta. Será que ponho casaco ou não? Está quente ou frio? O ponto mais visitado é a bunda rosada da criança, para verificar assaduras. As mãos cheiram a hipoglós e não é de estranhar que a pasta branca fique nos vãos dos dedos no momento de dormir. E, quando toca o telefone, a mãe se envergonha de dizer que está segurando o filhote no colo e faz o impossível para que a voz na linha não note o incômodo. Um malabarismo para acalmar os gritos do pequeno, entender a conversa e ser educada. Mãe carrega muita culpa desnecessária. A maternidade é uma solidão desproporcional, uma solidão solteira em cama de casal.

A libido fica em baixa, não se tem a mesma vontade louca de transar. Nem é vontade, é disposição, condicionamento físico. Após desbotar o tapete do corredor no vaivém, não há como se arrumar. Arrepende-se dos espelhos no quarto adquiridos para projetar posições eróticas. O homem se aproxima dengoso e amoroso e a dor de cabeça é a saída menos explicativa. Existe um cansaço inclusive para DR (Discutir o Relacionamento).

A mulher se vê acima do peso, com os seios estranhamente grandes (talvez o homem goste da protuberância, esquece que o aumento é inchaço, dói e não é para ele) e a cintura se equilibrando com a transformação. Pela primeira vez, um maiô não é uma idéia insuportável. O corpo está longe da rigidez e para recuperar as formas antigas só com muita ginástica, musculação e sorte.

ELA ESTÁ DISTANCIADA DO NÉCESSAIRE, substituída pela sacola forrada de plástico, com pomadas, panos, bicos e o restante infinito do arsenal infantil. O máximo a fazer é paquerar a sinaleira. O único jeito de avançar no sinal vermelho é ali, com o carrinho de bebê na faixa de segurança.

Se não está aprontando e ordenando as coisas, está limpando a bagunça. Se não está encaminhando a criança ao sono, está dormindo junto. O banho de banheira da criança que encharcará o piso será o raro momento em que se ausentará, ouvirá novamente sua respiração e buscará informações atualizadas da rua.

Falei do trabalho, porém é o isolamento que mata. O pai age, na maioria das vezes, como um porteiro das visitas, cumpre a convenção social de mostrar o bebê para em seguida continuar suas conversas. Um elogio pra lá, um elogio pra cá, a criança abandona a cena e a mãe corre atrás, para atender as chamadas noturnas. Não há como acompanhar os papos entusiasmados e eufóricos. Escuta-se as risadas do quarto, com receio de que a criança seja acordada e tenha que recomeçar o acalento. Torce para que as visitas saiam cedo.

OS AMIGOS E AMIGAS DA MULHER, de contato freqüente, de repente desaparecem. No início, podem rodear o bebê, propor bilu-bilu e esganiçar dublagens. Exaltam o nascimento. No instante do socorro e exaustão, nenhuma alma por perto. Acontece uma segregação silenciosa e terrível. Alguns se afastam para não incomodar, outros para não serem incomodados.

Durante essa fase, os relacionamentos escasseiam também devido à exclusividade materna. Quem não tem filho pode achar esquisito, mas pais discorrem na mesa sobre quantas vezes a cria foi aos pés e a cor das idas e vindas! Ela encontrará dificuldade de conversar de outros assuntos que não os relativos ao seu filho. Afinal, seu universo gira em torno dele. Vai se aproximar de outras mães para dividir suas dores e delícias. Um dos motivos para que as reuniões das creches sejam longas. É um momento de desafogo e de cumplicidade.

A MÃE QUER SE SENTIR OUVIDA, falar do que incomoda na hora em que sente. Não depois quando já se confortou. Ou antes quando não entende. Tal jornal – mãe é para ser lida no dia. A pior coisa para ela é estocar sentimentos e apreensões, como quem guarda inutilmente papel velho. Mãe deve dizer o que a confunde de pronto e ser respeitada em silêncio até o fim, para que a preocupação não seja convertida em recalque.

Quando não está ao lado da criança, mãe padece com severa intensidade. Uma saída para se distrair – ou ao retornar ao trabalho –, e está ligando apavorada para a babá, solicitando relatos minuciosos dos últimos movimentos do rebento. Pavor de que não há quem cuide melhor do que ela. Ou pavor de que alguém cuide melhor do que ela.

O QUE É SER MÃE? É nunca precisar fazer essa pergunta. O que se experimenta em segredo, o esforço hercúleo, o afeto pontual serão recompensados com a telepatia. A mãe notará que é possível esconder seus sentimentos de qualquer um, menos de sua criança, que alisará seus cabelos no desalento com o pente das unhas e nadará com alegria em seu corpo em cada abraço. E basta observar que a criança imita seu trejeito, basta reparar que a criança segura os objetos com a sua firmeza, basta reconhecer na voz dela o galho florido de seu timbre, basta cheirar o cangote e descobrir quantas fragrâncias não foram criadas, basta vê-la caminhar longe do apoio, balançando como um pingüim, basta ouvi-la dizer “mãe” com a pausa de uma reza, basta ser surpreendida com as repetições de suas idéias, basta que ela invente novas possibilidades para linguagem, basta que ela ponha a digital em um cartão, que ela retribua o “eu te amo”, e as adversidades serão esquecidas. As adversidades já serão amor.

Publicado na
Revista Cláudia Bebê, Edição 553, Outubro/Novembro/Dezembro de 2007, p. 58-64

3:47 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 19, 2007

ADIVINHANDO
Arte de Klimt

Fabrício Carpinejar



O que está fazendo?

Eu deixo de viver para me concentrar melhor naquilo que está fazendo. Não pretendo me distrair de pensar o que está fazendo sem mim. Minha ocupação é imaginar se está lendo neste dia de chuva, com as pernas para cima no sofá.

Qual será o livro? Estará gostando, com receio de que termine, ou detestando, já questionando se vale a pena continuá-lo. Se bem que em dia de chuva nenhum livro termina, todos os livros começam.

Qual é a cor de sua solidão? Creme, igual às paredes de sua infância? Você come verdura por obrigação? Ou se acostumou a esquecer o gosto pelo tempero?

Não atendo o telefone, não vou me dispersar em adivinhar o que está fazendo. Qual roupa que escolheu ou apenas recolheu uma coberta sobre os ombros, como uma afogada ainda traumatizada pelos últimos pensamentos? Será que você está ansiosa ou cansada? Invejo a lenta aproximação da claridade em seu pescoço, fazendo seu perfume subir à superfície com mais fragor.

Já foi ao banheiro? Você me ensinou a arte de aguardá-la na porta de um banheiro. Eu aprendi a esperá-la. O homem aguardando sua mulher no corredor é sempre um tarado. Ao fingir que não é tarado, termina sendo mais suspeito.

Na verdade, sou tarado por sinais. Um gato no muro, um carro com alto-falante vendendo frutas, pássaros ofendendo os vizinhos são carteiros de seus pressentimentos.

Tanto que estou procurando definir se está pensando em mim com a mesma freqüência que vai à cozinha para deixar uma xícara suja.

Seu pé está gelado, você observa o par de meias e vê que uma unha está arranhando o tecido. Pega uma lixa, irritada que é domingo e o salão está fechado. Uma unha fora do lugar estraga a harmonia. Desiste, e tenta procurar o par de brincos verdes. Brincos ajudam a escutar melhor. É uma aldrava de janela. Você acha graça do que disse, repete: "brinco é uma aldrava de janela". Olha ao lado, não estou.

Quantas frases eu guardei para um texto só porque você riu? Eu achei que eram importantes porque você riu. Você ri e eu acho importante, eu me acho importante porque me assiste.

Nesse momento, eu adivinhando o que está fazendo coincide com você imaginando o que estou fazendo. É quase como estar junto.

Nossas ausências são tão improváveis que se negam ao mesmo tempo. Seu sofrimento é educado, não vulgariza a dor a ponto de expulsá-la. A dor é mais um cachorro pela casa.

Você mexe no computador, lê alguns e-mails antigos que mandei, caça algo que não revelei, você me corrige, me legenda e não chega a nenhuma conclusão. Eu sou seu silêncio submisso. Um silêncio que não a desespera quando estou longe. Em sua companhia, meu silêncio a atormenta. Eu tenho que estar falando e me explicando para que não me perca. Se não falo, eu a vejo me procurando enervada. "Onde está com a cabeça" "Onde está com a cabeça?" Você ama minha falta de palavras, mas não consegue sustentá-la.

Confia que meu silêncio a trai. Mas meu silêncio é quando sou mais fiel. Quando não brigo.

O que anda fazendo que não sei? Será que está alegre e despreocupada, nem aí para qualquer distância? Duvido, sua boca é muito vaidosa para não me mastigar.

Você me assusta com sua ternura contida. Ela pode explodir com uma canção de sua adolescência, uma conversa com a mãe, uma conta atrasada. Pode explodir sem motivo.

Você me assusta porque encontra o escândalo unicamente no amor. Fora dele, é discreta e reservada. Fora dele, não a conheço.

Vive me ameaçando, pressionando, provocando a nadar somente com os pés. Sua alegria é um surto. Sem licença e vergonha.

Pede para que espalhe a porra pelo seu corpo. Pelos seios. Pela cintura.

Você me engole com raiva.

Eu sou seu, só seu. Mesmo quando não estou ao seu lado.

11:46 AM :: Comentários:

PRIMEIRO POPULAR DE LITERATURA E RUÍDO

21/11 (quarta), 19h30, São Paulo (SP)
SESC Consolação


Canções, poemas e crônicas ao lado de Fernando Chuí
Rua Dr. Vila Nova, 245
Vila Buarque São Paulo - SP 01222-020
Entrada Franca

ENTENDA:
PRIMEIRO POPULAR DE LITERATURA & RUÍDO
Apresentado pelo escritor Paulo Scott, o Primeiro Popular é composto por cinco blocos de intervenções literárias e musicais, marcadas pelo improviso e realizadas por duplas ou trios de convidados, que duram cerca de 20 minutos cada. Sob parcerias inéditas e consagradas, aglutina nomes da produção literária e musical urbana contemporânea.


Dia 21: Paulo Scott (RS) & Flu (RJ); Xico Sá (SP) & Joca Reiners Terron (SP): Valério Oliveira (SP) & Nelson Oliveira (SP): Fabrício Carpinejar (RS) & Fernando Chuí (SP):Fernanda D'umbra (SP) & Flávio Vajman (SP).

OUTROS EVENTOS:

23/11 (sexta), 11h, Sapucaia do Sul (RS)
Palestra na Escola Vanessa Ceconet

23/11 (sexta), 19h, 21ª Feira do Livro de Gravataí (RS)
Bate-papo: Consultório Poético
Local: Parcão (centro de Gravataí)Realização: Fundação de Arte e Cultura (FUNDARC) / Prefeitura Municipal
Contato: viviane.soares@brturbo.com.br

23/11 (sexta), 20h, 21ª Feira do Livro de Gravataí
Em Busca do Tempo Perdido, talk-show "As melhores dentre as piores músicas cafonas"
Com Frank Jorge
Local: Parcão (centro de Gravataí)
Realização: Fundação de Arte e Cultura (FUNDARC) / Prefeitura Municipal
Contato: viviane.soares@brturbo.com.br

27/11 (terça), 14h, Porto Alegre (RS)
Palestra na escola Pepita Leão (Passo das Pedras)

28 e 29/11 (quarta e quinta), 19h, Curitiba (PR)
31ª edição do Concurso Palavra Viva do Colégio Positivo
Teatro da Pós-graduação do UnicenP
Palestra no dia 28 aos alunos (e pais) da Educação Infantil às 4ª séries (previsão 600 pessoas)
Palestra no dia 29 aos alunos (e pais) da 5ª série ao Ensino Médio (previsão de 600 pessoas)

1°/12 (sábado), 19h, Londrina (PR)
Festival de Literatura - Londrix
Palestra
Contato: atritoart@sercomtel.com.br

10:08 AM :: Comentários:

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO ANTECIPA CARNAVAL


Carpinejar enquadra Jimi Joe. Frank Jorge posa de matador.

Já imaginou roqueiros sambando? E poeta?

É o que vai acontecer nesta quinta (22/11), às 20h30, no Café de Bordo (Av. João Correa, 997, Telefone: 51 35913320), em apresentação única em São Leopoldo (RS), sem possibilidade de bis ou novo constrangimento.

Frank Jorge, integrante da Graforréia Xilarmônica, entra na roda. Jimi Joe, autor do CD Saudades do Futuro, troca a guitarra pela percussão. O escritor Fabrício Carpinejar ensaia passos de gafieira.

Ruim da cabeça ou doente do pé. Assim Dorival Caymmi tachou sem dó nem piedade aqueles que não gostam de samba. Para confirmar a teoria do baiano e deixar a vida te levar, a próxima edição do Em Busca do Tempo Perdido traz ao palco canções que marcaram a trajetória desse gênero, que é uma verdadeira fotografia musical do Brasil.

Além do Samba da Minha Terra de Caymmi, o trio de apresentadores vai mostrar o que é que a baiana tem: dos acordes que descenderam dos escravos até a gravação do primeiro sucesso do gênero: Pelo Telefone (1917), passando pelos ícones Cartola e Assis Valente, isso sem contar com o samba de breque de Moreira da Silva.

Música para diversão, atravessando - no sapatinho - as rodas de samba e pagode, de onde surgiram grandes artistas da música nacional, como Alcione, Clara Nunes, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e Jovelina Pérola Negra. E para quem pensa que a antecipação do Carnaval será pouca, não dá para esquecer da irreverência de Bezerra da Silva. Para a folia ser completa, o público pode participar levando fotos de carnavais de outrora ou deixar a timidez de lado e cair na gandaia.

No clima descontraído, Em Busca do Tempo Perdido emprega uma espécie de humor cantante. Esclarece momentos históricos da cena cultural e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. É contra-indicado aos insensíveis à nostalgia. Caracteriza-se pela interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas.

10:05 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 18, 2007

UMA CAMA PERIGOSA
Fotografia de minha mãe, aos 4 anos

Fabrício Carpinejar



Não acreditava quando minha mãe relatava seus sonhos: fábulas poéticas, coloridas, impregnadas de detalhes e sutilezas impensáveis para o relato de um espírito acordado. Eu que não me lembro dos meus sonhos ou não sonho mesmo. No meu caso, são vestígios, personagens sem nexo e autoridade que penetram no confessionário de linguagem sem deixar alguma repetição que me permita decorá-los.

Culpei a idade materna. Talvez os sonhos fizessem sentido e agrado aos mais velhos, encharcados de arquivos e desejos remexidos. No fundo, julgava que minha mãe inventava seus sonhos para me dizer alguma coisa importante.

Até que comecei a dormir em sua casa, em função da minha necessidade de estar mais próximo do aeroporto e não correr risco de perder os vôos de madrugada.

Foi terrível. Com a mãe na chácara, passei a descansar em sua cama. Cama de casal com travesseiros pesados e altos. Com um travesseiro, já me sentia no hospital. É quase como dormir sentado.

Há um efeito anestésico em seu quarto duro de reprimir, ampliado pelo silêncio orquestrado dos pássaros no pátio. Surgem sons, mas sons maravilhados, contínuos. É entrar dentro de um piano enquanto Beethoven está compondo.

O quarto escurece apenas com as cortinas. As janelas dando de ombros para a intensidade do sol. Como em hotel.

Preocupado com o horário, comecei a perder os compromissos, o check-in e me atrasar ainda mais. Os sonhos são tão reais, que me acordo cansado, como se já tivesse vivido meu dia por antecipação. Recordo dos rostos que vejo, das palavras que digo, das frases que pensei dentro dos sonhos. É uma fidelidade deliciosa e horrível. É como ser visitado pelos mortos e descobrir que não há nada em casa para oferecer. Lembro mais dos sonhos do que aquilo que vivi na data anterior.

O quarto de minha mãe é místico. É santo. Encontrei um atalho para o paraíso - ou ao inferno de não ter sido. Eu me acordo chapado, nostálgico, como quem retorna do exílio e experimenta um longo período de reconhecimento das ruas, dos vizinhos e do próprio ar que respira. Dormir no fim do corredor da residência é escutar um idioma estranho, uma chuva russa, e assistir as vogais escorrendo no meio-fio lomba abaixo.

Tomei drogas na adolescência, nada que se assemelha ao estado de torpor alumbrado que parte daquele quarto, daquela cama.

Sei que minha mãe vai à missa a cada manhã nos últimos cinqüenta anos. Freqüentou todas as capelas e igrejas de Porto Alegre, conhece os horários das paróquias de Petrópolis ao Guarujá.

Ela reza pelos filhos ateus ou não-praticantes. Rezas acumuladas.

Economizou Deus e o escondeu debaixo do colchão.

11:16 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Novembro 15, 2007

VOCÊ ME PEDIU UM CIGARRO
Arte de Alessandro Cenci

Fabrício Carpinejar



Você foi covarde. Seu amor é forte, seu corpo é fraco. Você foi covarde como tantas vezes fui por acreditar que a coragem viria depois. A coragem não vem depois. A coragem vem antes ou não vem. Não posso amaldiçoar sua covardia. Sua boca não é rápida como suas pernas para me agarrar. Minhas pernas não são tão rápidas quanto minha boca para lhe impedir.

Você foi covarde. Pela gentileza de sempre dizer sim, repetidos sim, quando não estava ouvindo.

Já desfrutei de sua covardia, ríspido recusá-la agora porque não me favorece. Porque não fui escolhido.

Não aquecerei seu prato para servi-la. Não a ajudarei no parto. Não partirei. Serei aquele que deveria ter sido, enterrado sem morrer, o que desapareceu permanecendo perto.

Sou seu constrangimento mais alegre. Sua ferida, seu feriado.

Com o tempo, serei sua vontade de se calar. De se retirar da sala.

Não conhecerá meus hábitos de puxar o café antes de ficar pronto. De abrir as venezianas como quem procura reunir os chinelos ao vento.

Você foi covarde, ninguém iria compreendê-la. Hoje todos a compreendem, menos você mesma. Você não se compreende depois disso.

O que é imenso é estreito. O que é infinito fecha. Até o oceano tem becos e ruas sem saída. Até o oceano.

Sua esperança não diminui a covardia. Quer um conselho? Finge que a dor que sente é a minha para entreter sua dor.

Saudades ficam violentas quando mudamos de endereço. Saudades ficam insuportáveis quando mudamos de sentido.

Você confunde sacrifício com covardia. Compreendo. Eu confundo amor com loucura. Cada um tem seus motivos, sua maneira de se convencer que fez o melhor, fez o que podia.

Você me avisou que não tinha escolha. Nunca teria escolha. Você foi educada com a vida, pediu licença, agradeceu os presentes. Confiou que a vida logo a entenderia. E cederia. Engoliu uma palavra para dormir.

Não serei vizinho de seu sobrenome. Seus nomes esperam um único nome que ficou para trás.

Você não desencarnou, não se encarnou, deixou sua carne parada nas leituras.

Morrer é continuar o que não foi vivido. Vai me continuar sem saber.

Você foi covarde. Com sua ternura pálida, seu medo de tudo, sua polidez em cumprir as promessas.

Você não aprendeu a mentir. Tampouco aprendeu a dizer a verdade.

O dia está escuro e não soprarei a luz ao seu lado. O dia está lento e não haverá movimento nas ruas.

Você não revidou nenhuma das agressões, não revidará mais essa.

Você foi covarde. A mais bela covardia de minha vida. A mais comovida. A mais sincera. A mais dolorida.

O que me atormenta é que sou capaz de amar sua covardia. Foi o que restou de você em mim.

1:12 PM :: Comentários:

VEM ME TOCAR




Dois novos desenhos no jardim aéreo. Uma cuia (da semana passada) e uma guitarra (atual). Não precisava explicar, né?

12:42 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Novembro 14, 2007

MARKETING E LITERATURA
A literatura forjou no passado a imagem do escritor como alguém solitário, capaz de comungar de outro mundo e de o trazer a leitores seletos e predispostos. O bom poeta, em metáfora conhecida, é o bucólico inspirado, cuja obra se coloca por si só. Contudo, sabe-se hoje que a obra e seu autor não se constroem sozinhos: dependem de um público, o qual é paulatinamente conquistado. Nesse percurso, o artigo propõe uma nova forma de literatura e marketing se relacionarem.

Fabrício Carpinejar
Arte de Albrecht Dürer



A literatura é encarada com um negócio para editoras, um negócio para os distribuidores, um negócio para os livreiros. Mas dificilmente os escritores mencionam essa palavra, como se a criação perdesse sua aura ao lado da palavra negócio. E a arte virasse mercadoria e comprometesse seu sentido e fruição estética.

Escrever seria algo mais elevado, mais nobre, mais pessoal. Não poderia ser um negócio. Longe disso. O mais grave, a editora, a livraria e os livreiros deveriam fazer o negócio, e o escritor fecharia os olhos. Ao escritor caberia o trabalho limpo, o prazer de escrever, as complicações corresponderiam ao seu apoio. Ele vendeu a alma a Deus, e os demais venderiam a mesma alma ao diabo sem que ele soubesse. Lembro de um poema de João Cabral: “Saio de meu poema / como quem lava as mãos”.

O autor se ausentava da parte do processo editorial, para não se comprometer com os riscos. Mas era o primeiro a entrar nas livrarias, encarnar rigorosa blitz nas gôndolas e estantes e reclamar que sua obra não estava ali. Era o primeiro a dizer que seu livro não chegava e culpava a editora por possíveis fiascos e fracassos. Era o primeiro a denunciar a assessoria de imprensa por não sair nenhuma nota do livro nos jornais. Era o primeiro a amaldiçoar os leitores por não entender sua invenção. “Estou acima de meu tempo”, declarava, se possível em latim, para nem ele entender. Qualquer desaparição tinha um motivo conspiratório.

Protagonizava com gosto o papel de injustiçado. De genial vítima incompreendida. Não aceitava escrever sobre encomendas, ou sugestão externa em sua criação. Viver de literatura, imagina... Amor não se compra, ele delirava. Amor e literatura não permitem dinheiro no meio. Dinheiro suja. Literatura seria o equivalente a um voto de pobreza, um voto monástico de sofrimento e penúria. A vocação autêntica arruinaria relacionamentos e dispersaria a estabilidade.

Compreende-se a idéia romântica, a renúncia; entretanto, os poetas românticos morreram precocemente de tuberculose e males do século. Morre-se de ilusão, não dá para viver disso.

Leitor sob suspeita. Parte desses preconceitos ingênuos e infantis continua em vigor. Quando um escritor encontra o sucesso e entra na lista dos mais vendidos, a crítica logo amarra o rosto. Se o autor vende e provoca correria é automaticamente suspeito de uma espécie de “falsidade ideológica”: alguma coisa está errada para ser aclamado. Todas as críticas positivas e edificantes anteriores entram no limbo. O que mais se comenta é que “o escritor se facilitou”. Entende-se facilitar como um eufemismo para enriquecer.

O leitor é sempre menosprezado, como se não tivesse condições de discernir o que presta do engodo. Ainda vigora uma ditadura invisível. Uma ditadura autoral que tenta mandar no público. Pois, coitado, não tem sustância cultural para escolher. Seguindo esse raciocínio, Luis Fernando Veríssimo não estaria permanentemente no topo. Contradições que escondem a verdade.

O próprio Luis Fernando Verissimo já escreveu romances sob encomendas e não diminuiu em nada a realeza de seu humor. Enche a boca para falar de gula no romance “Clube dos Anjos”, da série “Plenos Pecados”, da Objetiva. Ele mesmo confessa: “minha musa é o prazo de entrega”. Só escreve com pressão. Não é um grande motivo?

Dostoievski produziu clássicos para pagar dívidas no jogo. Balzac não conceberia as mais de duas mil personagens e dez mil páginas da "Comédia Humana", de 1829 a 1848, se não tentasse aplacar seu exército de credores de Paris. A motivação não diminui o rigor e o talento. Talvez a ansiedade até aumente ambos. A ameaça de despejo elimina desculpas retóricas.

Ou será que escritor não tem casa para sustentar? Não têm filhos? Não têm contas como luz, telefone e aluguel no final do mês? Desculpe-me, eu tenho. Minha posteridade é cuidar de meus filhos agora.

Inveja. Sobre a maledicência editorial, não custa evocar Lya Luft. Romancista original, com mundo ficcional próprio, siderando em narrativas psicológicas, duras, híbridas e densas como “Quarto Fechado”, passou a ser criticada com as crônicas de “Perdas e Ganhos”. Criticada de modo tangencial, ressalta-se.

Quando “Perdas e Ganhos” foi lançado (2003), nenhum rumor negativo. Estranhamente, um ano depois, quando virou febre, inventaram de classificar o livro como “auto-ajuda”, para justificar seu rendimento comercial, na casa do milhão de exemplares vendidos. A obra mudou repentinamente de natureza e gênero pelo seu sucesso. Não se poderia aceitar que as crônicas ou a ficção pudesse alcançar tão esmagadora aceitação de público. Não é preconceito? Será que não é inveja enrustida de seriedade acadêmica?

Por que não agradecer que ela está abrindo um importante espaço para a literatura brasileira? Outros terão mais facilidade após sua passagem. O poeta norte-americano Robert Frost brincava: “Nada como uma boa cerca para fazer ótimos vizinhos”. Na maioria das vezes, as cercas são morais e intelectuais.

Na França e nos Estados Unidos, os prêmios literários andam junto da crítica e da aceitação popular. Receber um Gouncort (melhor livro de imaginação em prosa) alavanca imediatamente a saída de qualquer volume na França. Receber o americano Pulitzer significa um adeus ao anonimato. Aqui, ser agraciado com um Jabuti, o mais importante no país e que existe desde 1959, não traz descanso, muito menos garante vendas ao autor. Traz reconhecimento e uma referência de qualidade, não alívio.

Um subterfúgio pejorativo de criticar a nova geração de escritores é chamá-la de marqueteira. Faço parte dela, e posso responder por minha conta. “Ele é marqueteiro” é igual a comentar “só quer aparecer”. Não é um juízo estético, é um juízo extraliterário que almeja soar como estético. Uma fofoca, portanto.

Para criticar reputações, usa-se o expediente da personalidade, não da obra. Uma imaturidade ainda de desmerecer não tendo lido ou – ao menos – experimentado o próprio livro. É um julgamento da aparência, ao invés de ser um exame severo da solidão de leitura. Prefiro o elogio da inclusão ao elogio da exclusão.

Se marqueteiro corresponde a ter orgulho de sua obra, a garantir o sustento da literatura, a não ter vergonha de aparecer e abrir caminho, a partilhar a responsabilidade com a editora e os distribuidores, eu sou marqueteiro, por que não?

Publicar um livro é começar. De uma maneira pioneira no Brasil, jovens escritores vivem de literatura. Não somente de direitos autorais, mas do entorno, que envolve palestras, oficinas, artigos, publicação de inéditos, curadorias. É a extinção do amadorismo, nunca do amor às letras.

Vários escritores contemporâneos abandonaram seu emprego estável para seguir sua vocação. Luiz Ruffato, em São Paulo; Cíntia Moscovich, em Porto Alegre; entre tantos. E não esquecer que João Gilberto Noll, ou João Silvério Trevisan, ou Charles Kiefer, sedimentaram caminho pela autonomia uma década antes.

Há a consciência da nova geração de que ao publicar o livro não está encerrado o trabalho. Está começando. O escritor assume a posição de mediador entre a obra e o consumidor. Um ator de sua palavra. Ele não renuncia sua parte no negócio, participa de feiras, aproxima-se de escolas e universidades, fomenta o boca-a-boca, cria projetos de antologias e identifica lacunas de reflexão.

Sucesso deixou de ser fatalidade ou sorte no mundo literário. Sucesso é persistência, teimosia criativa. Um livro para ser vendido tem que ter gente dentro. O autor não está se prostituindo por comercializar suas idéias, defender adiantamento e exigir remuneração por conferências e artigos. Um trabalho como outro, nem vil, nem impoluto. Constituiu-se a combinação de necessidade, dom e merecimento. Depende disso para continuar trabalhando mais e melhor.

Não pretende afirmar-se assim que o escritor escreverá de acordo com a expectativa do leitor, escreverá com a independência de seu caráter. Mas não tem jeito de encontrar a liberdade sem inicialmente resolver a subsistência.

Transpiração inspirada. O marketing é um aliado, ao invés de ser um inimigo. O marketing talvez seja engajamento, a explicar como a nova geração está acostumada a interpretar seus textos, a conciliar performance e debate; a explicar como essa turma não foge de polêmicas e das reflexões da mídia; a explicar o quanto informa os jornais de seu percurso; a explicar o quanto seus integrantes são mais informais, acessíveis e humanos. Podem errar, mas não estornam os erros.

O espanto do leitor é ver que o autor é real. E que o autor lê o leitor tanto quanto ele. Não ocorre a submissão aos resultados, os resultados são construídos diariamente. Sacrificou-se a mística da inspiração pela transpiração inspirada. “Para atravessar a rua, necessitamos de inspiração”, sopra em meus ouvidos o sábio Manuel Bandeira.

Conversar com o público é também criar. É também poema. Não mais a imagem da timidez cadavérica, casmurra, de apontar para o livro e sentenciar que ele se explique sozinho. Não mais a imagem anti-social, balbuciante, fóbica da multidão. Predomina o desejo escancarado e primitivo de ser conhecido, afinal para que escrevemos? Quem escreve para os seus familiares e amigos, contente-se com um diário. Ou alguém abre um restaurante para funcionar como cozinha de sua casa?

A receita é simples e infalível: escreve-se para ser lido. Mesmo que seja o hermético e desafiador “Finnegans Wake”, de Joyce. O escritor percebeu que não existe um público o esperando. Ele deverá criar o público. O público nasce da importância e urgência de uma obra. Ao mesmo tempo do que o autor. Diria que são gêmeos.

Não havia público aguardando Rubem Fonseca. Ele formou seu público. Estabeleceu paradigmas inéditos de absorção da violência do cotidiano e na captação da crueza dos relacionamentos. Não havia tampouco para Machado de Assis. Senão teríamos os mil leitores do início do século passado. A literatura forma leitores. Os leitores não surgiram por osmose ou geração espontânea. Eles são provocados a ler e só vão gostar se for uma opção individual. Não adianta procurar ocupar o público de Carlos Drummond de Andrade como se fosse fechado e pronto para embalagem. Público não se herda. Público se conquista.

Links. Blogs e sites são laboratórios vivos de inéditos, firmam rede de afinidades. Não existe mais a pressa de publicar. Os blogueiros não têm aquela ansiedade de sair à tona, de emergir, conhecem seu trabalho porque saíram da gaveta e enfrentaram a exposição pública. Todo dia podem ser criticados e depreciados na caixa de comentários. Deseja prova de fogo mais espinhosa? Testaram estilos e formas. Não farão vanguarda por pose, e sim por crença. Se o trabalho é vulgar, vulgariza. Se o trabalho é elegante e inventivo, amadurece. Blogueiros podem acolher mais de mil visitantes por dia – há cronista de grande jornal que não conta com essa soma de leitores.

Até recentemente, notava-se um ranço com os escribas que migravam da rede para os livros, recebidos com ceticismo, como produtos extensivos da catarse e do marketing biográficos. Um tabu que logo mais será pulverizado com a queda da visão aristocrática da literatura, da trinca papel, caneta e isolamento. São corajosos que colocam sua reputação em jogo.

A Internet popularizou a escrita – não existe como engrenar uma época sem conversar com os contemporâneos. A Internet proporciona um desafio constante, sua facilidade de publicação impõe uma auto-censura, uma noção de responsabilidade maior. Já que é tão fácil lançar os escritos, cada um terá que se regrar, para evitar a banalização. Convertê-los em uma visão de mundo, numa serenidade de projeto. Grandes autores podem surgir da Internet (assim como o inverso é válido), não é qualquer um que sobrevive no mundo virtual por mais de dois anos.

Identifico que o autor não está passivo ao mercado. Vender, não se vender. Entende que o mercado é um regulador e pode negociar de igual para igual. Publicar um livro não será um favor do editor. Acabou-se a caridade e o coitadismo. Publicar um livro é um compromisso. Não é para menos que vem assinado.

O mercado não é um monstro de sete cabeças. Caso seja, uma das cabeças é a do escritor. E ele está pensando.

(Publicado pela revista GV Executivo, Fundação Getúlio Vargas, Volume 6, Setembro/Outubro 2007, p. 35-39)

6:33 PM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 13, 2007

ESPERO MEU AMOR COM MUITOS BOLSOS
Arte de Alberto Burri

Fabrício Carpinejar



Vó tem sabedoria. E não é mãe para devolvermos as crises. Não é mãe para culparmos por isso ou aquilo.

O problema nunca foi minha mãe, é que ela sempre esteve mais próxima para ouvir os meus problemas e a relacionei diretamente com eles. Mãe, problema. Problema, mãe. São sinônimos, não? Para quem telefonamos na hora difícil? Óbvio, mãe! Telefono para meu pai quando resolvi a tragédia.

Minha mãe deveria ter sido minha avó, mas não teria sido tão bem criado.

Avó é nossa mãe depois da saudade.

Aos sessenta anos, Nona Elisa Margarida desejava saias com bolsos, camisas com bolsos, pijamas com bolsos (no interior, um dos hábitos mais prazerosos era chegar do trabalho, botar um pijama e pairar com uma cadeira na calçada para tomar chimarrão e entardecer miúdo, quase lua parando).

A avó decidiu que seu luxo era viver com bolsos. Assim como os fotógrafos e seus coletes acolchoados. Assim como os cobradores de ônibus e seus trocos contados. Assim como os donos das fruteiras e suas canetas falhando.

Bolsos a mancheias. Para levar o terço, o dinheirinho, o canivete e as chaves da casa. E bolsos vagando para colocar as mãos quando ficasse mais frio.

Nos seus bolsos, lembro que havia manchas de figos. E alguns prendedores esquecidos quando saía a toda para recolher as roupas com a chuva.

Ela ria à toa não porque era rica, mas porque seu mundo cabia exatamente consigo. Andava colada às suas necessidades. Colada à sua fé. Os bolsos dispensavam sacolas e malas: sua maleta já arrumada em si, no momento em que vestia a roupa.

Os bolsos formavam esconderijos, preparados ao pouso súbito dos grampos de cabelos, dos bilhetes de trem e dos desenhos dos netos. O que a interessava estava próximo de sua carne. Não se entristecia, mergulhava nos vãos de tecido para reencontrar sua pele macia e degustar sua velhice como quem aguarda a carta de um amor distante. Ela nunca dizia: vou morrer. Dizia que iria ver Deus um dia.

Avisava que a melhor coisa era esquecer algo no bolso para reencontrar mais tarde. Era como se ganhasse de novo o que ela já tinha.

Quando me desanimo, eu uso bolsos. Calças e camisas com muitos bolsos. O bolso é antídoto da depressão. Sempre parece que há espaço sobrando, vida em aberto.

7:29 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 12, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

O FOGO PASSA OU DIMINUI DEPOIS DA PRIMEIRA TRANSA?
Arte de László Moholy-Nagy
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Só você pode matar essa dúvida, Fabrício querido...

Estava eu discutindo - poeticamente, claro - com um amigo, e lá para as tantas, ele me disse que, quando um homem quer muito uma mulher, ele fica naquele fogo todo, naquele assédio, até conseguir ir pra cama com ela, e que depois, o fogo passa, um pouco, e a chama fica mais baixa. Disse que pode perder a graça.

Eu, na minha posição de mulher, disse que era impossível, e que na verdade, se ambos se entenderem na cama e fora dela, o fogo vai aumentando, e os dois vão cada vez ficando mais sedentos um do outro, se realmente estavam encantados, e acabam querendo se ver todo dia, todo o tempo, como adolescentes apaixonados, até que se queiram para a vida toda, mesmo que essa vontade de vida toda passe em alguns anos.

Então, aí a dúvida...

Depois que um homem vai pra cama com uma mulher e, na hipótese de dar tudo certo, por que o fogo aumenta ou diminui?

Beijos
Cecília"


Querida Cecília!

Meu amigo escritor Marcelo Carneiro da Cunha matou a charada em tema de seu próximo livro (Depois do Sexo, previsto para março, pela Record). A equação amorosa mudou. Antigamente as pessoas se conheciam muito bem, cortejavam, namoravam, conversavam delongas e o sexo vinha como um selo do relacionamento. Uma recompensa pelo esforço interior, sempre ao final. A aproximação era lenta e gradual. Claro que havia pressa, vontade, amasso no sofá e no carro, porém o interesse era falar de sexo e expor seus gostos, explorar o corpo com a imaginação.

Agora as pessoas transam logo nos primeiros encontros, para depois se conhecer e conversar. O sexo é a entrada, uma espécie de provação inicial. Namorar só depois e nem sempre. Apresentar a família, então, em último caso, quando o casamento está consumado (lembra que era a primeira etapa?)

O sexo assumiu um espaço de fobia pessoal. Feito para não falar e se comprometer. Transa-se para não se entregar. Tornou-se um entretenimento.

Aconteceu uma transformação radical da intimidade. Sexo deixou de ser difícil, difícil é superar o mero interesse pela escolha. Aprofundar-se realmente em alguém. Deter-se num mundo e parar de fazer qualquer outra coisa. Amar alguém, sem rodeios, arreios e aparências.

Marcelo apanhou essa guinada com sensibilidade: é como se o outro tivesse que preencher vários requisitos para ser o amor de nossa vida: bom de cama, de papo, de amigos, aventureiro, disposto, afetivo, estável financeiramente, entre outros.

Viramos testes psicotécnicos. É insuportável ser avaliado quando se pretende se dar (e doer) de verdade.

Sua pergunta é novamente um exame. O fogo passa após o sexo? Se o homem não dispor de vontade para um relacionamento, passa até antes de começar. Ele já vai com esse objetivo: comer a mulher. O pior nos relacionamentos são os objetivos. Ter objetivos. Porque, ao invés de descobrir e ser impactado pela surpresa, ele vai cumprir curiosidades. Entrará e sairá da mesma forma. Quer aumentar sua virilidade pela quantidade de mulheres que se envolveu. É uma visão masculina do desejo.

Sua visão é feminina e concordo. O fogo tende a aumentar com a intimidade. Pois já não estamos nos dedicando a um momento, a uma circunstância, a um contexto, mas com o passado e o futuro da mulher. Seduzir nada é perto de conviver. A doação não tem volta.

A amizade é sensual, alcança-se um grau de liberdade e desembaraço que faz o corpo pensar mais rápido e atender com o dobro das palavras.

Afinidades devem ser exercitadas. Triste é formar cinzas sem se queimar por inteiro ou encontrar sua verdadeira altura.

beijos
Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

9:21 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 09, 2007

O FIM É LINDO
Fotografia e crônica de Fabrício Carpinejar



Minha casa é estranhamente regulada. Quando uma lâmpada queima, as outras vão junto. É um boicote que aumenta em minutos para testar a paciência. O gás da cozinha falta bem no momento da janta, e logo de madrugada, com o objetivo de me constranger ao telefone com uma lista infindável de entregadores. Se o computador estraga, o chuveiro também e o microondas sofre problemas de circuito. Confio que os aparelhos se imitam e conversam entre si. Devem reivindicar melhores condições de trabalho e uso, cobrar insalubridade ou estão cansados das extensões e da sobrecarga indevidas. O certo é que minha casa é grevista. Insurgente. Nunca acontece de algo quebrar isoladamente.

Cheguei a minha residência depois de uma série de viagens. E mal acendi a luz, puf, puf, puf. Meu dedo estalou em cada interruptor. Teve até choque. Foi engraçado, para não dizer desanimador. Corredores mexendo as sombras, as paredes escorrendo a cegueira.

Mas, um pouco antes de explodirem, as lâmpadas aumentaram sua fosforescência. Puxaram todo o resto de força para iluminarem a extinção. Estenderam seus aros como nunca antes, com a potência de um refletor.

O mesmo ocorreu com o gás de cozinha, a chama das bocas subiu com perigosa curiosidade. Poderia ouvir o fogo gemer. Ele escurecia as bordas das panelas com sua assinatura. Quase formava os dedos de uma mão.

Conclui que o fim é lindo.

Assim como as luzes da casa e do fogão, o amor perto do desastre não se economiza. Não mais se contém. É desesperadamente transparente.

Um casal diante do fim terá a grande noite de sua vida por não prever uma próxima. Sairá do esconderijo porque não se vê mais seguro. Mostrará do que é capaz. Queimará o que guardou, não fará mais nenhum jogo, esquecerá a sedução e os conselhos dos amigos. Mais intensidade do que intenção.

É o escândalo da verdade. Tímidos se transformam em terroristas, calmos ficam enervados, pacientes se portam como histéricos. Por um instante, não há medo de fazer as propostas mais desvairadas, confessar palavras reprimidas, estender os olhos como um lençol limpo.

O fim é lindo. Do crepúsculo, de uma vela, de uma chuva. O fim é esperançoso, exigente. Pancadas de beleza. O som e o sol pulam como um suicida ao avesso para dentro da vida.

O fim é lindo, é sempre um novo início. Por um milagre, a possibilidade da memória se igualar em arrebatamento ao desejo.

12:17 PM :: Comentários:

OUTRO PRÊMIO



O livro O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 2006) foi o vencedor na categoria crônica do Prêmio Livro do Ano 2007, instituído pela Associação Gaúcha de Escritores (AGEs), em sua quinta edição.

A escolha é feita por escritores para escritores, e constitui-se em importante referência de qualidade e canal de valorização do trabalho realizado pelos criadores literários do Rio Grande do Sul.

12:15 PM :: Comentários:


Terça-feira, Novembro 06, 2007

FOTOGRAFAR O INVISÍVEL
Em tempos de imagens instantâneas em celulares, dedique um pouco do seu tempo para fotografar o olfato e colecionar os cheiros da infância. Comece a capturar os códigos do seu mundo. Faça um álbum com a respiração. Antes de clicar, feche os olhos e aperte o pulmão – ele vai disparar o batimento e revelar sua vida.

Fabrício Carpinejar
Especial 4 anos de blog
Arte de Paul Klee

"Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei"
Manoel de Barros, em ""Ensaios Fotográficos"


"Como conhecer as coisas senão sendo-as?"
Jorge de Lima, em "Invenção de Orfeu




Você já pensou em fotografar o vento? E que tal fotografar o cheiro do vento?

Suba na árvore de sua infância, durante a época dos frutos. Permaneça sentado no galho, esqueça que sujará a roupa, deixe a luz entrar pelas frestas da copa, a luz vai se desvencilhar das sombras para encontrá-lo. A sensação é que está no mirante de uma igreja, perto de um sino. Um esconderijo santo, sábio. É possível localizar um por um dos pássaros pelos piares. Um está à esquerda, outro à direita. Pode apanhá-los com os ouvidos. Retire uma fruta da paciência das folhas. Não mastigue ainda, alise o veludo da casca no rosto, desfaça o pólen doce pelo lustro da cor, repare o tempo que a fruta demorou até aquele instante.

Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro do vento.

Pense nos cabelos de sua mulher ao sair do banho, pense devagar como se o cheiro estivesse recém acordando, como se ela estivesse avançando em sua direção, passando perto de você, às vésperas de abraçá-lo. No momento em que você toca sua nuca com a respiração, congele a imagem. Busque guardar o olfato com todas as suas fraquezas.

Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro do quarto.

Você já pensou em fotografar o cheiro da chuva? Veja as árvores dançando, os sacos de plástico voando como aviõezinhos malucos, as crianças correndo para casa, os relâmpagos ao fundo como lanternas tremulando no rio e no mar. Pense no som dos primeiros ruídos nas telhas, o som das calhas, o som na grama, o som na roupa, o som no balde, cada objeto produz um som diferente com a água, cada objeto é um instrumento com a água, uma orquestra está tocando só para você.

Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro da chuva.

Você já pensou em fotografar o cheiro da casa de madeira de sua avó? Ela não vive mais, a residência não existe mais? Não há problema. Tente remar de manhã, na neblina, em algum clube. Entre numa canoa, use sua disposição para avançar. Ao se fixar no meio do percurso, no meio do nada, longe das margens, largue os braços e descanse. Sinta sem medo o balançar das tábuas. Lembre o embalo da cadeira de balanço, não? Como se fossem cócegas em sua testa e orelhas, em suas costas. Alguém está o embalando novamente. Da canoa, virá o perfume do carvalho e o cortejo dos grilos e vaga-lumes.

Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro da casa da avó.

Você já pensou em fotografar o cheiro de sua mãe? Quando pequeno, onde você ficava quando ela o apresentava aos desconhecidos? Preso nas pernas dela, nas saias, certo? Girando entre a perna esquerda e a direita. Brincava de esconde-esconde, com jeito tímido, enquanto ela pedia: "Fala seu nome, diz oi, diz tchau".

Feche os olhos, lembrará do cheiro dos joelhos dela, INSPIRE, você fotografou o cheiro de sua mãe.

Você já pensou em fotografar o cheiro do seu pai? Pense quando ele levantava você lá em cima, e girava e girava, para mostrar que o amor é movimento. Não tire ainda a fotografia, espere descer, devagar. Ele colocará você de volta ao chão.

Feche os olhos na hora de pousar, lembrará do cheiro dos cotovelos dele, INSPIRE, você fotografou o cheiro de seu pai.

Você já pensou em fotografar o cheiro de seu filho? Qual seria o cheiro dele? De noite, você está contando uma história. Você observa o livro, ele observa sua boca. Você é o livro que ele quer ler. Ele pede para contar mais, você diz que amanhã continua. No beijo de apagar a luz, o cheiro do livro se mistura ao cheiro do pijama dele que se mistura ao cheiro morno da noite.

Feche os olhos no contato com a pele dele, INSPIRE, você fotografou o cheiro de seu filho.

Você já pensou em fotografar o cheiro de uma carta? De sua letra? O cheiro da lareira? O cheiro do primeiro emprego? O cheiro do primeiro amor? Você já pensou em fotografar o cheiro de sua mulher chegando do trabalho? O cheiro do recreio da escola? O cheiro do bilhete que vem junto das flores? O cheiro dos selos da carta de um amigo? O cheiro do estofado do carro da infância? Você já pensou em fotografar o cheiro da ansiedade? O cheiro da fé? Você já fotografou o cheiro das camisas retiradas do varal, o sol ainda na gola? O cheiro da aventura na mata? O cheiro do acampamento? O cheiro da espuma caindo? O cheiro da rede? O cheiro da varanda? O cheiro dos livros nas gavetas, o cheiro dos livros na estante, o cheiro dos livros na cômoda? O cheiro da comida predileta? O cheiro de domingo? O cheiro do restaurante favorito? O cheiro do sofá? Você já pensou que tudo é um cheiro pedindo para ser guardado.

Feche os olhos, INSPIRE, você fotografou o cheiro do mundo.

11:13 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Novembro 05, 2007

NÃO PERCA

6/11 (terça), 21h, Porto Alegre (RS)
Sarau Elétrico Especial
Rua João Telles esquina Osvaldo Aranha Bom Fim Fone (51) 3312.1347

Tema: O ofício de escrever
Com Cláudio Moreno, Kátia Suman, eu, Altair Martins e Jimi Joe (na canja musical)

Confira o vídeo sobre o curso da Unisinos:




7:54 PM :: Comentários:

PRÊMIO



Nesta segunda (5/11), às 20h30, recebo o Prêmio Nacional O Sul e os Livros, da Rede Pampa, na categoria Especial Poesia pelo livro "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil, 2007). A cerimônia de entrega será na Associação Leopoldina Juvenil, dentro da programação da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre.

Pós-festa: Deixo a foto da entrega do troféu. Estou vestindo terno pintado pelo artista plástico Mai Bavoso.

7:53 PM :: Comentários:

FIÉIS AO SONHO
A luta pela vocação na trajetória de quatro destacados escritores brasileiros contemporâneos. Inspire-se com eles e corra atrás daquilo que deixa você realmente feliz

Fabrício Carpinejar
Ilustração de Omar Grassetti



Escritor não nasce pronto. A profissão “escritor” não consta em teste vocacional nas universidades. No máximo, verifica-se uma inclinação às Letras do vestibulando. E parece relativamente fácil ser escritor: boas idéias, caneta e papel (ou um bom processador de textos no computador). Mas como alguém pode adivinhar se é destinado para aquilo? Qual é o segredo para deixar uma carreira estável ou um emprego seguro para se enfurnar em escrever e escrever histórias atravessando madrugadas e manhãs secretamente, sem nenhuma testemunha? Digitar um punhado de páginas, imprimir, encaixar as folhas numa espiral preta, enviá-las para uma editora e sentir um misto de orgulho e medo. Orgulho porque é seu primeiro livro, medo porque não tem certeza se o esforço valeu a pena. Trabalhar e trabalhar, longe de uma recompensa imediata. O que faz alguém acordar de manhã e dizer para si mesmo: “Eu sou escritor”? Conheça o que dizem alguns autores brasileiros que, a muito custo, conseguiram se impor no cenário das letras. E aprenda a lutar pelos seus sonhos (quaisquer que sejam eles), como eles um dia fizeram.

Cara sortudo?

Ao tomar nas mãos um livro como os contos de Os Lados do Círculo, de Amilcar Bettega Barbosa, 43 anos, nem se imagina quanto o escritor penou para estar no topo de uma pilha de volumes na livraria. Tampouco que seu autor recebeu a bagatela de 100 mil reais pela obra no prestigiado Prêmio Portugal Telecom em 2005. Mas a predisposição é comentar: “Cara sortudo!” Porém, esse mesmo autor, tão bem resolvido na pequena biografia da orelha do livro, dono de um sorriso cativante na fotografia da aba, poderia ser encontrado atendendo os fregueses do sebo Ao Pé da Letra, em Porto Alegre, no início dos anos 90. Em 1994, Amilcar estava do outro lado de um guichê do Banco do Brasil. Passa mais um tempo, está vendendo seguros. Outro tanto e o autor chegou a ganhar a vida como recepcionista de um hotel na costa lusitana.

Amilcar ainda foi engenheiro civil, profissão que exerceu por cinco anos, fez peritagens em obras no interior gaúcho, sempre escrevendo no tempo vago. Até conseguir se impor no cenário literário, ele demorou muito. Muito mesmo. Como ele relata: “Perdi a conta de quantas editoras para as quais mandei o livro. Foi recusado por todas, até que deixei de lado a idéia da publicação e me concentrei num outro livro, que terminei, enviei à editora e foi aprovado. Só depois de publicado esse livro (que na verdade era meu terceiro escrito) é que voltei àquele segundo, o entravado, Os Lados do Círculo. Retrabalhei o livro, propus de novo à editora, que o publicou. E o livro acabou ganhando o grande prêmio, não é incrível?”

Nasceu pra coisa?

Sim, a literatura é incrível, e o que há por detrás dela mais ainda. Vá até sua livraria predileta. Ali, poderá observar uma trinca de volumes de capa preta sob o título em relevo de Inferno Provisório. Romances! O autor é Luiz Ruffato. Poucas informações a seu respeito. É mineiro, tem 46 anos. Mas, ao dedilhar suas obras anteriores, o leitor destrinchará um punhado de prêmios como da Associação Paulista dos Críticos de Arte (três vezes) e Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional. Além disso, o sujeito inspirou uma peça de teatro e está editado na Itália, França e Espanha.

Mas Ruffato, acredite, já foi ajudante de pipoqueiro e vendedor de quebra-queixo aos 6 anos de idade. Depois, pela ordem, atuou como caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil (do setor de algodão hidrófilo), torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo. E desde 2003 vive apenas da literatura.

Ruffato diz que não deseja mais nada, por isso é capaz de desejar tudo. Que a pretensão dos seus pais, semianalfabetos e pobres de Cataguases (MG), era que ele se transformasse em torneiro-mecânico. “Eu superei qualquer expectativa”, confessa. “Na minha casa havia um único livro, a Bíblia, do meu pai evangélico. Eu só vim a ser apresentado a um livro quando tinha uns 14 anos, e por acaso. Um dia, meu pai conseguiu uma vaga para mim numa escola boa da cidade, onde estudavam os ricos. Eu me sentia um completo estranho no meio daquelas pessoas todas e então passei, por timidez e por exclusão, a circular pela biblioteca, como meio de fuga. Entrava e ficava perambulando por entre as mesas e cadeiras. Até que um dia a bibliotecária me entregou um livro e eu não tive coragem de recusar. Levei-o para casa, li, fiquei doente e daí para a frente passei a ser um voraz e onívoro consumidor de livros”, afirma.

Fama instantânea?

Autor de Cinzas do Norte, que vendeu 15 mil exemplares e recebeu os prêmios Jabuti, Portugal Telecom, Bravo! e APCA, o amazonense Milton Hatoum, 55 anos, navega numa maré boa de superlativos. Mas nem sempre a vida lhe sorriu assim. Sua consagração atual esconde uma luta incansável, e nada vã, com as palavras. Ele só conseguiu publicar em 1989 (aos 37 anos, portanto). Tratava-se do elogiado romance Relato de um Certo Oriente, que imediatamente conquistou os leitores mais exigentes.

Antes, Hatoum estudou arquitetura na USP, estagiou numa construtora, lecionou em faculdade do interior de São Paulo, envolveu-se em projetos arquitetônicos na década de 70, colaborou com a seção de cultura da revista IstoÉ, morou mais de quatro anos na Europa. De 1985 a 1999, entrava em sala de aula como pacato professor da Universidade Federal do Amazonas. Passou algumas temporadas na Califórnia, onde conduziu atividades na Universidade de Berkeley.

Nada mal para quem fez bicos inimagináveis na Espanha, como cantar nas calçadas de Madri. Ao lado de uma exilada argentina, Hatoum entoava alguns clássicos da MPB para completar o orçamento. “A gente aprende com os erros. Não há nada mais humano que o fracasso. Aprendi a dialogar. Escrevo um manuscrito e dialogo com os editores, os amigos. E aprendo com eles. Acho que ninguém sabe o que vai acontecer com um livro. É um grande mistério. Às vezes é um fracasso total, outras vezes pode cair nas graças do bom leitor. E não há prêmio que substitua um bom leitor, porque ele justifica a literatura. Não esperava ser lido por um grande número de leitores, e isso está acontecendo com o Dois Irmãos. Pensava que minha mãe seria a única leitora. E ela, ao contrário, tinha certeza de que meus livros seriam sucesso de público e crítica. Quis saber por que, e ela respondeu: ‘Você nunca vai saber o que é intuição de mãe’,” afirma ele.

Trabalho fácil?

Teimosia é confiança no talento. O escritor gaúcho Charles Kiefer, 48 anos, literalmente correu atrás da máquina. Foi motorista de caminhão, bancário, jornalista, passador de sinteco, vendedor de enciclopédia, datilógrafo, radialista, funcionário de cooperativa agrícola, assessor editorial, instrutor de oficinas literárias, secretário de Cultura de Porto Alegre e sub-secretário de Cultura do estado do Rio Grande do Sul.

Kiefer já vendeu mais de 100 mil exemplares de sua novela Caminhando na Chuva. Ganhou alguns Jabutis. Outros livros seus viraram argumentos para filmes. Sua ascensão contou com a solidariedade generosa da namorada, na época em que vendia peixes de porta em porta. A mãe de sua primeira filha fingia que não reparava em seu insuportável cheiro de cardume. Hoje ele não cheira mais a mar, mas não abdica de nenhuma das experiências anteriores que o ajudaram a elaborar personagens.

Outrora colono da pacata cidade de Três de Maio, nos rincões gaúchos, Charles Kiefer hoje ensina criação literária a aspirantes a escritores na PUC de Porto Alegre. É capaz de falar com propriedade da importância de partir para a rua e conhecer o mundo como ele é. “Tenho um romance, Valsa para Bruno Stein, que agora virou filme, que se passa numa olaria. Todo mundo me pergunta como é que sei tanto sobre o processo de industrialização primitivo de uma olaria. Ora, entre os muitos trabalhos que fiz na vida, um deles foi trabalhar em olaria, cortando barro, gradeando tijolos, enfornando tijolos, queimando tijolos e, finalmente, transportando os tijolos prontos num velho caminhão F-600. A viagem do escritor tem 5 mil quilômetros, mas é preciso dar o primeiro passo. Se eu escrevesse para ganhar dinheiro, já teria desistido. Eu escrevo para salvar a mim mesmo”, afirma.

Para saber mais
Livros:
Os Lados do Círculo, Amilcar Bettega Barbosa, Companhia das Letras
Inferno Provisório, (3 volumes), Luiz Ruffato, Record
Dois Irmãos, Milton Hatoum, Companhia das Letras
Caminhando na Chuva, Charles Kiefer, Ática

Publicado na VIDA SIMPLES, ps. 48-51, edição de novembro, Número 59
Confira a matéria no site da revista.

10:40 AM :: Comentários:


Domingo, Novembro 04, 2007

EM LIVROS SOBRE O NADA, AUTORES TEMATIZAM O DESAPEGO
Jovem é retratado como espectador de si mesmo, exercendo o abandono como uma opção em um mundo de clichês

Fabrício Carpinejar*

Dois livros sobre o nada. Não o nada metafísico de Flaubert. Muito menos o nada pedregoso e do descampado de Manoel de Barros. O nada fisiológico. O nada que não é uma atitude contemplativa ou uma estratégia de autoconhecimento, mas uma herança cotidiana.

Um feito com uma atmosfera séria e asfixiante, Longe de Ramiro, de Chico Mattoso; e outro, às gargalhadas, O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca. Ambos são contemporâneos. Mas, apesar do tema em comum, a falta de perspectiva do jovem na atualidade, Longe de Ramiro é o avesso de O Dia Mastroianni.

Mattoso realiza um texto torneado, preciso, com giros hipnóticos. Uma confirmação em sua estréia na narrativa longa. Na terceira pessoa, apresenta a náusea do jovem Ramiro, que se interna em um hotel durante três meses sem pôr o pé na rua. Não se entende o resultado da apatia dele, ou o que a determinou. Numa escrita subjetiva, à flor da pele, qualquer instante é tratado com suspense. Um suspense do insignificante. Ramiro não dirá o que sente, acomoda-se na total inexistência da palavra oral. Sua distração é demorar dias para tomar banho, observar o ritual da camareira, caminhar pelos corredores de roupão e reclamar do trilho da cortina. Num revezamento do seu presente com o seu passado recente, conhece-se um mundo da miniatura, de imaginação potencializada. Seu desejo é desaparecer, por isso prefere se distrair com a movimentação alheia, seja com o porteiro, seja com os obstetras congressistas no hotel. O que se conclui é que ele não se vê abandonado, exerce o abandono como uma opção. Ramiro só existe fora de si. Espectador de si mesmo.

É indiscutível a criatividade na composição do personagem. Um intelectual com transtornos obsessivos compulsivos que o revestem de uma falsa autoridade. Pensa estar decidindo algo importante do mínimo. O que deveria decidir - que é sua vida - torna-se irrelevante. A orfandade dele comove e desonera qualquer antipatia às suas excentricidades. Ele não enxerga uma árvore de uma árvore, é sempre uma outra coisa, que se desdobra infinitamente. Instaura uma “ereção concretista”, que é se excitar - dependendo de uma grande concentração - por objetos, de chapéus a aparelhos dentários.

Mattoso é um virtuoso da consciência. Seu livro é um conto longo, perde um pouco o impacto como romance, a sofrer com a prorrogação da ausência de iniciativa de um homem, e seu conseqüente desapego. Mas é corajoso até o final, não mudando o foco de desenraizamento, que no sexo atinge o ápice, já que até para a estimulação Ramiro não requer a presença da humanidade.

O Dia Mastroianni é uma matinê, que brinca desde a capa ao figurino dos personagens com o clássico La Dolce Vita, de Fellini. Leve, engraçado e absurdamente cítrico. Um dos melhores livros da última década. Não sei se será referencial de uma geração, aposto que já é de uma nova literatura, que mistura teatro, humor, desenhos e sabedoria de almanaque. Cuenca desarma todo e qualquer reparo com diálogos entre uma voz onisciente e o seu autor. Numa espécie de interrogatório policial, a voz intimida e maltrata o escritor. Os clichês e lugares-comuns são como reagentes da paródia.

O “nada” é a total ausência de densidade de enredo: não há o que explicar da história, além de alucinações, encontros em boates e restaurantes e uma confusão do que será feito no próximo minuto. Entretanto, é um nada agitado, veloz, cheio de acontecimentos. Como um filme de ação blockbuster. Cuenca encontrou a fórmula da desilusão. O problema hoje não é não ter assunto para escrever, é não ter vida para definir e fundamentar sua história. A partir das 24 horas de peripécias dos amigos Pedro Cassavas e Tomás Anselmo, cria um romance picaresco. As figuras sarcásticas, inconseqüentes e inofensivas estão à cata de uma vida mais do que de um romance. É uma inversão de Pirandello: o autor à procura de personagens.

Entre um chope e um martíni, a dupla se protege do sedentarismo pela amizade. Fica boiando pelas ruas, namorando, comprando haxixe, curtindo som e esperando o fim das conversas para falar mal das pessoas. Comparsas do tédio. As preocupações se limitam a transar com a mãe das amigas ou escutar as lições de um best-seller. Colecionam aventuras em detrimento de experiências. Os parceiros circulam do arrebatamento ao nojo e vice-versa. Volúveis, voláteis.

Assim como os dois jovens partem de terno para seus prazeres mundanos, a prosa usa fraque, carregada de adjetivos, advérbios e exclamações. Não é para acreditar, é para rir. Ao mesmo tempo em que alfineta a ausência de atitude e engajamento da nova geração, que prefere ficar na casa dos pais e casar tarde, Cuenca indica um alto grau de cumplicidade que anula o moralismo. Critica e se diverte (e não deixa de se inserir como vítima da própria crítica).

O Dia Mastroianni é uma adaptação involuntária do Cândido, de Voltaire, daquele viajante que não se rende diante dos desafios e acidentes. Basta substituir o Iluminismo pelo “Redentorismo” (de Cristo Redentor, do Rio) e trocar o otimismo da vontade pelo pessimismo. Se em Voltaire a máxima é podemos fazer tudo porque nada foi feito, aqui passa a ser podemos fazer nada porque tudo já foi feito.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor, entre outros, de Meu Filho, Minha Filha

Publicado em O ESTADO DE S.PAULO
Domingo, 4 novembro de 2007 CADERNO 2/Cultura, P. 9
Leia ainda matéria de Francisco Quinteiro Pires


5:19 PM :: Comentários:

LEITURA POÉTICA

"Em matéria de amor,
o excesso
é o mínimo
que peço"

Luiz Paulo Vasconcellos



Confira minha interpretação de cinco poemas do livro "Comendo pelas beiradas" (Tambor), de Luiz Paulo Vasconcellos. Está no blog da Rosane de Oliveira, do Jornal Zero Hora.

10:38 AM :: Comentários:


Sábado, Novembro 03, 2007

OS VERSOS ROUBADOS

Fabrício Carpinejar



Minha mãe Maria Carpi tem mais de quinze livros inéditos na gaveta.

Mais porque de repente escreveu um novo no último mês e não me contou.

Pegue o cachorro para passear e caminhe agora pela rua Lageado, em Porto Alegre, no fim da ladeira, e ela estará preenchendo uma de suas invencíveis agendas antigas na varanda. Os cabelos crespos molhados e os óculos de professora. Os passarinhos ciscando o chão e o verde cada vez mais imperioso da grama. Sua poesia jorra, é um vazamento ininterrupto, deve estar gastando toda a água de Deus ou das proximidades. Minha mãe é um encanamento quebrado.

Se existe algum autor com crise criativa no bairro Petrópolis, culpe minha mãe. Ela puxa a inspiração da área para si.

Desconfio que ela abra sua aorta com uma caneta bic azul e logo feche para despistar boatos de seus milagres.

Depois de empilhar os diários de anos como 1966 e 1969, acende a luzinha do escritório e transcreve durante semanas as laudas por temas comuns: Fome, Desejo, Dor, Vinhas. Torna-se uma bibliotecária de seus versos.

Minha mãe escreve rápido e publica lento. Nem publicaria, caso pudesse. É uma agressão vir à tona. Seu ritmo é do orvalho colando artesanalmente os frutos nas árvores. Ela se esconde. Telefona para avisar que escreveu um poema lindo, peço para que me apresente, ela adia:

- Outra hora, outra hora.

Minha mãe é a outra hora. Prepara o manancial das obras e as guarda numa arca, como Fernando Pessoa. Ela é mais inédita do que publicada.

A tinta comigo resmunga. Um poema é raro como dormir em silêncio. Para a mãe, os poemas chegam a fazer fila em sua porta.

Sua facilidade em escrever é proporcional à sua facilidade em esquecer. Não lembra nada de cor. Nem um verso. Psicografa um por um dos livros. Na memória de minha mãe, não existe backup. Uma descarga e nenhum registro. Um apagão e nenhuma letra com o perfume de suas mãos. Os poemas se desgarram da sua caligrafia para seguir as vozes dos leitores.

Achei que a desmemória materna era charme. Uma fábula para se prevenir de convites, constrangimentos, palestras, leituras públicas. Decidi comprovar. Tomei – com sigilo – um dos seus inéditos, separei três poemas e reescrevi em minha letra. Não mudei uma vírgula do texto.

Fui recitar para ela como se fossem meus. Interpretei com ardor, confiança, pausas de fechaduras se mexendo.

Ela aplaudiu. Ri, pois imaginei que havia sido descoberto. Esperei que falasse.

- Melhorou muito. São seus melhores poemas, Fabrício, estou orgulhosa.

11:30 AM :: Comentários:

TATUAGEM NOS CABELOS OU UM JARDIM AÉREO





Depois que conheci a máquina zero, eu me transformei em desenho animado. Criei o hábito de propor um símbolo nas costas da cabeça. Já foram feitos um scarpin (salto feminino) e um coração de aniversário com a minha idade. Estou circulando agora com uma homenagem para a 53ª Feira do Livro de Porto Alegre: um livro aberto e o número da edição. O desenho é feito pelo cabeleireiro Edemar Santos, da Mega Hair de São Leopoldo.

10:16 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Novembro 02, 2007


Quando leio meus filhos,
conto as páginas que faltam
para o final do livro.

Por mais que me apresse,
não estarei aqui
para completar a leitura.


Convido para sessão de autógrafos de "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil, 3ª edição), neste sábado (3/11), às 19h30, no Pavilhão Central da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre, na Praça da Alfândega.

12:25 PM :: Comentários: