Cronologia


Bibliografia


Crítica


Textos


Depoimentos

Foto de Renata Stoduto

Ilustração de Rodrigo Rosa



Arquivos:

08/01/2003 - 08/31/2003
09/01/2003 - 09/30/2003
10/01/2003 - 10/31/2003
11/01/2003 - 11/30/2003
12/01/2003 - 12/31/2003
01/01/2004 - 01/31/2004
02/01/2004 - 02/29/2004
03/01/2004 - 03/31/2004
04/01/2004 - 04/30/2004
05/01/2004 - 05/31/2004
06/01/2004 - 06/30/2004
07/01/2004 - 07/31/2004
08/01/2004 - 08/31/2004
09/01/2004 - 09/30/2004
10/01/2004 - 10/31/2004
11/01/2004 - 11/30/2004
12/01/2004 - 12/31/2004
01/01/2005 - 01/31/2005
02/01/2005 - 02/28/2005
03/01/2005 - 03/31/2005
04/01/2005 - 04/30/2005
05/01/2005 - 05/31/2005
06/01/2005 - 06/30/2005
07/01/2005 - 07/31/2005
08/01/2005 - 08/31/2005
09/01/2005 - 09/30/2005
10/01/2005 - 10/31/2005
11/01/2005 - 11/30/2005
12/01/2005 - 12/31/2005
01/01/2006 - 01/31/2006
02/01/2006 - 02/28/2006
03/01/2006 - 03/31/2006
04/01/2006 - 04/30/2006
05/01/2006 - 05/31/2006
06/01/2006 - 06/30/2006
07/01/2006 - 07/31/2006
08/01/2006 - 08/31/2006
09/01/2006 - 09/30/2006
10/01/2006 - 10/31/2006
11/01/2006 - 11/30/2006
12/01/2006 - 12/31/2006
01/01/2007 - 01/08/2007


Consultório Poético

Blog

Quarta-feira, Abril 30, 2008

OFICINA DE POESIA NO STUDIO CLIO
Desenho de Vicente



Estão abertas as inscrições para minha oficina de criação poética. Há somente mais cinco vagas. Os encontros semanais acontecem no Studio Clio (José do Patrocínio, 698), em Porto Alegre (RS). Durante a seleção, os interessados devem apresentar um poema. Informações pelo telefone (51) 3254.7200 ou pelo e-mail clio@studioclio.com.br

O curso "Desinventando a poesia" ocorre às segundas, das 19h30 às 21h30, a partir de 5/5. O objetivo é conscientizar poetas e leitores da importância da brincadeira da linguagem e das inversões do ponto de vista. A partir de leituras e versos em aula, particulariza-se a observação, em especial dos detalhes irrelevantes do cotidiano. Para acentuar os movimentos de dedução e fantasia literária, serão desenvolvidas tarefas como cartas, troca de sapatos, esvaziamento de bolsas, jogo da forca, lista de mercado e relação de objetos perdidos.

StudioClio
Rua José do Patrocínio - 698 Cidade Baixa Porto Alegre / RS 90050-002
Telefone: (51) 3254.7200 Fax: (51) 3254.7215


6:25 PM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 29, 2008

SINAIS

Fabrício Carpinejar



Deitei num banco da praça no centro de Poços de Caldas (MG). Fui descansar entre uma palestra e outra, registrando os desenhos nervosos do céu com a ventania. Considero uma autêntica nobreza dobrar o casaco e usar como almofada para a cabeça. É uma emoção retirar o descanso das próprias roupas.

Com os olhos boiando sem finalidade, ruminava meu filho Vicente. Se estivesse ali comigo, perguntaria qual a idade de cada árvore. Já tivemos grandes diálogos silvestres. Por exemplo, quando expliquei que poderíamos definir a idade de uma árvore pelos círculos do tronco.

- Ao cortar a árvore, observará um conjunto de anéis. Os anéis formam os anos da árvore. É tão bonito que descobrimos inclusive o verão e o inverno dentro do tronco. Cada anel anual é composto de subanéis, um de madeira mais clara, correspondente à estação quente, e outro mais escuro e compacto, da estação fria.

Ele ficou imediatamente chateado:

- Por que a árvore tem que morrer para conhecermos sua idade?

Aquilo me baqueou. Eu concordei que não era justo e me calei. Será que o amor também define sua idade somente quando morre?

Lembrava do rosto orvalhado de meu menino, e deixava que a saudade diminuísse minhas golas. A saudade desprotege o pescoço e sentimos frio.

Fixei na árvore mais próxima e observei um "seis" bem nítido. O seis da idade de meu filho. Um seis cerzido pelos galhos. Elegante como num caderno pautado.

São sinais de que o mundo repara no que estamos desejando. O mundo lê nossos desejos para nos motivar a desejar mais.

Por que eu deitei justo naquele banco entre cinqüenta para recordar meu filho? Não estamos alheados, isolados, desprotegidos.

Carrego a fé de que somos acompanhados de mensagens e legendas. Uma caravana de letras e vozes, sempre nos avisando, nos amparando a tomar decisões, a reforçar atitudes ou desistir delas. A vida é um interminável presságio. Os céticos são analfabetos da intuição e não percebem.

Conselhos e conselhos por todos os lados, nos empurrando adiante ou nos fazendo recuar. Um símbolo externo coincidirá com os nossos segredos. Explicará os nossos gestos. Sintonia e concordância. Por isso, amigos dizem que telefonamos no momento em que estavam pensando na gente. Por isso, antecipamos o que alguém iria falar. Por isso, Deus ainda existe.

Não compreendo mesmo o destino das árvores, que a cronologia apareça depois de sua morte. Mas estarei atento. Atento e fragilizado para entender.

10:15 AM :: Comentários:

PROVÉRBIO
Arte de Man Ray



"Não quero chegar a nenhum lugar, sou um lugar viajando."

Essa é uma de minhas frases da entrevista concedida ao site da empresa Dana.

8:55 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 28, 2008

ALVO
Arte de Jackson Pollock

Fabrício Carpinejar



Que coisa triste é comer amendoim ou pipoca e inventar de falar logo em seguida, sem nenhum cuidado. Abrir a boca, como um animal de zoológico bocejando, como um tenor voltando do fôlego de sua ópera. Não, não estou falando da arte pós-moderna da arcada, que estará intragavelmente cromática.

Abrir a boca e cuspir um farelo na direção de quem nos escuta. E reconhecer que o farelo ficou preso no santuário da camisa, ainda mais se for de uma mulher que estava interessada em suas palavras.

Não alcancei o que é mais trágico na cena: fingir que não aconteceu e dissimular com um riso, ou tentar limpar, para que ela também aceite e recorde de que é nojento.

Todo homem um dia será cuspidor de farelo mais do que cuspidor de fogo. E nunca estaremos prontos para resolver o constrangimento.

Pode ser ainda um relâmpago de saliva, no mais completo jejum. No meio da exposição da nova campanha de marca de sua empresa, quando eufórico com o discurso decorado, quando convencendo até as janelas de suas estratégias, solta uma gota de seus lábios que cairá com sabedoria na gola do diretor. Pousará como um pingente em seu terno Tevah. Um broche de sua escatologia. Olhando bem, é possível que brilhe. Como um visor recebendo luz.

Não existe maneira de interromper a apresentação, escovar o linho com as costas da mão e reivindicar perdão pelo chuvisco involuntário. O chefe terá uma certeza daqui por diante: você até é competente, mas também é babão.

É como barulho de estômago: não guardamos a certeza de que os outros não estão ouvindo.

Superei vexames ao longo da vida. Vexames secretos sem a garantia de que foram descobertos.

Não como na quinta-feira. O escândalo do cuspe inconsciente. Almoçava com um grupo de amigos. Papo animado sobre futebol. Treino a sincronia de meus talheres, o que sempre ocorre em restaurante novo. Levanto o rosto para escutar com interesse o interlocutor à frente. Ele articula seu queixo como um domador de palpites, rápido, descendo os parágrafos.

Inesperadamente, ele se exalta e solta um farelo em minha direção. Sou seu alvo. Câmera lenta somente na lembrança, naquele instante não tive escapatória. E não foi na gola, na camisa, nos ombros. Foi na minha boca. Minha boca estava aberta. Engoli a sobra daquele senhor simpático, em nosso primeiro encontro. Ele pediu desculpa e todos me olharam, vi que viram, pela gargalhada fina de gaita.

Restou responder:

- Humm, que delícia, o que é isso que está comendo?

Há momentos que somente o humor cura a vergonha indigesta.

10:45 AM :: Comentários:


Sábado, Abril 26, 2008

A POESIA TIRADA DA PEDRA
Fotografia de Renata Stoduto e imagem de minha infância

Quase me passei. Confira minha entrevista no site Palpitar, conduzida por Isadora Dutra.



ISADORA: Em seu blog, você afirma que sua inspiração é tudo que ainda não foi escrito. Essa é um pouco a idéia que aparece no livro Terceira sede: elegias, em que o sujeito lírico está lançado adiante no tempo, no ano de 2045. Assis Brasil lembrou de Jean Cocteau, o qual afirmava que o poeta lembra do futuro. Para você, o que ainda não foi escrito, o que falta escrever?
CARPINEJAR: Eu só posso acompanhar um lado do papel, um lado de mim. Não há como ler os dois lados ao mesmo tempo. A poesia é justamente o lado que não estou lendo. Ainda não foi escrito o gosto de uma baganha fumada por um mendigo, o que pensa o pegador de cabelos em cima de uma cômoda, o quanto a ferrugem é vento que desistiu de amar. Sempre existe uma forma de casar o nosso desejo com o ímpeto do mundo. Poema é combinação, os elementos só mudam quando se fundem.

ID: A respeito de seu primeiro poema, escrito aos 16 anos, você disse ter nascido de um equívoco do olhar, que reconheceu no desenho, presenteado por Vasco Prado, uma rocha que escondia uma mulher em vez dos ombros de um homem. Seus poemas ainda nascem de equívocos? Por isso agora você olha com a boca, como já afirmou?
CARPINEJAR: Nascem da depuração de uma distração. O que as pessoas não enxergam porque já estão acostumadas a seguir adiante. O poema ou a crônica é uma repescagem do olhar, reequilibrar a importância daquilo que foi descartado. Despertar a necessidade do que já estava em nós.

ID: Comenta-se a respeito de sua obra a mudança em relação ao uso das metáforas, que diminuem para consolidar a concisão de sua poesia. Você reconhece esse movimento, sente-se liberto das metáforas?
CARPINEJAR: Sim, eu dependo das metáforas, mas elas não podem sufocar a necessidade do pensamento e da música no poema. Sou mais conciso, mais orgânico. Sou o telegrama de meu corpo.

ID: A memória (do passado ou do futuro) é instrumento do poeta? Como se relacionam memória e imaginação, elas são a mesma?
CARPINEJAR: Não são a mesma coisa, complementam-se. A memória usa a imaginação para se proteger (mudando versões das lembranças, adaptando variações). A imaginação usa a memória para se dilatar (agregando situações e possibilidades).

ID: Você diz que seu verso nasce da pedra, como na escultura é preciso retirar a pedra para ver o rosto lá dentro. Como combinar o enredo, como o de Avalor, por exemplo, com tal pedra?
CARPINEJAR: Essa era a idéia de Michelangelo. O perigo é confundir e jogar fora a pedra quando ela é rosto. Como eu costumo fazer? Essencializo a história para a síntese verbal. Ela precisa ser contada. O que me lembro dela? O que sou capaz de guardar? O poema será a insistência de uma história contada aos filhos e amigos.

ID: E a prosa, é pedra também?
CARPINEJAR: A prosa é barro, lama, terra. Ela vai correndo com a água. Mudando seus contornos. É feita do peso do conjunto. O poema é feito da força do arremesso, do baque.

ID: A distância é uma temática importante em sua obra, distância do pai ou distância no amor. Mas essa distância parece, inversamente, aproximar. A inversão está muito presente em sua obra. Como você pensa essa dialética distância-proximidade na sua poesia?
CARPINEJAR: É um dos motores de minha metafísica do miúdo. A distância não pode ser amada, mas a vontade do retorno. A poesia é confronto, nunca conformação. Eu preciso me distanciar de mim para sentir saudades do que sou. Sem distância, não percebo quem está chegando.



ID: Na mesma lógica da inversão, você estabelece um elo entre infância e velhice. Que relação têm elas?
CARPINEJAR: A infância é um excesso de imaginação. A velhice é um excesso de memória. Os efeitos dos dois excessos são parecidos e produzem uma vulnerabilidade diante o fim.

ID: Outra relação importante na sua poesia é dada entre a falsificação e a realidade ou entre realidade e ilusão. Por quê?
CARPINEJAR: Eu só minto quando não consigo ser verdadeiro de uma forma direta. A mentira é a sala de estar da verdade. Minha mentira não tem competência para permanecer. Ela apenas guarda lugar. Não me falsifico, eu me rascunho. Sei que a verdade não existe, existe a generosidade de ouvir o contraponto.

ID: Você também fala muito a respeito da verdade. Para alcançar a verdade o caminho é a poesia? O caminho é a imaginação? É papel da poesia dizer verdades?
CARPINEJAR: É papel da poesia ser melhor do que o papel, como dizia Nicanor Parra. Ela tem o propósito de não esgotar os assuntos. Se o romance, o conto e a novela ainda encontram temas, devem creditar essa renovação à poesia. A poesia é o terreno baldio da ressurreição. Propõe comparações inusitadas, estabelece aproximações inauditas, revê microscopicamente o que não era detectado. Para cada um se alcançar, ou se abraçar, o caminho é o poema. O poema não traz compreensão, traz participação no mundo.

ID: Você já comparou a forma de Terceira sede com o ritmo do jazz. É do encontro da imagem com o ritmo que nasce a poesia?
CARPINEJAR: Sou homem do improviso, de buscar arranjos a partir das mesmas obsessões: a família, por exemplo. O jazz é uma imagem pensando no ritmo. Adoro isso: uma imagem pensando no ritmo.

ID: O que você encontra de interessante na literatura hoje? Entre os autores africanos de língua portuguesa, por exemplo, assim como a prosa, também se produz muito em poesia. Mas as publicações no Brasil ainda são poucas. Você lê e vê relações entre a literatura brasileira e a africana ou de outros países de língua portuguesa?
CARPINEJAR: Houve uma mudança total do quadro de abertura de autores africanos e portugueses no Brasil. Uma prova? É a publicação de jovens autores contemporâneos, não dos clássicos. Estão sendo reconhecidos e valorizados pelas editoras brasileiras. Ondjaki, Mia Couto, Angualusa provam o reencontro das duas culturas. Assim como os portugueses têm sidos bem recebidos e lidos. Gonçalo Tavares recebeu o Portugal Telecom por Jerusalém. Acredito que agora deve acontecer a inversão: os jovens autores brasileiros despertarem o interesse das editoras africanas e portuguesas. Para equilibrar a balança. Se continuar assim, será um movimento unilateral.

ID: Umberto Eco é um autor que explora os recursos da indústria cultural para "criar" espaços para sua própria obra, seja literária ou teórica, inclusive estabelecendo o diálogo entra as duas e citando, na obra teórica, títulos da obra literária. Você vai ainda mais longe, ultrapassando os limites da mídia impressa e recorrendo às eletrônicas e à performance. É hora de "fazer e acontecer" e deixar de lado as reclamações, que todos têm, em relação ao mercado?
CARPINEJAR: Eu não reclamo, eu trabalho. A humildade só acontece com o trabalho. A vaidade chega para quem parou. A vaidade é quando pensamos que já realizamos o suficiente e cobramos recompensas. Eu não trabalho pelo reconhecimento, eu trabalho porque eu amo o que faço. Percebo que a poesia não é um gênero apenas, mas uma forma de se relacionar e de se aproximar afetivamente. A poesia é contato. Estarei no palco, no bar, na rua do mesmo jeito, com a eletricidade dos olhos famintos.

ID: O personagem do escritor japonês Genichiro Takahashi, no romance Sayonara Gangsters, trabalha naquilo que chama de Escola de Poesia como um consultor de alunos que pretendem escrever poesia ou simplesmente contar sobre suas vidas; é uma espécie de consultório poético e sentimental em que ele ouve as pessoas e as aconse-lha (bem vagamente)...Você faz algo semelhante na sua coluna Consultório poético. Como surgiu a idéia?
CARPINEJAR: Interessante essa idéia de Consultório de Escrita Criativa. Grande idéia. Um dia posso colocar em prática aqui, citando a fonte e sua dica. Interessava-me em desmistificar a poesia, mostrar que o amor é feito para amadores. Eu me exponho tanto quanto meus leitores - essa é a diferença. O psicólogo avalia e direciona caminhos, eu me perco junto. O poeta empresta seu rosto para dividir as lágrimas. No consultório, o ato de escrever dos leitores já diminui a tensão e o sofrimento. Escrever é acabar com a solenidade egoísta da dor. As dúvidas amorosas não são horóscopo: revelam nossa postura diante dos outros.

5:49 PM :: Comentários:

PODCAST



Os tênis acima revelam a personalidade do amigo Fábio Codevillla, coordenador de programação da Itapema FM Porto Alegre. Não preciso dizer mais nada.

Aliás, quem mora longe de Porto Alegre pode também ouvir meus comentários na Itapema (dicas de livros, restaurantes e outras taras). Põe o headphone e acesse aqui.

5:37 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 25, 2008

AS MÃOS ENCILHANDO O ROSTO
Arte de Magritte

Fabrício Carpinejar



Quem ama tem miopia. Miopia severa, intransponível, não há corretivo, modo de melhorar.

É quando um rosto deixa de ser visto de longe, não é mais o que os outros enxergam.

Não é uma estampa, um mapa dividido, uma varanda de correr. Um cartaz, um volante, um livro. Um continente numa garrafa de vodka.

Não é um ponto fixo de táxi. Um embarque.

Não é uma parada de ônibus: conversar com o meio-fio enquanto espera, empurrar os papéis para a boca-de-lobo.

Um rosto que se torna uma pintura quando se procura uma fotografia. Um retrato antigo, de família. Um retrato pintado na sala de estar, entre ir e vir. Você vai perguntar as horas ao retrato como se faz a um relógio no caminho ao quarto.

Um par de olhos diferente daquele que antes acompanhava à distância. Um par de olhos que não tem mais como espiar ou abandonar ou fingir lonjura. Um par de olhos que nem parece piscar, porque coincide com a angústia afetiva de suas pálpebras. Que se infiltra nas suas pausas e adoece da inclinação dos arroios.

Você não vai mais ler com desapego e rapidez, mas sibilar lentamente o pulmão. Estará soletrando como uma criança espantada. Ou suspirando como um velho cansado. Tomará café frio para não se espalhar com a fumaça.

Melhor seria não ter apanhado aquele rosto, segurado aquele rosto com as duas mãos. Você não pensou nas conseqüências. Você agora não pode se desvencilhar da própria força de seus braços. Foram para o rosto. Para aquele rosto.

Quando isso aconteceu, você acreditava que bastava soltar o rosto, colocar de volta no lugar que o encontrou, mas não havia mais lugar, você alterou o rosto quando o segurava.

Não é um rosto que pede, é um rosto que aceita o que ainda nem alcançou. Um rosto que altera a medida da carne.

Você será atrapalhado depois. Os objetos vão cair com facilidade. Enfrentará constrangimentos. Derrubará copos e pratos e talheres. Ficará irritado com a desproporção dos gestos. Não percebe que carrega aquele rosto no colo de seu rosto e o peso de sua boca mudou.

Um rosto sobreposto ao seu, papel vegetal das aulas de geografia. Cuidará para não colorir fora das linhas.

Apesar de descrevê-lo, é capaz de não reconhecê-lo mais na rua ou nas fotografias. Capaz de confundi-lo como um desconhecido faria, um esquecido faria, um idiota faria. Excesso de intimidade é uma estranheza.

Você somente vai reconhecê-lo quando ele se aproximar novamente.

Um rosto costas de seu rosto. Confuso porque está colado ao seu, com dobras de fruta.

É um rosto tão rente que poderia ser luva aos seus olhos no inverno, poderia ser boina aos seus cílios no outono, poderia ser pescoço para o sol deslizar pela nuca. Um rosto que não é mágoa de luz, mancha de roupa. É uma delicadeza respiratória sobre sua ânsia. Uma penugem loira sobre sua pele.

Enxergar quem amamos é não mais enxergar a si mesmo. É duplicar a ausência.

4:32 PM :: Comentários:

IDENTIDADE SECRETA (QUINTO DESAFIO)
Da série "Blog 500 Mil"



De quem é esse polegar? De evidências, é um poeta e não é gaúcho. Está vestido para missa de domingo.

O primeiro que resolver o enigma será contemplado com um brinde (não esquecer de pôr o e-mail nos comentários). Proibida a participação de premiados anteriores, das próprias vítimas ou de seus familiares.

QUARTO DESAFIO (RESPOSTA CERTA)



Nem a gravata confundiu. Êta homem teimoso de traço, sô! A foto 3x4 da identidade é mesmo de Marcelino Freire, autor do premiado "Contos Negreiros". O vencedor foi Marcelo de Sousa, de Brasília, que pediu exemplar de "Como no céu/Livro de Visitas".

4:23 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 24, 2008

O VÃO DE MEU EDIFÍCIO
Arte de Edward Hopper

Fabrício Carpinejar



Meu edifício tem o tradicional vão do lado esquerdo. É comum contar com essa fossa de penumbra. Varais metálicos formam uma escada de roupas.

Só o síndico detém a chave. Um corredor estreito, que serve como achados e perdidos das janelas. Não saio de meu apartamento sem observar os pertences desajeitados lá embaixo, objetos e objetos do tapete das distrações. Bate uma piedade pelo abandono imprevisto, devido ao despreparo das mãos em segurar a vida.

Enxergo uma escova azul e amarela. Alguém devia estar lavando os tênis e vacilou ao explorar seu dom de engraxate.

Colado aos muros, um pano de prato com uma garça, agora pano de chuva e hipopótamo. Acho que secava no umbral e foi vítima das fungadas tempestuosas do vento.

Um calendário amolecido: desconfio que seja de 2005.

Um pente marrom, daqueles que meu avô carregava no bolso de trás e não compreendia como não quebrava quando ele sentava. O que fará um vizinho se pentear diante da paisagem? Um amor longe, o banheiro ocupado?

Além de prendedores, cordas e uma insólita vela branca.

Eu reconstituo o momento da queda dos pertences, farelos recusados inclusive pelos pássaros. Não serão cobrados, de fácil reposição, não conhecem a insistência de seus usuários.

O que me intriga é o aparecimento de um objeto cilíndrico rosa, com cerca de 25 centímetros. Ele está curiosamente de pé. Espanta-me que tenha despencado e apareça quase caminhando. Nenhum osso quebrado. Não dependemos de muitas espiadas para concluir que é um vibrador. Fecho os olhos de minhas crianças no momento em que se aproximam da vidraça.

Como explicar um vibrador ali? Quem vai arremessar um vibrador pelas paredes do ar?

Não é natural fazer malabarismos sexuais no parapeito. Ou será que uma vizinha flertava o morador do edifício do fundo com uma chupada incrível? Que vizinha? Como não vi isso? E, num deslize, o bibelô escorregou da boca ao solo pedregoso. Tão excitado, que ficou de pé. E permanece de pé até hoje, viril, altivo, não se importando com a queda.

Ou um marido ou namorado ciumento encontrando a concorrência nas gavetas, tomou o bichinho e se livrou dos seus complexos e traumas? Burro, um homem não aceita dividir o quarto com vibrador. Não agüentará comprar pilhas no supermercado para a mulher: imagina-se traído. Homem aceita a disputa com amantes, não com vibrador. O vibrador é o sonho da independência masculina.

De repente, a adolescente do segundo andar, com a blitz dos pais, sentiu-se forçada a se separar do confidente e o jogou com remorso pelo buraco negro. Sua reputação vinha antes do prazer.

Um vibrador no vão do edifício é um hóspede incômodo. Um sério problema de condomínio. Todos o percebem, ninguém comenta. Merecia ser tema de reunião urgente. Mais importante do que o vazamento de água no quarto andar.

Improvável que seu proprietário reconheça a perda. Reclame saudades. Duvido que um morador peça a chave ao síndico. Quem solicitar será automaticamente suspeito. Pode estar querendo reaver uma toalha e receberá a mirada maliciosa: - Quem diria...

O vibrador continuará sozinho. Eternamente. Até a próxima reforma. Um gemido sem dono.

10:27 AM :: Comentários:

FEIRA DE SANTA CRUZ DO SUL

Que bacana, quem me avisou foi a querida Eliane Cauduro: a XXI Feira do Livro de Santa Cruz do Sul decidiu realizar votação para definir seu patrono. O público escolhe o homenageado. Sou um dos três indicados, ao lado de Luiz Antonio de Assis Brasil e Charles Kiefer. Vote aqui.

10:12 AM :: Comentários:

AGENDA ABRIL E MAIO
Desenho de Vicente



2ª Semana do Livro da PUCRS (22 a 26 de abril)
19h, Quinta (24/4) - Palestra
Prédio 40, sala 601, Porto Alegre (RS)

26ª Feira Municipal do Livro de Ivoti (RS)
20h, Sexta (25/4) - Sarau com Luís Augusto Fischer a alunos do Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos
Praça Neldo Holler/Burle Marx

Programa de auditório Jornalismo IPA
19h, Segunda (28/4). Mediação: Maria Lúcia Melão
Laboratório de tevê
Prédio B
Rua Joaquim Pedro Salgado, 80 - Rio Branco - Porto Alegre

6ª Feira do Livro de Montenegro (RS)
19h, Sexta (2/5) - Palestra de abertura


23ª Feira do Livro de Bento Gonçalves (RS)
20h, Terça (13/5) - Palestra: "Machado de Assis, com humor e amor", no lançamento de projeto Comemorativo ao centenário.
9h, Quarta (14/5) - Palestra para Alunos do Ensino Médio, a partir dos livros "Meu Filho, Minha Filha" e "O Amor Esquece de Começar".

Feira do Livro de Santa Clara do Sul
Patrono
20h, Segunda (19/5) - Sarau com Marlon de Almeida
9h30, Terça (20/5) - Palestras aos alunos do Ensino Médio

Encontro Marcado/SESC - São José do Rio Preto (SP)
20h, 29/5 (quinta) - Palestra "A importância da leitura"

Feira do Livro de Maratá (RS)
20h, 30/5 (sexta) - Palestra "O homem amoroso"

9:44 AM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 22, 2008

TCHAU OU ADEUS?



Ela viajou para Espanha, pretendia continuar com o namorado e, ao mesmo tempo, ficou com medo de se prender. Desabafou na despedida. Durante sua estada no exterior, descobriu que realmente o amava. Mas ele não esperou seu retorno e se envolveu com outra mulher.

O sofá amarelo do Consultório Poético recebe uma nova história. Confira a confissão e a minha dica no Bloglog.

7:45 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 21, 2008

O PRIMEIRO GOL DE MEU FILHO

Fabrício Carpinejar



Se você adora futebol, quis ser jogador quando pequeno e tem um filho numa escolinha: cuidado. Muito cuidado. É natural que se transforme no mais chato dos pais, o técnico.

O pai-técnico gritará no alambrado, abusará de caretas e gestos e não se contentará com que seu filho fará em campo. Ao invés de xingar o juiz, pragueja a professora, reclama que seu filho não recebe as mesmas chances, articula conspirações e injustiças.

Não que ele não ame o filho, é que ele projeta na criança o que ele foi ou o que poderia ter sido. E tenta corrigir sua história e vestir finalmente a camiseta de um time profissional na pele dele.

Confunde torcida com cobrança, confunde entusiasmo com rigor, confunde apoio com pressão.

O pai-técnico é o estágio inicial do pai-empresário, que é o chato profissional, ou o pai-profissional, ainda mais insuportável. Conduz a mediação dos convites, encaminha regras precoces, impõe dedicação exclusiva e decide pelo filho, tudo pelo seu aparente "bem-estar".

Ele se mete a gerenciar a carreira do filho, com a alegação de protegê-lo dos oportunistas. Como se a infância permitisse carreiras. Não percebe que está explorando o trabalho infantil em sua própria casa.

A frase antológica do pai-técnico: "Confie em mim, eu sei melhor do que você". É de uma arrogância canina.

Eu experimentei a minha recaída na segunda aula de Vicente. Meu menino de seis anos é tímido e generoso. Ele saltitava em campo pela felicidade de estar entre os colegas da escola. Era um torcedor dentro da quadra. Quando recebia a bola, não saía em disparada, logo passava para o primeiro livre de marcação.

Não assinalou um mísero gol. Aquilo me frustrou. Ao final, armei o sermão de que ele tinha que ser individualista, pegar a bola, driblar e chutar. Expliquei que o jogo era fácil. E não podia ficar pulando, distraído, em qualquer jogada. Ou se atirar no chão para dublar o lance.

Ele chorou. "Você não me falou nenhuma coisa boa". E finalizou decepcionado:

- Eu atendi ao pedido da professora: tocar a bola, aprender.

Eu me calei, arrependido. Engoli o estômago de volta, acompanharia o menino agora em silêncio. Quietinho em meu degrau de pedra. Roendo as golas do blusão.

Ele penava porque estava na quarta partida e não havia feito gol.

- Pai, será que hoje eu consigo?

O milésimo gol de Romário não foi tão angustiante quanto o primeiro gol de meu filho.

- Não sei, mas joga sem pensar nisso.

Na última sexta, ele se fardou e se reuniu novamente com a turma no ginásio. Já me bateu o nervosismo quando não era chamado pelos dois guris que escolhiam os times.

"Que não seja o último, que não seja o último..."

Não foi; seu nome surgiu na terceira rodada. Ufa, um trauma a menos.

No primeiro jogo, seu time venceu. Nenhum gol dele.

No segundo jogo, seu time venceu. Nenhum gol dele.

Havia perdido a esperança e ensaiava um discurso consolador de insistência e garra.

No terceiro jogo, Vicente, vivíssimo e atilado, arrematava com força. Uma confusão na área adversária, a bola ricocheteando de um lado ao outro para encontrar seu pé esticado.

Gol! Gol!

Eu pulava, ele pulava. Ambos se engalfinhamos telepaticamente em risos e palhaçadas. A cena mais ridícula para um pai que não é técnico é quando ele comemora. Ele denuncia seu amadorismo. Porque o pai-técnico trata o gol como obrigação e nem mexe as sobrancelhas.

Abraçava todos perto de mim: os pais, as babás, as serventes, batendo em suas costas à procura de uma porta ou de uma costela.

Em seguida, Vicente tomou a confiança que precisava e limpou um adversário e chutou de longe.

Mais um gol, no canto, com sabedoria. Ao retornar ao meio de campo, olhava para mim com o sinal de dois. Dois. Dois. Entendi também que ele me reunia em sua mão. Dois: eu e ele.

Ouvia seu batimento rindo, apesar da distância que fingia nos separar.

Saímos juntos abraçados. Surpresos com o sol lá fora.

- Foi bom o jogo, né?

- Não é jogo, pai, é brincadeira. Jogar futebol é brincadeira.

Aos pais, digo enquanto é cedo, deixe sua criança brincar. Depois que crescemos, não entendemos mais nada de futebol.

11:46 AM :: Comentários:


Domingo, Abril 20, 2008

UMA INFINIDADE DE FIGURAS FINITAS
Em O Livro dos Nomes, Maria Esther Maciel segue a tendência da nova cena literária: o autor é leitor e o personagem é autor

Fabrício Carpinejar*
Especial ao Estado
Imagem Reprodução/AE


SINGULARIDADE - A solidão de um sujeito é soberana: não se mistura, como um poema

O Livro dos Nomes, da escritora mineira Maria Esther Maciel, lançamento da Companhia das Letras, tem um antecedente: O Livro de Zenóbia (Lamparina), publicado quatro anos antes. Um está ligado ao outro, mostrando que a escritora não está interessada somente em criar personagens, mas especificamente em criar autores. Uma visão macroscópica do mundo a partir das conexões microscópicas da leitura. Como Borges e seu Pierre Menard reescrevendo Quixote. Zenóbia é - na essência - autora de O Livro dos Nomes, só que aparece como protagonista porque o livro que condiciona a etimologia a destinos foi roubado (e agora publicado). É o movimento da obra fora da obra.

Maria Esther Maciel assume o papel privilegiado de testemunha da escrita, uma copista contemporânea, que projeta o que é seu numa terceira pessoa ficcional, destilando distanciamentos e permitindo embaralhar situações. É uma tendência da nova cena ficcional, o autor é leitor, o personagem é o autor. Um exemplo é Flávio Moreira da Costa e as narrativas encontradas de João do Silêncio. Nunca se viu tantos heterônimos em tão pouco tempo. O que possibilita questionar se a autoria não estaria secretamente desaparecendo e se transformando numa única, como promulgava O Aleph.

O Livro dos Nomes é literatura inteligente e rigorosa, que provoca vários questionamentos. São 26 nomes, 26 figuras entrelaçadas por um parentesco ou uma vivência em comum. Cada nome traz um significado que é justificado ou contrariado pela experiência. Há algumas licenças como a de encarnar Xavier no cachorro que presencia o enforcamento de seu dono José Fernandes. Existe toda uma linha de influências escoltando a proposta. O francês Marcel Schwob com suas Vidas Imaginárias é uma que não dá para esquecer, pelos retratos poéticos e intimistas como o do pintor Paulo Ucello.

Levando o poema drummondiano Quadrilha para seus módulos narrativos, Maria Esther poderia ter seguido o cruzamento de fofocas de uma cidade do interior, para reproduzir um condomínio de obituários vivos. Mas não estabelece um romance, nem é a intenção, tampouco faria sentido. Aliás, a orelha apresenta o livro como romance, a ficha catalográfica classifica em contos e o site da editora aponta a distribuição do volume por capítulos. Uma esquizofrenia de indicações. São contos, mas carentes de autonomia, simbioticamente interligados. Um depende do seguinte para confirmar a coerência. Impossível ler um isolado e dizer amém, dispensando a próxima história.

É romance, mas os capítulos aparecem mais costurados por casualidades e vizinhanças do que desdobrados. A ação não é contínua e não unifica os personagens. A teia é imutável. Não há novas impressões dos mesmos acontecimentos, novas versões e descobertas. As contradições não evoluem, são transcritas (portanto, já concluídas). É uma escrita parada, poética, em que a filosofia manda acima do enredo. Uma linguagem que é ou soa profunda sempre, não permitindo sair do estado do transe ou do torpor do pensamento. Longe da mobilidade que não a das idéias. A incessante densidade é capaz de irritar, pois o mais banal não é posto em evidência como figura de apoio, surge para transcender igualmente, com o efeito das ações mais complexas e dramáticas. Talvez seja uma sina preciosista do poeta que migra à narrativa, acostumado a relampear.

Um risco do livro é o excesso operístico, de tornar poético o que não é poético, de não estabelecer uma hierarquia e não incluir o desnecessário. Tudo sendo importante desestimula a urgência, o clímax e a ansiedade do desfecho. É um volume sem adubo. Sem adubo, não há romance, muito menos se alcança a recriação da realidade que o gênero exige. Sem adubo, não há a explosão característica do conto; a linha cardíaca se mantém em linha reta. O que se nota é uma tentativa permanente de sublimação do real pela evocação. A solenidade termina por constranger a intimidade. Já que a voz é sábia e conclusiva e não rasteja, duvida ou desconfia, permanece num tom sobrevoado de pós-morte. Uma ilustração: 'E acrescentaria que nele a fragilidade se evidencia em sua secura intrínseca, no ato de baixar os cílios diante de qualquer sombra.'

É muita sofisticação para uma observação singela. Se Esther não cede em nenhum momento às descrições objetivas, funcionais, ainda que operando com vidas simples do interior de Minas Gerais, ocorre um superfaturamento de imagens, aproximando-se perigosamente do discurso lírico, altamente concentrado e com miragens messiânicas. O resultado é a mistificação do prosaico mediante um conjunto barroco. A narrativa não anda, ou não depende da cumplicidade do leitor para existir. Não incita à interação e não propõe o respiro das lacunas. Uma linearidade determinada e determinante própria do conselho. Não há vozes, diferentes uma das demais, há variações de uma única voz. Muda-se a biografia, não a freqüência do relato. No final de cada seção, prevalece uma lição de fundo metafísico, que explica ou arremata os laços familiares.

Da mesma forma, intriga o hábito de incluir livros como tomada de consciência das personagens, num espelhamento do autoconhecimento. E os livros são genéricos, vagos (sem autoria e título) como mais um braço inventado. Sugere uma imposição externa e desnecessária para delineamento dos perfis.

(Ulisses) 'Em sua casa, nas Lomas del Recuerdo, sublinhará a seguinte frase de um livro de capa negra: Escrever é pôr-se no lugar da perda.'

(Rita) 'Somos sempre incompatíveis com os nossos motivos - Rita leu num livro aberto ao acaso.'

O que deslumbra na prosa são os chistes imprevisíveis, formando uma enciclopédia paralela de intenções (ou um sistema filosófico de condutas). Em especial, expressos no domínio perfeito de diálogos cultos, à semelhança de Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, invariavelmente grifados em itálicos no texto. 'Todas as águas, em certas horas, têm a cor dos afogados' ou 'Desejo é rapto, não é troca'. Assim como as comparações elegantes e elevações paradoxais: 'Para ela, as xícaras nunca se encaixam nos pires' ou 'adotará a tristeza como uma espécie de virtude'.

Um dos pensamentos de Jerônimo reproduz a intenção dos círculos fechados dentro de novos círculos de O Livro dos Nomes. 'Uma infinidade de finitos não é igual ao infinito.' Toda história é finita, nunca se tocando inteiramente com a próxima. A solidão do nome ou de uma pessoa é soberana: não se mistura. Como um poema.

* Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista, é autor de Um Terno de Pássaros ao Sul (Bertrand Brasil)


O Livro dos Nomes, Maria Esther Maciel, Companhia das Letras, 176 págs., R$ 35

Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, p. 4, 20/04/2008

10:39 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 18, 2008

O ABRAÇO DO PUGILISTA
Arte de Andy Warhol

Fabrício Carpinejar



O abraço do pugilista é tudo o que precisamos saber sobre o amor. No momento em que ele mais apanha, inventa de se aproximar do oponente e abraçá-lo. Não é curioso?

Abraçar seu algoz. Como se fosse uma reconciliação. Ele se encostará ao ombro do agressor, logo do sujeito que bateu incessantemente em seu rosto, que cortou seus supercílios, que o sangrou com golpes consecutivos e impiedosos. Encurralado, não devolve as braçadas, vai suar o sopro no ouvido do adversário.

Fui chamado de sedutor. Não sou um sedutor: sou um pugilista.

Vejo que homens fazem cursos de macetes de namoro. Contrariar as mulheres levemente, não concordar, elogiar e tirar o elogio para que elas o busquem novamente, acentuar o humor, estabelecer recuos e avanços e - principalmente - não fazerem as gurias pensarem. Algumas lições básicas propagadas como verdades.

Funciona? Pode funcionar para o ego, não para a vida.

O homem supõe que terá mais chance ao suspender o pensamento da mulher e mostrar ação. Paralisar o pensamento dela com um beijo, “deixar disso” para explorar as carícias. Porque conversar a fundo é pensar nos problemas, proteger a nudez, esfriar o começo. Excitar seria não falar.

Vou repetir Lupicinio: "Esses moços, pobres moços/ Oh! Se soubessem o que sei".

A mulher não procura a sedução, procura o abraço do pugilista dentro da sedução.

Que tenha tempo de fugir e não consiga. Que se prepare para aquilo, que venha com todas as suas defesas, que avalie as conseqüências do relacionamento. Que não seja uma vítima, mas uma escolha.

Raro é segurar um olhar com as palavras. E depois manter as palavras com o olhar.

O medo intelectual é a maior aproximação que pode existir. Medo de não ser inteligente, desafiado a não se repetir, esforçar-se para entender, digerir frases ao longo do dia, não desistir da resposta. Ser inspirado a escrever a mesma mulher por toda a vida.

Seduzir é controlar, só o perderemos se avançarmos por onde ninguém quer entrar: a intimidade da linguagem.

O desafio talvez seja tocar numa lembrança mais do que no corpo dela.

Ninguém precisa adivinhar, é ouvir a companhia e guardar o que ela partilha de mais precioso. Guardar o inefável de sua voz. E repetir para dizer que a escuta melhor do que ela própria.

Voltando ao pugilista, o abraço é sua demonstração de fraqueza. Mas é o único jeito de permanecer de pé. O afeto inesperado onde havia disputa.

11:16 AM :: Comentários:

CONVERSA COM A MÃE


Mãe, eu e Vicente na chácara

- Mãe, o Sérgio Faraco (escritor) está procurando falar contigo. Ele ligou?
- Sim, meu filho. Ele queria confirmar algumas histórias para uma crônica.
- Que histórias?
- De nossa família, que contei numa janta.
- Como assim?
- Eu passei detalhes.
- Mãe, não pode fazer isso comigo, é minha fornecedora exclusiva. Eu vou trocar de fornecedor. E passo no Procon para reclamar meus direitos de antigüidade.

10:59 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 17, 2008

PARA QUE SERVEM OS CÍLIOS?
Arte de Man Ray

Fabrício Carpinejar



Criança não chora por qualquer coisa. É uma arte que vem do berço.

O choro de fome com cólica é um resmungo. Nos primeiros meses, ela nem tem como exercitar muito, logo é atendida e termina seus ensaios. É o choro deitado, com o apoio das pernas.

O choro da queda não acontece rápido. A criança chora menos pelo tombo, mais porque os pais chegam gritando, culpados. É o choro voado.

O choro da birra - ai -, a criança cresceu, sente que gritar é feio, portanto chora no lugar da voz. Não há alternância, é um choro que tenta convencer o corpo a participar. Chamaria de choro sentado. Só esforço. Acontece em mercados e lojas infantis, quando ela quer algo que não será dado. É um teste de força e poder. Fácil de terminar, desde que não seus pais não fiquem brabos e contrariados com a exposição pública. É um choro que cresce com a resistência e desaparece com a distração. Ao mudar de assunto, a criança desconcentra-se e entrega as armas.

O choro da vergonha. Cuidado com ele. É o choro-miado. A criança sente que errou, volta-se para nossas pernas e precisa aceitar novamente o mundo com suas falhas. Não force.

O choro da perda. É o mais trágico e fundo, o choro soluço. Desidratado. Caracterizo de choro eterno. Um choro que demora três dias ou três anos para realmente ocorrer. Esteja por perto.

O choro da raiva. Choro dos punhos fechados. Choro por uma injustiça. Seco, tímido, contido. Uma nota ruim, o abandono de um colega, uma denúncia emprestada, uma repreensão equivocada do professor. É um choro que será comentado com um palavrão. Aliás, o palavrão é o próprio choro.

O choro da febre. Corpo amolecido não fica com vontade de chorar. É o choro da nuca, do suor. Pais passam a noite acordados, fotografando a temperatura da pele.

O choro da vitória. O melhor, mas não mostre para a criança que ela está chorando. Ela já sabe. É o choro do salto, que vem acompanhado de alguns pulos.

O choro da surpresa. Surge em festas de aniversário ou quando um dia supera a expectativa. É o choro do suspiro.

Choro não é igual.

Talvez o gosto da lágrima seja o primeiro alimento do bebê. O primeiro soro.

Ao nascer, logo pressente o rosto aquecido da mãe, banhado nas pálpebras.

Dois açudes para brincar em meio a uma alegria tremenda.

Mãe quando toma seu bebê nos braços parte chorando dos dois lados. Fulminante.

Acho que nem é choro, são olhos derretendo. Ela chora por antecipação: chora já o enxergando caminhando, já o enxergando segurando um guarda-chuva, já o enxergando pronunciando seu nome, já o enxergando lendo o primeiro cartaz, já o enxergando entrando na escola, já o enxergando escolhendo suas roupas.

Sol na boca e chuva no litoral. Redenção e dor misturadas.

O bebê recebe da face materna um filete de benção.

Entende - desde então - que chorar é abraçar com os olhos.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, p. 48, Número 173, Abril de 2008


9:00 AM :: Comentários:

A INFINITA INFÂNCIA DAS PALAVRAS
Criança é naturalmente poeta? Poeta é naturalmente criança? Como inspirar seus filhos a manter a criatividade do lirismo e não temer os versos na vida adulta.

Fabrício Carpinejar
Poeta, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007), entre outros.
Arte de Miró



- Manoel de Barros, você escreve para encontrar o menino que foi ou o menino que não chegou a ser?

Ele concede uma generosa pausa, para carregar lá do fundo de si uma risada gostosa, uma risada com fumaça, de quem recém tomou café-com-leite, e diz:

- Para encontrar o menino que nunca fui.

Com seus 91 anos, o autor é apegado à infância. Tanto que criou a expressão o "criançamento das palavras".

Ele explica no “Livro sobre Nada”:

“Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna”.

À semelhança do fazer infantil, Barros troca palavras, inventa, desregula a ordem da sintaxe. Converte adjetivos em advérbios, substantivos em verbos, verbos transitivos em intransitivos. Tal como as crianças quando aprendem a falar, não termina o pensamento, perde-se em encantamentos e comparações.

Ele não deseja sensatez. Coisa de gente parada.

"Como não tomar banho nu no rio entre pássaros?"
"Como não furar lona de circo para ver os palhaços?"

São questionamentos de sua poesia. Mostra que poeta é naturalmente criança. Por exemplo, não o interessa saber exatamente quantos centímetros tem um muro, isso a fita métrica responde. Tem interesse por descobrir que o muro é da altura de duas andorinhas.

Em depoimento à Livraria Cultura, um de nossos maiores poetas revela que a criança sente para falar, ao invés de falar para depois sentir, conforme fazem os adultos.

- A criança é filha do desenho. Escreve com a liberdade da mão esquerda. Pensa com a mão esquerda. Porque a mão esquerda continua a inocência, não precisa acertar sempre como a mão direita, pode errar e ser verdadeira.

Manoel de Barros é lírico mesmo quando não quer. Ao descrever o quero-quero, fala espantado:

- O quero-quero é a única ave que dorme no chão, como cachorro, sabia?

Não, Manoel, eu não sabia.



Criança também é naturalmente poeta.

"Acho que as duas palavras são sinônimas. Só alguém com o coração aberto para entender o mundo pode fazer poesia espontaneamente", completa a escritora Adriana Falcão.

Quem não recebeu uma resposta totalmente inesperada de seu filho? Tipo: pai, os pássaros são peixes com guarda-chuva!

Ou uma pergunta ainda mais imprevisível: por que acordo com gosto ruim na boca se escovei os dentes antes de dormir?

Nos diálogos dos pequenos, imagens que nunca se cruzavam firmam súbitas amizades. Eles misturam cenas daquilo que observaram e aprenderam. A hierarquia é a emoção. Sonham com os olhos arregalados, despreocupados com a funcionalidade e verticalidade das idéias.

O jornalista Sílvio Fudissaku, 42 anos, de São Paulo, quase perdeu o queixo quando o filho Luís, 3, puxou um estranho colóquio.

Garoa paulista, sábado tradicional, o menino se divertia jogando copos d'água numa poça.

– Luís, por que você tá fazendo isso?

O moleque o observou admirado, pensou um pouquinho e saiu com essa:

– É a natureza... é da natureza da água ser amiga da poça.

Simone Assumpção esclarece que o raciocínio da criança e do poeta obedece a paralógica.

Ambos usam um pensamento intuitivo. Uma lógica circunstancial, do momento, feita pelas semelhanças de sons entre as palavras ou pela proximidade física e emocional de elementos díspares.

Dessa forma, uma árvore pode ser comparada a uma esponja de uma cozinha unicamente pela sua cor, resultando em uma frase originalíssima: a esponja da árvore esfrega as nuvens. Difícil?

De acordo com Simone, a criança não deixa de ser poeta, ela não é estimulada a prosseguir mesclando ludicamente a sonoridade e os significados. Diante da supervalorização da racionalidade, ela se retrai com violência. Desiste ao receber algum sinal exterior de que poetar não lhe trará reconhecimento.

"Os professores desconhecem o bom poema, e têm medo de lidar com a subjetividade", expõe Simone, co-organizadora do livro “Poesia fora da estante”, que integrou o projeto “Literatura em minha casa”, do Governo Federal, com a distribuição de 400 mil exemplares da obra para estudantes da quarta série de escolas públicas brasileiras.

Torna-se um crime confiscar o poema do convívio escolar e familiar, já que ele representa o brinquedo da linguagem. E, como pontificou Mario Quintana, “nunca se deve tirar o brinquedo de uma criança: — Tenha ela oito ou oitenta anos!”

A equação é socializar o estudante ao mesmo tempo cuidar para não engessar e burocratizar sua criatividade.

Dedicada a refletir sobre o ensino das escolas nas obras “O Professor Refém” e “Escola sem conflito: parceria com os pais”, a educadora Tânia Zagury esclarece que a recepção da criança depende da capacidade do professor de gostar daquilo que está lendo e ensinando. A melhor fase para alimentar a poeticidade é até os dez anos, época das fantasias e das operações semi-abstratas.

“Autocrítica não é grande, e a criança está despojada e disponível. Não sofre vergonha dos micos e das brincadeiras. Não teme a pressão social e não se condiciona suas atitudes exclusivamente à aceitação da turma”, afirma.



Amor não admite preguiça, muito menos o verso. O contador de histórias e criador de “Emburrado!”, Celso Sisto parte do princípio que a criança depende de um empurrãozinho. O processo está longe de ser fácil e unânime.

“Criança tem o olhar aberto para o poético na medida em que ela tem o olhar exercitado para brincar. Mas precisa ser incentivada a brincar com a língua através de muitos jogos de palavras: ditados populares, cantigas de todo tipo, de roda, de ninar, parlendas, quadrinhas, os poemas em si. Também ajuda viver num ambiente onde impere a poesia, ter tido liberdade para olhar o mundo de modo detido, ainda que seu tempo de concentração seja diferente do adulto, demorado e com minúcia. Afinal, criança é poeta quando em seus achados cotidianos desvenda um ângulo diferente para ver as coisas, e para expressá-las verbalmente”, fundamenta.

O poeta Marcelo Pires oferece uma receita simples, infalível e contundente:

- Basta dar atenção.

Autor de “O Menino que Queria ser Celular”, e “O Menino Paciente”, escrito em parceria com Leticia Wierzchowski (sua mulher), Pires adverte que “a poesia está lá na criança, vem fácil, se os pais não forem muito distraídos, vale dizer, ocupados ou estressados ou especializados”.

O filho João, 6 anos, é premiado com uma atmosfera lúdica pelo casal de escritores. “Ele adora rimas, fica rimando o tempo todo. Monta aliterações, lindas”.

Dia desses, Marcelo estava inventando uma canção de ninar para homenageá-lo junto do irmão que está por vir, Tobias, em maio.

Ele cantava: “todas as noites, todos os dias, paz para o João...e para o Tobias”

João reagiu:
- Pai, faltou uma rima para João. Faz com coração.

Uma comparação bonita foi realizada por José Paulo Paes (1926-1998). Em “Os Perigos da Poesia”, o tradutor lembrava que a poesia na infância desfruta das regras de um “esconde-esconde”. As imagens são escondidas uma nas outras e a alegria da meninada consiste em apontar o esconderijo e desdobrar o que foi misturado.

“O sumiço não pode ser demorado, sob pena da criança abeirar-se do choro, ou então ela perder o interesse, desviando a atenção para alguma outra coisa”.

Entre parecer criança ou adulto, o árduo é amadurecer e não soterrar a infância.

"Necessita muito desapego, nenhum preconceito e muita avidez", formula Adriana Falcão, roteirista da série “A Grande Família”.

Adriana é uma fada Sininho na prosa, espargindo o pó feiticeiro Pirlimpimpim por onde anda. Em "Mania de Explicação", alinhou significados infantis para as palavras que costumamos gastar à-toa.

"Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma."

Pirlimpimpim!

"Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo."

Pirlimpimpim!

Os pequenos possuem um repertório mínimo de palavras. Transformam a limitação em virtude e habilidade, combinando as expressões como ninguém. Os vocábulos viram de cabeça para baixo - o alfabeto planta bananeira, completa cambalhota, desenvolve estrelinhas. Testam inserções e deslocamentos lingüísticos. Expressam reais necessidades, num jogo de vizinhanças e aproximações.

Como exploram a curiosidade do mundo e propõem um bombardeio de questões, estão mais aptos a atingir o deslumbramento e exclamar descobertas. Os adultos acumulam sinônimos para fugir logo de uma palavra, as crianças descobrem outros significados antes de se despedir de uma palavra.



Filhos são perguntadeiros, insistentes, encontram sempre dúvidas inéditas, além de desfrutar da pureza das observações, sem segundas intenções.

Poesia é perguntar, afinal. Quem não pergunta não transcende a realidade.

Em casa, quando o seu filho se aproxima e questiona:
- O que é Deus?
E você replica:
- É o pai do céu.
E ele insiste:
- Por que ele fica no céu?
E você retruca:
- Para nos olhar melhor.
E ele não pára:
- Se ele me olha, por que eu não o vejo?
E você tenta resolver o assunto de vez, porque está trabalhando.
- Porque ele está dentro de você.
E a criança percebe a confusão.
- Mas ele não estava no céu?
E você percebe que nada funciona.
- Deus é quando temos fé.
E o filho volta a pressionar:
- O que é fé?

Poucos superam a irritação e permanecem até ali, sem mandar o filho “parar de incomodar”. A poesia pode ser confundida com chatice, porque começa justamente no momento em que os pais não agüentam mais explicar aos seus filhos. Pois as respostas preparadas, prontas e herdadas não surtiram efeito, e é necessário pensar de um jeito novo e enfrentar questões que ultrapassam os manuais. Questões que pedem respostas particulares e nunca ditas.

Na quinta pergunta, a poesia aparecerá. Algo assim:

- Fé, meu filho, é como o vento, a gente não enxerga, mas é forte e balança as árvores. Põe a mão na frente de seu nariz, sente o ventinho quente? É Deus. Deus dentro da gente é respiração. Deus fora é vento.

Quem pensa que a poesia nasce da intensa escrita está enganado. A poesia nasce do desenho. Uma criança que desenha muito em casa está elaborando sua poética. Antes da caligrafia, desenhar a voz e a colorir.

Henri Michaux, poeta francês, alertava para a importância da ilustração como uma pré-história do verbo, onde não ocorrem censuras, nem condicionamentos.

"A idade dos retoques ainda não chegou. Nos seus desenhos, ela não copia o homem, instala-o".

Quando o dom não é trabalhado pelos rabiscos coloridos, descende das inúmeras histórias paternas e maternas narradas ao pé do ouvido, na hora de dormir. O papo noturno é tão gostoso, que Adriana Falcão escreve para continuar a conversa com as filhas.

"O Mania de Explicação foi para Isabel, minha filha mais nova, que sempre foi uma perguntadeira ambulante. O Luna Clara & Apolo Onze tentava decifrar os mistérios de Clarice, minha filha do meio. E o Comédia dos Anjos foi escrito com a cabeça em Tatiana, a mais velha, e mesmo não sendo um livro infantil, tem muito de criança. Tanto que é uma ingênua e brincalhona história de fantasma", justifica.

Aliás, deveria existir o “Livro das Histórias Contadas e Nunca Escritas na Infância”.
“Comigo, as histórias orais permaneceram histórias orais. Meu filho tem histórias só dele: O Monstro da Lagoa e A Pulga Lelé”, confessa Marcelo Pires.

As composições igualmente ajudam. Cantigas de ninar e MBP aguçam os ouvidos para as letras.
“A música leva a poesia. Os pais já estão ajudando seus filhos a compreender o mundo da poesia quando entoam suas canções favoritas. De noite, cantar. De dia, comentar a letra e a combinação das palavras”, recomenda Tânia Zagury.

O poeta talvez realmente seja aquele ser que nunca fica adulto, como definia o britânico Martin Amis. E a criança é o lugar mais visível onde o poeta pode ser encontrado. E compreendido.

As surpresas surgem do encontro dos dois. Celso Sisto confidenciou a um leitor mirim que desejava ser criança para sempre.

Seu interlocutor formulou a seguinte mágica:
- Deve inventar um Celso de vários tamanhos, quando um começa a se gastar, entra outro Celso mais novo no seu lugar, sem nada entupido.

Não é poético?

Publicado na Revista da Cultura (uma publicação da Livraria Cultura)
Edição 8, ps 34-37, Março de 2008


8:44 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 14, 2008

UM BANDO DE VELHINHOS SIMPÁTICOS
Fotografias de Rodrigo Rocha (rocha.fotografia@gmail.com)

Fabrício Carpinejar



Fui visitar amigo que comprou apartamento com vista para um cemitério.

De frente. É sua primeira miragem de manhãzinha, aos goles de café quente e pão com margarina. Assim como uns encontram o mar na varanda; outros, a encosta verde; ele está diante de uma procissão de cruzes brancas e estátuas cinzentas cobrindo dois quarteirões.

Não se incomoda. Diz que o imóvel foi uma pechincha, que o fim dos outros desvalorizou o apartamento e financiou a vida dele.

A paisagem o fez mudar de perspectiva em relação aos velhos. Eles não estão mais perto da morte.

- Os velhos contam os minutos e se protegem.

Apressado, tinha que descontar um cheque, não desfrutava de tempo para entrar na discussão. Notei que era uma cilada para uma reflexão metafísica infindável. Parti, deixando nele a sensação de mar calmo e isca desperdiçada.

Mas fiquei com essa cisma na boca, como quem engole um cabelo e não localiza o fio transparente.

"Como assim os velhos?", pensei.

Entrei no banco logo que abriu e já estava no fim da fila. Condicionado a retirar uma senha, era o único jovem entre dezenas de aposentados com número preferencial.

Eu boiava na música de ouvido, condoído pela tribo de anciões simpáticos, inofensivos, doces. Uma reunião de avós para conversar sobre reumatismo e os dons das ervas medicinais. A delicadeza dos cabelos grisalhos me arrancou do estresse. Eles estavam comportados, bonitinhos, agasalhados para uma foto sépia. Sentia ausência do tricô e do jogo de dama para completar o quadro bucólico.

"Ai que saudade de minha velhice". Delirava na nostalgia do futuro, quando um velhinho ranzinza se adiantou e furou a fila.

A mulher de cerca de oitenta anos, próxima a ser atendida no balcão, declarou-se ofendida:

- O que está me olhando, tarado?

O senhor curvou as sobrancelhas:

- E eu olho assombração, vai procurar um espelho, senhora?

Ela não esperou a bola quicar:

- Na sua idade, sim, a assombração é a única que lhe espera!

Ele revidou:

- Pois prefiro a necrofilia a você.

Ela não parou:

- Só uma morta mesmo para aturá-lo.

Entrei em pânico, dei meia-volta e sai em passos apressados do circulo amarelo do guichê.

Nem mais os velhos, nem mais os velhos... se respeitavam.

Voltei ao apartamento do amigo para pescar o silêncio perfeito das lápides.



8:50 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 11, 2008

TEM CERTEZA?

Fabrício Carpinejar



Eu virei o nome de uma pizza em São Leopoldo. É minha glória literária. O Nobel que poderia alcançar.

No cardápio do Bucadisantantonio, está lá: "CARPINEJAR". Certo que está perdido entre mais de 150 sabores. Mas eu vejo e me orgulho, enredado na fase oral. Dentro das proporções de minha cidade, é como constar no catálogo de atividades da Feira de Frankfurt.

É migrar do livro para a boca, numa espécie de plano de carreira. O leitor nem precisa me ler, basta me devorar. Ou me requentar no dia seguinte. Sou palatável finalmente. Posso ser levado numa caixinha para o jantar. E ainda dizem que literatura não mata a fome.

Ser transformado em prato carrega seu lado negativo. Sento no restaurante e não consigo solicitar outra pizza, por mais que já tenha me enjoado do Carpinejar. É como se me traísse. Pior: me recusasse. Seriam anos de análise numa situação no mínimo antropofágica:

- Doutor, não aturo mais me comer!

Realidade agravada pelo isolamento. Nenhum dos meus filhos e muito menos minha esposa gosta do que inventei. Sou maldito em minha digestão. Com três pedaços na fôrma, 1/3 das combinações, sou obrigado a comer todos e não provar dos demais sabores. Não contarei com a complacência de nenhum integrante da família. Vivo uma espécie de condenação perpétua, fadado a me engolir.

Eu me tornei um sabor pela insistência do pedido. Toda vez, tinha que explicar "calabresa, cebola e queijo por cima". "Por cima!", repetia, e vinha por baixo. O Sandro, dono do lugar, decidiu terminar com a minha chatice e batizou a fatia.

Na última semana, o garçom se aproximou e tratei de repetir meu ritual.

- Uma Carpinejar, por favor!

O garçom era novato na casa, e procurou me ajudar, sei lá, viu que eu merecia uma orientação, identificou uma extravagância.

- Tem certeza?, replicou.
- Como assim?
- É que ninguém pede o Carpinejar, não sei se é boa...
- ? (pelo silêncio interrogativo, carente, órfão, exagerado, entendeu minha tristeza)
- Você é o primeiro que a pede. Depois me conta.

E saiu de fininho, com os hieróglifos do pedido, direto para a cozinha.

Naquela hora, eu conheci prematuramente minha decadência. A verdade é que ninguém quer comer Carpinejar. Nem eu.

5:33 PM :: Comentários:

E AGORA?



Aos insones do coração, o Consultório Poético prossegue com sua permanente conversa noturna, não importa a hora e a claridade da janela. O tema da semana é "Eu me apaixonei e ele confessou que é gay". No Bloglog.

11:26 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Abril 10, 2008

TALK SHOW RESGATA ROCK OITENTISTA

Em busca do tempo perdido faz uma leitura livre e inconseqüente do rock dos anos 80. Show é comandado por Fabrício Carpinejar e Frank Jorge, com participação de Jimi Joe.
Fotos de Giovani Paim

Brincos argolas, gel, roupas surfistas, coletes, espetos coloridos nos cabelos. Os anos 80 foram tão pródigos em tribos e adereços quanto em tendências do rock.

Os piromaníacos poéticos Fabrício Carpinejar, Frank Jorge e o convidado Jimi Joe fazem uma batida musical dos anos 80, revisitando três grandes frentes classificadas em rock Melissinha (Kid Abelha, RPM, Blitz, Biquíni Cavadão), rock All-Star (Barão Vermelho, Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Lobão) e rock Coturno (Cascavelletes, Replicantes, Camisa de Vênus, Titãs, De Falla).

Escolha sua roupa, retire o pó dos LPs: o brechó roqueiro da década de 80 está aberto na segunda edição do ano do talk show mais imprevisível do Vale do Sinos. "Em Busca do Tempo Perdido" acontece nesta quinta (10/4), às 20h30, no Café de Bordo de São Leopoldo (Av. João Correa, 997, Telefone: 51 35913320). Ingresso: R$ 5.

O duo de guitarristas e o poeta interpretam hits da época como "Olhar 43", "Menina Veneno", "Ursinho blau, blau", "Como eu quero", "Inútil", "Tempo Perdido", "Pro Dia Nascer Feliz", "Surfista Calhorda", "Eu Não Matei Joana D' Arc", "Menstruada", entre dezenas de canções (o difícil será terminar o show).

No clima descontraído, Em busca do tempo perdido emprega um humor cantante e lírico. É um "paraoquê", versão satírica do "karaokê". Não é para ser levado a sério, muito menos de modo muito leve. Esclarece momentos históricos da cena cultural e mata a saudade de outras épocas, tendências e costumes. É contra-indicado aos insensíveis à nostalgia. Caracteriza-se pela interação com entrevistas e conversas paralelas. A platéia poderá levar suas fotos antigas para compor o mural (coisa que nunca aconteceu!).

(Imagens: Frank e sua viradinha cósmica; Jimi Joe e qual é a próxima música; Carpinejar, super-bonder no público, não acreditando na resposta)

8:19 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Abril 09, 2008

ILUMINURA DO BANCO DA PRAÇA

Fabrício Carpinejar



Você não perguntou se eu podia, ou se devia.
Você não me diminuiu para se sentir mais forte.
Você não se escandalizou com a mentira; eu não completei a verdade.
Você não pensou no futuro, não pesou as conseqüências, não penou antes da hora.
Você não se protegeu do que desconhecia.
Não alertou que sofreria comigo, e que depois não sairia ilesa.
Você não me forçou a adivinhá-la.
Não apelou para o bom senso.
Você não me inventou, muito menos queimou o rascunho.
Você não me ameaçou com gentilezas.
Não me incriminou com seus temores, não explicou seus traumas.
Não se fez de vítima como se eu estivesse atacando.
Não, você me carregou nos ombros pela cintura. Os dois dedos dentro do meu cinto empurrando a dança.
Não me solicitou prova, testemunhas, sinais.
Não emprestou a Deus o que acontecia em segredo.
Você lembrou do sinal-da-cruz longe da igreja.
Não me julgou por antigos amores.
Não me condicionou a amar como estava acostumada.
Não esperou que eu pronunciasse o que vinha escrito em carta.
Você me olhava com os cabelos.
Você não pediu fiança, recompensa, para se entregar.
Você veio com a roupa do corpo, com o corpo ainda sem culpa.
Você me fechou em suas pernas e deixou a porta aberta do quarto.
Você me exilou no desejo para me repatriar aos poucos.
Você esqueceu as janelas chiando na cozinha.
Você foi incapaz de me constranger quando desisti de responder.
Você não me incitou a casar contigo, não me incitou a namorar.
Você não isolou minhas frases, não alegou que era uma fase.
Você me perdoou como se não existisse.
Você me fez existir para que perdurasse.
Você não me reclamou distante, não cobrou que mandasse notícias.
Você desaparecia quando desaparecia e voltava quando voltava.
Você me afirmava quando me confundia.
Você segurava a nudez para que subisse.
Você não me comparou a ninguém, muito menos aquilo que já fui.
Você não me subornou com a infância ou com o medo da morte.
Você não explorou meus segredos para usá-los.
Você não quis que falasse para preencher as falhas.
Você arredondou os defeitos pela pressa de cuidá-los.
Você foi generosa com os meus ouvidos, confiando mais no vento do que na palavra.
Você me permitiu.
Você me entendeu ao não entender.

Você não teve nada a ver comigo - finalmente eu não me repetia.

10:20 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Abril 07, 2008

QUANDO COMECEI A ANDAR

Fabrício Carpinejar



Meu avô materno Leonida me fez andar.

Foi ele, já na velhice, com as costas curvadas, quase não caminhando devido ao enfisema pulmonar.

Eu tinha um ano e pouco. Ele me alçava com seus braços finos, quebradiços, e me colocava escorado na cabeceira de sua cama.

Sustentava as costas dos meus joelhos com seus pulsos. O esteio das unhas.

- Assim, bambino, olhe para o horizonte.

Minhas pernas tremiam. E apertava sua voz e a madeira fria, buscando mais tecido para o calcanhar. Os dedos estalavam a concha do sangue. Menino embrulhado de fralda, receoso de abandonos.

- Fique aí, vou preparar.

Ele sumia com sua bengala, não lembro o que eu pensava, talvez não pensasse. Prendia a respiração, fotografando aquele momento como podia.

A mãe veio correndo, ouriçada, e batia palmas diante da firmeza inesperada.

- Ele está andando! Fabrício está andando!

Devia rir soluçado, como um bebê que ainda não controla a risada.

O avô grudava a testa na minha e dizia:

- Somos um, somos um.

Na manhã seguinte, consegui me pendurar de parede a parede. Caía e levantava, mas já tropegava sozinho. Meu corpo, meu cavalo. Achei o quarto escuro de meu avô. A porta entreaberta, a maçaneta redonda.

Sua cama vazia era um continente, ele poderia estar deitado me esperando. Fui devagar, como me ensinou, de tábua a tábua. Alisava os cobertores de lã, a lembrança de seu suor. Longe, fui longe.

Contornei, contornei e não cheguei a ele.

- Vô, estou andando, vô? Venha ver, vô?

Minha mãe me recolheu aos prantos. Deitado em cima de seus chinelos. Os chinelos verdes, usados, o cheiro de sua estrada. Os chinelos como travesseiros incertos. Os chinelos alinhados, par de lápides na beirada do mundo.

O avô havia morrido naquela noite. Não puxei meu pai, não puxei minha mãe. Ele se escondeu em meu rosto.

Seu rosto está de pé em meu rosto.

11:23 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Abril 04, 2008

CHICLETE
Arte de Tom Wesselmann

Fabrício Carpinejar




Eu masco um chiclete pelo gosto inicial. Chiclete explode sua doçura (e como é rápida!) e logo vem a preocupação de jogar fora.

Chiclete unicamente me deixa preocupado em procurar o lixo mais perto. Uma incomodação a mais em meu caminho.

Tem a efemeridade de uma bala. Assim que o açúcar se desmancha e o sabor acena da garganta, eu me desvencilho. Não esclareço minha passividade diante dele, o motivo de reincidir em comprar e aceitar ofertas 'de quer um?' dos amigos.

Desde criança, chiclé é uma penitência. Cansa-me, larga-me com um jeito abobado de gripe. Não sei desenhar bola no ar, propor malabarismo, e qualquer outra encenação do sopro. Ele me diminui. Invejava os garotos da turma que o transformavam num ioiô da saliva. Um balanço. Bolhas perfeitas até serem sugadas de volta. "Olha o que eu consegui?", diziam. E olhava, treinava em casa e o máximo que conseguia era formar um bigode rosa.

Enigma insolúvel da minha masculinidade: o chiclete. Além de me constranger, empurra-me a explorar obsessivamente os rostos das mulheres. Vidrar-me no queixo e nas bochechas delas, com aparência de criminoso sexual em condicional.

Falo das mulheres que permanecem horas com um chiclete. Com o mesmo chiclete. Elas me apaixonam. Assumo ânsias de dentista. Ânsias de apaixonado, a pedir um beijo somente para espiar a boca. Ânsias de aventureiro. Ânsias de manual, mapa. Ânsias de predador, prendedor.

Perco o destino quando vejo uma mulher dedicada a um chiclete (não lembro de homens mascando tanto tempo). Nublando os olhos pela música dos dentes.

Há de existir uma alquimia na longa digestão. Ou um curso preparatório, com apostilas vendidas na porta das tabacarias.

Essas mulheres não renovam a fragrância com um outro chiclete. Não trocam. Não largam. Conseguem sustentar a goma por um turno inteiro, mascando devagar, com uma sobriedade de passeio. Imutáveis, como modelos vivos de um pintor.

Tomam café com o chiclete. Almoçam com o chiclete. Transam com o chiclete. Não duvido que não escovem com o chiclete. Onde elas o escondem para que não seja contagiado pela corrente do dia e das refeições?

Onde elas guardam? Debaixo da língua, com a nobreza de uma aspirina? Grudado no céu da boca? Nos lados? Há calçadas brancas para que eles fiquem caminhando sem desviar dos carros?

Eu pergunto, pergunto, e não me contento. Se um chiclete dura uma eternidade, o que elas são capazes de fazer por um homem?

2:01 PM :: Comentários:


Terça-feira, Abril 01, 2008

O MALTRAPILHO E SUAS MISTERIOSAS GUIMBAS
Arte de Tom Wesselmann

Fabrício Carpinejar



A noite é bastarda para quem dorme cedo.

O velhinho catava guimbas na frente de uma padaria paulista 24h. Já sonso pela luz dos faróis. O terno rasgado e uma gravata fatiada de musgo. A barba escolada de insetos. O boné de algum vereador cassado. Os círculos repetidos de uma obsessão. Ele era o que fazia, mais do que um passado ou mesmo um futuro.

Da mesa da padaria envidraçada, observava sua coleta insaciável. Um legítimo maltrapilho, cogitava, não um mendigo. Maltrapilho é o que não pede esmola.

Ele pegava a baganha, aproximava do olho esquerdo e jogava de novo fora.

Recolhia e recusava o que encontrava. Arrastava sua mão ao chão, subia o guindaste das unhas e descia de novo. Não cessava o movimento de permanente recusa.

Quando deixei o local, me aproximei e ofereci um cigarro. Um cigaro inteiro. Ele vai aceitar, me agradecer e levantar o espanto benfazejo da fumaça ao céu escuro.

Fracasso ao reproduzir sua careta quando abri o maço. Ele esticou o queixo como um estilingue. A pedra da boca voou.

- Não, não quero.

- Toma, te ofereço.

- Não quero, senhor.

Eu me isolei, sua negativa foi como uma ofensa moral. Aproximei-me da parede para não atrapalhá-lo.

Faxinava o meio-fio com as mangas. Não fedia ainda, apesar das estrelas paradas.

Por dez minutos, não mudou a ordem de sua operação; apanhava e largava, apanhava e largava. Até que se encantou por uma baganha. Não localizei nenhuma diferença das demais refugadas. Levantou o ombro, tomou uma caixinha de fósforos e acendeu vigoroso o toco. Sentou um instante, dobrando seu paletó como almofada.

Se estava imundo, não fazia lógica não sujar a calça. Mas ele fumava agora como alguém tolerando o atraso da namorada. Mudou sua feição. Mudou inclusive seu estado civil.

Não agia como um desocupado, gozava de todo o tempo do mundo para propor negócio.

Esperei que ele descartasse a chama e fosse embora. Demorou a fazer, apertando suas tragadas lentas, assobiando o filtro. Chupava o gosto de alcatrão, o osso da névoa.

Recolhi seu cigarro, intrigando talvez um outro cliente da padaria envidraçada.

Descobriria o que havia nele.

Reparei apenas numa mancha de batom. “Apenas” porque não tenho fé.

Ele fumava as mulheres.

11:08 PM :: Comentários: