Cronologia


Bibliografia


Crítica


Textos


Depoimentos

Foto de Renata Stoduto

Ilustração de Rodrigo Rosa



Arquivos:

08/01/2003 - 08/31/2003
09/01/2003 - 09/30/2003
10/01/2003 - 10/31/2003
11/01/2003 - 11/30/2003
12/01/2003 - 12/31/2003
01/01/2004 - 01/31/2004
02/01/2004 - 02/29/2004
03/01/2004 - 03/31/2004
04/01/2004 - 04/30/2004
05/01/2004 - 05/31/2004
06/01/2004 - 06/30/2004
07/01/2004 - 07/31/2004
08/01/2004 - 08/31/2004
09/01/2004 - 09/30/2004
10/01/2004 - 10/31/2004
11/01/2004 - 11/30/2004
12/01/2004 - 12/31/2004
01/01/2005 - 01/31/2005
02/01/2005 - 02/28/2005
03/01/2005 - 03/31/2005
04/01/2005 - 04/30/2005
05/01/2005 - 05/31/2005
06/01/2005 - 06/30/2005
07/01/2005 - 07/31/2005
08/01/2005 - 08/31/2005
09/01/2005 - 09/30/2005
10/01/2005 - 10/31/2005
11/01/2005 - 11/30/2005
12/01/2005 - 12/31/2005
01/01/2006 - 01/31/2006
02/01/2006 - 02/28/2006
03/01/2006 - 03/31/2006
04/01/2006 - 04/30/2006
05/01/2006 - 05/31/2006
06/01/2006 - 06/30/2006
07/01/2006 - 07/31/2006
08/01/2006 - 08/31/2006
09/01/2006 - 09/30/2006
10/01/2006 - 10/31/2006
11/01/2006 - 11/30/2006
12/01/2006 - 12/31/2006
01/01/2007 - 01/08/2007


Consultório Poético

Blog

Domingo, Março 30, 2008

MEU PRIMEIRO MATRIMÔNIO



Fui convidado para um casamento. Para celebrar um casamento.

A cartinha piscou em minha caixa de mensagens em fevereiro. Deduzi que fosse uma brincadeira, deixei de lado, reli e percebi sua seriedade. Eliza se desculpava pelo atrevimento. Depois me perguntava mansamente se não teria condições de conduzir a cerimônia que oficializava sua união com Stefan, em São Paulo (SP). Avisava que não era religiosa, tampouco seu noivo, e que não custava tentar.

Ih, o que é isso? Um novo campo de trabalho para poetas? Escrevi uma resposta dizendo que não poderia, apaguei, reescrevi. A delicadeza do pedido da jovem jornalista de 31 anos me convenceu: "quem melhor do que meu poeta preferido para celebrar o amor?"

Cedi, acedi, vim. O casamento ocorreu na noite de sábado (29/3), na Vila Mariana. O texto interpretado segue abaixo.

JÁ ANOITECEU!

Fabrício Carpinejar



Estamos aqui reunidos para celebrar o casamento de

STEFAN E ELIZA

Quero agradecer a presença dos familiares e dos amigos convidados.

Sem querer, o casal está realizando o sonho de minha mãe.

É, minha mãe gostaria que um de seus filhos fosse padre. Não entendia a desigualdade divina, como o vizinho teve três padres e uma freira em sua família e Deus não reservou nenhum para ela.

Sei que os poetas aproximam corações, mas não esperava tanto.

Amor tem algo de louco. Insano. Vocês vivem juntos há seis anos, há 12 anos se conhecem.

O tempo passa rápido para os outros, não para vocês. O tempo está vivo em vocês. Minucioso. Detalhista. Obcecado.

É como ficar o dia inteiro em casa. E, de repente, perceber que anoiteceu.

"Já anoiteceu!" é uma das expressões mais bonitas. Já anoiteceu significa que não controlamos as horas. Já anoiteceu é sinônimo de alegria, de esquecer o que há lá fora por aquilo que carregamos dentro.

Casar é anoitecer. É quase a perguntar: “Como chegamos aqui?”

Eu respondo: Vocês não notaram. Apaixonados, não se preocuparam com a janela. Vocês anoiteceram. Um olhando o outro. Preocupados apenas em um olhar o outro.

Está noite lá fora enquanto sempre é manhã para os dois.

Parece que foi ontem, parece que foi na próxima semana, parece que acabaram de se encontrar.

O amor torna tudo sempre recente. O mais antigo é também agora.

Lembro de uma história de meu avô. Ele era do interior do estado e visitou os filhos na capital. Perante uma escada rolante, não vacilou, como todos faziam na época. Subiu, desajeitado, cuidando para não enroscar os longos cadarços na esteira movediça.

Seus filhos, espantados com a coragem, logo perguntaram:

- Como você não teve medo?

Ele respondeu de bate-pronto, sem modéstia:

- Ora bolas, nada demais, na viagem de carro eu sou a escada rolante da paisagem.

Quando amamos, não reparamos os degraus; somos a escada.

É certo que todos vão envelhecer, menos Stefan para Eliza e Eliza para Stefan. Guardarão a imagem intocável da primeira vez que se observaram.

Não vão envelhecer, porque o amor perdoa o tempo. As rugas, os vincos, os cabelos grisalhos, nada disso virá para quem ama. Não virá porque um dia Stefan olhou para Eliza e se convenceu: nunca mais vou esquecê-la. Eliza olhou para Stefan e se bastou: nunca mais vou esquecê-lo. E aquele rosto apanhado em segredo - como uma água-forte – é uma espécie de resistência.

Vocês podem esquecer que existiram, nunca que se amaram.

Podem esquecer qualquer coisa, até a si mesmos, mas nunca mais poderão esquecer que se amam.

O rosto de Eliza é a promessa de Stefan. O rosto de Stefan é a promessa de Eliza. Quando vocês acariciam suas feições, tocam em palavras. E palavras de amor não podem ser apagadas, nem corrigidas. Palavras são destinos.

Tentem escolher uma única lembrança alegre de vocês...Descobrirão que será difícil selecionar. Não há como escolher, não é que faltem lembranças boas, sobram lembranças boas, e ambos não desejam injustiçar nenhuma delas.

Na verdade, a memória do casal tornou-se uma só recordação. Ininterrupta. Perdas, festas, intimidade, risos, suspiros, brincadeiras, dores, superações, tudo está junto. Misturado.

A tal ponto que Stefan talvez tenha inserido Eliza em suas fotos de infância. Encontrou um jeito de fazê-la participar de toda a sua história. A tal ponto que Eliza talvez tenha colado a figura de Stefan no seu álbum de fotografias de pequena.

Quando se ama alguém, ama-se a vida inteira daquela pessoa. Inclusive o que não se viveu.

Para alguns, gentileza é dar flores, elogiar. Não é isso! Não há gentileza maior do que preservar sua mulher ou seu marido na linguagem. No dia-a-dia, na rotina e na miudeza do verbo. Ser afetuoso no sopro e na saliva. Cuidar dele, cuidar dela em cada palavra.

Há alguém que sabe mais do Stefan do que Eliza?
Duvido.

Há alguém que sabe mais de Eliza do que Stefan?
Duvido.

O casamento é quando finalmente abrimos a nossa guarda. Não deixamos nada de fora. Contamos o que não entendemos, partilhamos o que não conseguimos sofrer sozinho - nos dividimos inteiramente.

Se você, Stefan, conhece a fraqueza, os segredos, as dúvidas, os medos de Eliza, tem uma única obrigação durante a vida: protegê-la! Porque qualquer destrato seu irá doer nela duas vezes, porque ela não mais se defende de você.

Se você, Eliza, conhece a delicadeza, o espanto, os pavores, o luto de Stefan, tem uma única obrigação durante a vida: protegê-lo! Porque qualquer ofensa sua irá doer nele duas vezes, porque ele não mais se defende de você.

Confiança é o elo do amor. Podemos amar, mas sem confiança o amor não se mantém. A confiança é uma amizade renovada pela admiração, uma lealdade que a morte não interrompe.

Stefan: Você ama Eliza?
-
Eliza: Você ama Stefan?
-

Confiar dispensa qualquer nova pergunta ao ouvir o “eu te amo”. O que vier depois disso será resposta.

Como esse casamento.

Eu abençôo os noivos. Casados em nome da poesia.


12:37 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 28, 2008

PLUTÃO E OS EX-PLANETAS DO AMOR
Arte de Jackson Pollock

Fabrício Carpinejar



O amor não controla sua inflação ou a própria recessão.

No namoro, a mulher não economiza elogios sobre o namorado às amigas:

"Nem acredito, ele é perfeito".
"Não sei como ele me escolheu".
"Estou vivendo um paraíso".

Plutão ainda é um planeta. Ela não desperdiça tempo: enfeita, superfatura cada frase. Provoca inveja sem querer. As colegas passam a se perguntar o que ele tem. Claro, ela desperta a concorrência. Abre os flancos ao transmitir sua alegria. A alegria é uma incontinência verbal. Uma fofoca e transborda-se.

Confessa que ele é "incansável", "um atleta na cama", e nem entra detalhes porque tudo já é dito com o fulgor dos olhos. Não é questão de falsa modéstia. Não há modéstia mesmo no início. Período de transe e encantamento repetitivo. As declarações são as mesmas e parecem novas.

Quando a relação se firma, a mulher descobre que Plutão não é um planeta. E troca de movimento: do impressionismo para o realismo. Os defeitos são identificados acima das qualidades. Com medo de fazer propaganda demais do namorado, investe em ataques sutis ao seu valor.

Na mesa de um restaurante, dirá - sem contexto - que ele dorme depois da transa. Capota. O fundista sexual é rebaixado a dorminhoco. Comentará em seguida que não recebe flores há séculos (o mito do romântico foi ao ralo), e de sua inabilidade em escolher suas roupas, sempre em tamanho menor ou maior. O trágico é quando entra em minúcias como "ele só fica vendo televisão" ou "não ajuda em nada em casa" ou "sai para jogar futebol e beber com os amigos".

Não é questão de sinceridade, é exagero de crítica. Confunde a época de analisar a convivência com aspereza. O homem se percebe drasticamente diminuído - poucos sobrevivem. Ela subiu as ações masculinas para liquidá-las em dois anos. Transforma sua insatisfação, muitas vezes pequena, num debate público, tornando o problema bem maior do que é e esquecendo que seria possível resolvê-lo numa conversa a dois.

Ao desvalorizar o passe de seu namorado, afasta com razão qualquer mulher de perto dele, isso ela consegue. Mas também se distancia dele. A ponto de se convencer - secretamente - que ele não mais serve.

O amor é medida. Não mudar as palavras, controlar sua força. Ser natural, cuidando para não ultrapassar o respeito. Na linguagem, um toque pode virar tapa que pode virar soco.

Relação não é falar tudo, a franqueza ilude, é falar o que se precisa. E deixar que um pensamento se encontre com outro na telepatia.

Publicado na Revista Caras, Região Sul, Edição 48, 27 de março de 2008

3:55 PM :: Comentários:

IDENTIDADE SECRETA (QUARTO DESAFIO)
Da série "Blog 500 Mil"



Que figura! O adolescente está com cara de primeiro emprego: gravata e olhar agudo. Prometia seriedade de corretor de imóveis, terminou como escritor. Quem é?

O primeiro que desvendar o mistério é contemplado com um brinde (não esquecer de registrar o e-mail nos comentários). Proibida a participação de premiados anteriores, das próprias vítimas ou de seus familiares.

TERCEIRO DESAFIO (RESPOSTA CERTA)




Foi fácil. A maioria desarmou minha cilada. O jovem da foto era meu pai, Carlos Nejar, em 1960. O gatilho mais rápido do blog foi Juliana, de Porto Alegre, que recebeu a 1ª edição de "Selésis" (Editora Globo), o livro de estréia de Nejar.

9:48 AM :: Comentários:

ONDE ESTAREI NOS PRÓXIMOS DIAS





9:10 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 27, 2008

ENQUANTO O JACK ESTAVA NA GARRAFA
Arte de Egon Schiele

Fabrício Carpinejar



Não há lirismo que não corteje o pântano.

Ontem conversava com o Lacaniano de Passo Fundo e o Vampiro da Cidade Baixa enquanto o Jack ainda estava na garrafa. Reuni pela primeira vez os dois amigos. Não foi complicado encontrar um tema comum: sexo.

E o sexo para o Lacaniano é uma esperança dialética. Sempre que alguém reclama da vida sexual, ele vem logo com suas esporas, para espantar as frescuras do sujeito:

- Um coito interrompido é melhor do que nada.

Os aconselhados se afastam redimidos. Tanto faz a origem da crise, o esporo do Lacaniano funciona. Com a concha dos dedos, os atormentados passam a zelar a chama de seus olhos por mais uma noite.

A alma masculina não precisa de incenso. As coisas são ditas sem perfume.

Permita-me revelar um segredo proibido. O homem é derrubado pela mulher que sabe o masturbar. É fatalmente conquistado.

Parece que a masturbação é uma atitude de apoio, uma preliminar, uma passagem, um aquecimento ansioso pela penetração. O sexo oral é mais prestigiado. A masturbação quase é tratada como se não fosse sexo. Mas é a base do sexo.

São raras as mulheres que entendem a importância de violar o código antes destinado à imaginação, retirando seu ardor egoísta. Naquele gesto, o homem ainda se protegia. O homem ainda poderia estar a traindo, fantasiando com outra.

Únicas e ardilosas as mulheres que exploram e encontram a proeza desse ritmo lentamente febril. Que se dedicam a desvelar a seqüência secreta e pessoal, adquirida na infância e articulada entre o dom e o instinto. Há uma senha de quarto trancado, que é quebrada quando ela o conduz com naturalidade.

Existe no ato uma sinceridade dramática. Uma compulsão pela verdade. Uma confissão arrebatada.

Na masturbação, a vergonha está misturada à delícia e à compreensão do corpo.

Uma mulher que masturba o homem melhor do que ele alcançará a solidão da virilidade. Entrará em sua solidão. O homem não ficará mais sozinho. Não se entenderá mais sozinho.

Ela transfere a origem do prazer dele para suas mãos.

1:19 PM :: Comentários:


Terça-feira, Março 25, 2008

O LADO PREFERIDO DA CALÇADA
Arte de Modigliani
Para Caetano

Fabrício Carpinejar



Como filho do interior, conservo hábitos. O respeito pelos rituais herdados de meu pai, de meu avô, de meu bisavô. Assim como não perco o interesse ao espiar o entardecer e conferir como será o último gole de rio pelo sol alaranjado.

O armário afetivo não dispensa gentilezas e mantas quadriculadas: aguardar que a companhia se sirva para somente comer, puxar a cadeira, abrir o guarda-chuva, acompanhar até em casa e esperar que entre para se despedir.

Hábitos masculinos. Alguns dirão que são antiquados, machistas; outros, românticos, pueris.

Ao invés de discuti-los, eu me satisfaço em perpetuá-los.

Dentre eles, o que mais valorizo é manter a mulher no lado interno da calçada. Não permito que escape para o meio-fio. Serei antipático quando contestado. Serei grosso para preservar minha educação. Que ela permaneça na banda do céu no jogo da amarelinha. Meus sapatos estão acostumados a desenhar os limites do giz. É uma dança, a regra de uma dança, como levar a parceira ao salão com a mão esquerda e conduzi-la com a direita. Conduzir não é arrastar. É ter firmeza para a resposta.

Não a deixarei perto da rua, vulnerável aos atropelos da vida, à visão elétrica dos carros, ao ataque dos assaltantes. Não que a esconda, cultivo mistérios. Recebo em troca boa parte de sua sombra em meus quadris.



Claro que ela sabe se defender, mas é uma preferência musical. Minha atitude de ouvinte. Ela estará leve e debruçada nas guitarras das casas. Ainda mais se comentar a beleza de uma arquitetura e alisar os azulejos antigos como se fossem novos.

Posso ouvir com maior nitidez seus passos, a acústica do vestido. Envolver-me com o ritmo da respiração crescendo pelo esforço da caminhada. Afora os prazeres de olhar de lado e ser desafiado de perfil.

O cuidado de cuidar, o tato de servir. Andar certas quadras com a sensação de proteger desarma os homens. Confiantes, confessam inclusive a infância e o que não lembravam.

O homem visita a rua, por isso fica de fora, com seu corpo destinado ao extravio do mundo. A mulher é a própria residência a passeio, a intimidade de um telhado capturada pelos cabelos.

Mulher merece estar no lado de dentro do homem, no forro das árvores, com a paciência de nosso corpo e a escolta da linguagem.

Rente aos portões, às portas, às marquises. Mais perto das vozes dos estabelecimentos e das sonoridades das janelas.

No lado de dentro. Sempre. Qualquer que seja a palavra ou a avenida. Dentro de mim.



6:49 AM :: Comentários:

DICAS

"Querido pai: Cheguei a essa idade na qual se tem pleno domínio das próprias qualidades e a inteligência alcança sua força e capacidade máximas. É, portanto, o momento de realizar minha obra literária. Para realizá-la, necessito de tranqüilidade e pouca distração, não ter que pedir dinheiro para Marguerite Duras nem estar o tempo todo me ocupando de convencê-lo de que vale a pena financiar a escritura de um romance que, afinal, quando o terminar e publicar e receber o aplauso das multidões, haverá de enchê-lo de orgulho paterno e de grande satisfação por saber ter sido generoso comigo. Seu filho"

"Querido filho: Cheguei a essa idade na qual uma pessoa se vê obrigada a comprovar como seu filho se tornou um imbecil. Dou três meses para que termine sua obra-prima. Além disso, quem é Marguerite Duras? Seu pai."

Essa troca de correspondência de Enrique Vila-Matas e seu pai, durante a juventude do escritor espanhol, está no livro "Paris não tem fim" (Cosacnaif), uma de minhas dicas na coluna digital RSVIP, do jornal Zero Hora (RS). Confira.

6:48 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 24, 2008

FORTALEZA CONTRA OS INSETOS

Fabrício Carpinejar



“Quem é você?” nunca me fascinou, considero uma pergunta metafísica dispensável e inclusive tola.

Definir quem somos é conversa bêbada de saideira. Como aquelas canções tristes e nostálgicas, que aparecem pontualmente ao final de uma roda de violão, quando a alegria não tem mais braço.

Durante a luz do sol ou com a lua subindo, quem cantaria “Na rua, na chuva, na fazenda”?
Ninguém: é a típica canção para depois das 4h.

“Não estou disposto
A esquecer seu rosto de vez
E acho que é tão normal
Dizem que sou louco
Por eu ter um gosto assim
Gostar de quem não gosta de mim
Jogue suas mãos para o céu
E agradeça se acaso tiver
Alguém que você gostaria que
Estivesse sempre com você
Na rua, na chuva, na fazenda.”


Mas responder de onde enxergamos o mundo denuncia quem somos.

É mais apropriado “onde você está?” e diferenciamos o amendoim da castanha do pistache.

Idade não tem a ver com o tempo, e sim com o espaço. A vida é tão-somente mudar de lugar. É alterar nossa posição. Deslocar-se. Mexer as pernas para mais adiante.

A literatura não se esgota porque - sendo o mesmo o material de vivência - trocamos o ponto de vista. Amadurecer é perder a cadeira e assumir outra. Um passinho à frente do cobrador e nossa perspectiva de paisagem não será igual.

Sofri horrores na véspera da Páscoa. Um barulho infernal de funk.

"Quando ela me vê ela mexe,
Piri, Pipiri, Pipiri, Piri, Piriguete!
Rebola devagar depois desce,
Piri, Pipiri, Pipiri, Piri, Piriguete!"
(x100)

As paredes do apartamento tremiam como um copo espírita. Se fechasse as janelas, morreria sufocado. Vinte e três horas. O som vinha insano do fundo do prédio. De uma imunizadora, que tem o extravagante lema: "Fortaleza contra os insetos". Luzes girando, e uma gritaria colegial. De mês a mês, a imunizadora abriga festas que terminam quando o trem e os ônibus voltam a circular.

Meus filhos ansiavam dormir cedo para procurar o coelho. E viravam, desviravam nos lençóis, sem encontrar o sedativo apropriado do travesseiro.

- Pai, não dá para dormir, o que vai fazer?

Pediam paz. Eu me desesperei, a paternidade me enerva mais do que a burrice. Ainda tem gente que supõe que poeta é calmo. Havia telefonado em dezembro para a Brigada para solicitar que abaixasse a música no maldito lugar. Pelo jeito, não surtiu efeito - logo a turba regressava vingativa e escandalosamente animada.

"For-ta-le-za con-tra os in-se-tos?", soletrei com rancor. Eu me via como um misto de mosquito, cupim, mosca, barata, traça, pulga e aranha desinsetizado do meu endereço.

Não tive dúvida, telefonei de novo para a Brigada. O tenente Fernandes avisou:

- O caminho é a ocorrência. Os brigadianos estarão passando pelo seu prédio, desce e espera no saguão.

Desci, prevendo que eles iriam ao local terminar com a bagunça e regressaria para meu sossego, de mãos limpas. Pelo contrário, solicitaram que subisse na viatura. Surjo com dois imensos policiais batendo na porta da empresa. Armada a confusão. Adolescentes saíam de dentro, com uma latinha de cerveja e uma sensação de deslumbramento pela aventura proibida.

Lembrei da minha adolescência. Um vizinho de meu bairro em Porto Alegre, sessenta anos grisalhos, interrompeu a festa de minha turma acompanhado da polícia, pois o som entupia seus ouvidos e isolava a extensão de um quilômetro. Eu o chamei de "velhaco", obtendo a admiração imediata de meus colegas.

Entendi seu pesar depois de vinte anos. Demorei duas décadas para encarnar sua humilhação. O constrangimento de descer à rua de polainas e roupão para garantir a tranqüilidade da família.

Naquela época, desejava beber um barril e deixar a festa casado. Dava de ombros ao silêncio, ao conforto das crianças, ao sono e respeito dos moradores. Queria me divertir desobrigado das conseqüências.

Enxergava no senhor reclamante um infeliz invejoso, que não tinha nada para fazer.

No domingo de Páscoa, entrei num filme amador. Acareação, entregar a identidade, preencher formulários. O responsável admitiu o som alto demais, confessou que o proprietário desconhecia a baderna, que o ponto fora cedido para um aniversário e não podia controlar, já que a festa não lhe pertencia.

O DJ abaixou a música para logo aumentar. Impossível frear a algazarra, inviável a negociação: registrei queixa-crime. Audiência marcada para junho. Um incidente avolumado em processo. Teria que procurar um advogado.

Além de acolher indevidamente a balada, num espaço impróprio para a dança, jovens na portaria da imunizadora cobravam ingresso de quem chegava. Dez reais por pessoa.

A turma na faixa dos 14 aos 18 anos me rodeou, apontava a minha indisposição, julgava a minha estupidez.

- Para que essa ignorância, tio?, avançou um deles.

O "tio" me irritou acima do título de “ignorante".

Noite besta em que o incomodado vira incômodo, em que a vítima se envergonha de seus direitos.

A lei envelhece. O velhaco agora era eu, o careta, o estraga-prazer, o reacionário. Cresci.

6:43 AM :: Comentários:


Domingo, Março 23, 2008

JABUTICABEIRA NO CÉU DE IPANEMA

Fabrício Carpinejar*
Ilustração de Loredano



O poeta Manoel de Barros foi visitar Rubem Braga em sua cobertura. Não se conteve ao enxergar o imprevisível pomar no 12º andar:

- Uma jabuticabeira no céu de Ipanema!

Rubem Braga (1913-1990) era o sábia que cantava e cuidava da árvore, no topo da zona sul carioca. Talvez seja o maior escritor brasileiro do século 20, por superar os preconceitos da crônica, consolidar sua atmosfera e alçá-la à condição de mania nacional. Conseguiu a grandeza num gênero considerado menor e fugaz.

A crônica deveria ser disposta em duas linhas temporais: antes de Rubem e depois de Rubem. Uma ironia, considerando que o austríaco Otto Maria Carpeaux não o “permitiu” entrar na história da literatura do País. Além de poemas bissextos, não escreveu em outro gênero, nomeava-se um “cozinheiro do trivial”. Recusava truques, giros e efeitos narrativos; descartou convites para romances e novelas. Fazia o básico da língua portuguesa, não esquecendo que o básico é o mais difícil, algo como a combinação infalível de bife, arroz, feijão e batata. Colocava ainda, por recompensa, um ovo por cima do arroz.

Era um jornalista invisível, que “reparara em tudo e ninguém reparava nele”. Desmerecia seu talento. Dizia-se autor “de textos repetitivos, infiltrados de velhas tristezas”. Sua despretensão foi liberdade: livrou a poesia do verso; o texto, da retórica, mesclando franqueza e simplicidade, pungência e delicadeza. De uma observação insignificante, como o vôo de uma borboleta amarela, produzia suspense e prendia o leitor até a última linha. Exibia o dom de propor comparações incomuns das coisas mais comuns, estabelecendo, por exemplo, que “a casa deve ser a preparação para o segredo maior do túmulo” (crônica de maio de 1957).

Manuel Bandeira brincava com ele: “Quando Rubem Braga tem assunto é bom. Quando não tem, é ótimo.” Não é que lhe faltava tema, inverteu a supremacia do assunto sobre estilo. Externava opiniões fortes e contundentes, arrepiando os barretes da intelectualidade católica de Alceu Amoroso Lima.

Quem sente saudades do velho Braga tem um novo endereço para brindar sua memória: a biografia Rubem Braga - Um Cigano Fazendeiro do Ar (Globo, 592 págs., R$ 44) feita pelo jornalista Marco Antonio de Carvalho. Uma extensa pesquisa de mais de uma década e resultado de 270 entrevistas. Pena que o biógrafo morreu no ano passado, e não acompanhou o lançamento do volume. Trata-se de uma comovida herança, um abrangente, sério e fiel retrato do cronista, que nasceu em Cachoeiro de Itapemirim (ES) e trabalhou nos principais jornais do País.

Marco Antonio de Carvalho imprimiu a leveza da crônica de Rubem na biografia, a ponto de o livro parecer uma autobiografia. Ou o que Rubem gostaria de ler a seu respeito. Não faz paródia braguiana. É decidido, sinuoso, recheado de cartas e digressões. Entrelaça a vida pública e privada, esclarece o anedotário, fundamenta as decisões e descortina o contexto social e político do Rio dos anos 30-70. Não cede a uma escrita monótona, acadêmica. Tem, acima de tudo, o prazer da narração, descrevendo encontros com uma veracidade vivaz. Capítulos poderiam constar em O Conde e o Passarinho, sem fazer feio. São estampas verbais.

Num jantar diplomático, Braga, diplomata em Marrocos, fica encabulado diante de uma manga egípcia, indeciso na etiqueta. Será que poderia comer da mesma forma que uma manga brasileira? Carvalho relata: “Teve vontade de dizer que não, obrigado, adoro manga, mas me faz mal à pele, tem terebintina, ou então confessar de uma vez que manga se come é com a mão mesmo, à beira da praia, e que costumam sujar-lhe as orelhas, às vezes a nuca, o lustre da casa, o vestido da terceira senhora à esquerda. Não, jamais enfrentaria aquela manga num jantar tão fino. Esteve a ponto de levantar-se, passar imediatamente um telegrama para o Itamaraty pedindo dispensa de suas funções diplomáticas, tomar um navio, um trem, um cavalo, e voltar para Cachoeiro.” O biógrafo levou em conta o que Braga comentou sobre memórias: “Memória é um gênero muito falso. Ninguém conta a história. O sujeito conta, sempre, ajeitando, tirando uma coisa, botando outra. Porque se contar a verdade, ou vai se humilhar, ou deixar mal parentes e amigos.”

Não se trata, portanto, de uma homenagem de um fã; há toda a combustão de contradições do perfilado, seus defeitos, desafetos e maldades inteligentes. É o caso da biografia que deixará os parentes e os amigos em situação embaraçosa.

Uma das revelações é o caso de Braga com Bluma, esposa de Samuel Wainer. Ambos são casados. Bluma engravida e se confessa pronta para viver com o amante. Braga, assustado, foge para o Rio Grande do Sul, em 1939. Sua viagem até então era creditada a motivos políticos, para escapar do implacável DIP de Getúlio. A obra aponta a questão pessoal como estopim.

Carvalho detalha a cisão folclórica entre Rubem e Samuel, que tornou o nome do cronista proibido nos seus jornais. O que atrapalha o ódio entre os dois é a semelhança física. Partilhavam idênticas sobrancelhas espessas, idêntico perfil físico e, inclusive, usavam idênticas roupas de um alfaiate da Rua do Ouvidor. Sempre que confundido com Samuel, Braga praguejava: “E eu tenho cara de corno?” Ambos só restabeleceriam a amizade na década de 60.

Um das facetas pouco conhecidas apresentadas na biografia é a do editor. Ao contrário do que se imagina, Rubem Braga demonstrava uma incrível habilidade em antever negócios e farejar possibilidades editoriais. Disposto a aumentar suas porcentagens nas vendas, fundou a “Editora do Autor”, ao lado de Fernando Sabino. O primeiro livro já foi um sucesso. Aproveitando a passagem de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre pelo Brasil, comprou os direitos de artigos de uma revista francesa sobre Revolução Cubana e traduziu os textos em oito dias, com ajuda de amigos.

A obra relâmpago vendeu 800 exemplares na noite de autógrafos. Ao mesmo tempo em que publicava a si e seus talentosos colegas, Braga possibilitou a tradução de O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. Após vender a editora, abriu um outro selo: Sabiá. Novamente a sorte estava ao seu lado. Publicou um jovem e desconhecido colombiano, Gabriel García Márquez, e seu clássico Cem Anos de Solidão. Firmou-se como um especialista no marketing, o primeiro a fazer uma caixinha reunindo livros de diferentes autores.

Não é tarefa das mais simples reunir as andanças e recordações do cigano Braga, que morou no Recife, Rio, em São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte, afora Paris (França), Rabat (Marrocos) e Santiago (Chile). Braga demonstrou uma incondicional coerência, inimigo eterno de Getúlio Vargas, que o perseguiu e o empurrou à clandestinidade, e o qual considerava “uma boa escola de derrotas”. Pressionado, não baixava a cabeça, saía do emprego sem remorso: “Não posso pensar pelo dono do jornal, mas também não posso fazê-lo pensar por mim.” A carta que escreveu na morte de Graciliano Ramos, vizinho de mísero quarto numa pensão no Catete, representa também sua trajetória: “Não somos piores do que os outros. Se os nossos defeitos aparecem mais é porque somos mais exigentes conosco mesmos e de vez em quando somos submetidos a provas que os outros não conhecem.”

Rubem Braga superou provas de fogo ao longo da vida, contrariando sua fama de preguiçoso e o apelido de “urso”. Atuou como repórter da 2ª Guerra Mundial e da Revolução Constitucionalista de 1932. Para desfazer as aparências, a biografia começa justamente com a coragem do jornalista na Itália fascista, único correspondente de nossa imprensa a testemunhar a vitória da Força Expedicionária Brasileira, que culminou com a rendição de 16 mil soldados alemães, em 30 de abril de 1945.

Desde seu início em Cachoeiro de Itapemirim, seu talento sempre esteve sob suspeita. Sua primeira crônica publicada, A Lágrima, num jornalzinho do colégio Pedro Palácios, aos 14 anos, recebeu a desconfiança dos professores de que aquilo não poderia vir dele. Logo em seguida foi expulso do colégio (por insubordinação, tal como Carlos Drummond de Andrade), quando não aceitou passivamente a ofensa de “burro”, feita por um professor.

Carvalho reconstitui a importância da família e do irmão Newton, que arrumou um emprego a Braga no Diário da Tarde (BH). Derruba a tese de que ele era casmurro, mas reservado. E com um humor viperino capaz de desarmar amizades. Numa apresentação de Vinicius de Moraes, o poetinha joga confetes na platéia: “A melhor coisa do mundo é comer um papo-de-anjo ao lado da mulher amada.” Braga inverte o discurso piegas e responde do público: “Muito melhor é comer a mulher amada tendo ao lado um papo-de-anjo.”

Em Um Cigano Fazendeiro do Ar constata-se a pontualidade graciosa do frasista, que não ficava atrás da clarividência de Otto Lara Resende. Alguns dos aforismos: “Política é a arte de namorar homens”, “viajar é uma espécie de drible que a gente passa em si mesmo”, “As belas mulheres são desgraças que humildemente abençôo”, “Um comunista é um sujeito excelente. Dois comunistas são intoleráveis.”

Quando anunciaram a transferência da capital do Rio de Janeiro para terras de Goiás, o escritor advertiu que era um exagero: “Basta tirar daqui umas pessoas que enchem demais a cidade, para a coisa melhorar. Eu me ofereço para fazer a lista.” Boêmio (não havia bar no Rio que não dependesse do seu aval), sedutor (conquistou lindas mulheres como Tônia Carreiro e foi recusado por outras como Lygia Marina e Danuza Leão) e misterioso (ninguém conseguia prever seu estado de espírito), Rubem Braga enfrentou os pesadelos e regimes ditatoriais com o sonho de simplicidade.

* Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha, entre outros


O Livro


O AUTOR: Nascido em Cachoeiro do Itapemirim (ES), em 1913, Rubem Braga entrou para a história da literatura brasileira ao diminuir o preconceito contra a crônica, gênero até hoje dividido entre o jornalismo e a literatura. Dedicado ao ofício de cronista, apesar de poesias bissextas, Braga tratava dos assuntos com simplicidade. Cobriu como repórter a 2ª Guerra, testemunhando a vitória da Força Expedicionária Brasileira, na Itália, em 1945. Teve problemas com o Estado Novo: foi preso algumas vezes. Embaixador no Marrocos no governo Jânio Quadros, fundou a editora Sabiá, que lançou escritores como Gabriel Garcia Márquez. Morreu em 1990.

O BIÓGRAFO: Marco Antonio de Carvalho foi professor de literatura e jornalista. Trabalhou em veículos como o Estado. Nascido na mesma cidade que Braga, em 1950, dedicou-se durante dez anos a fazer a biografia do conterrâneo. Morreu em julho do ano passado, antes do lançamento do seu maior trabalho.

Publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, CADERNO 2, página 8
Domingo, 23 março de 2008


10:38 AM :: Comentários:


Sábado, Março 22, 2008

IDENTIDADE SECRETA (TERCEIRO DESAFIO)
Da série "Blog 500 Mil"



Quem é esse autor? Parece de um documento antigo, né? Um filósofo das ruas de São Borja (RS), Farelo, costuma dizer que "as pessoas não mudam, o que muda nelas é somente o penteado".

O primeiro que desvendar o mistério é contemplado com um brinde (não esquecer de registrar o e-mail nos comentários). Proibida a participação das próprias vítimas ou de seus familiares.

SEGUNDO DESAFIO (RESPOSTA CERTA)

Muitos arriscaram o nome de Diogo Mainardi, outros sondaram o Milton Hatoum, mas o verdadeiro sujeito era Tabajara Ruas, grande romancista gaúcho, que posa ao lado com meus óculos azuis piscantes de boate.

A premiada foi Kelli Pedroso, de Porto Alegre.



9:43 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 21, 2008

OS SAPOS DA PÁSCOA
Arte sobre pintura de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



Não diminuo mulher que tem fobia de baratas ou de ratos ou de morcegos. É bom guardar um medo para pedir vida emprestada. Dividir o susto.

Meu pai não tinha medo de nada. Isso me deixava triste. Não havia como protegê-lo. Intocável. Com sua barba árabe a espantar os traumas.

Passamos a Páscoa de 1977 em Pinhal, no litoral gaúcho. Casas vazias, ruas com mais espaço ao chilrear das carroças e das aves. Fora do veraneio, o vento ciscava os telhados com a tranqüilidade de um pescador. A grama alta, o meio-fio descascado, o mato é que pastava os cavalos.

Com atenção, ouviríamos os gemidos das baleias mais platinas. O ranger subterrâneo do oceano.

A família buscava um sossego longe do ritmo da cidade apertada. De noite, o pai nos aliviava do pavor das frestas da porta e das janelas. Acalmava dizendo que não era um invasor. Era a solidão da duna que cobria as casas.

Sonhava que acordaríamos com as paredes soterradas. Como nos postais da neve. Nunca aconteceu.

O que aconteceu animou minha Páscoa, estranhamente.

Rodrigo, o irmão mais velho, era o chefe dos escoteiros, se fôssemos escoteiros.

Eu e Miguel, soldados rasos de suas molecagens. Executores das tarefas.

O pai zelava o costume de deitar na rede depois da sesta. Tomava um livro, seu caderno de anotações e um lápis severo de carpintaria. Dormia uma hora em meio à serenata da leitura.

Não é que o Rodrigo descobriu que o nosso pai detestava rãs e sapos. Explicou pela metade, com a rapidez peculiar da maldade. Ele não suportava o salto desgovernado da pele anfíbia. E as córneas de pedra que poderiam cegar ao jorrar um líquido venenoso de cobra, que não entendia direito como que funcionava.

Subestimei a crença:

- Não, o pai não tem medo de nada.

Rodrigo nos guiou a um banhado vizinho e colhemos três sapos num chapéu de palha.

Despejamos os barulhentos animaizinhos na rede. Esperamos o teatro no pátio.

Quando o pai deitou, com o peso solene da quietude, ele gritou:

- Sapos, sapos, sapos... Filhos, tirem os sapos, os sapos!

Ele dançava, girava, jogou os livros ao chão, o rosto assustado e crédulo, correndo a um lugar seguro para sair das repetições de sua voz.

Não consegui ampará-lo, deitei para rir melhor, o riso é egoísta, eu me acariciava de risadas, eu me esfregava nas lajes para controlar a coceira do coração, que aumentava com a lembrança. Fechei os olhos para não soltar a memória. Os irmãos também se denunciaram com as gargalhadas.

O pai nos colocou de castigo, é evidente. Mas não reclamamos. Ele tinha medo de alguma coisa. Nunca esteve tão próximo de mim. Tão pai. Tão carente.

11:16 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 18, 2008

O VIZINHO QUER MINHA MANGUEIRA

Fabrício Carpinejar



Eu durmo de coberta mesmo no mais escaldante tempo.

Ligo o ar condicionado ao máximo, recupero meus edredons e finjo que sou um esquimó.

Ele é também uma parede silenciadora. Há uma Vulcanizadora logo embaixo do meu prédio. Seus funcionários conversam alto antes das 6h, atiçados pela mesa de sinuca. Voam agudos de interromper Lexotan.

Com o ar condicionado, não ouço nem meu ronco. O mundo é uma miragem sonora, calma, longe e ritmada.

Vivia sem culpa até receber um e-mail. Cinco anos sem arrependimentos.

"Caro Fabrício,

Primeiramente gostaria de dizer que sou seu fã, tenho acompanhado diariamente seus ensaios e escritos do seu blog. Um dos textos mais bonitos sob meu ponto de vista foi "Estou grávido de você". Acho que e-mails desse tipo são comuns em sua caixa postal devido à sua capacidade de envolver pessoas com seus poemas.

O que não deve ser muito comum é a seguinte solicitação:

Sou seu vizinho de baixo e, como sempre, o vizinho abaixo sofre por questões puramente físicas (gravidade).

Estou com problemas de insônia devido a uma goteira do seu ar condicionado na qual ele fica pingando incessantemente sob o meu ar condicionado durante toda a noite. Existe até um tipo de tortura praticado por chineses com gotas de água. Mas, como sei que seu propósito não seria este, acho que se colocar uma pequena mangueirinha adiantaria em muito meu problema.

Agradeço desde já sua atenção

Rafael"


É assustador descobrir que meu vizinho me acompanha. Quando o cumprimentava, pensava que ele não conhecia o que escrevia, muito menos o que desejava. Eu saltitava impune pelos corredores. Reagia livre do passado. Agora perdi a ingenuidade. Quando colocar um texto mais sacana, vou entender seu alô alegre como "sei o que anda fazendo". Sinto-me denunciado. Entenderei sua tosse como "e aí, gostosão?".

É igualmente assustador que ele não tenha batido em minha porta, para narrar o problema. Separados por um andar, decidiu enviar uma mensagem. Levei um choque quando a li em meu apartamento, talvez no mesmo momento em que ele enviou do seu apartamento. Ele com seus chinelos havaianas, eu com meus chinelos havaianas, e a mesma paisagem ao fundo.

Concluo que escolheu o e-mail para não me incomodar. Efeito contrário: produziu uma barulheira em mim.

Quem diz que não anteviu que seria vítima de minha crônica? Ou como estratégia de empatia, sensibilizou-me pela vaidade da escrita.

Algo como um ultimato: "Fabrício, se não arrumar uma mangueira em 24 horas, vai perder seu leitor".

Abriu-se uma missão santa. Imagina perder um fã por uma mangueira?

Portava-me com a urgência de um político, que recebe pedidos de aterro, cadeira de rodas, troco de ônibus, remédios por um voto.

Minha mulher entendeu a gravidade do pedido. Já queria cortar nossa mangueira do jardim para aproveitá-la no aparelho. "Só um pedaço". Falei que não, que compraria hoje. "Só um pedaço, ele está sofrendo! Não descansa há muito tempo".

Ai Meu Deus, meus filhos deflagraram o comício da mangueira. "Corta, corta, corta".

Eu me embaraçava tal um eunuco, um castrati. Cortar ou não cortar. Cortar ou não cortar.

A família espiava o 3º andar pelas janelas. Para verificar alguma movimentação suspeita.

O Rafael estava sendo torturado. Ele me comparou a um torturador chinês. Meus olhos puxados pela maldade.

Gota a gota. Como um imenso soro passando do meu sono para o dele. Enquanto transitava pela calmaria crepuscular, acolchoado pelo silêncio, ele estaria providenciando, no meio da noite, um balde para pôr em cima do seu ar condicionado. Um copo. Para conter a goteira alucinada por fora. Para diminuir o impacto da chuva ácida na lataria do seu aparelho. O barulho ensurdecedor de moedas caindo lentamente no fundo do cofre.

Sucessivos baques que o irritavam, e o aproximava dos problemas, das dívidas, dos compromissos do dia seguinte. O tempo corria mais rápido para ele, como pingos disputando corridas no box do chuveiro.

Era tímido, sofria calado. Quantas insônias sigilosas embutidas na taxa de condomínio?

Ele é modesto: não pede uma mangueira. Mas “uma pequena mangueirinha”. Ainda me humilhou. Pequena mangueirinha. Eu é que agora não vou mais dormir.

9:25 AM :: Comentários:

ETERNAS DÚVIDAS



Queridos leitores, a sessão semanal do Consultório Poético está disponível. O tema: "Ele só queria sexo; eu sou virgem". No Bloglog.

8:06 AM :: Comentários:


Domingo, Março 16, 2008

QUANDO UM NÃO QUER, OS DOIS AINDA BRIGAM
Imagem de Ricardo Fiorotto
Para pensar: Queremos que o marido valorize os nossos problemas, para saber depois comemorar as soluções.

Fabrício Carpinejar



Um dia você vai brigar com sua mulher. Um dia a mulher vai brigar contigo. Que estejamos preparados.

Conciliar trabalho, filhos, casa, contas, beleza, lazer: não há quem descanse. Lembrar no meio de uma reunião do trabalho em desmarcar o dentista do filho e que ainda não comprou presente de aniversário da amiga predileta e que o marido bolou de última hora um churrasco para colegas em casa sem avisar, quando depois da reunião terá que entregar uma nova planilha de investimentos da empresa, não poderá se trancar no quarto para escrever senão o marido a chamará de “azeite”, e faltará paz de espírito e silêncio para cumprir a tarefa, mas terá que cumpri-la de QUALQUER MANEIRA. E isso que ainda está somente no início da tarde e metade de outras urgências ainda nem chegou a ser lembrada, está no congestionamento da memória à espera que resolva essas primeiras. É certo que vai explodir. É certo que o curto-circuito produzirá o inferno. O cheiro de enxofre. É antiquado mencionar a TPM. A TPM hoje é todo dia. Para homens e mulheres. Se bobear, até as crianças têm TPM. Você suportou, resignada, todas as ansiedades, expectativas, súplicas, pedidos, contas, reclamações. Até agora. Precisa desabar. Desabafar é para quem tem tempo de completar a palavra. O escolhido é o...marido. Simples: o mais próximo, o primeiro que enxergará e não depende de licença. Vamos sempre cobrar do mais íntimo, com ou sem razão. É a sobrevivência da espécie. Ele está de bom humor, espirituoso, porque terá churrasco de noite com a turma, e não compreende o início de sua sanha. O motivo da briga. Não entende o que está acontecendo, não partilhou as preocupações de hoje e de ontem, só as de anteontem. Não tiveram uma trégua para atualizar o drama. Ele intui que faz uma tempestade no copo d’água, mas já é uma copa de tempestades, de pequenos cálices enfileirados transbordando. Irrita-se tremendamente porque ele sempre subestima sua angústia. Não suporta resolver tudo sozinha. Trata de ofendê-lo, em seqüência, aumentando o tom persuasivo da voz: “EGOÍSTA”, “BURRO”, ‘FOLGADO”. Feito o estrago. O previsível é ele responder à altura. Você não queria ter dito, o sangue estava quente. Mas ele diz cada coisa a seu respeito em revide que não consegue sentir arrependimento e devolve desaforos cada vez mais grossos e maiúsculos. Durante toda a semana, passarão a recapitular o que um falou mal do outro. Feridos. Extremados. Como crianças em castigo.

Para viver melhor um amor, é recomendável a ANISTIA. Entender que aquilo que é posto para fora numa briga não significa que é verdade. É catarse, ficção, desespero, carência comunicativa, esgotamento. Magoados, magoamos. Sobrecarregados, caímos. Os casais deveriam esquecer o que falaram sem pensar. E, principalmente, falaram sem sentir. Não cobrar explicações de discussões passadas.

Um dia você vai brigar com sua mulher. Um dia a mulher vai brigar contigo. Que estejamos desarmados.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, p. 72, Número 172, Março de 2008


11:20 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Março 14, 2008

O AMOR MASCULINO OU O CRÉDITO-MINUTO
Imagem aproximada do “Lacaniano de Passo Fundo”, com ajuda de Edgar Vasques e Modigliani.
Da série "Encontros com o Lacaniano de Passo Fundo"

Fabrício Carpinejar



Não tenho psiquiatra, terapeuta, psicanalista.

Ninguém me suportaria. Envaideço-me igualmente daquilo que não experimentei.

Eu seria funcional, narrando o que presta. Nenhuma vontade de impressionar. Confundiria sendo transparente.

O único psiquiatra de minha vida durou quarenta e cinco minutos. O nome dele era Zacarias. Numa época em que esse nome fazia sentido.

Na minha primeira consulta, recebi um formulário para completar. Dentre as perguntas, recordo de uma: se eu gostava de homens.

Olhei para a pergunta, ele olhou para mim, eu olhei para a pergunta, ele olhou para a caneta, e nunca mais nos enxergamos.

Respondo hoje: gosto de homens. Qual o problema?

Todo homem mesmo gosta de homens. Tenho um filho homem e o amo.

Deduzia que se assinalasse um x naquele quadradinho estúpido que sonhava ser um triângulo, ele despejaria conclusões que não são minhas. Eu não concluo, eu vivo.

E não funciona terapia comigo, fico adivinhando o que o terapeuta está pensando de mim e esqueço de pensar por mim. Eu seria o analista do analisado. Um romancista diante dele. Não falaria, ditaria frase por frase. O terapeuta seria meu datilógrafo. Meu calígrafo. Quando contamos algo, já é ficção. A memória é muito quieta.

Não que não me faltem problemas, minhas gavetas perderam os puxadores. Devo ser muito doente. Mas um doente organizado, sociável e, na maioria das vezes, simpático.

O confidente que procuro é o Lacaniano de Passo Fundo. Ele me concede sessões de graça. Ou quase, pede bourbon. Três doses de bourbon. Não adianta discutir com ele, uísque feito de milho é bourbon, não é o uísque. Mesmo que sentencie que bourbon é uísque de milho.

Ele só bebe em serviço. É rude, com uma barba que quase entra pelas olheiras. Não faz firulas, nem diz: pode entrar ou como foi a semana. O cara tem problemas demais para ser educado. Põe o dedo no meu rosto com a ameaça de um olho mágico. Dispensa relógios e traz uma bússola que fica girando sem a maternidade da mata. Prevenida e avara, a bússola dele bebeu antes em casa.

O Lacaniano adianta o que nem pensei. É tão bom o pensamento dele que adoto. Sucessor do Analista de Bagé. Inventou o cotovelaço, tranco aperfeiçoado do joelhaço e mais imprevisível. O cotovelaço precisa da altura de uma mesa de bar para surtir efeito. Assusta o interlocutor de forma desprevenida.

Pelo visto, o Lacaniano é uma sumidade na dor-de-cotovelo. Parte do princípio de que verdade que é verdade está rodeada de pequenas mentiras para protegê-la. Quem não mente desconhece até o que é verdade e a deixa vulnerável.

Meus braços estão roxos. Complicado explicar para minha mulher os hematomas.

Tudo é ilustrado por animais. Ele tem o método National Geographic de Psicanálise Freudiana.

Ao relatar que estava com vontade de gritar o que sentia, girou seu copo e, compassivo, explicou:

- Natural, é próprio do macho. Conhece o barulho das cigarras?, e imitou: - Ihnihnihnihn
- Professor, as pessoas estão reparando... Eu lembro.
- Unicamente as cigarras macho são barulhentas.
- Mesmo?
- Para chamar as fêmeas.

Ele nunca esclarece a relação, sempre o considero mais sábio do que meu próximo questionamento.

No último domingo (ele atende exclusivamente aos finais de semana), expôs sua tese sobre o amor masculino, a qual denominou de "crédito-minuto".

De acordo com sua visão, a fantasia masculina é feita de rompantes. Ele observa uma desconhecida e ama aquela desconhecida por alguns minutos, transforma aquela desconhecida numa lenda instantânea, insuportavelmente inadiável. É o fetiche do detalhe. O estalo pode ser provocado pelos lábios carnudos ou pela marca de nascença nos ombros.

Algo que as mulheres não compreendem. Como o homem deseja com tanto vigor num momento e desaparece no seguinte?

Reproduzindo suas palavras, a mulher tem um amor infinitivo. Ela deseja com constância, deseja a constância. O homem está mais preocupado com o impulso, o homem é o impulso. Ela deseja conhecer a vida do homem para depois alçá-lo à condição de homem de sua vida. O homem transforma uma estranha em mulher de sua vida para depois conhecer a mulher.

Mais não conto porque já estávamos bêbados.

9:27 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 12, 2008

O FURINHO NO QUEIXO
Montagem Dali/Renoir

Fabrício Carpinejar



Eu não sei nada dela.

A não ser que tem uma leve contração no queixo.

E é um queixo arredondado, bonito, pedra lisa de rio.

Mulheres com pinta já atraem, mas com um furinho no queixo são imbatíveis.

É ópera, é passional. O sonho de Noel Rosa, que não tinha nem queixo, muito menos uma virtude de nascença como a dela.

Se ela fosse homem, não poderia usar barba. Se fosse muçulmana, não poderia vestir um turbante.

Será que em sua borda um pássaro não arrumou uma cama para a sede?

Quando ela ri, flexiona os olhos. Os olhos engatinham para os lados.

O pontinho no fim do queixo não esgota a risada. É como o desenho de uma criança, que traça uma casa sem chão. Pois confia no vento, o vento é muito mais seguro do que a terra.

O queixo dela significa mais uma mão. É uma mão na sua face. Ela se acaricia enquanto me observa.

Os ombros expostos para o furinho mais do que para os brincos.

É um queixo que entende de vírgula.

Não sei nada dela. Anda com mais de quatro anéis. Quem põe mais de quatro anéis é detalhista. Cuidará da armação dos óculos. Cuidará para não aparecer a alça do sutiã. Cuidará para ser leal até o fim. O detalhista é leal até depois do fim.

Ao acordar, ela deve mexer na sua caixa de jóias, à procura da cor do seu dia.

Seus anéis, seus anéis são alianças solteiras. Amigas solteiras. Nunca trocaria a amizade pelo amor. Porque amizade não se troca. Não é menor do que o amor para ser substituída. Amizade e amor permanecem sendo o que são ainda que misturados.

Ela conserva uma tatuagem de gato no punho. Acredito que nenhum homem mereceu uma tatuagem dela, homem sempre pede, gato não. Gato não procura o reconhecimento, lambe suas patas para caminhar, lambe as patas como um rolo de pintar paredes, não produzindo barulho. Gato entende que solidão é assistir a solidão do outro.

Eu não queria ter o furinho no queixo. Não conseguiria cuidar. Sofreria com seu mistério pervertido. Descuido-me de plantas, de mim, como regá-lo com a respiração toda manhã? É uma cisterna de água-benta no fundo de uma igreja pequena e antiga. Uma igreja familiar, à beira do desconhecido, com nomes nos bancos e corações de canivete nas árvores.

O queixo que deseja ser boca.

Tire os sapatos ao tocar no rosto dela.

10:58 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 11, 2008

CHAMA



Pessoal, novo consultório no ar. Lá no escurinho do quarto. Leitores reclamam que está complicado para ler, mas o propósito é mesmo a penumbra, a proximidade falhada de uma vela. Confira "Burocrata da paternidade".

9:28 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 10, 2008

BANDEIRA?
Homenagem a Manuel Bandeira (1968-2008)

Fabrício Carpinejar



O telefone de Manuel Bandeira é (21) 22-0832. Desde outubro de 1968. Anote aí.

Não sei se ligo hoje. Desejo mandar meus livros para ele. Selecionar um papel colorido. Armar um pacote com corda. Curtir minha ambição. Como quem esfrega com a língua os lábios para então mudar de palavras.

Rituais servem para desejar algo antes de fazer. Rituais são a reza dos ateus.

Vá que ele responda, é a consagração. Agora ele tem mais tempo para ler. Mais tempo, bem mais tempo, com as três mulheres do Araxá ensaboando sua nuca.

Como é boa a esperança de ser lido por quem leio.

Já tenho o endereço: Av. Beira Mar, 406 apartamento 806 (Castelo). Não me atreverei a bater em sua porta. Telefone é defensivo, não importuna, não implica em café e nos trabalhos adicionais de perguntar se irá açúcar ou adoçante. Longe sobrecarregar o autor com preocupações à toa.

Por gentileza, avisarei da encomenda. Precaução. Para não ficar como mais um escritor em sua mesa parada há quarenta anos.

- Oi, gostaria de falar com Manuel Bandeira?
- O que gostaria com ele?
- Conversar.
- Sou eu. Quem está falando?

Ai, não consigo. Desligaria no ato, com sopro no coração. Não estaria preparado para que o próprio poeta atendesse, careceria de um intervalo de alguém o chamando para me restabelecer e articular uma frase inteligente. Que idéia a de pensar que poeta contaria com uma empregada. Ele pegaria de primeira a ligação, e ouviria a continência de sua voz, com um eco só possível em sepulcro ou motel. Aliás, aconselho a não atender ligação em motel – todos descobrem onde estamos.

O que contaria? Da vida inteira que poderia ter sido e não foi. Que sou admirador de sua poesia, e que nasci quatro anos depois de sua morte. Ele me confundiria com uma lagartixa listrada. Entocado na respiração, eu retardaria as vogais.

"Aaaaaa..."

A conversa seria um concurso de soletração. Ele bateria o gancho, para não facilitar trotes. E se fosse o Comando Vermelho fingindo que seqüestrou a Via-Láctea? Mesmo quem está na eternidade não suporta trotes.

Aliso o número telefônico de Bandeira. Vou ligar, descobri o número nesta manhã, um pouco tarde, mas que me importa? Sou um homem sem orgulho, um homem que aceita tudo.

Não esperava que o telefone estivesse sempre ocupado.

9:02 AM :: Comentários:

AGENDA
Girafas de Vicente

27/03 (quinta-feira), PORTO ALEGRE (RS)

FESTIPOA LITERÁRIA

16h — Abertura: Luís Augusto Fischer, Paulo Scott, Fabrício Carpinejar e Marcelino Freire conversam com Donaldo Schüller.
17h30 — Sarau com Marcelino Freire e Fabrício Carpinejar
Local: Livraria Nova Roma (rua General Câmara, 364)

2/04 (quarta-feira), SÃO CARLOS (SP)

PAPO DE LETRA: conversa sobre minha poesia e trajetória
20h

SESC SÃO CARLOS
Avenida Comendador Alfredo Maffei, 700
Jardim Gibertoni
São Carlos - SP
telefone: 16 3373-2333

3/04 (quinta-feira) - SÃO PAULO (SP)

PROJETO TERTÚLIA:

O HOMEM DESATIVADO
João Gilberto Noll por Fabrício Carpinejar
03/04 (quinta-feira), 20h @ SESC PINHEIROS
rua Paes Leme, 195
Pinheiros
São Paulo - SP
telefone: 11 3095-9400
Confira toda programação do evento.

05/04 (sábado), 20h, POÇO DE CALDAS (MG)

III FEIRA NACIONAL DO LIVRO DE POÇO DE CALDAS

SEM DEIXAR PARA DEPOIS
- Poesia e verdade sobre o amor -
Local: Auditório do Palace Cassino
Contato: (35) 3713 9901

18 a 20/04 (sexta a domingo), FESTIVAL NACIONAL DE ARTE (FENART) - João Pessoa (PB)
Oficina de criação poética e palestra

25/04 (sexta-feira), 20h - FEIRA DO LIVRO DE IVOTI (RS)
Sarau com Luís Augusto Fischer
Contato: cultura@ivoti.rs.gov.br

8:53 AM :: Comentários:


Sábado, Março 08, 2008

O AMOR DE MEU FILHO PELAS MULHERES
Para Ana Carolina

Fabrício Carpinejar



Vicente foi comprar flores comigo. Sua estréia na escolha de arranjos para sua mãe.

O mais curioso é que ele me compreende com o franzir dos ombros. Pai e filho. Um sinal e estamos alinhados. Não digo nada, e ele intui. Nunca extravaso minhas segundas intenções, ele pega no ar.

O guri estava com Ana, e despistei:

- Vicente, tenho que procurar cola. Vem comigo?

Ana não desejava perder sua companhia na loja: "Mas tinha um tubo na semana passada".

Vicente logo tomou a dianteira da conversa e corrigiu: "Não tem mais, precisamos buscar".

Ao sair comigo, explicou que não era uma mentira.

- Eu não menti, usei uma lembrança velha.

Empregou a recordação da última semana de fevereiro.
- Pai. Se eu mentisse, ela não acreditaria.

Descemos a rua para a nossa floricultura (nossa é modo de dizer, freqüentamos sempre a mesma floricultura, o mesmo açougue, o mesmo mercado, a mesma tabacaria). A cidade é fiel.

Optamos por um buquê de rosas colombianas. Uma dúzia.
- Meia dúzia é metade do amor, comentou. Uma dúzia, não resta dúvida.

Aceitei seus argumentos. Ele é mais romântico do que eu.

Ficamos na salinha em que as mulheres preparavam o buquê.

A rosa é balão de aniversário. Uma rosa é soprada para se abrir. Antes de qualquer mulher receber, um pulmão visita suas pétalas. Aquece as paredes rubras. Vicente soprou, o linho da flor coçou sua boca. Riu, soprou de novo, e o miolo girou como ponteiro de uma bússola, do norte para o sul do seu rosto.

- Ela me olhou - ele pulava. A rosa me olhou!

Depois escrevemos juntos o bilhete. Recusamos o bloco de rascunhos. Pela primeira vez, Ana receberia cartão de dois homens. Eu anotei minha dedicatória, ele assumiu a caneta e redigiu: “Amo e Amo e Amo e Amo e Adoro para Amar”.

Não poderia ser mais perfeito.

De volta para o sol da calçada, ele segurava o buquê, altivo e abençoado. Um colete de ramos verdes.

- Eu seguro bem?
- Sim, meu filho. É importante caminhar com as rosas para que elas possam sentir o que você está sentindo pela pessoa que ama. Tanto que eu prefiro entregar pessoalmente a mandar alguém em meu lugar. As rosas são atentas.

- Pai?
- O quê?
- Estou com vontade de chorar. As rosas vão chorar comigo?
- Chora. Deixa a mãe secar suas lágrimas.



12:37 PM :: Comentários:

IDENTIDADE SECRETA (SEGUNDO DESAFIO)
Promoção "Blog 500 Mil"



Novo enigma: quem é esse escritor? O cabelo permanece intocável, posso garantir.
O primeiro que acertar é premiado. Ponha e-mail para receber o brinde. Proibida a participação das próprias vítimas ou de seus familiares.

PRIMEIRO DESAFIO (RESPOSTA CERTA)

Na primeira promoção "BLOG 500 MIL", Carolina Vinagre, do Rio de Janeiro, definiu a identidade secreta. A resposta era Luiz Ruffato, moço forte e sorridente ao lado de sua linda e inteligente mulher Simone.



10:29 AM :: Comentários:

DEU NA REVISTA O GRITO (RECIFE)

CARPINEJAR, EM DEZ PEDAÇOS
Por Rafael Dias. Fotos Renata Stoduto



A poesia de Fabrício Carpinejar, ou simplesmente Carpinejar, é magma puro em forma de nuvens. “Escrevo para ser reescrito,/ Ando no armazém da neblina, tenso,/ sob ameaça do sol./ Masco folhas, provando o ar, a terra lavada./ Depois de morto, tudo pode ser lido.” (fragmento de “Ouvidos de Orvalho”, do livro Biografia de Uma Árvore). Parece, às vezes, o encontro da violência de Raduan Nassar com a leveza quase etérea de Cecília Meireles. E também parece querer nos tirar do automatismo diário, daquilo que julgamos ser vida.

Há dez anos, o poeta gaúcho estreava na literatura, aos 25 anos, com As Solas do Sol, no qual mostra sua necessidade poética, porém ainda tímido. Atingiu maturidade e força singular com a antologia Caixa de Sapatos (2003) e o belo Como no Céu/Livro de Visitas (2005), barganhando láureas importantes para uma curta trajetória, entre eles o Açorianos de Literatura por duas vezes.

Em celebração à data redonda, a editora Bertrand prepara-se para relançar seus onze livros em 2008. Para entrevistá-lo, a revista O GRITO! propôs algo diferente, um bate-bola às avessas (sem, necessariamente, ter respostas monossilábicas). Uma conversa leve, despretensiosa: dez anos, dez referências na vida e obra de Carpinejar. Idéia que o poeta aceitou de pronto. “Fugir do óbvio é tudo o que desejo”, disse em resposta ao e-mail. O resultado você lê abaixo.

(um) LIVRO

O GRITO! - Um texto ou uma obra de arte pode mudar nossas vidas. Mas, geralmente, há “aquele” que nos dá um estalo, desvia o curso do nosso rio como um ponto de inflexão. Existe algum livro que tenha lido (relido), leia como fonte inesgotável de novas descobertas e que, se pudesse, teria escrito idêntico?

Carpinejar - O grande livro é aquele que não poderíamos escrever igual. Como leitor, percebe-se uma incompetência de nossa expressão diante da tradução perfeita do que sentimos. O grande livro é a nossa verdade com outra letra. E por estar em outra letra, ouvimos com atenção e recuperamos nossa experiência.
“Poema Sujo”, de Ferreira Gullar. O que é aquilo? Adivinhar o que teria acontecido se ele permanecesse em São Luís. Quem não colecionou encruzilhadas e vidas passadas numa mesma vida?

(dois) POESIA

Certa vez, numa entrevista, você disse que poesia é incômodo, inquietação. Qual poema, de sua autoria ou não, o estremeceu desde a primeira vez que o leu e ainda hoje lhe causa calafrios? Há algum verso impregnado na sua memória como uma tatuagem imanente? Por quê?

Carpinejar - O poema em que conversava com as roupas de meu pai, diante de sua ausência na infância, em “Um terno de pássaros ao sul”. Por ser real, por deixar o menino falar em mim, e por retornar - secretamente - uma pergunta feita pelo meu pai em “Os Viventes”. Lá, em 1979, ele descreveu a cena e questionava: “O que eu fazia entre as roupas?” Terminou o poema com uma interrogação. Um livro respondeu o outro, vinte anos depois.

(três) AMOR

Peço licença, humildemente, para plagiar Clarice Lispector, que tinha por hábito perguntar, sem medo ou pudor a seus entrevistados, ‘o que é o amor?’. Lendo o seu blog (fabriciocarpinejar.blogger.com.br), vi, porém, que propõe uma indagação metafísica mais profunda: ‘o que é o amor do amor?’. E logo responde: “…amor do amor é quando deixamos a expectativa pela esperança…/ amor é o contexto para aquilo que não tem explicação…”. Então amor é o maior dos enigmas? E o que mais ama?

Carpinejar - Eu não peço licença para plagiar Clarice Lispector (risos). Acho que sou mal-educado. O amor do amor é não ter vergonha de nenhuma porção de tua linguagem com uma pessoa. Amo isso, ser compreendido e compreender, sem a necessidade de trocar de roupa e explicar. O que mais amo na vida é quando minha mulher me antecipa. Ela lê meu pulmão, bem antes dos lábios.

(quatro) HOMEM-MULHER

Tenho “alma feminina, corpo masculino”, escreveu você em uma matéria sobre o tema ‘literatura feminina’ versus ‘literatura masculina’. Contra velhos conceitos de gênero, subgênero, ou transgênero; sua bandeira parece ser o “metagênero” ou, como você mesmo diz, o “meio-termo”. Quem (ou que) você admira por fugir do óbvio, por ser (ou propor) um comportamento incomum, de fibra, forte, mas sem perder a sensibilidade?

Carpinejar - João Gilberto Noll, por ser sensível, por adorar a febre da ficção, por não ostentar, por viver de literatura e trabalhar como se fosse sempre o primeiro e único livro.

(cinco) FEIO-BELO

No seu livro Filhote de Cruz Credo, um menino de cabeça grande, boca e dentes tortos deposita beleza na feiúra que lhe atribuem. Um personagem, dizem, ser seu alterego fiel, por conter traços autobiográficos. O que há de mais belo para você, a ponto de não importarem a casca e a matéria, mas pelo que esconde dentro de si?

Carpinejar - Meus olhos. Eles mudam de cor conforme a luz. É meu efeito-surpresa só concedido com a intimidade. Antonio Maria dizia que precisava de três horas de conversa com uma mulher para que ela esquecesse seu rosto. Sou igual, com uma diferença: dependo de dois anos de papo para ela se apaixonar. Mato no cansaço.

(seis) DOR SOLAR

Dois em um, o seu livro Como No Céu e Livro de Visitas mostra a porção luminosa de um casal, e sua transversa face sombria. Até na dor deles há fagulhas solares, e insegurança na certeza do amor. Como extrair a epifania de uma dor crucial?

Carpinejar - A dor é vaidosa, quer que mexemos nela toda hora. É o mesmo que acontecia na infância, de retirar a casca da ferida antes de realmente cicatrizar. A dor aproveita nossa ansiedade.
Temos que tratá-la como Senhora dor, com respeito. Aumentar a distância. Fazer de conta que é uma visita ou uma tia distante. Eu chamo de tu unicamente minhas alegrias.
Do choro, só aprendi a fazer careta.
Leveza, a epifania do casamento é a leveza. O senso de humor. A brincadeira. A provocação inteligente. Não decidir mais do que as perguntas. Casamento não é carreira, é lazer.

(sete) LUGAR SAGRADO

A quem ou a que recorre quando necessita se recolher, buscar sossego e aconchego, encontrar-se consigo para acalentar suas dores e alegrias? Não precisa ser um refúgio com endereço físico, pode ser simplesmente uma referência abstrata…

Carpinejar - Miles Davis. Quando estou arrasado, escuto Miles Davis. Tomo um porre de sua música. Mordo as estrelas como se fossem as teclas de seu trompete.

(oito) SONHO REAL

São dez anos dedicados à literatura, e muitos elogios e prêmios em profusão acumulados em tão pouco tempo. Esse foi seu maior desejo realizado? Que outros sonhos nutre para os próximos dez anos?

Carpinejar - Pescar, fazer pipas, amarrar os sapatos, dançar tango, e não matar mais nenhum Ficus em meu jardim por descuido. Sou o primeiro homem que conseguiu deixar um Ficus secar! Da literatura, não fazê-la uma religião, nem substituir Deus pela minha biblioteca. Não abro mão da minha mortalidade, e da compaixão com os defeitos. Sou colono que não larga a terra. Trabalho incessante é a cura do narcisismo e da megalomania.

(nove) UMA PERGUNTA

Um questionamento que o intriga até hoje, indissolúvel?

Carpinejar - Por que o Brasil perdeu para a Itália na Copa de 82? Eu teria sido um adolescente bem resolvido (risos) e nem estaria escrevendo poesia e respondendo essa entrevista (mais risos).

(dez) UMA PISTA

Agora é com/para/sobre/por si você: uma referência, uma dica para quem nunca leu e queira ler Carpinejar.

Carpinejar - Não tenha pressa de me ler. Deixe a pressa comigo

10:12 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Março 06, 2008

VIADUTOS

Fabrício Carpinejar



Espanta-me os espectadores dos viadutos.

Ao atravessar as elevadas de Canoas, nos finais de semana, via um montante de gente reunida nas muretas.

Nas minhas primeiras passagens, entendia que era uma passeata, uma mobilização pela paz no trânsito.

Fui desentendendo com o hábito: as pessoas estavam sempre lá, nas mesmas tardes. Sem faixas. Sem causas. Sem imperativos.

Não se mostravam perdidas. Nem aguardavam nenhuma outra alma sair do metrô. Observadoras puras do movimento. Mergulhadas na alternância dos automóveis na BR.

Escolhiam sábado ou domingo para admirar o fluxo. Como se tivessem encontrado uma posição privilegiada do pôr-do-sol.

Recordava uma plataforma de pesca, em que homens e crianças se acotovelam por uma fresta.

A galeria fria e cinza roubava o alvoroço dos parques, a liberdade do gramado macio, da preguiça da toalha e da escolta das abelhas.

Alguns namoravam, outros levavam cadeiras e isopor com cervejas.

Fugiam daquele lugar durante a semana, apressados, incomodados, exaustos do trabalho, para curtir o vaivém na folga.

Caçava uma lógica na atitude, uma coerência oculta em despender horas e hora naquela contemplação avulsa. Qual o lazer de assistir a carros de passeio a 60 ou 80km/h?

Compreendo os curiosos dos aeroportos. Muitos não viajam e guardam para si a ansiedade de um dia voar. Querem apontar para os filhos e explicar as manobras das aeronaves na pista. É um espetáculo a aterrissagem ou aos arremates, especialmente de noite, com luzes espocando entre vermelho e branco. Uma procissão urbana, para quem não nasceu numa cidade do interior e não carregou círios no Corpus Christi.

Mas e os viciados no trânsito comum, qual o passatempo? O que preserva o interesse? Marcas e modelos estranhos de veículos? A expectativa por um acidente ou batida?

Considerava tédio, falta do que fazer. Até que minha tristeza foi se especializando na lentidão.

Triste, sou paciente. Ouço qualquer lamúria pela décima vez e não interrompo. Olho para não olhar. Presto atenção para ficar distraído. Posso me demorar numa mesma cena, vidrado, descontrolando o tempo. Eu nado de costas em meus pensamentos. Não me enjôo da repetição, a seqüência fornece inclusive uma segurança, um bem-estar. A previsibilidade acalma. Flutuo numa paisagem impassível: nada tem urgência, nada me chama. Como arrumar um aparelho sem conhecer seu funcionamento. No caso, o meu corpo. Isolar as peças e examinar seus significados, suas colocações; o ruído adequado.

Quando estou por baixo, subo também o viaduto. Essa ponte a seco. Entre a ida e a volta de minha vida.

8:23 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Março 05, 2008

QUER RECEBER FLORES?



O CLICRBS está com uma promoção para o Dia Internacional da Mulher. As autoras das frases mais criativas recebem uma braçada de flores. Sou uma das nove personalidades que mandará o buquê, com cartão e o cheiro das mãos.

Confira as regras do concurso.

11:37 AM :: Comentários:


Terça-feira, Março 04, 2008

FRALDA GERIÁTRICA DOS PÉS
Arte de Picasso indevidamente alterada
Sugiro um boton: "Não uso pantufa. Área livre de afetação"

Fabrício Carpinejar



Eu teimo com pantufas.

Suporto algodão nos ouvidos, mas não nos pés.

Um amigo terminou considerado louco pelos seus familiares ao se separar da mulher e alegar que foram as pantufas. Ele perdeu a concentração da carícia. Não mantinha mais a excitação com o par de girafas dengosas acolchoando os calcanhares de sua senhora. Ou se afastava dela ou se tornaria Bambi, sua melhor amiga. Entrou em paranóia com aqueles bichinhos se dobrando em sua direção.

Pantufas são arrastadas, invariavelmente. Além do apelo carnavalesco, repercutem uma sonoplastia de assombração, de velhice, de tábuas rangendo.

Pantufas são escolas de samba rebaixadas, desclassificadas, por não empurrar direito o carro das alegorias e ultrapassar o tempo limite da apresentação.

Ele não mais erguia o pescoço para o tronco da sua esposa. Já ouvia as pantufas conversando com ele. Pedindo o controle remoto e uma cerveja gelada, e que coçassem suas listras. Um terror.

Ela chegava no quarto: tirava o refinamento dos saltos, o deslumbre sensual dos saltos com meias pretas, para colocar o conjunto de pantufas. "Ah, estou confortável", suspirava. "Ah, eu estou broxa", ele mentalizava.

As pantufas são pano de chão, com lugar para os pés. É como se a pessoa estivesse esfregando eternamente o piso e convertendo as pernas em cabos de vassoura. Coisa de bruxa perambulando pelos corredores.

Sei que traz comodidade, aquece, é um amor infantil. Mas as pantufas envelhecem seus portadores - no mínimo – em dez anos.

Desfigura o diminuto pé feminino. Sacrifica sua graça. Sensação de namorar o abominável homem das neves. O pequerrucho solado 35 salta para um 42. Não há como ser o macho da casa com uma fêmea de pantufas. A pantufa oferece um trampolim para o abismo. Pantufas necessitam ser empregadas apenas em dança de salão, para pisar um no outro sem trauma.

Misto de chinelo e peruca. Impraticável ser natural depois dela. Ou não rir. Ou não se desesperar pelo diafragma fora de lugar.

Agüento no osso ursinhos de pelúcia, que a mulher traga todos os ursinhos de pelúcia de sua infância para dentro do casamento, aceito até que durma com um deles uma vez por semana. Eu deito no sofá, quando isso acontecer, para preservar a intimidade da relação. Mas não use pantufas. Pantufas são os ursinhos mais o pote de mel mais a árvore mais os pés. É uma festa de aniversário temática, com palhaços e língua de sogra. Deveria ser proibido para maiores de 18 anos.

Uma criança confirma sua idade com pantufas. Um adulto lembra que passou do tempo.

Eu ralho com pantufas. Como andar de mãos dadas com uma mulher que caminha levando junto o tapete? Que desperdício pintar as unhas com esmalte vermelho se logo os pés vão ficar irreconhecíveis, asfixiados no escuro, com sua touca de banho.

Pantufa é uma fralda geriátrica nos dedos.

Decorativa, dispensável. Um cachorro ou um gato encontrariam uma utilidade nela. Realmente se divertiriam puxando seus fios, não os homens. Não é fundamental no inverno, como recomendam as mães. Mães, na verdade, gostam de divórcios e que os filhos voltem para o lar.

Pega um rolo de meias para combater o frio, põe a secadora de roupas nos joelhos, mas não use pantufas.

9:30 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Março 03, 2008

QUANDO ESCREVO DE MADRUGADA PARECE BEBEDEIRA

Entrevista para Rinaldo Fernandes, no BLOG DA BELEZA


Filhos de Carpinejar: Mariana, 14 anos, com seu olhar marítimo


E Vicente, 6, conferindo o céu da praia

Rinaldo de Fernandes – O fato de você ter pai e mãe poetas influenciou até que ponto em sua decisão de ser escritor?
Fabrício Carpinejar– Na infância, meu desejo era ser jogador de futebol. Sempre fui peladeiro, jogava bola até com fruta, pinha, meia, pedra, tampinha de garrafa. Na adolescência, assim que vi que era bom mas não craque, decidi ser artista plástico. Em seguida, queria ser cineasta. Escritor não foi uma decisão, foi uma incompetência virtuosa. Eu podia ser tudo ao mesmo tempo sem ser nada. Meus pais não esperavam que escrevesse.
Isso me ajudou a crescer em segredo. O que me entusiasmou foi que eles contavam histórias antes de dormir, ao acordar, no almoço, na janta, na tarde da varanda. A voz me chamou para a letra.

Rinaldo de Fernandes – Como definiria a sua poética? Que temas mais o atraem?
Fabrício Carpinejar – Tenho duas paixões: a imagem e o aforismo. O ritmo é da minha asma. Minha tara é desmobiliar condicionamentos, procurar o avesso, encontrar o sublime do simples. Sou homem que não pesca na beira da praia ou em ponte, em terra firme, mas em barco, ondulante. A diferença é que o peixe me pesca e me leva para o fundo do mar. Na poesia, temos a necessidade de comunicar nossas fraquezas. O tema predileto é a família, essa encarnação de poder e desmando, de pressão e sinceridade. Estranho pensar que nunca estive de bem com todos os meus parentes uma única vez. Quando conquisto um, perco outro.

Rinaldo de Fernandes – Que poetas mais o influenciaram? Por quê?
Fabrício Carpinejar – O que me atormentou foi Dante. Decorei parte de seus versos aos 13 anos. Fui o gerente dos recursos humanos do inferno de Dante. Andava na rua, antevendo quem teria salvação e recrutando almas desesperadas. Guardo afeto pelos italianos: Cesare Pavese, Ungaretti, Quasimodo, Pascoli, Pasolini.

Rinaldo de Fernandes – Você já recebeu, entre outros prêmios, o Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. O que pensa dos prêmios? Eles contribuem mesmo para divulgar o autor?
Fabrício Carpinejar – O prêmio é uma opinião, não uma verdade. Ele contribui para consolidar o autor, mas não resolve sua vida. Aliás, escritor com vida resolvida não é mais escritor. Literatura é artesanato. O boca-a-boca ainda é mais influente do que um prêmio. Quando um amigo recomenda o livro e trata de espalhar aos seus conhecidos como uma erva terapêutica.

Rinaldo de Fernandes – Você é jornalista por formação. Como vê a relação entre jornalismo e literatura?
Fabrício Carpinejar – Admiro o jornalismo literário de uma revista como Piauí. A seção “Esquina” é uma espécie de reportagem dos bastidores com o rebolado da crônica. Farejo uma renovação do jornalismo ali. Não mais esquerda ou direita, e sim qualidade e humor combativo. A Piauí será o nosso Pasquim do início do século. Independente e livre. A colaboração pode ter dez páginas ou uma página. O que importa é a necessidade do assunto e o
estilo do texto.

Rinaldo de Fernandes – Como avalia os governos do PT e, mais recentemente, do PSDB, no Rio Grande do Sul?
Fabrício Carpinejar – Nossa área cultural com o PSDB nem está, é inexistente. Nada é feito, nada de criativo é proposto. Não existe mobilização, no máximo manutenção do que foi criado há oito anos. Não se pode contar com o governo. A situação só não é desesperadora porque os artistas nunca estiveram tão bem, produzindo tanto.
A criatividade do nosso teatro, cinema, literatura e artes plásticas mascara a inércia estatal. O Rio Grande do Sul é comentado por aquilo que seus produtores estão fazendo, por isso nunca deixa de ser notícia. O que faz sucesso aqui na literatura em eventos? Feira do Livro de Porto Alegre, criada pela Câmara Rio-grandense do Livro, e Jornada de Passo Fundo, da UPF. Algum novo evento do Estado? Não me recordo...

Rinaldo de Fernandes – O que o leva a escrever um poema? Pode explicar o seu processo criativo?
Fabrício Carpinejar – A incompreensão, o mistério, algo que faz o medo de descobrir se tornar curiosidade corajosa. Um distúrbio auditivo. Uma imagem que se cristaliza e pede companhia, o sórdido elegante, o mínimo despercebido. Eu avanço para trás, a valorizar o que foi menosprezado. Trabalho o poema pela memória. Dias e dias com versos se equilibrando entre as pálpebras. Só o escrevo quando ele não consegue ser esquecido. Não sou escritor que batuca de madrugada. Quando escrevo de madrugada parece bebedeira. Não me lembrarei nada de manhã, ressaca das brabas. Ficarei imprestável para a família. Sou colono, acordo cedinho. O sol me abençoa com sua enxada.

8:56 AM :: Comentários:


Domingo, Março 02, 2008

E AGORA?
Arte de Gabrielle d'Estrées
Para Ruberval Cunha, meu amigo repentista de Campo Grande

Fabrício Carpinejar



Vê só!

Protegemos nossas pequenas mentiras ao invés de cuidar das verdades.

"Onde está com a cabeça?" "Por que fez aquilo?" “O que gosta?”

Sem querer, já estamos mentindo. E mentimos porque a verdade não impressiona. A verdade não tem roupa de festa. Ela fica abandonada enquanto exercitamos as mentirinhas. Não nos sentimos culpados, pois ninguém conhece a nossa verdade.

Subestimamos quem nos escuta ou não nos julgamos dignos do que pensamos. Planejamos o nosso depoimento para soar natural.

Uma mentirinha é logo esquecida em nome de uma nova e não acompanhamos os juros.

A mentira é um modo de não ser julgado. Mas estamos nos condenando secretamente a nos afastar do que nos incomoda.

Nem é mentir no início de um relacionamento, é exagerar um pouco por dia. Sobre o emprego. Sobre o namoro. Sobre a origem. É falsificar nossa pobreza. Colocar uma manta para cobrir o sofá rasgado.

A partir de uma resposta mais “agradável”, desviamos o caminho, distorcemos algumas frases e somos obrigados a inventar toda uma estrada. O atalho fica mais longo.

Dois adolescentes ocupavam seus dias paquerando as ciclistas. Num banco, no calçadão da praia, assobiavam para qualquer moça de bicicleta. E elas se afastavam imunes à provocação. Foram semanas repetindo o enredo. Eles sentados; elas fugindo para o mar. Eles gritando: "Conversem com a gente? Só umas palavrinhas!"; elas fingindo que não ouviam, girando as pernas apressadas, acelerando o ventilador das rodas. A dupla se divertia com as sucessivas recusas.

Numa tarde, duas jovens romperam o costume e pararam.

- O que vocês desejam nos falar?

Os meninos se engasgaram. Andavam na faixa segura da provocação. Não haviam contado com o risco do retorno. Impelidos repentinamente a improvisar e denunciar quem eram. Não mais vozes impessoais sorteando as ruas, e sim nomes e rostos, endereços e motivos.

“E agora?”, o par de amigos teria se questionado. “E agora, o que faremos?”

Um observou o outro e correram dali na concordância do medo. Aparvalhados. Pedalando os óculos.

1:58 PM :: Comentários:

IDENTIDADE SECRETA
Promoção "Blog 500 mil"


Favor devolver ao seu dono!

Novo seriado carpinejariano, leitores devem descobrir quem é o escritor na identidade ou carteira de trabalho. Deixe e-mail para receber o brinde. Proibida a participação das próprias vítimas ou de seus familiares.

1:44 PM :: Comentários:

TALK SHOW CELEBRA MÚSICAS GAYS
Em busca do tempo perdido zomba dos preconceitos pela alegria. Show é comandado por Fabrício Carpinejar e Frank Jorge, com participação sempre espalhafatosa de Jimi Joe.


Gays? Alguma dúvida?


Confira o que eles escondem na quinta (6/3)

Música GLS. Canções com toda energia aeróbica. Confessionais, performáticas, incendiárias, que atiçam até as baladas mais mornas e tediosas. Os baguais Fabrício Carpinejar, Frank Jorge e o convidado Jimi Joe saem do armário. Soltam a franga. Viram rainhas do deserto.

É a primeira edição do ano do talk show mais imprevisível do Vale do Sinos. "Em Busca do Tempo Perdido" acontece nesta quinta (6/3), às 20h30, no Café de Bordo de São Leopoldo (Av. João Correa, 997, Telefone: 51 35913320). Ingresso: R$ 5.

O programa noturno derruba preconceitos com sua alegria plural. Quais são as canções mais gays do século?

O duo de guitarristas e o poeta interpretam Madona, Abba, Queen e procuram descobrir a resposta com o público. Será "It´s raining men", de Geri Halliwell, ou a clássica "Macho Man", de Village People, ou ainda “I Will Survive”, de Gloria Gaynor? E dos brasileiros, quem vence: "Emoções" (meninos livres tão vadios/ de tanto querer), de Wando, ou "Ombro Amigo" ("Eu sei que as pessoas lhe agridem/ E até mesmo proíbem/ Sua forma de amor), de Leci Brandão, ou "Homem com H", de Antonio Barros, interpretado pela voz cristalina de Ney Matogrosso?

No clima descontraído, Em busca do tempo perdido emprega um humor cantante e lírico. É um "paraoquê", versão satírica do "karaokê". Não é para ser levado a sério, muito menos de modo muito leve. Esclarece momentos históricos da cena cultural e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. É contra-indicado aos insensíveis à nostalgia. Caracteriza-se pela interação com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural (coisa que nunca aconteceu!).

Frank Jorge, natural de Porto Alegre/1966, é escritor, professor e músico, formado em Letras. Tem na bagagem dois CDs solos "Carteira Nacional de Apaixonado" e "Vida de Verdade", e os livros "Crocâncias Inéditas" e "Realidades e Chantillys Diversos", pérolas sobre as mais divertidas e infames cenas do cotidiano.

Fabrício Carpinejar, 35 anos, natural de Caxias do Sul (RS), radicado em São Leopoldo (RS), é poeta, cronista, jornalista e professor, autor de "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil, 2007, 3ª edição), "As Solas do Sol" , "Um Terno de Pássaros ao Sul", "Como no céu/Livro de Visitas" e "O Amor Esquece de Começar", entre outros. Recebeu vários prêmios como Olavo Bilac 2003, da Academia Brasileira de Letras; Cecília Meireles 2002, da União Brasileira de Escritores (UBE); duas vezes o Açorianos de Literatura, edições 2001 e 2002. Em Portugal, a editora Quasi publicou "Caixa de sapatos". Participou de antologias no México, Colômbia, Índia e Espanha.

O convidado especial Jimi Joe é radialista, apresentador da Unisinos FM, guitarrista, três décadas roqueiras e autor do CD "Saudades do Futuro".

1:25 PM :: Comentários:


Sábado, Março 01, 2008

CONSULTÓRIO EM NOVO ENDEREÇO!



Depois de dois anos, o Consultório Poético deixa o site da revista Superinteressante, convidado a integrar o condomínio virtual da Rede Globo. O Bloglog reúne 250 blogs de celebridades, como Aguinaldo Silva, Miguel Paiva, José Wilker, entre outros.

Confira o consultório reformado e adicione o novo endereço:
http://bloglog.globo.com/fabriciocarpinejar/

Há duas novas colunas na página: AMIZADE PODE SER ALGEMA PARA SÁDICOS e FUI LÁ BRIGAR NO ORKUT COM A EX DELE.

Permaneço respondendo semanalmente dúvidas amorosas no divã lírico. Já foram mais de setentas colunas. Na condição de palpiteiro, procuro estabelecer uma conversa sincera de amigo, sem deixar de citar exemplos pessoais.

Pra quem pensa que é bobagem, não custa lembrar que Nelson Rodrigues teve um Consultório Sentimental, sob pseudônimo de Myrna, no jornal carioca Diário da Noite, em 1949, e Rubem Braga acalentava o sonho de abrir igualmente uma filial.

Além disso, esse nosso blog oficial está perto de alcançar a incrível marca de 500 mil visitantes. Farei sorteio de brindes com o meio milhão de leitores. Fique atento.

9:12 AM :: Comentários: