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Consultório Poético

Blog

Sábado, Maio 31, 2008

VERDE COMO A LUZ NO INVERNO
Arte de Rufino Tamayo

Fabrício Carpinejar



Chegar numa cidade nova requer cuidados.

Um deles é fingir que ela não é estranha, complicado para meu jeito espalhafatoso de vaga-lume. Eu me encarrego de forçar um rosto bovino, anguloso de fastio, escondendo o iminente arroubo com as ruas inexploradas.

Fui pegar um táxi em São José do Rio Preto na saída do aeroporto.

Três taxistas esperavam num ponto. Caminhei devagarinho. Era o primeiro da fila. Apanhei o papel do bolso para consultar o endereço do hotel.

No meio-tempo, um casal mais velho passou na minha frente e arrebatou o primeiro táxi. Deixei, não iria comprar briga com o casal simpático. Não me viu, acho.

Ao fazer menção para entrar no segundo carro, um quarentão ocupado ao celular fez de conta que eu não existia, desenhou uma ultrapassagem arriscada, adiantou-se ao meu corpo (desconheço de onde surgiu) e mergulhou no banco da frente. Não assimilava o que estava assistindo. Afinal, como era a fila? Decrescente?

“Cara-de-pau!” E o motorista não demonstrou nenhuma compaixão comigo.

Levei minha mala de rodinhas ao terceiro e último veículo. Quando encostei na porta, foi bruscamente para frente e apanhou um outro casal que se aproximava da parada.

Eu ralhava com o braço estendido:

- É meu, é meu!

Ouvi a mulher replicando:

- Mal educado. Toma vergonha. Estamos muito antes aqui.

Incompreensível o raciocínio dela. Sua distorção me apavorou, não restou coerência para devolver o insulto. E eu é que fiquei com a fama de furão.

Demorou quinze minutos para aparecer um táxi.

A indiferença não era natural. Foram instantes em que me percebi morto, ilhado entre as fisgadas do vento e o entardecer rubro. Um fantasma desinformado, toco de lápis de cor sem comprimento para readquirir a ponta.

Aquilo me contaminou ao longo do percurso. Estragou o pescoço. Um desprezo que não dava para dobrar como lenço, ou estourar como plástico.

Uma aspereza gratuita, e sou arremessado ao purgatório. Pode ser na fila do banco, na devolução de um troco, na subida do ônibus, na aspereza de um atendimento. Irrita-me ser tão sensível a ponto de me influenciar por qualquer grosseria.

Por uma bobagem, meu espírito desagradava à carne. Dois dias depois, voltei desanimado para a residência.

Encontrei meu blusão verde em cima da cama do Vicente. O preferido. Enrolado como fronha do travesseiro, esticado, abusado de nós e voltas.

Engraçado, usei antes de partir. Tinha colocado no armário. Resguardado. Recordo bem.

Descobri que meu filho dormiu agarrado à minha roupa. Apertado de saudade, dispensou a companhia permanente de seus bonecos: o Gui, o Ratatouille, os Backyardigans. Procurou meu cheiro na pilha arrumada de peças e me ressuscitou novamente com sua delicadeza.

11:08 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 27, 2008

BANANA, TOMATE OU ROMÃ?



O abajur do Consultório Poético não pára de piscar. Jovem se apaixonou pelo ex-professor, mas ele descarta qualquer namoro ou envolvimento mais sério.

Leia meu palpite e estranha teoria:

"Eu divido a ala masculina em três categorias de atuação emocional: homem-tomate (grudento, que gosta de ser pisado), homem-banana (que zela por uma aparência, escorrega na linguagem e não se entrega) e homem-romã (que se abre inteiro e harmoniosamente)."

3:37 PM :: Comentários:

MÓDULO AVANÇADO DE CRÔNICA



Conduzo módulo avançado da oficina de crônicas, para os iniciados no gênero. Há somente mais cinco vagas para os encontros semanais no Studio Clio (José do Patrocínio, 698), em Porto Alegre (RS). Informações e inscrições pelo telefone (51) 3254.7200 ou pelo e-mail clio@studioclio.com.br.

"Para pensar com a boca: a oralidade da escrita II" ocorre nas terças-feiras, das 19h30 às 21h30, com início hoje (27/5) e seguindo por dez encontros. O projeto é organizar uma antologia bipolar a partir das cinco lembranças mais tristes e as cinco mais felizes dos alunos. Os textos serão trabalhados e lapidados em aula durante três meses.

Além disso, exploro a sensibilidade da escrita em jogos de interação como horóscopo, bulas e inventário de imóveis. A produção textual será fundamentada pela teoria da crônica e interpretação de mestres como Rubem Braga, Antonio Maria, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos e Aldir Blanc.



11:31 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 26, 2008

O FILADOR DE CIGARRO
OU O QUE ELE ME LEVA A PENSAR

Arte de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



O filador de maço entrou em extinção. Como o cigarro está o olho da cara, demanda coragem e desprendimento finalizar o pedido.

Antes era moleza conseguir unzinho. Uma camaradagem natural. Não se conferia quantos sobravam para ceder. Oferecia-se no escuro. A reposição fácil convencia os mais avarentos. Beirava inclusive uma obrigação civil, o direito constitucional de dar e receber. Hoje ouso catalogar a filação na seção de novas esmolas.

Ainda existem alguns sobreviventes da espécime, mas todos amadores. Basicamente quem largou o cigarro para a família, não para si, e fuma distante de casa, tragando com uma mão e espantando a fumaça das roupas com a outra. Um perfil confrangido, desesperado se não estivesse bem vestido. Duplamente maldito, aos não-fumantes, que o reconhecem como um fumante integral, e também aos fumantes, que não toleram sua existência precária, pela metade.

O filador é diurno (as baladas não valem, onde os freqüentadores são morbidamente influenciáveis). Anda meio de banda, uma gangorra entre a culpa imensa pela recaída e a golfada eufórica do vício. Seu ponto preferido de abordagem costuma ser o corredor ao ar livre. Como não são adivinhos, esperam que alguém retire um cigarro para interpelá-lo. O passante é pego em flagrante, sem chance de mentir que não tem, ou que não fuma.

Ao pedir um cigarro, o filador não mexe a boca. É seu próprio ventríloquo. Para sua infelicidade, será intimidado a falar mais alto e claro. Mesmo quando escuto, replico que não entendi, para constranger um pouco mais.

Caso ele disponha de fogo, confirmarei sua autenticidade. O isqueiro no bolso é a prova definitiva da premeditação do ato. É aquele sujeito que estorna seis cigarros por dia de diferentes vítimas e não comprará uma carteira.

Uma demonstração nítida de sua natureza é quando não consome o cigarro em sua frente. Faz estoque. Põe numa caixinha vazia com tranqüilidade desavergonhada: "é para depois!"

O personagem não retribuirá os cigarros em nenhum momento da vida. Esqueça. Lamentará que recém terminou (não mente, apenas não completa que terminou há meses, talvez anos).

Na saída de uma aula, uma jovem me perguntou se tinha cigarro. É óbvio que não foi direta ao assunto, mostrou-se desinteressada. O filador tenta aliviar a culpa fazendo amizade. Ela demorou cinco minutos para formalizar seu desejo. Decidi pegar pesado. Não facilitaria; o sadismo não nega a sorte.

- Me dá uma palavra nova, uma palavra que não conheço?

Ela fingiu espanto para realmente se espantar.

- Como assim?

- Diz um vocábulo que não sei, para aumentar minha coleção de palavras...

Ela meditou (talvez pensando que necessitava agora mais do que nunca de um cigarro para chegar à resposta).

- Embasbacado?, disse.

Não poderia ser cruel com as pupilas verdes, graúdas, bonitas como conchas nunca reconhecidas. Ela cintilava aquela palavra como novidade. Descobriu naquela tarde em um livro e não aventou que muitos, como eu, já a conhecessem. Guardava a fé de uma criança que encontra Deus no reflexo de um lustre ou uma moeda no meio-fio de uma rua. Uma pureza que não merecia ser assassinada por uma brincadeira. Não por mim, não ali.

Fiquei lento. Declaro ou não que é uma palavra comum? Sua voz tinha a insistência firme das porteiras automáticas dos estacionamentos pagos: “insira seu tíquete, insira seu tíquete”. Lembrei que fui assim tantas vezes, acreditando portar uma descoberta única, uma dádiva, e procurei diminuir a ignorância do mundo ao espalhar a notícia e recebi um tedioso “eu já sabia”. Minha generosidade foi se apaziguando e me encabulei de contar pressupondo que todo mundo já sabia. E emudeci para não parecer idiota.

Ofereci o cigarro em silêncio. Embasbacado com o que ganhei em troca.

10:08 AM :: Comentários:


Sábado, Maio 24, 2008

A MÃE É MEU DESPERTADOR
Arte de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



As teleoperadoras foram inspiradas na figura materna. Uma saudação inteira, sem arestas e brechas para o contra-ataque. Sem pausa e hesitação para interromper. As palavras chegam coladas, sobrepostas, úmidas de orvalho.

Desde que saí de casa, minha mãe é a primeira que me telefona. Um rádio-relógio: 7h30. Dispensável conferir a bina. Sua voz arranca com o "pronto". Nunca me perguntou se voltei tarde, trabalhei demais de noite ou se está me incomodando. Aliás, mãe tem a convicção que não incomoda. Acredita que não serei desnaturado ao cogitar essa bobagem. Filho que é filho não reclama, agradece.

Sua fala desce a lomba. Apartada em definitivo do contraponto. Integra a categoria do depoimento, não de uma conversa normal. Nenhum "como vai?", necas de "tudo bem?". Lembrando, é até engraçado. Dolorido é viver a sessão diária e as ferroadas da paciência.

Mãe com mais de três filhos está livre de terapia - os filhos satisfazem o descarrego. Poderia pôr o gancho na mesa, escovar os dentes, tomar café e ela não sentiria minha desaparição da linha. Igual à espera na Caixa Econômica Federal; podemos retirar a senha, fugir do banco, passear durante uma hora e ainda voltaremos bem antes de sermos atendidos. Duvide de toda agência que oferece cadeira para sentar, a cadeira não é comodidade, é o fracasso da fila. Significa que o cliente vai esperar o dobro do que se estivesse em pé.

É um mistério que a mãe consiga realizar retrospectiva mal raiando o sol. Eu não tenho a lembrança de meus sonhos e ela já narra que fez isso e fez aquilo, numa precocidade matinal que assustaria as corujas. Seu chimarrão está lavado e nem aprontei o meu. Advoga os problemas das amigas, repete algumas notícias ouvidas no rádio, reclama que um dos filhos não liga mais para ela (deve reclamar o mesmo de mim aos outros). Uma hiperatividade que inunda minha indisposição. Vou me defendendo das informações como posso. A sensação é que não dormiu, ou não acordou.

Quando tento participar e confidenciar minhas preocupações, ela lamenta que não tem como prosseguir. Sempre arruma uma desculpa para sua saída. A chaleira fervendo, a missa começando, o hidráulico no portão, o celular chamando.

Mas um dia eu me vingo nos meus filhos.

9:50 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 22, 2008

PASSARINHADA

Fabrício Carpinejar



Rodrigo foi o primeiro irmão a pernoitar com o Vicente. O menino é caseiro, teimoso de sua cama, arredio para mudanças climáticas.

Mas todo tio guarda uma mistura prazerosa de guardião e cúmplice. Uma desobrigação amável. Tem leite açucarado nos olhos. Convence fácil. Convidou o menino a trabalhar, abrir buracos, plantar árvores, arrumar pedras. Qual criança que não gosta de se sujar?

Presenteou o guri com um par de galochas e luvas verdes para que enfrentasse o novo serviço florestal. O pequeno entendeu a súplica e decidiu ser independente na vida e dormir na chácara longe dos pais.

Voltou contente com uma casinha de barro para passarinho. Não quis que eu carregasse até o terraço.
- Eu carrego, é minha!

Subiu as escadas correndo, nem aí para meus temores de queda e choro.

Quando entrou no apartamento, suspirou aliviado da responsabilidade cumprida.
- Viu que eu consigo?

Ao relaxar, a casa escapou da sacola e se espatifou bonito na sala de estar.

Não tive tempo de responder.

Ele não chorou, pegou uma pazinha e esperou que viesse com a vassoura. O silêncio era sua penitência.

Prometi que faria um condomínio de aves, compraria três casas e colocaríamos como degraus na parede de fora. Ele dormiu pensando naquilo. Acordou pensando naquilo. Entrou na escola pensando naquilo. Retornou da escola pensando naquilo.

Cuidado com qualquer promessa feita a uma criança. Ela não esquece e cobra seus minutos de desassossego.

O Vicente me rodeava e me rodeava sem falar nada. Entendia o que ansiava e fingia não entender. Eu regressava de viagem, bem atrapalhado: compromissos amontoados e aulas a planejar. Quase furioso. Porém, não resisti aos seus círculos insistentes. "Vou resolver logo isso!", admiti. Larguei a caneta vermelha para sair em expedição pela cidade.

Sem furadeira, chamei o eletricista Inácio, meu faz-tudo. Combinei um horário apertado. Em duas horas, teria que almoçar com o filhote, dar banho, adquirir o material, realizar o supermercado, aguardar o amigo, antes de ir para universidade. Pai fracassará em alguma coisa, desde que não seja na cria.

Inácio instalou as casinhas vermelhas e azuis.

Lindas. Duas lembram ocas; a outra exibe dois andares, com varanda.

- Está contente, Vicente?
- Sim, pai, muito.

Fui me despedir do eletricista, com a palavra apaziguada e a missão concluída. De modo extravagante, ele recuou:

- Não, não está pronto...
- Como assim?, Vicente pergunta.
- Os passarinhos não virão para cá.

Vicente fica repentinamente chateado, com beiço no joelho e fuça úmida de cachorro no parque.

- Por quê?
- As casas não têm número, os passarinhos vão se perder e nunca achá-las, explica Inácio.

Era tudo o que desejava. Que o eletricista inventasse de ser poeta.

Meu menino dormiu pensando naquilo. Acordou pensando naquilo. Entrou na escola pensando naquilo. Retornou da escola pensando naquilo.

11:27 AM :: Comentários:

“EU SOU ATENTO AO QUE FUI, NÃO MELHOR”
ENTREVISTA » FABRÍCIO CARPINEJAR

Schneider Carpeggiani
carpeggiani@gmail.com
Fotografia de Renata Stoduto



A estréia do poeta Fabricio Carpinejar foi uma narrativa sobre o perdão: o filho procurava entender o pai ausente. Um terno de pássaros ao sul (2000) ganha nova edição em que o perdão, desta vez, não foi alcançado. Na hora de dar sinal verde para a editora sobre a reedição, Carpinejar releu, estranhou e não perdoou seu próprio texto. O livro então voltou com alguns novos poemas, algumas novas passagens... Sobre isso, ele conversou com o JC.

JC – Esse livro é um duplo olhar para trás, tanto para sua carreira como autor como para sua formação como homem. Como é para você rever essa dupla herança a partir do texto?
FABRÍCIO CARPINEJAR – Não esperava reescrever o livro, pois ele já tinha uma boa recepção de público, de crítica e prêmios. Fui revisar as provas no verão e a coceira da respiração não me deixava continuar. A asma é que me diz quando devo mexer ou não num livro. Se meu pulmão sibila, algo está incomodando, é que posso me emocionar mais. Alguém está afogado em mim e mergulho para salvar. O que era para ser um o.k. do autor para editora, uma formalidade, e virou folhas e folhas rabiscadas, rascunhadas, refeitas. Descobri que escrevi o que podia em 2000, cheguei ao limite da dor e recuei. Hoje me desafiei a suportar. Portanto, avancei na nova versão. Rasguei a cicatriz para sangrar outra vez. Ampliei as passagens dramáticas entre pai e filho. Em Um terno de pássaros ao sul de 2000, algumas metáforas eram fugas para não chorar. Agora teria que ficar até o fim. Encarar o fundo da pupila. Que as metáforas signifiquem entrar na realidade, assumir a realidade. Sinto um alívio contente. O mar é calmo após a arrebentação. Nadei para depois de mim.

JC – Em algum sentido, para você escrever é resolver ou apenas reavaliar uma história?
FABRÍCIO – Resolver, nunca. Eu não resolvi nenhuma lembrança minha, imagina um livro de poemas? Minhas lembranças são arquivos corrompidos pela imaginação. Todo o meu disco rígido está corrompido pela fábula. Eu conto para viver, invertendo a máxima de viver para contar. Carrego a certeza que a palavra me salvou do aniquilamento, do suicídio, das drogas, das mentiras. Ela fez com que cada fragmento de meu corpo guardasse uma explicação. Não me afastei da vida porque a palavra sempre esteve próxima dela. Quando perdemos o idioma, perdemos o lugar. Narrar é perseguir o passado, comunicá-lo para não se repetir. Não narro para me perdurar. Ter sentido é pouco, fazer sentido é o que busco. Eu sou atento ao que fui, não melhor.

JC – Uma característica da sua poesia é que seus livros de poemas podem ser lidos como uma narrativa, com princípio, meio e fim. É o caso de Um terno de pássaros ao sul e Cinco Marias. Você se preocupa com essa questão da poesia como narrativa, que conta uma história?
FABRÍCIO – Integro uma família de contadores de histórias. Para ter sobrevivido ao almoço de domingo, eu me esforcei. Não foi fácil devolver as provocações dos irmãos. Nada que se vivia ficava de fora da gozação. Tanto que ainda hoje inauguro meu dia quando chego de noite em casa. A poesia precisa da urgência do enredo. As colchas mais bonitas que conheço são as de retalhos. Não é juntar, é unificar. No caso de Um terno de pássaros ao sul, a história é de um filho revoltado com o pai, um adolescente que questiona seu abandono de casa. Valorizo a moldura teatral, a cena, a seqüência oral, como os pajeadores do sul. No poema, a voz é para ser vista.

JC – O que lhe fez incluir novos versos para esta edição, de certa forma seria por que a história ali presente estaria incompleta?
FABRÍCIO – Veja só: não teria escrito Meu filho, minha filha (2007), que é a relação contemporânea de um pai separado com os filhos, sem ter feito antes Um terno de pássaros ao sul (2000), que é a relação antiga de um filho com o pai separado. Assim como não teria feito a nova versão de Um terno de pássaros ao sul se não houvesse vivenciado Meu filho, minha filha. Eu fui o filho no divórcio, assim como fui o pai no divórcio. Enriqueci uma experiência na outra e me perdoei pelo verso. Estou mais aberto, vulnerável, não tenho medo de ser simples na minha tristeza como na minha alegria. Sabe quando percebo que alguém amadureceu? Quando não faz drama, dói com um riso.

JC – Qual a importância do cenário do pampa para a sua literatura, é possível pensar nele como um personagem seu?
FABRÍCIO – Sim, ele é um personagem, como o pai e o filho. Dos poemas novos, acho que mostro que o pampa tem sido utilizado mais como uma projeção mítica do que um lugar real. Fui criado no meio urbano, alento uma saudade da lonjura escoltada pelos umbus e figueiras. Saudade não significa submissão do elogio. Estou e não estou no pampa, entende? Num verso, defino: careço de campo para correr meu sofrimento. É a sensação de quem vive na grande cidade e recebe uma herança intelectual. O pampa é usado como pretexto para o escritor parecer mais puro, é uma nostalgia da ingenuidade. Mas muitos que cantam o Pampa não vivem o pampa, enfurnados na retórica. Na obra, tento unir as lembranças de minha infância no interior do Rio Grande do Sul com a rotina de uma metrópole. O livro inicia na fronteira e desemboca no litoral gaúcho.

JC – Você acha que continua um autor mais aplaudido por leitores do que pelos críticos?
FABRÍCIO – Não faço distinção, os críticos também são leitores. Escrevo para os leitores. Perto do ouvido, eu sussurro. Longe, eu grito. Muito distante, falarei com os braços. Escreverei em braile com os dentes. Até os dentes querem ser legíveis.

JC – Você já contou histórias alheias, a sua própria história e incursionou também pela crônica. Qual seria o seu próximo desafio como autor?
FABRÍCIO – Confundir, deixar o leitor em dúvida se tive uma grande vida ou uma grande imaginação. Uma coisa é certa: abandonei minha biografia no ventre de minha mãe.


Um terno de pássaros ao sul, 96 páginas, Bertrand Brasil, R$ 25,00

Publicado no Jornal do Commercio, Recife (PE)
Caderno C - Quinta, 22 de maio de 2008


9:42 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Maio 21, 2008

SABONETE LÍQUIDO
Arte de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



Sabonete tem sua graça. Sabonete rosa de oficina mecânica, com suas bordas preteadas. Sabonete de praia, arenoso, que serve igualmente como lixa aos pés. Sabonete de estrada, pontiagudo, casco duro, uma faca aquática. Sabonete de casa, sempre mole ao fundo da bacia, que atende aos princípios lúdicos da massa de modelar.

Derrubar sabonete num banheiro coletivo é um pânico masculino. Fundamentado, aliás.

Não há como se livrar dele. Quando freqüentava o clube de natação, fui condenado a abandonar sabonetes no ralo. Se ele caía, não iria buscar.

O receio que escorregasse me induzia a apertar forte suas curvas. Daí que ele deslizava para nunca mais. Até porque voava longe. De propósito. Para magoar as fronteiras.

O que lavei lavei. Não me restava outra opção senão contar com o milagre terapêutico da água. Ou fazer com que o xampu terminasse o trabalho da lavagem pelo resto do corpo.

Agachar-se, de modo nenhum! Todo homem nu ao lado de outro homem nu é um traveco em potencial.

É uma posição incômoda. Pedir passagem e dobrar os joelhos com as pernas fechadas. Requer treinamento e nenhum erro logístico. Um simples tremor e estalo dos ossos provocam uma comoção espírita. Desastroso enfrentar os olhares desconfiados e debochados de meus vizinhos. A honra sempre foi espumosa.

Eu confortava os colegas:
- Pode deixar, tudo bem, já me lavei.

Dava como perdido, para alívio geral da rapaziada. Não era o único. Um acordo implícito dominava os boxs.

A faxineira do clube não esclareceria o desperdício vultoso de sabonetes no ralo. No final do dia, cinco boiavam na grade branca. Inteiros, intactos, de diversas cores. Um santuário de sabonetes. Assim como beatas acendem velas na igreja, nós, beatos, arremessávamos as oferendas a Nossa Senhora das Navegantes. Em troca, a santa deve ter ficado perfumada com a preservação de nossas castidades.

Na ducha do futebol, prossigo com a sina. Quando acompanhado, sou tomado de um despojamento nirvânico dos produtos da higiene pessoal. Sou imensamente perdulário. Não resgato as peças perfumadas do azulejo. Vou legando rastros de meu medo.

Ainda prefiro correr riscos a empregar sabonete líquido.

O sabonete líquido é muito mais covarde. Afeiçoado às infusões, às infiltrações. Os dedos entram em contato direto com a pele. Sem mediações neutras. O sabonete líquido é o próprio homem violentando a si mesmo. Nem precisa se ajoelhar.

11:23 AM :: Comentários:

PRÓXIMO DOMINGO



11:21 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 20, 2008

COMPORTAMENTO



Veja a entrevista completa dada a Tânia Carvalho no programa Comportamento, da TVCOM/RBSTV, que foi exibida no último sábado (17/5), com retransmissão pela Rádio Gaúcha. Uma hora de humor, expiações e parábolas. Gesticulo, pulo, grito: minha versão real é puro desenho animado.

4:56 PM :: Comentários:


Domingo, Maio 18, 2008

BEJAULOIS
Arte de Robert Rauschenberg

Fabrício Carpinejar



O conhecimento muda a bebida.

Descobrir o que aconteceu na safra daquele vinho, a maturação da uva, a influência do sol, se as chuvas não vieram atrapalhar o ápice do verão, como ele foi feito, o quanto é complicado encontrá-lo despertará a língua vadia do desejo.

Não será mais um vinho, não será mais uma noite, será um nome acordado. Ficará encorpado de memória.

Só se toma um vinho rápido quem não o conhece.

A menina que deixa o restaurante mexe os cabelos. Pelo modo que afofa os cabelos revelo que é cozinheira. Não necessito confirmar. Ela é cozinheira e a observo de longe pela janela do balcão. É cozinheira, coloco meus anéis em leilão. Aposto. Passou um turno inteiro com a touca apertada da cozinha. Tenta reencontrar a soltura de suas mechas, alinhar o volume, ser solteira de novo ao encaixe de estrelas. Os dedos seguirão como dentes do pente até chegar à cama.

O cara ruivo da minha esquerda inaugura conversas com a loira. Como sei? Já disse: o conhecimento muda a bebida. Ele ri antes que ela termine. Está pré-disposto a rir. Vai para trás, forçando um conforto de sofá no banco alto. Capaz de gargalhar com o silêncio dela para concordar e não impor barreiras ao resto da noite. É sintomático. Nenhum homem ri tanto se não está disposto a amar.

Outro casal tenta não chorar na frente do público. Concentra-se no show de blues como se estivesse chorando pela música. Não é a canção que emociona, é o que eles não podem explicar. Os olhos da morena afundam com o rímel descendo pelas bordas do nariz até se alojar na comissura dos lábios. O marido despista, aponta para o retrato de John Lennon. Mas John Lennon não chora, está morto.

Ao redor de nossas preocupações, desenvolve-se uma ópera do mínimo. Um espetáculo de carências piscando, alertando, pedindo o gole a seco das palavras. O garçom confessa que não dorme há uma noite ao se desculpar por derramar a bebida na mesa. Por que ele não se conteve?

Como eu, ele está pronto a contar o que o incomoda a um estranho. Ao primeiro que perguntar. Dependemos de alguém de fora para alcançar determinada rua. Não compreendemos o que nos transformamos. É muito rápido. Muito rápido.

Estamos sempre devendo nossa vida a alguém. Cabe dever mais do que podemos pagar para não cobrar. A ponto de esquecer as dívidas. A ponto de não desembaraçar o que enxergamos do que ouvimos do que falamos do que podemos amar.

Enfim, misturados.

Quando entreguei minha vida a uma mulher, não tenho mais como agradecê-la. É isso o que queria contar. A você, meu leitor, meu estranho no bar. Foram tantas as pequenas devoções, os rituais, os beijos de um único Bejaulois, o sono em conchinha, o desespero da felicidade que me envergonho agora de devolver. É impossível retribuir o sangue secreto do branco dos olhos e da página.

O conhecimento do amor muda o gosto. Na cozinha, depois que é feito um doce em casa, noto casquinhas de ovo no ralo. Uma porção delas. Ela quebrou uns oito ovos com sua ânsia de clara e esqueceu de limpar tudo. Alguns ficaram obstruindo a água. Como farelos de uma lâmpada.

A lâmpada de suas mãos que clareou minha vida.

11:34 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 16, 2008

UMA LINDA MULHER



Garota de programa está apaixonada por um cliente. Viajaram romanticamente, almoçaram em família, mas ambos não legendaram a convivência. Ela questiona: "O que falta para que a gente fique junto? Ou o que está acontecendo? Estamos nos usando?".

Confira a confissão e o meu palpite no Bloglog.

6:09 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 15, 2008

CONFISSÃO
Arte de Francis Bacon

Fabrício Carpinejar



Vou falar como filho, não como pai. Porque quando um adulto sofre gozação, ele volta a ser criança.

A face barbeada ou a pele brônzea recebe as camadas de blush da vergonha.

As orelhas fervem.

Ele pode ser um empresário de sucesso, ou um administrador competente, mas se alguém percebe um defeito que ele busca esconder desde pequeno, não consegue responder. Gagueja, tumultuado por dentro.

Por mais que tenhamos crescido, não crescemos o suficiente. Nossas virtudes amadurecem; nossos medos não mudam de idade.

Viver é um constrangimento: é vulnerabilidade. Amar é esperar a opinião distinta da nossa e suportá-la.



A primeira imagem que deve desmoronar é que a criança não pode ser cruel. Ela é, pois fala diretamente o que está pensando. E não há nada mais cruel do que a verdade. Não estamos preparados a aguardá-la.

Na fila do mercado, é possível que seu filho observe um portador de necessidades especiais e grite que ele perdeu as pernas. Ou confesse que aquela mulher é muita gorda e sequer está grávida.

Na escola, não foram poucos os colegas que me apontavam no rosto e diziam:

- Como você é tão feio?

Não faziam por mal, ou realmente faziam. Para serem engraçados. Para arrebatar a empatia da turma com risadas.

Eu me calava, com a vergonha de que meus pais ou irmão ouvissem aquilo. Não brigava. Eu secretamente tinha certeza de que era feio. Muito feio. Nunca respondi o que temia.

Ainda hoje quando me comparam a um extraterrestre, toda a minha oratória vai para o espaço. Fraquejo, peço ajuda, peço uma mão para atravessar a rua do desaforo. É assim mesmo, não ficarei bonito, decidi me estranhar tanto que ninguém mais seja capaz de identificar o que é mais insólito em mim. É tanta coisa irreverente que o observador demorará boas horas para me classificar.

Raspei minha cabeça, pinto as unhas da mão esquerda, uso roupas que são próprias para baladas, com lantejoulas e brilhantes, em plena luz do dia, saio com óculos enormes de gafanhoto e morcego. Não temo o escândalo de minha alegria.

Ao invés de esperar o pior, me critico. Não tento ser normal, exagerei as minhas diferenças.

Ainda não consigo me defender, em compensação minhas dores me ensinaram a defender os outros. A não permitir que a omissão e a indiferença prosperem em pensamento. Revezar sensibilidade e humor, nunca espumar de raiva e revidar a agressão. As palavras servem para desarmar. Briga é o fracasso das palavras – não interessa ao escritor.

Eu compreendo para me situar. Explico a ferida para cicatrizá-la. Antecipo-me às fraquezas das pessoas e elogio no momento certo e não em qualquer momento.

Quando preciso, quando muito carente, daí peço emprestado beleza aos meus filhos.

Eu sou imensamente belo ao lado deles. É o único momento em que me esqueço.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, Número 174, Maio de 2008


12:21 AM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 13, 2008

NA ESTRADA
Foto de Renata Stoduto



23ª Feira do Livro de Bento Gonçalves (RS)
20h, Quinta (15/5) - Palestra: "Machado de Assis, com humor e amor", no lançamento de projeto Comemorativo ao centenário.
9h, Sexta (16/5) - Palestra para Alunos do Ensino Médio, a partir dos livros "Meu Filho, Minha Filha" e "O Amor Esquece de Começar".

7ª Feira do Livro de Santa Clara do Sul
Patrono da edição 2008 "Livros, a cultura em nossas mãos"
20h, Segunda (19/5) - Sarau com Marlon de Almeida e Moisés Dornelles.
9h30, Terça (20/5) - Palestras aos alunos do Ensino Médio
Local: Centro de Reservistas

Bienal do Livro de Minas Gerais/Belo Horizonte
Arena Jovem/ Debate Namoro pela Internet: mais parceiros, menos riscos?
Com Inês Stanisieri e Edmundo Novaes.
13h, Sábado (24/5)
Sessão de autógrafos de "Um terno de pássaros ao sul"
Local: Expominas

Conta de novo/SESC São José do Rio Preto (SP)
Palestra A importância da leitura
20h, Quinta (29/5)
Local: Avenida Francisco das Chagas Oliveira, 1333
Bairro Chácara Municipal
São José do Rio Preto - SP
Entrada franca

Feira do Livro de Maratá (RS)
Palestra O homem amoroso
20h, Sexta (30/5)

8:59 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 12, 2008

PROFANAÇÃO
Detalhe de Vermeer

Fabrício Carpinejar



Eu fui criado numa cozinha, com a coriza das panelas e o chamego da fumaça nos cabelos.

Entro em restaurante para fazer amigos. Já querendo conhecer o fogão. Com a esperança de chamar o garçom pelo nome, desejando que ele recite meu prato de cor antes mesmo que aponte o dedo e abra o cardápio. Quando gosto, repetirei a escolha. Demoro a enjoar. O azar é que posso permanecer num pedido por anos, sem cogitar outras vizinhanças.

Beijarei a cozinheira para agradecer um benfazejo, beijarei o chef pela alquimia de temperos. Serei dado, espantosamente sorridente.

Não vou para comer, vou para conviver. Restaurante é onde abro as guardas e falo bobagens mais do que costumo escrever aqui. Não há um lugar que me sinta mais à vontade do que no balcão de um bar aguardando uma mesa vaga. Um homem com fome é sincero como nunca antes.

Se me apaixono por um restaurante, prometo boca-a-boca, megafone, gritaria. Improvisarei na tolha um QG de minhas batalhas emocionais, com manchas de vinho e farelos de rolha. Serei fiel até que a azia me separe.

Minha facilidade em ampliar a família provoca embaraços. Desilusões. Não poderia ser permitida a profanação de lugares afetivos.

Não foi uma, mas várias vezes em que levei colegas para um restaurante de minha preferência. Para apresentar uma anunciação de Nossa Senhora com hora marcada. Convertê-los a uma seita. Presumia que lamberiam os beiços e me agradeceriam com canto gregoriano. Suspirando e gemendo em louvor.

É deprimente quando a alegria não se renova. Com a visita, a comida nem chega perto daquele que provamos um dia. No final, parece que sou exagerado, louco de pedra, extravagante.

Convenci Marcelino Freire a comer um tortéi com molho de panela em Porto Alegre. Não contive a ansiedade. Nem me servi para assisti-lo. Espalhou o guisadinho como quem pretende alargar a dimensão da porcelana. Ele engoliu uma massa recheada de moranga, duas e nenhum sinal de contentamento.

- Bom, Marcelino?
- É, bom...

Não, não ambicionava que fosse bom, e sim divino.

Impraticável viver um milagre sozinho, milagre é para ser repartido, exige testemunhas para virar fofoca. Um milagre sozinho é dor guardada. Eu me tornei o dono do restaurante tentando agradar um crítico do guia Quatro Rodas. Subserviente, babaca, atrapalhado.

Marcelino ocupou-se de conversa, esqueceu o local, não repetiu a porção. Estava realmente apática. Longe daquela que me hipnotizou.

Tenho certeza que dali por diante prosseguiu a amizade comigo por absoluta generosidade.

11:42 AM :: Comentários:

VENCEDORES
Arte de Joseph Beuys

Eu fiquei maravilhado, doído, perdi as pernas dos cílios com os 48 comentários sobre a lembrança paterna mais comovente. Vocês me deram uma lição: a literatura mais é quando ela não se envaidece em obra. Você me continuam e me completam, vocês me tornam bem superior ao que realmente sou. Perdoem-me a complexidade de escolher dois entre tantos depoimentos contundentes, verdadeiros, cristalinos. Todos mereceriam um livro autografado. Aliás, mereceriam minha vida assinada.

Abaixo, os premiados com "Um terno de pássaros ao sul":

UM PEDAÇO DE FOTO

Rafael Elfe



- Uma coca-cola na velha padaria da rua inclinada;
- Colocar a força do corpo inteiro na perna direita para chutar a bola até o fundo do quintal com parede de barro cavado;
- O boneco desaparecido que ele levara pra consertar e nunca mais, com a leve desculpa de ter dado para um menino mais pobre que eu;
- O conga igual ao dele, que me prometera, e eu querendo um all star, mesmo assim, nem conga nem Kichute;
- A concha com as mãos para beber água sem copo, mesmo sabendo que a quantidade bebida sempre foi inferior a que derramava;
- Minha mãe diz que eu o esperava nas festas de fim de ano, só lembro da ausência;
- Da lembrança de achar que ele era parecido com o Fábio Júnior, e me engasgar com um pedaço de sua foto que ficava apregoada no espelho antigo do quarto;
- A copa das árvores da casa de minha avó, sua mãe, que era pra onde eu mirava a vista, querendo estar bem longe, nas visitas esporádicas e desesperadas que eu o fazia forçosamente;
- Meu último nome.

OUTRA VIDA

Mara
meggaladriel@gmail.com



Vinte anos depois, paro em frente a casa. A porta aberta e a música gaudéria me dão a certeza, o endereço está certo.

Bato palmas à maneira da gente do interior se anunciar, e acorre um menino louro.

- É aqui que mora o Antônio?

Ele não responde para mim, somente grita:

- Paieeeeê!

Aparece um homem sorridente que me diz:

- Pois não, posso lhe ajudar?

Aperto a mão que ele estende e pergunto:

- Antonio?

- Sim, responde o homem.
- Muito prazer, sou a Mara, tua filha.

9:14 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 11, 2008

DIA DAS MÃES



O Jornal do Almoço da RBSTV realizou uma matéria especial para o Dia das Mães. Foi veiculada no sábado (10/5). Apareço conversando com Maria Carpi. Com direito a cafuné materno. Um luxo.

9:54 PM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 09, 2008

O GRANDE TESTE
Arte de Richard Hamilton

Fabrício Carpinejar



Inverno, e as mulheres pisam diferentes.

São as botas. Mais determinadas. Mais intrépidas. Marrons, pretas, beges, de couro, com detalhes em lã.

Ainda mais se a bota está acompanhada de saia e meias pretas. Zombando do frio. Desafiando o vento das esquinas. Soltando o rejunte das calçadas. Assim como existe um controle de natalidade, deveria ser criado um controle de excitação. Dissuadir o excessivo emprego de botas no mesmo período. É um congestionamento sensual. Um ataque frontal ao pudor.

Giro o corpo e enxergo uma procissão de mulheres preparadas. Elas dobram as pernas como se estivessem armadas. A bota tem ainda mais periculosidade do que o salto, isso quando os dois não estão juntos. Não sei o que uma mulher de salto é capaz de fazer, tenho medo do que fará uma mulher de bota.

Tirar a bota é uma proeza. A mulher percebe o trabalho. Exige uma técnica de deslize que nem sempre funciona. Uma sucção exata. Uma pressão calculada.

Estresse e desconforto para realizar sozinha, ainda mais cansada depois do trabalho. Não tem graça. Ela repassa o estorvo ao seu homem. Mas o homem precisa converter o estorvo em delicadeza. Transformar o problema em sedução. Transmitir a imagem de que é natural. Que nasceu para trabalhar numa loja de sapatos. Tem que convencer que é fácilfácil e soltar ao final um riso blasfemo com a pergunta: "só isso?".

Quando uma mulher nos pede para tirar seu par, é o grande teste. O grande TESTE de nossa virilidade. Não será abrir uma lata de pepino. Não será trocar lâmpada. Não será arrumar chuveiro. Não será matar barata que decidirá nossa vocação bíblica. Homens já foram descartados da relação por não conseguirem puxar a bota com elegância.

Homens que não identificaram o heroísmo do ato e se enganaram com a medição dos pulsos e foram bárbaros e boçais e levarem as meias de arrasto. Homens que bateram com as costas no armário, tamanha a concentração desmedida dos dedos. Homens que provocaram torções e arranhões imperdoáveis pela rudeza do trato.

Ela está deitada, vulnerável. Posicionada para um longo piquenique sexual. Repassou uma confiança absurda para seus ombros. Observa assustada. É o equivalente a perder a virgindade.

Cuidado para não ser cômico muito menos acintoso. Não pode provocar barulho. É o primeiro sinal de que está conseguindo. Segurar as solas com a mão completa. Mão cheia. Um arranque e suavidade. Não é crescente o processo de marchas: primeira, segunda, terceira, quarta e quinta. É alternadamente confuso, entre ganhar velocidade e recuar: quinta marcha, primeira, segunda, terceira, quarta. Aliás, o primeiro movimento é de ré. Um empurrão para dentro, como se estivesse colocando de novo o calçado. Um sábio despiste que facilitará a saída. Enganará a bota com esse gesto. A bota é burra, não compreenderá o falso ajuste, concluirá que desistiu. Depende dele para seguir. Sem a ré, encontrará resistência, retranca, medo. Porque a bota é ciumenta, detesta concorrência, não pretende ser dividida. Seu duelo é com a bota, não com a mulher.

Aos poucos, as botas se soltarão, cobrindo as mangas de sua camisa.

E conhecerá o que pouquíssimos varões desfrutaram. O agradecimento das pernas. O abraço definitivo das pernas dela. O abraço que os braços nunca experimentaram.

10:57 AM :: Comentários:

TRÊS BLOGS FUNDAMENTAIS DE AMIGOS


A linda Márcia Tiburi está com blog novo. PinkPunk para vocês!


O endiabrado Paulo Scott mudou tanto de endereço na web, que não custa reforçar a localização.


O infatigável Alfredo Aquino demorou, mas veio com suas pinceladas rápidas e sua cultura ampliar o bom gosto na rede.

10:50 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 08, 2008

GRAVANDO NA ITAPEMA FM



Um flagrante de minha gravação na rádio Itapema, feita por Fábio Codevilla. Colaboro com comentários para o programa Aboadica.

2:27 PM :: Comentários:


Terça-feira, Maio 06, 2008

DUAS VEZES ANA:
A MULHER MAIS IMPORTANTE DE MINHA VIDA


Quando amo, escrevo pelo medo de esquecer o desejo. Quando sofro, escrevo para desejar o esquecimento.

Fabrício Carpinejar



Ana, seu nome curto que me faz repetir duas vezes. Quando estou no escritório e grito: - AnaAna! E nunca tenho o que falar, eu grito para não perdê-la de vista. Várias vezes ao dia. Grito para saber onde está. Para localizá-la pela voz. Virei piada de nosso filho, que me imita ao sair para a escola.

Se me dói a separação momentânea pela própria casa, pode prever o quanto me dói nossa separação pelas ruas. Nossa separação pelas cidades. Nossa separação pelas palavras.

Caminho pelo terraço, as roupas balançam fanáticas no varal, meu rosto é uma laranja-de-umbigo. O sol apareceu depois das goteiras no quarto. Visto o abrigo azul, aquele que usou ontem– é curioso que repartimos os velhos panos do conforto.

Mas não é só isso: eu não sei o que é meu. Não sei realmente o que é mais meu. Éramos um colchão e uma prateleira de tijolos no início. Mais espaço livre do que corpo.

Na adolescência, eu tinha o meu quarto. Definido, imponderável quarto, ao fundo do corredor. Os pôsteres de rock, coleção de Placar e Playboy, roupas de surfista. Obrigava a qualquer um bater para entrar. Conhecia os objetos de cor e o pouso dos lugares. Defendia meu domínio. Hoje não posso nem me defender: porque eu sou tanto seu quanto já fui meu. As chaves têm o peso de minhas unhas. Sou tanto seu que não mais me pertenço. Encharcado de sua memória. Seus pais são meus pais, não canso de repetir sua infância para aumentar a minha.

Com a tempestade desde sexta, o Rio dos Sinos subiu para cinco metros. Eu também passei de minha altura e corro pelas calçadas procurando uma porta aberta.

Ao escutar algo engraçado, penso em você. Pela recompensa de ouvir sua risada. Será assim sempre. No rádio, o locutor errou o nome da peça e disse: "A sutil arte de escoar pelo rabo". Era “ralo”, e você riu quando descrevi a cena e pensou que inventei a história para lhe agradar. Faltou mesmo inventar mais histórias. Economizei sua alegria. Fui avarento.

Eu a observo com reverência. Admiração é para quem pode assinar seu nome. Tudo o que escrevi sobre você foi pouco, são papéis que deixei em minhas roupas e se acumularam nos bolsos de trás das calças depois da lavagem. Papéis picotados, farelos de uma distração incalculável. Sou esse papel que se esmigalha ao toque. Porque ele só existirá de verdade em sua pele.

Os bolsos de trás! Repara nos bolsos frouxos de suas calças jeans. Envelopes presos por um fio. Todos puxados pela minha mania de aquecer os dedos em sua cintura. Nunca dependi de luvas. Estou também descosturado.

Isso não é um texto, Ana, como os outros. É ainda meu grito. Parado no escritório. Ao lado do computador. Na primeira gaveta do lado direito.

AnaAna!

É raro encontrar um amor, mais raro merecê-lo.

3:27 PM :: Comentários:

DEPOIS DE DOMINGO



O que me arrebata é que o filhote Vicente estava no Beira-Rio e vai me ajudar a lembrar. Minha mão ficou grudada na taça.



3:19 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Maio 05, 2008

VALE A PENA?



"Amor não é unicamente química, é física. Dependemos de espaço."
Trecho de minha resposta para leitora que pergunta se deve embarcar numa aventura diante do casamento de quatro anos.

Confira a história na penumbra do consultório poético.

11:20 AM :: Comentários:

REVISTA MUITO/JORNAL A TARDE
Salvador (BA) - Domingo, 4/5/2008, P-42


11:08 AM :: Comentários:


Domingo, Maio 04, 2008

A DOLOROSA COMPAIXÃO DE UM FILHO POR SEU PAI
Mais maduro, Fabrício Carpinejar revisa o poema Um Terno de Pássaros ao Sul

Francisco Quinteiro Pires

Foto de Renata Stoduto

O poeta - Carpinejar esperou oito anos para encarar com mais franqueza o acerto de contas doloroso, mas bem-sucedido, com Carlos Nejar


Quando escreveu a primeira versão de Um Terno de Pássaros ao Sul, publicada em 2000, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar sentiu medo. Ele fugiu de certas reflexões sobre a sua relação com o pai, escondendo-se atrás de metáforas um tanto afetadas. 'O poeta não suporta aquilo que está descobrindo com o poema: ele olha para o lado, tenta disfarçar', diz. As imagens construídas no poema representavam fuga e desvio. 'Só vejo o que escondo.' Carpinejar aprendeu: não dá para fugir da memória, até daquela que está construída em bases imaginárias e não somente no vivido. A poesia tem de se tornar a 'carne viva, sem pele, sem proteção'. É a revelação.

Carpinejar precisou de oito anos para encarar o acerto de contas doloroso, mas bem-sucedido com o seu pai Carlos Nejar, que se divorciou de Maria Carpi, quando Carpinejar tinha 7 anos. 'Meu retorno ao livro foi isso: vou ficar até o fim, chorando ou não.' Em 2008, surge outro Um Terno de Pássaros ao Sul (Bertrand Brasil, 96 págs., R$ 25) revisado, com a inclusão de passagens novas, em que o filho é capaz de encarar melhor a si mesmo, processo inevitável no amadurecimento, e de sentir a compaixão por um pai ausente, a encarnação do abandono. 'Nasci vingativo,/ negando o que deveria perdoar,/ omitindo/ o que deveria mencionar/ exagerando para soar falso/ o que de verdade sinto.'

Na nova versão, Carpinejar faz uma descrição da infância do pai e não fica preso somente à imagem do pampa, essa mitologia afetiva localizada no Sul. Sua obsessão afetiva é repetir o verso apelativo 'Volta ao pampa, pai'. Para entender-se, Carpinejar precisou entender a experiência do pai, esse 'anjo atrapalhado', desde a infância - se ele podia brincar ou não, por exemplo. 'Permaneceste apartado das pipas,/ das bolitas, das corridas de rolimã.// Menino sensível,/ fruto sem caroço./ Eternamente em casa.// Romã sufocada pela casca./ Não brincaste contigo,/ não brincarias comigo.' Carpinejar afirma ser necessário traçar a sua árvore genealógica para entender e, só depois, enfrentar os condicionamentos herdados do pai. 'Da herança, recebi/ teu pincel de barba./ Saio à rua para arder./ Quando te cortas,/ és meu pai./ Quando me corto,/ sou teu sangue.'

O diálogo se fez indispensável, assim como a visita franca - e corajosa - ao passado. 'O que é mais comovente é que meu pai tenha sido uma criança tão desajeitada quanto eu fui', ele diz. Essa constatação é fundamental na travessia do poema único, feito em tercetos sem métrica fixa, que compõe Um Terno de Pássaros ao Sul.

A agressividade que atravessa os versos dá lugar à compreensão. Carpinejar cita uma imagem contida na obra Assim na Terra - uma de suas influências, ao lado de Pedro Páramo (Juan Rulfo) e Carta Ao Pai (Kafka) -, de Luiz Sérgio Metz, para explicar como ele se tornou compreensivo. Indivíduos vendados caminham pelos descampados do pampa, e irão assim até onde agüentarem. Sob o peso de suas memórias magoadas, Carpinejar percebeu que precisava agir como um cego: tatear, apalpar, desenvolver outros sentidos. 'É tentar ensinar o abraço a duas pessoas que se tornaram muito carentes, e nesse caso aproximar é uma forma de ferir.' Ele explica que os homens estão treinados para se proteger e evitar as vulnerabilidades, que podem ser confundidas com a manifestação do afeto. 'É aquele desconforto mútuo de não saber receber.'

O problema não está tão-somente no ato da doação, é possível ler nesse longo poema do escritor nascido em Caxias do Sul, em 1972. Está em saber receber aquele que um dia se ausentou e que, por isso mesmo, se tornou mais desejado. O retorno do pai pode ser tão devastador quanto a partida e a prolongada ausência. 'Sim, o dia do retorno/ toma o que é livre/ e não restará vôo de nossa carne,// como se o corpo/ houvesse sido imaginado.'

Carpinejar explica que, apesar de haver um acerto de contas entre ele e seu pai, não quer ser fixado por ninguém na leitura dos versos, quer é ser esquecido. 'O poeta está atuando para o leitor, que deve povoar o poema.' Em Um Terno de Pássaros ao Sul, ele mostra a importância de conquistar a serenidade em relação ao passado: examinar o que há de exagerado e imaginado nas memórias, que são o fardo do indivíduo pela vida afora. 'Eu me despedi do passado, quando falo dele eu acabo me libertando.' Porque os segredos são maiores quando guardados, quando são ditos, eles se esvaziam. 'Há uma serenidade em aceitar o pai como ele é, e não como eu queria que ele fosse', diz.

Ao perceber as fraquezas e dores do pai real, com o qual passou a conviver mais a partir da adolescência, Carpinejar se transformou num adulto, ou por outra e melhor, ele se tornou o pai de si mesmo. Não teve medo de ser adulto, mal de que padecem as famílias de hoje, que se infantilizaram e se contagiaram por uma lógica empresarial, segundo o poeta gaúcho. 'A família hoje está contaminada com a idéia de empresa, como se ela tivesse a obrigação de dar certo ou ter um objetivo, ela é apenas um espaço de abastecimento de afetos', diz.

Para ele, os pais atuais são crianças reclamonas, que não sabem fazer boa propaganda da vida adulta, sinônimo de dor de cabeça, de falta de grana e de tempo. Existe um mal-estar; os pais estão preocupados em ser perfeitos, o que aumenta a carga de responsabilidades. 'A gente vê esse excesso de obrigações e quer se infantilizar para não pensar nisso.' O maior medo não é o de envelhecer, mas o de se tornar um adulto. 'Na hora em que tivermos o medo de ser criança, aí não sei o que vai ser' completa.

O Carpinejar do Um Terno de Pássaros ao Sul de 2008 é mais adulto do que o de 2000, ele teve de encarar essa exigência. Nesse ponto, ele atingiu a maturidade, por meio da qual percebeu ser necessária a mudança das palavras e das imagens no poema, cujo título encerra a utopia da união inocente e afetiva do trio: o filho e os seus pais.

Antes de chegar a tal percepção, Carpinejar precisou se calar e aceitar a imagem do marido que sua mãe, Maria, lhe passava. A distância ia se transformado em distanciamento, que é a ausência engolida a contragosto, aquela que ensina o homem a ser frio. 'E, quando se tem algo importante e dolorido para perguntar e não se pergunta, forçosamente tu és ensinado a acumular o silêncio', diz.

Esse silêncio acumulado gera um excesso, que não é outra coisa senão o esquecimento do que se queria perguntar e do jeito de perguntar. 'Daí tudo começa a ficar solene, a dor que é terrível se soleniza', emenda. O que faz lembrar o fim da crônica Para Maria da Graça, de Paulo Mendes Campos: 'a própria dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor'. Mas não é perigoso abandonar o rancor para ultrapassar a fronteira depois da qual há o encontro com a compreensão baseada no amor.



Publicado em O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, p-13, 04/05/2008

11:27 AM :: Comentários:

UM TERNO DE PÁSSAROS AO SUL NAS LIVRARIAS

É complicado mexer em livro publicado, ainda mais premiado e com ótimas críticas.
Foi o que fiz com minha segunda obra, que abriu minha trajetória. Cortei versos evasivos, ampliei passagens, eliminei esconderijos, deixei o coração boiar na tinta. Porque o escuro não dói, dói a luz quando ficamos muito tempo no escuro.

Um terno de pássaros ao sul (95 páginas, R$ 25,00) está circulando com uma edição totalmente revista, com poemas inéditos. Pela Bertrand Brasil.

Mostro a bela capa de Silvana Mattievich. Nela, a arqueologia de minha infância e paternidade:



- meu ditado na escola, onde errava 85% das palavras
- o violino de meu avô
- o prontuário médico da escola, com tudo o que você pode imaginar de consulta
- assinatura materna no boletim
- minha primeira foto 3X4
- minha mão e do Vicente no caderno de anotações de meu pai
- meus pés e os de Mariana na rede
- imagens do pampa e do mar
- minha caixa de gravatas
- coleção de Futebol Cards e ingressos de futebol
- catavento azul e um verão inesquecível.

(Quem deixar a mais comovente lembrança sobre seu pai nos comentários, recebe um exemplar autografado do livro em sua casa)

11:21 AM :: Comentários:


Sábado, Maio 03, 2008

O QUE MEU IRMÃO RODRIGO FALAVA ONTEM DE NOITE:
(o mais sábio dos amigos nos momentos complicados)

Fabrício Carpinejar



- Meu irmão, você é orgulhoso, é da família, eu sou orgulhoso, nós não poderíamos ser diferentes. Era o orgulho ou a dor. Escolhemos o orgulho para superar a dor. O orgulho não cura a dor, mas faz esquecê-la. O orgulho entretém o ferimento. Ele nos isola. Não seríamos nada, nem chegaríamos onde estamos se não fosse o orgulho. O orgulho uniu a família após a saída do pai, o orgulho nos manteve coesos, convictos, um amparando o outro. Não seria promotor sem orgulho, Miguel não seria juiz sem orgulho, Carla não seria promotora sem orgulho, você não seria escritor sem orgulho. Estudamos por orgulho. O orgulho é nosso cobertor de trauma. Nosso esconderijo de árvore. Nossa crueldade para proteger a verdade. Não tivemos tempo para recalques, terapeutas, psicólogos. Lavava-se a ferida e seguia adiante. A água foi nosso curativo. Orgulho de vingar as raízes, de contrariar a expectativa de vida. A alta taxa de mortalidade de nossas palavras com o divórcio. Orgulho, mano. Orgulho de não permitir que pisem na gente, de não pisar, de levantar os livros com os pés. Somos sobreviventes porque nos agarramos ao orgulho. Não pedimos favor à decadência, à falência. Não aceitamos a falta de chance. Não justificamos derrotas. Cada um tinha uma tarefa, um jeito de sufocar a asma, a tosse, a fraqueza. Obrigados a deixar o corpo quieto, de algum jeito, para não nos atrapalhar, para não nos denunciar. O mundo não devia nos ouvir, nos localizar. Tanto trabalhamos pelo orgulho que estamos longe. Não havia chance de confirmar premonições, consultar horóscopo, avisar dos planos. Não desistimos por orgulho. Orgulho, mano, de não olhar para trás - cairíamos sem volta na própria voz. Orgulho sem portas, orgulho com pontas, orgulho com as facas que o orgulho afia nos dentes. Vendamos a vista com os cabelos. Cavamos o orgulho das paredes. Somos uma família de pedras. Pedras orgulhosas, pontiagudas, pedras batendo em pedras. Levantamos a mãe com o nosso orgulho. Juntamos as mesadas das mãos para arrematar um começo. Todo começo era um final, lembra? Todo almoço era uma despedida, lembra? Orgulho, mano, o orgulho nos ajudou. O orgulho de mandar notícias unicamente quando as coisas estavam bem. Orgulho de sonegar as tristezas porque havia uma tristeza maior para combater. O orgulho nos resgatou, esse sentimento mesquinho que a maioria pede para colocar fora. Quando tudo está fora, somente o orgulho salva. Orgulho, mano, o orgulho foi bom até hoje, não precisamos mais dele. Teremos que pedir ajuda.

8:19 PM :: Comentários:

MISTERIOSO JOGO NARRATIVO DE CARTAS
Martha Medeiros transforma em contos correspondências de situações-limite.

Fabrício Carpinejar
Poeta e jornalista, autor de “Meu Filho, Minha Filha” (Bertrand Brasil, 2007, 3ª edição)



Apesar de uma única voz, a carta não deixa de ser um diálogo. Um diálogo recalcado. Um diálogo reprimido. Um diálogo potencializado. O remetente tenta pensar e sentir pelo destinatário, acolhendo dúvidas, hesitações e incertezas do outro de um modo premeditado. A carta é - na verdade - o fim do monólogo, porque quem escreve está cansado de falar sozinho.

Martha Medeiros incursiona novamente na ficção, na seqüência do romance “Divã” (2002) e da prosa com jeito de peça “Selma e Sinatra” (2005).

Reconhecida como poeta e cronista, ela se sente mais confortável na primeira pessoa. Ao invés de visitar os personagens, os personagens a visitam. Ela parte do depoimento para conquistar adesão, cumplicidade e verossimilhança. Sua prosa funciona à base da afetividade, do desabafo como condutor das contradições da vida moderna.

Seu livro Tudo que eu queria te dizer (Objetiva, 175 páginas) propõe uma série de correspondências como contos, enfeixados pelo sentimento de fim de jogo. São correspondências de situações-limite. Mulher deixando o marido e os filhos para morar com o amante, filha desabafando aos pais que virou atriz e não seguiu a carreira que eles gostariam, mãe relatando para avó a ausência de convidados na festa de aniversário de sua filha, esposa escrevendo ao marido que finalmente está apaixonada por ele, amante expondo a intimidade da infidelidade para esposa. Não falta, portanto, ofício de um demissionário.

As correspondências violadas estão cobertas de um sentimento de vingança ou de perdão, num jogo de claro-escuro, de sair bem de uma história e ainda acertar as contas. Impregnadas de uma urgência, de um não mais posso adiar para contar.

Mesmo com o apelo decisivo, resta uma imensa vulnerabilidade dos missivistas. Ora fracos, ora piedosos, ora irascíveis, ora autoritários, mas sempre dependentes. Eles estão resolvendo, porém resolver não basta, precisam da legitimidade do interlocutor e comunicar do melhor jeito possível. Precisam que o interlocutor os compreenda. Ainda que possuídos pelo orgulho da dor, não abafam a humildade de se partilhar pela última vez. Esse paradoxo é que move os subterrâneos dos textos.

A carta depende da leitura para se fazer viva. Por mais que as máscaras sociais vão sendo derrubadas, permanece em aberto o direito de resposta. Da construção de uma defesa e da imposição de um ataque, não há ponto final, existe sim o mal-estar da incompletude. Diferentes naipes de um carteado desesperado, em que o blefe é quase impossível e não encontraremos vencedores. Aprende-se que exorcizar os demônios não significa encontrar novamente a normalidade.

A tese é de que cada carta seja um novo enredo e abertura de uma diferente perspectiva, numa estrutura complexa de insinuações e provocações. A narrativa curta encaixa-se perfeitamente quando supera a crítica aos costumes e fragmenta-se no nervosismo do suspense. Um exemplo é o testamento ao delegado Adelino redigido pelo padre Josias, entregue depois de sua morte e que rompe o sagrado sigilo do confessionário. Nele, a esposa do policial é pivô de um assassinato ocorrido na cidade e nunca descoberto.

Martha Medeiros acredita se valer do olhar de ambos os sexos para contextualizar o comportamento familiar e a dificuldade de encontrar um ponto de equilíbrio e satisfação individual. Isso em meio a um clima de cobrança e paranóia de ser feliz no amor e no trabalho. Mas das trinta e quatro cartas, vinte e cinco são assinadas por mulheres. A maioria acaba pesando no timbre e na construção do mundo, com uma ironia inteligente, uma franqueza maternal e uma esperança conciliatória. Não somente encontrar um amor, mas ser justo com o destino dele (quer algo mais feminino?). A forma de falar é sutil e muito parecida, mesmo quando o remetente é um homem. A superfície sonora - elevação coloquial e a inserção de gírias - muda, não o espírito de exploração e sua profundidade sagaz, com observações apuradas e letais, tipo "Esses homens que nos largam, como ficam importantes depois que somem".

Uma ilustração da permanência do ponto de vista feminino é a epístola de Danilo, ao confortar seu amigo do suicídio da mulher. "Talvez um minuto antes, um minutinho antes, ela estivesse pensando em qualquer coisa amena, vulgar: que estava na hora de se depilar, por exemplo."

Nesse ponto, talvez Martha não tenha cumprido sua ambição. É sempre igual tom reagindo a experiências singulares.

Ou o livro cumpriu por ela. Pois a última carta, uma das duas sem destinatário, é de uma mulher que segue a receita do terapeuta e “escreve tudo o que passa em sua cabeça”. Esse “tudo”, com a localização estratégica da correspondência encerrando a obra, pode ser o novelo inteiro das cartas. Essa afirmação fecha com o título: “Tudo que eu queria te dizer”. Sem assinar, a personagem desabafa: “a gente precisa estar sempre pensando nelas antes de pensar em nós, crianças, filhos, sobrinhos, bebês, coleguinhas, quanta exigência, quanta demanda, e o medo de que eles morram?” Mais adiante diz: “Ninguém tem cura, e você também não, ninguém, somos todos um bando de artistas se fingindo de civilizados, vai negar?”.

Significativo é que se trata da missiva mais plural, porta-voz das crises levantadas ao longo do volume. Não parece uma confissão de autoria?

“Talvez eu esteja querendo botar todo mundo no mesmo saco pra não me sentir tão filho-da-puta”.

Se a última carta é de quem escreveu as anteriores, assumindo inusitadas percepções e cruzamentos, personas e traumas, o escopo feminino está mais do que justificado, além de ser surpreendente, elevando a ficção para um patamar imbatível de compacta unidade.

“Tudo que eu queria te dizer” corresponderia assim a um desdobramento epistolar de “Divã”. No romance, a personagem fala com seu terapeuta. Aqui ela escreve.

Publicado no jornal O Globo, caderno Prosa e Verso, página 4, 03 de maio de 2008

11:23 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Maio 02, 2008

MÁXIMAS
Detalhe da caricatura de Eliéber Fumero, que captou a inclinação triste de meus olhos



"Colocar a pedra no chão é muito mais difícil do que arremessá-la."

"Não basta sentir, a mulher tem que explicar o que está sentindo, o homem sente e não precisa explicar."

"O que para os alunos são apenas mais quatro horas, para mim é tudo, aquilo para mim é minha vida. Isso interfere, a diversão também, você tem que se divertir na sala de aula."

Alguns dos meus pensamentos em longa entrevista feita por Sílvio Espírito Santo, Thiago Cyles e Glenda Yasmin, alunos de minha oficina em Campo Grande, no início do ano. Confira o blog.

10:41 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Maio 01, 2008

BUQUÊ DA NOIVA NA PIAUÍ

A Piauí fez uma crônica saborosa sobre o casamento que conduzi em São Paulo. Está disponível no site da revista.

O AMOR ANOITECE
No matrimônio moderno, a poesia tem força de lei.

JOÃO M. SALLES



No dia 16 de janeiro, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar recebeu um email. Não reconheceu o remetente. Olhou o campo do assunto e leu: “Convite poético”. Havia a dúvida: seria um convite em forma de poesia? Um convite para uma tertúlia poética? Nem uma coisa nem outra. “Oi, Fabrício, tudo bem?”, começava o texto. “Não nos conhecemos pessoalmente. Meu nome é Eliza, sou jornalista. Escrevo por um motivo especial. Pode parecer estranho, mas vale a pena tentar...” O poeta leu até o fim, e depois releu. Pensou consigo mesmo, pasmo. “Fui convidado para um casamento. Para celebrar um casamento...”

Era isso. Eliza Muto e Stefan Gan tinham decidido oficializar uma união que já existia de fato havia seis anos. Como não eram religiosos, dispensavam padres, pastores, rabinos e até um juiz de paz em troca de um poeta. “Afinal, quem mais capacitado para celebrar o amor do que o meu poeta favorito?”, perguntava a noiva, não sem sinceridade, mas com uma ponta de astúcia. Poderia haver argumento mais definitivo? O poeta acedeu. A delicadeza do pedido era sublime.

Carpinejar tomou um avião e no dia 29 de março, um sábado, desceu em São Paulo. O casamento estava marcado para as 6 da tarde, numa chácara da Vila Mariana. Às 5, já esperava na recepção pelo noivo, que viria buscá-lo. Nunca o vira —“Sinceramente, não conhecia ninguém: padrinhos, pais, parentes, amigos... iria para uma festa sem nenhum vínculo, a não ser a poesia” —, mas não tinha dúvida de que seria reconhecido.

Poetas gozam do direito a certas liberdades, e, no que diz respeito à etiqueta do vestuário, Carpinejar é um homem livre. Para a cerimônia, escolheu uma “calça esverdeada fashion”, uma camisa de botões de madrepérola (que, fosse outra a ocasião, formariam um belo time de botão) e um lenço carijó gaudério, preso por um anel no qual se entrelaçavam a bandeira do Rio Grande do Sul e a do Brasil. Ornando o rosto, óculos verdes louva-deus. O corte à máquina deixara sua cabeça calva, com exceção de três letras capilares: POA — vistosa homenagem aos 236 anos do torrão natal. A mão direita mostrava-se convencional. A esquerda, não: trazia as unhas pintadas de marrom, uma pequena traição à mulher, que agora disputava o horário da manicure com o marido. A quem lhe perguntasse sobre a idiossincrasia, Carpinejar oferecia respostas elaboradas: “Para não confundir meu filho: duas mãos pintadas são de mulher, uma é de poeta; ser conduzido por uma mão feminina, mesmo que seja a minha, é muito melhor; e também serve para não lavar louça: minha mulher nunca podia, alegava que estragava as unhas. Agora eu também não posso. Passamos a comer fora.”

O noivo chegou às 17h40 e não hesitou: era aquele o poeta. Entraram numa van, na qual já estavam os pais do nubente. Eram americanos e não falavam português. Muito menos esperavam por semelhante aparição. Não souberam disfarçar uma expressão de “Ah, Deus, é ele?!”, mas nada além: foram gentis, até porque não tinham escolha. Chovia a cântaros.

Ao chegar ao local do enlace matrimonial, a abundância semiótica de Carpinejar fez com que variadas pessoas o tomassem por:

a) líder de uma seita regionalista desconhecida (lenço gaudério);
b) curandeiro (unha pintada de marrom);
c) membro de uma facção budista (cabeça raspada);
d) homem-propaganda (um segurança decifrou POA como marca de água mineral);
e) cover de Bono Vox (óculos louva-deus).

A desorientação não era apenas dos circunstantes. Também o poeta se viu confuso. A noiva entraria em cena somente no momento do altar — mas a noiva é quem o tinha convidado. “O que vocês combinaram?”, perguntou, ansioso, ao noivo. “Nada”, disse o rapaz, incapaz de desanuviar o celebrante. “Nem na minha primeira sessão de autógrafos fiquei tão nervoso”, confessaria depois Carpinejar.

Quando finalmente a noiva abriu espaço — de braço enlaçado ao do pai, luminosa, com seu vestido branco e suas tatuagens de flores derramadas nos ombros desnudos —, instalou-se o pânico. “Onde eu fico?”, perguntou ela ao poeta. “Por Deus”, contaria Carpinejar, “eu acreditava que não imitaríamos uma encenação oficial. Na ausência de coordenadas, assumi totalmente o sacerdócio. Distribuí os padrinhos, armei a entrega das alianças, improvisei os passos.” E esperou pelo milagre.

Que demorou a vir. Na primeira palavra, o microfone falhou. Uma criança gritou. Relampejou forte. O poeta pigarreou. E disse: “Sem querer, o casal está realizando o sonho da minha mãe. Ela queria que um de seus filhos fosse padre. Não entendia a desigualdade divina, que deu à família vizinha três padres e uma freira, mas para ela não reservou ninguém”. Sentiu que reassumira a própria voz. Os noivos sorriam, os padrinhos também, havia algo de bom no ar.

Ele então decidiu cumprir a função para a qual fora chamado: foi poeta. Olhou para os dois e disse: “O tempo passa rápido para os outros, não para vocês. O tempo está vivo em vocês. Minucioso. Detalhista. Obcecado. É como ficar o dia inteiro em casa. E, de repente, perceber que anoiteceu. ‘Já anoiteceu’ é uma das expressões mais bonitas. Significa que não controlamos as horas. Casar é anoitecer. É quase perguntar: ‘Como chegamos aqui?’”

E, como os noivos sabiam muito bem como haviam chegado ali, o poeta encerrou: “Stefan, você ama Eliza?” Ela disse que sim. “Eliza, você ama Stefan?” Stefan amava. “O ‘Eu te amo’ dispensa qualquer nova pergunta. O que vier depois será resposta, como este casamento. Eu abençôo os noivos, casados em nome da poesia.” O casal se beijou, e o sacerdote desconfia que os dois choraram dentro do beijo.

2:07 PM :: Comentários:

MEU QUERIDO AMOR



Nunca escrevi diretamente para você. Sempre havia uma destinatária em seu lugar. Eu abreviava o caminho, não sei se recebeu alguma notícia minha desde a adolescência ou se as cartas nunca passaram pela poça de seu sopro. Hoje coloquei meu blusão verde bordado 38. O prazer da gola coçando a barba me animou – sou movido ao tato. É dia de inverno, próprio para sentar com uma cadeira dobrável no pátio e expor o rosto à enxaqueca do sol. Não me importa que seja obrigado a tomar uma aspirina depois. Dependo de sua claridade inconsolável.

Desculpa, Amor, você não tem nada a ver com o nosso destino. Nós terminamos antes que você termine. É assim. Desistimos enquanto você prossegue. E apenas você, Amor, que irá até o fim, onde deveríamos acompanhá-lo, você vai até a nossa velhice: as mãos concedidas debaixo dos lençóis. Nós ficaremos na meia-idade, os braços pedindo um táxi. Nós o negaremos secretamente, apesar das pontadas violentas e da saudade dolorida. Negaremos inclusive que o conhecemos, que você é nosso encontro. Seus traços serão coincidências, nunca a soma óbvia dos nossos perfis e lápis de cera.

Nossas dúvidas escondem você. Porque é necessário confiar naquilo que ainda não sabemos. E queremos saber tudo antes mesmo de ter vivido. Nosso nervosismo não tem tranqüilidade para aceitá-lo.

Você tem paciência; nós, tempo. Sei que você não se fez sozinho, não posso escrever em seu lugar, você não é o que confio, é o que confio mais o que confia quem eu amo. E quem eu amo não poderá falar por você igualmente. O amor está entre duas conversas, duas ânsias, dois passados. Não é o desejo da direita, nem o da esquerda. É o que está entre os dois. Flutuando.

O amor é se despertencer. É sentir para passar adiante, não é sentir para ficar com aquilo. É não suportar sentir mais sozinho. Eu me desacostumei com a minha solidão.

Pela pressa de ter o amor só nosso, só nosso, somos capazes de destruí-lo com palavras. Não temos nada para odiar naquela pessoa. Estávamos agradecidos pelo espanto provocado pela sua chegada. Irreconhecíveis pela felicidade que nos fazia imaginar em dobro. Na noite anterior, éramos a vontade desesperada de entender. No dia seguinte, nenhuma vontade de compreensão. Não há persistência, há precipitação.

Mentir para uma pessoa não é tão grave quanto mentir para você, Amor. Mas os casais mentem que você foi um engano, um engodo, uma mentira. Chegam a dizer que você não existiu. Você fica perdido entre as defesas e ataques de ateus, céticos, agnósticos, crentes.

Somos fracos e desabafamos o que não acreditamos. Despejamos tanta violência sobre aquele que amamos para provocar. Para desencadear uma reação. Somos cruéis em nome de amor, para não sujar o nosso nome.

Somos imundos, desolados, irascíveis. Por não agüentar alguma coisa não resolvida em nossa vida. Algo aberto, inacabado. Uma fresta nas venezianas e não mais dormimos. Desconfio que nossa curiosidade está toda no ódio. Não toleramos ter que esperar. Se ele ou ela não vem agora é que não me deseja mesmo. Concluímos logo. Feitos perfeitamente para a fúria, incomodados com a brisa.

Procuramos decidir de vez se aquilo presta ou se não presta, se vale ou se não vale. Ansiamos por um veredicto, uma salvação, uma paz. Penso que desejamos a separação para não sofrer mais. Produzimos a separação, é a resposta mais rápida. A resposta mais rápida é vista como a certa. Um alívio para seguir com o trabalho, e mostrar clareza aos amigos.

E os amigos bem-intencionados não vão nos ajudar. O que disserem a respeito do que aconteceu não será suficiente, o amor é um dialeto restrito aos dois que se amam.

Não reparamos no principal, Amor. Não reparamos que quando amamos o tempo não faz a mínima diferença. Amar será sempre recente: será ontem. Anos juntos e a sensação é que foi ontem. Anos separados e a sensação é que foi ontem. Ontem, ontem. Não há anteontem no amor. As lembranças mais longínquas já são corpo.

É uma pena, Amor, que somos mais decididos do que amorosos. Amar é não decidir. Decidir é terminar sempre.

Aguardo seu retorno.

Abraço

Fabrício Carpinejar

São Leopoldo (RS), 1ª de maio de 2008.

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