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Sexta-feira, Fevereiro 29, 2008

ESTÃO JUNTOS? MAS ELES VIVIAM BRIGANDO
Arte de Delacroix

Fabrício Carpinejar



O amor é a reviravolta dentro da diferença.

É fácil descobrir quem pode se apaixonar. Basta que os dois, que mal se conhecem, estejam brigando.

Ambos largam a conversa do grande grupo para os braços discordarem com maior liberdade. Entram em transe no meio da mesa. Já discutem com ardor, teimam por detalhes, acalentam seminários paralelos e sem fim. A princípio, identifica-se uma dissidência atroz, uma dessemelhança furiosa. Pelo primeiro encontro, a projeção é que nunca serão amigos. Demonstram um ódio mútuo pelas opiniões emitidas. Falta apenas sair no tapa.

Essas figuras antagônicas têm grandes chances de se casarem a partir daquele momento. Atraídas por tudo o que não entendem um no outro.

São como o mar: violentos na margem, com repuxo e pancadas ininterruptas das ondas, e tranqüilos após ultrapassar a linha da arrebentação.

Desencadeamos uma relação não pela simpatia superficial, pela vizinhança óbvia das idéias, pelas afinidades visíveis, mas pelo desconhecido. É o desconhecido que nos chama. Algo que ele disse e não se concorda, mas é intrigante - estimula a desejar entender. Algo que ela disse e é poético, até incompreensível - reivindica um quarto escuro e uma música para pensar melhor.

O desconhecido irrita no começo, pede espaço, tempo e intimidade. Provoca o espanto e o cansaço intelectual. Temos que caminhar mais rápido para alcançar. Passar pela nossa moralidade de madrugada na ponta dos pés, sem acordá-la.

Não nos apaixonamos por aquilo que sabíamos, mas por aquilo que não sabemos e descobrimos que precisamos. Descobrimos subitamente que não podemos mais viver sem. As declarações "ele é insuportável"/"ela é insuportável" devem ser traduzidas imediatamente em "ele me envolve"/"ela me envolve".

O par se defenderá nos primeiros contatos, numa queda-de-braço silenciosa e inflexível. Há um exagero proposital na armadura, no combate. Nenhum dos dois aceitará uma trégua. Nenhum dos dois aceitará recuar e se desculpar. Nenhum dos dois admitirá a derrota dos argumentos. Mostram que são mais decididos, mais temperamentais, mais convictos. E não largam sua posição intolerante porque estão se exibindo, estão alertando que são bons. Quase a comentar: "vê como sou forte, não é isso que está procurando?"

Tentam convencer, e, de modo involuntário, seduzem. A oposição é enganosa: a provocação é uma cilada: a contrariedade é um pretexto para não encerrar a conversa.

Não se ama sem incomodar e ser incomodado antes. Os cachorros de casa vão latir desesperadamente pelo avanço do estranho pelos nossos corredores.

Por que ele me perturba tanto? Por que ela me perturba tanto?

Ela não entende sozinha, e ele não entende sozinho, e voltam a se encontrar para procurar a resposta.

O amor cria sua dependência pela raiva. Porém, não é raiva, parece raiva; é mistério.

9:30 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008



CORSO
Da série "Meus amigos"

Fabrício Carpinejar



Há amigos que nunca vão comentar diretamente seus problemas. Porque não há problemas ou porque pensam que nunca haverá tempo suficiente. Mário Corso é assim.

Meu irmão ruivo. Um Zelig. Ele escuta atentamente e, quando cogito que revelará alguma coisa, muda a conversa de rumo. Que pânico. Nunca sei se o tema não o interessava. Pode ser uma estratégia, que exige demais dele. Ou de mim. Não ouso jogar xadrez com ele. Muito menos "Combate".

Eu me esvazio: pois falo tentando antecipar o que está pensando (mas continua sendo meu pensamento) e ele não concorda e não discorda. Será que é temperamento de psicanalista?

Ou é tão parecido comigo que me incomoda?

Não que seja defensivo, é aberto e vulnerável. Tem aquele olhar terrível de homem que pede adoção (que supera o olhar atrevido do canalha diante das mulheres). Um olhar infantil e nostálgico. Os olhos roubados das pinturas de Modigliani.

Metódico. Ficcionista puro. Ele me encontra para silenciar. Aplica o humor como ponto e vírgula. Odeia filtro de cigarro. Sem pudor, toma um dos meus e corta pela metade. Transforma qualquer fumo em bagana de mendigo. Acho que no fundo odeia fumar e abrevia o gesto.

Ele denuncia sua origem somente ao expelir as diagonais da fumaça. Segura o toco com o punho virado, e senta com as mãos no joelho, como Getúlio Vargas tomando mate. É realmente de Passo Fundo, apesar do sotaque soterrado debaixo da língua. Como uma aspirina.



10:09 AM :: Comentários:

SOU MALUCO?

A poeta chilena Gabriela Mistral dizia que "sem sobrancelhas, não guardamos os rostos".

Rafael Araújo, da equipe do Sempre um Papo, é prevenido. Não pretende ser esquecido mesmo. Dobrou a barra acima dos seus olhos, que ficam mais acentuados com os óculos. Os óculos são sua caneta hidrocor.

Falo dele porque escreveu um texto sobre nossa amizade. Deixo fotos abaixo de nossas divertidas andanças e palestras pelo país.

É óbvio que ele exagera, mas leia aqui o post "Carpinejar é maluco" de seu blog (que inveja - tem inclusive comentário de sua mãe!).

Ah... Seria populismo de minha parte se não fosse verdade: eu amo Minas Gerais.


Rafael Araújo tentando descobrir quando vou parar de ler.


Visitamos um brechó em Minas.


Crianças aproveitaram as compras no brechó para ilustrar a vida adulta.


Sorteio de livros em Maringá. Cupons para cima.


Eu poderia ser uma figurinha de Ziraldo

9:09 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008

O AVIÃO NO TELHADO
Arte de Joan Miró

Fabrício Carpinejar



Vida em família não é tediosa.

Vicente recebeu do seu tio Rodrigo um aviãozinho com controle remoto. O detalhe é que meu filho mora num apartamento. No segundo dia do brinquedo, depois de arremessá-lo loucamente pelas paredes da sala e testar a resistência aerodinâmica do planador, ele subiu confiante ao terraço. Foi um minuto ocupado ao telefone e apenas vi o avião subir, subir, subir.

Subiu para além de nossas grades e parou no telhado do prédio ao lado. No pavilhão cinza, inacessível, que serve por algumas horas como escritório de advocacia. A mesma casa onde no pátio repousam três de nossas bolas de futebol. Eu gritei não, Vicente deve ter virado o controle para tentar seu retorno, mas o vôo foi suicida.

Seu desalento não piorou porque ele se sentia culpado pela rota.

- Eu nem sujei o avião, reclamava.

De manhã, ao levantar para escola, transmitia um boletim atualizado do desastre: o avião ainda estava lá. Mantinha sua esperança por sobreviventes.

Esperávamos uma lufada de vento para levá-lo até o chão. Mas o sol parava o ar. As palmeiras não rebolavam.

Doía vê-lo acenar para o brinquedinho, acalmando a tripulação invisível:

- O resgate está próximo, agüentem firme.

Ou quando ele manuseava o controle da janela e as hélices se mexiam com fervor, sem esboçar uma reação.

O avião era agora uma rã desfalcada das pernas, encalhada nas telhas.

Minha impotência foi aumentando. Eu me enxergava menos pai e mais seu irmão desanimado. Sonhei até que era um bombeiro salvando uma frota de caças de isopor em fogaréu na escola Imperatriz Leopoldina, de minha infância.

Quando li no jornal que viriam pancadas de chuva, eu tremi. O avião deixaria de funcionar.

Desci para a casa vizinha, possuído pelo recalque. A advogada atendeu. Finalmente tinha gente ali - suspirei aliviado. Ela não assimilou a moral da visita. No meio do expediente, aparece um sujeito folgado lamentando que perdeu o avião do filho.

- Não tenho nada para dar, ela deduziu que fosse um pedinte com discurso moderno e logo me interrompeu.

Não é um enredo muito recorrente. Expliquei três vezes para que não sofresse do pânico de um seqüestro. Procurei palavras difíceis para mostrar cultura. Ela aceitou que subisse, com um porém:

- É tua responsabilidade se cair de lá.

Eu devolvi com humor:

- Se eu cair, não terei mais responsabilidade.

Já estava arrependido da brincadeira, segui adiante:

- Onde está a escada?

- Não tem escada, comentou.

E agora? Tenho licença para subir, mas sem escada.

Corri para a construção da frente e pedi aos funcionários se me emprestariam uma escada para subir ao telhado e pegar o avião de controle remoto do filho que estava na casa do vizinho porque só tenho permissão para subir agora e poderá cair chuva e o escritório fecha às 17h.

Eles me entenderam. Ou não me entenderam e ficaram assustados.

Atravessei a rua com uma escada daquelas que não existe simetria nos degraus. Degraus salteados. Riso banguela.

Mas a escada não atingia a marquise, não me permitia chegar ao topo. Faltavam 40 centímetros.

Não podia voltar atrás, era como jogar fora todo o trabalho anterior e o constrangimento enfrentado.

Bati nas campainhas das residências solicitando uma escada emprestada. Resmungava cada vez mais elétrico: "quero subir ao telhado e pegar o avião de controle remoto do filho que estava na casa do vizinho porque só tenho permissão para subir agora e poderá cair chuva e o escritório fecha às 17h".

Alguns me chamaram de doente, outros de louco, dependendo do grau de instrução. Quando desistia, olhei um senhor martelando ... uma escada no quintal de uma casa demolida.

- É ele!

Expliquei devagar e não fez oposição. Talvez quisesse provar a segurança de seu conserto. Tomei a nova tralha, de 3 metros e meio, retomei o alarido da rua e os corredores do vizinho e subi. Subi. Subi. Subi.

No seu quarto, o Vicente conversou pacificado com a cabine do avião.
- Eu avisei que meu pai iria buscá-los, eu falei para vocês.

Isso me deu orgulho. Mas o maior orgulho de um pai não é o reconhecimento do filho. É o reconhecimento da mãe do filho. A Ana sempre encontra um jeito de falar de mim ao pequeno, de despertar meus hábitos, meus rituais, minhas opiniões. Quando não estou em casa, nunca estou ausente. Eu sou pai porque ela me preserva e me cultiva.

3:37 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

MUITO POUCOS

Fabrício Carpinejar


Vicente hoje, em seu primeiro dia na escola.

Brincava com Vicente no mercado. Perguntava a cada corredor:

- Aqui tem feijão?

Ele olhava a placa indicativa e tinha que descobrir.

Mas ele foi acertando sem parar, a desconfiança coçando meus cotovelos. Tomei um montante de produtos nos braços e indagava o que era. Foi respondendo com firmeza:

- Fixador!

- Chá verde

- Condicionador.

- Biscoitos.

Meu filho estava lendo! De onde? Como? Não soletrava, lia com a rapidez de legenda. Voracidade. Como que aconteceu?

Qualquer coisa que observava, decifrava e ria, nem esperava minha confirmação. 24 de fevereiro, quatro dias depois de completar seis anos, um dia antes de ir para a 1ª série, Vicente estava lendo.

Eu que parei a aula dentro de casa para não forçá-lo. Por ser escritor, ansiava que aprendesse por mim. Mas ele não estava disposto, o que não significa que não prestava atenção. Diante do quadro-negro, descobri que cada um tem seu ritmo. Notei que ele queria mais brincar do que escrever e ler. Larguei o giz ao seu tempo - porque ler é uma descoberta individual, uma aceitação do mundo. Quando coagimos, subtraímos a alegria da revelação. Teria que permanecer natural e demonstrar o quanto um livro não é chato, o quanto gostava de medir as palavras com o lápis.

Eu e a sua mãe Ana recitávamos histórias infantis ao entardecer. Nosso menino questionava como se escrevia cada palavra para montar seus jornais e desenhos, sem nenhuma pressão. Nunca identificamos se ele já sabia ou não, pois errava uma coisa ou outra, seguia adiante, não se exibia.

No mercado, ele lembrava um passarinho, que não precisa fazer força para planar. Um passarinho que vai andar e já salta, vai saltar e já voa. As prateleiras subiam: céu e impulso, bordado e casamento, ponte e leveza. A linguagem foi se abrindo para ele passar. Já valeu ter vindo ao mundo como pai para assistir o espetáculo de minha criança encontrando sentido no pacote de farinha.

A emoção é chantagem, não dá para explicar direito. Folhetos, cartazes, peças promocionais, nunca gostei tanto de propaganda.

Eu enchia o carrinho de mantimentos que não iria comprar - somente para ele me dizer o que estava escrito. Fiquei descompassado; a Ana chorava, esqueceu metade da lista, mordia os dedos de ansiedade. Ele já não entendia nossa reação. Ou entendia do jeito dele, comovendo-se junto.

De uma hora para outra, não havia mais espaço entre as letras. De uma hora para outra, ele se transformava numa biblioteca. Seus cílios crespos prometiam sombra para a boca.

A alfabetização é um milagre. Não é coisa de homem, eu virei místico ontem. Eu virei um crente. Todo pai vira uma Bíblia quando seu filho aprende a ler. É um susto de amor. Um susto bom, quente.

É um repente, o avesso da miopia, o avesso do astigmatismo. As frases não se contorciam. Não dependia de óculos, e sim de mais olhos. Mais olhos, por favor. Eu comecei a ler o meu filho lendo. Outra leitura dentro da leitura. Suspendi a respiração para não discordar do vento.

Perguntei se ele fazia isso antes. Preocupado em não me magoar, falou envergonhado:

- Um pouco. Hoje são muito poucos.

Muito poucos. Tudo tem seu momento. Mesmo quando acreditamos que podemos, nos preparamos em segredo. Guardamos os pequenos esforços para reuni-los num encontro. É uma economia da fé, os trocados da fé resguardados no fecho de uma niqueleira. O alto valor feito de mínimos depósitos.

De noite, eu dormi com ele me lendo seu primeiro livro. A retribuição do colo.

10:41 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

IMPOSSÍVEL

Fabrício Carpinejar



Homem não gosta de mulher que insiste com recados consecutivos, mas também não gosta de mulher que não telefona.

Mulher não gosta de homem que a persegue, mas também não gosta de homem que não a procura.

Homem não gosta de mulher fácil, mas também não gosta de mulher difícil.

Mulher não gosta de homem doce, mas também não gosta de homem rude.

Homem não gosta de mulher que fica com muitos, mas também não gosta de encalhada.

Mulher não gosta de mulherengo, mas também não gosta de travado.

Homem não gosta de ser questionado, mas também não gosta de ser esquecido.

Mulher não gosta de ser contrariada, mas também não gosta de gente passiva.

Homem não gosta de estardalhaço, mas não adia uma bagunça.

Mulher gosta de estardalhaço, desde que não vire bagunça.

Homem não gosta de ser debochado, mas também não suporta ser levado sempre a sério.

Mulher não gosta de brincadeiras sem graça, mas não admite a ausência de brincadeiras.

Homem não gosta de fofoca, mas é o primeiro a contar as novidades aos amigos.

Mulher gosta de fofoca, mas deseja preservar sua privacidade.

Homem não gosta de jantar na casa da sogra, mas também precisa dela.

Mulher não gosta de ser comparada com as antigas namoradas, mas também quer saber todos os detalhes.

Homem não gosta de ser surpreendido, mas também não gosta de saber antes.

Mulher adora um mistério, mas com aviso prévio.

Homem não gosta de comprar lingerie, mas também é o primeiro a criticar a que ela está usando.

Mulher ama comprar lingerie, mas também é a primeira a dizer que a incomoda.

Mulher prefere calcinha bege, não aparece com a roupa.

Homem abomina calcinha bege, aparece demais quando ela tira a roupa.

Homem não gosta de discutir relacionamento, mas também não gosta do silêncio.

Mulher gosta de discutir relacionamento, mas odeia chorar no meio da briga.

Homem não tolera filmes românticos, mas não desliga quando reprisados na tevê.

Mulher não agüenta filmes de ação, mas também é um alívio não pensar muito.

Homem tem dificuldades para se declarar, mas faz o impossível para ser denunciado.

Mulher espera declarações, mas não quando está se arrumando.

Homem reclama dos atrasos, mas também detesta quem chega antes.

Mulher odeia a impaciência do homem, mas também se enerva com a letargia.

Homem não resiste a um videogame, mas também não deseja ser chamado de criança.

Mulher abusa dos diminutivos, mas também diz que cresceu.

Homem pede desculpa quando machuca, mas não aceita desculpa quando machucado.

Mulher se desculpa antes de errar, depois não se lembra.

Mulher desvia o assunto quando se desinteressa, mas não gosta que não prestem atenção nela.

Homem não gosta de ser interrompido, mas vive interrompendo.

Mulher admira poesia, mas não no sexo.

Homem procura agradar a mulher ao recitar poesia no sexo.

Homem não gosta de unhas vermelhas, mas fica excitado com elas num filme pornô.

Mulher gosta de unhas vermelhas porque detesta filme pornô.

Mulher anseia pelas flores, mas nunca tem um vaso para colocá-las.

Homem gosta de mandar flores, mas desiste na hora de escrever o cartão.


E ambos não gostam do meio-termo.



12:33 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

CAFAJESTADA I
Arte de Francis Bacon

Fabrício Carpinejar



Não participo de reunião de condomínio. Falta apetite para discutir rachaduras na caixa d´água, criticar os cachorros dos vizinhos, elaborar planos de emergência e aprovar orçamentos. São duas horas de fofoca para dez minutos de decisão.

O único grupo que freqüento no mês é a cafajestada, encontros com amigos canalhas. Explicando, tenho três amigos canalhas legítimos e dois falsos. O legítimo: aquele que faz para contar. O falso: o que conta para um dia fazer.

A esposa procurava desmarcar minha saída com o grupo a partir de mil e um artifícios. Jantares-surpresa ou música ambiente. Na data de uma das reuniões, bem no horário, até criou uma dança do ventre sensual imitando a Shakira (realmente não consegui sair).

Por mais que avisasse que não era um canalha, mas um observador, ela desconfiava do que acontecia na Caverna do Ratão, com bolinhos de bacalhau e chopes em seqüência.

Somente se aquietou quando constatou que regressava com chamegos no pescoço. Mais obediente. Mais cordeiro. Manso.

É que eu escutava tanta vilania e torpeza, que eu me sentia comportado e careta. Reavia a moleza da hóstia nos dentes.

O canalha não tem passado, tem histórico. É um bicho competitivo e não mede esforços em detalhar suas cenas. Sugiro a todos os homens em crise conjugal a assistir uma rodada de causos. Voltará curado de qualquer culpa. Equivalente em terapia aos alcoólatras anônimos.

Quem é escoltado por um amigo canalha encontra a redenção. Reconhece que suas maldades, as mesmas que subtraíram o sono por várias noites, são do jardim da infância. Por contraste recupera a paixão, descobrindo que não tem vocação para a carreira (canalhice é uma carreira e não é restrita ao sexo masculino).

Na última reunião, na terça passada, Zé Afonso (assim o chamo para não identificar meus amigos mais próximos) não passava bem. Atritava as chaves no bolso, não encarava nenhum dos comparsas no olho. Vivia o inferno astral. Pressionado, confessou que todas as suas amantes arrumaram namorados.

O grupo pegou pesado com ele. Zé entrou em parafuso de dobradiça, já envergonhado da franqueza.

O parecer coletivo é que ele não era um canalha. Perdeu o título, a confiança, o respeito do seu povo.

As mulheres não poderiam - em nenhuma hipótese - abandoná-lo. Ao arranjar novos pares, demonstravam que desejavam casar. Se não com ele, com qualquer outro disponível. O canalha não pode ser qualquer outro. Era uma ofensa ao sindicato. Suas amantes teriam que permanecer solteiras, disponíveis, exclusivas. Doidas por ele. Doídas por ele. "Onde já se viu?", gritavam. "Onde já se viu?".

Eu me esforço para ser fiel ao que ouvi. Zé Afonso foi ao banheiro e não mais retornou ao convívio.

3:24 PM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

AMOR DO AMOR

Fabrício Carpinejar



O que é o amor do amor?

Essa intriga ficou como uma úlcera me gastando em segredo.

Estava lustrando meus sapatos de manhã. Não renovava esse gesto artesanal desde adolescente. Retomei com gosto a importância de me agachar para as miudezas.

Despir os cadarços. Alternar a escova, a cera, e o pano. Descobrir as frestas e as ranhuras. Ocultar as pedradas da superfície, limpar os peixes de couro, reconhecer a sola e sua gula pelas profundidades pedregosas. Herdar unhas encardidas e o brilho dos pares ao final.

Os sapatos envelhecem juntos. Eles se igualam com o uso. Não há maior, nem menor. Adquirem a bondade da experiência. A generosidade da estrada.

E cheguei à conclusão de que o amor do amor é estar junto em qualquer região da linguagem.

Linguagem é mais do que lugar. Linguagem cria o lugar.

É a capacidade de dizer qualquer coisa para sua companhia e não ser classificado de grosseiro, deslocado, ridículo.

Não enfrentar uma revista ao embarcar para a viagem pelas vogais. Não ser indiciado. Desfrutar da confiança da observação e da amizade espirituosa.

Ser compreendido no ato. Ou antes mesmo.

Levar alguém para todo o país de sua imaginação.

Intimidade de olhar para a boca mais do que para os olhos, como dois apaixonados aguardando o beijo.

Quando posso ser sarcástico, debochado, pornográfico, poético, ingênuo, idiota, cínico, crédulo com uma mulher e não preciso me explicar, traduzir e pedir desculpa. E ainda parecer genuíno. E ainda parecer engraçado. E ainda parecer justo. E ainda parecer ousado.

Ser estimulado a não mentir.

Ser vários, e não perder a unidade. Ser muitos, e não perder o endereço.

Há algo mais vexatório do que brincar e outra pessoa permanecer séria? Estar se divertindo e ser julgado? Propor relações inesperadas e ser encaminhado para o chat de tortura?

Amor do amor é quando deixamos a espera pela esperança. Deixamos de repetir o que ela ou ele deseja ouvir, para se contentar com o que ouvimos. É uma imensa falta dentro da presença, uma imensa concordância dentro da discordância.

O amor é o contexto para aquilo que não tem explicação. O amor é sempre contexto para pensamentos desconexos, palavras excitadas.

Amor do amor é quando não nos envergonhamos de nada. Não há medo de dizer, pensar, errar. Quando o nosso pior continua sendo o melhor para quem nos acompanha.

11:49 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

MOTO-TÁXI

Fabrício Carpinejar



Estava atrasado, não vinha táxi, muito menos ônibus. Aliás, não sabia direito qual a direção da volta ao hotel. Ainda não assobiava Campo Grande.

Reparei numa fileira de motos. Os motoristas em prontidão. Defini a turba como motoboys. Passava reto quando um deles gritou: moto-táxi!

- Ei, táxi? Táxi!

Voltei, perguntei quando custava, mais barato do que o convencional. Meu medo quase disse: prefiro regressar a pé. Mas a pressa se antecipou à minha boca. Ou a falta de dinheiro. Coloquei um capacete que deve ter deixado minha cabeça na faixa dos 43º.

Fui como se estivesse andando pela primeira vez numa roda-gigante. Desconhecia até o lugar onde pousar os pés. Duas pedras de gelo na espinha. Constrangido, avisei que a última vez que tomei carona numa moto foi na infância. O motoqueiro me tranqüilizou:
- Tudo bem.

Não falou mais nada, uma economia que aumentou o pavor. Esperava palavras de conforto, terapia, auto-ajuda, antes de mergulhar nas ruas. Com o módico "tudo bem", seguimos a toda.

Faltou definir onde pôr as mãos. Tentei segurar na grade de trás, careci da coordenação de trapezista. Meu corpo esticou em arco. Ui. Botei os braços na cintura dele. Azar se ele estranhar...

O motoqueiro era gordinho. Sua cintura escorregava. Teria que bochechar sua carne (pegaria mal). Teria que arrumar prendedor de varal, espetos de churrasco. Escapava mesmo, os pneus dele (não da moto) saltavam suados. Impermeáveis. Apertava a criatura, ânsias de gelatina.

Desfrutava da impressão de trafegar sozinho; flutuava. Ele ainda fazia ziguezague entre os carros. Descobri que o vento é rápido demais para ler nossa letra. Lê somente a escrita das aves.

Observava os pedestres com melancolia. A cada sinaleira, pedia ajuda, com nostalgia de meus sapatos. Simularia SOS com os lábios se não engolisse tanto ar. Suspeito como num seqüestro.

Dedicado a me distrair, lembrei de uma paixão na adolescência que não quis transar depois de uma torrente alucinada de beijos. Ela foi racional. "A gente transa, será bom, depois voltaremos ao normal". Normal?

Percebo agora que ela nunca andou de moto-táxi.

10:08 AM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 17, 2008

O CORAÇÃO OU A BOCA
Imagem de Vicente, 5 anos, na cozinha

Fabrício Carpinejar



Filho é nosso espelho. No lago.

Por isso, nosso rosto fica mais bonito e mais fundo.

Como pai, tenho uma contravenção que vai me custar caro. Não como verdura.

A alface e o tomate, só dentro do bauru.

Devo ter seguido meu pai. Fui mimado. Não sofri fome para não recusar o que comer. Um exemplo é a vagem. Nunca comi vagem, mas a odeio desde pequeno. O cheiro, o aspecto gelatinoso de marisco. Parece um braço decepado de polvo. Sei lá como alguém decidiu que aquilo tinha vitaminas.

Procuro somente o que aprecio, homem de rituais, um deles o de não ser vegetariano e macrobiótico em nenhum momento do dia.

Criei o hábito de julgar pelos olhos. Pela cor e pela forma. Evito provar para não me arrepender ou fazer careta. Meu problema é que penso muito antes de cada garfada.
Sofria por mim. Corria riscos por mim. Mas basta colocar o filho na jogada que não suporto meus hábitos.

Vejo que ele me copia. Brigamos pela picanha e brigamos para não comer chuchu, pepino, brócolis. Minha mulher tem que me aturar como mais uma criança à mesa. Há pratos que não mudam sua geografia na toalha. Parados do início ao fim da refeição. Desencantados porque não recebem o alegre pedido: "Me passe a salada!"

Por mais que minha mulher inspire a criança, ela me usa para não tentar. Sou seu pretexto, seu argumento. Ela me imita para ser reconhecido.

"O pai não come, eu também não preciso"

O que responder?

Não dá para afirmar: "Se não comer, ficará doente".

Logo, ele replica: "O pai vai ficar doente... Não quero o pai doente..."

Meu filho é meu espelho. No lago. Joguei a pedra do meu preconceito, e sua imagem surge distorcida. Não tenho de me orgulhar quando ele puxa minhas limitações.
Para contrariar as expectativas, tomei uma pílula de irreverência e enfrentei a vagem. Cortei a vagem em pedacinhos (quem a picota mostra que a detesta). Ao engolir, constatei que tinha razão. Eu a odeio. Mas fingi que gostava, não sei de onde retirei força para suportar seu azedume, reconheci a posição de cada dente, eu me senti dentro de um consultório procurando obturações. Mas não falei do meu asco, do meu nojo. Guardei para minha garganta.

Ele me olhava atento, filmando minhas reações. Teria que conceder seu direito de escolher. Até então escolhia por ele. Meus atos são as palavras que ficam. O julgamento. Ele estaria livre na próxima vez.

Coração de pai tem que ser maior do que a boca, senão foge.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, p. 78, Número 171, Fevereiro de 2008


10:53 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

É UM ASSALTO OU O QUE ESTÁ DIFERENTE EM MIM?
Arte de Braque

Fabrício Carpinejar



Ela fez uma surpresa ao namorado, colocou a blusa que tinha recebido dele, e pulou em sua frente:

- Adivinha o que está diferente em mim?

Essa é a pergunta que todo homem teme. Um homem raramente acerta porque haverá mais de uma sutileza diferente nela. É apenas uma que deverá dizer. Apenas uma é a correta.

O homem teme não pelo seu descaso e distração. Mas pelo modo frenético da abordagem. À queima-roupa.

Ele está encurralado, não pressentiu a aproximação, não teve tempo de fugir e inventar um compromisso. "O que está diferente em mim?" é o assalto da vida amorosa. O equivalente a um ladrão armado testando a coragem da vítima e pedindo a carteira.

Como em todo assalto, o homem é tomado de pânico. E de esquecimento. Esquece sua conta no banco, seu telefone, os anos de convivência, a data do aniversário dela, seu RG. Sob pressão, apaga inclusive o nome da mãe, de seu time de futebol. Ele não consegue lembrar, imagina ainda observá-la de cima a baixo, e descobrir o que é há de novo em frações de segundos. É uma armadilha: virado ao avesso pela corda das palavras, resta esperar o sacrifício. É um game, a resposta certa garantirá o relacionamento por mais dois anos, ou até a próxima pergunta.

Ela não cortou o cabelo, mas diante da rapidez da pergunta parece que o penteado é novo. Ela não aparou as sobrancelhas, mas olhando bem estão desenhadas de outra forma. Ele não está estreando a calça, mas você não se lembra daquele jeans e pode ter visitado a costureira (você mal sabe diferenciar as próprias roupas). Observa os brincos e tampouco recorda de sua pedra azul, no formato de estrela. Será que é a sandália? Tenta reconstituir o que ela disse que faria hoje, para encontrar alguma pista. A confusão é absurda. Uma hipótese é que nunca parou para reconhecê-la e descobre que tudo é absolutamente inédito. Não pode declarar isso, é assumir seu pouco empenho na história do casal.

A blusa não é, elimina, foi um dos presentes de Natal e já é fevereiro.

É tarde para pedir um tempo. Lamenta que o namoro não seja uma partida de basquete, para suspender a derrota e reverter o resultado com a ajuda do técnico.

Teria que fotografá-la inteira e levar as imagens para análise. Montar um mural no quarto até definir a novidade.

Ansiosa, congelada em sua frente, ela não tolera sua demora.

- Não sabe, né?

Bate uma vontade de confessar: - Não sei.

Recua, seria admitir a derrota.

Bate uma vontade de suspirar: - Tudo.

Recua, seria admitir a preguiça.

Decide pelos cabelos. O homem desesperado sempre escolherá os cabelos. É o coringa, a maior probabilidade de aprovação.

- Pô, você não me ama mesmo.

3:34 PM :: Comentários:


Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

QUANDO VOCÊ RECOLHEU MEU CORPO
Arte de Braque

Fabrício Carpinejar



Amor, sabe quando eu senti que poderia ser seu?

Talvez nem recorde, não faça importância, pode parecer mais um tolice.

Na primeira vez em que dormimos juntos, depois da nudez esfriar, você esqueceu suas roupas no sofá e apanhou minha camisa do espaldar da cadeira. Não, eu não a alcancei. Você pegou, com um desembaraço esquisito, uma certeza de que não dependia de licença e permissões. Eu fiquei assustado com sua naturalidade.

Cheirou as mangas, a inocência do olfato ao colher uma erva nova. Colocou a camisa deixando a gola solta. A longa camisa entreabrindo os seios. Voltou para perto de mim e procurou a região acolchoada de meu peito. Adormeceu.

Eu não dormi para observá-la. Você se casou comigo ao vestir minha camisa. Não foi depois; foi naquele instante em que dividimos nossas primeiras roupas após dividir o corpo. Minha camisa a protegeu do inverno que insistia em ventilar pelas frestas. Você pensou que ela continuava meu corpo. Eu pensei que você continuava meu corpo.

Minha camisa como um vestido, beirando os joelhos. Minha camisa trocando de lar, de lado. Assumindo seu perfume, suas curvas, tomando a estrada da serra para a praia.

O grito, o gemido e o suspiro conversavam ao mesmo tempo em sua boca.

Em nenhum momento, vacilou, admitiu dilemas, fraquejou em engano. Toda elegância é decidida. Puxando minha camisa para sua cintura, você organizou meus olhos, abriu os botões e os dias que viriam.

Uma mulher não usa a camisa de um homem se não pretende morar com ele. Está vestindo a casa.

Veste a manhã seguinte em plena noite.

Uma mulher não recorre a roupa de um homem à toa, percebe-se protegida. É uma escolha que decidirá as demais perguntas. Um ato de admiração, que tornam os lençóis secundários.

É uma troca secreta de aliança. é bem mais do que levar a escova de dente para ficar na residência do namorado. Um sinal de aceitação mútua. Alguns casais não notam esse detalhe e se separam.

Você misturou nossas vidas, nossos armários, nossos pertences. Nada mais era meu, nada mais era seu.

Ao receber de volta a camisa de manhã, eu não consegui lavar. Já era sua pele. Inundada de esperança.

12:02 PM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 10, 2008

DEUS E O DIABO NA ALMA ARGENTINA
Em Dublin ao Sul, Isidoro Blaisten divide seu talento entre as influências contraditórias de Jorge Luis Borges e Roberto Arlt

Fabrício Carpinejar*


Dublin ao Sul
Isidoro Blaisten
A Girafa
206 págs., R$ 35


A literatura argentina abarca dois fortes vetores: a contenção da linguagem de Jorge Luis Borges e a expansão estilhaçada de Roberto Arlt. A primeira disposta a fundir livro e universo, numa sala de espelhos e de infinitas releituras; a outra disposta a divorciar de vez a obra da realidade, com a absorção da oralidade coloquial e a violência alegórica de vidas vazias e banais.

Natural de Concordia, na província de Entre Ríos, Isidoro Blaisten (1933-2004) mantém as duas frentes em guerra na sua ficção. Autor de 12 livros, pela primeira vez é publicado no Brasil, numa tradução arrojada de Mauro Gama para a coletânea de 12 contos, Dublin ao Sul, que mostra um painel de sua matizada produção ao longo de quase 40 anos, desde La Felicidad (1969).

Quando Arlt, Blaisten afrouxa as rédeas do discurso em O Violino de Lodo, Os Tarmas, A Sede, O Peixe na Tarde Fria e Quebradeira em Áries. Os textos parecem seguir um piloto automático, em fragmentações circulares e arroubos que se distanciam muito do ponto de partida. As gírias e as fantasias tornam algumas passagens herméticas; confusas mais do que sugestivas. Um escritor de difícil leitura, baseado em fluxo de consciência, descrições metafóricas inflacionadas e um mimetismo do cotidiano e de piada argentinos, que se esvaem na versão à língua portuguesa.

Quando Borges, Blaisten não sofre da angústia da influência. É tudo, menos angústia. Talvez seja mesmo alegria da influência. Emana um entusiasmo de sua narração, pleno controle das pequenas cosmogonias e labirintos. Seus sete melhores contos, A Pontualidade É Cortesia dos Reis, A Felicidade, O Tio Facundo, Porta em Duas, A Salvação, Victorcito, o Homem Oblíquo e Dublin ao Sul, partilham herança borgiana, ainda que apresentem reverberações urbanas e fantásticas de Julio Cortázar. Diálogo permanente com a tradição, atmosfera concentrada num único foco, e uma secura epigramática, a ditar o ritmo dos dramas, a maioria na primeira pessoa.

Não é uma prosa realista ou anti-realista, é sempre de fatura mítica, sob a forma de parábolas, discutindo temas como livre-arbítrio, orgulho e fatalidade. Não faz crescer o absurdo, como em Cortázar, mas a verossimilhança de situações extraordinárias.

No texto inicial, A Pontualidade É a Cortesia dos Reis, um homem vai se matar ao limpar sua Luger da caixa de mogno. Ele não sabe, e tenta-se entender pelo narrador o que eclodirá seu fim durante as duas horas antes do ato. Nada parece ser grave o suficiente, ele segue o ritual como se fosse mais um dia comum, inventariando digressões com a higiene da noite. O que seria de um suicídio sem decisão é a pergunta de Blaisten. Da mesma forma, em A Salvação, idoso compra “sua saúde” em uma loja, a leva numa caixa desconhecendo o conteúdo, e o suspense surge da especulação do que havia no pacote após seu atropelamento. Quando procuramos a salvação é que já estamos no fim, é a resposta de Blaisten.

No conto A Felicidade, dois amigos buscam consolidar de todas as formas uma parceria empresarial de sucesso. Perdem esposas e credibilidade no decorrer de experiências fracassadas. Até que decidem recolher objetos perdidos nas ruas e enriquecem com a criação de quiosques para a revenda e respectiva devolução aos seus proprietários. Num tom de conto infantil, resgata-se a idéia de que as pessoas tendem a comprar sempre o que perderam. O consumismo é uma sofisticada substituição.

O Tio Facundo revela o estrago na estabilidade de um lar com a visita prolongada de um parente. O relato de um dos filhos explica os efeitos nefastos da arruaça do tio materno. Seu estilo irreverente e camicase de vida desobriga os horários da casa, aguça os vícios ao jogo e à bebida e desfaz as opiniões definitivas de cada um dos familiares. Para defender os hábitos, o homicídio termina sendo o de menos. O escritor inverte o julgamento, banalizando a morte diante da unidade familiar.

Assim como em O Tio Facundo, Porta em Duas nasce de uma confissão. Um tesoureiro frio e conservador narra suas desventuras desde que entrou em surto ao converter uma porta antiga em estante. Do hobby à obsessão, larga o trabalho, a mulher e a filha para se dedicar a estudar o assunto e aprender os macetes da marcenaria. “Até a bondade de minha mulher tinha ficado insuportável”, diz, sem piedade. Ele se isola, inclinado a encontrar a satisfação no trabalho braçal e passa a caçoar da segurança intelectual - ilusão monótona - de sua antiga profissão.

Da seleta, Victorcito, o Homem Oblíquo e Dublin ao Sul representam as mais ácidas e bem-humoradas paródias contemporâneas da função de um crítico literário. Metalinguagem na forma de nitroglicerina. O homem oblíquo não acertava o gesto, malfadou no casamento, por não consumar a lua-de-mel, e na pintura e na música, devido a absoluto descontrole. Encontra sua vocação na crítica literária. “Achei meu caminho, embora alguns familiares de escritores que se suicidaram digam que não gosto de ninguém.” Em Dublin ao Sul, um balconista de uma agência bancária fica rico e famoso ao ganhar o talk show Vida e Obra de James Joyce, respondendo a curiosidades a respeito do autor irlandês, e confina-se num castelo em Dublin, mantendo um harém e uma maratona etílica de troglodita.

Os contos produzem um efeito enigmático a partir da transparência das atitudes dos protagonistas. A impressão é que o autor argentino descasca progressivamente a interioridade das personagens - os pensamentos são na verdade diálogos. Da interioridade, extrai a inferioridade patética de suas ações. As personagens escutam a si mesmas, refletem, mas não mudam; diferente do que Harold Bloom estabeleceu de Shakespeare. Essa fatalidade desencadeia um mal-estar. Não é que falte consciência; ela não é suficiente para uma mudança.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de As Solas do Sol, O Amor Esquece de Começar e Um Terno de Pássaros ao Sul, entre outros livros

(Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, p. 4, 10/02/2008)

9:30 AM :: Comentários:


Sábado, Fevereiro 09, 2008

REVISTA ÉPOCA
(Nº 508, 11 de fevereiro de 2008, p. 111)



Exclusivo online

LEIA UM POEMA DE CARPINEJAR

"UM TERNO DE PÁSSAROS AO SUL"
Arte de Joseph Beuys



Se o cego canta,
aceitamos a escuridão.
O amor não suporta

o entendimento.
Nenhuma névoa, canção,
alivia a culpa.

A mais alta consciência
é a falta dela.
Entraste fundo no livro:

cavo e esmurro as pedras
para te retirar do pó.
De herança, recebi

teu pincel de barba.
Saio à rua para arder.
Quando te cortas,

és meu pai.
Quando me corto,
sou teu sangue.

Envelhecemos
no povoado da faca,
lâminas e lamúrias

por todos os pontos.
Nunca me pediste desculpa.
Nunca pediste perdão

a nenhum homem.
Não serei tua exceção.
Não vais rir depois do orgulho.

"Um terno de pássaros ao sul" (edição revista, Bertrand Brasil, 2008), de Fabrício Carpinejar

10:03 PM :: Comentários:

BENDITO VIOLÃO
Arte de Braque
Para Mariana, minha filha,
e meus irmãos de show Fernando Chuí e Frank Jorge

Fabrício Carpinejar



Nunca toquei violão e sempre quis.

Não tive coragem de pedir para a mãe ou o pai.

Contei ainda com o azar de ninguém me ensinar, estender o instrumento sem cerimônia e me orientar: "segura aqui, segura assim, é fácil".

A poesia ficou sendo uma música mais barata.

Escrevi para Reynaldo Bessa: o violão desenforca os homens. São cordas para salvar as pessoas da solidão, do nó do desespero. O violão é um antídoto contra o suicídio, o mais eficaz inventado até hoje.

A tendência do bilhete de suicida é virar letra, o sujeito animar-se com a melodia e esquecer as idéias macabras.

Como alguém vai se matar segurando as canções com os próprios dedos? É como dar colo a um bebê. Uma responsabilidade frágil.

A música reabre o nascimento.

Ao esticar as cordas, aumentamos a altura do timbre. Para quem já cresceu tudo o que podia, é um jeito do corpo prosseguir avançando. Um centímetro de voz por noite. É uma infância que não termina de dormir. Com violão, homem feito ou não alça sua estatura de noite. E aparece muito maior de dia.

No colégio, era o amigo do “amigo do violão”. Nas festas de desconhecidos, ele não precisava se apresentar. Logo fazia empatia e trocava risadas antigas na varanda com o aniversariante (mesmo sendo a primeira vez que o via).

Muito menos dependia de cumprimentos nas reuniões da turma. Com o estojo nas costas, já recebia a cerveja e o lugar de destaque no sofá. As meninas o paparicavam, exagerando nos beiços e advérbios, insistindo que apresentasse os sucessos do momento. Ele argumentava:

- Agora não, depois! E levantava o corpo gelado com displicência.

Considerava sua afirmação um luxo de poder.

- Agora não, depois!

Ele mandava no tempo. O resto da festa tornava-se uma espera ansiosa. Os outros reparavam nos seus gestos, procurando adivinhar a decisão e antever o caminho dos seus braços.

Eu permanecia escorado na parede da cozinha entre a personalidade de penetra e a de garçom. Um pouco de ciúme de não ser ele. Um pouco de orgulho por ser amigo dele.

O violão é um confidente. Vejo minha filha conversar com o instrumento. Fala cada coisa para ele que nem sonho.

Não importa. Ela me promoveu. Vou melhorando de vida. Agora eu sou o pai da menina que toca violão.

11:31 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

NÃO DEIXAR PARA DEPOIS
Arte de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Os casais esperam a noite para o sexo.

O sexo como recompensa de um dia movimentado do trabalho, da maratona com as crianças, de uma série de pensamentos cortados. É a pequena glória de intimidade diante das conversas apressadas e da ânsia em resolver as pendências diurnas.

Alisar os pés, ouvir, ser ouvido, beijar longamente, aquecer a porção da pele dentro da boca.

Mas a televisão estará ligada e um programa despretensioso suga atenção mais do que o previsto.

Mas o filho demora a dormir, e não faz por mal, conta histórias inacreditáveis da escola e seu cheirinho de borracha nova impede de soltar o abraço.

Mas toca o telefonema e você atende num ato reflexo, é um grande amigo que não aparecia há séculos, e entabulam um manancial de fofocas sobre vivos e fantasmas. Impossível de desligar.

Mas o nervosismo de decisões sobrepostas no emprego produz – agora no alívio do quarto - uma enxaqueca inesperada que parece desculpa para não transar.

E você, por mais bem intencionada, por mais que tenha aguardado com banho tomado e perfumada, por mais que a lingerie nova e sexy aperte a bunda, por mais ninfomaníaca que seja, não trepa!

Cancela o desejo; e novamente acontece um dos contraceptivos intelectuais acima; e vem o dia seguinte e o dia seguinte.

Quando percebe, está por três semanas a seco com o marido.

Os casais não podem mais confundir o sexo como prêmio da quietude. Quando a casa acalmar, e ninguém mais incomodar.

Sabemos que é o ideal, só que o ideal demora ou nem acontece.

Ou os dois vão dormir ou não suportarão o próprio cansaço.

Uma coisa é teorizar, outra é contar com a sorte.

Não ajuda a mania de ter controle sobre o mundo e de planejar os incidentes. Por palavra ou esgar, o casal cobrará entre si a demora, a falta de tato, os adiamentos.

Alguém lamentará: - Você não me ama mais.

Alguém responderá: - É você que não me espera.

É uma lição que os amantes já aprenderam. Melhor perder a idealização do que a gula. Romantizar é antecipar, não deixar para depois.

Aliás, os casais deveriam revolucionar os hábitos e passar a transar de tarde, no intervalo do almoço, na trégua da tarde. Rapidinhas ou não. Deixar os amantes sem quarto em motéis. Deixar os amantes nas lombas com o freio de mão puxado. Colocar latinhas na parte traseira do carro para produzir barulho de lua-de-mel. Encher os estabelecimentos em seqüência com os letreiros de “lotado”. Não esperar a hora mais apropriada, namorar como no início da relação, voltando para casa de modo imprevisto, abrindo frestas, surgindo da neblina, desmarcando reuniões.

E, de noite, desobrigados, aí sim, se surgir clima, será uma recompensa.

1:10 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

RADICCI
Arte de Delacroix

Fabrício Carpinejar



Morto de fome depois de uma palestra, numa cidade do interior gaúcho, década de 90, entrei no auditório de uma escola onde seria oferecido um jantar. E o que pousa na mesa é um enorme prato de radicci. Mais nada.

Eu tinha a esperança de que aquilo seria a entrada. Percebendo minha inércia, um colega mais velho ordenou: "Come, não escolhe!"

Abomino radicci. Mas me atirei ao prato com uma gula irreconhecível. Mastigava as folhas para ocupar a boca e enganar o estômago com a motricidade dos dentes. Vi que não haveria jeito de comer de novo devido às altas horas da madrugada.

Foi a única vez que comi radicci. Eu recordo do radicci mais do que qualquer refeição nababesca que já fiz.

Algumas pessoas em nossa vida representam uma espécie de radicci. Amargo e indispensável.

Entre o meu pai e minha mãe, guardo uma memória mais prodigiosa de meu pai, que não morou comigo. A mãe sempre esteve ao meu lado.

Você pode concluir que o julgamento soa injusto. Mas somos desproporcionais.

Como meu pai não estava comigo, tive que me agarrar a toda rara lembrança dele como um náufrago. Desde pequeno, eu intuí que ele sumia, desapareceria e fixei seu contato. Minha carência não optou, apanhou tudo o que vinha ao meu alcance, coisas boas e ruins, mantimentos e tábuas que partiam do barco à deriva.

Não precisei selecionar o que guardar da mãe, a semana sem risco, a companhia constante, o dia protegido como a varanda. Ela não me forçou a lembrá-la, pois nunca se afastou de mim.

Meu pai brigou comigo várias vezes, e continuará brigando. Não admite que outras vozes possam ter narrações diferentes do que ele viveu. Ele deseja escrever, sem contraponto e divergência. Não compreende a separação entre vida e obra. Ele trata os meus textos sobre nosso passado como uma resenha negativa de sua obra. Meu pai é famoso, infelizmente o que é escrito sobre ele virou biografia, tem que ser controlado, não é mais vida.

Ele não repara no meu esforço para melhorá-lo, já que ele não existia. Ele sempre diz que invento sua memória. Esse é o ponto. Eu invento porque não tenho nada para colocar em seu lugar. Se ele tivesse vivido ao meu lado, o esqueceria. Amar é esquecer.

Quando amamos e somos amados, a verdade é que não lembramos. A saudade nem acorda diante da telepatia, correspondência, semelhança, convivência.

Estar junto esvazia. Um vazio alegre, que deixa espaço livre para não doer. É uma necessidade sem explicação.

Não guardamos a memória, guardamos o amor.

11:05 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

ESCREVER?
Detalhes de Piero della Francesca






"Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve. E se não soasse infantil e falsa a pergunta das mais sinceras, eu escolheria um amigo escritor e lhe perguntaria: como é que se escreve?

Por que, realmente, como se escreve? Que é que se diz? E como dizer? E como é que se começa? E que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranqüilo?

Sei que a resposta, por mais que intrigue, é a única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever. E ainda não me habituei a que me chamem de escritora. Porque, fora das horas em que escrevo, não sei absolutamente escrever. Será que escrever não é um ofício? Não há aprendizagem então? O que é? Só me considerarei escritora no dia em que eu disser: sei como se escreve."


- "A descoberta do mundo", p. 161, Francisco Alves, 4ª ed., 1998 -

Meu amigo Gabriel Arcanjo me fez essa pergunta, inspirado na crônica de Clarice Lispector. Partilho minha resposta:

"Escrever é esquecer as mãos. O rosto. E ir esquecendo as pernas, o fígado, o pulmão, o rim, o sexo, o batimento cardíaco.

Depois de esquecido, lembrar das mãos, do rosto, das pernas, do fígado, do pulmão, do rim, do sexo, do batimento cardíaco.

Escrever é nascer aquilo que eu já era, perdoar o que já tinha."


6:07 PM :: Comentários:


Domingo, Fevereiro 03, 2008

CASA, APARTAMENTO
Arte de Magritte

Fabrício Carpinejar



Eu morei em casa durante a infância. Um pátio imenso para desaparecer na tarde e propor experimentos científicos. Coitadas das formigas e das lagartixas que não estavam interessadas no progresso da ciência e da minha maldade. O mais prazeroso no excesso do espaço é que estar na residência não correspondia a ser encontrado. Ao despistar uma visita indesejada, não tinha que prender o sopro na sala ou me esconder debaixo da cama. Estava muito longe para ser decifrado.

Só regressava aos apelos desesperados da mãe ou diante de um acidente espalhafatoso dos irmãos – não me arriscaria a perder a reprimenda que eles levariam.

Fui e sou um defensor do quintal. Mas tenho que admitir que um edifício completa meu sonho de indiscrição. É fácil adivinhar o que cada vizinho anda fazendo.

Escuto brigas terríveis entre os casais. Troco minha posição de janela para melhorar a audição e definir os antecedentes da quebradeira (não consigo definir, os casais confessam os motivos em voz baixa e a gritaria corresponde ao estágio final do embate). Logo que um casamento entra em choque no edifício, os demais andares mergulham num estado de silêncio e púrpura. O burburinho das conversas, televisões e jantares se aquieta e migra para a expectativa comovida de átrio de uma igreja. É a lei da compensação: aquele par está tão mal que todos os outros inquilinos esquecem suas rusgas e passam a ficar bem e felizes. A briga vizinha desperta uma incrível vontade de namorar. Quantos filhos foram gerados, inspirados em noites de fúria alheia?

Nos estreitos corredores, os segredos são vantagens. Sei quais crianças jogam lama nos pedestres ou roubam os adereços de minha porta. Aliás, as crianças são o sinal de que envelhecemos sem aviso. No meu ingresso no condomínio, havia um nenê loiro do segundo andar, hoje ele está com dez anos, cabelos pretos e andando de skate. Sou o Matusalém para ele. Outra coisa boa é falar mal dos vizinhos. Eles nos emagrecem na hora. “Você viu como aquela família está gorda? Foi logo quando assumiu o condomínio”. Jogo inofensivo de indecências e insinuações.

Existem ainda os mistérios insolúveis, que acompanho com renovada curiosidade e não abro a boca. Uma das regras da boa vizinhança é não delatar os moradores, mesmo sob tortura. O senhor grisalho do apartamento de baixo - desconheço o significado da mania -, joga erva-mate no telhado de uma casa junto ao prédio. As 23h30, ele limpa sua cuia nas telhas. As calhas entupiram, e a dona da casa não entende a rapidez assombrosa do limo. Mensalmente, seu empregado sobe no telhado e faz uma faxina.

Meu nariz mora no 4º andar. Ao passar pelo corredor, sinto o arroz e feijão requentado do 404, a roupa sendo passada do 302, o desodorante solteiro do 301, a maconha do 203, a comida ácida de bebês do 101.

Apesar da porta nos separando, eu enxergo plenamente meus vizinhos. Dependo dos cheiros para definir meus passos. Vou descendo em cada perfume. O perfume é meu andar. Uma tranqüilidade caseira abastece minhas pernas. Na respiração, nunca estarei sozinho.

11:00 AM :: Comentários: