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Terça-feira, Setembro 30, 2008


AMANTES QUEREM CASAR
Arte de Seleções do Reader's Digest (Outubro de 1969)

Fabrício Carpinejar



Ninguém agüenta ser amante muito tempo.

O trauma dos amantes é que eles não querem ser amantes. Não curtem. É como um torcedor declarar que adora ver seu time de coração na série B, não cabe, não dá. O desejo é retornar à Série A. Mas o que está errado é o sentimento diante da história, não a história.

Porque ser amante não significa segunda divisão, assim como ser casado não expressa uma elite do amor. Ai que nó.

É como um engenheiro trabalhando como balconista, confessa que é passageiro, é como uma advogada trabalhando como manicure, alega que é provisório. Mas exercer os papéis de balconista e manicure não são depreciativos, é a comparação social que os torna inferiores. Incorporamos a convenção de que a engenharia e a advocacia são melhores ao exigir esforço, estudo e dinheiro.

Infelizmente, amante guarda um apelo de rejeição, de transitoriedade: se é ou se exerce a condição na ausência de uma situação duradoura e estável. Amante é passagem para uma história completa. Uma transição. Experimentar a catacumba dos motéis e horários quebrados para retornar à claridade. Responde a um sacrifício para conquistar definitivamente uma pessoa.

Não somos treinados a suportar um amor sem alarde. O problema dos amantes não é a falta de amor, é a falta de manchete do amor, a impossibilidade de contar aos outros que está se amando, já que os envolvidos são casados.

Pares terminam separados pela ausência de visibilidade e reconhecimento social, nunca em função de uma redução do amor. É como deixar de torcer pelo time, pois ele não ganhou nenhum título.

Um casal de amantes pode ser - mal ou bem - a história completa. E se a aventura é o máximo que cada um pode chegar ou atingir de entrega?
Casando, será que os amantes não voltarão a dedilhar o tédio que escaparam ao criar um caso?

O amante se define como um constrangimento. Um vexame. Deveria se orgulhar de sua liberdade, da graça da insuficiência, mas insiste em fixar os pés na ante-sala nupcial e aceitar a dependência externa.

Somos ainda institucionalistas, confia-se que o casamento cura ou converte algo negativo (o amante) em algo bom (marido ou esposa). O que mudará com o casamento é somente a exposição oficial do que ocorria em surdina. Por isso, tantos amantes lamentam que o outro não "assume a relação". Assumir a relação é casar. O que eles procuram é uma promoção. O ambiente amoroso permanece carregado de um jargão profissional.

De modo paradoxal, o que um amante mais deseja é dormir de conchinha ou que seu parceiro perca a hora e não vá de madrugada depois de transar. Que permaneça na cama a oferecer um colo muito próximo do concedido no matrimônio. Não é intrigante que a prova de confiança pretendida pelo amante seja andar de mãos dadas nas vias mais expressas ou beijar em público? Afirmação ao amante é negar sua natureza proibida para se aproximar da visibilidade marital.

Os amantes são os monogâmicos ocultos. Os monogâmicos tímidos. Não sobrevivem ao jogo instável, dispersivo e intenso do sigilo. Entram num caso para legitimar e regulamentar a relação.

O canalha nasceu para perpetuar a crise. Não é minha invenção. Para mostrar que o amante não é o subdesenvolvido do afeto, como se acredita, ou que o casado é o civilizado da paixão, como se imagina.

9:07 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 29, 2008

GULA DO DESEJO



Casada com homem lindo, honesto, carinhoso, trabalhador e rico. Perfeito? Não, acabou se envolvendo com jovem no ambiente de trabalho. Não suporta a culpa e a aflição de uma vida dupla. Pede um mapa ao Consultório Poético.

Confira meu palpite e dê sua opinião.

10:27 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 28, 2008

13º ANDAR
Arte de Edward Hopper

Fabrício Carpinejar



Quando não somos esquisitos, a vida nos devolve a estranheza.

Ela não nos deixa desligar nem um pouquinho, ou se acostumar com o que descobrimos da gente.

Estava hospedado no hotel ERON em Brasília. É ERON, mas não é. É também AIRAM. Ter dois nomes confunde, os taxistas é que gostam para prolongar contornos. A mitologia não pára por aí. AIRAM é MARIA ao contrário. Mastiguei a teoria de uma paixão secreta do fundador do hotel, que inverteu o nome como quem faz um acróstico a uma amante.

Meu quarto era o 1013. Embaralhei os números e fui subir para o 1310. Encardi as pupilas: cadê o 13º? O prédio tinha 17 andares e o tabuleiro luminoso do elevador não continha o 13º. Articulei a hipótese de que o fundador do hotel desfrutava de um ódio infinito ao Partido dos Trabalhadores.

Desci no 12º e fui procurar a escada. Não havia saída aos lados, coisa parecida, portão de ferro. Um edifício sem escada é uma casa sem quintal. Nervoso, arranho minha mão esquerda com a direita. Abro dois sulcos para me sentir vivo. Entrei de novo no elevador. Conferi se não sofri alguma alucinação passageira (afinal estava chovendo em Brasília), colei meu rosto nas teclas dos andares. Sem 13º mesmo. Temi aquelas lendas de pacto com o diabo e de filmes de terror, onde o hóspede nunca consegue abandonar o aposento, a porta fecha com trancas imaginárias e o freqüentador é apedrejado intelectualmente por fantasmas e suicidas histéricos.

Desci à portaria e perguntei o que estava acontecendo.

- Não, seu quarto é no 10º. 1013, senhor.
- E o 13º, onde está?
- Ele não existe, senhor.
- Quando desapareceu?
- Nunca existiu, senhor.
- É superstição?
- Não sei do que está falando, senhor.

Um andar inexistente é mais assustador do que o meu rosto assustado. Segui viagem. Desenhei a conclusão de que o fundador do hotel é místico e não admite a entrada de números azarados em sua construção, muito menos em sua rotina. Deve encharcar de corretivo os dias 13 do calendário. Não aceitará nenhum empregado que nasceu no dia 13. Não pagará o 13º salário por uma questão de princípio. Não marcará nenhum encontro às 13h. Escapará de qualquer numeração que resulte em treze, seja placa de carro, seja número de telefone. Seus filhos pulam de idade quando completam treze anos.

A confusão foi uma parábola, precisava disso, os mensageiros se encontram condensados nos canhotos das lembranças. Como ele, temos a impressão de que podemos suprimir um andar de nossa memória. Uma mulher que amamos loucamente, por exemplo, afirmando apenas que ela nunca existiu.

Ah, que pretensão. Apagar não é extinguir. Ela estará lá mesmo quando não a chamamos. Sua ausência é mais curiosa do que sua proximidade.

Por mais que o hotel altere a elevação aos céus e a descida ao inferno, o 14º é o 13º.

Esquisitice total é ter mexido em meu bolso e conferir, já de volta, o número do quarto anotado pela atendente. 1310.

Ela se confundiu ou fugi de algum encontro com meu próprio destino.

9:32 AM :: Comentários:


Sábado, Setembro 27, 2008

FINAL DE SETEMBRO E PRIMEIRA QUINZENA DE OUTUBRO

30/9 (terça), 21h, Porto Alegre (RS)
Sarau Elétrico Canalha
Foto de Cynthia Vanzella



Canalhice em horário nobre. Farei leitura de textos do "Canalha!" e sessão de autógrafos do livro, além da saborosa conversa com Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno, Claudia Tajes e Katia Suman.

O Sarau Elétrico acontece todas as terças-feiras no bar Ocidente desde julho de 1999 e é um dos encontros literários mais desencanados do país.

Transmissão ao vivo do programa Camarote TVCOM.
Canja musical: ROCK-RS, com KING JIM & friends.

Local: Bar Ocidente
(Avenida Osvaldo Aranha, 960 / Entrada pela João Teles
Bom Fim Porto Alegre Tel: 51 3312-1347)
Ingresso: R$ 10

1º/10 (quarta), 19h30, Belo Horizonte (MG)
Sempre um Papo



Debate e sessão de autógrafos do livro "Canalha!" (Bertrand Brasil)
Local: Teatro João Ceschiatti
Entrada franca
Informações: (31) 3261-1501

2/10 (quinta), 20h, Porto Alegre (RS)
Crônica e Poesia: a confluência na linguagem
Atuo como mediador (melhor, provocador)
Participação de Marlon de Almeida e Rubem Penz
Local: Café Concerto - 2º andar
Avenida Alberto Bins, 665 Porto Alegre

9/10 (quinta), 16h30, Porto Alegre (RS)
Feira do Livro Psicanalítico de Porto Alegre
Promoção CEP de PA


Mesa-redonda: Escrita Literária e psicanálise: cruzamentos criativos
Ao lado de Leonardo Francischelli e Ana Cássia Fruett
Local: Hotel Plaza São Rafael (Av. Alberto Bins, 514, Porto Alegre)

11/10 (sábado), 19h40, Porto Alegre (RS)
2º Porto Poesia


O inferno não são os outros: performance e interpretação de Carpinejar de suas crônicas e poemas, além de textos escolhidos de outros autores.
Local: Museu do Esporte Shopping Total
(Cristovão Colombo, 545 Fone: 51 30187000)

13/10 (segunda), 19h30
Fronteiras do Pensamento


Conferência
Pedro Juan Gutiérrez e Fabrício Carpinejar


Local: Salão de Atos da UFRGS
(Avenida Paulo Gama, 110 - Porto Alegre Tel.: 51 33163058)

8:33 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 25, 2008

SÓ O CÃO MANCO É FIEL
Arte de Paula Rego

Fabrício Carpinejar



De manhãzinha, na Praça dos Brinquedos, uma jovem costuma ser seguida por um cão manco.

Não decifrei se o animal é dela ou um adorador de seu perfume. Ele vai atrás, o pêlo negro reluzente, não ao lado, o que não me permite concluir sua ligação direta.

Mas o que posso constatar - sem conhecer patavina da história - é que um cão manco é muito mais fiel do que qualquer cão. Um cão manco é leal como Jó a Deus, como Caim a uma pedra, como Hamlet ao fantasma do pai. Atravessa o inferno com suas três patas. Sua dificuldade em andar eleva a sua escolha. O trotear mostra que não é um desejo à toa, baldio, é um desejo que vem de uma superação. Ele não segue porque simplesmente pode seguir, por curiosidade e instinto. Segue apesar da impossibilidade. Não está se mexendo naturalmente, mas revirando a boca em cada manobra. Equilibra seu corpo todo para um lado, com uma disciplina inaudita, escorando-se no vento não sei bem como.

Não me dá pena, ele me irrita. Sua distorção o humaniza. É o oposto das minhas facilidades. A contrariedade que não se entrega. Além do hálito de coberta velha, exala uma confiança de quem suportou a tragédia - um atropelamento ou uma luta entre seus iguais - e não se diminuiu. Um vira-lata antes da amputação. Depois, a ferida desenhou nele uma árvore genealógica de guerreiros.

O cão manco pára e me analisa. Não pede um afago e comida. Encara como se eu fosse uma rua desesperada. Perde comigo um tempo precioso da sua caravana. Serei seu esforço dobrado para emparelhar novamente os passos e alcançar a jovem. Aquele olhar franzino e minúsculo tem um custo. Não foi de graça. Está me desafiando. Por um instante, estamos misturados.

Homem que não tem um cão manco em si não será leal. Um homem sem dor nunca buscará uma mulher seja onde for. Um homem que não chorou envergonhado, que não se questionou e não faliu não terá nada a caminhar além do que se espera. Um homem que não percebe que as latas de tinta enferrujam e deixam marcas indeléveis nos azulejos não tem compaixão pelos ciscos. Um homem que não foi derrotado, que não assoou o nariz nas mangas da camisa, que não foi barbudo sequer um dia não seduz, aguarda em casa. Não tem pressa, não tem medo, não tem como participar da sinuosidade do pensamento feminino, que se contradiz para pedir ajuda. É imbatível, não é homem ainda. É uma espera de homem. Vai descartar amores porque não suportou seu próprio abandono.

Um homem sem um cão manco latindo em seus braços não consegue nem se acompanhar.

9:39 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 23, 2008

FACEIRICE DO CANALHA
Arte de Waldemar Cordeiro


O "Canalha!" (Bertrand Brasil) aparece em quinto lugar na relação dos dez livros mais vendidos do Jornal do Brasil (Caderno Idéias, 20/09/08), na categoria Ficção. Ei, nem acredito. Agradeço aos leitores que andam me espalhando entre os amigos, e que me guardam nas mãos mais do que na estante.

7:15 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 22, 2008

MARAVILHOSAMENTE

Fabrício Carpinejar



Vicente gosta de jogar futebol. Vicente gosta de jogar cartas de Supertrunfo. Vicente gosta de cavar a terra com pá e galochas. Vicente gosta de colecionar figurinhas. Vicente gosta de desenhar deitado no tapete. Vicente gosta de ajudar a mãe na cozinha. Vicente gosta de ir ao cinema e comer pipoca para acumular pontos. Vicente gosta de escolher sua roupa e colocar a camisa nova por cima de uma velha. Vicente gosta de jogar farelos para as pombas antes de chegar à escola. Vicente gosta de cortar os cabelos de seus bonecos. Vicente gosta de receber camisetas de times. Vicente gosta de tornear esculturas de argila. Vicente gosta de jogar videogame. Vicente gosta de classificar restaurantes. Vicente gosta de dormir no carro. Vicente gosta de tirar fotografias. Vicente gosta de limpar os farelos dos salgadinhos nas calças. Vicente gosta de freqüentar o estádio. Vicente gosta de comer sorvete contornando as beiradas. Vicente gosta da sexta-feira.

Entre tantos gostos, o que meu filho mais gosta?

Observava o guri no final de semana. Com respeito. Como se fosse o pé direito de um quarto. Ele não parava quieto. Sua felicidade no final de semana é narração. Aponta e fala. Fala o que aponta.

Posso estar enganado, mas o que meu filho realmente gosta é de conversar.

Quando não cancelamos os ouvidos para forçá-lo a se ocupar com suas coisas. Não o empurramos ao seu canto e para seus brinquedos. Não o diminuímos diante de nossas leituras e afazeres miúdos.

O que fará uma criança crescer confiante é o tempo que dedicamos para escutá-la. É o tempo que propomos perguntas e a continuidade do raciocínio. O tempo em que legitimamos suas descobertas. O tempo em que não suspendemos sua curiosidade com elogios vadios: que bonito!, ótimo!, é isso mesmo!. Exclamações que pretendem enterrar o assunto e nos liberar para nossas atividades.

Ele se verá importante se eu valorizar o que ele escolhe para dizer, seus rascunhos e vacilações, seu modo de se organizar. Não é enchendo de mimos e presentes. Não é numa semana hiperativa, com passeios emendados e a adrenalina das surpresas. Toda criança tem um acesso estreito de sua imaginação para os pais. Deixará aberto se for usado. É tabuada: nenhuma criança dorme com a porta fechada, por que fechá-la durante o dia?

O autismo vem no momento em que a solidão é maior do que nossa capacidade de explicá-la.

Numa manhã e tarde modorrenta, com chuva intensa, trancados na residência, faltou luz. Escureceu dentro e fora. Acendemos velas e ficamos ao redor de uma mesa, brincando de adivinhar vultos, gesticulando fantoches nas paredes. A cera derretendo dá vontade de pescar sombras. De minha parte, conversava para matar o tempo e espantar o período de exceção. Reagia mais ao tédio do que à vida (mas é somente no tédio que suspiro). Restava a certeza de que era o pior dia do Vicente. Ele não fez nada do que admirava. Não brincou, não alisou o pó de seus carrinhos, não circulou pelo terraço.

Ao cabo da noite, ao apressar as cobertas e a virada do calendário, me confessou que nunca tinha sido tão feliz. Como? Sim, o óbvio é o imprevisível; por um momento contou com a audição de meus cílios. Maravilhosamente, eu olhei o que ouvia, não ouvia como quem olha. Sem querer, não descolamos um minuto da respiração. Um poderia embaçar o rosto do outro, tamanha a proximidade.

Meu filho procura entender o mundo. Posso ajudá-lo. Talvez ele tenha mais chance do que eu.

9:43 AM :: Comentários:


Domingo, Setembro 21, 2008

A VIDA É MAIOR DO QUE A VERDADE
Filosofia em Comum, de Márcia Tiburi, faz crítica ao mau uso das palavras e ao pensamento hermético

Fabrício Carpinejar*
Fotografia de Renata Stoduto



O poeta Mario Quintana elaborou uma distinção espirituosa entre o crítico e o leitor.

Diante de uma borboleta, o leitor exclama: "Olha uma borboleta!"

O crítico revida, entediado:

- Ah! sim, um lepidóptero...

A filósofa Márcia Tiburi tenta transformar o lepidóptero novamente em borboleta, e lança Filosofia em Comum para descascar o jargão da área (inacabar a fala, já que o jargão é um dizer acabado).

Uma obra sedutoramente estranha porque é uma ponte de conversa até o livro. Não é feito para filósofos, mas para iniciantes.

A autora partilha a palavra Taumas em sua aparência e essência, ou seja, um espanto com as coisas que existem. Quando pensamos que ela vai para um lado mais acadêmico, ela finta e vai para outro lado mais bossa nova. Cheia de dribles e um inusitado faz-de-conta da subjetividade.

Diante dela, o público se sentirá envolvido como uma conversa fiada. É um método criativo para descobrir a leveza do pensamento e estabelecer que a verdade não é maior do que a vida. Pois estabelece a estética de conversar mais do que de resumir, talvez pretendendo glorificar o prazer do convívio.

Diferente do O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, Tiburi não romanceia a charmosa biografia dos filósofos, mantém seu foco no devaneio. Não quer nos conduzir ao universo da filosofia, e sim provar que a filosofia é parte da rotina.

Nem todos são filósofos, entretanto, todos precisam da filosofia. Quem não agüenta o vazio é determinado por ele.

Basicamente, encarna uma história das idéias sobre as idéias partindo do senso comum.

Usa a seu favor sua experiência comunicativa de sala de aula e do programa Saia Justa. Ela escreve como fala. Simples, não subestimando o interlocutor, mas propondo perguntas e respostas ingênuas que muitos não teriam coragem de fazer, preocupados em preservar uma falsa erudição. "Filósofos nunca foram sábios, são apenas perguntadores, provocadores dispostos à aventura do conhecimento, da busca da verdade, mesmo que ela não seja apenas diversão", diz.

O livro é um manual de pensamento experimental, ou de desorientação orientada, ou - como afirma a escritora - um dispositivo para destruir os rótulos do que conhecemos como pensar. Pensar é discordar do pensamento, suportar o horror metafísico do não saber, abrir-se para a curiosidade selvagem da ignorância. "A ignorância é a medida do conhecimento", explica. Invoca uma espécie de ceticismo esperançoso: listar as certezas pelas incertezas, e crer na dúvida.

Esse é o primeiro ponto: ninguém sai do livro sabendo, sai do livro não sabendo, mas sabendo que não sabe. Dar consciência é experimentar a responsabilidade de formular uma visão de mundo por sua conta e juízo.

Nesse sentido, a escritura destaca mais a liberdade de pisar em falso do que acertar o passo com o escopo enciclopédico.

Transfere para a filosofia o que Italo Calvino empreendeu na literatura em Se Um Viajante Numa Noite de Inverno. No romance, Calvino narra o leitor chegando à livraria, folheando o próprio livro, apaixonando-se por uma leitora. O enredo, em suma, é o leitor. Em igual acrobacia, Tiburi enxerga o leitor com ela, interpela diretamente ("Isso mesmo, vou descrever o que penso, eu mesmo; primeiro eu, depois você"), criando blocos do texto em itálico para aumentar a identificação. A descrição do pensar é o que importa.

Uma das descobertas de Márcia Tiburi consiste em propor no subtítulo o ato de "ler junto". Quebra a soberania da solidão da leitura, a monarquia da absorção do conhecimento. Se dois lêem ao mesmo tempo, não haverá concordância, acelerando o atrito e a contestação. Ler sozinho é concordar, ler acompanhado é discordar. Ler acompanhado é explicar o que não entendeu e pedir explicação, é abandonar verdadeiramente o livro.

Assim o leitor nem é leitor, é ouvinte, numa postura socrática de ler em voz alta a alguém, esquecendo a própria leitura e cedendo aos comentários e inserções verbais do outro. É como um volume vazado pela casa. Inundado de registros paralelos. Não é uma obra parada, "agora vou ler"; está em movimento, "agora vou caminhar".

O que Márcia Tiburi articula não é fácil, atende a dois deuses do discurso, reunindo o alto e o baixo ao planificar o raciocínio e aprofundá-lo simultaneamente. Às vezes, repercute introduções dispensáveis ("O que aproxima a filosofia e a poesia é o fato de que se elaboram por meio de palavras"). Na maior parte, apóia-se na obviedade para acender as luzes da densidade ("Posso até dizer que o ser da linguagem é o impreciso que nela habita").

Sua teimosia está em recuperar a noção da filosofia como gesto, criticando que ela se acomodou na forma de literatura e se cristalizou como escrita. O fulgor literário seria apenas um dos momentos, não o único. A filosofia requer um segundo tempo, performático. Criar uma ação com o corpo, empregar a voz como laço da palavra.

A filosofia não poderia ter encontrado atriz mais contundente.

* Fabrício Carpinejar, escritor e jornalista, é autor de Canalha! (Bertrand Brasil, 2008)

Filosofia em Comum
Márcia Tiburi
Record
184 págs., R$ 24


Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Caderno 2/Cultura, 21/09/08

10:09 AM :: Comentários:


Sexta-feira, Setembro 19, 2008

PRÓXIMOS EVENTOS

GARIBALDI

Sou o escritor homenageado da Feira do Livro de Garibaldi, na serra gaúcha. Confira minha programação na cidade:

23/9/08 (terça)

9h - Palestra
Local: Salão Comunitário do Bairro Cairu

14h - Palestra
Local: Salão Comunitário do Bairro Cairu

19h - Abertura Oficial da Feira do Livro de Garibaldi 2008.
Local: Clube 31 de Outubro

PORTO ALEGRE

24/9/08 (quarta), 20h
Diálogos contemporâneos sobre sexualidade
Sexualidade homo, bi e hetero: os limites do deciframento

Debate ao lado dos psicanalistas Antonio D'Arriaga, Vera Mello e Maria Tereza Borba e do urologista Walter Koff.

Promoção: Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre
Local: Auditório da Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country
Av. Túlio de Rose, 80 - Loja 302 Tel. 51 3028-4033 Porto Alegre


BELO HORIZONTE

Participo de debate no projeto "Sempre um Papo" e faço minha sessão de autógrafos do livro "Canalha!" (Bertrand Brasil) em Belo Horizonte (MG).

1º/10/08 (quarta), 19h30
Local: Teatro João Ceschiatti
Entrada franca
Informações: (31) 3261-1501
http://www.sempreumpapo.com.br



PORTO ALEGRE

2/10 (quinta), 20h
Crônica e Poesia: a confluência na linguagem
Mediador
Participação de Marlon de Almeida e Rubem Penz

Local: Café Concerto - 2º andar
Avenida Alberto Bins, 665 Porto Alegre

9:44 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 18, 2008

OPERAÇÃO MÃOS LIMPAS
Arte de Pieter Brueghel

Fabrício Carpinejar



Compreendo quem leva o jornal para relaxar no banheiro de sua casa.

Natural. Assim como revistas.

Não sou fã da idéia de transportar livros para o vaso.

É muito triste pensar que estou sendo lido naquele momento.

O cara cagando e me lendo.

Prefiro uma cagada analfabeta a uma culta. Rogo para não ouvir tal confidência. Não me conte detalhes. Não me fale pormenores.

Ele sempre vai me relacionar ao barulho da descarga.

Eu dependerei mais do funcionamento do seu estômago do que do seu cérebro.

Se sofre de prisão de ventre, é admissível ler toda minha obra e ainda reclamar que escrevo pouco.

Livro no banheiro é uma opressão. Nem o futuro alívio melhora a frase.

Quando estagiava numa repartição pública, enfrentava a tortura de um colega, que pedia o jornal emprestado e se trancava no toalete. Sou cheio de pudor em ¨¨¨¨¨¨ no trabalho. Só em apuros. Creio que sou pago para me controlar. Mas esse amigo não carregava nenhuma vergonha, somente o caderno de esporte. Aprumava o passo para suas necessidades.

Todos os amigos conheciam seus horários. Uma certeza folclórica, talvez meteorológica. Tomava o jornal e os presentes franziam as testas, tolhidos, não desejando participar - ainda que passivamente - daquela consciência. Aflitos por observar o gesto dele. Com cara de supositórios. Propensos a entregar a carta de demissão para não serem incluídos como testemunhas.

Tão esquisito encarar alguém com a certeza de que ele vai cagar. Perde-se, mais do que a inocência, a esperança na civilização.

Ele entregava o jornal depois, com uma anuência de ovelha depilada. Encarregado da clipagem, eu desprezava dezenas de matérias. Recortes importantes não entravam de propósito. Escolhia minha incompetência para preservar a higiene. Como adivinhar se ele lavava as mãos. Sei lá. Não há como lavar as mãos porque o jornal acontece durante.

Quando tocava o telefone para ele, no momento de sua - digamos - leitura, o pessoal gaguejava ao explicar que ele já voltaria. Evidente que, ao escutarmos que "ele já volta", entendemos que está no banheiro. Descarta-se uma reunião ou uma passagem na copa para encher a xícara de café. "Já volta, rapidinho" é uma mijada. "Já voltaaa!" é uma cagada. Quem atende ao telefone tem a exata noção se o parceiro está entre um ou o outro.

Esse amigo tirou férias e curti a liberdade provisória de picotar o papel sem sofrer com a obsessão de limpeza.

Até que ele apareceu, em pleno descanso, no mesmo horário, para solicitar o jornal e repetir religiosamente seu expediente biológico. Depois do feito, devolvia o suplemento, dava tapinhas em minhas costas e rumava para a rua.

Não era a leitura que o acalmava. Precisava me constranger.

10:43 PM :: Comentários:

ENQUETE



Qual foi o jogador brasileiro mais inteligente em campo nos últimos trinta anos?

Torcedores de todos os credos e camisas, votem no blog Rolo Compressor.

11:58 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 16, 2008

OPORTUNISTA



Ele a convidou para trabalhar. Em seguida, estava declarando sua paixão.

"Começou com pequenos elogios, depois foi crescendo até ao ponto de agir e falar claramente do seu desejo por mim. No início, tentei contornar, levar na brincadeira. Depois falei que não queria, que sou casada, que não estava ali por aquele motivo."

Consultório Poético responde dúvida sobre assédio. Passionalmente. Não levamos desaforos para o trabalho. Dê sua opinião.

4:22 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 15, 2008

O VIÚVO
Arte de Diego Rivera

Fabrício Carpinejar



Além do canalha e do órfão, o viúvo completa o quadro de homens perigosos na arte da sedução.

Diferente dos seus colegas premeditados e conscientes de seus atos, ele exerce a atração sem querer. Por acidente. Por incumbência do destino.

Gostaria de estar casado, quieto em seu sofá, assistindo ao noticiário com uma xícara de sumiço. A vida é que não deixou e ele se viu solteiro de novo.

Ele não precisa preparar ofensivas, freqüentar baladas e se armar com cantadas e frases cortantes. Sua existência tão-somente é uma chantagem emocional. Uma coroa de flores perfuma seu colarinho.

O excesso de perda em si desperta a sexualidade das dores. A dor é um afrodisíaco porque produz uma reação arrebatada do corpo. O viúvo cria o instinto de defesa pelo sexo. Cava a libido das situações desesperadas. Como um tuberculoso, o prazer aumenta com a proximidade do fim.

Seduz pela fatalidade. Não por uma escolha. Muito menos pelos atributos físicos e intelectuais. Pode ser feio, caolho e manco. Nada o livrará do magnetismo. O luto enobrece suas rugas e olheiras.

Ele irá conquistar, apesar dele. Será sempre desajeitado para reiniciar a batalha amorosa. Um comediante involuntário. Enquanto a maioria atua com superlativo e auto-elogio na aproximação, ele se destrói. Chega a perguntar o motivo de ter sido escolhido. Não acredita, indica que é um engano, faz de tudo para provar que é sem graça. Quase pede desculpas ao beijar. Na verdade, pede desculpa ao beijar.

Desfruta de uma virtude insuperável para as futuras pretendentes: não tem ex-mulher. Conta com a possibilidade de mentir com exclusividade seu próprio passado.

Ficou consigo o direito testamentário de oferecer a única versão ao relacionamento anterior. Não sofrerá o estresse do contraponto.

"Coitado" é seu sobrenome. Preserva o ideal de homem-perfeito, que ficou casado até o fim, sem fugir da raia e do sonho, mostrando-se leal na contrariedade e na doença. Cumpriu, como poucos, a exigência do padre no casamento.

A mulher cogita: "se ele fez isso com a outra, fará comigo".

Seu silêncio é trágico inclusive quando não é triste. Mostra pudor entre tanta exposição selvagem. Dorme de ceroula em seus pensamentos. Suas palavras são sofá-cama, meio sala, meio quarto; meio velha, meio criança.

Não falará do que viveu em nome do respeito. E isso é o que mais enrubesce o rosto feminino. O que não pode ser dito. O mistério do sofrimento. Afinal, qualquer um é mais sábio quieto.

Ao mesmo tempo, sua namorada se sentirá desafiada e loucamente desmoralizada. Competir com uma mulher morta é impossível. Não há como xingar, destratar, ofender, diminuir o amor anterior para se promover. A morte beatifica.

O viúvo é o coveiro da paixão. Ele se desenterra.

1:07 AM :: Comentários:


Quarta-feira, Setembro 10, 2008

AUTÓGRAFOS EM PORTO ALEGRE
Fotografia de Jacqueline Oliveira



Foi uma loucura alegre a sessão de autógrafos de "Canalha!" da última terça (9/9) na Livraria Cultura. Dezenas e dezenas e dezenas de leitores e amigos. Houve rompantes divertidos de minha conversa com Claudia Tajes, Júlio Conte e Luis Fernando Verissimo. Tajes disse que - em nosso primeiro encontro na casa lotada de uma amiga - perguntei se ela não queria sentar no nariz de um dos anões de jardim. Não me lembro disso. Acho que meu esquecimento é também canalha. Todos leram uma crônica do livro.

Confira cobertura do lançamento no Jornal do Almoço dessa quarta (10/9). Ser recomendado por Verissimo não deixa de ser um sonho. Não me belisque, por favor!



4:28 PM :: Comentários:

A BOLHA COLETIVA DE MICHAEL JACKSON

Fabrício Carpinejar


Novembro de 1975, a vida solta na rua: eu, meus irmãos e primos

Esqueci de contar quantas vezes ralei o joelho descendo ladeira de bicicleta ou jogando futebol ou brincando de Flash Gordon entre materiais de construção. Recordo claramente que levei 35 pontos na cabeça, resultado de cinco quedas. Os atendentes do pronto-socorro já me recebiam pelo nome. Escorregava em ladrilhos, batia a testa em quinas no pega-pega, lançava o corpo na corda do varal esperando atingir o outro lado... Fui uma peste, misto de azarado e distraído.

Apesar dos acidentes, minha mãe não me colocava de castigo. Não me proibia a infância. Orientava apenas que tomasse cuidado. Não era nem intolerante, muito menos condescendente. Um gesto que traduzo como firmeza de carinho.

Diverso da minha criação, meu filho de seis anos ainda não correu atrás de um galo, não duvido que fuja de um pavão, é desconfiado com os cachorros, pedirá licença para subir no telhado, não promoverá guerra de frutas, tampouco arremessará bexiguinha nos passantes, que voltarão menos irritados para suas casas. Está preso a um apartamento e a um entendimento virtual do que existe e do que não existe. Conhece a natureza por ouvir falar, por ler, por assistir, por espiar de longe no zoológico, com as muradas de proteção.

Ele mal reclama um ai, que estou o amparando. Não o permito chorar. Não o deixo penar. Quero substituí-lo para que não sofra nenhum arranhão. Sou seu dublê emocional. É amor, eu sei, entretanto, um amor que não permite que cresça sem mim. Não o ajudo a criar resistência. Uma intimidade que o fragiliza, que não o inspira a responder por sua conta e se responsabilizar pela pergunta. Tenho que estar perto, não no lugar dele.

O protecionismo gera crianças sem anticorpos sociais. Sem reação. Teoricamente preparadas para preservar o ambiente, tecnicamente incapazes de discernir o que é necessário ou não, o que comove ou não, o que é bom ou ruim. O que adianta uma pele sem cicatrizes numa alma apavorada?

Com o pretexto verídico da violência, dos assaltos e dos seqüestros, subtraímos o envolvimento com os vizinhos e o mundo. O corredor do prédio tornou-se o meio da rua.

Meu filho não pode tomar banho de chuva porque irá se gripar. Mas é na chuva que provará o milagre da água. Meu filho não pode se sujar numa festa de aniversário porque estragará sua roupa nova. Mas é na lama que alcançará a cumplicidade da aventura. Meu filho não poderá mexer no fogão porque é certo que vai se queimar (quando eu cozinhava desde os dez anos para ajudar a mãe no serviço). Meu filho terá que ir a um psicólogo para resolver sua falta de concentração na escola. Os pais usam os filhos para cumprirem seus tratamentos por tabela.

Como propor um cuidado com as árvores se não explico o que é uma pitangueira, um flamboyant, uma figueira? Como se aproximar dos passarinhos se não nomeio um pardal ou um sabiá? Como ensinar ecologia aos filhos transmitindo o medo do contato, o medo do convívio? Medo de experimentar. Medo de machucar e sarar, de dar a volta por cima.

Isolamos os pequenos dos perigos para que eles não corram riscos nenhum. Coletivizamos a bolha do Michael Jackson. Sem o mínimo de vulnerabilidade, não descobrem seus próprios limites. Acham tudo possível. Prevenindo o pior, eliminamos o que há de mais notável na vida: a espontaneidade. A possibilidade terapêutica de simplesmente dizer diante de uma ferida que “não foi nada”, e soprar um arranhão.


Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, Número 178, Setembro de 2008


10:26 AM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 08, 2008

TÍMIDOS E EXPANSIVOS
Arte de Guignard

Delícia. Autografo meu novo livro de crônicas, Canalha!, em Porto Alegre. A sessão de autógrafos acontece nesta terça (9/9), às 19h30, na Livraria Cultura, do Bourbon Shopping Country (Av. Túlio de Rose, 80 - Loja 302 Tel. 51 3028-4033)

Antes das canetas coloridas, haverá um debate entre tímidos, Luis Fernando Verissimo e Claudia Tajes, e expansivos, eu e Júlio Conte. Mas nunca se sabe quem vai ficar envergonhado na hora.

O encontro também pode ser traduzido como um Gre-Nal literário. Dois colorados de um lado, eu e Verissimo, e dois gremistas do outro, Tajes e Conte. Espero vocês para apitar a partida.

* * *

A G Magazine publicou uma crítica sobre o livro. Mostro abaixo.

CANALHA!
Por Gustavo Ranieri
08.09.08

Há algo que sempre inova na literatura do gaúcho Fabrício Carpinejar. Algo inato que não permite que o doce exista sem o rude e o aço sem a seda. Essa é uma das sensações que se tem ao ler Canalha!, o novo livro de crônicas de Carpinejar.

Publicado pela Bertrand Brasil, Canalha! surpreende a começar pelo nome, mas como o próprio autor explica, não se trata de uma ofensa, e sim, de um grau de evolução do homem. "O canalha. Como um elogio. Um elogio para dizer que é impossível domesticar esse homem, é impossível conter, é impossível fugir dele. (...) Estou falando do canalha que suscita aproximação, abraço, desejo".

Sem eruditismos, Carpinejar usa da sutileza para prensar o leitor contra os seus próprios fragmentos. Não é incomum nos vermos nas mais diversas histórias, tão pouco nos sentirmos o tal canalha. Seus temas transitam livres por fatos como um inocente e transformador primeiro beijo, passando pelas ânsias sexuais, despedidas arrasadoras e questionamentos sobre o amor e cotidiano.

A diversidade também ancora nas páginas de Canalha!. Em Pode me chamar de gay, Carpinejar dispara: "Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. / Pode me chamar de gay, é um elogio. / Pode me chamar de gay; apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. (...) Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível."

As doses de blues e tristezas também se destilam em outros trechos do livro, como em "Eu me despedi, vou sempre me despedir de você a cada domingo e voltar". Ou em "Eu deixo de viver para me concentrar melhor naquilo que está fazendo. Não pretendo me distrair de pensar o que está fazendo sem mim".

Canalha! foge da corrente de livros de "magos", ou da literatura melada que tende a colocar o leitor no mesmo andar de superficialidade. Carpinejar encontra na simplicidade um mergulho maduro e moderno.


Canalha!. Fabrício Carpinejar. Bertrand Brasil. 320 páginas.

10:07 PM :: Comentários:

CAXAMBU E TORRES
Arte de Guignard



Quinta (11/9), 15h
10º Encontro Nacional de Escritores
Caxambu (MG)
Palestra: A poesia de Carlos e o sentimento de Carpinejar
Local: PALACE HOTEL
Rua Dr. Viotti, 567 – Centro
Telefone: (35) 3341-3341

Sábado (13/9)
VIII Feira do livro de Torres
Torres (RS)
Praça da Prainha

9 às 12h/13 às 16h - Oficina de criação poética
Local: Casa de Cultura

17h - Sarau
Local: Palco da Feira

10:04 PM :: Comentários:


Domingo, Setembro 07, 2008

UMA FATIA DE TORTA
Arte de Portinari

Fabrício Carpinejar



Não sofri fome em minha vida. FOME. Como a descrita por Nelson Rodrigues, de comer água.

Nem sei o que é carência. Apesar da verdade que me falta, entendo o que é falso.

Meu filho voltou desapontado do aniversário de um amigo.

Disse que havia sido o pior de sua vida, bem exagerado como seu pai.

Eu fui buscá-lo e meio que visualizei o drama no salão. Era uma festa-fantasia.

Não havia um só menino ou menina que acatou a sugestão de dublar um super-herói. Mas, em compensação, a maioria dos pais circulava com capuz, capa, lantejoulas, suspensórios, pinturas e brilhos.

A festa serviu mais para os adultos do que para os pequenos.

Talvez meu filho quisesse se sentir inteiro, fiel a si. Ele não precisava se fantasiar, ainda está na infância.

Os adultos é que usaram o pretexto infantil para liberar seu armário e destrancar os brinquedos da nostalgia.

Em São Sepé, eu me prontifiquei a atender numa padaria. Implorei ao dono, para susto das funcionárias. Elas me forneceram touca e avental. Aprendi a fazer expresso, preparei torradas e limpava a mesa com um paninho de álcool. Vivia o suspense do outro lado da cortina, a expectativa de quem iria chegar.

Uma senhora entrou com um menino e sentaram no balcão azul.

Ela apontou para a torta de chocolate.

- Duas fatias?, perguntei.
- Uma só, ela respondeu.

Levei um generoso prato para o guri, que deixou as mãos para trás e se aproximou do pedaço com o rosto. Assim como quem não acredita. Cintilavam suas pupilas negras. Tinham uma lupa escondida nelas, que granulavam o reflexo.

Comeu esperançoso, recolhendo o fundo do leite condensado do prato. Comeu não, bebeu a torta. Quanto mais avançava, hesitava com receio de terminar sozinho.

- Vó, vó, prova?
- Não, é seu aniversário... É toda sua.

E me dei conta que ele estava comemorando oito anos e recebia de presente a torta. Seria seu único presente. Nem por isso, menos valioso. Quantas vezes, na cidade pequena, os dois passaram pela frente da padaria e reavivaram a promessa?

Chegou finalmente o dia. O banquete. A roupa limpa de missa, o guardanapo, o banco alto, o pedido.

A avó respeitava sua alegria. Debruçada de lado para os movimentos do pequeno. Podia estar com fome, mas censurava o avanço.

Não solicitaram nenhum refrigerante ou suco. O brigadeiro descia a seco pela garganta, completando os dentes de leite.

Não ousaria pagar a fatia ou oferecer o doce. Seria arrancar da mulher o direito da dádiva. Banalizar sua oferta. Restava permanecer como espectador, sem me incluir entre eles, apesar do desejo de nascer naquele instante.

Não perguntei se ele gostaria de repetir. Tampouco demonstrou contrariedade com o fim, apenas girou o corpo para a rua à espera do próximo ano. Segurou o pulso da avó como quem ajusta a manga da camisa. E me partiram por dentro.

Os melhores aniversários são os mais singelos, desesperadamente necessários. O que ninguém nota que está acontecendo, além de nós.

E que não será esquecido pelo sacrifício que um fez pelo outro.

8:49 PM :: Comentários:


Quinta-feira, Setembro 04, 2008

DICIONÁRIO APROXIMADO
Arte de Modigliani

Fabrício Carpinejar



Eu sou o dicionário vivo de minha filha adolescente, que pai que não é?

Mais usado do que a edição de bolso. Uma geladeira de sinônimos e ímãs, para abrir ao menor sinal de apetite.

Ela está lendo os contos de Machado de Assis. Duas páginas viradas, surge uma pergunta:

- Paiê, o que significa...?

Posso estar no escritório e ela no quarto; a distância não desanima seu timbre.

Cesso meus poemas, viro o pescoço como galho fácil de pitangueira e respondo com calma e exemplos, disposto a contentá-la imediatamente e suspender a réplica.

Provisória trégua, em que ela não refuta e retomo a concentração. Quando volto a deslizar em meus pensamentos, quando readquiro o hábito da melodia em busca do verso, um novo baque: apesar da explicação, a teimosa foi consultar o dicionário e reiniciou a batalha de sua curiosidade.

- Mas o dicionário diz que é....

Pego no flagra. Não escapei de sua polícia vocabular. Ela consegue me colocar agora contra o dicionário. Além de não aprovar minha resposta, detecta uma distorção e quer esclarecer como posso conhecer uma palavra de modo errado. Eu me vejo processado. Questiona se tenho álibis para me inocentar daquele assassinato covarde do vocábulo. Talvez me livrasse denunciando algum professor que me passou uma origem torta. Quem sabe incriminando minha mãe? Mas recuso a delação pela honra pessoal.

Sou levado à sala escura de seus óculos, diante do espelho que reflete de um lado e é transparente do outro. Os principais autores da língua portuguesa são convocados para me identificar e confirmar a suspeita.

Ela apressa os murmúrios, empareda meu rosto, pressiona as covas do riso, batendo seus pezinhos na madeira da cama. Repito toda a história etimológica, com o cuidado de não florear demais. Dali por diante, devo esquecer a paz do trabalho.

- É grave, há quanto tempo você guarda versões equivocadas dessa palavra? É perjúrio! (não sei se ela lê Machado de Assis ou Pontes de Miranda)

- Não é perjúrio, é entendimento popular. Logo o dicionário vai deglutir a minha idéia.

- O que é deglutir?

- Deixa pra lá... Não cometo o mesmo crime duas vezes.

Eu sou o dicionário morto de minha filha adolescente.

8:59 AM :: Comentários:


Terça-feira, Setembro 02, 2008

ÓRFÃO
Arte de Edward Hopper

Fabrício Carpinejar



O canalha tem um único rival na cama: o órfão.

Até diria que o órfão é o irmão caçula do canalha.

Dissimulado, contido, um tipo que oferece trabalho porque seduz não seduzindo.

Hoje o órfão está em desvantagem, mas nem sempre foi assim. Já liderou o ranking das paixões e ainda mantém seu carisma de afogado, de pobre coitada vitória-régia no lago, isolada das alegrias da terra firme.

O órfão desperta o amor maternal da mulher. Ele atrai a mãe em cada mulher para conquistar a mulher. Exerce o que chamo de feitiço de sogra. Acorda a sogra que repousa na alma da filha.

Cria a simpatia pela convivência. Está sempre no pretérito, organizando amigo secreto com as lembranças. Fomenta a dependência pelos conselhos. É o confidente que dá um golpe de estado para assumir a posição de amante.

Não é um homem decidido, firme, insolente, e de táticas diretas de linguagem.

Não fará musculação, seu aspecto franzino colabora com o mistério. Costuma ser magro, parece que precisa de um complemento para ser feliz.

É uma biblioteca na garagem. Usa óculos de leitura e emprega o beiço para disfarçar o silêncio.

Não se ouvirá uma única direta da boca do órfão. Ele é a indireta em pessoa. Não é um vendedor de sex shop como um canalha. Aparecerá sem algema, vulnerável, aberto para uma vida romântica.

Pontua um olhar encabulado. Banca o sofrido; bastardo dos relacionamentos. Uma autêntica virose de solidão. Caprichoso, comportado, um eremita que faz a barba.

As mulheres se apaixonam pela possibilidade de alegrá-lo. De salvá-lo do passado ressentido e complicado, das perdas e privações.

O órfão é tão carente que a mulher esquece suas carências. Não vai cobrar atitudes e definições como se comporta com um canalha.

O órfão é sempre o primeiro amor, mesmo que seja o último. Carregado de uma inocência perdida. Uma inocência recuperada.

O órfão é alguém que todos amam, tem uma levada metafísica de cachorro na neblina. De cavalo cansado. Tristeza de escadaria de igreja.

É impossível casar com ele, será adotado. Dura mais do que um canalha. Não há como a mulher se separar de um filho.

12:01 PM :: Comentários:

O POETA VIRA CRONISTA
Fabrício Carpinejar, um dos mais conhecidos poetas brasileiros da nova geração, publica Canalha!, coletânea de crônicas

Márcio Renato dos Santos
Foto de J. Egberto/Divulgação


Do silêncio ao palco: Carpinejar usa todos os espaços para veicular a sua produção

Carpinejar, muito mais do que um sobrenome artístico, é uma grife literária - que identifica um dos mais conhecidos poetas brasileiros da contemporaneidade. Fabrício, filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, que se separaram, tentou os reunir via fusão de sobrenomes e, assim, inventou a palavra que o distingue. Aos 35 anos, é praticamente uma onipresença na malha literária brasileira. No primeiro semestre, esteve em 25 cidades de seis estados brasileiros – como palestrante. O blog fabriciocarpinejar.blogger.com.br já foi visitado por mais de meio milhão de internautas. E ali, na vitrine virtual, além da visibilidade, aprimoraria a verve de cronista.

"A crônica tem potencial comunicativo." Com esta frase, Carpinejar definiu o gênero, em meio à entrevista que concedeu a Gazeta do Povo. Ele estava na capital paulista para realizar palestras e divulgar seu mais recente livro, Canalha!, coletânea de crônicas. "Procuro multiplicar milagres no óbvio." Da extrema loquacidade, Carpinejar migra para silêncios, de onde retorna com idéias-força: "Escrevo crônicas para reequilibrar a importância das coisas".

Carpinejar transforma todo e qualquer assunto, e mesmo a falta de mote, em crônica. O dia que nasce. O ciúme que chega, passa e retorna. O bate-papo no bar. "A crônica é uma alfândega." Logradouro, espaço-tal em que Carpinejar filtra as suas mais inconfessáveis obsessões que, então, se tornam públicas. Ele frisa, com ênfase, que – diferentemente do conto, que deve trazer duas "estórias" (uma oculta) –, à crônica basta um enredo, e direto. E assim ele pratica, no mínimo, a cada três dias no blog e, ainda, em outros espaços impressos.

Um fosso de lirismo

"A crônica não é e não pode ser jornalismo, mas um fosso literário dentro do jornal", diz o poeta que se metamorfoseou em cronista e que, além do blog, tem alguns textos veiculados, com regularidade, nas páginas de O Estado de S.Paulo. "Na crônica, cabe o que não é jornalismo, como os sentimentos fora de hora." E ele se deixa levar (e arrebatar) pelos sentimentos o tempo todo, da mesma maneira que se permite pensar, livre e inesperadamente, por 24 horas, todos os dias. "Desde que tenho memória, sou assim."

Carpinejar vive em sua cidade natal, São Leopoldo (RS), hoje com 200 mil habitantes. "Lá, resolvo a vida em dez quadras." Passa todo dia em frente a uma igreja. Uma vez por semana, joga pelada, vai ao cinema e pulsa, em poesia e prosa, com os amigos. Sua agenda sinaliza haver pouco tempo para o ócio. É o coordenador do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários e professor do curso de Formação de Músicos e Produtores de Rock, ambos na Unisinos (RS). Mantém um blog chamado Consultório Poético, assina a coluna Primeiras Intenções, na revista Crescer. "E, como tenho cadeira cativa no Beira-Rio, ainda vejo, sempre que posso, jogo do Inter."

Ele ainda é comentarista na Rádio Itapema FM, entre outras muitas ações, fora a vida pessoal e familiar. "Não posso cometer crimes. Os horários não fecham." Sua imaginação não descansa. "A imaginação hidrata."

Serviço:

Canalha! Fabrício Carpinejar. Bertrand Brasil. 315 págs. R$ 34,71.

Publicado no jornal Gazeta do Povo, Caderno G, Curitiba (PR), 2/09/08

12:00 PM :: Comentários:


Segunda-feira, Setembro 01, 2008

FUTEBOL-ARTE



Jogo futebol, vou ao estádio praticamente todo jogo, sou fanático desde guri.

Para quem deseja conhecer meu lado bem mundano, criei o blog ROLO COMPRESSOR, em parceria com o psicanalista Mário Corso, para mostrar que futebol também é literatura. Comentaremos as partidas do colorado com viés ficcional, faremos locuções literárias, elaboraremos crônicas sobre o universo futebolístico. Um espaço para desabafar, chorar, cantar e espantar os males.

Rolo Compressor é uma homenagem a uma das melhores escalações do Internacional, que tinha no ataque Tesourinha, Russinho, Vilalba, Rui e Carlitos. Um time bélico e ofensivo, que durou de 1940 até 1948, conquistando oito estaduais em nove anos.

9:41 AM :: Comentários:

QUANDO DEIXAMOS DE IR
Arte de Edward Hopper

Fabrício Carpinejar



Não podia ajudá-la quando mais precisava.

Era seu número mais próximo, o mais discado, e o único homem que não tinha condições.

Significa que eu me sentirei sempre menor por não ter estado perto. Em falta. A caminho perpétuo entre o seu e o meu nome.

Baixarei a cabeça para ouvir. Meus olhos serão servos da tinta branca das calçadas.

Acho que hoje me aproximo do remorso de um filho quando seu pai morre brigado com ele. Ou de um amigo que escolheu o orgulho ao invés de relevar as diferenças e amainar um pequeno ódio.

Perderei os acentos do teclado como se estivesse no exterior.

Significa que não é questão de perdão, e de compreensão. É uma lacuna que sugará os gestos mais bem intencionados.

Um sinal de nascença que não veio com o nascimento, mas tem uma antiguidade inviolável. Meus ouvidos crescerão no esquecimento e a boca vai diminuir.

Quando somos chamados, não há desculpa para deixar de ir.

Não sairemos dessa impossibilidade de sair. Não encontraremos teoria para justificar a ausência. Não há explicações, álibis, fundamentos.

Correspondia a uma urgência, não era pressa.

Correspondia a um desespero, não era carência.

Na segunda vez que visitei o túmulo de minha avó Eliza, reconheci hortelã próxima da lápide. Hortelã entre capim e inços, ao pé da cruz, espalhando seu perfume concentrado de chuva. Por um milagre que não é casualidade, ela mantinha sua horta no cemitério.

Depois de morto, ainda levamos nossos princípios. Nosso corpo contamina os arredores com o temperamento cultivado em vida.

Eu vou me censurar, antes de seus comentários ácidos, antes de sua metralhadora "tátátá" ao telefone, antes que a saia do crepúsculo se espalhe novamente no rio.

Sou mais agressivo comigo do que você poderá ser um dia.

Eu me destruo com inegável talento desde a infância. E meu riso é débil, de uma criança que não abandona a mentalidade dos sete anos.

Vou me proibir de amar.

Não arranque a urtiga de minha lápide. Sou ela também.

9:12 AM :: Comentários: