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Consultório Poético

Blog

Quarta-feira, Julho 30, 2008

CALCINHAS II
Arte sobre tela de Richard Hamilton

Fabrício Carpinejar



O varão peca pela soberba.

Soberba de guardar provas materiais de suas aventuras. Por não confiar em sua memória e repetir fisicamente os vestígios do seu prazer.

Uma amostra de dominação é afanar a calcinha da mulher depois de uma longa noite entre os dois. Melhor do que vídeo caseiro e fotos comprometedoras. Todo homem é um pouco Wando, uns mais do que os outros.

Difícil determinar se é para cheirar o tecido como uma segunda barba. Quem sabe apenas colecionar desfalques e molecagens?

O capricho aumenta ao roubar o fetiche e obrigar sua amante a voltar para casa sem o chão de pernas.

O deleite de imaginá-la regressando sob o ardor de seus comandos, pura pluma no banco do carro.

Eu já ouvi histórias de infiéis serem pegos por suas mulheres com uma calcinha no bolso do paletó, como quem dobra um guardanapo com telefone e põe o terno a dormir no cabide.

Com uma calcinha no porta-luvas, esquecendo de que alguém procuraria uma caneta.

Com uma calcinha debaixo da cama de casal, escondida na confusão apressada dos lençóis.

Aquilo que aconteceu com meu amigo foi um refinamento da traição.

Voltou de uma viagem, separou as roupas sujas e lançou na redoma da máquina de lavar. Caíram no caminho duas etiquetas de calcinhas: Kalesson Modelo 00560, R$ 7,50 e Redutor Modelo 01540 R$ 18,90.

A esposa apanhou os comprovantes, encurvou as sobrancelhas em sabre e desferiu o golpe de olhos:
- Que calcinhas são essas?

Não entendeu, não entendeu mesmo, não comprou nenhuma calcinha durante a viagem para sua amante.

Ele se dividiu ligeiramente entre a mentira e a verdade: a verdade é que ele tinha amante, a mentira é que não foram juntos para loja alguma.

Avermelhou-se histérico com a invocação da mentira e apagou a verdade. Possuído de uma orfandade de caixa de sapatos.

O marido ou está todo errado ou ainda encontra razões no duvidoso. Com chances de escapar, não admitirá em hipótese alguma. Caso fosse real a etiqueta, era capaz de chorar de bruços na mesa da cozinha, bater no peito seus erros e baixar os galhos de sua infidelidade.

Pegou pesado:
- Acha que iria comprar calcinhas de R$ 7,50 ou de R$ 18,90 se tivesse amante? Calcinhas chinelonas. Kalesson não são calçolas? E a outra é redutora de celulite, não?

As etiquetas deveriam estar no fundo da mala. A mesma mala que o casal usava em suas andanças. Quando avacalhou os modelos, não percebeu que poderia estar falando de sua própria mulher.

8:29 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 29, 2008

ORGULHO PATERNO



Letra de música da minha filha Mariana, 14, apareceu no episódio "Catarina", da série Primeira Geração da RBS TV. O filme é dirigido por Rafael Figueiredo, com roteiro de Cristina Gomes.

A composição da filha é "Para Sempre Noite", do seu blog Ponta Cabeça, e aparece como um dos textos centrais interpretados pela protagonista.

Confira a notícia no blog da emissora e o vídeo abaixo:



4:15 PM :: Comentários:

FILHOS PRÓDIGOS DA LITERATURA GAÚCHA
Texto publicado no livro "Rio Grande em Debate" (Sulina, 123 páginas, 2008, Organização Nelson Boeira), reunião de ensaios de 11 autores para discutir os limites e os problemas culturais do Rio Grande do Sul

Fabrício Carpinejar
Arte de W. Elias, do livro "O Tempo sem Vento"



Andava com meu pai Carlos Nejar pelo centro de Porto Alegre. Ele segura a janela do carro como um chapéu. Debruçado de Deus, confessa: "Vejo nas estátuas homens que conheci".

Essa frase poderá um dia virar um poema. Carrega tanta autenticidade, explica o quanto o tempo descasca as frutas antes dos dentes. Meu pai, por exemplo, conviveu com Mario Quintana e ele está imóvel, em bronze, na Praça da Alfândega, impossibilitado de acenar e contar uma fofoca, sorrindo como se não tivesse sido carne e não se incomodasse com o arrulho das pombas ao derredor. Pelas salas de cinema (Paulo Gastal), pelas ruas (Erico Verissimo), há sempre algum conhecido por detrás das placas indicativas e dos espaços.

Essa frase poderá - como tantas outras - não ser escrita, o que não a apequena. Sentar para escrever nunca será sentir para escrever.

Meu pai está envelhecendo. Os mortos são mais numerosos do que os seus vivos. A página de obituários e o convite para missa de sétimo dia estão coincidindo com sua caderneta.

Meu pai não envelhece por ele, não deixará de acreditar que continua o mesmo. Ele observa uma bola de futebol e conclui com timidez: "faz tempo que não jogo": e se percebe mentalmente capaz de driblar com a intensidade de seus vinte anos. Nem rolo a bola em sua direção para que não perca a vontade.

Passeando com ele notei que a cidade vai ficando velha em seu lugar. Ele pede que eu vá por caminhos fechados, usa como referência prédios que não existem, aponta atalhos a partir de restaurantes demolidos, entra em ruas que são contramão. As palavras não têm margens. Suas indicações são lembranças, retomando o ponto de partida. “O meu colégio, a minha universidade, a minha praça”. A cidade é uma dentre várias, e ele escava mais do que enxerga. Sua caneta, diferente da minha, é uma pá.

Penso no personagem Marco Pólo de “Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino. Será que meu pai não cita Porto Alegre com medo de perdê-la? Mastigo a passagem e devolvo para a garganta. Constato que meu pai não descreve Porto Alegre com medo de se perder.

Não é um amor não-correspondido, é um amor frustrado. Um amor desencantado do sentido de convivência.

Ele fica nervoso quando volta para sua cidade natal, o suor frio, a ansiedade respiratória, quase não fala, o que é raro diante do seu retrospecto loquaz, de promotor público e poeta. Ele saiu daqui em 1980. Morou na Europa, no Rio de Janeiro e há vinte anos está radicado em Guarapari, no Espírito Santo. Qualquer contrariedade - casualidade ou azar -, um amigo desmarcando um compromisso, um cancelamento de evento, sua paranóia volta: “eu não sou amado aqui”. E, como de costume, remarca seu vôo de regresso para mais cedo.

Ele é desesperadamente carente em Porto Alegre. Talvez sua paranóia seja uma fantasia, talvez seja realmente uma perseguição. Não foi o argentino Ricardo Piglia que recusou o extremismo: “até os paranóicos têm inimigos”.

NEM SÓ DE CHÁ VIVE A ACADEMIA

Nejar deixou o Rio Grande do Sul no seu auge, publicado na época pela principal editora do país, Nova Fronteira, havia lançado sua Obra Poética I, pontuava frequentemente com poemas e artigos no Correio do Povo e nos suplementos culturais. Era conhecido e festejado como um dos grandes poetas do país, ao lado de Carlos Drummond de Andrade.

Em questão de cinco anos, o vinho voltou a ser água.

Não sei se ele brigou muito por essas bandas, se desencadeou inimigos e adversários fidalgais, mas Nejar nunca mais se sentiu em casa. Residiu em Porto Alegre na entressafra de 1985 a 1987, no Hotel Embaixador. Encolheu-se anonimamente na paisagem. Virou notícia somente quando foi atropelado na calçada (editoria policial não conta).

Ele guarda um ressentimento. Qual é? Tento descobrir com vocês, já que nunca vou falar diretamente com ele sobre isso, não saberia começar o assunto. Tudo o que incomoda, ele silencia. Quando foi eleito para Academia Brasileira de Letras, em 1988, é como se tivesse roubado a vaga de Mario Quintana, que já tinha desistido de concorrer depois de três tentativas. Chegou a pedir licença ao Quintana e seu apoio intelectual. Mesmo assim não foi perdoado. Não houve festa ou celebração pelas ruas como na entrada (merecida) de Moacyr Scliar em 2005 na ABL, transmitida ao vivo pela RBS. Nejar estava na Academia há quinze anos, ao lado de Raymundo Faoro, e parecia que Moacyr Scliar era o único representante.

Scliar morava em Porto Alegre, Nejar não. Ser gaúcho não é suficiente, ocorre uma exigência subliminar de estar por perto. De fincar as raízes na cidade. De ser visto. A proximidade afetiva parece depender da proximidade física e do IPTU em dia.

Para ilustrar, mostro fragmento de carta recebida por Nejar, de um conterrâneo, logo após sua eleição. Preservo o remetente de propósito. A correspondência está disponível nos arquivos da ABL.

“Porto Alegre, 26 de novembro de 1988.

Caro Nejar:

Acabo de saber, pelos jornais, de tua eleição para a Academia Brasileira de Letras, por unanimidade de votos. Antes te dar meus efusivos parabéns, permite-me que te explique minha posição. Como sabes, M. e eu nos comprometemos a jamais disputar uma vaga da Academia. Razão disso: a tríplice recusa da Academia em admitir, no seu seio, nosso grande poeta-mór, o Mario Quintana. Creio que sou um dos poucos que, desde o início (e tu o sabes em foro íntimo) a sustentar a grandeza do Mario, não só em artigos publicados quando ninguém se interessava especialmente por sua obra, como também em particular. Tua memória, certamente, estará a meu favor. Pois bem, em solidariedade ao Mario comprometi-me a ignorar a Academia (que, de resto, ignorou Jorge de Lima, que se candidatou quatro vezes). Isso, por outro lado, significa que respeito quem se candidata, posto que minha antipatia em relação ao mencionado cenáculo literário procede, justamente, de uma opção de Mario a favor dela, caso contrário o Mario não teria interesse em disputar os votos acadêmicos.”


A correspondência é cheia de revezes, indecisa entre saudar e demonstrar contrariedade. É o equivalente a parabenizar um candidato ao vestibular pela sua aprovação, comentando que a universidade não presta. Sob o disfarce da solidariedade ao destinatário, ocorre o auto-elogio do remetente. Nejar é questionado, mediante linguagem evasiva e carregada de duplo sentido, por ter furado o boicote moral à ABL em nome de Quintana. É o sermão da negativa implícita: eu renunciei (você não), eu me comprometi (você não), eu ignorei (você não).

HÁ CAMINHO DE VOLTA AO PARAÍSO?

Assim como aconteceu com Elis Regina na música, sair de Porto Alegre é abandonar literalmente o cenário. A visão auto-suficiente e independente da literatura torna-se incompatível com a existência de filhos pródigos. Porto Alegre parece falar para cada um de seus:

- Se sair, não olhe para trás!

O que é natural para muitas regiões, o que é natural em diversas áreas, da busca pelo crescimento profissional e de novas chances de emprego e interação, a literatura gaúcha tem um ingrediente de passionalidade. Ou fica ou não existe. Como se o Rio Grande do Sul fosse um exército e não aceitasse deserções.

Caso seguisse essa regra sentimental, Minas Gerais não teria perdoado Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, entre outros. Mas, em Minas Gerais, os autores começam a ser reconhecidos ao sair do estado, num mandamento justamente inverso ao gaúcho.

Uma hipótese é que vigora uma lei de compensação: como o país não nos observa, não observaremos o país.

Ou como afirmar que o Rio Grande do Sul é um paraíso se há casos que preferem morar em outro estado? Não é uma contradição? Pois as contradições são neutralizadas. O RS é uma espécie de Cuba, uma Cuba não com bloqueio econômico, e sim, psicológico, na predisposição em somente cuidar e alentar quem adere ou compactua fisicamente de sua beleza e tradição. Quem está fora, não é julgado, é esquecido. Tanto que os pontos turísticos de Porto Alegre são subjetivos, sentimentais, mostrando quanto nossas atrações são condicionamentos do senso comum. O pôr-do-sol do Guaíba é dito com o melhor entardecer do mundo. Não porque houve comparação prática com os entardeceres de Istambul e Paris; devido à crença de que se acontece simplesmente na cidade recebe um grau de superioridade mágica.

“Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que ainda S.Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo!...”

(Mario Quintana, Rua dos Cataventos)

Observando bem o Laçador, estátua na entrada da capital gaúcha e símbolo de cartão-postal, descobre-se que está de guarda, na entrada, como uma sentinela da alfândega. Ele não mira a cidade, está de costas para a cidade. Tal fronteira que precisa e urge ser cuidada e controlada. O próprio Laçador não conhece Porto Alegre ou nunca entrou pela suas órbitas. Ele é o guardião metafórico das cercanias.

Pesquisas de jornais, revistas e emissoras costumam eleger, periodicamente, por voto popular, os dez ou cem gaúchos que marcaram o século. Não são os dez ou cem brasileiros que marcaram o século. Nota-se o pré-requisito, o ato falho, a ascendência regional sobrepujando à nacional.

Será que não estamos criando um policiamento moral?

GAÚCHO PARA OS OUTROS SOTAQUES

Quantos filhos pródigos que não são lembrados pelo simples motivo de seguir carreira fora do estado? Menalton Braff (radicado em Serrana – SP), Flávio Moreira da Costa (Rio de Janeiro), Fausto Wolff (Rio de Janeiro), Sinval Medina (São Paulo), José Santiago Naud (Brasília). Antes deles, Augusto Meyer, Vianna Moog e Raul Bopp.

Por exemplo, quase não se inclui Bopp como poeta gaúcho. Há alguma escola com seu nome? Algum monumento a um dos mais inventivos criadores poéticos, homo viator da oralidade, autor do épico regionalista “Cobra Norato”, que viajou mundo afora como embaixador? É tema na sala de aula, assunto de vestibular? Bopp surge mais como um dos modernistas “paulistas” do que na forma pessoal e figurada de um conterrâneo. Ele nunca entrou na série Autores Gaúchos (43 volumes), do Instituto Estadual do Livro, que serve para consolidar vida e obra dos principais escritores a partir de fascículos, com distribuição nas escolas. Ficou na coleção, Letras Rio-grandenses, atualmente sem seqüência, em estudo de Maria da Glória Bordini.

José Santiago Naud é um anônimo na cultura gaúcha, apesar de ser personalidade fundadora do Instituto Estadual do Livro/RS (e primeiro diretor) e da Universidade de Brasília (na figura de docente). Com 19 livros e com mais de cinqüenta anos de poesia, natural de Santiago (RS) e residente em Brasília, passou reto pela escola de 45 e de 60, ou por qualquer homenagem em sua terra.

Seus versos antecipam o pessimismo:

"O peso todo da terra
veio morrer em suas juntas."


Menalton Braff, vencedor do Jabuti Livro do Ano em 2000, define sua situação como anti-histórica, algo como um limbo de nascença:

“Não sou excluído pelos gaúchos; tampouco sou incluído. O RS simplesmente me ignora. Suponho que a razão seja o fato de não morar mais aí. E pensar que não saí por vontade própria, mas por força das circunstâncias. O exército me queria descansando atrás de uma porta com umas varetas de ferro que, perpendicularmente, estabeleceriam os limites geográficos de meu direito de ir e vir.”

A origem de sua saída forçada – em função do Golpe Militar - não amortiza os juros do esquecimento.

“Há três anos, exemplares de meus livros sempre são enviados para os jornais gaúchos, nunca mais me deram uma linha. Será discriminação ou simples indiferença?”

No eixo RJ-SP, ele é ironicamente mencionado como autor gaúcho. Ele é reconhecido como tal, desconhecido pelos seus iguais.

“No Rio e em São Paulo (agora também em Minas), sou sempre citado como autor gaúcho. Aqui, em Ribeirão Preto e região, consideram-me um autor local. No fim, acho que não sou mais nada. Sou apátrida, talvez. Já perdi muito do Rio Grande e não fui inteiramente assimilado por São Paulo. Acho que sou coluna do meio ou em cima do muro.”

Os escritores gaúchos residentes em outros estados não têm o igual acompanhamento da imprensa do Rio Grande do Sul. São circunstanciais, não desfrutam da observação privilegiada e da interlocução constante. São citações efêmeras, nunca fontes.

Igual neutralidade mórbida experimenta Flávio Moreira da Costa, contista premiado, com mais de 20 livros.

“Excluído e esquecido (enquanto gaúcho). E não só por leitores. Ainda no ano passado, um escritor gaúcho (prefiro não dizer o nome) ficou surpreso por saber que eu tinha nascido no RS. Quer dizer, ele me conhecia, mas não como escritor gaúcho. Por que isso, no geral? Acho que há quem não perdoe o fato de, sendo gaúcho, acabei indo morar fora do nosso Rio Grande, ainda que contra a minha vontade, no início. Sim, uma manifestação invisível de bairrismo.”

Como Menalton Braff, ele é gaúcho para fora, não para dentro. Além de sofrer o isolamento, é lembrado constantemente da rejeição. O gaúcho vive eternamente um território imaginário e folclórico que o diferencia em qualquer paragem. Dupla extradição: cobrado por ser gaúcho, e, sincronicamente, abandonado pelos gaúchos.

“Por outro lado, a imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo sempre me faz referência a "nascido no Rio Grande do Sul". Acabo assolado por uma crise de identidade territorial. Não é à toa que falo e escrevo tanto sobre Santana do Livramento. Sou um cidadão do mundo nascido lá na fronteira. E ninguém me tira esta marca: eu vivo e sobrevivo nesta linha de fronteira.”

CONFISSÕES DA POESIA

Acima de ser identificada como um dado de vivência, a reação ao desterro surge como estopim ficcional, de remorso ou resgate da origem nas obras dos autores. Transforma-se em um problema a ser resolvido dentro dos livros. Fausto Wolff criou em seus poemas o Gaiteiro Velho, personagem do galpão, do churrasco no fogão, dos doces no caixão, e da contação de causos embalados pela gaita em rodas de amigos (Gaiteiro Velho, Bertrand Brasil, 2003). Flávio Moreira da Costa, também na poesia, publicou “Livramento” (Agir, 2006), que reproduz sua cidade natal a partir de um heterônimo João do Silêncio. Os dois são prosadores, contistas e romancistas cosmopolitas. Diante dos poemas, voltam a dialogar diretamente com sua origem. Arriscaria a dizer que os poemas assumem uma conotação pessoal, e os escritores não conseguem esconder a confessionalidade e o conflito entre ser ou não gaúcho. Ambos elaboram personagens para serem porta-vozes de suas crenças, e, de um modo enviesado, revidar ameaças e questionamentos. A poesia ecoa como expiação e acerto de contas; em suma, defesa da autenticidade. Provam que são gaúchos ao tratar de temas regionais.

No poema “Definitivo”, Fausto Wolff demarca sua suspeita de ser um estorvo:

“Um dia, num galpão de Santa Rosa,
No meio de um poema de Jaime Caetano Braun,
Que tirava da sanfona,
Fiz um resumo crítico de minha vida.
E cheguei à conclusão
De que o pesadelo era eu.”


Dolorida e irônica sentença do poeta. O desconforto de não ser visto suficientemente como parte do cenário, de desfrutar de um não-ser, que é pior do que um não-lugar. Predomina a sensação de não atender às expectativas. Se Cyro Martins cunhou em seus romances “o gaúcho a pé”, talvez encontremos a figuração do “gaúcho parado”, imóvel na crise existencial que herda por não integrar mais o estado, tampouco em pertencer a um novo grupo.

“A palavra Vento,
A palavra Liberdade,
Cabem nesta palavra:
Livramento.”

(Flávio Moreira da Costa, Livramento)

9:07 AM :: Comentários:

(...)



CARNE ARGENTINA

É de se constatar como o pampa, especialmente na poesia, é mitificado como uma metáfora, não um ponto real, palpável e orgânico, tomado de mazelas sociais e do tempero do cotidiano e da eclosão de miudezas. O pampa é um Deus da lonjura. Um Deus da distância. Deificação do espaço como um tempo. O pampa é um período histórico, uma deferência imaginária mais do que uma referência geográfica. Não que ele não exista, está lá nas fazendas e estâncias do interior. A questão é que os poetas não problematizam o pampa. O pampa é “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”, de Gonçalves Dias. A canção de exílio. É resultado de uma formação de leitura. Ele é mais literatura argentina, de duelos e hombridade, do que gaúcha. Mais Borges do que Luiz Sérgio Metz.

Ainda não sabendo de tudo o que viria acontecer, Borges já antecipava:

“Sobre a maior ou menor autenticidade dos gaúchos escritos, cabe observar, talvez, que para quase todos nós o gaúcho é um objeto ideal, prototípico. Daí, o dilema: se a figura que o autor nos propõe se ajusta com rigor a esse protótipo, nós a julgamos batida e convencional; se difere, sentimo-nos logrados e defraudados.”
(A Poesia Gauchesca, in Obras Completas I, Rio de Janeiro: Editora Globo, 1998).

Pelo visto, não há saída na tese borgeana. A encruzilhada está posta: com a idealização do gaúcho, redunda-se o convencional; rompida a idealização, o ato é caracterizado como fraude. Ao afirmar o gaúcho idealizado, firma-se o pacto pelo Mesmo. Ao negá-lo, desfaz a identificação e corre o risco de contraria a expectativa do público.

A idealização produziu uma superdose narrativa na poesia, de defesa do território, tributário do elogio da paisagem, especialmente nas décadas 60 e 70. Como se alongar ou distender o verso fosse um maneirismo suficiente para atingir a epicidade. Mas não, o verso épico é tensão entre pensamento dialógico, realidade e música, vide Martín Fierro, de José Hernandez. É questão de densidade, nunca de extensão. Indo mais fundo: épico é caráter, não temperamento.

Na literatura do sul, os CTGs estão em grande parte montados nos livros de poesia. Com exceção de “Antonio Chimango (1915)”, de Ramiro Barcellos, a lírica gaúcha ressente-se justamente da ausência do verdadeiro épico, capaz de reler a história e contextualizar e humanizar as crises e diversos conflitos políticos e sociais. Como ser história sem encarar a História?

Coisa que o romance percebeu, questionou e cumpriu, com Erico Veríssimo e Josué Guimarães, e, recentemente, Tabajara Ruas, Luiz Antonio de Assis Brasil e Letícia Wierchovski, desobstruindo o caminho para outras temáticas e linguagens dali por diante. Não houve vanguarda na nossa poesia, muito menos modernismo. Nada que cessasse o andamento simbolista que ecoa na modernidade representada por Mario Quintana.

O quadro poético é bifurcado em duas receitas conhecidas: versejar o pampa ou herdar o posto aforístico, metapoético e casimiriano de Mario Quintana. Na poesia, a necessidade de repetir Mario Quintana termina por sufocar uma geração dos anos 80, não diagnosticando seu alto valor de coloquialidade e registro urbano, como Celso Gutfreind, Nei Duclós, Martha Medeiros, Ricardo Silvestrin, Paulo Seben (turma que não é menor do que Cacaso, Ana Cristina César, Chacal).

Com toda sua grandeza técnica, Quintana promoveu o narcisismo da pequeneza. O orgulho da imobilidade. A exaltação do alheamento. Ironizava que provinciano é quem necessitava ir morar no Rio de Janeiro para deixar de ser provinciano. Não opta pelo enfrentamento com os temas de seu tempo, recolhe-se em deslumbramento sábio e atemporal. Alivia-se da crítica pelos chistes e pela preferência ao diminutivo, que o coloca na posição infantil – e sedutora - de órfão. Compara Porto Alegre às cidades do interior, para confirmar uma na outra (acredito que “O Mapa”, inspirado em Porto Alegre, poderia servir para qualquer município do interior). Poeta das certezas defensivas e desconcertantes, não há ruptura com um modo de vida, nenhuma errância para comunicar o incomunicável e antecipar contradições. Em nenhum momento, abandona a condição de poeta para ser qualquer outro ponto de vista. Diferente de Drummond, que relaciona Itabira com Rio de Janeiro, ou Murilo Mendes que coteja as cidades históricas mineiras com as espanholas, para aumentar o contraste e joeirar o desconforto.

Será que uma dissidência de Mario Quintana produziria um grande poeta? Talvez se esse possível poeta se confrontasse com Drummond teria mais fôlego e consistência (de procura e dúvida) para alçar vôo e redimensionar o horizonte de reflexão. Como uma nação dentro da nação, a baliza é sempre Quintana, não Drummond, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Manuel Bandeira. A limitação regional freia a ambição nacional. Quantos poetas chegaram até o patamar de Quintana e recuaram em ato-reflexo porque ele é o grande referencial de aceitação no Estado?

Reitero: o problema não é Quintana, é naquilo que foi transformado, vítima gloriosa do ressentimento (esnobado pela ABL) e um parâmetro desproporcional do bairrismo.

PASSAPORTE CONFISCADO

Sair do estado é exílio, nem precisa sair do país. Não sei por que isso ocorre, mas o boicote é sutil, silencioso, quase inanimado. Uma reprimenda ambígua. Complicada de ser diagnosticada, mais complexa ainda é sua manifestação. Não é ausência de cordialidade ou de menção. Pode ser uma indiferença em contraste com o fervor amoroso que os escritores residentes no estado recebem.

Verifica-se um protecionismo aos que ficam, e um desapego aos que partem. O RS entende-se em um país à margem, por mais que sua consciência histórica tenha evoluído. Perpetua uma seqüência de si mesmo, refratário às mudanças, com uma mentalidade tutorial, que se compraz com sua autonomia expressa, sobretudo, no nível cultural.

Do ponto de vista salutar, provou que ninguém precisa sair da sua terra para fazer sucesso, representado nas trajetórias de Luis Fernando Veríssimo e o próprio Moacyr Scliar. Mas, igualmente, de um modo perverso, não admite a hipótese de sucesso que não em seu lugar. Todo sucesso externo será sempre um sucesso menor. Todo sucesso interno será sempre um sucesso maior. É um bairrismo universalizante, que diminui as glórias além de suas fronteiras de pensamento.

Quais são as fragilidades? A pretensão de se resolver sozinho. A ausência de interlocução com os países da América Latina e seus vizinhos, uma arrogância de ser primeiro gaúcho do que brasileiro.

Como avalia o psicanalista Mário Corso:

“Na relação com o Brasil, continente do qual somos conteúdo contrariado, primamos por atitudes ambíguas. Ora consideramo-nos vítimas, resmungamos pelos cantos, queixando-nos da falta de relevância política, da não destinação de verbas, alijados das políticas café com leite de ontem e hoje. Contraditórios, de vítimas passamos à posição de estrangeiros superiores. “Eles” não nos favorecem porque não nos misturamos com essa gente inculta e preguiçosa, pareceria que pagamos caro por uma suposta superioridade real. Essa crença sugere que nossa cultura, de inspiração ora européia ora guerreira, conforme a conveniência, guarnece os gaúchos de um acervo superior. Ambas crenças nos separam do resto do Brasil e impedem que tentemos superar nossas limitações, tanto de soluções quanto de influência política.” (O Orgulho Gaúcho)

E o laço rompido nem sempre é reatado num futuro regresso. De reconciliação, Lya Luft e Caio Fernando Abreu. Mas João Gilberto Noll, um dos maiores romancistas brasileiros, voltou a se estabelecer em Porto Alegre e a sensação é que está em todo lugar, menos aqui. Não o encontro palestrando em escolas e universidades locais. A maioria de suas solicitações vem do exterior e de outros estados. Não é curioso?

Qualquer torcedor visitante deve se impressionar que no jogo de futebol, seja no estádio Beira-Rio, seja no Olímpico, a torcida canta de cor e alteado o hino regional com a ênfase de uma Guerra de Farrapos. Há uma beleza irretorquível em ouvir o hino, que mostra o apego à tradição, porém identifica que a regionalidade é perigosamente configurada como uma nacionalidade.

Se o RS é um país, teria que ser mais crítico, a ponto de avaliar se sua produção tem independência estética para não depender do Brasil. Se não é, tem que procurar conversar o quanto antes com a nacionalidade e ser menos intolerante com sua diversidade e seus autores aparentemente desgarrados.

8:57 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 28, 2008

LINGUARUDO



"E ainda dizem que o homem não é fofoqueiro.
É muito pior do que a mulher.
Basta ter sexo envolvido, que ele narra suas façanhas inclusive aos cachorros de padaria."


Homem contou seu caso ao melhor amigo que contou para o bairro inteiro. Amante está desesperada porque seu marido pode descobrir. O que fazer?

Veja resposta no Consultório Poético e participe com seus próprios conselhos.

11:26 AM :: Comentários:

ALEGRIA INFLUENTE



O jornal Vaia está inaugurando novo evento literário: Palavra - alegria da influência. A estréia será sábado (02/08), às 18h30, com os poetas Everton Behenck e Fabrício Carpinejar.

A idéia é promover encontros literários mensais (no primeiro sábado), e sempre com a presença de um escritor da nova geração (anfitrião) e de outro já consolidado no cenário literário e da predileção (referencial, inspirador, ídolo), para conversar sobre seus trabalhos, ler textos e debater sobre suas respectivas produções literárias.

A Palavraria está localizada na rua Vasco da Gama, 165, em Porto Alegre (telefone: 3268-4260). Entrada franca.

9:20 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 27, 2008

CALCINHA I
Arte de Wayne Thiebaud

Fabrício Carpinejar



Quando recebi um embrulho pelo correio, deduzi que fosse mais um livro das centenas que chegam e abri na frente de todo mundo de casa. Com uma informalidade leviana, prestes a subir a escada-caracol para o escritório e seguir com o ritmo biológico de minhas atividades. Ao apanhar o objeto do fundo do pacote, notei que era macio demais, com algumas rendas e deslizes febris. Ainda confiei que devia ser uma obra artesanal, costurada. Espiei o seu conteúdo:

- Nãooooo acredito.
Óbvio que não falei alto. Não sou louco.

Era uma calcinha branca, pequena, inteiramente perfumada.
Uma declaração de amor - por aquilo que minha ânsia traduziu em segundos.

Sem remetente.

Gelei.

Minha mulher perguntou do que se tratava.
- É um livro...
- De quem?
- De um autor capixaba.

Capixaba? Talvez a calcinha tenha evocado praia, sol, a luxúria da areia nas dobras do corpo e me impeliu a essa resposta pouco caprichada.

Ela não perguntou mais nada. Deveria ter confessado de cara o conteúdo, desmembrado um riso épico, feito um escândalo, pontificado vergonhas da remessa, abrir um inquérito familiar. Mas me encabulei seriamente.

Estava fodido.

Onde enfiar a maldita calcinha sem levantar suspeitas?

Qualquer lugar que colocasse na residência, mesmo num cofre que não tenho, manteria a peça minúscula viva e localizável. Mesmo abafados, os miados do cio da fibra acordariam mãos inocentes. Da faxineira à filha. Sou o único homem adulto dali, não poderia nem incriminar meu filho pequeno.

Tentei programar explicações. Quando não há culpa, as desculpas são ingênuas. A culpa é a inteligência da mentira. A culpa não é amadora, ensaia muito mais do que a verdade.

Aprontei-me a recolher o lixo da casa para levá-lo à portaria.

A mulher me interrompeu com o queéisso?
- São dez da manhã. Não há lixo para levar.
- Queria antecipar as coisas.
- Você está estranho...

Ao escutar “você está estranho", o homem está no limiar de ser descoberto. Recue!

Foi o que fiz.
- Então tá, deixo para depois.

Subi, me tranquei no banheiro e picotei a calcinha. Armado de estilete e tesoura. Com as córneas forradas de um psicopata, rasgava sua textura virgem. O pano convertido em confetes para chuva de carnaval. Rasguei muitos rascunhos de poesia e misturei tudo na lixeira.

Atravessei o dia com remorso. Por não estudar a autoria com lentidão. Pela compulsão de me livrar daquilo antes de experimentar a transgressão. Não me dei tempo para ficar excitado.

Na manhã seguinte, a esposa lamentava com uma amiga ao telefone:

- Não chegou.
- Não veio, não.
- Deixou a calcinha que comprei na caixa de correio, é certo isso?

11:54 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 24, 2008

TARADO DE SÃO LEOPOLDO
Arte de Richard Hamilton

Fabrício Carpinejar



Os homens não confessam, já paguei mico ao abrir a boca, sem nenhuma solidariedade na bandeja do garçom, nenhum sim, sins dos colegas de trago. É evidente que suas namoradas estavam juntos na mesa, apavoradas com a revelação. Fiquei sozinho com a minha opiniãozinha, sozinho com o meu bigode de chopp. Um trapo de voz. Um tarado.

Antecipo também que é machista, tentei me censurar, educar o corpo, reprimir o condicionamento, recorrer a um acompanhamento médico, mas não adiantou. Sofro com as minhas imperfeições quando não gozo com elas.

Tenho compulsão por poses domésticas. Duvido que meus semelhantes não possuam sinais em desenvolvimento dessa predestinação caseira. Vivo o estado terminal do arrepio.

Mulher esfregando o piso, ai, não é bom descrever. Engatinhando com a escovinha, em movimentos repetitivos e lúbricos. Como se ninguém a estivesse reparando. Com a soberania da solidão, os lábios se mexendo com vagar, cantarolando bem baixinho uma música. Ainda não aprendeu direito a letra e preenche os espaços com o assobio refinado da melodia.

Ansiosa para terminar aquela obrigação. Balançando devagar o balde, a produzir um preciso soco de água no solo. O vaivém do quadril, a espuma amanteigando os azulejos. As panturrilhas com os músculos retesados, escamas firmes, como peixes apanhando o sol na superfície.

Ou no momento em que ela estica suas pernas na árvore das vidraças, encerando o brilho das alturas. A calcinha aparecendo por engano, pelas sobras de vento das cortinas. A bundinha levantada. Largaria qualquer urgência para mergulhar em suas coxas de leve suor.

Sou viciado na sensualidade desarmada, que é mais distração do que oferta. O sopro ingênuo que esconde a impetuosidade da malícia.

Não posso enxergar mulher cozinhando, que a abraço de costas e beijo meus beijos em seu pescoço. Um beijo ensimesmado de orvalho.

Faço vista grossa para a fumaceira, se a comida poderá queimar e passar do ponto. Esqueço a pontualidade do preparo, a harmonia provisória dos temperos.

Não me dou conta de que meu casaco encosta perigosamente nas bocas do fogão. A obsessão não recua, é egoísta, primogênita do pesadelo.

Vou contornando as linhas das costas com a língua até que ela grite "chega, não é hora" ou me retribua a invasão com um golpe defensivo dos pés.

Encaixo minhas pernas nas pernas dela e entrego o volume das calças. O desejo diabólico é arrastar a tolha com os pratos para longe, desprezando o cuidado com a porcelana do casamento, e fulminar uma trepada de cento e vinte por hora.

O homem é burro. Grosseiro porque burro. Suas fantasias o emburrecem. Uma burrice pura, de criança crescendo de noite.

Ele entende tudo errado, raciocina que ela está gostando, que sua resistência é um modo de atiçar seus avanços. Mas sua mulher quer a tranqüilidade da colher de pau. Nada mais. Odeia sujeito que decide ser carinhoso quando ela não está disponível, logo agora que não tem como reagir. Assimila como afronta e desrespeito (por que ele não a procurou de manhã, na saída do banho?).

Não sei o que fazer comigo. A faxina de casa é meu bordel.



12:19 PM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 23, 2008

CANTANDO, CONTANDO MACHADO



4:18 PM :: Comentários:


Nas cartas, os sentimentos vão assinados e rendem alta literatura

Fabrício Carpinejar
Poeta e cronista, autor de “Um terno de pássaros ao sul” (Bertrand Brasil, 2008)
Imagens de Istockphoto e de Mário Rui

Todos os livros são – na verdade - cartas secretas ao leitor, roteiros surpreendentes e tensos de emoção. O escritor procura convencer quem vai lê-lo, provar que ele ou sua personagem é real e inadiável.

A literatura brasileira começou por uma carta, do escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, ao rei de Portugal Dom Manuel. Descreve o povo indígena e as exuberâncias inacreditáveis de Porto Seguro, numa tentativa de reconstituir os olhos com as mãos. “Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade... Não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.” Será que não estamos eternamente condenados a respondê-la?

Ao lado do diário, a epístola é um implacável recurso narrativo (pressupõe o diálogo com outrem enquanto o diário cede ao diálogo consigo). Comove e se impõe pela interlocução direta e sincera. Pode-se duvidar de qualquer coisa, menos de sua veracidade. É uma conversa à beira da decisão, demarcando uma despedida, uma confissão ou um pedido de perdão. Algo como um segredo partilhado: taquicardia e mancha. O ficcionista Luiz Ruffato destaca a força de sua transparência: "A narrativa tradicional, mesmo em primeira pessoa, é seletiva - o leitor desconfia que o autor está escondendo algo dele. Na epistolografia, não, a sensação é de que nada nos está sendo omitido."

O envelope funciona como ponto de encontro dos sedutores e dos angustiados, dos abandonados e dos confiantes. Os apaixonados ultrapassam o certo e o errado, as convenções para serem fiéis ao seu destino.

DESEJO

As privações e tragédias não interrompem o desejo do corpo na escrita. Emblemático é o enlace do filósofo e teólogo francês Abelardo (1079-1142), considerado um dos maiores intelectuais do século XII e precursor do racionalismo, com sua aluna Heloísa (1100-1164). Diante da trama acidentada deles, "Romeu e Julieta" parece literatura infanto-juvenil.

Clérigo e cônego, numa época em que se respeitava o voto religioso para ensinar, Abelardo apaixonou-se por Heloísa, vinte anos mais nova. Tiveram um filho, Astrolábio, e casaram-se secretamente, colocando em risco a reputação de ambos.

O tio de Heloísa, Fulbert, descontente com as maledicências e fofocas, mandou castrar Abelardo, que tomou o ato como um castigo divino e adotou a vida monástica em Saint-Denis. Para respeitar seu amado, Heloísa entrou para um convento. Distantes, os dois se corresponderam em longas e cálidas cartas, mas nunca mais se falaram pessoalmente.

A declaração de Heloísa sinaliza a seriedade dos seus múltiplos sacrifícios. Faria (e fez) qualquer coisa por Abelardo, inclusive se negar:

"Eu, Deus o sabe, eu não teria hesitado em te seguir ou em te preceder no inferno se me tivesses ordenado a fazê-lo. Não era comigo que estava meu coração, mas contigo. E ainda agora, e mais que nunca, se ele não está contigo, ele não está em parte alguma, pois lhe é impossível ser sem ti."

AMOR PROIBIDO

Se não fosse o casal perfeito papel-tinta, nunca se tomaria conhecimento do amor proibido de uma freira portuguesa e de um capitão de cavalaria francês, uma das histórias mais fascinantes de arrebatamento. Mariana Alcorofado (1640-1723) usou a correspondência como último recurso para atenuar a saudade do conde de Chamilly. Nem Deus a proibiu de escrever:

"Sei muito bem que é tão fácil para você se deixar levar contra mim quanto eu me deixar levar a seu favor". Ela lutava esgrima com a pena. "Tenho essa espécie de ciúme de minha paixão por você", confessa.

Amor impossível combina com selo. Uma amostra são as cartas do jovem Kafka (1883-1924) a Milena Jesenká. A troca de confidências começa respeitosa, sobre assuntos literários, para adquirir um clima apaixonado de doação. Não ficam juntos, pois Milena é casada e "queria muito seu marido para abandoná-lo". Kafka leva a pior na vida para sempre se dar bem na literatura (será que compensa?)

Sofre-se com o tom declarado e encurralado do missivista, que deixa de assinar F. Kafka para rubricar apenas F. "Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.", explica para Milena.

Talvez por isso Marcelo Backes, que conduz um curso sobre os maiores amantes da literatura na Casa do Saber do Rio de Janeiro, não gostaria de ser nenhum dos seus estudados, apesar da fama e da glória obtidas nas letras. A explicação é simples.

"Todos acabam mal, uma necessidade da literatura que se pretende grande. A grande arte tem de revolver o entulho mais recôndito da alma, denunciar suas leviandades e rir de sua perfídia e depois rir de si mesma como parte delas."

O ALCANCE DA PALAVRA

Luxo, ideologia, crenças são postos abaixo no momento do sussurro e do gemido da caneta. Numa representação contemporânea de que as cartas nunca saem de moda, o sociólogo André Gorz, de sisudo trajeto marxista, despe suas formalidades para tecer uma homenagem a Dorine, sua mulher durante quase sessenta anos.

A “Carta a D.” (Annablume/Cosacnaify) é uma bomba de gás lacrimogêneo, apropriada a sensibilizar rostos intransigentes. Dedica seu derradeiro livro a ser justo com a única mulher de sua vida. "Carrego no meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher". Derruba, assim, a tese de que a paixão dura apenas dois anos.

Ao cabo, ele comenta: "Se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos." A fidelidade foi tão imensa que André, enxergando a gravidade da doença de Dorine, decide se matar com ela em 22 de setembro de 2007. Um não iria suportar a morte em separado do outro.

Algumas vezes, o papel é mais do que o último recurso. Ultrapassa até o fim. Em 31 de dezembro de 1926, a poeta russa Marina Tsvetaeva manda um apelo a Rainer Maria Rilke.

"Ó Rainer, escreve-me (é por demais estúpido este pedido?)"

Rilke já estava morto há dois dias, e ela já sabia. Mesmo assim, não subestimou o alcance de sua voz.

Recapitulando os clássicos, muitos foram erguidos por um castelo de cartas. Os romances, por exemplo, "A Nova Heloísa", de Rosseau, e "Pamela", de Richardson. O mais conhecido e divisor de águas terminou sendo "Os sofrimentos do jovem Werther" (1774), do alemão Goethe (1749-1832), elaborado numa febre de quatro semanas e um dos preferidos até de Napoleão, que se gabava de ter lido sete vezes.

As cartas são escritas pelo protagonista e organizadas postumamente por um amigo, Guilherme, que apresenta o herói e exerce o papel de editor. Werther detalha os passos de seu amor incompreendido por Carlota. O volume é uma das primeiras demonstrações de influência da literatura na sociedade. Gerou uma onda de suicídios na Alemanha, chegando até ser proibido. Jovens românticos se vestiam de fraque azul e colete amarelo, como o personagem, e redigiam cartas desesperadas às namoradas.

DEVOÇÃO QUE SEDUZ

Se as cartas de amor são ridículas, como preceituava Fernando Pessoa, mais ridículo é quem as despreza. É uma arma da insistência. De tanto bater na porta, a porta se abre. Uma tática da devoção. “Acredito piamente na capacidade de convicção de uma carta de amor. Uma carta por dia e não há mulher no mundo que não se dobre”, diz Backes.

Foi um bilhete posto furtivamente no casaco que baqueou o coração da escritora Martha Medeiros.

“Uma vez saí para caminhar com um cara no centro de Porto Alegre, à noite (pro amor sou sempre corajosa). Sem que eu percebesse, ele colocou um papel no bolso do meu casaco. Só li quando cheguei em casa: era um poema escrito por ele, à mão, e lindo... Ele que nem poeta era. Anos depois estávamos casados e ficamos juntos por 21 anos. “, recorda.

Martha Medeiros entende do assunto. Além de já ter publicado os poemas de “Cartas Extraviadas”, lançou o livro Tudo que eu queria te dizer (Objetiva, 175 páginas), rodadas de correspondências reunidas pelo sentimento de fim de jogo. São remetentes em situações-limite.

“Sou da era pré-internet, então já escrevi e recebi inúmeras cartas, e guardo a maioria delas. A palavra escrita é a prova inconteste do que você viveu. Hoje me rendo ao e-mail, que é um facilitador de contatos, nada tenho contra a instantaneidade, mas reconheço que as emoções hoje andam tão efêmeras que mal rendem um parágrafo, quanto mais uma lauda toda manuscrita”, confessa a autora.

O ardor pelo artesanato lento da cola-ofício é igualmente partilhado por Luiz Ruffato, que publicou pela Moderna o seu primeiro trabalho juvenil, "De mim já nem se lembra". Divulga uma pilha do correio de seu irmão destinado à sua mãe, registrando a tentativa de sobrevivência financeira de um metalúrgico mineiro em São Paulo. O detalhe é que ele próprio inventou as cartas, reconstituindo a informalidade e o afeto da saudade.

"Meu irmão, José Célio, morou em Diadema durante alguns meses de 1974, e morreu em 1978. Eu queria muito recuperar a memória dele, mas também resgatar esse período extremamente importante da história brasileira. Nas cartas, que ele infelizmente não escreveu, procuro assumir a identidade dele e descrever os acontecimentos com os olhos de alguém que embora não compreendendo o alcance das modificações que se processavam à sua volta, participa efetivamente dessas modificações", esclarece.

Não deixa de ser curioso que foi uma caligrafia solta dentro de um livro, tal inusitado marcador de página, que despertou o desejo de Ruffato em explorar a ficção.

"Certa vez, comprei um livro num sebo e, como sempre faço, chegando em casa o submeti a uma limpeza geral. De repente, caiu um papel dobrado em quatro partes, amarelado, mas perfeito. Abri, era uma carta, escrita a caneta tinteiro, uma letra linda, datada mais ou menos da época do livro (década de 30), em que alguém relatava a uma pessoa querida a morte do marido. Um documento de uma sensibilidade raramente encontrada nas páginas dos livros. Curiosamente, coloquei essa carta novamente entre as páginas do livro, pois a sensação que tive era a de que estava maculando a história daquelas pessoas. Nunca mais a encontrei. Por mais que procurasse, era como se ela nunca tivesse existido. Talvez, a minha literatura seja apenas isso: dar áquela carta sua destinação original."

ESPERANÇAS

As cartas iniciam antes de escrevê-las, como revelou o fotógrafo paulista Mário Rui. Está expressa no gesto simbólico dos mais pobres de criar caixinhas de correspondência. Sinal de individualidade e afirmação social.

No livro "Quando o carteiro chegar" (Imprensa Oficial), Rui fotografou diferentes caixas de São Paulo, apanhando sua improvisação e a motivação de seus portadores.

"Carteiro chega a todo lugar ('casa do Zé atrás do bar do Mané na favela tal' já é o suficiente). Eu sempre gostei da minúcia. E a caixa de correio é uma enorme minúcia da casa", define o artista.

Uma das imagens da obra dimensiona o respeito poético dos moradores com as cartas. Após finalizar sua caixinha branca, o dono resolveu colocar um telhado para protegê-la da chuva. Não desejava desperdiçar sua beleza.

Um guarda-chuva permanente para nunca borrar a letra e a esperança por melhores notícias.



Publicado na revista da Livraria Cultura, edição 12, julho de 2008, Ps. 12-14

8:31 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 21, 2008

A ESPERANÇA ANTES DA ESPERANÇA

Fabrício Carpinejar



Eu busco o Vicente na escola na terça e sexta-feira, para passarmos a tarde juntos. Mesmo que tenha trabalho, ele me acompanha e pontilhamos as tarefas com programas divertidos como cinema, futebol e brincadeiras de ocupar toda uma peça da casa. Nos outros dias, ele fica no contraturno na escola. Almoça com os colegas, tem aulas de inglês, de espanhol e de música. É um acordo amoroso.

Evidente que os dias mais alegres são aqueles que estamos acompanhados, para mim e para ele, compensando a dedicação disciplinada da semana.

Armei de fazer uma surpresa e apareci de imprevisto na quarta para levá-lo. Ele estava gripado, com uma tosse de corredor sem porta. Arrisquei um mimo. Escorei o rosto numa desculpa, como é natural de pai bobalhão e sentimental.

Nas tardes de contraturno, ele não desce com a mochila, já que permanecerá no prédio até as 17h. Curiosamente, eu o vi descendo a escada em fila indiana com a turma com sua pasta verde de sapo. É engraçado o guri caminhando com aquele peso de cadernos e exercícios, indo de um lado para outro, como um escoteiro ensolarado.

Logo que o abracei, ele não sugeriu espanto. Perguntei se a mãe havia avisado que iria buscá-lo.

- Não, pai.
- Mas por que você desceu com a mochila se sabia que não viria? Não estava combinado, repliquei.
- Na segunda, na quarta e na quinta, tenho 20% de esperança de que venha me buscar. Sempre desço com a mochila e espio para o banco que costuma sentar. Não custa nada, pai, carregar a mochila e a esperança.

Eu mordi as mangas da camisa, como sempre faço quando umedeço as pupilas. Para ocupar a motricidade. Não cogitava que desfrutaria essa conversa com meu filhote de 6 anos.

- Mas você não fica triste quando não venho?
- Não, porque eu sei que não virá, a esperança é outra coisa.
- O que é?
- É acreditar que 'você vem quando não vem'.

Esforcei-me para determinar onde surgiu a esperança dele. De quem tinha herdado: de mim ou da mãe?

E lembrei que era dos dois. Da gestação. No momento em que ele nem era nascido. Avançávamos na madrugada, girávamos horas alisando a barriga, prevendo o que esse guri poderia gostar da vida, tecendo planos, apresentando as travessuras e delicadezas de sua irmã Mariana, trocando os móveis de lugar, conversando com ele no viva-voz que só existe no ventre. Acelerando o que cada um acreditava, descrevendo filmes e evocações da infância, sondando os lugares que ainda iríamos viajar. Nem aí para besteira de que ele não ouvia; claro que ouvia. Cada chute dele ou contração mais aguda, compreendíamos como resposta. Um código morse que emparelha os ouvidos. Um diálogo espírita que formou a alma do menino.

Para nascer, ele somente seguiu a nossa voz. Facilitamos.

E hoje vivemos seguindo a dele.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, Página 46, Número 176, Julho de 2008


5:13 PM :: Comentários:


Domingo, Julho 20, 2008

COMO VIVER COM A MORTE MARCADA?
A Lição Final perturba com o corajoso testemunho do professor americano Randy Pausch a respeito de uma doença terminal

Fabrício Carpinejar



Todos fingem que não vão morrer. O professor americano Randy Pausch não tinha mais motivos para continuar fingindo. Descobriu um avassalador câncer no pâncreas, com metástase em órgãos vitais. Casado, de 47 anos, pai de três filhos, contava com - no máximo - seis meses de vida.

Lecionando Ciência da Computação na Universidade Carnegie Mellon na Pensilvânia, usou o recurso acadêmico da aula de despedida para elaborar uma síntese socrática de sua trajetória. A conferência em setembro de 2007 teve uma platéia de 400 ouvintes, que lotou o auditório da universidade. Inesperado foi o efeito dominó de suas crenças. Mais de 2 milhões de pessoas assistiram ao vídeo no YouTube.

Com ajuda do colunista Jeffrey Zaslow, do Wall Street Journal, Randy colocou seu testemunho em papel. Durante 53 passeios de bicicleta, conversava com o jornalista pelo fone do ouvido do celular, que distribuiu os ensinamentos e as histórias no livro A Lição Final, lançado aqui pela Agir e que desponta na lista dos mais vendidos no The New York Times.

Ter um prazo impulsionou Randy Pausch a reavaliar seu passado. Entre a extinção silenciosa e o adeus espalhafatoso, escolheu o segundo e optou por se despedir do jeito que gosta e mais sabe: dando aula. Suas declarações recebem a aura de testamento, com o agravante diferencial de analisar a própria vida e dos próximos sob o ângulo da morte. Não são quaisquer palavras, são suas últimas palavras, sem tempo para acrescentar algo ou melhorar a experiência. Como ele mesmo diz: "Não podemos trocar as cartas que recebemos, mas apenas pensar como jogar." Ele se retira no auge da carreira, fundador do projeto Alice, software que ensina linguagem de programação para crianças, e tendo no currículo parcerias com grandes empresas como Adobe, Google, Eletronic Arts e Walt Disney. Além disso, sua casa desmorona com a proximidade de abandonar três filhos pequenos: Dylan, 6 anos, Logan, 3, e Chloe, 1.

A Lição Final é uma obra de auto-ajuda como nunca se leu. Uma nova frente nas estantes. Pois não é um depoimento tradicional de quem superou o fim e se presta a conceder a cronologia da obstinação e superação. Ele não venceu a morte, mas aprende a aceitá-la e admite (o pior) que depois disso não poderá aprender mais nada. Trata-se, portanto, de uma ária de serenidade, com tudo o que tem direito, sentimentalismo, nostalgia, choro seco, e a pontada imponderável de injustiça (por que foi acontecer comigo?), mesmo quando nada mais se tem a explicar.

Não é literatura, capaz de ultrapassar as circunstâncias da doença e atingir a luminosidade estética, como se percebe em Antes Que Anoiteça (Record, esgotado), autobiografia do cubano Reinaldo Arenas (com a saúde debilitada pelo vírus HIV, ele se mata logo após o término do livro). Acima de tudo, representa uma carta de despedida para a família. Sincera, coloquial e sem nenhuma revelação mágica. Talvez se critique a espetacularização circense da tragédia. Circo sim, porém Randy Pausch não é previsível em sua exibição derradeira, ele concilia o papel de clown com o salto mortal do trapezista.

A Lição Final está encharcado de clichês, tirando vantagem do imperativo de "falar a verdade" (o que é diferente de falar bem). Torna-se algo como um epitáfio comentado. Destrincha um breviário de conselhos edificantes e ingênuos, como "o tempo deve ser administrado com precisão, assim como o dinheiro"; "é sempre possível mudar de plano, desde que se tenha algum"; "pergunte a si mesmo se está gastando tempo com as coisas certas"; "desenvolva um bom sistema de arquivos"; "repense o telefone"; "delegue"; e "tire férias".

Converte o momento extremado numa odisséia de boas maneiras, hierarquizando regras para uma conduta profissional exemplar. Soa estranho dentro da freqüência confessional. Substitui a sondagem religiosa pela praticidade das ambições. Pratica uma espécie de consumismo de princípios.

Da mesma forma, desenvolve aquele conhecido apelo otimista da importância de cumprir os desejos. O professor comenta um por um dos seus sonhos de pequeno, a maioria realizada como ser autor de um verbete da enciclopédia World Book, flutuar em gravidade zero, trabalhar na Disney e conhecer o capitão Kirk; e outros não, como jogar na Liga Nacional de Futebol Americano.

Afora a panfletagem de hospital, o volume tem méritos. Evita uma obra pesada, infiltrando sua emoção pelos flancos do humor, não abdicando da irreverência e desembaraço para contrabalançar o coitadismo. Assim como alcançou em sua memorável palestra. Enquanto Pausch apresentava cientificamente as suas tomografias, realizou exercícios de flexões para mostrar a sua contraditória saúde momentânea. Ou quando começou a contar, tal criança no jogo dos sete erros, o número de seus tumores na imagem do computador (dez!), e somente lamentou a falta de preparo médico pela ausência de lenços no consultório.

Com objetividade, o autor pretende afastar o sentimento de adulação que envolve o doente terminal. Narra, por exemplo, sua insatisfação com a tolerância planejada de sua mulher Jai diante de seus defeitos. "Eu espalho tudo. Minhas roupas, limpas e sujas, ficam espalhadas pelo quarto, e a pia do banheiro, repleta delas. Isso enlouquece Jai. Antes de minha doença, ela reclamava. Mas a dra. Reiss aconselhou-a a não deixar que pequenas coisas nos perturbassem."

Quando Randy Pausch é mínimo, avulta-se singular. Quando ele busca ser grande, apaga-se na redundância. Os acertos surgem da especificidade das vivências, sobrepujando o tom genérico de mapa da felicidade. Podem ser encontrados na mensagem legada aos seus dois meninos e menina, quando ele evita projeções e pede para não tentarem imaginar o que ele gostaria que se tornassem. Ou em frases que incluem o fracasso como rascunho. "Adquire-se a experiência quando não se consegue o que se queria." Também presente nos momentos líricos, singelos. Não é boba a dica de carregar um toco de giz de cera no bolso para lembrar o cheiro da infância. Ou quando ele explica que a sua mulher bateu o carro e não mandaram para oficina, pouco se importando com o status social. "Nem tudo precisa ser consertado."

A proximidade da morte transforma sua perda em ganho. Não fazer o que deixou para trás, gerar sentido ao que ficou. Na hora de somar, a fé multiplica as lembranças.



A Lição Final
Randy Pausch
Tradução de Laura Alves
Agir, 240 págs., R$ 34,90


Publicado no jornal O Estado de São Paulo, Caderno 2/Cultura, 20/07/08

8:57 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 19, 2008

A DANÇA EM TORNO DA CASA
Em versos conceituais, Álvaro Miranda elabora o soneto elástico

Fabrício Carpinejar
Especial JB


Foto de Juan Rulfo

A casa sempre foi um tema caro para poesia, de Carlos Drummond de Andrade a José Paulo Paes. Dificilmente um poeta não vai soluçar sua infância diante de sua antiga residência. Serviu de inspiração, por exemplo, ao melhor livro do mineiro Emílio Moura, “A Casa" (1961), com versos impressionistas e desconcertantes como "Onde foi ontem".

"A casa toda nave cega voa" (7 Letras, 56 páginas) , do jornalista paulista Álvaro Miranda, radicado no Rio de Janeiro há 25 anos, não cedeu ao apelo nostálgico das experiências anteriores da poesia brasileira. Não é um pretexto para rever o menino que o autor foi, ou o homem que poderia ter sido.

São versos conceituais sobre o arquétipo, ora nos mostrando a habitação enraizada, preparação ao túmulo, ora aérea, nave e pássaro que migram com seus moradores. Está falando também do livro, que é a casamata do leitor.

Elaborou uma espécie de soneto elástico, 14 linhas distribuídas em blocos alternados, algumas vezes sem quebra de espaço, diferente do tradicional soneto italiano, feito de dois quartetos e dois tercetos. Atesta o quanto a forma métrica ainda permite a criatividade e outras modulações.

Ele exerce uma fenomenologia da observação, propondo 47 variações de um mesmo olhar, como um binóculo usado do lado contrário, que afasta o objeto, ao invés de aproximá-lo, para valorizar o conjunto e não se perder nos pormenores de sua memória. Uma casa sempre fora, transfigurada em símbolo. Uma metáfora de lugar. Não chega a praticar suas vivências e se expor às confissões. Não é a sua casa, mas qualquer casa.

Neste sentido, existe uma ontologia sonhadora, com inclinação filosófica e metafísica, de enxergar cada vez mais o que a casa se transforma, contorná-la como uma ilha, problematizá-la, e não perdoá-la pelo hábito de conhecê-la como faria seu residente. Atento e provisório à maneira de um hóspede, abstrai o que é doméstico, jogando com a dialética para não mergulhar na tentação de ficar. Mesmo contando com Gaston Bachelard nas epígrafes, sua senha é desabitar progressivamente, apartado do espanto da intimidade. Ele não busca pessoalizar a pedra, muito menos incorporar o extremismo passional de julgar exigido pela recordação. Descreve numa dança em círculos, por devaneios controlados, sustentados na multiplicação racional de hipóteses.

"Toda casa envelhece com seus donos.
Paredes, tacos, sótão, venezianas.
Os vizinhos comentam com voz mansa
quando a idade percebem se alongando.
Parece então que as casas nunca morrem."


É um passeio contemplativo, não emocionado, acima de tudo desgarrado, de quem analisa um cenário de modo impiedoso, porém gentil. Curiosamente, ele despoetiza o assunto poetizando. O espaço de intimidade vira um móbile de desassossego. O poema acima continua, longe da mitificação. Habitual seria dizer que a casa não perece, mas há um realismo clínico que diz a verdade.

"Vem tempo, passa tempo, vão-se os homens,
os donos mudam e mudam-se os nomes
e assim na margem-tempo a casa sobra.
mas ela também morre: telhas quebram,
raízes sorrateiras ferem o solo,
portas empenam, janelas não fecham,
e mesmo os alicerces rangem velhos
como joelhos de um tempo que não dobra:

os homens vão primeiro - e não voltam."


Os personagens que aparecem não são maiores do que a armação de concreto. Assim descreve um habitante, mais uma vítima da crença de que é possível domar a casa ou subjugá-las às vontades do usufruto.

"Reunia a vizinhança na janela,
mas era um solilóquio mudo e incerto,
quase ninguém dava ouvidos ou entendia.
Acendia quintais com galos roucos
e esperava aguaceiros em bacias.
Tentava prender ventos com os sonhos
e extirpar as palavras que sentia
como vendavais a trazer escombros:
a casa o delírio: morreu sonâmbulo."


Os poemas abrem-se à tragédia e ao imprevisto, desmontando o planejamento permanente que se dá ao imóvel. Álvaro Miranda torna-se antípoda do corretor imobiliário, agravando o ambiente com diversos incômodos. A atração de sua poética está em contrabalançar a negatividade desconfiada da inspeção com uma positividade sonora, um otimismo silábico. Se sua letra é triste, sua melodia é alegre, a partir de sucessivas aliterações e desdobramentos. Plenamente salmodia num canto uniforme.

"De casa em casa, a casa casa, a casa
de vagas e migalhas, casa magra."


"A casa toda nave cega voa" oferece um interessante exemplo de como regredir a borboleta em libélula e ainda voar.


A casa toda nave cega voa"
Álvaro Miranda
7 Letras, 2008
56 páginas
R$ 20,00

Publicado no Jornal do Brasil, Caderno Idéias, P. 6, 19 de julho de 2008

5:14 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 18, 2008

O SAL DE MINHAS LÁGRIMAS
Arte de Joan Miró

Fabrício Carpinejar



Não me recordo precisamente de minha infância até os cinco anos. Não por algum trauma. Esquecer é próprio da alegria, de quem sorveu a lembrança até o fim.

Os irmãos brincaram comigo, brigaram comigo. Fui meus irmãos quando estava enjoado de mim. Sem Carla, Rodrigo e Miguel, seria bem menos Fabrício. Eles não me deixavam em paz.

Eles me provocaram a nascer. Nasci de uma provocação de um deles, talvez todos ao mesmo tempo. O beliche me permitiu tocar o céu já prematuro. Não tive medo de dormir no escuro, os irmãos conversavam comigo sem parar. O alvoroço deles foi meu abajur.

A casa de meus avós em Guaporé, cidade a 200 km de Porto Alegre, onde vivi as primeiras férias, é o centro de minha imaginação. O interior é o centro da minha imaginação. As estrelas sofriam de catapora: multiplicavam-se. Baixas, tão acessíveis, tão concretas, poderiam ser apanhadas como um chapéu no cabide. A morada ficava colada à calçada. Como o rio Taquari que ladeava as pedras. Os vidros do lado de fora, as venezianas do lado de dentro. A neblina dava aula ao sol. Embaçava as vidraças, que pareciam um quadro-negro; o sol chegava e escrevia. Eu lia sua caligrafia emendada, morrendo de rir quando a luz errava uma palavra.

Minha avó descobria quem chegava pelo tipo de sapato, pelo fragor da pisada. O padre usava botina, a costureira caminhava de sapatilha, o irmão magro e ruivo vinha de galocha, as crianças saltavam de sandálias, o avô italiano arrastava chinelos.

Eu descansava em cima das figueiras com o rádio ligado das cigarras, dos vaga-lumes, do mugido dos bois, da alternância dos galos. Eu me fingia príncipe. Costurava mantos com cipós.

De manhãzinha, recolhia morangos, ovos, uvas. Os dias nunca terminavam – eles se emendavam. A infância é um único dia. Mania de adulto fracionar as semanas. O que acontecia não se esgotava de acontecer. Poderia voltar no verão seguinte que continuava o verão anterior, como se não houvesse um ano entre eles. É o que sinto quando reencontro um amigo – a intimidade é imediatamente reatada ainda que com a separação de décadas. Amar é continuar.

Ajudava no almoço: galinha recheada, queijo derretido. Puxava os temperos dos potes coloridos; o alto dos armários com cortinas vermelhas. Num banquinho alto de circo, misturava meus olhos castanhos com os olhos cinza da avó. Desde lá, meu estômago está nos olhos.

Quando chorava por alguma queda, ela apanhava a lágrima com uma colher e colocava na comida.

- Meu neto, era o sal que faltava!

O forno a lenha afugentava a lareira. Secava as roupas no inverno, amolecidas nas cadeiras. Uma procissão linda aquela de camisas e cuecas compridas no meio da cozinha.

Adorava quando recebia uma advertência: “guri, não te encosta na chapa!”. Fui carvão, lenha verde dos cuidados dos mais velhos.

Era um menino com remendos de couro nas calças, que falava coisas estranhas. Óbvio: coisas estranhas. Coisas estranhas que ouvia do fogo. Quem não ouve o fogo não será labareda.

A residência de madeira funcionava como autódromo para as meias. Escorregava pelos corredores. Melhor uma criança suja do que uma criança limpa. Encardido, tomava banho de chaleira, aos pulos.

Talvez tenha perdido a lógica naquele tempo. Ou encontrado uma lógica mágica, que me mantém de pé nos momentos difíceis.

Minha avó transbordava sabedoria. Como a cesta de vime transbordava laranjas.

Ela que não cursou o Ensino Médio, ela com sua escolaridade de Bíblia. Plantava flores e hortaliças no mesmo espaço. Não fazia distinção entre jardim e horta. Não era para menos que se chamava Elisa Margarida. As ervas vinham perfumadas.

Há eternamente uma folha de rosto numa obra ou em nossa vida que vem em branco. Vem em branco, pois tudo já está escrito nela. Como minha memória até os cinco anos.

Crônica publicada na revista Globo Rural, Ano 23, Nº 273, Julho de 2008, p. 114.

12:02 PM :: Comentários:

ONDE ESTAREI
Desenhos de Vicente (primeiro) e Mariana (segundo)



20/07 (domingo), 10h, Belém (Pará)
ENCONTRO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE LETRAS (ENEL)

Conduzo oficina de criação literária.

23/07 (quarta), 20h, São José dos Campos (SP)
Sesc São José dos Campos

VIZINHANÇAS RUIDOSAS - MEUS OUTROS BEM MELHORES DO QUE EU
Performance e interpretação de crônicas e poemas meus e de outros autores, com a discussão de predileções literárias e apresentação da minha estética “Conficções: confissões inventadas”.


Local: Rua Coronel José Monteiro, 275
Centro São José dos Campos - SP
Tel: 12 3904-2000 fax: 12 3922-9612
e-mail: email@sjcampos.sescsp.org.br

Entrada franca

24/07 (quinta), 20h, São Paulo (SP)
Sesc Pinheiros

O DOM DO CIÚME: UMA INTERPRETAÇÃO MUSICAL DE DOM CASMURRO, DE MACHADO DE ASSIS
Show com os cantores Mona Gadelha e Fernando Chuí
Palestra com Fabrício Carpinejar e Luiz Ruffato
Cenário Virtual com a VJ Mrs


Local: Rua Paes Leme, 195
Pinheiros - São Paulo - SP
Tel: 11 3095-9400

25/07 (sexta), 20h, São Paulo (SP)
ENCONTROS DE LITERATURA CONTEMPORÂNEA
Organização: Digestivo Cultural

Debate sobre "Crônica", ao lado de
* Antonio Prata: colunista quinzenal do Guia do Estadão, colunista da revista Capricho, autor de As Pernas da Tia Corália (Objetiva);
* Elisa Andrade Buzzo: autora de Se lá no sol (7 Letras), co-edita a revista de literatura e artes visuais Mininas.

Mediação: Julio Daio Borges
Local: Casa Mário de Andrade
Rua Lopes Chaves, nº 546 — Pacaembu

Entrada franca

11:55 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 16, 2008

AROMA
Arte de Jasper Johns

Fabrício Carpinejar



Eu gostava quando algum colega ficava doente e surgia a possibilidade de visitá-lo no hospital. As visitas contavam até com horário restrito. Batia-se à porta com o pedido de ‘licença’, arrastando as vogais. Os corredores de azulejos lavados, brilhantes, para fazer silêncio, por favor.

Não era qualquer um que entrava, eu me fartava de predicados. Reagia como um felizardo. Dissimulava o contentamento por educação, armava um suspense com o pesar do momento: "O que houve?/Nossa, meu Deus./ Vai melhorar logo...”

Eu me via como um eleito. Um escolhido sussurrado para festa. Para esses convites, minha alma não tinha varanda, logo estava na rua. Não esperava que ele se recuperasse, não desperdiçaria os primeiros capítulos do espetáculo. Quanto pior, mais rituais. A gravidade acentuava os cuidados médicos.

Infelizmente tive poucos amigos que se acidentaram.

Invejava as dores verdadeiras, as dores de osso, de chapa e cama com manivela. O doente desfrutava de uma campainha ao lado do abajur. Uma campainha só para ele! Uma campainha de dentro para fora. Admirável. Invejava o avental branco de dormir, com corda grossa de padre. E as risadas das enfermeiras que faziam cócegas no queixo e me condicionavam a virar o rosto com a comoção da penugem. Elas trocavam o lençol com uma disposição de domingo. Embevecido, não desgrudava os olhos do crachá azul, as letras vistosas do nome e as lapelas de azaléias.

Soa insensível o que estou escrevendo. Mas a felicidade é um mal-entendido. Quando é compreendida, deixa de ser felicidade para assumir sua posição intermediária entre lembrança e sabedoria.

Eu passeava no hospital. Vestia roupas prediletas e, como quem aguarda a namorada para entrar no cinema, ansiava o longo elevador (vinte andares, uma viagem para cima a um menino acostumado com casas baixas).

O que mais me alumbrava era o cheiro da lancheria. Que cheiro gostoso de tumulto. Não há maior sinal de vida do que lancheria de hospital. O melhor olor criado do fogo. A inquietação de recreio. Vapor de torrada e suco de laranja. A coxinha parece feita na hora, o pastel não é um deprimido bêbado, mil-folhas ainda está na primeira edição. Como não convalescer diante de uma lancheria de hospital?

É o contrário da doença. Na falta de leitos, levaria todos os pacientes para lá. Nada de sopa de ervilha ou comida balanceada. Indicaria a todos os enfermos que inspirassem, a pleno pulmão, os ares da lancheria. Realizaria uma nebulização coletiva com o perfume de sanduíche acordado e leite quente. Borrifaria os rostos com o aroma de crosta dourada e geléia de morango.

O olfato manda no corpo. O olfato nunca se entrega.

Sorte sua de que não sou médico.



2:17 PM :: Comentários:

3X4
Promoção "Blog 500 mil"



Fiz fotografia para a minha nova carteira de motorista. Tudo muito rápido: cinco minutos e ganhei a cartela. Nenhuma ansiedade. Desejava demora no balcão para formar alegria. Saudade do lambe-lambe, aquela sanfona da luz; não espiar antes; guardar a promessa de santinho; alisar a moldura de relíquia.

Poderia contar minha história pelas imagens dos documentos. Na última carta de habilitação (2003), estava de gravata (e cabelo). Lembrava pose de cartório: sério, levemente melancólico. Ou assustado pelos pecados que não contei. Na carteira de identidade, sou adolescente, o nariz sempre megalomaníaco. Visto um moletom bege multifuncional, que usava para futebol, saídas e casa. Era tão ingênuo que não mentia a cor dos olhos.

Para saciar minha nostalgia, quem contar a melhor história sobre sua primeira 3x4 recebe minha pequena foto autografada e uma frase de biscoito da sorte. Deixe o e-mail para contato.

10:09 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Julho 14, 2008

CURIOSIDADE SELVAGEM

Fabrício Carpinejar




Quando perdi a virgindade, não cansava de cheirar minhas mãos.

Como uma criança quando inspeciona as mangas da camisa. Uma curiosidade selvagem.

Nas mãos, a fotografia da minha virilidade. Nas mãos, a umidade derramada da fruta que acabara de descobrir. O derrame da fruta. Um cheiro que nada conseguiria me explicar além do olfato. Um cheiro que pedia que nunca mais a lavasse. Que colocasse minha saúde em risco, se fosse o caso.

As mãos que foram devassas incitadas pelos dentes. Que procuraram um lugar fora de mim. E não desejavam retornar ao alistamento da espuma. Que gostariam de tomar banho seco a partir de agora, como os passarinhos na terra fofa da praça.

Eu me embriagava com os dedos. Os dedos que tocaram o escuro mais claro de minha vida.

Na fileira alta do fim, o rosto deitado na vidraça, aos solavancos das curvas, poucos passageiros noturnos, o motorista louco para terminar sua derradeira corrida e garfar um prato quente em sua casa, e eu envolvido com a textura da pele, envaidecido de ser homem. Não dormiria até a minha parada. A mão imperiosamente me acordava ao coçar a barba. A mão era um ônibus sem cobrador.

Uma mão que não poderia retomar ao seu serviço. Uma mão que não era mais útil, mas estranha e poética, como o esboço em giz que seria depois coberto pela tinta a óleo.

Não era mais uma mão para acenar. Uma mão para cumprimentar e dar boas-vindas. Uma mão para apartar brigas, apertar copos. Uma mão para esconder no bolso, prometer ofensas. Não fazia questão de segurar uma caneta e desperdiçar seu vigor com a própria carne. Uma mão que não tocaria as cordas de um violão com o mesmo gosto. Que não abriria as janelas com o mesmo deslumbramento. Que seria banal e entediada nas festas que tanto gostava, que largaria os talheres mais cedo nos almoços de família. Uma mão exigente, viciada, dependente de outro sorvo.

Um segredo, uma maldição na mão, que a condicionava a crescer e se despedir de antigos deleites.

Uma mão egoísta, egoísta, egoísta.

A mão não seria mais jovem a partir daquele momento. Suas veias dilatadas pela extinção da inocência. Destinada a envelhecer mais rápido, a desdenhar do sofrimento.

Não aceitaria carona, não pediria cuidado. Uma mão febril, indisposta ao quique da bola e à arruaça dos amigos pelo jogo.

Uma mão triste por ser a última a ficar no quarto. A última a lembrar. A última a doer a despedida.

Cuidava para que ninguém me olhasse e cheirava novamente. Minha cola de sapateiro. Meu loló. Meu blusão de unhas embebido de pomar e neblina. Inspirava fundo, enchia o pulmão, sem me preocupar em perder a consciência.

O cheiro do sexo dela.

Toda nudez de uma mulher ainda estava deitada no dorso da mão.

9:22 AM :: Comentários:


Sábado, Julho 12, 2008

ONDE NINGUÉM NOS ENCONTRA

Fabrício Carpinejar


Primeira comunhão de minha mãe, setembro de 1945

Esconde-esconde tinha sido criado para espíritos corajosos.

Expedições ansiosas pela noite, com os soluços da coruja e os movimentos recônditos dos bichos nos galhos. Mexer num arbusto poderia render os olhos estatelados de um guaxinim e a pontada cardíaca pelo imprevisto.

Aos sete anos, minha mãe era sempre escalada pelas mais velhas a contar na figueira. Sofria a síndrome de ser a caçula do grupo. O bode expiatório. Parecia que pulava corda ao andar, devido às tranças longas até a cintura. As colegas se divertiam com sua demora em encontrá-las. A brincadeira não acontecia dentro de casa, na previsibilidade de armários e camas, que apressaria encontros e gemidos da descoberta, mas no longo quintal, quilômetros entre árvores, riacho e rochas.

Minha mãe estava cansada naquela tardezinha. As meninas dispararam para seus esconderijos, transbordando algazarra. Maria iniciou a contagem e desistiu. Suspirou "pronto" para ir embora, enfim exausta dos desmandos, não "pronto" para caçar suas amigas.

Ficaram horas sem se mexer, prendendo a respiração, encalacradas em desvãos, estátuas de cera intuindo que Mariazinha contraía dificuldades para localizá-las, que dessa vez seria o mais longo esconde-esconde da infância e uma gozação interminável de sua lerdeza.

Quem saiu a procurá-las foram os pais, com lanternas e matilha de cães, assustados com a falta de notícias e o tardar da lua. Uma procissão incessante de apelos. Todas ficaram de castigo. Algumas apanharam de cinto pela pior desobediência que uma criança poderia impor aos seus pais no interior: a de não regressar para a residência antes das 22h.

Menos Mariazinha que já estava dormindo tranqüila em sua cama, alheia aos efeitos de sua ausência. Foi sua vingança. Ela se escondeu melhor do que os outros.

Esconderijo perfeito é não se ocultar.

11:23 AM :: Comentários:



11:21 AM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 10, 2008

VOCACIONADO AO AMOR
Arte de Jim Dine

Fabrício Carpinejar



Sou confuso hoje; você não tem idéia de como era quando vestibulando.

Parti ao teste vocacional convicto que descobriria o que cursaria em minha vida. O teste seria minha cigana, minha cartomante, deflagraria meu destino e apenas me conformaria a seguir o veredicto. Sonhei com búzios, velas e o perfume misturado de todos os perfumes de uma loja de incenso. Algo místico, doente de escuro e milagres.

A decepção é que não analisaram as linhas das mãos, um professor alcançou o lápis e um formulário neutro e me indicou a preenchê-lo. Sem nenhuma clarividência e conversa, atendi às instruções do cabeçalho da folha. Desenhei algumas formas a partir de frases, talvez árvores e um casarão com chaminé. Risível foi esboçar uma família com riscos de palitinho. Amarguei a sensação de regredir ao jardim da infância, com nome bordado no avental. Notei perguntas repetitivas e busquei elaborar uma versão diferente para cada uma delas. Enquanto os colegas terminavam rápido, esmerava nos detalhes.

Meu raciocínio extravagante: esbanjar criatividade questão a questão. Assimilei bem depois, na cocheira do recreio com os amigos, a natureza pega-ratão das perguntas. O teste procurava coerência, definição de opinião, harmonia dos depoimentos. Ou seja, tudo o que não fiz. Na compulsão de ser inventivo, devo ter aparecido desequilibrado, mentiroso e fugindo da realidade.

O mais espantoso do exame foi o resultado: meu perfil indicado para Engenharia. Dediquei duas décadas para desmerecer a revelação. Não duvido que não cismei com o norte e migrei ao sul. Recebi a direção da consulta e articulei meia-volta, passos enérgicos para o caminho contrário.

Concluí o jornalismo, cursei mestrado em Letras, virei professor universitário, e meu maior prazer é a literatura.

Pensando contigo, com seus olhos atentos ao meu texto, eu poderia não ter feito nada disso, é uma heresia o que estou escrevendo, mas só penso agora em fechar a janela da sala para não pôr um casaco.

Se uma profissão pede, o amor exige vocação.

Não consideramos o amor com a mesma seriedade. Como a decisão de uma vida. Ele é relegado à casualidade e ao arranjo provisório da idade. Agora sim, atingi o ponto: acredito sinceramente que sou vocacionado para amar. Todo homem é vocacionado a uma mulher, toda mulher vocacionada a um homem. Vocação é encontrar um grau inabalável de confiança que as frases dos dois não poderão mais ser editadas em separado. É nem se dar conta que está beijando ou falando, porque falar é beijar. Ao viver sabendo que ela existe, mesmo longe, o longe não será mais distante. A felicidade profissional começa na residência. Depois de residir.

Gostaria de ser dona de casa. Servir uma mulher.



11:42 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Julho 09, 2008

IDENTIDADE SECRETA (SEXTO DESAFIO)
Da série "Blog 500 Mil"



Essa é fácil... Acordei generoso. De quem é o dedão? Dica: é um clássico vivo, aliás vivíssimo.

O primeiro que delatar o inquilino da identidade será contemplado com um brinde (não esquecer de pôr o e-mail nos comentários). Proibida a participação de premiados anteriores, das próprias vítimas ou de seus familiares.

QUINTO DESAFIO (RESPOSTA CERTA)



Fim do mistério. O menino que dava leite ao cabrito (Será que não era cachaça? O riso do moleque não engana) é Marçal Aquino, autor da excelente novela policial "Cabeça a prêmio" (Cosac e Naify, 2003) e dos contos preciosos de "O Amor e outros objetos pontiagudos" (Geração Editorial, 1999). Aquino aparece acima alugando sua torcida para o Inter.

O vencedor da promoção foi Érico Fumero, que atualmente mora e estuda na Espanha.

9:04 AM :: Comentários:


Terça-feira, Julho 08, 2008

NEGÓCIOS À PARTE, SERÁ?



Mais histórias de amor. Jovem de 25 anos está apaixonado por colega de trabalho:

"Agora não sei como devo me comportar, uma vez que trabalho praticamente ao lado dela. Não tenho condições de continuar mantendo contato com ela, porque atualmente tenho sentido o gosto amargo do desprezo. Como devo agir numa situação dessas?"

Confira minha dica de amigo. Pode pôr Cartola na vitrola. Chuva de rosas vermelhas no Consultório Poético.

9:10 AM :: Comentários:





Sou o convidado do tradicional ENCONTROS COM O PROFESSOR. Na quinta-feira (10/7), às 19h30, Ruy Carlos Ostermann me fará falar o que não desejo e desejar o que não falo. Na canja musical, Bossa Nova 50 anos.

Quem:
Fabrício Carpinejar
Quando:
10/07/2008 às 19h30min
Onde:
StudioClio (José do Patrocínio, 698), Porto Alegre (RS)


8:46 AM :: Comentários:


Domingo, Julho 06, 2008

CONSTRANGENDO DE TERNURA
Arte sobre tela de Paul Klee

Fabrício Carpinejar



No sul, quando alguém alcança o chimarrão com a mão trocada, reage com carinho:
- Desculpe a mão.

É um cuidado redundante. Uma suavidade educada, que expande os ouvidos para escutar logo mais o ronco de satisfação da cuia.

Pai é uma figura desajeitada. Não que seja intencional, ou que se esconda em seus tropeços para ser perdoado. Uma figura atrapalhada mesmo.

Como pai, eu peco por me demorar no abraço e confundir ternura com constrangimento. Meus filhos não querem escândalo, alucinados por uma fresta para sair daquele paredão paterno a demonstrar todo o amor do mundo no meio da rua e na frente de seus colegas. É certo isso, eu vivo constrangendo minha família de ternura.

Assim adoro falsas despedidas. Não me encabulo ao dizer tchau para uma pessoa e, em seguida, reencontrá-la e renovar o tchau ou recomeçar o papo para acenar de novo. Constatei que a maioria, depois de entabular o fim da conversa, não encara mais o amigo, com vergonha de repetir o gesto. O simpático “até logo’ transmuda-se em conservadora indiferença.

Pela primeira vez, minha filha Mariana, 14 anos, assistiu minha apresentação. Estava em sua cidade, Brasília, e, no dia seguinte, me acompanharia para as férias de julho no Rio Grande do Sul. Participei do Jardim da Filosofia, debate e leitura de textos com Viviane Mosé e Sylvia Cyntrão. Ninguém do público poderia adivinhar o que significava aquele encontro para mim.

Para um clássico sujeito desajeitado, fiquei ainda mais desajeitado. Minha menina que já é uma mulher, sentada na fila inicial, procurava definir o que afinal eu falava, escrevia, fazia. A luz estava em mim porque a luz não compreendia de onde eu partia. Era um julgamento de seu amor. Ou um julgamento do meu amor. Durante toda a noite, segurei seus sessenta quilos no colo das minhas olheiras e a leveza me levou. Recordei quando a levava para dar comida aos cisnes no parque e ela brincava que seus dedos eram os dentes das aves, e esfarinhava o máximo possível o miolo antes de lançá-lo. Recordei de nossas falsas despedidas, quando doía explicar a distância e não ter voz para as palavras, ainda que juntando a minha e a dela.

- Pai, não me deixa esquecê-lo.
- Não é um adeus...Volto em breve.

E guardava sua camisa gasta entre as minhas roupas para reaver a vontade de respirar.
E suportei suas viagens para cada vez mais longe, em função do trabalho de sua mãe.
E prometia que nada nos separaria. Por vezes, desenhava seu rosto com meu traço tosco e perdido, para completar as fotografias que não tirei de seu crescimento.

Ela não me olhava, olhava para o público rindo, olhava para o público chorando, olhava o que os outros olhavam de seu pai, como que desejando roubar só para si a emoção dos outros.

Li o poema final, dedicado a ela, de joelhos. Não era mais um escritor, mas um pai ajoelhado, barca rezando remos. Ao terminar, alcancei minha folha de versos com a mão esquerda.

- Desculpe a mão, minha filha, mas é a do coração.

11:28 AM :: Comentários:

A PRÓSPERA RECEITA DO SOFRIMENTO
Amor em Minúscula, do espanhol Francesc Miralles, embaralha as fronteiras entre a literatura madura e a infanto-juvenil

Fabrício Carpinejar
Especial ao Estado


PARA A MALÍCIA DOS PAIS - Não é possível saber se piadas de um filme como 'Deu a Louca na Chapeuzinho' serão compreendidas por crianças

Os limites entre a literatura infanto-juvenil e adulta estão cada vez mais tênues. Animações infantis disputam igualmente o fascínio dos pais e dos filhos - e os pais demonstram um entusiasmo bem maior na saída do cinema. Já não diferenciamos se as piadas de Deu a Louca na Chapeuzinho ou Deu a Louca na Cinderela, por exemplo, serão compreendidas pelas crianças, porque destinadas primeiramente à malícia adulta. Ou o que se dirá do cinismo escatológico de South Park?

A literatura entra na mesma confusão sentimental e simbiose de público. Penso nisso ao ler Amor em Minúscula, romance do espanhol Francesc Miralles, autor também de livros juvenis e de viagens. Depois do bombardeio da auto-ajuda, será que os adultos estão se infantilizando e desaprendendo a ler?

O romance de Miralles é impecavelmente construído para ser compreendido. Didático, de tal maneira a pontuar a história com explicações e repetições, para ninguém se perder no caminho. Traz - óbvio! - uma plataforma de autoconhecimento, uma espécie de corrente do bem: ao ajudar alguém, abre-se uma rede de casualidades favoráveis. O enredo é apenas uma parábola para a lição moral.

Um professor de filologia, Samuel, vai virar o ano sozinho. Nada muda em sua rotina. Do caminho à aula na universidade, da universidade ao apartamento, com faxinas sistemáticas e eventuais peregrinações a um cinema de bairro. Um gato arranha sua porta e adota o quarentão como seu novo dono, apesar da resistência eremita.

O felino o ensina a arte da confidência, da partilha dos cômodos intelectuais, e o leva, ao se refugiar no andar de cima, a conviver com o vizinho, o excêntrico e idoso Titus, redator profissional, que elabora livros de fundo metafísico e otimista com pseudônimos, justamente na linha de Amor em Minúscula. Após firmada a amizade, o velho adoece, baixa o hospital, e repassa a missão ao protagonista de finalizar um inédito iniciado, Pequeno Curso de Magia Cotidiana.

Samuel aceita o desafio de colaborar. Como recompensa, reencontra uma paixão da infância (Gabriela), responsável pelo primeiro beijo - inesquecível diante de uma existência emocional vazia, debaixo de uma escada e com o farfalhar das pálpebras no rosto masculino - e conhece Valdemar, um andarilho que não se desgruda do original A Face Oculta da Lua, que aspira sacudir os segredos da humanidade.

Repertório básico para ambições grandiloqüentes. A partir daí, a velocidade da leitura torna-se galopante, facilitada pelos capítulos curtos. A ação é superficial, simples deslocamentos para ancorar longos diálogos sobre o sentido da existência e do amor. Não há densidade, exploração psicológica das cenas. Os encontros terminam fortuitos, milagrosos. Nem o destino seria tão indulgente. O escritor tende a transmitir ensinamentos mais do que fundamentar espaço e o tempo da narrativa. Os personagens são escassos (em seguida, surge somente a veterinária), planos, unidimensionais, definidos por uma ou duas observações.

O final desembaraçará feliz, sem ceder às falsas expectativas, anticlímax e reviravoltas. O roteiro linear não promete surpresas materiais, somente descobertas interiores. Os títulos dos capítulos remetem aos conselhos e manuais da não-ficção: 10 mil Maneiras de Dizer ''Te Amo'', Desaprender o Aprendido, Quebrar o Ovo, O Cárcere do Coração, Satisfações. O power point infiltrou-se em definitivo na literatura. Para completar o quadro, faltaram as imagens de mar e montanha de como vencer o isolamento.

Assim dito, Amor em Minúscula sugere ser descartável. Essa é a complicação - ele não é, ao incutir citações sábias e passagens memoráveis de poemas de Mishima e fragmentos de Goethe e Bukowski, e epístolas de Kafka. Emociona o trecho da carta a Milena, em que o autor de Metamorfose se desculpa por não escrever ao se ocupar em estar com ela na imaginação.

Miralles cria dúvida hermafrodita com a inserção das leituras de Samuel, que reveza suas revelações com a preparação das aulas universitárias. Desenvolve, portanto, a sobreposição de uma riqueza bibliotecária sobre um fundo pobre. É o caso do dicionário de palavras solitárias, que só existem em determinado idioma. Como não se entusiasmar com sua aparição no volume, ao apresentar uma palavra japonesa como Mono no aware, que significa a epifania ''tristeza das coisas''?

A terra não é de toda devastada. Entre tantas legendas, sobrevivem particularidades poéticas como a descrição do extremismo do gato: ''o animal não consome energia em estados intermediários. Age ou descansa. Quando age, o faz como se jogasse a vida naquilo. Quando descansa, como se nunca mais fosse levantar. Não perde tempo com hesitações.''

Francesc Miralles emprega o método de educação sentimental, tendo como influência Demian (1919), do alemão Hermann Hesse, o qual refletia a doutrina de Freud e o onirismo expressionista que despontavam na época. Abissal a diferença entre os dois. Em Hesse, o personagem Sinclair será encaminhado ao que ele não entende, admitindo o doloroso sinal de Caim em sua testa. Em Amor em Minúscula, Samuel, ainda que mencionando símbolos de Demian, entende tudo o que ocorre, numa explicitação integral de sua vontade. Noventa anos de um a outro e resta concluir que o mistério do sofrimento agora é receita de sucesso. Na compra de um exemplar, recebe-se miniatura de um gato. A literatura ficou pelo caminho.


Amor em Minúscula
Francesc Miralles
Tradução de Luis Carlos Cabral
Record, 288 págs., R$ 30


Publicado no jornal O Estado de São Paulo, Caderno 2/Cultura, P. 4, 06/07/08

9:42 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Julho 04, 2008

AFIADO DEMAIS
Arte de Marc Chagall

Fabrício Carpinejar



Nunca acertava o momento de largar o apontador.

Apontava duas voltas e parava, via que a ponta do lápis estava boa, mas ainda não era ideal e continuava. Mais duas voltas, as tiras da madeira se amontoando na classe e pensava que poderia avançar mais um pouquinho. No meio da última volta, quando suspirava de satisfação, o grafite quebrava.

Não absorvia a lição, e recomeçava. O capricho me impelia: arredondar a cabeça, afiar a pequena lança de meus deveres escolares. Não encontrava a hora de cessar, confiava que acertaria na próxima tentativa e fracassava. A ponta perfeita terminava presa no apontador de metal. O lápis ia diminuindo. E recomeçava até admitir que minha letra não deslizaria como desejava, ficaria borrada e que somente o uso abrandaria as lascas.

Levamos o preciosismo ao casamento. Não definimos o instante de interromper a caça pela ponta perfeita. Exigimos muito de quem amamos. Vejo sinceramente que exigimos aquilo que não exigimos nem da gente. As brigas tornam-se absurdas, sem controle. O humor é compreendido como deboche. A consolação é recebida como crítica. A solidariedade é distorcida como confissão dos erros. Uma pausa em silêncio para remontar as idéias e já estamos sendo inquiridos pela estranheza. Repetir mais de uma vez um nome feminino e inauguramos uma adversária. Não ouse dormir cedo ou aparecer tarde, que é certo de que não valoriza o convívio e aproveita a vida com os amigos.

Pode deixar uma manhã livre para ajudar sua mulher numa tarefa profissional, que ela não lembrará na próxima semana. Pode freqüentar mais vezes o mercado, apesar de detestar, e ela comentará que não colabora em casa. Se você não cozinha, terá que engolir toda noite a sentença de que não planeja as refeições ou contar com um crédito infindável no banco para chamar comida. Pode passar a tarde livre com os filhos, ou criar uma tarde para os filhos, que ela comentará que vocês vivem se divertindo. Pode tentar trabalhar loucamente para produzir algo realmente bom, e ela não entenderá a importância daquilo. Talvez diga que permanece trancado no escritório ou viajando. Nada será suficiente. Seu cansaço será identificado como falta de ânimo; sua distração será descuido. Discutirá por qualquer coisa pela birra de restabelecer a justiça. Devolverá que não é bem assim, mas não terá graça nenhuma. Reiterar o que foi feito espontaneamente é o mesmo que jogar na cara. Defender suas ações soará como um pedido de recompensa e perderá a legitimidade.

E não confie que ela está errada e só você é que sofre. Faz o mesmo com ela de outros modos.

O intrigante – que o confunde ainda mais - é que ela realmente o ama, só que jura que pode dar mais do que está oferecendo e cobra aquilo que não existe.

No casamento, demora-se a aceitar que a ponta é para escrever, não para ferir ou furar o papel.

10:16 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Julho 03, 2008

FÁCIL SER SÁBIO NA TRISTEZA, DIFÍCIL É SER DENSO NA GRAÇA
Entrevista coletiva Da revista digital Vagalume. Respondi perguntas de 14 convidados especiais.



Organização e edição Cida Sepulveda
Arte de Tàpies e foto de Sylvia Cyntrão



Moacyr Scliar, escritor, Porto Alegre

1. Se você se considera parte de uma geração literária, e como caracteriza essa geração?
CARPINEJAR: Querido Scliar, vejo que o termo geração está sendo banalizado. A cada dois anos, surge uma nova geração. Uma proliferação mais rápida do que Gremlins (para usar um filme de minha adolescência). Assistimos à formação instantânea de gerações literárias: geração computador, geração internet, geração I-Pod, geração You Tube. Geração não é para ser merchandising de produtos e suportes.

Em muitas antologias, estão confundindo turma com geração. Claro que há turmas que se transformam em geração, mas depende da qualidade ambiciosa de suas obras. Um exemplo: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Rubem Braga, Manuel Bandeira conviviam generosamente na mesma cidade, trocavam noções e vingaram estilos e apanhados de mundo. Eu tenho hoje turma. A geração dependerá da nossa sobrevivência poética. Da gula de um de nós que supere as exigências da época. Acho que sempre há um tipo desregulado, que dá mais do que é pedido e puxa uma geração para frente.

O que posso dizer é que contemporâneos são referências para o trabalho um de outro (inclusive meu), mas terão ainda que se constituir em referências para os livros de quem ainda nem nasceu.

O curioso é que de repente eu farei parte de uma geração com nomes que nunca tive amizade, muito menos cumplicidade. Só que as estéticas se aproximaram. Dez anos é muito para mim e meus conterrâneos da escrita, pouquíssimo diante do tempo da literatura. Daqui a cinqüenta anos, saberei responder qual é o meu lugar fora de mim.




Cecília Prada, jornalista e escritora
2. Você tem alguma dificuldade específica que tenha de vencer (ou já tenha vencido) na sua escrita?
CARPINEJAR: Sempre tenho alguma coisa para superar, e não é discurso de jogador de futebol. Todo livro é estréia. No começo, em especial em As Solas do Sol, era muito imagético. Profusão de metáforas, numa libertinagem pictórica. Eu me satisfazia em ver, descobri depois que isso era pouco, o outro também precisava enxergar comigo. Apagava o rastro para não ser seguido. Hoje deixo o rastro para ser encontrado. O poema é entusiasmar o interlocutor a se encontrar me encontrando. O esconde-esconde funciona se alguém descobre o esconderijo. Tem que demorar; é o ideal para a brincadeira; mas o autor precisa ser localizado. Nem cedo demais, muito menos nunca, senão o leitor desiste e o escritor dorme. Com “Um terno de pássaros ao sul”, as imagens dividiram o espaço com o pensamento e a narrativa. Em “Cinco Marias”, acho que combinei melhor os três elementos fortes em mim, não deixando nenhum dos três (aforismo, música e metáfora) aparecer em excesso.

Minha perspectiva é contaminar minha poética de humor, como sou no meu dia-a-dia. Muitos leitores levam um susto quando me conhecem: aguardam um poeta taciturno, deprimido e sério, fiel aos seus poemas reflexivos e doídos, e se defrontam com um tipo debochado e irreverente. As crônicas estão me ajudando na transfiguração. O desafio agora é rir sem perder a poeticidade. Falta alegria na poesia brasileira. É fácil ser sábio na tristeza, difícil é ser denso na graça. Gostaria de arrancar dentes com o riso.

Luci Collin, professora da UFPR, escritora

3. Valéry diz que um poema nunca é concluído, apenas abandonado; como é seu processo entre conceber e finalizar um poema?
CARPINEJAR: Concordo com a tese de Valéry: poema se abandona. Meu processo é simples: memorizo um livro inteiro, e vejo se a memória é capaz de guardá-lo. Um jogo de vontade durante dois anos. Caso não, ela realiza meu trabalho de lixeira. Sou ao menos ecológico.

Se o livro desaparecer, haverá backup de alguns versos, que voltam pedindo esmola. Os verdadeiros poemas não se entregam ao esquecimento. Fico tranqüilo.

Na hipótese do livro persistir, ponho no papel.

A memória é uma atenta ouvinte. Tende a queimar a gordura, o dispensável, guardará o osso da luz, o necessário. Ajustará o ritmo. Essencializa o discurso. Os versos ficam assobiados, magros, mas firmes. Assim também desenvolvo o caráter narrativo, pois é a história que conservará o fio entre eles e sua posição na página aérea.



Margarida Patriota, apresentadora do Programa Autores e Livros da rádio Senado, escritora

4. O que acha da poesia de Carlos Nejar e como a poética do filho se relaciona com a do pai?
CARPINEJAR: O pai escreve com violência, ele dedicou sua vida a carpintar seus olhos verdes. Foi tão severo consigo como um eremita no deserto. Ele deixou muito de sua vida no caminho para dar tudo de si aos leitores. Talvez esse seja a origem do meu ciúme: os leitores sempre vão receber, como eu e ao mesmo tempo, o melhor de meu pai. Seria bonito humanizar a literatura e notar o esforço de um homem para ser amado e lido. O escritor é tão carente que só responderá por escrito. Desmerecemos o sacrifício.

Meu pai completa no ano que vem 70 anos: 49 anos dedicados à literatura. Em outro país, não precisaria estar se defendendo ainda e procurando seu espaço.

5. Tudo o que se diz poesia é poesia, no entender de Carpinejar?
CARPINEJAR: Não, muitas vezes é trocadilho, carta de amor, tese acadêmica, embalagem de lexotan. A disposição do poema é de menos, vejo que há escritores que pensam que distribuindo estrofes estão fazendo poesia. O que vale é o espírito poético, criar silêncio entre a mão direita e a mão esquerda. Um silêncio interrogativo: espantar-se com a linguagem.

Mauricio de Melo Júnior, escritor, apresentador do programa Leituras, da TV Senado

6. Um Terno de Pássaros ao Sul é o filho que fala da ausência do pai. Meu Filho, Minha Filha é o pai sentindo a ausência dos filhos. O que une e o que separa os dois poemas?
CARPINEJAR: Não escreveria um sem o outro, São complementares. Escrevi “Meu Filho, Minha Filha” (2007), que descreve a vida paterna com dois filhos, um morando longe e o segundo sob a minha guarda, porque tinha feito “Um terno de pássaros ao sul” (2000), que é uma carta emocionada de um filho adolescente ao pai distante. Terminei revisando “Um terno de pássaros ao sul” (2008) porque fiz “Meu Filho, Minha Filha” (2007).

Fui filho de meus filhos e quis tentar ser filho de novo com o meu pai e pai de novo comigo mesmo. Que roda-vida, não?

O que separa os dois poemas é perceber que o pai que recebi de minha mãe não era meu pai, mas o marido que ele tinha sido para ela. Foi um divisor de rosto. Eu unicamente posso cobrar da minha experiência, não de lembranças emprestadas. Ser justo é imaginar na proporção em que se vive. Voltando: sei perdoar. Perdoar a vida por não ser como eu queria ou como ela desejava que fosse. Sei também viver o que a vida não me dá.

7. Há uma estrutura épica em seus poemas. Eles nascem com a pretensão de esgotar o assunto ou é a necessidade íntima do poeta que leva a essa estrutura?
CARPINEJAR: Uma necessidade íntima de contar uma história cantada. É chato o leitor receber um diário ou uma agenda, fragmentos e pedaços de idéias, quando procurava um livro. Propaganda enganosa, diria. Sou de uma família de contadores de histórias no almoço e na janta. Desde a infância, coletava gafes e acidentes afetivos para descrever aos meus irmãos e conquistar a simpatia de sua atenção. Eu me sentia importante sendo ouvido. Até hoje, quando escrevo, escuto a risada de Carla, Rodrigo e Miguel no fim de minhas frases.

Bruno Ribeiro, poeta, jornalista do Correio Popular de Campinas

8. Uma questão que nunca encontra consenso no Brasil diz respeito às diferenças entre o poema e a letra de música. Há quem defenda que Chico Buarque - para dar o exemplo clássico - seja tão poeta quando Bandeira ou Drummond. Mas há quem tenha a opinião contrária: a de que ele seria tão somente um letrista, um compositor popular. Qual é a sua opinião?
CARPINEJAR: O poeta é um status para quem não é poeta. Para quem não é poeta, é um elogio, como a dizer o quanto é sensível, perceptivo e espirituoso. Para quem é, trata-se de um desaforo, quase uma ameaça de que ele não terá chance editorial. (risos)

Chico Buarque é um grande compositor, como Cartola, Lupicinio, Caetano. Não é poeta. Suas melodias são tão intensas e inesquecíveis quanto as letras. Seria uma agressão desconsiderá-las e boicotar o casamento entre música e sentido. Para que divorciar o casal que se ama?

Poeta é solteiro, letrista é casado. Isso muda tudo.



Marcelino Freire, escritor, São Paulo

9. Seus pais são prestigiados poetas idem. Como isto refletiu na sua criação? A poética? Outra: pensa em lançar algum livro tipo: "Meu Pai, Minha Mãe"?
CARPINEJAR: Tudo. Ter pais poetas é como receber um interurbano a toda hora de maravilhamentos. Eles soltavam paradoxos, distrações, devaneios na conversa mais chão. Em casa, até o inço era elegante. Nada estava imune ao lirismo. As calhas formavam também horta. Árvores da água. Eles me estragaram por completo pelas beiradas do raciocínio. Nunca me forçaram ou me convidaram a ser poeta, nem necessitavam. O que é intimação perto da intimidade? Estava mais torto do que ladeira em Minas.

Não penso em lançar o livro – risos – com esse título. Publicar minha biografia seria redundância.

10. Você tem feito, via blog, uns poemas mais longos. Um lado meio crônica, digamos. Anzol de costumes. Pergunto: quando sairá um livro de contos do Carpinejar? Um romance? Fôlego você tem e amém.
CARPINEJAR: Pois é, eu não prometo, a última vez que prometi foi para minha avó de que seria santo, em 1978, e não consegui cumprir o voto. Peguei o ônibus errado. Foi meu primeiro calote eleitoral. Não quero que minha poesia pareça plataforma para romance. Quem tem plataforma é companhia de petróleo. Sou poeta, com tudo o que há de errado e virtuoso em mim. Meu início é meu fim. O grandioso da limitação é que ela me torna leal.

Frederico Barbosa, poeta, diretor da Casa das Rosas, São Paulo

11. Querido Fabrício, nós temos lutado muito pela divulgação da poesia e pela profissionalização do poeta no Brasil. No entanto, já fomos rotulados, ambos, como "poetas comerciais"... Como lutar contra este preconceito? O que poderíamos fazer mais para livrar a poesia do estigma da falta de leitores?
CARPINEJAR: Frederico, amigo, quando Marcelino me pergunta por que não faço um romance, nunca cogito a idéia, agora mais do que nunca (no futuro, quem dirá?), porque seria abandonar a poesia ou tratá-la como um rascunho de rio. Gosto de jogar no time mais fraco, porque a fraqueza traz humildade e união. Somos comerciais, que bom que estamos no mercado para abrir espaço. Pior se estivéssemos fora do mercado fechando espaços. Foi-se o tempo em que vender ou ser comunicativo era um estigma. Vender livros, não se vender para os livros, é o desejo de todo escritor, manter honestamente sua família pelo seu trabalho e criar um diálogo sério e real com a leitura. A única forma de enfrentar o estigma é a generosidade crítica. Não perguntar quem é o autor, perguntar quem é o livro desse autor. Fugir do compadrio. Deixar que as obras falem mais do que as orelhas e notas biográficas.

Acho que uma possibilidade de aproximação com leitores é a intervenção, a leitura pública, a contação de histórias, os saraus e as performances. A poesia nunca foi conservadora. Existe desde o Homero e sempre se renova para se aprofundar. Sei que fez raves poéticas na Casa das Rosas, certíssimo, o que prova que somos filhos da insônia!

Maria Alexandra Rodrigues, professora de educação da UNB, escritora

12. De onde brota a tua paisagem poética?
CARPINEJAR: Da banalidade. O que é irrisório tem grandeza de sobra. Não me interessam os grandes acontecimentos, porém os mínimos trejeitos que são esquecidos logo quando feitos. O que nos define é o que não observamos. O que não serve como objeto de decoração para pôr na estante. Guardo malas antigas, por exemplo. Elas são mais pesadas quando estão vazias. Carregadas daquilo que ficou de fora. Poesia é transportar o que não foi escolhido.

13. Como acontece o movimento da criação, desde a tua expressão vital no mundo até o milagre da palavra?
CARPINEJAR: A palavra é um milagre mesmo. Um teatro de fantoches com as unhas. A consciência de que foi escrever de manhã, com um cafezinho preto e uma janela resmungando os ventos do terraço, me transmite uma alegria furiosa que fico ainda mais disposto para beber a minha noite. O poema se conclui muito antes de escrevê-lo, da véspera, do longo desejo de cumpri-lo, da espera silenciosa e ardente da audição. Escrever é uma preparação inesgotável, agradeço aos filhos que insistem em me tirar do computador para me perguntar alguma coisa que viram. A lição é essa: na literatura nunca seremos interrompidos, estamos sempre escrevendo com a tinta invisível da boca. No ar ou em algum rosto. Agradeço a rotina, pois repetir é aperfeiçoar.



Nelson de Oliveira, escritor, São Paulo

14. Fabrício, atualmente eu estou dando aula no curso de pós-graduação Formação de Escritores, da ESDC, daqui de Sampa. Você acredita na legitimidade desse tipo de curso? Na sua opinião as pessoas interessadas em iniciar uma carreira literária podem se beneficiar da metodologia da educação formal e institucionalizada?
CARPINEJAR: Sem dúvida, formar escritores é formar leitores especializados. Não diria que cursos criam escritores do vácuo, mas definem vocações um tanto inseguras, que podem crescer mais rápido com as orientações de autores experimentados. O primeiro passo destinado a profissionalizar a literatura será diminuir o isolamento. No isolamento, não há como o autor inédito saber se está sendo genial ou patético. Pode ficar anos com essa dúvida trancada na gaveta e não sair à tona. Carece trocar vivências, apresentar seus trabalhos, ouvir os colegas, expor-se e se fortalecer de claridade. No escuro, os olhos acabam demasiado frágeis.

Assim como é fundamental que escritores sejam convidados a conduzir cursos nas universidades. É um modo de arejar a mentalidade acadêmica para o estudo da literatura. Defendo que cursos de letras do país ofereçam oficinas de criação aos seus alunos. Como entender um texto por fora sem nunca tocá-lo por dentro?

Cida Sepulveda, escritora, Campinas (SP)

15. Fabrício, tenho refletido muito quanto às condições de produção do escritor. Não seria o caso de, independentemente de divergências artísticas e filosóficas, nos unirmos e batalharmos espaços concretos nas políticas culturais do estado brasileiro, desde o espaço educacional, onde se cultiva o leitor, até espaços e recursos para o artista trabalhar e veicular sua arte, de forma mais humana do que simplesmente ficar à mercê do mercado editorial, ou da falta deste?
CARPINEJAR: As editoras são organizadas, os livreiros são organizados, os distribuidores são organizados. Unicamente os escritores não são, e depois reclamam da falta de representatividade. Nossa postura é monárquica, cada escritor jura que é um reino à parte, não é capaz de se dedicar aos demais sem ser diretamente beneficiado. É um egoísmo tremendo, não desembarcamos na democracia. A pior vaidade é a que vem das idéias. Observo que temos que sair da dependência das instituições culturais e governos, sempre provisórias. E lidar com o mercado com coragem, formalizar um sindicato forte, estabelecer planejamento e oficinas em estados menos favorecidos. Não adianta mais inaugurar associações, centros literários e academias beletristas, que alimentam as colunas sociais das cidades.

Se o esterco é fertilizante, renuncio o trono, eu me disponho a ser esterco para a próxima colheita. Serei mais útil como esterco do que como rei. Desde que permita o surgimento de um novo Drummond dentre os novos.



Paulo Bentancur, jornalista e escritor, Porto Alegre

16. A poesia é um gênero severo, impõe limites dentro dos quais voa alto, longe (se é poesia de fato). A sua, com relação aos limites, reagiu ao contrário, possibilitou a crônica (gênero pertencente à prosa) sem ausentar-se. Encontramos o estilo inconfundível de Carpinejar a cada linha, poema ou prosa, na maioria dos autores gêneros antagônicos e na sua obra um provocando ao outro. Concordas com essa observação ou não? Poderia consertá-la ou ampliá-la?
CARPINEJAR: A poesia não perde a severidade na descontração, e a alegria na tensão. Uma criança, por exemplo, é concentrada quando brinca. A crônica é um gênero singular. É para ser mais mundana, direta, exposta ao pensamento enquanto falado, diversa do poema que é um pensamento enquanto escrito (cuidado: não significa solenidade). Nas duas frentes em mim, a mesma pulsão de desconcertar o lugar-comum e permanecer do lado mais fraco. De ressuscitar o instante perdido e restabelecer uma segunda chance aos costumes. As formas são diferentes, o ímpeto é o mesmo. E estilo é mudar de roupa sem jogar o corpo fora. Alguns podem – sem querer - jogar o corpo fora. Igualmente o poema e a crônica não permitem o ausentar do escritor, este é o ponto falho da questão. São os gêneros mais pessoais da literatura. O individual é o acesso ao toque. A experiência é fundadora da cumplicidade. Ao comentar os meus bonecos carbonizados no fogão à lenha durante a infância, estarei sendo mais universal do que ao falar genericamente do fogo.

Se fizesse um romance ou um conto, concordaria contigo. Portanto, sou Carpinejar no poema e na crônica e no café-da-manhã e respondendo sua pergunta.

4:46 PM :: Comentários:

(...)



Paulo Castro, psiquiatra, escritor, Campinas (SP)
17. A literatura tem alguma função? Ou sua função é basicamente a instauração de uma "desfuncionalidade"?
CARPINEJAR: A função da poesia é fragilizar, e ela faz muitíssimo bem. Concentrar o ato numa linha, uma vida num verso, uma alma num solitário gancho de cozinha. Abarca momentos de decisão. Qualquer poema é tudo ou nada. Inspira à pressentificação. A palavra desarma com sua despretensão onírica. Com a poesia, somos vulneráveis. Não podemos mentir. É um detector de verdades.

18. - Os escritores hoje podem escrever em vários cantos. Fanzines, blogs, sites, muros. Mas ainda assim, lutam pela publicação. Nesse cenário gostaria que você comentasse: o livro virou fetiche, pouco importando o que tem dentro? A publicação em livro é diploma de "Objeto A Ser Puxa-Sacado"?
CARPINEJAR: Publicar livro para fazer média é uma atitude infantil. A vaidade é volúvel e logo encontra um novo jeito de aparecer.

Livro pode ser objeto de decoração nas novelas. Mascarar as estantes dos personagens, para que não fiquem vazias. Na minha história, é o modo de minha vida não ser vazia. Mantém a carne presa à descoberta. Outra coisa: entendo que os livros mais vendidos são os livros mais vendidos, não significam que foram lidos. Foram comprados, é certo. Deveria haver uma lista dos livros mais lidos.



Álvaro Alves de Faria, poeta e jornalista, São Paulo

19. Carpinejar, você sabe que sou meio radical no que diz respeito à produção de poesia hoje no Brasil. Aliás, a primeira entrevista sobre minha ida a Portugal em busca da poesia que me falta aqui foi você quem fez. Acho que, descontadas as exceções, que felizmente existem, entre elas você, a produção de poesia atualmente neste país sem sorte é lastimável. E tudo isso amparado por um jornalismo cultural inconseqüente e até mesmo muitas vezes desonesto. Inventam-se "poetas" do dia para a noite que também desaparecem da noite para o dia. Salvam-se pouco. Eu fugi para Portugal. Minha poesia está lá. Eu gostaria que você me falasse sobre a produção atual da poesia brasileira.
CARPINEJAR: Querido Álvaro, o que forma um poeta é a persistência. Quem ama escrever não será incomodado em ser invisível. E um dia virá à tona, desfazendo condicionamentos, redes de influência e desejos de grupos. A originalidade vem da gestação da letra. Determinada pela inteireza de dentro, não pela ansiedade de fora em dizer quem é o melhor. Por exemplo, o primeiro livro de Manoel de Barros foi publicado sem pecado em 1937, e ele só foi ser “descoberto” nos anos 80. Esperou sessenta anos para ser lido! É uma injustiça não termos o acompanhado desde o início. Estaria ombreando a consolidação histórica de Drummond, Cabral, Bandeira e não sei qual seria a história da literatura se isso acontecesse. Sua aceitação é recente em função do nosso despreparo em olhar para os lados e duvidar eternamente do cânone. Ele estava lá desde a década de 40, na sua, metido a escarafunchar besouros e escaravelhos, formulando sua teologia do traste. Somos pouco críticos, muito influenciados.

Nosso problema não é inventar poetas, quem dera, é enxergar tarde, ou esconder.

Já em Portugal, a poesia é mais séria, os poetas são lidos e respeitados tão intensamente quanto os romancistas. Ainda ressentimos a cultura do colonizado: expressa na poesia: não defendemos nossa subjetividade. Em Portugal, as garrafas são lançadas ao mar, aqui elas ficam no porão.

20. Uma coisa bem pessoal, só minha: começo a descobrir, em mim, que a poesia de João Cabral de Melo Neto é uma grande farsa, um tijolinho em cima de outro tijolinho, uma estrutura de um engenheiro, sem alma, sem sangue, sem ar, sem vida. Sem grito. Você acha que estou louco?
CARPINEJAR: Acho que é um exagero. João Cabral é inimitável, cunhou uma transcendência da objetividade. O mistério do claro perante o mais claro, não diante do escuro e do sombrio, como estávamos acostumados. Converteu matizes em contrastes. Repara em todos os ângulos possíveis de um tema, e não exclui nenhum. O rascunho é seu estilo, como se estivesse escrevendo o verso em nossa frente e não eliminando as contradições do discurso. É a poesia adversativa, da incompletude. Tem alma, sangue, ar, vida, sim. Sua sabedoria é tão do engenheiro como dos autodidatas, que constroem casas antevendo a localização do sol. Minha tese: João Cabral é o maior ensaísta da poesia brasileira. Explicou com lucidez o processo criativo dos poemas usando os próprios poemas.



4:34 PM :: Comentários: