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Consultório Poético

Blog

Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

FELIZ



5:44 PM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 30, 2007

A FRUTEIRA QUE FICA NO FIM DO ANO
Arte a partir de pintura de Cézanne

Fabrício Carpinejar



Abandonei as cicatrizes. Sei onde ficam e me tranqüilizam. Confortam-me. Tenho cinco na cabeça, uma no braço esquerdo e uma última na rótula do joelho. As cicatrizes me adaptam. Identificam o meu corpo, já que não nasci com nenhum sinal de nascença.

Não sou masoquista, não me entenda errado. Ou me entenda errado, que é seu jeito possível de me entender.

As cicatrizes não são provas de quanto se sofreu nesta vida, relógios de bolso a clamar piedosa pontualidade: "quando aconteceu isso?"

Ao contrário, vejo na cicatriz a marca de que me sarei. De como a pele milagrosamente se regenera e me protege. Ela não atesta meu sofrimento, indica que posso me recuperar com a facilidade que sangrei.

Dores velhas contam maldades pelas costas. Não dê ouvido. Dores novas gostam de insinuações. Não dê corda. A dor não tem pescoço e vai pedir o seu.

Abro uma confidência: de tanto mexer nas minhas feridas, elas só infeccionaram.

Não faço mais turismo em minhas dores. Nem convido outros a sofrer de novo comigo, como se fosse uma espécie de justiça o outro penar o mesmo que eu.

Tristeza guardada não cheira bem, raiz rançosa, como roupa guardada, como comida guardada, como amor guardado. Não me peça para chorar duas vezes. Em mim, há mais boca para nadar do que olhos.

É virada do ano.

Não contabilizarei o que não consegui e o que me falta. Não amaldiçoarei um relacionamento que não me ofereceu o que esperava, não cobrarei a juventude que doei a alguém, não justificarei rupturas e fracassos.

Vou procurar a fruteira do bairro. Fruteira não nos obriga a entrar. Está entre a rua e o interior de uma casa. Oferece liberdade para espiar.

Andarei aleatoriamente pelos caixotes e bancas de madeira. Do canto da parede, levantarei uma bandeja azul, bem gasta, para carregar os cachos e as porções. Essas bacias têm muita honestidade.

Atrás do balcão, o dono e seus óculos inquisidores. Retribuo sua desconfiança com meu riso ingênuo. Ninguém resiste a um riso sem palavras.

Não existe nada mais terapêutico do que cheirar as peles das frutas. Superior à maciez de nossas cicatrizes.

Convidarei cada fruta a dançar em meu rosto. Não, dançar não é o ideal. Serei antigo. Convidarei as frutas a me conduzir. Conduzir é mais do que convidar a dançar. “Pode me conduzir?”, perguntarei. Era aquilo que as pessoas diziam quando não conheciam os passos de uma música.

E levarei fruta-do-conde, lima persa, uva rubi. Para não negar a aristocracia de minha alegria.

10:49 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

DESDE LÁ
Arte de Franz von Stuck

Fabrício Carpinejar



Mulher não é um pedaço de carne. Por mais que o homem a observe com malícia.

O corpo da mulher é pensamento. Não anda, pensa. Uma mulher parada ainda está se movimentando.

É um cuidado com o cotovelo, um préstimo das sobrancelhas, a sombra preciosa do pescoço. Parece treinado, mas nem ela sabe o que está fazendo, não seria capaz de repetir. Não adianta chamar atenção ao ato involuntário, que responderá desajeitada:

– O quê? Não reparei...

Será informada do próprio milagre e continuará agindo com a naturalidade do esquecimento.

Uma mulher suando não é um homem suando, seu suor evapora. O homem apenas fica sujo.

Ela se modifica ao andar. Os seios logo se alinham aos cabelos, os cabelos logo formam as alças do vestido. Tanto que o homem olha e olha uma mulher, sem chegar a uma conclusão.

Olha porque pensa que perdeu o início do movimento. É como um filme que se toma pela metade quando o final estava no início.

Ele não consegue assobiar uma mulher. Pasmo, pode ser confundido com um tarado ou criminoso. O perfil abobado, a boca aberta esperando espanto. Aquilo que ele definiu não é mais. Ela será outra no próximo respiro. Ele se apaixona para se aproximar, afasta-se para não ficar louco.

Não há como parar diante de sua nudez e comentar: era o que imaginava. Não é o que se imagina, cada gesto é a variação de um leque. Ou só um leque quando procuramos variações.

O homem não terá tempo de se especializar, morrerá analfabeto dos pés ou das mãos dela. O homem traduz a mulher a partir da língua em que ela não foi escrita. É uma versão da versão.

Devo ter contado de minha vizinha, a primeira mulher nua de minha vida. Espiei pela fechadura da porta do banheiro, com o pulso acelerado. Ela estava esplendorosa. Não tinha pressa em se secar, espreguiçava-se na toalha. Eu não pude permanecer, mas experimentei uma admiração que doía. Uma admiração que me encabulava. Ela me inacabava.

Desde lá, toda mulher desconhecida na rua não precisa falar comigo para me salvar. Não precisa me cumprimentar para me redimir. Desde lá, sei que a melhor sedução é aquela que já foi tímida. A verdade está em não ser verdadeiro. Quem tenta ser verdadeiro está mentindo.

Não concordo com Rubem Braga, apesar de amá-lo, de que "a mais boa mulher feia não pode fazer tão bem quanto a mais ruim mulher bonita". Uma mulher não é bonita, torna-se particularmente bonita. Em especial quando o elogio que ela se deu coincide com o elogio que recebe. Eu diria: a mais bonita mulher em desvalia não pode fazer tão bem quanto a mais confiante mulher feia.

Beleza é o que não enxergamos dentro da beleza. É o que nos intriga dentro da clareza.

6:29 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 25, 2007

NA BALANÇA DA MATERNIDADE
Arte de Jean-Michel Basquiat

Fabrício Carpinejar



O Natal em casa carrega uma maldição, que difere minha família das demais: a festa não ultrapassa as 22h. Eu me sentia esquisito com a precocidade natalina, invejando os fogos de artifícios, as bebedeiras e a ressacas dos vizinhos e amigos. Jesus nem nasceu e dormimos. É uma incompetência para a data como nunca se viu.

Minha irmã não aparece mais, não suporta a tristeza do fim da festa enquanto os outros estão começando. É um fuso horário turrão. A família desaparece da normalidade na noite de 24. Alinha-se à aparência coletiva somente no almoço do dia 25, quando é obrigada a requentar a ceia, já que os restaurantes estarão fechados e não há alternativa pública para mudar o cardápio.

A mãe tem a mania de jantar e dormir cedo. Quatro horas entre parentes é o teto de tolerância. Excedido o prazo, a convivência torna-se abominável. As brigas podem ser sufocadas pelos presentes e distrações alegres das crianças. Depois os familiares voltam a se odiar como de costume. Não brigamos no Natal porque - na verdade - não conversamos. Cautelosos, evitamos confissões e opiniões fortes. Evitamos, principalmente, a sinceridade.

São décadas de um rigor espontâneo. Não é um hábito forçado, é do corpo, ele fica mole, a comida embriaga, as risadas desanimam, o volume da tevê supera a coxia da mesa, a champanhe aquece parada no cálice. Os táxis estacionam na frente da residência com a porta aberta e as visitas são tragadas pela noite.

Há um dispositivo anti-natal em cada integrante dos Carpi. Acredito que é uma angústia genética.

O Vicente resiste aos condicionamentos. Não naufraga na nostalgia torrencial. Puxou a leveza de sua mãe. Com as hélices dos cílios, surge e desaparece como um submarino, ora mergulhando em sua imaginação mansa, ora levantando para as águas escuras da superfície. Ele deve ter sido a única criança de cinco anos do mundo que pediu de presente uma balança. Sim, uma balança, e explicou ao Papai Noel que não era para pesar frutas, que não tinha pretensões de mini-mercado.

É alucinado por medir e pesar qualquer coisa, inclusive a si mesmo. Perante farmácias, desdobra seu perfil de velocista e confere se engordou ou continua com seus vinte quilos. Sua conversa gira nos gramas adquiridos ou perdidos. Passear com ele é prever a altura estimada do pinheiro, do jacarandá, dos edifícios; regrar o olhar ao céu e ao desenho arenoso da luz.

Ao receber uma balança azul no formato de pé, esqueceu a eternidade. Dedicou sua infância a pesar a casa. O jarro de flores, esculturas, a cristaleira, a cesta de jornais, os livros, os bonecos, uma cadeira. Uma série sem fim de proporções. Gritava os resultados e anotava no papel como se estivesse fazendo o registro do patrimônio.

Após bagunçar seriamente a ordem das peças, desmontar o quebra-cabeça das salas, recolheu o menino Jesus do presépio e o desceu mansamente na balança, tal manjedoura.

- Esse tem o peso de minha mão.

6:43 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

ANALFABETISMO EMOCIONAL
A Tatata Pimentel
Imagem de minha primeira máquina de escrever e arte de Jean-Michel Basquiat

Fabrício Carpinejar



Os erros são meus.

Entre o tremor e o desenho, fazia cartas para namorada. Redigia várias vezes para eliminar o maior número de garatujas. Passava todo amor a limpo. Eu já memorizava as declarações pela excessiva luta contra a minha letra.

Eu comecei a escrever poemas em máquina de escrever. Catava milho com violência. Minhas unhas eram bicos de galos. Não ficaram cultas com o tempo, mas afiadas.

Debruçado, escavava os quilos de ferro. Tinha que ser rápido porque meu pai desfrutava de exclusividade e podia entrar no escritório.

Saía sujo, engraxado, pelo hábito de mexer e trocar as fitas. Eu dependia mais da inspiração da máquina do que da minha.

Ainda recordo o barulho infinitamente delicioso de ajeitar o papel em suas roldanas. Empurrar a folha e vê-la escorrer ao outro lado. Se descesse torta, amassava bruscamente, sem chance de reutilização. Tarefa que ficava mais nervosa com o papel carbono, para produzir cópias, sempre borradas e com letras vazadas.

Por fora, máquina de escrever era como dirigir um carro, com marchas para descer os parágrafos. Por dentro, lembrava parte decapitada de um instrumento, algo como o joelho do piano.

Amaldiçoava as teclas que enguiçavam. Usava líquido corretivo, espécie de água benta da tinta. A cada falha, obrigado a reencontrar a linha exata para substituir a palavra.

Não havia corretor ortográfico ou word para apontar meus equívocos e ignorâncias. Vivia uma cultura portátil. Aquilo que falava significava aquilo que escrevia. Não havia como mentir e dissimular. Até o cheque cobrava o acerto, senão era devolvido por falta de fundo na gramática. O que eu sabia, sabia. O que não conhecia, vinha a aprender em seguida para não sofrer novos constrangimentos. Acentuação, concordância, a leveza dos períodos dependiam de mim.

Colocava os erros em minha conta. Individuais, lavrados em cartório.

Hoje ninguém mais quer assumir as falhas. Na escola, na universidade, na entrega de currículos. Ninguém tropeça mais. Uma insana onisciência pretende esconder os fracassos do idioma. Ocultar as imperfeições. Parece que só eu apanho da língua portuguesa. Parece que só eu mendigo caridade na folha de rosto.

A regra é - diante de uma troca de letra e um acento infiel - justificar:

- Desculpe, são erros de digitação.

Antigamente as desculpas costumavam ser a pressa e a falta de tempo. A deficiência recebeu um novo nome: computador. O sobrenome disso é soberba.

Cançaço tornou-se erro de digitação. Mau da língua.

Estraordinário corresponde também a um erro de digitação. É extraordinário mesmo.

Por que não consultar o dicionário ou perguntar? Não, são erros de digitação.

Comem-se as letras antes da leitura.

Logo traições na política serão erros de digitação, infidelidades amorosas serão erros de digitação, omissões com os filhos e amigos serão erros de digitação. O erro de digitação é o bode espiatório.

O mundo finalmente está nas mãos dos sábios.



6:08 PM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 23, 2007

A TORCIDA DOS BAGACEIROS
Arte de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



A mulher odeia ser chamada de "gostosa" na rua, da incontinência verbal da sinaleira, de ser alvo de olhares atrevidos e maliciosos, certo?

Errado. A mulher não irá se envolver com nenhum desses homens, manterá distância, não aceitará sequer a conclusão do convite, mas qualquer chamado sonoro de um estranho a fará recuperar a estima e se sentir bem mais magra do que um pão árabe.

Há homens que estão trabalhando secretamente para os namorados e maridos. Os bagaceiros renovam o sentido erótico adormecido pela bolsa no ombro e pela pressa ao trabalho. Fazem suar as mais incrédulas, borrifam de sensualidade as mais céticas, frígidas e pessimistas. Interrompem o juízo final, anulam o fim do casamento, resolvem dívidas e tranqüilizam a nudez.

Até supõem que têm alguma chance, mas não estão seduzindo, estão uivando. O jorro escandaloso de suas gargantas não motiva o respeito. Inofensivos, tal leão-de-chácara em festa de criança. Não serão lembrados, mais um pássaro a cantar no meio de uma migração e desaparecer na velocidade embaraçosa dos telhados.

Entretanto, o efeito de seus apelos indecentes reconduzirá a mulher a reavivar o espelho e se reconciliar com a lycra.

"Ô gostosa" tem o mesmo resultado de um ácido glicólico.
"Tesuda" penetra na pele como retinol.

Os desaforos de rua são cremes caros e instantâneos. Recuperam cinco anos em questão de dez segundos. O que são as plásticas perto de um elogio safado?

Beleza não é beleza sem antes receber a condecoração do trânsito.

Quando abordadas, as mulheres aceleram o passo e atrasam os ouvidos. Lançam o corpo para frente e a audição para trás, a capturar o chamado lânguido pelas suas curvas. Permanecem avançando por discrição. Fazem de conta que não ouviram. A situação é esta: não podem parar, querem e não podem, seria corresponder à grosseria. Resta reconstituir a soma das letras seguindo adiante.

Os bagaceiros teriam grandes chances de vencer concursos de soletração.

Que bun-da.

Abrem a boca ao vento com a submissão de um consultório odontológico. Gritam sem esconder o rosto e a identidade.

São terroristas do corpo. Camicases que explodem junto com as palavras após cumprir a missão do instinto. Arremessam o rojão erótico aos pés das senhoras e senhoritas, putas e virgens, mal prevendo que perderam a chance de conquista com o estardalhaço.

As vítimas dos assobios e insinuações voltam a casa com irreconhecível orgulho. Não contarão nada do que aconteceu aos seus pares, sempre ciumentos, sempre defensivos, sempre educados. Seus amores não entenderiam as contradições do sexo.

Se compreendessem, agradeceriam a torcida dos motoboys, dos ciclistas, dos guris das passarelas, que empurram o time feminino ao ataque.

11:51 AM :: Comentários:

TEZZA VENDE SUA ALMA À PATERNIDADE
O ano é de Cristovão Tezza, pela franqueza emocionada de seu ‘O Filho Eterno’, relato duro que expõe em linguagem enxuta suas entranhas e angústias

Fabrício Carpinejar



Não há literatura sem crueldade. Escrever o que a maioria das pessoas tem vergonha de pensar. Escrever o que é politicamente errado, inseguro e incerto. Escrever o que não se diz publicamente, o que se esconde.

O ano é de Cristovão Tezza, catarinense radicado em Curitiba, pela franqueza imperturbável e emocionada de O Filho Eterno. Autor de 14 livros, já premiado pela Biblioteca Nacional, Academia Brasileira de Letras e Bravo!, pagou o preço da exposição biográfica. Foi extremamente cruel consigo.

O Filho Eterno (Record, 222 págs., R$ 34) narra o desconforto de um estudante de Letras, 28 anos, que vive de bicos, ao receber a notícia de que seu primeiro filho tem síndrome de Down. Não suporta a pressão social, muito menos desagrada não poder apresentar seu filho deficiente aos amigos. Enxerga-se como “um pai sem filho”.

Testemunham-se a hesitação e a covardia emocional. Nos anos 80, período de incipientes informações e tratamento sobre trissomia do cromossomo 21, sofre com as brincadeiras sarcásticas dos conhecidos. “Você é tão inteligente e não conseguiu nem fazer um filho direito.” Ou com a piedade de desconhecidos. “Você não tem culpa disso.”

É esta proeza de representar a insegurança paterna que torna o romance vertiginoso, nervoso, duro. Tezza não sabota seus pensamentos da época, expulsa os preconceitos como que carregando didaticamente cada um deles na própria pele. Expressa o que é abominável, humanizando as vacilações. Não deseja o filho, depois deseja a morte do filho. É muita coragem publicar isso.

Ainda mais com as semelhanças entre a trama e a vida pessoal. Cristovão tem um filho portador de necessidades especiais, de mesmo nome Felipe. E não mudou o nome dele na história porque todo vínculo soaria falso. O autor não escolheu o caminho mais fácil: expõe suas entranhas, angústias e incertezas, retrocessos e avanços, a desencapar o cotidiano e transparecer as terminações nervosas da paternidade.

Numa linguagem enxuta, de períodos curtos, segue um andamento cênico, de dramaturgo ora vestindo e desvestindo de luz as cenas nucleares. Um exemplo da secura intensa é a primeira vez que mãe, pai e filhos ficam juntos num quarto. “Três estranhos em silêncio. Não há o que abraçar.” Adiciona à ação dramática o respiro de apontamentos livres e análise das situações de um ensaio, que viabiliza uma pausa reflexiva.

A estratégia para não parecer tudo muito pessoal foi adotar a narração na terceira pessoa sem especificar o nome do pai, escudando o fluxo, desse modo, dos riscos do derramamento e retardando o julgamento e possível antipatia do público às suas idéias.

A indefinição salvou o romance da catarse, da culpa e do pessoalismo. É e não é Tezza. Melhor: o personagem é Tezza mais sua ficção. Não responde a biografia de uma vida, é também biografia de uma imaginação. Com uma postura baudeleriana, acusa a si mesmo sendo outro, sem poupar críticas à sua ingenuidade hippie e seu encantamento on the road. O que agrada no volume é a posição distanciada escolhida por Tezza, tão leitor do que aconteceu quanto o leitor.

No enredo, o protagonista absorve os socos - que socos - de sua inapetência e fica de pé. “Era uma mistura de ideologia e de inadequação, de sonho e de incompetência, de desejo e de frustração, de muita leitura e nenhuma perspectiva.”

Experimenta-se uma sucessão de epifanias. Uma delas é que o filho com Down mergulha num eterno presente, o que aconteceu ontem não será lembrado. Ele observará o pai como se o visse sempre pela primeira vez. Tais conclusões inutilizam inclusive a possibilidade de escrever um livro para ele. “Jamais conseguirá lê-lo.”

Do confronto, o cuidado para não sobrecarregá-lo de negativas mais vezes do que necessário e respeitar o seu ritmo. Na exibição no torneio de natação, o filho tira o último lugar e comemora que é “campeão”, não entendendo a “abstração da disputa”. O pai busca explicar que o campeão é o primeiro até que desiste de mais uma convenção ridícula para valorizar quem cumpriu certinho o percurso.

Desenvolve sua consciência - percebendo que procura fotografar o menino pelos ângulos em que seu rosto não aparece trissômico -, vai musculando sua esperança e admitindo que é ele que carece de avaliação, não o menino. O pai encarna o filho. Rejeita seu ponto de vista etéreo, genérico e superficial para tomar uma posição pessoal calcada na experiência. A autocrítica pesada esmaece a resignação e atinge a leveza do entendimento. Da rejeição ao desespero de extraviar o filho, quando ele some do apartamento.

A transformação gradual ocorre simultaneamente ao nascimento do escritor. Alterna a criação do bebê com flash-backs de sua expedição com uma trupe teatral, trabalhos clandestinos na Alemanha e preparação dos primeiros livros A Cidade Inventada e Terrorista Lírico. O filho o ensina a não mentir e aceitar as imperfeições como parte da verdade.

A mágica da obra é o entrançamento do aprendizado do filho com a descoberta autoral. O escritor reconhece que se defende dos mesmos preconceitos que a criança, para conseguir ser aceito pela sociedade e garantir um lugar numa editora. Ambos partilham de igual solidão especial. A pergunta “o que é normalidade?” tanto parte do escritor como de seu filho. “Eu também estou em treinamento”, ele pensa, lembrando mais uma recusa de editora.

O Filho Eterno é um manual de paternidade, e ainda um breviário de escrita criativa. Fornece algumas dicas fundamentais para quem está iniciando a arte literária: “Interromper o texto num bom momento com vontade de continuar imediatamente” e constatar que ninguém está o mandando escrever. Escreve porque quer e precisa. Cristovão Tezza se reinventou para seu passado, trabalho mais frágil e cintilante do que inventar um passado.

Fabrício Carpinejar é jornalista, professor universitário e poeta, autor de Meu Filho, Minha Filha

OS MELHORES DO ANO, O Estado de S. Paulo
Caderno 2/Cultura, Página 6, Domingo, 23 de dezembro de 2007
Ano XXVI Número 1.417


9:52 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

AQUELA ÂNCORA TRANSPARENTE
Arte de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Um avô conversava com sua neta numa lancheria. As cadeiras e mesa na calçada.

Ela tomava sorvete, surpreendida pela oferta do doce fora de hora.

Deveria estar comendo uma fruta, levantando a xícara de café com leite; era sorvete.

A menina lambia com ajuda do queixo. Temia o castigo, mesmo com a proteção adulta.

O avô zelava os avanços da casquinha. Orientava onde precisava abocanhar para não escorrer até os dedos. O guardanapo molhado, rede de proteção pequena para a velocidade do sol.

Ele assumiu os cuidados da neta naquela manhã. Os pais da criança ainda trabalhavam e ela começava as férias escolares. Não perguntei nada disso, estou imaginando.

Parei diante deles como quem procura uma rua. Ou, depois de muita pernada, chega à conclusão de que não sabe o caminho. Eu me vi observando os dois com uma avidez imperdoável para quem não os conhece. Uma curiosidade indiscreta para quem não vai pedir informação.

É que eu já senti isso. Eu senti exatamente o que a menina está sentindo. Não me lembro, é o que mais me incomoda. Lembro do sentimento mais do que os fatos. Na minha infância, poucas vezes fiquei sozinho com meus avôs, talvez tenha ficado inúmeras vezes, e me distrai em provar o sorvete e não guardar a cena.

Por algum motivo secreto entre a luz e a sombra, a guria me substituiu. Poderia antever que ela cumpria o banho de noite do mesmo modo que eu quando pequeno, para não sair com os cabelos molhados. Os travesseiros recebiam nosso melhor perfume, o que complicava pular da cama logo cedo.

Minha sanha era desmarcar as reuniões na universidade, me recolher entre eles e comparar o que estava sentindo com o que eles sentiam. Fazer perguntas, descobrir coincidências. Mas comentar é chamar atenção ao que ainda nem terminou de acontecer.

Durante o dia, essa operação é comum. Meu olhar desaloja sua âncora de cílios, pálpebras e trevas e me arrasta, contém o ritmo de minhas passadas. Não entendo por que atraquei. O barco pára de súbito. É que estou vivendo novamente o que não sei.

Mais adiante, na praça, um par de namorados faz juras e gira os rostos apaixonados pelo melhor ângulo. Beijar é tapa de língua. São boxeadores. Entre um beijo e outro, deitam o rosto nos ombros em breve trégua. O cansaço satisfeito de um beijo, eu já senti isso. Eu já senti isso. Olho alucinadamente para me lembrar. Posso ler os lábios do casal, adivinhar que estão se despedindo em função de compromissos familiares. Cada um vai partir para uma praia diferente. Prometem se telefonar, prometem fidelidade. Eu já senti isso. A promessa do reencontro.

É constrangedor observar a vida alheia, mas não consigo me conter. Não é vida alheia, nada é vida alheia, é minha vida sendo devolvida. Minha memória não está mais comigo.

10:14 AM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 18, 2007

EMBRULHADO
Para pensar: Será que não compramos presentes para ocupar a criança, nos livrar de brincar, ao invés de oferecer presentes que exijam a nossa participação?

Fabrício Carpinejar



Minha mãe até que se esforçava para esconder meus presentes - eram bolas de futebol.

Se havia um embrulho redondo, só podia ser meu. Confessava surpresa para não desanimá-la. Devia ter trabalhado de gandula em minha infância, nunca faltaria bola para reposição em campo.

Uma das grandes brigas foi com meu pai. Coitado, ele demorou meses de salário para me conseguir um boneco barbudo da moda: Falcon, que tinha uma cicatriz na testa, o contraponto masculino da Barbie dos anos 80. Eu adorava o Falcon principalmente pela cicatriz, em detrimento de outros colegas que exaltavam sua virilidade musculosa. Compreende-se, cortei a minha cabeça quatro vezes e computava trinta pontos em cinco anos de molecagem. Era uma projeção. Logo na estréia do boneco, depois de pulos de alegria, arrebentei o braço dele. Arrebentei de propósito. Meu pai veio furioso.

- Não sabe quanto custou para estragar no primeiro dia? Que isso, filho?

Eu tremia, não o tinha visto tão brabo. Busquei explicar:

- Amei tanto que hoje quis brincar com o braço para amanhã brincar com o resto do corpo.

Com meus filhos, desisti de me presentear. Já sofri o desespero paterno de levar o Natal inteiro a montar um lava-jato, para o Vicente se envolver por uma hora com o negócio, achar interessante e esquecê-lo pelo resto da vida. Ou ler todo um manual de instruções de um carro super potente, com controle remoto, letra de formiga morrendo, para vê-lo se deliciando de casinha com a caixa de papelão. Há presentes que servem mais para decoração do que para iluminar de sons a boca das crianças. Quando meu filho gosta de algo, é simples, faz sonoplastia e desfia conversas telepáticas no quarto. Ao permanecer mudo, o brinquedo não entrou em seu imaginário. Será uma nova vítima da lei da compensação: de nossa mania de dar o que nunca recebemos.



Um dia comprei uma boneca que falava para Mariana. Ela tinha três anos. Flagrei-a chorando no quarto.

- O que aconteceu, Mari?

- Ela não fala a minha língua.

O detalhe que me esqueci, a boneca falava inglês. Ela havia tentado durante toda a noite ensinar "eu te amo", e apenas saía "I Love You". Foi sua primeira decepção monoglota. Dormiu chorando: "ela não entende meu amor, não entende meu amor"...

A verdade é esta, os brinquedos divertidos são os que ainda não estão prontos.

Uma corda, um aviãozinho de papel, um barquinho, um pião, bolitas, garrafas, tampinhas. A criança não precisa de muito - basta algo que caiba em sua mão e que possibilite que ela complete com seus desejos.

O melhor presente é aquele que depende de nós, não aquele que dependemos deles.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, p. 77, Número 169, Dezembro de 2007


11:39 AM :: Comentários:

CARPINEJAR, FRANK JORGE E JIMI JOE FAZEM TALK SHOW
O tema é Black Music e o evento acontece nesta quarta (19/12), com entrada franca, no Bourbon Shopping de São Leopoldo


Decibelímetros: Carpinejar e Jimi Joe testando a audição de Frank Jorge para o show

Humor, sátira, dor-de-corno, soul, hedonismo. Coloque tudo isso no violão, mexa e teremos o melhor da música brasileira.

Nesta quarta-feira (19/12), a partir das 19h30, em frente à Livraria Cameron do Bourbon Shopping São Leopoldo, acontece a 4ª edição do Sarau Literário, numa homenagem a Black Music. O talk show tem entrada franca.

O poeta gaúcho Fabrício Carpinejar e os músicos Frank Jorge e Jimi Joe prometem evocar Tim Maia, Jorge Benjor e Gilberto Gil no maior clima de humor cantante, entoar sucessos como "País Tropical", "Que Pena", "Que Maravilha", "Vale Tudo", "Não quero dinheiro" e “Aquele Abraço”, e ainda esclarecer momentos históricos da cena cultural de outras épocas. O encontro caracteriza-se pela interação com o público, com entrevistas e conversas paralelas.

O trio passará a limpo a ficha técnica dos anos 60 aos 80, com pérolas do rock e da MPB. Mostrará a importância da malícia morosa e do vozeirão de Tim Maia, que metabolizou tudo que ouvira durante a fase em que morou nos Estados Unidos e abriu espaço para música negra no período em que reinavam a jovem guarda e a bossa nova no país. A batida de Jorge Ben é também reprisada, com sua singularidade em incorporar elementos novos no suingue e na maneira de tocar violão, trazendo muito do funk norte-americano.

O Sarau especial conta com o escritor Fabrício Carpinejar, autor de onze livros, como "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil); Jimi Joe, radialista, apresentador da Unisinos FM, guitarrista, três décadas roqueiras e autor do CD Saudades do Futuro;, e Frank Jorge (artista com passagem por bandas como Cascavelletes, Cowboys Espirituais e integrante da Graforréia Xilarmônica), poeta, professor e músico, autor de dois CDs solos "Carteira Nacional de Apaixonado" e "Vida de Verdade" e dos livros "Crocâncias Inéditas" e "Realidades e Chantillys Diversos".

10:49 AM :: Comentários:

DA SÉRIE JARDIM AÉREO

Novos cortes semanais.







Na seqüência: mapa do Rio Grande do Sul (a Lagoa dos Patos ficou um pouquinho maior), pinheiros de Natal, o sol caranguejeira do verão e uma homenagem aos cem anos de Oscar Niemeyer com os principais monumentos de Brasília.

O cabelereiro Edemar mudou-se para Canoas e o Beto de São Leopoldo (da Beto Hair) assumiu a bronca dos desenhos.



10:32 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Dezembro 17, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

COMO CONCILIAR PATERNIDADE E NOVA HISTÓRIA DE AMOR?
Arte de Franz von Stuck
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Caro Fabrício,

Descobri suas colunas por acaso e passei a lê-las quase que assiduamente, não só pela forma leve de você abordar os fatos como também pela poesia contida nas suas palavras. Mas vamos aos fatos.

Fabrício, tenho cinqüenta anos, não sou mais nenhuma criança mas tenho passado um mau bocado por causa de uma desilusão amorosa. Talvez tenha sido o meu primeiro grande amor que me aconteceu. Casei-me com vinte e seis anos e vivi durante quatorze anos com uma pessoa. Desse relacionamento tive uma filha que hoje está com 20 anos.

Quando me separei dessa mulher, minha filha tinha 12 anos. O nosso casamento começou a se desfazer quando tínhamos uns sete anos de casado. A partir daí, convivíamos, ora bem, ora tumultuado e no último ano já dormíamos em quartos separados. Fui muito taxado de pai ausente, materialista em excesso, jamais de infiel.

Com aproximadamente oito anos de casado, abri um comércio e minha mulher que até então trabalhava fora, deixou o serviço e passou a tomar conta do negócio. As coisas não foram bem. Depois de três anos, fechei este comércio e a mulher ficou desempregada. Aí a nossa relação piorou até porque começou a haver problemas financeiros.

Bem, no último ano em que vivi com ela, passava grande parte do tempo na internet e acabei conhecendo uma pessoa que me atraiu bastante. Este contato via internet/telefone desencadeou uma piora em nossa relação e daí três meses nós estávamos separados. Foi uma separação amigável. Ela ficou com a filha e eu fui morar numa cidade vizinha.

Continuei contatando por e-mail minha namorada durante um ano até nos conhecermos pessoalmente. Ela viajou do nordeste até São Paulo de forma ousada; deixou seu trabalho onde morava decidida a iniciar um grande romance, mesmo sabendo que eu tinha uma filha e que ela teria que conviver com essa relação pai-filha. Eu tinha 42 anos na época e ela 35.

Foi um encontro maravilhoso, uma união perfeita. Vivemos intensamente as pequenas alegrias, apesar das dificuldades financeiras. Meu contato com a filha era esporádico e ao longo do tempo comecei a perceber que isto incomodava um pouco minha atual mulher. Tivemos algumas rusgas, mas convivíamos bem até que alguns comportamentos de minha filha começaram a interferir no meu relacionamento. Ela começou a apresentar problemas de bulimia, financeiros, namoro, levando-me a dividir minha relação com minha atual mulher, que via em alguns desses problemas apenas um motivo para se aproveitar de minha generosidade, ou de minhas culpas.

Fabrício, a situação chegou a tal ponto de, em acordo, nos separarmos, eu ir morar com minha filha para suprir essa carência e nós continuarmos a namorar.

Bem Fabrício, para resumir a história, a situação hoje é a seguinte depois de 3 meses de separação: Estou morando sozinho, em frente a casa de minha ex. Minha filha faz visitas, hoje ela tem 20 anos, e eu estou rompido com minha atual mulher.

Tenho sofrido demais, nunca passei por tanta angústia por amar e não ter o objeto da paixão, acho que errei ao separar-me neste momento e tenho pedido perdão a minha mulher por isso. Infelizmente a gente só dá valor quando perde. Acontece que ela é uma pessoa muito razão, muito pragmática e a vejo tentando matar esse amor para evitar a dor que ela sofreu, ou seja, ela não confia mais o suficiente, para num futuro vir a cair na mesma armadilha.

Ela acha também que isso tudo aconteceu porque houve a cumplicidade de minha ex-mulher, sentimentos de culpa e excesso de generosidade de minha parte e necessidades de conforto de minha filha.

Qual é seu ponto de vista? Há alguma sugestão sua, embora haja detalhes que não foram descritos e que possam fazer diferença.

Agradeço muito sua disposição.
Abraços
Nestor"


Querido Nestor

Seu grande problema é que tentou fazer todos felizes para então ser feliz. E não aceitou as contradições que surgem dos próprios relacionamentos. Procurou abafá-las, escondê-las, como se a paternidade fosse incomodar um novo casamento.

Reforça uma mania masculina de dar conta do recado e não trazer atribulações do passado para o futuro de um novo namoro. É impossível. O passado sempre será quando há um filho no meio. Sua namorada deve entender isso, não é assunto para negociar. Quando ela diz que cede demais, que é usado pela ex, não está entendendo que você não nasceu agora. Não é um homem desmemoriado, não é um homem sem outras responsabilidades. Amar não é seguir adiante cegamente, é saber voltar atrás sem medo, voltar atrás de olhos abertos.

Sua filha é mais importante do que tudo. E pode ser mais importante do que a própria mulher mesmo. Difícil explicar, eu sei, ainda mais para quem não é mãe da mesma filha.

O mesmo caso acontece com os pais quando velhos e doentes. Se temos que cuidar deles em nossa casa, haverá uma revolução em nossos hábitos. Um estorvo para a idealização de um romance. Levar ao médico, cuidar dos remédios, controlar a rotina. É devolver a dedicação a quem antes cuidou da gente. Ficaremos nervosos, estressados, atrapalhados com a dependência, mas é melhor ser imperfeito do que não ser.

É um capricho começar uma história com a idéia de que nada irá nos atrapalhar. Até Michael Jackson que se refugiu num parque de diversões tem contratempos.

Você não conseguiu firmar a harmonia entre os personagens, essa é a dolorida verdade. Quis resolver o mundo por sua conta e juízo. Confortar a ex, satisfazer a atual mulher, atender a filha, numa tripla ação em segredo. Não confiou em ninguém, porque não queria perturbar. Não houve transparência do tumulto de sua carne. Precisava da solidariedade para não se sentir isolado. As crises são naturais e mostram quem está do nosso lado.

Sua mulher cobrou o preço do sacrifício, o fato de ter largado a estabilidade no Nordeste para viver contigo. Confundiu amor com exclusividade. Sua ex ficou preocupada com sua ausência em relação à filha, emitiu um SOS, sinal importante de partilha da guarda.

Cuidar da filha não é generosidade, é destino amoroso. Preferível tropeçar pelo excesso de cautela e mimo do que pela inércia e indiferença. É óbvio que haverá sofrimento se ela passa por dificuldades sérias, como bulimia. Era o momento de pedir ajuda para a atual mulher e dizer: tenho que ampará-la.

Ao concluir que sua disponibilidade integral vem da culpa pela separação, não descobre nem a metade do que é feito um pai.

Abraços
Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

11:48 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

O BAR NO RIO DE JANEIRO É UM PESSOA
Arte de Jacques-André Boiffard

Fabrício Carpinejar



O táxi invadia a extensão albina azulada de Copacabana. Na redoma amarela, eu, Sylvia Cyntrão, Gabriel Arcanjo e Xico Chaves.

O rádio tocava Roberto Carlos bem baixinho. Alto era o limpador de pára-brisa.

Em dia de chuva, todo táxi do Rio de Janeiro tem um limpador de pára-brisa barulhento. Nenhámnenhámnenhám. O som não me irrita, meus ouvidos entram em transe. Eu me embalo com a ópera de canetas no vidro. Assim como não abro mão de um ventilador bem velho e ruidoso para me fazer dormir.

Estava ciscando os arrulhos da água enquanto Xico na frente conversava com o motorista.

Pulei algum trecho do papo, mas Xico, tradicionalmente alegre e disposto, desandou a chorar.

Um apaixonado dolorido, corneado, choraria no banco de trás. Já entraria sabendo que iria chorar. Manteria a discrição. Seria um choro contido de retrovisor, respeitado inclusive pelos relâmpagos.

Quem chora num banco da frente de um táxi não chora por escolha, foi surpreendido pelo choro. Não é uma confissão premeditada, é um assalto do sangue. Um susto de aflição. Um atentado.

Xico chorava com gosto. O motorista buscava acalmá-lo.

Xico chorava. As maçãs do rosto já cortadas, a polpa corando com rapidez.

- O que houve?, perguntei com medo de perguntar.

- Fechou! O bar freqüentado por Noel Rosa fechou!, Xico explicava, misturando soluço, sopro e desaforos.

Eu fiquei assustado, até entender que o boteco no Rio de Janeiro é uma pessoa.

Morreu uma pessoa, não um negócio. Morreu um ancião, um patriarca. O obituário não estaria no jornal no dia seguinte, era um obituário de boca-a-boca. Um obituário falado. Um obituário secreto. Um obituário cantado.

Não era um bar qualquer, era uma tradição, uma mesa de família, uma cadeira abençoada. Morria de novo Noel Rosa. A atmosfera de Noel Rosa, a sombra sem queixo de Noel Rosa. O único lugar, bem melhor do que o cemitério, em que Noel Rosa poderia ser encontrado.

Xico praguejava. O bar carioca é o fundo da casa, o fundo da noite, o fundo da manhã.

Quando o marido se atrasava, a esposa nunca o procurava no IML ou na Polícia. Procurava o marido no boteco e lá o encontrava perdendo a hora na fumaça e no repeteco dos chopes. O boteco servia como a área de lazer dos condomínios. Só descer.

Deixava de ser um endereço comercial para assumir o destino de seus clientes. A fama, a sina, a música de seus clientes. O bar de Tom Jobim e Vinicus de Moraes, o bar do Paulinho da Viola, o bar do Chico Buarque, o bar do João Gilberto. No Rio, desse jeito são apresentados os pontos. Os letreiros infiltrados nos nomes de seus personagens. O passado protegido pelo plástico dos cardápios. A memória viva e frágil quanto os urubus no céu.

Xico chorava porque não adiantaria beber naquela noite.

3:45 PM :: Comentários:

UMA VIDA NO ESCURO
Inédito
Arte de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Desfazer-se da calça com os joelhos
enquanto a distraio com beijos,
não olhar ao chão sequer um momento.
Ciscar as alças do sutiã e os botões
movendo-se com a língua.
Não pedir ajuda ou acenar ao oceano.
Seguir o trilho dos lábios com o tremor
da cortina, a pontualidade do trem.
Abrir-se à janela e à cidade
pelo som que se repete no corpo.
Não facilitar, deixá-la retirar
a calcinha com os pés
enquanto me lava de sopro.

Segurarmos um ao outro
- todo o peso -
somente com a boca.

* * *


Esse poema pode ser ouvido na voz de Ana Carolina. Está disponível na seção "Cantinho" do site da cantora. Clique aqui.

12:48 PM :: Comentários:

COMPOSIÇÕES



Minha filha Mariana, 13 anos, está de volta em seu blog. Agora mostra suas letras. Emocionada, romântica. Espero que seja ficção o que anda cantando. Confira seu mergulho de ponta cabeça.

12:45 PM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 09, 2007

ALVURA
Arte de Villard de Honnecourt

Fabrício Carpinejar



Quando aumenta a ânsia de largar a literatura ou um sonho, não vacilo, separo minhas roupas sujas para levar a casa de minha mãe.

À maneira de um retirante, amarro a trouxa com dois nós. Não sou folgado, como você deve acreditar. Conto com máquina em meu apartamento. Não é isso. Não estou explorando a bondade materna.

É como uma benção. A máquina de lavar de minha mãe completou 33 anos, adquirida em dozes vezes sem juros, no Natal de 1974. Tem a idade de meu irmão caçula. É gêmea dele, igualmente tímida e asmática.

Ela tosse, ronca, resmunga, anda três passos enquanto centrifuga, mas não morre. Um dia a encontrei na entrada da lavandeira, quase a sair pela porta de vidro. Esticando a tomada em corda de pular.

Parece gente. Com seu uniforme de enfermeira, os cabelos grisalhos, a cintura de bisavó e o perfume azul de sabão em pó.

Ao abrir sua tampa, enterneço, como quem descobre uma vitrola funcionando. Estremeço com seu barulho familiar, a reparar as manchas de minha vida.

Prepara claridade com suas mãos de vento. Bate as claras de nossas mágoas e nossos arrependimentos.

Seu tambor, ampulheta de lã. A tosquiar minha pele não julgando se é de ovelha ou se é de lobo.

Sua tampa faz barulho de balanço de praça. Seus ossos repetem minha infância.

Medi minha altura em sua altura. Já me refugiei em seu bojo durante o esconde-esconde. Eu a chamava de liquidificador gigante. Minha mãe me fazia sentar nela para amarrar meus sapatos. Comecei a usá-la para ocultar minhas primeiras poluções.

Ela desmaiou algumas vezes ao suportar nossos uniformes enlameados do futebol, mas não morre. Engoliu moedas, bonecos, papéis, mas não morre. Lavou minhas golas cobertas de sangue, enxovalhadas dos cortes na cabeça. Não se assustou, logo me devolvia a paz da lisura.

Foi confidente, foi advogada, foi psicóloga. Com paciência, ouvia cada adolescente praguejar contra a chuva e culpá-la pela demora. Demora que não era dela, que nunca mudou seu tempo de entrega. Pressa que era nossa de usar a mesma camisa para sair.

Três décadas sem folga. Roupas de quatro filhos, do pai, da mãe, dos netos, lençóis, cortinas, travesseiros, toalhas. Não termina de girar. Empregadas a enforcaram no sentido anti-horário e ressuscitou por lealdade. Seu único olho estrábico sempre indo da esquerda para direita.

Minha vontade é descalçar seus tamancos gastos, lavar seus pés de inúmeras inundações, e comprar-lhe sapatos novos.

Ainda a verei passeando pelo quintal, tenho certeza, tomando sol e colhendo tangerinas.

11:48 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

DAQUI POR DIANTE
Arte de Franz von Stuck

Fabrício Carpinejar



Você me diz que tratará de arranjar um jeito de arrancar seu amor por mim. Como parar de fumar ou beber.

PARE DE AMAR E EMAGREÇA DEZ QUILOS.

Parece fácil?

Já a vejo colocando adesivo no carro. Já a vejo mostrando fotografias de ANTES e DEPOIS.

É descer e pôr o amor na rua, com o cuidado de embrulhar o vidro no jornal para o lixeiro não se ferir.

Tem medo que eu a descarte, portanto é melhor acabar agora. É melhor não sofrer mais. Não vai arriscar.

Nem subirá os olhos pelos andares da geladeira. Não vai conferir a data de validade das confidências. Descobriu que o amor estragou.

Decidiu. Não é uma ameaça, é uma conclusão. Para sempre.

Está interessada em cuidar de sua saúde. Mudará os hábitos.

É com facilidade que afirma. Com desembaraço. Assim como trocar o dia cinco pelo seis na folhinha do calendário, como amarrar os sapatos, como separar as roupas velhas das vivas.

Não pretende mais ser incomodada. Não tem mais nada para falar.

Você cuidará de expulsar o amor que tem por mim. Cortará a água e a luz desse amor.

Está cansada de explicar. Explicar o que nem entende.

Você é capaz de casar para se vingar. Fingir que está feliz. Colocar toda a sua concentração para me convencer que conseguiu.

Serei deportado de sua memória. Me mandará de volta ao conto de fadas, de onde nunca deveria ter saído.

Explica que não é pessoal, é uma decisão técnica. Há outras vidas inocentes em jogo. Mais um pouco, as paredes desabam.

Não é justiça, é desespero, que dá no mesmo.

Rasgou o que não é papel: meus cabelos, meus cílios, meus casacos.

Decidiu, ponto. Como arrumar a cama. Como limpar as gavetas. Como empilhar a louça.

Botou na cabeça. Como quem bate a porta. Como quem desliga o telefone na cara.

Pronto. Como desistir de um curso. Como abandonar uma viagem.

Sem recurso. Sem direito de resposta. Sem pensar duas vezes.

Você vomitará inteiro seu amor por mim. Com os dedos na garganta.

Você deixará o banho transformada. Sem nenhuma lembrança da praça e da noite em que tremia de frio.

Recomeça o ano com um caderno mais bonito do que sua letra.

Sofrerá um pouco de contrariedade no início. Como um vício. Após a primeira semana passa. Acredita que passa.

Você pedirá atestado médico. Para não ir ao trabalho desse amor. Ao expediente desse amor.

Você fará quimioterapia desse amor. Arrancará o câncer desse amor. Arrancará o caroço de minhas mãos de seus seios. Arrancará o pressentimento do meu braço de seus ombros.

Nenhuma choradeira. É natural desamar. Como espantar insetos com o calor. Como recusar esmolas na sinaleira.

Está mais madura, determinada, livre.

Você decidiu, não depende mais de mim. Você decidiu que não presto para sua vida, que merece alguém melhor.

Como quem escolhe ser vegetariana. A partir de hoje, não comerá mais carne. Simples: a partir de hoje, não me ama mais.

Você cuspirá em meu nome. Você vai ocupar todas as sessões de terapia para me ofender.

Eu não presto, nunca prestei, mas o amor que você sente não tem nada a ver comigo. Ele não depende de nós para nascer ou morrer.

Isso só descobrirá depois. Depois de desistir de desistir de desistir.

9:13 PM :: Comentários:


Terça-feira, Dezembro 04, 2007


CONSULTÓRIO POÉTICO

ELE ERA UM AMOR FORA DE CASA, RAIVOSO DENTRO
Arte de Max Ernest
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Oi Fabrício,

Na primeira fase da conquista, ele era maravilhoso, todo romântico. Acontece que depois de trinta dias, tornou-se estranho, muito materialista (brigava por uma encostada no carro), ficava chateado por coisas banais. Não conseguia entender.

Eu estava sempre feliz por estar com ele e parecia não retribuir.
Na frente das pessoas mostrava-se sorridente e que “estava tudo bem”, mas quando adentrávamos no apartamento dele, mudava completamente. Nunca sabia como iria o encontrar, se de bom humor ou com aquele mau humor insuportável. Queixava-se de tudo. Do ar-condicionado, do sofá, do carro, da profissão.

Às vezes, perguntava por que estava calada e chateada, então, segundo ele, qualquer atitude que eu pudesse ter que lembrasse a ex-mulher era como se uma onda de ira o invadisse. Eu tentei mostrar que ele estava num outro relacionamento, mas foi em vão.

Não suportei e terminei. Ninguém consegue agüentar azedume de ninguém o tempo todo e, muitas vezes, me sentia mal, achando que o problema pudesse ser nosso relacionamento e que ele não gostava de mim. Mandei-o procurar terapia, pois acredito que ele não esteja preparado para um novo relacionamento.

O que seria de fato? Um problema de personalidade ou traumas de uma relação anterior?

Beijos,

Clara"


olá Clara!

São os efeitos colaterais da intimidade. Longe de casa, ele se censurava, exibia versão ligth de "queridinho e terno", acredito que se controlava. Em casa, a versão gordurosa, expulsava o pessimismo e sua indisposição. Libertava-se dos condicionamentos com o dobro de raiva (por ter reprimido suas vontades antes). Você foi vítima da sinceridade dele, os demais não o conheceram inteiro.

Ele não a enxergava do lado de fora, como uma outra pessoa, mas do lado de dentro, como se fosse ele. Extinguiu o distanciamento. Ele deveria se suportar (não há escolha), pensou que agüentaria junto. Perdeu os limites da individualidade de cada um. Reconhecia você como extensão dos pensamentos, de sua introspecção, e não admitiria que não sofresse ao lado. Ele a apagou para que fosse ele também. Estranho, né?

São preocupações que se fortalecem em manias que adoecem em tiques e obsessões. Não era problema do relacionamento, mas da personalidade dele (estresse, perda de orgulho e estima, fobia do enfrentamento social), que não o permitia cultivar o amor ou encontrar disposição para realmente desfrutá-lo.

A desolação é que ninguém deve ter compreendido sua separação, já que ele era aparentava ser o par ideal, maravilhoso e romântico. Você foi corajosa de se afastar para compreender a dimensão do problema, mesmo que receba o estigma equivocado de "louca" e tenha que suportar ouvir as frases feitas dos outros como "não sabe o que está perdendo" ou "está difícil de encontrar um homem bom hoje", tantas justificavas machistas e cômodas.

Mas já experimentei momentos parecidos. E lamento. Transmitia todos os problemas e preocupações para minha esposa. É difícil sobreviver sozinho e errei a proporção da catarse!

Amor é proporção, definir a medida e reconhecer no casamento o que o outro precisa e merece. Amor de menos machuca. Amor de mais, igualmente sem respeito, machuca.

Não me dei conta que apenas falava de contas, finanças, criações dos filhos, preocupações do trabalho, e deixei de namorá-la. Eu esqueci que ela não era eu. Enquanto os outros me admiravam, me elogiavam, confessavam que era único, ela descobria minha porção mais mesquinha e realista. Ela virou meu departamento financeiro, meu confessionário.

Mesmo de bom humor, deixei de florescer a intimidade dos presságios e do entusiasmo da convivência. Afinal, eu só aprendi a dormir de luz apagada porque a nudez de minha mulher me iluminava. Teria que devolver a claridade. Ou, ao menos, ser digno dela.

beijos

Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

5:18 PM :: Comentários:


Domingo, Dezembro 02, 2007

O FIM DO MEDO DE LER ENSAIOS
Banalogias, de Francisco Bosco, inunda textos de avaliação crítica com a vivacidade e os temas próprios da crônica

Fabrício Carpinejar*



João Bosco é pai de Francisco. Não somente Francisco Bosco é filho de João. O que Francisco Bosco realizou com Banalogias, da Coleção Filosófica da editora Objetiva, não é pouco. Não é uma obra de passagem. Ensina a olhar o ensaio de modo diferente.

O jovem de 30 anos tem a sabedoria de um ancião, mas não nega o frescor da linguagem, a flexão vocabular de seus dias. Carne recente, alma antiga. Ele não chegou a esse livro por acaso. Antes publicou a prosa poética Da Amizade (7 Letras, 68 págs., 2003), em que desmontava a relação ingênua entre leitor e autor. Eram flashes, aforismos, versos e comentários. Fotografava o ato de leitura, seus fetiches e paixões. 'O leitor se depara com uma antiga anotação sua à margem de um livro: é como ouvir a própria voz no gravador.'

Bosco não trafega pelas avenidas tradicionais dos gêneros, mas pelas suas paralelas, propondo confrontos e amálgamas. Ele combina técnicas literárias, o equivalente a um jogador de campo usando recursos do futebol de salão. É filósofo, pensador, poeta e cronista. Não é um de cada vez, sempre são todos ao mesmo tempo.

Da Amizade agia como uma webcam no livro, a capturar as movimentações dos olhos e a dispersão na busca pelo conhecimento. Feliz em seus instantâneos de descrição do volume sendo folheado. 'O leitor respira fundo./ Pára. Fecha o livro. Sai./Decidiu dar uma volta,/ como para ver se o mundo/ continua em seu lugar.'

Em Banalogias, a sensibilidade híbrida do autor arrisca mais um salto mortal. Agora não é o livro o tema, e sim o mundo. Será que o livro continua em seu lugar? Duvido.

Ele mudou a pauta do ensaio. Ensaio costuma ser algo ligado a temas universais, inoxidáveis, como o desespero, a dor, a fé. Ensaio costuma sofrer uma linguagem acadêmica, casmurra, com equações que espantam os iniciados. Ensaio costuma prescindir de um esforço de leitura mais do que de reflexão. Não é qualquer um que entra, tampouco é qualquer um que sai. Bosco alterou a conduta estilística: abriu o ensaio aos temas da crônica. Ao trivial. Ao mundano. Ao circunstancial e perecível.

Sua ousadia é explorar os modismos (e ultrapassar a tradicional aversão dos intelectuais) em busca da essência do comportamento. Por exemplo, uma de suas ponderações é a tatuagem, na contracorrente de dizer que é um gesto meramente estético. Encontra um gesto estético em sua inscrição. Bosco diz que a tatuagem produz uma segunda nudez; uma intimidade mais íntima que a pele, e que só se revela depois da revelação da pele. Não faz sentido? O ato de tatuar, convencionado como exibicionismo, é visto, dialeticamente, como resguardo e segredo.

'É o nu do nu. Esconder a tatuagem, escolher um espaço discreto no corpo, assume um sentido de economia da intimidade. Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo, esconde-se mais do que o próprio corpo, com o propósito, entretanto, de se revelar.'

Sua coleta seletiva atinge qualquer ambiente e pulveriza preconceitos. Suas teorias partem dos lugares mais insólitos. Define a magreza dos astros de rock, como Mick Jagger e Iggy Pop, num sinal de urgência e ardor. O relevo das costelas e a linha de abdome expressam o romantismo roqueiro. É a prova do exaurimento passional, do esgotamento inconseqüente. A vida se afirma quando é testada. Pode-se inchar com o rock (de álcool e drogas), não engordar.

A gafieira e o futebol resultam em surpreendentes conclusões. Na gafieira, defende a lógica do erro, sair do previsto é criar um novo passo. 'O erro é a origem do verdadeiro acerto.' No futebol, examina a afetividade brasileira de apelidar os atacantes (caracterizando a infância e a molecagem deles, próprias do drible) e deixar os nomes compostos aos zagueiros (um indício de respeito).

O autor não se intimida com insignificâncias. Toma todo o artigo com humor e leveza, procurando extrair um conselho ou um avesso nobre do seu conteúdo. É didático sem exercitar a superioridade do ponto de vista. Cria inclusive a filosofia da acne. Isso, da espinha. Ele não teme pensar por si, converte opiniões e impressões em verdades. Seu método é deter-se com propriedade em banalidades. Por isso, banalogias.

Quem penou na adolescência entenderá que a proliferação das acnes vem perigosamente da insistência em mexê-las?

'Espinhas são fofoqueiras trágicas: morrem por falta de assunto. Por isso cuidado com os cremes antiacne, os ácidos, as loções secantes; eles só funcionam se forem um meio para ajudar a esquecê-las. É preciso aplicar o remédio acompanhado de um único e breve pensamento: 'pronto' - e deixar que a indiferença opere sua química poderosa.'

O que é discutido no salão de beleza ou na mesa de bar assume um dilema épico de vida ou morte.

Não há nenhuma arenosidade no discurso, obstáculo, o desembaraço comunicativo permite entender cada fisgada do raciocínio, cada desdobramento. Texto limpo, transparente, coloquial. Ele não escreve simples o complicado, escreve simples o próprio simples, descomplica o que se complica na transição ao erudito. Melhor: escreve o simples de modo profundo. Ele provoca a voz a escrever mais do que o pensamento.

A mutação experimentada com Nelson Rodrigues, quando botou a crônica a florescer suas obsessões, é vivida em outra ordem em Banalogias, em que não ocorre a divisão entre o alto e o baixo, o culto e o popular, o superficial e o perene. Tudo é matéria de devoção nos 23 ensaios.

É uma inversão do método de Theodor Adorno (em especial Minima Moralia) e Walter Benjamin, precursores da escola de Frankfurt. Eles levaram a indústria de consumo para a filosofia, Bosco leva a filosofia para a indústria de consumo.

Inundou a prosa investigativa de temas que não correspondem a 'assuntos sérios', como a cor de Michael Jackson (ele não pretende ser negro, muito menos branco, mas transracial, desbancando completamente Walt Disney), a conduta dos playboys (que faziam sucesso na escola, mas são iguaizinhos àquela época), os chatos trágicos (o apaixonado que age errado, sabe que age errado e continua até a humilhação), as piores dedicatórias (escritas no calor da hora e da falta de inspiração).

Ele trata o menor com grandeza e seriedade cirúrgica. Bosco debate a fundo se um gol de falta é um golaço ou se um golaço depende da bola em movimento. Coisa de comentarista esportivo, ou de pensador do cotidiano. Leia a resposta na página 173 de Banalogias. O livro pode ser encontrado onde a coruja dorme.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007), entre outros


Banalogias, Francisco Bosco, Objetiva, 208 págs., R$ 29,90

Publicado no O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, 2/12/2007

9:25 AM :: Comentários:


Sábado, Dezembro 01, 2007

EU SOU... DÚBNIO
Da nova série "Tabela Literária"
Foto e projeto Fabrício Carpinejar

DANIEL GALERA (São Paulo - SP, 1979)



Motivo:
"Eu o escolhi porque não se encontra na crosta terrestre, porque não se sabe seu estado físico e porque ele não tem nenhuma aplicação prática conhecida. Adoro coisas que não existem e não servem para nada."



Contista e romancista

Autor de

- Dentes Guardados (Livros do Mal, 2001 ) - Contos. Traduzido para a Itália pela Arcana Libri, em 2004.
- Até o dia em que o cão morreu (Livros do Mal, 2003, republicado pela Companhia das Letras, 2007) - Novela. Adaptada ao cinema por Beto Brant com o nome de "Cão sem dono".
- Mãos de Cavalo (Companhia das Letras, 2006) - Romance. Finalistas do Jabuti 2007 e do 5º Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura/ Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo.

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