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Consultório Poético

Blog

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

UMA FÁBULA INFANTIL PARA ADULTOS
Arte de Leonardo da Vinci

Fabrício Carpinejar



Sempre quis ser feliz. Felicidade de árvore, puxar o galho pesado de frutos como quem abre um guarda-chuva para o rosto. Felicidade de rodar o corpo várias vezes até entontecer e deitar na grama para observar as nuvens. Aquela tontura era quando meus lábios tiravam as sandálias.

Quando não previa que era feliz, a felicidade não terminava.

Ao conhecer a felicidade, passei a defendê-la. Passei a me acostumar com ela e procurá-la onde já a tinha encontrado. Não procurava onde não a conhecia. Eu gastava a felicidade de antes. A felicidade que existia dentro da felicidade. Não a felicidade que existia fora da felicidade, que também poderia ser minha.

Minha felicidade logo virou a desconfiança de que os demais cobiçavam a minha felicidade. Logo virou a suspeita de que não poderia ser feliz, obrigado a me conter. Caso demonstrasse, estaria esnobando. Alertando os ladrões. Não podia sair mais com a minha felicidade. Escondia em casa, atrás dos livros.

Sem felicidade, aprendi a viver com a lembrança dela. Estava quase feliz, remotamente feliz, pois poderia retornar à felicidade de noite. Retornar à felicidade era meu jeito de ser feliz. Ou de parecer feliz durante o dia.

Fiquei assustado quando alguém me falou que eu não era sério, que precisava ser adulto. Tentei ser feliz e não rir. Ao sentar a boca, esquecia que estava feliz e permanecia somente sério. A concentração para não rir me tirou a vontade de falar.

Complicado o negócio de ser feliz. Desisti, portanto, de minha felicidade para deixar os outros felizes. Abri mão das coisas. Queria que minha mulher fosse feliz – girava o quarto para que ela fosse. Queria que meu filho fosse feliz – girava a sala para que ele fosse. Quando um ou outro estava feliz, eu não pensava em minha felicidade. Nem que a tinha escondido para nunca mais rever. Já não me lembrava onde estava: atrás de que livro? Que autor? Qual estante?

Quando recebia convite para estudar no exterior, concluía:

- Outra hora.

Quando recebia convite para um novo trabalho, concluía:

– Outra hora.

Não me constrangia em esperar. A felicidade da minha mulher e dos meus filhos foi formando minha felicidade. Até que bateu um remorso por não ser feliz sozinho, afinal todos são felizes sozinhos. A dependência me doía. Eu tinha que esperar que fossem felizes para me acalmar. Não que tivesse deixado de ser feliz, eu esperava o reconhecimento deles para então perceber que fui feliz. Eu era feliz depois de ser feliz.

As coisas abriram suas mãos. Acreditava que me anulava. O mesmo remorso de uma dona-de-casa depois de arrumar a bagunça, sentar na cozinha, descobrir que o minuto de seu sossego é o cigarro e que todo mundo vai esperar a casa limpa, como sempre, e nada será comentado. Porque a casa limpa é invisível, como a felicidade.

A felicidade deles tornou-se minha infelicidade. Fui cobrando a devolução dos dias felizes que dediquei à felicidade deles. Pedindo a devolução das minhas semanas, uma por uma. Não conseguia diferenciar o que era meu do que era deles. Numa partilha, como dizer quem gosta mais de um disco ou de um filme?

Minha felicidade não era infeliz, mas sem assunto. Confundi sem assunto com infeliz. Não tinha o que contar de mim, só deles. Eu era mais a promessa de felicidade deles do que o meu passado.

Eles foram ficando tristes porque minha felicidade não aparecia. Nem depois. Nem como véspera. Eles não sabiam como devolver minha felicidade. Porque a felicidade deles também era me fazer feliz.

6:15 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

QUANTAS VEZES EU ASSASSINEI O AMOR?

Fabrício Carpinejar



O amor nunca morre de morte natural. Añais Nin estava certa.

Morre porque o matamos ou o deixamos morrer.

Morre envenenado pela angústia. Morre enforcado pelo abraço. Morre esfaqueado pelas costas. Morre eletrocutado pela sinceridade. Morre atropelado pela grosseria. Morre sufocado pela desavença.

Mortes patéticas, cruéis, sem obituário e missa de sétimo dia.

Mortes sem sangramento. Lavadas. Com os ossos e as lembranças deslocados.

O amor não morre de velhice, em paz com a cama e com a fortuna dos dedos.

Morre com um beijo dado sem ênfase. Um dia morno. Uma indiferença. Uma conversa surda. Morre porque queremos que morra. Decidimos que ele está morto. Facilitamos seu estremecimento.

O amor não poderia morrer, ele não tem fim. Nós que criamos a despedida por não suportar sua longevidade. Por invejar que ele seja maior do que a nossa vida.

O fim do amor não será suicídio. O amor é sempre homicídio. A boca estará estranhamente carregada.

Repassei os olhos pelos meus namoros e casamentos. Permiti que o amor morresse. Eu o vi indo para o mar de noite e não socorri. Eu vi que ele poderia escorregar dos andares da memória e não apressei o corrimão. Não avisei o amor no primeiro sinal de fraqueza. No primeiro acidente. Aceitei que desmoronasse, não levantei as ruínas sobre o passado. Fui orgulhoso e não me arrependi. Meu orgulho não salvou ninguém. O orgulho não salva, o orgulho coleciona mortos.

No mínimo, merecia ser incriminado por omissão.

Mas talvez eu tenha matado meus amores. Seja um serial killer. Perigoso, silencioso, como todos os amantes, com aparência inofensiva de balconista. Fiz da dor uma alegria quando não restava alegria.

Mato; não confesso e repito os rituais. Escondo o corpo dela em meu próprio corpo. Durmo suando frio e disfarço que foi um pesadelo. Desfaço as pistas e suspeitas assim que termino o relacionamento. Queimo o que fui. E recomeço, com a certeza de que não houve testemunhas.
Mato porque não tolero o contraponto. A divergência. Mato porque ela conheceu meu lado escuro e estou envergonhado. Mato e mudo de personalidade, ao invés de conviver com minhas personalidades inacabadas e falhas.

Mato porque aguardava o elogio e recebia de volta a verdade.

O amor é perigoso para quem não resolveu seus problemas. O amor delata, o amor incomoda, o amor ofende, fala as coisas mais extraordinárias sem recuar. O amor é a boca suja. O amor repetirá na cozinha o que foi contado em segredo no quarto. O amor vai abrir o assoalho, o porão proibido, fazer faxina em sua casa. Colocar fora o que precisava, reintegrar ao armário o que temia rever.

O amor é sempre assassinado. Para confiarmos a nossa vida para outra pessoa, devemos saber o que fizemos antes com ela.

9:36 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 27, 2008

LIVROS RETRATAM A PULSÃO DA CAPITAL PAULISTA
A principal força da tripla aparição é a retomada da poesia engajada, tornada possível porque feita sem partido nem finalidade

Fabrício Carpinejar*
Especial para o Estado


CAOS - Mural Guernica (1937), do espanhol Pablo Picasso: obras poéticas revelam uma nova ordem de distúrbios, em que a violência é o recurso principal no contato com o outro.

Qual é o melhor retrato poético de São Paulo? Paranóia (1963), de Roberto Piva. Era até 2007. Mais de quatro décadas depois, uma fornada de obras redimensiona a questão e se iguala em fúria e som ao clássico. Primeiro, veio Página Órfã, de Régis Bonvicino, misturando manuscritos e manchetes, sinapses e sinopses, tráfico e tráfego. Poemas imundos mais do que sujos. Em seguida, Estudos para o Seu Corpo, de Fabrício Corsaletti, contrastando a maldade curiosa da infância com a omissão ainda mais cruel dos adultos. No fim do ano passado, a Editora 34 lançou outros três: Visão do Térreo, de Ruy Proença, Baque, de Fabio Weintraub, e Sanguínea, de Fabiano Calixto.

A capital paulista encontrou seus novos intérpretes. A trinca de lançamentos é encharcada de cinismo, hibridismo estético, um despudor em observar o que não presta ou o que não funciona e dar sentido e ordem afetiva ao caos. Tanto Proença quanto Weintraub e Calixto (curioso é que cada um representa uma década, Proença nasceu nos anos 50, Weintraub nos 60 e Calixto nos 70) são meticulosos na arte da montagem. Expõem as contradições da metrópole, as personagens periféricas, a marginália, muitas vezes nadando contra a própria poesia. Eles puxam a crueza do cotidiano com suas seringas, congelando distrações e descasos.

Não têm um sentimento de perplexidade, mas o ímpeto em assumir a paternidade das ruas e acolher suas imperfeições vorazes e constantes (engarrafamentos, vazamentos, sem-teto). São DJs, no sentido de transformar o ruído em harmonia. Visões da hora, passionais e quentes, não refrigeradas pelo distanciamento. A perspectiva é medular, desencantada, feita no meio da confusão.

A principal força da tripla aparição é a retomada da poesia engajada. Ela se torna possível, desde que feita sem partido e finalidade. É distinta poesia política, fundada na ironia inteligente, numa cadeia imaginária e solidária entre os amigos e na readequação do verso à síncope urbana. Abruptos quando necessários, mas sem sacrificar o lirismo. Uma linhagem que ultrapassa o desabafo para gerar comparações inéditas. Trocam o imediatismo pela imersão. Contaminados dos mesmos problemas que criticam. São, inclusive, parte privilegiada dos problemas.

Não há um inimigo ideológico a ser atacado, derrubado, muito menos o fluxo nerudiano das grandes utopias e da poesia como dom. Existem as pequenas amizades e as grandes agressões na liberdade de ir e vir.

É São Paulo pela dissolução das classes e origens, pela atmosfera decisiva de cada esquina, onde o medo e a ascensão são quase o mesmo fetiche social.

No contundente Tiranias, Ruy Proença encontra o avesso do senso e desacostuma novamente a percepção. De um dito comum, opera o incomum e descortina a gravidade da incomunicabilidade contemporânea. 'Antigamente/ diziam: cuidado,/ as paredes têm ouvidos/ então/ falávamos baixo/ nos policiávamos/ hoje/ as coisas mudaram:/ os ouvidos têm paredes/ de nada/ adianta/ gritar.'

Com exceção dos dois últimos poemas que se perdem na irreverência (Mazurca e Adstringência), Ruy Proença executa um livro limpo, com humor e inversões líricas na medida certa. É exemplar e merece tudo o que é prêmio. 'Qualquer rua, pra mim, é rio.' Desliza em situações cômicas e banais, retirando uma simbologia familiar de fim e recomeço. É uma espécie de Alberto Caeiro do século 21. Efetua paradoxos como resultado de um olhar demorado e substantivo. O encantamento vem da lógica, uma lógica infantil, seja descrevendo mesas de bar ('a calçada sobre/ a cadeira de bar sobre/mim sobre/as nuvens sobre/ o céu// tudo levita/ de ponta cabeça/depois que engoli/o sol'), seja apanhando o detalhe das fotos familiares à beira-mar, onde não aparecem os pés dos parentes ('E é provável que/ na hora da foto/ tenham fugido/ como um cardume').

Numa fatura culta, Fabiano Calixto produz sangramentos visuais, domando o surrealismo com diálogos prosaicos nas avenidas, nos bares, no ônibus. Mestre das aliterações, com uma batida beat, estabelece a poética do rompante, que justifica o longo discurso e o redireciona. 'Respiro fundo, vou com tudo/ porque é assim (e só assim) que se tem que ir// a av. paulista correndo é tão engraçada/ parece uma cobra de marshmallow/ uma viagem de ácido/ uma enguia eletrocutando a língua.'

Deixa-se contaminar pela audição, combinando o falado com suas leituras, e revela uma cronometragem perfeita para sentir o que disse, não apenas dizer o que sente. Sua erudição de modo algum é pernóstica, porque carregada de afeto e aplicação prática. A partir de Santo André, diz: 'O medo de não ter/ o que pôr na marmita/ ou o que pôr no caixão' ou 'meu nojo/ não cabe na urna'.

Fábio Weintraub coleciona escoriações reflexivas sobre diferentes párias, desde os idosos até as putas. Se em seu livro anterior, Novo Endereço, persistia uma sutileza até então incomodada, em Baque, exubera sarcasmo. Sua mensagem é sempre o contrário do que escreve. O exagero produz o mínimo. Ofende para acenar, agride para chegar perto e restabelecer a proporcionalidade da violência. Arma-se da autoridade para neutralizar o autoritarismo. Desbanaliza o mal acentuando o imperativo. 'O Brasil está desse jeito/ por ser católico, culpado e de esquerda/ Vamos ser ricos, não coitados/ Não sei se tem jabá:/ cale a boca/ ouça a música.'

Ainda que sob o toldo do desamparo, os três não se apresentam submissos à realidade, a ponto de registrar o que enxergam, são infiéis na proposta de capturar o que não está sendo compreendido dentro do óbvio. A delicadeza, quando surge no meio de tanta brutalidade, é ainda mais intensa e imprevisível. Uma forma de esperança: 'Amoras pisadas/ carregadas de insubordinação civil' (Ruy Proença); 'novamente a vi dormir/ novamente o cheiro/ e aquele último trovão/ acendeu todo o quarto/ iluminou sua nuca' (Fabiano Calixto); 'um fósforo molhado ainda pode secar' (Fabio Weintraub).

Em comum, uma elasticidade do verso adquirida pela influência da canção e do rock. Bob Dylan, Tom Waits, Chico Buarque, Caetano Veloso entram na engrenagem das somas verbais e subtrações metafísicas. E isso é uma garantia de pluralidade, a simplicidade comunicativa em complexos arranjos melódicos. A poesia brasileira nunca ouviu tanta música. E São Paulo nunca foi tão bem cantada.

Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007), entre outros

Publicado em O Estado de S. Paulo
Caderno 2/Cultura, Página 2, Domingo, 27 de janeiro de 2007


Leia ainda matéria de Francisco Quinteiro Pires sobre os três poetas.

10:21 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

PAIZINHO
Arte de Magritte

Fabrício Carpinejar



Me diga, como é viver com um pai em casa?

Como é acordar com sua voz bebendo café, ouvir seu bom-dia atrasado ao serviço? Como é ter um pai entrando no quarto secretamente, para ver se finalmente dormi? Um pai que confere a extensão das cobertas e se as janelas estão fechadas? Um pai que coloca remédio de mosquito e esfrega a manga morna do pijama em minha testa? Como é ter um pai que me acompanha na consulta ao médico? Um pai que assina o boletim? Como é ter um pai perseguindo baratas pela tranqüilidade doméstica? Como é brincar com um pai: aprender a dobradura de papel de chapéu e barcos? Como é ter um pai para perguntar que horas ele voltou do trabalho? Como é empurrar um pai pelos barulhos estranhos no pátio? Como é ter um pai angustiado com a demora materna, e que me dá banho, me oferece janta e esconde sua preocupação? Como é ter um pai para segurar as lâmpadas enquanto ele sobe na escada? Como é ter um pai para se escorar enquanto ensaio a primeira seqüência de passos? Como é andar de bicicleta com um pai? Observar atrás se ele me segue? Como é escutar o ronco terrível do pai e se sentir protegido? Como é ter um pai para reclamar docilmente da mãe, dizer que ela não me entende? Como é ter um pai que não me entende? Como é ter um pai para freqüentar a casa dos avós no final de semana? Como é ter um pai para xingar e logo após reaver a gentileza do abraço? Um pai que estará no seu escritório, num lugar certo, a facilitar minha desculpa? Como é ter um pai para responder com confiança aos seus conhecidos como está meu pai? Um pai para me levar aos jogos de futebol e ocupar o trajeto de volta comentando o resultado? Como é ter um pai para receber presentes de aniversário, e me ajudar a retirar o papel bonito sem estragar? Como é ter um pai para sanar as dúvidas das aulas, as operações difíceis, as curiosidades sobre planetas, estrelas e bichos? Como é ter um pai mais rápido do que o dicionário e que conta o que significa tal palavra? Como é ter um pai com passado? Como é ter um pai chateado, endividado, alinhando contas do que não podemos mais gastar? Como é ter um pai com emprego novo, que não pára de falar das novidades no almoço? Como é ter um pai para pedir o carro emprestado? Um pai para inventar uma mentira e dormir fora de casa? Como é ter um pai aguardando na saída da escola? Como é ter um pai preocupado, confessando que perdeu o sono quando na verdade o esperava na madrugada? Como é ter um pai para me convencer que as dores passam, que amanhã estarei bom, que eu tive coragem? Como é ter um pai a me orientar - de um modo patético - sobre transar com segurança? Como é ter um pai beijando a mãe, sussurrando qualquer coisa que a faça rir, e eu me escondendo para que não me vejam? Como é ter um pai para sair ao cinema, e escorrer pipocas pelas suas mãos? Como é ter um pai para sentir saudade devagarinho, de um dia para outro ou por algumas horas? Como é ter um pai preocupado em fotografar a família nas férias? Como é ter um pai festejando uma promoção com jantar no restaurante predileto e só entender sua alegria? Como é ter um pai histérico, procurando seus óculos, seus livros e cartões extraviados? Como é ter um pai alegando que estava nervoso depois de uma grosseria e compreender que é o máximo que ele se aproximará de um perdão? Como é suportar um pai cantando desafinado suas músicas antigas? Como é ter um pai a me socorrer e convencer a mãe a gostar de minha namorada? Como é sentar no sofá com um pai e assistir um filme reprisado e comentar: “esse eu já vi”: e continuar assistindo a amizade de sentar ao lado dele? Como é ter um pai para ser parecido com ele? Como é ter um pai vibrando com minha aprovação no vestibular, pregando faixas na frente da residência? Como é ter um pai para procurá-lo nas centenas de poltronas da formatura? Como é ter um pai que explica que “as coisas eram diferentes no seu tempo”? Como é ter um pai que não descobriu que envelheceu porque empresto meus olhos da infância? Como é ser espetado no rosto pela barba do pai? Faz coceira, arranha? Sempre quis saber...

Me digam, meus filhos, como é ter um pai em casa?

12:26 PM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 22, 2008

LABRADOR CARAMELO
Arte de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Estou numa casa alugada no litoral gaúcho. Não me reconheço: os chinelos gastos, as bermudas velhas e as camisas que nunca usei durante o ano.

Marisco o vento na rede. Os pés são devolvidos à aspereza da areia. Boiar com a boca pela maresia. Fisgar as conversas dos vizinhos, já que as paredes parecem de fina madeira. Não concluir, me incluir no movimento do mundo. Bodear.

Quando estou à toa, não procuro sentido para existir, procuro sentido onde não existo. Aguardo uma fuga sobrenatural da lagartixa pelas pedras, uma acrobacia do bem-te-vi por ciscos nas calhas do telhado, o teatro nô do gato na varanda da frente. O tempo pensa por mim enquanto passo.

Não sinto vontade de escrever, mas de me guardar. Nas ruas facilmente alagadas, despisto o poema, digo que não sou eu, que ele está me confundindo com outro banhista.

Nunca fui a nenhum psicólogo, porque sempre valorizei o que não entendo. O que entendo deixa de ser meu. O mistério me repõe a procura. O mistério de ser puxado pelos ouvidos em direção ao mar, não importando o caminho.

Fiquei fascinado pelas seis horas da tarde na praia. Por uma visita inesperada. No mesmo horário, todo dia, um labrador caramelo vem até o portão. E pára diante da cerca, quieto, o olhar fixo em mim, abanando o rabo. Ele já esteve aqui. Pela sua intimidade em aparecer. Não vem farejando, tateando. Não tropeça ou cheira os lixos, árvores e a grama. Não caminha por enganos e pistas. Chega direto e senta. Aguarda uma resposta. Não falo, não o chamo para perto, não ofereço comida e ele volta. Sua pausa é obcecada. Não esmola, não é um vira-lata perdido. Percebo que tampouco é faminto: atento e curioso com a minha reação. Uma chuva seca. Ele chove sua lã diante de mim.

Talvez esteja procurando a inquilino anterior da residência, mas não cansa de vir, sempre com mais tristeza em sua expressão. Tristeza altiva. Não precisa de mim, precisa daquele momento, daquela postura comovida, daquela excêntrica pontualidade.

É fiel a uma promessa. Sou sua promessa mesmo que não tenha sido eu a fazê-la. Ele me observa disposto a me entregar uma carta. Ou me levar até ela. Lambe as patas, a roer sua docilidade. Tem a melancolia de circo. A melancolia que apenas o circo conhece. A melancolia de um circo durante o dia, longe de suas apresentações e das ansiosas crianças.

O labrador demora dez minutos de oração e vigília, antes de sumir. O homem deveria ter metade de sua lealdade. E metade de seu silêncio, para ser completo.

Bater à casa quando o amor foi embora, não somente quando ele está dentro. Formar a casa diante da casa. Formar esperas.

9:21 AM :: Comentários:


Sábado, Janeiro 12, 2008

POUSAR É VOAR COM ROSTO
Arte de Leonardo da Vinci

Fabrício Carpinejar



Walter não é supersticioso. Mas não arriscou colocar um espelho fora.

Assim como não fotografa seu filho enquanto dorme. Ou não deixa o chinelo emborcado. Ou não coloca a bolsa no chão. Pequenos cuidados. Prefere não desafiar as crendices repassadas pelos pais. Pequenos respeitos.

Sem lugar nobre entre os móveis, pregou o espelho na varanda de sua chácara, entre duas janelas. Armou uma mesinha com pedras e compensados e descansou do problema.

Estive o visitando no último final de semana. Curioso é que vários pássaros pulavam das barras de madeira ao espelho. Aproximavam os bicos no reflexo. Admiravam-se. Batiam as asas e voltavam ao mesmo lugar.

Até as aves são narcisistas. Têm o céu à disposição, têm as alturas para esticar o corpo, têm as árvores como trapézios e se ajoelham a um pedaço de vidro. Em manhãs sucessivas, enfrentam o perigoso alarido humano, escapam dos cotovelos da conversa e conferem suas imagens no balcão.

As aves procuram o espelho porque são carentes. Até as aves.

A plenitude não nos completa; redobra a insegurança. Quanto mais amamos, mais a carência aumenta.

Minha mulher estará diante de mim a qualquer hora esperando que a observe. Ela não me testa. Sou seu espelho. Ela me procura para se reencontrar. Reencontrar a si: quem ela foi quando se apaixonou. Todo o dia deseja repetir a primeira vez em que eu a vi e ela se viu em mim.

Não estava linda para uma festa, para uma reunião, para um destino genérico. Estava linda para sua vida. Ela se percebeu desejada como se desejaria no futuro. Eu a desejei como ela já se desejou.

Minha mulher é essa ave que não pousará fácil. Circulará pela casa pedindo meu rosto. Uma exigência que não é chateação. Não é cobrança. Não é desespero. Criar uma modulação quando é natural se acostumar. Uma sutileza que despertará a ânsia do beijo, que trará lembranças e a tensão dos nervos.

Ela se esforça para impor diferenças. Uma sobrancelha desenhada, as unhas feitas, um brinco novo, um vestido recuperado, um sapato amansado de brilho.

Ai se não identifico. São tantas chances por dia para me apaixonar de novo. Tantas chances para devolver aquele olhar que me inaugurou como homem.

10:47 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

CÂMERA EM CASA É GELADEIRA DA PARANÓIA
Para pensar: Em vez de demorar a escolher a câmera, por que não demorar para escolher a babá?

Fabrício Carpinejar
Imagem Ricardo Fiorotto



Meus filhos acordam. Com aquele charme do pijama dobrado ou da camisola estrategicamente amassada. Meus filhos, quando acordam, são meus travesseiros. Enquanto faço o café ou converso com a minha mulher, as crianças vão relatando seus sonhos. É o jeito que tenho de filmá-los. Suas frases são fotografias em seqüência.

Nunca coloquei câmera dentro de casa para controlar babás. Até porque eu estaria procurando algo ruim. Colocar câmera é demitir a babá. É aviso-prévio. Não se põe câmera para registrar a alegria, ou apanhar os filhos em situações admiráveis. Câmeras na rua, nos postos, nas lojas e bancos servem para inibir assaltos e identificar ladrões. Alguém coloca uma câmera para enxergar beijos apaixonados? Abraços de amigos com o nó da saudade? Estamos acostumados a filmar para denunciar. Filmar para delatar. Filmar para incriminar. A partir de uma fivela, amigo embutiu filmadora na cintura de uma escultura. Colocou um cinto bem brega numa peça de porcelana da sala. Transformou uma figura renascentista em pós-moderna. E me mostrou o filme de uma tarde. Ele comentava:

- Não há nada neste dia.

E passava adiante. E tudo o que acontecia naquele dia era seu filho rindo, puxando os cabelos para cima para tentar imitar as flores da varanda. Isso é nada? No "nada daquele dia", não constava nenhuma atitude suspeita da babá. Ele esquecia o seu filho para ficar caçando indícios dela. Vivia pelo pior. Aliás, vivemos pela exceção, pelo castigo, para se antecipar as tristezas e maus-tratos e sacrificamos a naturalidade das relações. Quem vai atrás do desastre, forja motivos de preocupação. A desconfiança permanente entende errado. Entende o que persegue.

Quando pequeno, tive babá que foi péssima comigo, me trancava no quarto para acompanhar a novela e receber o namorado. Tive babá que roubava a despensa da cozinha e estocava os produtos no seu quarto. Tive babá que abriu o portão ao meu cachorro para não mais cuidar. Todas perderam o trabalho porque relatava minhas preocupações. Meus pais me escutavam. Aprender a ouvir é verdadeiramente filmar. Perguntar constantemente a babá e observar suas reações são suficientes para entender se ela está envolvida com a criação ou não. Falei das babás que não foram boas, é natural elogiar o triste. Mas delas, não recordo nem o nome. Lembro do nome de quem adorei, Neide, que cuidou de mim dos dois aos oito anos. E saiu de nosso lar somente para casar e se fixar no interior do Rio Grande do Sul. Seus cabelos loiros e sua ternura de colo esforçam minhas palavras a ser fiel ao amor que ela me deu. Minha infância sempre reproduzirá o sotaque italiano dela. Em vez de demorar a escolher a câmera, por que não demorar para escolher a babá? Precisa vir com referências familiares, entrar no ritmo da casa, ter uma amizade em que se possa conversar fora dali. É mais humano confiar até que se prove o contrário do que desconfiar sempre para buscar provas.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, p. 71, Número 170, Janeiro de 2008


2:50 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

EM CARTAZ



Conduzirei duas novas oficinas de criação (crônica e poesia). Os encontros semanais acontecem no Studio Clio (José do Patrocínio, 698 Cidade Baixa), em Porto Alegre (RS). Há quinze vagas para cada uma delas. Durante a seleção, os interessados devem apresentar um poema ou uma crônica. Informações pelo telefone (51) 3254.7200 ou pelo e-mail clio@studioclio.com.br.

O curso de criação lírica "Desinventando a poesia" ocorre às segundas, das 19h30 às 21h30, a partir de 18/2. O objetivo é conscientizar poetas e leitores da importância da brincadeira da linguagem e das inversões do ponto de vista. Para acentuar os movimentos de dedução e fantasia literária, serão desenvolvidas tarefas como cartas, troca de sapatos, esvaziamento de bolsas, jogo da forca, lista de mercado e relação de objetos perdidos.

Nas terças-feiras, das 19h30 às 21h30, com início em 19/2, é a vez da oficina de crônica "Para pensar com a boca: a oralidade da escrita". Mediante debates, jogos de interação e produção textual, o foco é evidenciar a despretensão, a espontaneidade, a simplicidade e a surpresa da crônica. Abordarei a história comentada do gênero, as diferenças em relação ao artigo e ao conto, a importância da poesia na elaboração da atmosfera e o humor na crônica brasileira, de Sérgio Porto a Luis Fernando Veríssimo.

Exercícios criativos explicam que, ao contrário do que se pensa da crônica, a leveza não é superficial, o assunto é o estilo e que o leitor espera mais dúvidas do que certezas do cronista (por isso, a crônica reproduz as hesitações de uma conversa).

10:39 PM :: Comentários:

AGENDA DO VERÃO

Sarau Sesc/Capão da Canoa
Sábado, 19/01, às 19h
Com Marlon de Almeida e Moisés Dorneles
Casa do Estação Verão do SESC, na avenida Beira Mar
Contato: mlippert@sesc-rs.com.br

4ª Feira do Livro de Imbé
Sexta, 1º/02, às 21h
Palestra de abertura: "O Amor e seus mistérios poéticos"
Entrada da cidade, em frente ao supermercado Nacional, Rua Rio Grande
Contato: daguima@terra.com.br

Oficina de Criação Poética em Campo Grande (MS)
De segunda a sábado, 11 a 16/02
Horário: 19h às 22h
Auditório Rubens Corrêa, no Centro Cultural José Octávio Guizzo
(Rua 26 de Agosto, 453)
Realização: Fundação Municipal de Cultura - Prefeitura Municipal de Campo Grande
Contato: 67- 3314-3220 ou patrimonio.fundac@pmcg.ms.gov.br

10:33 PM :: Comentários:


CONSULTÓRIO POÉTICO

ELE MENTIU SEU NOME
Arte de John Everett Millais
Confira a coluna no site da Superinteressante

Fabrício Carpinejar



"Olá Fabrício.

Estou bastante aflita, por isso resolvi pedir-lhe um conselho. Sou uma jovem de 21 anos, nunca havia tido experiências com relacionamentos. Nunca havia tido um namorado, no máximo alguns pretendentes que nunca me despertaram interesse. Nesses últimos meses, conheci um rapaz que me interessou por demais. Nos conhecemos em uma festa, ele não é da minha cidade. Nosso primeiro contato foi maravilhoso, pude perceber que tínhamos muitas coisas em comum, eu sabia que ele não ficaria muito tempo, então resolvi aproveitar o momento. Quando ele partiu, pensei que não o veria mais, que perderíamos o contato, mas não foi o que aconteceu. Continuamos nos falando por telefone e pela net, e as coisas começaram a tomar proporções mais sérias. Passamos a manter um relacionamento à distância, e eu cheguei até a viajar para a cidade dele, unicamente para vê-lo. Até aí está tudo perfeito. Agora vou contar-lhe o que tem me incomodado nessa história. Quando nos apresentamos, ele me deu um nome. Nessa mesma noite, percebi que as pessoas que o acompanhavam, se dirigiam a ele o chamando de um outro nome. Resolvi perguntar, afinal achei aquilo muito estranho, mas imaginei que ele tivesse nome composto, e foi o que ele afirmou. Só que nossos encontros não passaram daquela noite, enquanto ele esteve aqui, ficamos juntos e por aí vai. Minha família inteira sabe que mantemos um relacionamento e todos o conhecem pelo nome que ele me deu na noite em que nos conhecemos. Mas comecei a ter mais intimidade e a ter contato com informações muito pessoais, acabei descobrindo que o nome dele não é composto, e sim o nome que as pessoas o chamavam sempre, e que ele mesmo passou a adotar. Então pergunto o que fazer? Ainda não conversei com ele sobre isso. Tenho provas concretas de que o nome dele não é composto. Por que mentiu ? Não gostaria de perdê-lo, pois estou apaixonada, mas acho o erro gravíssimo e imperdoável. Como posso confiar, se no primeiro contato ele demonstra um desvio de caráter? Ele certamente não estava contando com a ídeia de se apaixonar por mim; mas como acreditar agora que ele realmente está apaixonado? Ele pode ser uma farsa completa, não? Por que nunca me falou a verdade? Como vou dizer isso a minha família? Como devo agir nessa situação?

Beijos

Selene

P.S. Amo tudo o que você escreve!"


Oi Selene!

Se ele já mente o nome, inconcebível sondar o que virá.

Não compreendo o que ele está desejando. Poderia ser vergonha do nome verdadeiro. Um Genildo, por exemplo. Ou um Valdisnei (Walt Disney registrado a partir de vizinhanças sonoras). Entretanto, confessaria sua timidez com a convivência. A questão é misteriosa: por que ele nunca falou uma verdade tão elementar e preveniu embaraços? Se fosse um caso, a mentirinha seria justificável, pois dificilmente você encontraria com os amigos e familiares dele. Algo como uma noite, outra vida. Nesse sentido, ele explorou seu ímpeto de entrega e a confundiu com um discurso romântico e promessa de perenidade. Homem que só é poeta para seduzir não será homem para se despedir.

Tive amigos que já usaram esse artifício, de lançar uma isca falsa entre dados reais e prossegue com a pescaria. O que não considero muito digno: vira jogo de reações. Ele conta algo e espera sua credulidade para prosseguir e se diverte com a veracidade do fingimento. É cruel. É como um ator passando seu script. Ser ou não mitômano torna-se o de menos, ele se revelará – mais grave - megalomaníaco.

Além disso, o feitiço costuma se voltar contra o feiticeiro. E qaundo o impostor se apaixona? O que fazer para limpar o jogo? Expor que era uma brincadeira? Pior, ninguém deseja enxergar seu amor servindo de brinquedo.

A conduta dele encaixa-se numa ficção feita para o calor da hora. Criou um personagem para não se comprometer no futuro. É um passaporte falso para evitar cobranças e garantir o livre trânsito de conquistador.

Depois de uma mentira - mesmo que singela - tudo o que viveu ao seu lado será questionado. Instala-se a dúvida retrospectiva. Uma dúvida que desfragmenta o disco do relacionamento e promove uma varredura dos pequenos gestos, frases e desculpas ditas anteriormente. Uma pequena mentira depende de outras mentiras para continuar vigorando.

Quer dizer que ele mentiu outras vezes para defender a primeira mentira. E não duvido que tenha sofrido horrores para não se contradizer e evitar que seja desmascarado.

Por aquilo que me conta, o namoro continuou pela internet e, em seguida, com sua visita na cidade dele. Ele a apresentou para a família? Creio que não, o que confere um sentido premeditado para atitude.

Uma hipótese é que ele vislumbrou apenas uma aventura. A química extrapolou a expectativa e realmente se interessou. Uma hipótese vaga. De todo modo, não explica a longevidade do engodo.

Converse com ele sobre o assunto. Ponha suas intenções em pratos limpos. Ele terá que ser muito criativo para justificar o nome falso. Ou muito verdadeiro. Ao argumentar que não aceita cobrança, e muito menos gosta de ser pressionado, mostrará que é um completo farsante, sem o mínimo medo de perdê-la.

O ataque é defesa na ausência de argumentos sinceros.

É possível admitir que o namorado seja mentiroso, desde que o amor não seja uma mentira (mas nunca esquecer que o amor acontece inclusive para os mentirosos).

Beijos e boa sorte,

Fabro

Envie carta com suas dúvidas de relacionamento para carpinejar@terra.com.br

10:22 AM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 08, 2008

O TROFÉU DE RUBEM BRAGA

Fabrício Carpinejar



É natural se sentir injustiçado na literatura, trama de isolamento e renúncia.

Todo o autor deseja ser reconhecido, vingar o tempo do ventre e da gaveta, mostrar que estava falando sério, provar aos pais e amigos que nasceu para aquilo, ou morreu por aquilo. Compensar a falta de sol e a pele albina, gêmea da folha irritadiça. Ser descoberto, descoberto!, com editoras interessadas e mais horas consagradas para apagar o desenho das teclas.

Mas escritor será sempre um contra-senso, uma árvore estranha que nasceu nas calhas e nos telhados, lugar impróprio para frutificar. Não estará entre as demais árvores, enraizadas no tempo certo da terra, caprichosas de flores e com crianças disputando seus galhos. Escritor tem que possuir resistência para continuar crescendo onde não era esperado.

A literatura é feita de combates. O primeiro e mais cruel é com a nossa desvalia.

Participei de concursos desde os vinte anos. Foram dezenas de pseudônimos, dos mais criativos aos rótulos de sopas. Por pouco, não esqueci meu nome. Pedro Terra. Gabriel Leônidas. Elisa Sevelte. Perdi inúmeras seleções. No início, culpava os jurados, acusava antes de perguntar e me informar, praguejava que eram cartas marcadas, que não valia a pena tentar, pois nunca seria lembrado. Não era nada, não tinha influências e padrinhos, e somente um endereço em São Leopoldo. Eu me percebia inútil. Caçava os premiados nas estantes e fazia questão de ler para apontar a fraqueza do livro e retomar minha histeria. Lembro que num concurso, rasguei os livros de um dos jurados. Descobri minha competência como triturador de papel. Lamento minha raiva, que chorava pelos dedos. O certo seria rasgar a própria obra, mas não tive coragem.

Exercia o elogio da exclusão, vibrava de alívio por ser recusado e contar com um pretexto para destilar a maldade. A vaidade só me levou à preguiça. Ao invés de arrumar o inédito, considerava-o pronto e acima do meu tempo. A frase "esse livro não é para esse tempo" é a mais hipócrita que conheço. O livro cria seu tempo dentro de si.

Mania de depender de um fiador para escrever. Dependo de fiador para comprar uma casa.

Demorei a compreender que os jurados não têm a obrigação de gostar da minha escrita, ninguém tem. Que eles desfrutam do direito de me recusar, e de avaliar que não estou pronto. Nem por isso eles não prestam ou não têm ética. Têm sim, porém pensam diferente do que eu. Podem gostar do que faço no futuro, não naquele momento. De repente, não era mesmo um gênio incompreendido, e sim um autor mediano. Um autor honesto. Um autor esforçado. Era o único que me apontava como fenômeno.

O texto não é minha carne, é carne distinta. O que escrevi pode não coincidir com o que desejava ter escrito. Quem diz que não fracassei e me distraí ao transportar o pensamento para a letra? Talvez metade da tinta tenha secado no caminho.

Entendi, ainda, que o concurso não é uma verdade, é uma opinião. Opinião consensual do conjunto de jurados, não opinião individual de cada jurado. O melhor de um jurado pode não ser o melhor do outro que pode não ser o melhor do terceiro e o premiado de repente é o que agradou os três, mas não arrebatou nenhum deles. Unanimidade não existe nem no corpo.

Faltava-me humildade. Humildade de aceitar que não sou tão visível. Absorver as recusas como uma dolorida generosidade para aperfeiçoar o estilo.

João Guimarães Rosa perdeu um concurso com Sagarana, em 1938. No júri, estava Graciliano Ramos. Não injuriou o resultado (Luís Jardim levou o primeiro lugar). Os oito anos entre a recusa e a publicação do volume foram decisivos para a emancipação de sua voz. Ele enxugou as narrativas, dedilhou as curvas, aprumou o vôo do buriti. Não há derrota que não aumente o gosto pela solidão.

Hoje agradeço quando recebo um prêmio e também agradeço quando não recebo (Daniel Piza me ensinou essa arte).

Final dos anos 70, meu pai Carlos Nejar visitou Rubem Braga no pior dia de sua vida. Ele julgava seu pior dia. Almoçou com Braga em sua cobertura em Ipanema, logo após não ter sido escolhido num certame de poesia. Durante o almoço, não saía do assunto. Abatido, desanimado, raivoso. Xingava a falta de lisura do processo, a sacanagem, o favorecimento de autores menores. Braga não se mexia, não coçava o bigode grisalho, não replicava, muito menos concordava, ouvia atentamente: a calma religiosa de uma jabuticabeira.

Ao se despedir, tomou o maior troféu de sua estante, uma estátua de Gutenberg (imagem acima), Prêmio “Paula Brito” de Crônica de 1958, e entregou ao meu pai.

- Toma seu prêmio, e não se fala mais nisso, tá?

10:54 AM :: Comentários:


Domingo, Janeiro 06, 2008

SOU A CIVILIZAÇÃO ANTIGA DE MEU IRMÃO
Desenho de Vicente

Fabrício Carpinejar



É um enigma como irmãos se distanciam quando adultos.

Não são as palavras que separam, mas o que deixamos em seu lugar. Uma incompreensão que nunca é tirada a limpo e fica como verdade.

As desavenças na maturidade não são maiores do que as da infância. Brigávamos com igual intensidade. O que mudou é que não moramos juntos para reatar. Se estivéssemos dormindo no mesmo quarto, faríamos as pazes uma hora qualquer e pediríamos desculpas. O medo de perder a companhia de brincadeira superava o orgulho.

Rodrigo, dois anos mais velho do que eu, mora em Porto Alegre. Não conheci seu apartamento, apesar de um ano de sua mudança. Quem nos reúne é a mãe por tabela. Vou visitá-la e ele passa por lá.

É visível que não temos paciência um com o outro. Partilhamos uma irritação ansiosa, sem capacidade para formular a frase certa e conciliadora. A frase que poria todas as diferenças de lado. Deve existir uma frase, mas não insistimos com os sons. Não cedemos tempo, logo trocamos de assunto e os parentes entram na sala e dispersamos a direção da conversa.

Rodrigo tem gostos muito parecidos, é poeta, compõe e adora dançar desgovernado, jurando que encontrou o ritmo da música.

Na adolescência, somávamos as mesadas para colecionar LPs. Eu era a esponja dele: tudo o que ele ouvia tomava como meu. Rodava no recreio da escola como seu Lado B. Durante tardes inteiras, explorávamos raridades nas lojas debaixo do viaduto da Borges.

Foi ele que me inspirou a ler poesia ao emprestar o livro "Uma estadia no inferno", de Rimbaud. Na manhã seguinte à leitura, desabafei: "não entendi nada". Ele me tranqüilizou: "É isso mesmo. Amanhã não vai também entender nada até viver algo do livro, uma única imagem, e ele se abrirá". Foi o que aconteceu. O guri sempre me interpretava.

Participava de uma banda e me carregava aos ensaios e apresentações noturnas. Segredava aos ouvidos que aquela menina poderia ser interessante. Levava um puta fora. Não me permitia chorar, recapitulava com paciência meus erros e me empurrava para que insistisse. "Ela já sabe que é um chato, portanto seja chato, é o que tu 'faz' melhor".

Filosofia engraçada, que rendia paixões esquisitas.

Às vezes, não sobrevivia. Ele batia nos ombros e consolava: "Não há gafe que não vire uma grande história depois para rir".

Parti para vários acampamentos com seus amigos nas praias de Santa Catarina. As primeiras noites em que dormi longe da família. Virei o caçula da turma. Aprendi a montar barraca, a passar fome para gastar em bebida, a filar cigarro, a pedir carona e confiar na generosidade de estranhos. Tomei porres homéricos e ele me cuidando:

- Vai passar, agüenta firme.

Descobri o quanto detesto escalar morros, que ele adorava. Três horas de caminhada para aproveitar cinco minutos no topo e iniciar o regresso.

Atuava como sindicalista dos irmãos no momento de garantir os nossos direitos. Fazia o papel de segundo pai e se ferrou. De interino terminou como figura masculina permanente, porque o pai realmente saiu de casa. Abafou o divórcio com seu jeito prático de resolver os problemas e assumir os desaforos. Fruta que amadureceu no chão, empurrado para a responsabilidade cedo demais.

Era um enigma como irmãos se distanciam até que vi Rodrigo carregar meu filho Vicente no colo.

O filhote sofria de cócegas nos olhos. Tomaram um livro de dinossauros da estante e Rodrigo explicou a evolução. Árvores convertidas em pedras, ossos reconstituídos de um punhado de pó. Eles se confiavam. Confiar é melhor do que compreender.

Eu me lembrei do que fui e do que ele foi. Seu rosto de longa testa. Os exatos quatro vincos antecedendo os cabelos. O menino sábio, colecionador de moedas e estudioso das antigas civilizações. O menino rabugento com alguma injustiça. O menino que não aceitava que os mais velhos zoassem de mim. O menino que andava de mãos dadas comigo para atravessar a praia e a rua. Eu me lembrei de nosso contentamento telepático. Do cheiro de nescau de nossa merendeira e de nossos uniformes suados.

"Vamos brincar" é a frase certa que largamos no pátio. A frase que dissiparia dúvidas e rancores e nos encheria de fôlego e expectativa.

Correr era se abraçar. Esquecemos de brincar. Esquecemos a pressa dos apelidos. Quando ele me chamava de Bito e eu o chamava simplesmente de Igo. Esquecemos que somos crianças atrapalhadas. Antes o mundo era um inimigo comum e reservávamos nossas forças secretas para nos proteger.

Somos atualmente nossos inimigos, inimigos porque crescemos carregados de razões. Cada um com suas razões.

Mas, mano amado, ainda assim não podemos parar de nos proteger.

11:01 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

MINHA MORTALIDADE

Fabrício Carpinejar



A falta de grana é o afrodisíaco do desespero masculino.

O homem deixa de pensar em sexo, de alentar desejos diabólicos pelas frutas da infância, de rir à toa. Extravia a vontade de assistir futebol, de comer chocolate e beber cerveja. É um desânimo, um mormaço. Somente o cotovelo segura o rosto na hora do almoço. Não nada, bóia. Pesca os cabelos da franja com o suspiro. Irradia compaixão, como um velhinho de pé no ônibus.

Qualquer mulher pode se assanhar, que ele não entenderá o recado. Será cínico consigo, dirá que é um engano.

Para retirar a virilidade de um homem não precisa castrá-lo: esvazie sua conta.

Com o saldo negativo, suas sobrancelhas crescem, chegam a casar. Sobrancelhas juntas deveriam ser proibidas. São incestuosas.

Ele adquire a grandiloqüência hirsuta de um rabino. A barba extingue a boca. É um náufrago do extrato bancário.

Sempre estou devendo mais do que recebendo. Vida de escritor é um sufoco. Não que eu não receba, eu recebo sim, e de vez em quando não é pouco, mas atrasado um ou dois meses e os juros contraídos devoram o que ganharia pelas palestras, oficinas e cursos. Além de ser péssimo em investimentos e perdulário, cultivo o dom da tragédia. O dom de não me guardar. Sou um avestruz ansioso, que cria o rombo no próprio corpo para se esconder. Não tenho pena de mim, é a crise que acelera a criatividade e me põe a trabalhar e desabotoar mais um degrau da esperança e da camisa.

Eu entro em surtos aritméticos. Instauro a mudez de repente, prevendo o que posso arrumar para acolchoar a queda. É um tique. Ao deflagrar mentalmente somas e subtrações, paro unicamente o raciocínio após exaurir as possibilidades ou descobrir que não há saída. São quinze minutos de absoluta evaporação. Não estou em minha carne. Não escuto as movimentações exteriores e a ênfase das conversas.

Bate uma tristeza noturna quando os filhos não têm noção de como seus pais sofrem calados para resolver o próximo fim de semana e enganar o peso dos empréstimos. Quem já não experimentou essa cena com um aperto nos dentes? E ouviu sua criança oferecer suas moedas guardadas?

Ajoelho os braços com freqüência. Meus braços rezam mais do que os pés.

O desespero diminui ao ler que grandes escritores como Rubem Braga (repare na sobrancelha!) remavam dívidas. Viviam cobrando adiantamentos aos seus editores, criando negócios e trocando mensalmente de casa. O talento não reduzia o estômago. Esqueciam o orgulho e a glória pela humildade de um pedido de emprego. Não é aflitivo imaginar Braga entregando seu currículo? Antes pedir dinheiro do que roubar idéias. Antes a modéstia do que a soberba de não doer. Vergonha não produz estilo.

Graciliano Ramos escreveu “Vidas Secas” num minúsculo quarto de pensão no Catete, que dividia com seus filhos e mulher. Armado de um lápis e anestesiado por um copinho de cachaça, buscava terminar logo o livro para pagar o aluguel. A dona não suportava o atraso, e somente aprenderia a pronunciar o nome do inquilino (chamava-o propositalmente de Brasiliano) quando resolvesse suas pendências. O austríaco Robert Musil elaborou "O Homem Sem Qualidades" a partir de uma fundação criada por seus amigos para permiti-lo continuar a saga de vários volumes. Apesar da solidariedade, a obra ficou inacabada.

A literatura não é maior do que uma cova. O que diferencia os escritores é o que eles realizam dentro dela. Alguns só morrem.

O contemporâneo Marcelo Mirisola já expôs sua conta bancária a público. Faço o mesmo para não deixá-lo “pagar” o mico sozinho: Fabrício Carpi Nejar, Banco Santander Banespa 033 Agência: 1189 Conta 01001265-8.

Um dia Mirisola me comentou que estava extremamente feliz ao constatar um novo depósito. Deduzia que era de um leitor. Semanas depois, rastreou a transferência e descobriu que era de sua mãe.

Tomara que minha mãe leia esse texto.

8:45 PM :: Comentários:

RAVE DE AVES
Detalhe de imagem de Cartier-Bresson

Fabrício Carpinejar



Dormia na chácara, com os lençóis rasos do verão. Até as 4h, ainda sonhava ou confiava que a manhã seria longa de olhos fechados. Uma paz de feriado, quietude de uma vassoura de palha pendurada ao avesso.

As condições eram promissoras: casa de madeira, ventilador, mulher amada ao lado, travesseiros altos e uma vegetação abundante ao pé da janela, com cheiros de hortelã e pinheiro.

Mas meus ouvidos levemente tossiram com uma ópera nas árvores próximas.

“Que bonito”, sussurrei. “Que poético”. E fui trocar de marcha na respiração e o corpo trancou.

Quem dera que fosse insônia.

Estava habituado a assistir pássaros solistas, no máximo um dueto. Em meu apartamento na capital, pássaro sempre armou arranjos de fundo, suaves e tênues. Raros visitantes de minha varanda. Um por vez, como em hospital.

Faziam uma aproximação tímida aos pulos, sem ambições líricas. Das grades às calhas. Músicos amadores, não recebiam couvert artístico. Almoçavam nas antenas e comentavam os capítulos das novelas.

Na madrugada, diferente dos meus costumes, ouvia uma orquestra poderosa e tonitruante a emanar dos fundos das frestas. Havia metais e cordas nas gargantas do bando.

Bloqueado o regresso ao sonho. Era uma inundação de pássaros nas venezianas. Uma enchente que entrava pelo quarto, cruzava os corredores, desembocava na sala, subia metros em segundos e me afogava de trinados e composições de vanguarda.

Tamanha a disposição dos agudos, o galo não fazia mais sentido no mundo.

Uma gritaria sem dó. Confundi com um motim, uma greve de professores, uma passeata por salários, uma invasão do MST. Não acertava mais minha posição na cama. Virava e desvirava, a queimação e a ardência da audição cada vez maiores. Vontade de gritar e pedir para que respeitassem a lei do silêncio.

Ameacei telefonar para a Polícia, para que viesse desalojar os moradores aéreos. Balançar os galhos. Desertar os ninhos. Cinco horas e uma barulheira indomável.

Era uma rave de aves. Meus vizinhos, no auge da dor-de-corno, não deixavam as canções nesta altura. Os piares em diferentes escalares colocavam no chinelo os amplificadores dos adolescentes nas calçadas. Humilhavam os carros de som vendendo melancias e anunciando liquidações. Transformavam pagodes em recreação infantil. Suavizavam serras elétricas dos prédios em construção.

Não estou mais acostumado com a natureza. Sou um urbano irrecuperável. Nem me internando no Pantanal. Desterrado por completo do paraíso.

11:09 AM :: Comentários:


Terça-feira, Janeiro 01, 2008

DEUS-ME-ACUDA
Arte de Matisse

Fabrício Carpinejar



Se as pessoas fizessem aniversário no mesmo dia?

Seria um caos, é o Ano-Novo.

O Ano-Novo transmite a sensação de que somos aniversariantes. Todos. Temos que lembrar de todos. Todos aguardam um aperto, uma lembrança, um sinal elétrico de nossa voz. Não só esperar os cumprimentos, ir atrás da memória, de personagens secundários e enredos esboçados, formar sinapses rápidas e obedientes para produzir mensagens e participar de uma euforia que tudo o que não aconteceu antes vai acontecer agora. É vida nova, idade nova, ou coma profundo.

Antes de sair para a festa, fiquei um tempão escolhendo a cor de minha cueca, é uma operação patética, perguntei até para meus filhos. Um pai perguntando qual a cor de sua cueca aos filhos deve gerar anos de terapia. Branca, vermelha ou amarela? Não tenho amarela, fui de branca, ainda desconfiado que não optei pela mais certa e desprezei Oxum.

Sou tomado por uma falta de opinião, não consigo me agradar porque cumprirei mandamentos e pequenas regras que não sei de onde surgiram. A série de simpatias me torna antipático. Confiro as previsões do ano com interesse pessoal. Exercito a numerologia cabalística. Convoco os deuses do candomblé com nervosismo de um impostor, pois sequer pisei num terreiro para decorar suas influências.

É um excesso de superstições para uma noite. A última vez em que participei de uma gincana foi na sétima série e tropecei na corrida de sacos de estopa na reta final, desencadeando a derrota de minha turma.

Não existe escapatória. Ao fugir das tarefas, posso ser amaldiçoado e enfrentar o pior ano de minha vida.

Para me prevenir dos riscos, entro na roda. Estourar balão com aquilo que não desejo de jeito nenhum (sentei fácil em cima dos desaforos), soltar balão para o enxame de estrelas com aquilo que desejo de todos os jeitos (não havia vento e joguei vôlei sozinho e desesperado com as cercas dos vizinhos), comer lentilha (abomino esse feijão atrofiado), tomar champanhe cuidando com o teor alcoólico (já que voltaria dirigindo), completar sexo oral com as uvas sem cuspir as sementes.

No Ano-Novo, nossos conhecidos aniversariam. O mundo inteiro de nossas relações volta-se ameaçador de ternura. Isso é um problema. Nossa agenda desenrola-se à frente como um mapa de uma cidade desconhecida. A Lista Telefônica é a Bíblia de capa colorida. Nada é desprezível, nenhum telefone, nenhum paradeiro. Uma enxurrada milenar de nomes e de adormecidas orfandades.

Condenados a reconhecer imediatamente alguém que conversamos num bar ou consagrar quem partilhamos uma amizade de duas décadas. Não importa o grau de afinidade, está de aniversário também. Merece nosso entusiasmo.

Não há como abraçar o imponderável. É como abraçar um baobá, a circunferência da árvore pedindo mais e mais braços emprestados.

Submeto-me a uma expectativa de reconhecimento que não tem fim. Distribuir paz, alegria, saúde, sucesso. Brindar com o copo cheio, transbordar de linho. Não esquecer ninguém. Ninguém.

E, no dia seguinte, acordar se desculpando, com o sentimento de culpa por ter se esquecido.

1:35 PM :: Comentários: