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    Segunda-feira, Agosto 31, 2009

    GORDO
    Arte de Fernando Botero

    Fabrício Carpinejar



    O abraço do gordo é o mais suave. O mais cuidadoso.

    Não tem violência. Não há obrigação.

    Ele não será gentil por formalidade. Oferece o deleite de estar próximo.

    O gordo é o que conhece a arte do enlace.

    Espera-se que ele quebre as costelas, venha com fúria, não dose os braços. Que nada.

    O gordo faz uma concha cuidadosa com os ombros, cria uma marquise ao peito, guia a caravana dos cabelos.

    Ele capricha na cesura, põe fronha no avanço.

    O gordo é que tem a ciência de abraçar. Mais ninguém. Abraço de echarpe, elegante, colcha arrastada pela casa. Não atravessa, não atravanca, escora o corpo o tempo necessário para sentirmos a temperatura de sua pele e se despede com um aceno dos olhos.

    Não tem a covardia da delação no ouvido, muito menos a agressividade do arrasto com os pés.

    O gordo é uma promessa de conforto, não fere a solidão do dorso. O desenho de ostra.

    Quando chora, soluça. Quando ri, gargalha. Não existe meia porção de ternura. Ele se dedica a abraçar como um confidente.

    Não compra abraços em lojas, são feitos sob medida, encomendados no alfaiate. Com as agulhas marcando a altura do encontro.

    Já o magro é traumatizado pela sua fraqueza. Aperta forte para convencer que tem fibra. Martela com os punhos. Pendura quadros em nossas costas. Acorda inimizades. Invade.

    O magro sempre pensa que não incomoda com o peso e é um dinossauro no trato. Subestima a corda. Quebra a água que havia dentro do jarro.

    Admiro sinceramente os gordos. A obesidade viva, não a mórbida. A obesidade que não se censura, que não se maltrata, que se antecipa de bordas e meneios.

    O gordo que não se humilha com regimes, dietas e campanhas de mumificação; gordo forte, justo, vocacionado a desafiar a infância. Que dormirá numa poltrona de avião espiando os corredores. Que sentará como se estivesse se levantando. Com a mesma reverência ao céu.

    Gordo que não se esconde. Gordo assumido é bondade de vento.

    Não me deparei ainda com um gordo mal-humorado. Gordo ranzinza. Não sonega prazeres. Tem as melhores piadas, gracejo acústico, marulhar de calçadão.

    Gordo usa microfone de lapela desde o berço. Um alto-falante no porta-malas do carro.

    É acordar com feira na cozinha, é dormir com ópera na sala.

    Meu pai já teve 110 quilos. Eu amava sua aproximação lenta, a barriga chegando primeiro, o adiantado da cabeça ganhando o turfe, o tufo de seus cílios coçando o rosto. O pai me cheirava antes de abraçar. Fungava com a paz de ilha.

    Acomodava-me entre suas lembranças antigas e recentes

    Ele me carregava no colo, posso garantir, sem me levantar do chão, apenas espichando sua respiração ao pescoço.

    Meu pai e seus botões abertos da camisa. Descosturava as palavras.

    1:42 AM :: Comentários:


    Domingo, Agosto 30, 2009

    AINDA VERMELHO (DE RAIVA)



    O atacante do Goiás e ídolo colorado Fernandão usou o cotovelaço para atingir Magrão e foi expulso aos dez minutos da vitória do Inter sobre o Goiás neste domingo (30/8).

    Não conteve a decepção por jogar de verde no Beira-Rio.

    Veja a trilha sonora literária e acompanhe a novela de amor e ódio no Rolo Compressor.

    11:50 PM :: Comentários:

    MINHA VELHICE EM SAMPA



    CARPINEJAR LANÇANDO E DEBATENDO "TERCEIRA SEDE" (Bertrand Brasil)
    03/09, quinta-feira, às 20h | Local: Auditório do SESC Vila Mariana (Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana)
    SEMPRE UM PAPO

    11:33 PM :: Comentários:

    TV + ANIMAL

    Depois de inventar um blog para fotografar e poetar sobre animais, meu filho Vicente, 7 anos, criou uma tevê para dar notícias dos bichos de seu pátio, do mundo e de sua imaginação.

    Assista a reportagem.

    11:32 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Agosto 26, 2009

    MEIO PRESENTE
    Arte de Philip Guston

    Fabrício Carpinejar



    Não sou contra receber cuecas de presente. Que venha da namorada, da mãe, de amigas. Não ficarei decepcionado, não lamentarei os fantoches desajeitados da mão para satisfazer a ansiedade. Vale os pulos da respiração.

    A cueca tem independência, sugere um momento especial de estreia, um cuidado, tem espaço próprio na gaveta.

    Mas não tolero receber meia. Não é presente, é um insulto de pano.

    Meia humilha o aniversário. Lembraremos do que faltou. Não é por nada que é categorizada como lembrança. Lembrança do tênis que não veio.

    Dar meia é dizer que não tem dinheiro ou que o presenteado não merece seu dinheiro. Ambas afirmativas estão certas. Mas é insinuar algo mais grave: que ele não merece nem seu crédito.

    É igual a considerar coxinha de frango como um almoço.

    Meia é acompanhamento, deveria vir como brinde. Sou favorável a proibir sua venda em separado.

    Meia é acessório. Uma falsa expectativa. Ai de quem pedir para embrulhar. Teremos mais trabalho em resolver a decepção do que em desfazer as dobras do papel. Meia é o cartão de visita do terapeuta.

    Durante cinco aniversários, dos sete aos doze anos, meu avô paterno unicamente me oferecia meias. O papel-presente de palhaço justificava a escolha. Nem segurava direito, ainda recordo do pacote gelatinoso, informe, com o barulho irritante do plástico. Preferia que seu amor por mim fosse descalço.

    - Acho que vai gostar, ele me apontava.

    Como alguém pode afirmar que vou gostar de meia. Meia não se gosta, se perde. A meia some para testar nossa memória. Seus pares são uma indústria de divórcio. Não sei o que acontece na máquina de lavar. Mas nunca as meias voltam completas. Terminam solitárias. Casais são dissolvidos no Omo.

    Coitadas, então, das brancas, condenadas a um swing interminável até surgir os primeiros furos.

    Meia não se aposenta, morre subitamente no lixo.

    A meia é uma luva no verão. Estranha, esquisita, é o que a gente já deveria ter antes de nascer.

    Estava me acomodando com a teoria e desligando o computador, quando minha filha Mariana me telefona e pede pares de meia.

    - Meias?
    - Sim, pai, eu adoro meias, é meu presente predileto.
    - Por quê?
    - Com uniforme escolar obrigatório de cima para baixo, posso me diferenciar apenas pelas meias.

    Meu avô deveria ter aguardado os bisnetos. Era muito evoluído para seu tempo.

    3:25 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Agosto 24, 2009

    CASAS PENADAS
    Arte de Vicent Van Gogh

    Fabrício Carpinejar



    Estava explicando o trajeto para uma senhora perdida no bairro Petrópolis. Talvez ela tenha me confundido com um táxi, mas quem tem um carro amarelo escandaloso será sempre confundido com um táxi. Calmamente, abri a janela do passageiro e desenvolvi um mapa falado:

    - É fácil. Segue pela Protásio Alves e entra à direita na esquina da Farmácia Petrópolis, é a rua Santos Neto que procura.

    Sorri com o ar manhoso de quem cumpriu uma ação eficiente logo cedo. E mergulhei no novelo dos lábios para guardar a língua. Dar uma informação correta de repente é ser condecorado como cidadão porto-alegrense.

    Dois dias depois, reencontro a mulher caminhando. Não a reconheci, só a conhecia de busto, o que dava para enxergar do veículo. Ela estava inteira, monstruosamente pedestre, um susto de pernas, e não parecia muito amigável. Latiu uma, duas vezes.

    - Obrigada, obrigada pela informação.

    Eu radiografei uma aspereza no tom, que me confundia. Seu agradecimento tinha uma irritação de operador de tráfego aéreo. As palavras repercutiam o contrário delas.

    - Obrigada, obrigada mesmo, você é muito educado.
    - Achou o lugar, que bom.
    - Não achei, é óbvio, disse, segurando meu braço por trás.
    - Como assim?, despistei com uma dublagem de garoto de programa.
    - Não havia Farmácia Petrópolis num raio de cinco quilômetros.
    - Não? É na esquina, uma casa laranja.

    No instante em que respondi, eu me lembrei que a Farmácia Petrópolis não era Farmácia Petrópolis há uma década, mas todos que frequentavam o lugar ainda a chamam de Farmácia Petrópolis.

    - Ai desculpa, mudou de nome. É uma ferragem agora, né?

    Ela se convenceu de que enganei de propósito e bufou hálitos noturnos em plena tarde ensolarada.

    Desisti de explicar e perdi o voto para Conselheiro Tutelar.

    Avancei no raciocínio e reparei que existem casas penadas. Não são residências mal-assombradas, habitadas por fantasmas, barulhos esquisitos e correntes arrastadas. Mas casas que não conseguiram superar a fama de um comércio anterior. Não mudaram de encarnação. Trocaram o letreiro, o nome, o negócio e a cor da parede e ainda são leais ao Plano Diretor do século passado. São construções ressentidas, inadaptáveis, pontos miasmáticos de referência, permanecendo legíveis aos habitantes mais antigos. Troçam dos donos, zombam dos futuros clientes, confundem os mais novos. A maioria não entende que a alma de uma casa não está à venda. Compra-se o terreno, não o tijolo abrasado pelos costumes.

    No centro, já cometi a imprudência de orientar outro extraviado a encontrar a esquina da loja Mesbla, na Dr. Flores. A Mesbla já não existe há um largo tempo. Ele deve estar caçando o prédio até hoje, ou me farejando para acertar o carnê da bisavó.

    Uma cidade não morre, é enterrada viva. Quer uma informação? Antes me retire dos escombros.

    12:02 AM :: Comentários:


    Domingo, Agosto 23, 2009

    CONVERSÃO



    Ela não suportava o perfil de seu namorado: boêmio, madrugador, metido a conquistador, desferindo olhares lânguidos e piadinhas para suas amigas. Depois de crises de ciúme e insegurança, pediu separação. Agora não tem certeza se fez o certo. Ainda o ama e deseja voltar. Desde que o tipo tome juízo e seja menos ostensivo.

    Consultório Poético trabalha aos domingos para facilitar a semana. Leia minha resposta.

    "Homem não muda, se enjoa."

    10:33 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Agosto 20, 2009

    JABUTI


    Olha o jeito que o cara segura o taco e ainda se diz canalha

    Meu livro "Canalha!" (Bertrand Brasil) é um dos dez finalistas do 51º Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria contos e crônicas. A lista foi anunciada nesta quinta (20/08) pela Câmara Brasileira do Livro. Veja a lista completa dos indicados.

    A apuração da segunda fase, em que serão conhecidos os três vencedores de cada categoria, está prevista para 29/9. Os vencedores das categorias "Livro do Ano Ficção" e "Livro do Ano Não-Ficção" serão revelados durante a cerimônia de premiação, em 4/11.

    6:12 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Agosto 19, 2009

    RUA JARAGUÁ
    Para Cínthya

    Fabrício Carpinejar




    Minha vida não saiu como planejei, mas ainda é a minha vida.

    Procuro experimentar aquela trégua em que não penso em nada e me fixo na bobeira de admirar quem amo.

    Uma saudade antecipada, uma saudade para confessar na presença do saudoso. Toda saudade chega antes de acontecer. Toda saudade é lida antes de escrita.

    A bobeira de estar ali e sentir que não poderia estar em outro lugar. Como uma mãe deve sentir quando seu filho volta de uma longa viagem e senta para ouvir as façanhas e as peripécias dele e não escuta palavra alguma, tamanha a força dedicada ao olhar. Tamanho o zelo para guardar a alegria num local protegido. Como um homem que descobre que está apaixonado ao acaso, quando sua companhia acomoda as verduras na gaveta da geladeira. Escorado no armário, ele cancela a fala para desfrutar de uma longa ausência de raciocínio. E ela sonda um precoce distanciamento, recrimina seus pensamentos fugidios, a distração eletrificada, e nem percebe que ele finalmente decidiu ficar.

    Ao pensarmos no que pensamos, interrompemos a ausência perfeita e começamos a nos boicotar. Quando pensamos o pensamento, deixamos de se doar para aparecer.

    Questionava minha namorada porque ela fazia o mesmo caminho sempre. De volta ou de ida ao trabalho. Nos pulos ao mercado ou ao salão.

    Ela tinha que passar pela frente de seu apartamento. Não por medo de assalto ou para conferir se tudo andava bem, mas por uma ternura familiar e incontrolável pela travessa apertada e irregular de paralelepípedos.

    Não duvido que caroneiros a confundam com uma obsessiva, uma maníaca, lamentem seu transtorno e a fixação doentia da rotina.

    Hoje eu me deslumbro com o hábito, abobado, flutuando pela janela entreaberta de minha boca, no vaivém sereno do sopro quente.

    Aquela rua atravessa seu corpo. É a sua avenida secreta, sua Perimetral, sua linha vermelha. Não será improvável que conheça quantos hidrantes têm em sua extensão, quantos telefones públicos, quantos cachorros, quantas árvores. Capaz de acertar direto, por intuição, não que tenha enumerado. Dizer sem pensar, como a intuição consegue.

    Começo a crer que sua casa é um sinal de nascença do bairro. Assume as rotas mais longas para desacelerar diante de seu prédio branco, de varandas amadeiradas. Não reclama que gasta gasolina, não reclama que perde tempo. Conhece a maioria das alternativas e escolhe uma única, eternamente igual. Não se interessa por malha viária que não recobre a sensação de voltar ao lar. É uma trilha justa, tal vestido predileto, com caimento feito pelo uso, com a medida acomodada pela costureira de sua nudez.

    Ao me levar, compreendo que encontrará um jeito de percorrer a rua Jaraguá. Os anéis, os cruzamentos, as ladeiras desembocam naquele braço branco de calçada.

    Ela criou sua própria cidade.

    12:25 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Agosto 18, 2009

    DOIS MOMENTOS CRUCIAIS
    Arte de Salvador Dali

    Fabrício Carpinejar



    Em toda briga de casal, há um momento-gravador.

    É naquela hora derradeira, de boca contraída e olhos arregalados, de ombros curvos e tosse seca.

    O balconista reconhece facilmente os desesperados. O par esquece que entrou num restaurante com os corredores lotados e decide rasgar as roupas em público para não lavar em casa. Vive levantando os braços de modo involuntário. O garçom, coitado, fica em dúvida se está sendo chamado, ameaça o avanço da bandeja e recua.

    Talvez se alguém surgisse com um pente, tudo iria se tranquilizar. Ninguém consegue brigar se penteando.

    O momento-gravador é logo após a segunda série de gritos abafados e da primeira crise de choro, período marcado pela falta de novidade e de assunto para continuar brigando. Não surgirá um dado inédito, voltam-se ao início do desentendimento, as argumentações esmorecem; toda denúncia desbota, repisada. O comércio fechou e o coração é uma cadeira em cima da mesa.

    Os dois estão exaustos e não conseguem fazer as pazes nem parar de discutir. Uma pena que a humildade só venha depois do sexo, nunca antes.

    Já que nenhum venceu, ficam aguardando o erro do outro. Possessos, possessivos com as palavras.

    Ela dirá de repente: "Você ouviu o que acabou de falar?"

    E repete a sentença, claro que distorcendo. Não há gravador fiel nas discussões amorosas. É um gravador com ilha de edição.

    É óbvio que ele ouviu o que ele mesmo falou, mas com a mudança das frases passa a acreditar em sua surdez. Por um breve instante, deixa de responder para fingir cotonete nos ouvidos.

    Coincidência ou não, sempre que alguém nos repete parece que a nossa autoria é um plágio. Plagiamos - quem sabe - um ex de nossa namorada.

    Depois do momento-gravador, a separação se aproxima com o momento-filmadora.

    O ideal é que os amantes não tivessem alcançado essa etapa fúnebre. Um deles tenta segurar o braço para acalmar e arranha sem querer. Não é um rasgo na pele, é comichão, imperceptível a não ser pelo gemido afônico. A saída abrupta dos braços agravou o aperto.

    Tanto que não recomendo tocar num casal em atrito, os cotovelos são facas. Qualquer abraço será visto como um empurrão. Os bem-intencionados devem permanecer solteiros.

    Agora temos uma vítima imaginária, ainda assim vítima, que dirá de repente: "Você viu o que fez?"

    O vocabulário é extinto, o que era um desacordo vira agressão. Um caso de constrangimento corporal. Cada um vai para seu lado desvendar o motivo da guerra, certos de sua versão mais convincente.

    Não descobrirão ao longo da madrugada. Na briga não se descobre coisa alguma, é pura diversão da dor.

    7:01 PM :: Comentários:

    CANGAÇO



    “Em uma família de escritores, não precisava provar que inventei, tinha que provar que eu vivi."

    A jornalista e blogueira Vanessa Bueno fez meu perfil para o site Coletiva. Leia minha bandidagem poética pelo sertão das palavras e comente.

    6:49 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Agosto 17, 2009

    INDICAÇÃO



    Terapia Literária foi uma das três oficinas gaúchas selecionadas pela Folha de São Paulo no roteiro do melhor da escrita criativa em quatro capitais brasileiras.

    A primeira turma começa nesta segunda (17/8). Devido à intensa procura, haverá uma nova turma aos sábados, das 9h30 às 12h30, com início em 5/9.

    Veja o mapa da FSPaulo.

    2:01 AM :: Comentários:


    Domingo, Agosto 16, 2009

    NÃO TENHA PENA DE MIM
    Arte de Paul Klee

    Fabrício Carpinejar



    Fui um menino iraniano no Brasil.

    Minha mãe falava por mim.

    Ela dizia para quem se aproximava o que eu gostava e o que não gostava, se queria ou não queria, se estava com sono ou triste.

    Discordava inúmeras vezes, mas ela era mais rápida do que eu. Insinuava abrir a boca e as palavras se acomodavam como dentes definitivos.

    Acostumei-me com suas frases, obedecia ao seu raciocínio. Nos primeiros encontros, reagia com grunhidos. A partir do terceiro, aceitei o destino, a fatalidade, a preguiça de não participar do idioma. E apenas fazia caras e bocas para animar a dublagem.

    Em jantares, lojas e festas, a mãe se antecipava, a tal ponto que ninguém mais perguntava olhando para mim. Os adultos olhavam diretamente para ela enquanto questionavam a minha idade, o meu nome, a minha escola. Eu inexistia completamente. Estava debaixo de suas saias, porém sufocado.



    Hoje, adulto, tento uniformizar as cores no cubo mágico. Girar os quadrados com paciência de astronauta. Distraído de mim, avalio o mal que isso pode ter me feito. Um mal do amor. Um mal do bem.

    Com medo da minha vulnerabilidade, ela me protegia de todas as reações, inclusive das minhas. Não queria que sofresse pelos problemas de dicção, pela timidez, pela falta de equilíbrio. E eu sofria porque não podia me defender.

    Favoreceu que desistisse de me expressar e me tornasse ainda mais dependente e carente.

    Tanto que recordo de minha infância sem meu timbre. É um filme mudo. Com o piano vagaroso ao fundo. De modo nenhum ela pretendia me prejudicar. É um crime insinuar que errou no cuidado. Acertava na intenção, exagerava no método. Ficava fragilizado com a permanente prevenção de constrangimentos.

    Não poderia levar minha mãe comigo para dentro da sala de aula e no recreio e cresci ouvindo ofensas e desaforos dos colegas, desprovido de qualquer couraça e malícia. Não havia aprendido a responder e criar juízo.

    Vejo pais que insistem em dublar os filhos. Ou porque eles estão numa cadeira de rodas ou porque são gagos ou epilépticos ou porque enfrentaram algum acidente. São porta-vozes da compaixão.

    A compaixão não educa. É quando subestimamos o próprio filho. Quando não suportamos a discordância e isolamos a dificuldade. Ao invés de apoiar, substituímos. Fortalecemos uma ausência.

    Cuidado para não silenciar quem nem falou. A mudez empedra. E não é colorida e móvel, muito menos tem saída como um cubo mágico.




    Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
    Revista Crescer, São Paulo, Número 189, P. 60, Agosto de 2009


    4:05 PM :: Comentários:

    HOMENAGEM



    Organização: Grupo de Atores Tolérance

    1:49 PM :: Comentários:


    Sábado, Agosto 15, 2009

    TROCANDO AS MÃOS PELOS PÉS
    Arte de Leonardo da Vinci



    Depois da pausa de julho, Rolo Compressor enfrenta a H1N1 e volta ao estádio.
    Estuda a relação entre as mãos e os pés a partir do jogo Atlético e Palmeiras.
    A poesia combina com o final de semana.

    "Os pés do futebol realizam o impossível, desenham o vento, pintam o invisível, criam janelas, balõezinhos, meia-lua, corta-luz. Uma gramática da fugacidade."

    10:40 AM :: Comentários:


    Sexta-feira, Agosto 14, 2009

    SEMPRE UM PAPO


    PALESTRA EM BELO HORIZONTE E LANÇAMENTO DO LIVRO TERCEIRA SEDE
    25/08, terça-feira, às 19h30 | Local: Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena 1.537 - Centro)



    PALESTRA EM SETE LAGOAS E LANÇAMENTO DO LIVRO TERCEIRA SEDE
    26/08, quarta-feira, às 19h00 | Local: Auditório Dr. Marcelo Vianna – localizado na Unifemm (Av. Marechal Castelo Branco, 2.765 – Bairro Santo Antônio)

    Mais informações.

    6:39 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Agosto 13, 2009

    MAGIA FORTE

    Nesta quinta (13/8), o programa Jornal do Almoço, da RBSTV, transmitiu animada reportagem sobre o curso Terapia Literária, que começa na próxima segunda (17/8). Inscrições pelo telefone 51 30224444 ou pelo e-mail atendimento@clinicaverri.com.br



    Mais detalhes aqui.

    4:55 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Agosto 12, 2009

    CACHOS FAMILIARES
    Arte de David Hockney
    Para o amigo Flávio

    Fabrício Carpinejar



    Manuela tinha 82 anos. Morava com suas quatro filhas no interior paulista.

    Participava de grupos de dança, jogava cartas com as amigas, passeava diariamente com sua bolsa preta a tiracolo. Circulava o batom nos lábios finos para flertar com as sombras dos muros brancos. Já estava viúva, mas não cansada de si.

    Apertava os olhos quando faceira, lançando o pescoço para trás como Ava Gardner. Seu rosto era uma correspondência aberta a vapor de chaleira. Delicado, confidente.

    Mas ela morreu por causa das bananas. Morreu de bananas. É a morte-banana que pode atingir todos os octogenários.

    Não é para rir. Sua morte não foi patética. Esclareço com pesar.

    Conhecida no bairro pela preservação do salto em qualquer caminhada, vasculhava a feira em ruazinha de sua cidade, às terças. Cumprimentava os feirantes com o aceno leve de cabeça, como se estivesse começando uma dança de salão.

    Deslizava pela calçada, arrebatada talvez pelo sol esverdeado ou pelo cheiro de manjericão se abrindo úmido nas mesas, é mesmo sutil a felicidade, raro diagnosticar sua origem, emerge com fúria de um som ou um cheiro ou uma lembrança. A felicidade é frágil, nem pensamos muito nela para não perdê-la.

    Naquela manhã, ela não comprou um cacho de bananas como de costume. Comprou três dúzias. Encheu sua sacola de bananas. Voluptuosas, amarelas, listradas. Exagerou, mas pensou que as frutas amadureceriam em semanas diferentes, que faria uma torta, um doce.

    Não imaginou que estava se matando.

    Ao chegar em casa, suas meninas um tanto mulheres se prontificaram a ajudá-la com a sacola. Correram ao portão.

    - Mãe, que pesado, o que trouxe?
    - O que é isso, mãe?
    - Mãe, para que 36 bananas?
    - Isso não é normal, mãe.
    - Mãe, você caducou. Dá para montar uma banca.

    Ela mexia os ombros, constrangida com o julgamento. O inocente tem ares culpados. O inocente não ensaia, é pego desprevenido. O inocente tem aparência muito mais criminosa do que um culpado.

    As filhas se reuniram na janta e decidiram que a atitude de Manuela extrapolou a normalidade, um disparate, infelizmente estava ficando gagá.

    E duvidavam de cada evocação dali por diante, de cada frase de Manuela, da memória de Manuela, da imaginação de Manuela. Toda conversa isolada é a de um louco.

    Questionaram seu domínio, sua independência, confirmaram fatos e datas para confundi-la.

    Um velho não pode cometer exuberâncias, saciar desejos de grávida, vontades altissonantes e esquisitas. Só o jovem. Se o velho supera a medida, já é visto como doente. Esclerosado.

    E não mais permitiram Manuela sair, brincar com as amigas, suspenderam suas atividades pela suspeita de doideira. O tribunal familiar é o único que ainda usa o confinamento.

    Ao proteger, sufoca. Ao cuidar, enfraquece.

    Os prisioneiros do amor nunca serão soltos.

    Ela não viu sentido em revidar, entregou-se lentamente ao sofá. Vidrada na televisão. No aquário de seu vestido floreado. Morreu em seguida de amargura.

    Morreu porque comprou três dúzias de bananas. E tinha 82 anos.

    12:58 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Agosto 10, 2009

    SOZINHO EM MEUS PROBLEMAS
    Arte de Miró

    Fabrício Carpinejar



    Pai monárquico costuma ter filho revolucionário. Pai democrático costuma ter filho tirano.

    Busquei criar uma frase que rendesse graça, consegui ser preconceituoso.

    O preconceito é o fracasso do humor.

    O banheiro do avião me convenceu de algumas bobagens paternas.

    A mania de controlar o filho. Controlar é dominar. Dominar é ter poder. Ao pai, resta influenciar. Outras formas de autoridade envolvem submissão.

    Dar exemplo é para quem não deu amor.

    Meu filho já se mostrava irritado. Tinha antecedente. Entrei na fila preferencial de embarque e utilizei sua infância como desculpa. Afinal, é uma criança.

    Ele esclareceu: - Não sou de colo, pai.

    Olhei bem para ele, errei as contas, tinha a impressão que poderia carregá-lo.

    No avião, meu menino sentou na janela. Trajeto São Paulo-Porto Alegre, eu engolia pedras de gelo para me livrar logo do copo de plástico; pensava nisso, na demora do serviço de recolhimento do lanche, pensamentos bobos, de repente Vicente diz que vai ao banheiro. Eu sigo em seu encalço. Não confio que ele é capaz de ir ao banheiro sozinho. Esqueço que está na 2ª série. Parto atrás, ele fecha a porta na minha cara. Aflito, retorno às incertezas. Observo o visor: ele botou a tranca do sanitário. Trancou-se, e agora? Um homezinho em cor vermelha. Vermelha de perigo. Se ele não souber abrir, se não achar o papel, se não assimilar o mecanismo de esguicho da água, se não localizar a descarga, se ele cair com o balanço da nave e bater a cabeça...

    Nenhuma das hipóteses me assustava tanto quanto o provável fato dele acertar todos os movimentos.

    Cuidei minuto a minuto de sua ausência. Uma licença infinita. Ainda chovia, uma revoada de relâmpagos e turbulências agressivas. Meu nariz era a própria asa inclinada. Velava seu banco com um livro. O carrinho de comida passou na hora em que entrou. Elaborei simpatias obsessivas. Agüento a dupla de aeromoças desocupar o corredor e corro para verificar se ele depende de algo.

    Ele estava demorando. Não fui cauteloso. Não fui previdente. Deveria acatar os pressentimentos ruins e tomar uma atitude. As pálpebras estalavam como chicotes. A culpa e o castigo contaminam a paternidade. Xingamos a criança porque sofremos em demasia na nossa imaginação. Brigamos muitas vezes sem que ela decifre o que fez de errado. Ela não fez nada de errado, nós é que cogitamos tudo de errado que poderia acontecer com ela. E explodimos. Descarregamos um revólver vazio.

    Entenda, não estava preocupado com ele, mas comigo, ele não dependia mais de mim.

    Quando o carrinho libertou meu assento, levantei. Ao dar o primeiro passo, ele abriu a porta e veio me abraçar. Simulei que me levantei para que gentilmente voltasse ao seu lugar.

    Vicente é mais resolvido do que eu - sofro de prisão de ventre e tenho vergonha de usar banheiro que não o de minha casa.

    11:27 AM :: Comentários:


    Domingo, Agosto 09, 2009

    UM CLÁSSICO PRECOCE

    Fabrício Carpinejar



    Altair Martins completa dez anos de publicação, desde a largada atordoante dos contos de Como se Moesse Ferro. O que se passou nesta década com ele? Desculpe, nada que mudasse a tempestade amazônica de seu começo. Com Dentro do Olho Dentro (2001) e Se Choverem Pássaros, (2003), confirmou o talento de confundir com uma densidade atávica, selvagem, dono absoluto da tensão do meio de campo, capaz de mudar o curso de um enredo e o escore de uma tragédia com apenas uma frase.

    O Prêmio São Paulo de Literatura de R$ 200 mil dado ao seu romance de estreia, A Parede no Escuro, não é uma surpresa. Ou um acerto isolado. É o sinal de que o público e a crítica se abriram para a vertiginosa verve do ficcionista. Isso aconteceria agora ou depois – não era possível represar o reconhecimento por muitos anos.

    Há dois tipos básicos de autores: o que evolui com o tempo e o que faz o tempo evoluir com ele. Altair é o segundo caso. Um escritor de invenção, que preparou uma inédita dimensão contística para uma nova geração de oficineiros.

    Altair Martins é Simões Lopes Neto urbano. Um Yamandu Costa das cordas vocais. Clássico precoce. Mozart dos desvios e desvãos. Os contos Como se Moesse Ferro e Humano tinham a estrutura molecular de um poema, nenhuma vírgula posta fora de lugar, uma escada-caracol sonora, hipnose de correnteza. Frases geminadas, gêmeas vão formando um arrastão de sentido, uma fúria de significado. São textos próprios à voz alta, réquiens da fragilidade humana. Raro quando um conto é coeso como um verso, porque é necessário manter a densidade além da brevidade. E Altair é assim: cria um novo barroco: o barroco do necessário, sem luxos e gorduras, sem artifícios e lantejoulas. Dobra o osso mais do que a carne, o estalo é ouvido à distância.

    Neste sentido, representa o antípoda lírico de Amilcar Bettega, outro avatar da recente prosa gaúcha e ganhador de um grande prêmio, o Portugal Telecom de 2005, caracterizado pelo retraimento estilístico. Na margem oposta de criação, Altair expande, alarga, estica.

    Enquanto Amilcar é um cirurgião cardíaco, mantendo a pulsação das alegorias e dos símbolos, Altair põe o avental de legista e disseca as metáforas do cotidiano. Um tenta curar, o outro analisa as doenças e as causas da morte.

    Sua arte é não perder o foco do pensamento e movimentar-se pelos desdobramentos do que foi dito. A Parede no Escuro não tem excesso em 253 páginas. Alterna os focos narrativos, o que gera um enjoo inicial, tal leitura de livro em movimento. Um coro grego na primeira pessoa, trazendo as vidas ordinárias do padeiro Adorno, de sua filha Maria do Céu, do professor Emanuel, de Forjo, de Onira, da estudante Lisla. Eleva o mínimo ao sublime, fataliza a casualidade e intensifica o suspense policial pela simultaneidade das ações, onde se sabe um pouco por vez de cada personagem. A embriaguez vem de pequenos goles.

    Há uma coragem social de abordar tabus como a relação desgastada entre professor/aluno (tema também do filme francês Entre os Muros da Escola, Palma de Ouro de 2008). Os pais se enxergam como clientes das escolas a ponto de fazer ameaças e chantagens quando contrariados. Altair (que atua como professor universitário) percebe a ferida do ensino correndo no breu, na qual a reprovação é quase vista como um crime e feita em último caso para não gerar conflitos. O jogo de culpas e expiações se estende à barbárie do trânsito, duelo catártico entre famílias, a de Adorno, morto num atropelamento, e a de Forjo, pai do atropelador, que está em estado grave no hospital.

    Um mundo onde ninguém tem razão, e todos tentam criar as razões o mais rápido possível para se aliviar da responsabilidade. Um mundo sem pai.

    A Parede no Escuro recebeu o clarão da janela. Mas Altair Martins sempre foi iluminado.

    Publicado no jornal Zero Hora
    Caderno Cultura, p. 3,
    Porto Alegre (RS), Nº 16056, 08/08/09


    9:18 AM :: Comentários:


    Sábado, Agosto 08, 2009

    VICENTE E SUA VIDA SELVAGEM



    Meu filho Vicente é autor mais do que personagem. Aos 7 anos, cria seu blog EU VI BICHOS. Durante nossas viagens, ele fotografa animais e faz comentários. Delicie-se.

    11:49 AM :: Comentários:


    Sexta-feira, Agosto 07, 2009

    PREGUIÇOSO NO ELOGIO
    Arte de George Braque

    Fabrício Carpinejar



    Fui comprar água numa tenda em Areia Branca, no Rio Grande do Norte. Praia quase deserta se não fossem os cachorros confundindo conchas com ossos. Todo camelo veio de um cão desesperado.

    Três amigos tomavam cerveja e gravavam depoimento num celular. Um deles, de boné vermelho, já tinha errado duas gravações.

    Deveria ser um recado para uma ex-namorada prestes a se casar.

    Resmungava: "Como vou desejar que ela seja feliz? Como?"

    Com facilidade de prosa, os dois escudeiros apresentavam opções de discurso. Gesticulavam, entusiasmavam que seria rápido, empurravam seus ombros como jangadas. Que ele falasse o que sentia.

    - O que sinto? Não sei o que sinto, estou pensando agora no que sinto e não estou gostando nem um pouco.

    "Estela eu queria que você encontrasse no amor o que não encontrei..."

    E parou de novo, engasgou, botou a mão na frente da câmera.

    - Não dá para usar o primeiro?
    - Não, você nem completou uma frase.
    - Ai Meu Deus.
    - Qual é o problema?
    - Quando é palavra filmada eu penso na vírgula, onde colocar a vírgula. Não consigo colocar a vírgula.

    Ele se mortificava pela demora, pelo excesso que é o mesmo que uma ausência.

    - Ai me achega uma preguiça do que não vivi.

    Naquela hora, as pontas do oceano não se soltaram mais. Alcancei o que queria e o que não queria confessar. Somos preguiçosos no elogio e criativo para as críticas.

    Para destruir, montamos e desmontamos o dicionário com afinco, puxamos as piores fragilidades para sangrar. Criamos até neologismos. No momento da briga, ninguém segura o verbo. Não há raivoso burro. Não há raivoso com língua presa. Não há raivoso gago. Um Padre Antonio Vieira acorda na acusação apontando os dedos ao destino.

    No momento da paz, o verbo é travado. Parece que não precisamos fazer mais nada, a não ser recorrer às exclamações. Observamos nossa namorada e nos tranquilizamos com "bonita", "linda", "maravilhosa", "incrível", "fabulosa". Ela vai se tornando igual às outras. Não criamos gentilezas novas, não nos esforçamos para a homenagem. Não duvidamos do que sopramos para fora.

    Se ela derruba os livros no chão, apontaremos que ela é atrapalhada. Por que não dizer que ela transborda?

    Se ela esquece onde colocou a chave, lembraremos que nunca presta atenção. Por que não dizer que você é um portão da infância; é simples empurrar?

    Se ela acorda ranzinza, não condene. Por que não dizer que a ironia é a noite do humor?

    Por quê?

    Para quando ela estiver casando com outro, não lembrar mais da vírgula. A vírgula errada, que separou o sujeito do predicado.

    12:21 PM :: Comentários:


    Domingo, Agosto 02, 2009

    PEQUENEZAS
    Arte de Mondrian

    Fabrício Carpinejar



    Eu identifico agora quando uma recordação supera o cumprimento. Imagens flutuam naquela bobeira de estar ali contigo e não mostram interesse em fazer parte de sua vida.

    Passamos ao largo delas como banco de shopping. Elas nos enxergam e esperam o nosso retorno. Lembrar é voltar para um lugar que nunca abandonamos.

    A gente só confessa que lembra observando duas vezes o que esqueceu.

    Sei quando uma lembrança faz uma estreia.

    Tenho que parar onde estiver, curvar-me diante do pânico evocativo.

    Amo o que achava que não era meu. Apresso em comprimir os lábios prendendo o ar recente das palavras.

    Não é nenhuma cena inesquecível, definitiva, tipo formatura, despedida, jura de casamento, pedido de perdão. Nada que seja obrigado a repetir para assegurar o convívio.

    Lembrança mesmo não foi sublinhada, avisada. Lembrança mesmo tem importância atrasada.

    Pequenos ensinamentos que ninguém me dizia justamente por serem pequenos. As hortaliças dos hábitos.

    Minha namorada não me diminui para ser generosa. Explica o que ninguém quis. Talvez porque muitos deduziam que seria um absurdo desconhecer. Talvez não facilitasse a curiosidade. Talvez encarne um completo retardado para atitudes óbvias. Desenroscar um vidro de conserva me assusta mais do que correr uma maratona. Sou incompetente diante do abridor de lata, do alicate, do saca-rolha.

    Talvez simbolize um problema sério dos casais. Pela ânsia de grandeza, não aceitam desperdiçar a memória com banalidades. Forçados a impressionar até na hora de acordar. Para gerar valor, seguem o comportamento de que devem falar coisas fundamentais o tempo todo.

    O adulto pode regressar para a ignorância sempre que precisar.

    Ela me explicou que não posso deixar o laptop ligado na eletricidade senão vicia a bateria. Não desistia da tomada para manter 100% de carga quando saísse para viajar. Sacrifiquei dois computadores pela desinformação.

    Encontrei um risco no vidro dianteiro do carro. Já estava reclamando dos guardadores. Ela me explicou que é resultado do uso do limpador sem água e espuma. Tem sentido. A marca é uma meia-lua, bem no momento em que o aparador retorna.

    Fracassava para fechar a mala amarela. Inchava as têmporas para negociar quais pares de sapatos entrariam no bote de salva-vida. Ela verificou que não soltava o forro. Arrebentei várias costuras por não sondar a existência de um zíper interno e discreto.

    Escovava os dentes em movimentos horizontais. Rápidos e constantes. Com a pressa de bochechar. Ela me explicou que deveria articular gestos verticais e seguir o desenho das felpas.

    E me explicou a recolocar o elástico nas calças, a regular máquina de lavar, a cumprir nó de marinheiro.

    Eu lembro do que não preciso mais e estou salvo de mandar em mim.

    8:55 PM :: Comentários:


    Sábado, Agosto 01, 2009

    LITERATURA CURA



    Se você é daqueles que procuram um tarólogo ou numerólogo nos classificados de Zero Hora – deve ter gente que faz isso, né? –, periga ter topado nesta semana com o anúncio aí do lado. Pois neste domingo sairá outro reclame desses no jornal – mais uma invenção do poeta Fabrício Carpinejar, que está anunciando um novo curso de escrita criativa.

    A oficina Terapia Literária tem 10 vagas – a 11ª será oferecida em uma promoção exclusiva da Contracapa: o primeiro que mandar um e-mail para atendimento@clinicaverri.com.br e acertar a página e a seção em que o anúncio foi publicado na ZH dominical ganha a bolsa.

    Dica: pode estar em qualquer cantinho da seção Produtos e Serviços. Informações para oficina pelo fone (51) 3022-4444.

    Publicado no Jornal Zero Hora, coluna Contracapa, Roger Lerina
    Porto Alegre (RS), 1º/8/09


    MAIS DETALHES:
    (foto de Cínthya Verri)

    TERAPIA LITERÁRIA
    - Entender-se para escrever -

    Fabrício Carpinejar



    7 encontros em agosto e setembro
    Segundas e quartas alternadas
    Dias: 17, 19 e 24/8, 9, 14, 21 e 23/9
    Das 20h30 às 22h30


    OBJETIVOS
    De modo terapêutico, discutir possibilidades na criação literária com um grupo seleto de dez escritores. Trabalhar a inspiração a partir de confissões e contação de histórias. Trata-se de uma oficina de ideias, que permite o desbloqueio criativo e a descoberta dos melhores argumentos e motes para a escrita.

    O curso ajuda o autor a selecionar o que tem importância literária daquilo que foi vivido, a despertar evocações e lembranças secundárias, além de incentivar comparações e relações inusitadas do cotidiano.

    É terapia aplicada na formulação de tramas e poemas e que busca identificar pontos de vista originais. Com base na tradição, entender o comportamento das personagens e validar suas ações nos enredos. Combater o clichê, a repetição de fórmulas e os lugares-comuns com o estudo da ficção contemporânea e dos clássicos.

    O aluno pode trazer trechos e fragmentos de originais em qualquer gênero e apresentar seus problemas e dúvidas durante a criação de textos inéditos.

    Inscrições em atendimento@clinicaverri.com.br
    Clínica Verri (Rua Tobias da Silva, 267/506, Moinhos de Vento), em Porto Alegre.


    1:40 AM :: Comentários: