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    Terça-feira, Setembro 29, 2009

    JABUTI EM CASA



    Canalha! (Bertrand Brasil) vence o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, na categoria "Contos e Crônicas". É óbvio que estou sambando com os dedos. A obra ficou em primeiro lugar, seguida de Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves, e Os comes e bebes nos velórios das gerais e outras histórias, de Déa Rocha.



    Veja o resultado final.

    12:18 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Setembro 25, 2009

    FALO SÉRIO
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    Briguei feio com meu melhor amigo. Fiquei ofendido.

    Juro que não desejava esse fim para uma amizade de infância. Lamento o trincar do copo de uísque. O rebentar da corda do pião.

    Mas o que fez não tem cabimento.

    É que Mário Corso não conta nenhuma briga com sua mulher. Nenhum desentendimento com Diana. Nenhuma fagulha, rusga, faísca. Não conta; como vou confiar em quem está acima da maldade? Como posso garantir que ele é sensível?

    Quem é perfeito é insensível, penso. E já quero reatar amizade porque sei que somente ele entenderia essa frase. Mas tenho que me controlar.

    Metade da conta no celular e dos gastos em bares decorre de minhas lamúrias para ele. Narro meus dramas amorosos, desfio comentários perversos, peço conselhos afobados, confidencio o quarto antes mesmo de abrir as cortinas. Tudo impulsivo, água barrenta, sem filtros. Na confissão, há a umidade dos restos de comida. A remela dos olhos. Segredamos o pesadelo ainda dormindo.

    Não que seja aquilo, é a emoção daquilo. Amigo que é amigo não tem banco de dados. Queima os arquivos. O que se comentou de uma mulher será esquecido no dia seguinte. Para o bem da relação.

    Não venho desmerecer sua grandeza epistolar. Só que é bom demais para ser verdade. Dependo de uma gafe dele para não me enxergar conversando com meu pai. Um tropeço para não me penalizar com arrependimentos. Um insulto para relaxar e reaver a vontade de continuar praguejando.

    Não suporto a falta de igualdade. Até na sessão dos Alcoólatras Anônimos todos devem desabafar seus problemas e vícios. Por que ele não?

    Seu exemplo invicto me aniquila. Passo a duvidar dele para me perdoar. Se confiar que é realmente assim, que não existe uma incompreensão em seu casamento, assumo sozinho as despesas da maldade. Não me restará fiador.

    Mas ele não abre a voz. Sua palavra é como eucaristia, evita morder, amolece no céu da boca.

    Não partilha dessa cumplicidade masculina. Eu explodo, ele cala. Vou detalhando cenas, expondo as vísceras, sangrando, e não retribui com algum incidente vergonhoso.

    Ele me isola: deveria inventar se fosse o caso. Ele me empareda: assemelho-me a um difamador. Um amargurado. Um encrenqueiro

    Não é justo. Corso banca o anjo do samba-canção, veste terno de linho branco com um cravo na lapela. Longe das raízes, a flor é uma gravata insuportável.

    Parece que não se incomoda com a vida, que não se recusa a pôr a mesa, a lavar os pratos, a levar o lixo. Seu controle samaritano me enerva.

    Cadê suas ofensas domésticas? Sua oposição?

    Ele está me constrangendo ao silêncio. Claro, sugere que estou incomodando, atrapalhando, que não suporta ouvir de novo a mesma história.

    Eu ameacei Mário Corso. Lancei um ultimato.

    "Discuta hoje com sua esposa e depois me ligue, senão não sou mais seu amigo."

    8:38 AM :: Comentários:

    CORUJICE



    O blog EU VI BICHOS do meu menino Vicente, 7 anos, está dando o que falar. Diário do Comércio de São Paulo entrevistou o filhote. A conversa rendeu o mais puro porta-retrato de palavras. Aqui.

    12:26 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Setembro 24, 2009

    TORRES



    Nesta quinta (24/9), alucino-me de espuma. Começa minha participação na IX Feira do Livro de Torres (RS). Sou patrono e estarei conversando com o público até domingo (27/9). Com o tema "Viaje nesta leitura", a Feira acontece em tenda na Praça Borges de Medeiros, na Prainha.

    Confira minha programação:

    24/9 (quinta)
    19h - Solenidade de Abertura
    Local: Palco da Feira

    25/9 (sexta)
    9h - Encontro com o patrono
    Local: Casa de Cultura

    26/9 (sábado)
    16h30 - Sarau Poesia na escola convida Fabrício Carpinejar
    Local: Palco da Feira

    17h30 - Sessão de autógrafos
    Local: Palco da Feira

    BAGÉ



    Na segunda (28/9), viajo para Bagé (RS). Circulo pela 12ª Feira do Livro da cidade, na Praça Silveira Martins.

    Conduzo oficina de criação poética, das 9h às 12h e das 14h às 17h, no Salão Camilo Moreira (Av. General Osório, 998). Inscrições no Sesc (30 vagas) Tel.: 53-32427600/32428200

    OUTROS EVENTOS:

    29/9 (terça) - Sapucaia do Sul (RS)
    9h - Palestra na Escola Municipal José Plácido de Castro

    30/9 (quarta) - Porto Alegre (RS)



    20h - "Existem limites para a experiência sexual na relação amorosa?"
    Mesa-redonda com Suzana Lago (médica), Silvia Skowronsky (psicanalista) e Ignácio Alves Paim Filho (psicanalista)
    Coordenador: Ane Marlise Port Rodrigues (Psicanalista)

    Sociedade Brasileira de Psicanálise
    Diálogos Contemporâneos sobre Sexualidade

    Entrada Franca
    Local: Auditório da Livraria Cultura
    Shopping Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80)
    Fones (51) 3330.3845 | 3333.6857 | 3028.4261

    1º/10 (quinta) - XXIII Feira do Livro de Gravataí (RS)



    20h - Consultório Poético ao vivo:
    Palpites poéticos e atendimento de dúvidas amorosas na hora

    Local: SESC
    (Rua Anápio Gomes, 1241, Centro, Gravataí)
    Tel.: (51) 34976174

    10:59 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Setembro 22, 2009

    NÃO SABEMOS NAMORAR
    Arte de Chagall

    Fabrício Carpinejar



    Agora dei para mascar chiclete com sabor melancia.

    Deveria esconder esse detalhe. Mórbido para quem atravessou os 36 anos.

    Mas vejo o quanto escondo o romantismo debaixo da mordida. Sou açucarado. Meu beijo é diabético. Logo eu que passo uma imagem seca de bolacha de sal.

    Vá lá, não vou sorrir para mim de noite ou pedir a benção para os apaixonados, mas não acredito nesta história de acomodação no romance. Que de uma hora para outra cansamos. Não é cansaço, não é que paramos de seduzir porque conquistamos e que não precisamos mais arrebatar com surpresas. Não é que estamos seguros e não arriscamos mais. Não é o conforto ou o domínio territorial.

    Senão começaremos a acreditar que existe cupido. E cupido é o mais cafona dos anjos. Quem começa uma relação com cupido termina na fossa repetindo os erros ortográficos das canções sertanejas.

    Confio que há gente que não saiba namorar. Não sabe namorar, e pronto. Supõe que é instintivo, natural, que é beijar, abraçar e os oceanos transportam a espuma. Que basta amar e as relações funcionam.

    Mas as relações queimam pelo pouco uso. A eletricidade enferruja.

    Há gente que jura que namorar é cumprir um expediente depois do expediente: jantar, conversar e transar. Há gente que não quer namorar, e sim uma amizade para dividir o que se é. Sem tensão. Sem cobrança. Sem nervosismo.

    Que tudo está definido e seguro para o final do ano, que não pode ser perdido no próximo minuto. Eu acabei de perder o próximo minuto.

    Namoro é ambição. É um final de semana a cada dia. É uma delicadeza insuportável, antecipar os movimentos e agradar quando não se espera. Gentileza em cima de gentileza, infindável. Um cuidado para não magoar com aviso e pergunta, com aquela educação concedida a gestantes e idosos.

    Namorar requer uma atenção absoluta. E não reclame: amar pode ser para toda a vida quando oferecemos toda a nossa vida.

    Tem que se preparar, ceder, abrir espaço, oferecer, renunciar. A inquietação nasce da paciência. A criatividade nasce de uma porta fechada.

    É um extremismo terrorista. Explodiremos civis.

    Durante algum desentendimento, mobiliza-se a genealogia da imaginação para escandalizar de novo. Carro de som, helicóptero, arranjos suicidas pela janela. Não é permitido ficar quieto, parado, para conversar a respeito. A conversa demora.

    No namoro, não existe como ser egoísta. Egoísmo se deixa no JK. É pensar pelo outro, com o outro, como o outro.

    É ter uma lista de compra de mercado na ponta da língua, junto com o chiclete de melancia: qual a pasta de dente que ela usa, o xampu, o condicionador, o azeite, o leite que toma, o suco... Desconhecer a geladeira da namorada é passagem direta para o congelador.

    É entrar numa livraria e pensar no livro que ela vai gostar, é entrar numa loja e pensar um vaso que combinaria com sua sala, é entrar no cemitério e sonhar com um mausoléu para a família, sim, planejar a morte junto - nada mais romântico.

    É entrar em si mesmo e lustrar as memórias mais distantes para parecer orfão antes de sua chegada.

    Agora dei para mascar a minha boca.

    6:20 PM :: Comentários:


    Domingo, Setembro 20, 2009

    O QUARTO ESCURO É UM QUINTAL
    Arte de Klimt

    Fabrício Carpinejar



    Arnaldo Jabor que me desculpe. Rita Lee que me dê licença.

    O amor é canino. O sexo é felino.

    No sexo, entra-se no cuidado do invisível, do corpo sestroso e secreto, selvagem e sinuoso, das lambidas sucessivas do mistério.

    O sexo é um gato que se esconde no quarto. E nunca é seu mesmo quando se tem.

    O amor é um cão que corre para rua. Que sempre pode ser seu mesmo quando já se tem. Hostil para protegê-lo. Avança, não economiza a mordida, dilacera os sons, late para plantas, lapida os dentes nas bordas crepusculares do osso e machuca sem querer com os talheres trocados da boca. Ataca a estranhos, defende a casa e não se cansa de demonstrar afeição. Às vezes é cruel para brincar. Matará a poesia e a infância, caçará passarinhos por inveja do vôo.

    O amor é canino. Perfeitamente canino. E a necessidade de fazer com que o outro obedeça. Que sente na hora que se pede. Que deite quando temos vontade. Que se mostre para a praça comportado.

    E uma necessidade maior de ser contrariado. O cão é nossa ambição de ser contestado. Nossa carência pela adversidade.

    O cachorro será amado ao desobedecer. Quando superamos o nosso próprio desgosto. Quando engolimos as frustrações e desmandos. Quando o aceitamos daquele jeito torto e irreversível, mas nosso.

    Ele mijará pelo corredor, quebrará seus objetos prediletos, danificará seus óculos e seus tênis, rasgará o estofado, comerá metade das cobertas.

    Desertificará pouco a pouco sua sala. Repassará lições de despojamento. Mostrará que nenhum pertence ou lugar supera sua presença inquieta e ansiosa

    A vontade é de bater, mas ele logo balança o rabo e o persegue submisso pelos corredores do perdão.

    A raiva do castigo não perdura, logo esquecida com o pente dos dedos na pelagem. O focinho úmido do cão desmotiva a fixação da culpa.

    Estranho cão, curioso amor. E será mais seu quanto mais acumular perdas. O sacrifício o tornará pessoal. Depois de um tempo, estará explicando o que ele fez de errado antes mesmo de cobrar.

    O silêncio carente do bicho reabrirá suas frases, desmentirá sentenças. Quem não fala é contagioso. O cão tem influências de rio. Órfão no momento em que tropeça, autoritário ao correr.

    As maldades serão façanhas porque o cão oferece ao seu dono a chance de ser bondoso, a oportunidade de ser compreensivo.

    No momento da briga, não há cão nem gato. É só humanidade e suas razões orgulhosas.

    Após o choro e o temporal, o pessimista entenderá que a relação está por um fio, que ficou enfraquecida pela discussão, que a despedida se aproxima por qualquer motivo.

    O otimista compreenderá que a relação ficou mais forte, que o amor provou ser resistente e que os dois não conseguem se separar.

    O ódio e a esperança não são animais de estimação. Não tente ensiná-los.

    12:36 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Setembro 17, 2009

    TODA DESPEDIDA É FALSA
    (trágico é que alguns acreditam)
    Arte de Monet

    Fabrício Carpinejar



    Tensionados, não existe escolha, existe precipitação. Alguém pedirá para sair.

    Estamos os dois adoecidos, nenhum tem condições para ajudar o outro. Seu jeito de ser cuidada é diferente do meu jeito de ser cuidado.

    Vou remando as bordas da camisa. Minha lentidão é despedida. Quando todo gesto se torna relevante por ser irrelevante. Não desloco os cotovelos porque os músculos argumentam que não vale a pena. Demoro nos movimentos singelos como levantar a xícara de café. Ele já esfriou e não sofro com isso. Não sofro com coisa alguma. O maior sofrimento é não sofrer. É quando não há nem mais ânimo para sofrer. E conhecemos a apatia da dor, um cansaço inacreditável e resta a canção sem a letra, resta a vontade do poema e sua desistência. O pensamento vem e apago. Não me interessa apanhá-lo. Passo a ser meu único leitor. Não tenho esperança de que ficará emocionada, que me avisará que foi um susto desnecessário e me acalmará para dormir em seguida.

    Maravilho-me com seus cílios e não comento. Maravilho-me com suas pernas brancas, os joelhos lisos, e não sopro nada. Maravilho-me com sua boca graúda e não me inclino a acompanhá-la. Beijar é andar de lado no cavalo.

    Permaneço sentado nas mãos. Solteiro dos anéis que não vieram. Se chover, então, vidro-me na varanda sem mexer o tronco. Torço para que a chuva demore. Não suportaria os conselhos das calhas.

    Sou a completa anulação de sentido para me movimentar. Espero que pule da dor para me abraçar. Que tome uma atitude, que não me magoe. Mas sei que o entusiasmo é frágil. Podemos supor que estamos recuperados e logo afundaremos novamente no delírio. A cabeça nos engana e as pernas não mandam os últimos boletins.

    Repare que o soro fala devagar como a gente nesta hora. Tão devagar que engolimos de volta a pronúncia, o soluço, o sim.

    Acordei desejando mandar flores. O mesmo arranjo que enviei na primeira vez. Iria colocar junto sua canção de Ella Fitzgerald. Recuei de bobo. Achei que não mudaria nossas dificuldades.

    Pensei em buscar um prato bem bonito do seu restaurante favorito e deixar em seu trabalho, já que não que terá tempo para almoçar. Mas retrocedi de novo. Achei que não contaria com tempo para agradecer.

    Acovardo-me de gentilezas. Falta a esperança de que serão compreendidas. Ou que me procure com meus apelidos pelo caminho salteado do jardim.

    Chegamos ao caroço, onde os temperamentos se definem, onde não há mais a concessão dos primeiros meses. A carência é um caroço. Por isso é duro atravessar. Não é mais aquela facilidade da polpa, de atravessar com o embalo do suco. É agora que seremos pedras num canto ou seremos raízes.

    Arrebento-me de arroubos, arrebatamentos. Mas a realidade é longe de minha casa. Não há amigo que me transmita o que tenciono escutar, que arranque o pessimismo poroso das folhas. Anseio por algum médico que nos avise que temos poucos meses de vida; é o suficiente para reunir as forças.

    Você é intensa, mas sua intensidade não costura para fora. Eu sou intenso, mas minha intensidade costura para fora antes mesmo de comprar os tecidos. Sei que não entendo nem metade do que já sentiu por mim. Por absoluta ausência de comunicação. Sei que não entende nem metade do que sinto por você. Por absoluta ausência de paciência. Eu preciso ouvir, você não precisa falar, nos amamos desinformados.

    Maldita chuva que começou. Os relâmpagos são gravatas azuis em terno escuro. A sobriedade das sobras. A chuva sempre está vestida para velório. A chuva lava bagunçando. Deixa tudo mais sujo. Muito mais verdadeiro.

    Pretendia dizer que

    A solidão é cheia de boas intenções.

    12:42 PM :: Comentários:

    ÚLTIMAS VAGAS
    Arte de Andy Warhol



    As inscrições estão abertas para a segunda turma de Terapia Literária. Serão cinco encontros, de três horas cada, sempre aos sábados, das 9h30 às 12h30, para trabalhar a inspiração. O laboratório terapêutico acontece no Espaço Cultural da Clínica Verri (Rua Tobias da Silva, 267/506), no Moinhos de Vento. Há somente dez vagas.

    As aulas começam neste sábado (19/9) e prosseguem em 3, 10, 17 e 24/10. Inscrições podem ser feitas em atendimento@clinicaverri.com.br ou pelo telefone: (51) 3022.4444

    A partir de confissões e contação de histórias, serão discutidas as possibilidades na criação, permitindo o desbloqueio criativo e a descoberta dos melhores argumentos e motes. Uma oficina de ideias para combater o clichê, a repetição de fórmulas e os lugares-comuns com o estudo da ficção contemporânea e dos clássicos. O curso ajuda o autor a selecionar o que tem importância literária daquilo que foi vivido, a despertar evocações e lembranças secundárias, além de incentivar comparações e relações inusitadas do cotidiano.

    O aluno pode trazer trechos e fragmentos de originais em qualquer gênero e apresentar seus problemas e dúvidas durante a criação de textos inéditos.

    12:29 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Setembro 16, 2009

    SANFONA
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    O trajeto sempre idêntico. Carregava a mochila branca encardida por cerca de 500 metros na saída do Colégio Aplicação, em Porto Alegre. Conhecia de cor: atravessava a Paulo Gama e perambulava como uma formiga e seu torrão de açúcar diante das imensas palmeiras da Oswaldo Aranha. Eu pegava o ônibus Carlos Gomes na parada do Instituto de Educação. Ações previsíveis: 12h15 batia a sineta, 12h25 estava sentado na primeira fileira atrás do cobrador, 12h50 chegava em casa.

    Não arriscava aproximações. Meus doze atarefados anos não permitiam duvidar de outro caráter senão o meu. Espinhas aumentavam o desconforto. Tinha uma franja que servia de óculos escuros. Momento constrangido, estudado de passeata, onde as turmas comentavam as aulas e qualquer gesto poderia ser motivo de piada. Os alunos da Zona Norte aguardavam a condução naquele ponto. Era um observatório, um farol, repescagem do recreio.

    Para evitar a avaliação dos colegas, rastreava a passagem do ônibus no começo da avenida e corria desesperadamente para reaver o mundo familiar. Repeti a dinâmica numa segunda-feira. Avistei a tarja laranja da frota da Carris, faltou apenas confirmar o letreiro, o sangue acelerou e corri como um galo sendo caçado. As abas do meu casaco azul levantaram, troteava pelo peso dos livros de Matemática e Biologia. O ônibus parou rapidinho, poucos passageiros subiram, tempo que deu para pisar no primeiro degrau e ir. A porta fechou na minha cara. Ou na metade dela. Fiquei prensado na torradeira da porta. Sanfonado. Com a mochila do lado de dentro e o braço esquerdo acenando para a multidão do Segundo Grau. Comecei a gritar: “Abre, abre, abre!”. Mas minha boca ficou para fora. Não obtive ajuda de nenhum tripulante. Concentrei-me para não cair.

    Foi o maior vexame de minha vida. Arrastado por duas paradas. Porque a seguinte o motorista esqueceu, seguiu aumentando a velocidade. A curva quase me matou de asma. Tentava raciocinar que não pagaria passagem, encontrar alguma vantagem.

    Não me convenci. O ônibus ainda era o errado: Jardim do Salso. Percorri o caminho a pé, digerindo o desastre que seria a minha história escolar dali por diante. O estigma. A lenda patética. A fama de palhaço e desastrado. Perderia os amigos próximos e dobraria a distância dos que não falavam comigo. Na manhã seguinte, forjei febre, enxaqueca, mal-estar, não desejava voltar para a escola. Nem forçado. A mãe puxou minhas cobertas e não se dobrou aos gemidos e resmungos.

    Ao entrar na sala, devem deduzir o que aconteceu, não?

    Risos que não terminavam de recomeçar. Gelei os calcanhares e aceitei o banquinho da forca. Baixei a cabeça, até que o Ricardo tocou em meus ombros:

    - Genial ontem, hein?

    Hélio mandou um bilhete:

    - Você surfou o ônibus, deu um cano maneiro!

    Elisa me cumprimentou com abraço sinuoso e me convidou a aparecer em sua festa no final de semana. Perguntou ainda se bateria o recorde de duas paradas.

    Todos me assediaram no intervalo, espalhando que meus gritos significavam bravura (“ Arre, arre, arre!”).
    Recebi a fama de domador do asfalto.

    Não neguei nada. Não faço mais pesquisa de opinião, muito menos busco entender o que os outros pensam de mim.

    7:52 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Setembro 15, 2009

    PAIXÃO OU PRECIPITAÇÃO DO DESASTRE?



    Ela teve um caso com colega do pós-graduação. Acalentou a esperança de um amor definitivo. Meses depois, ele se separou, realizou o sonho dela, e nunca mais mandou notícias.

    Consultório Poético investiga os amores impossíveis e busca explicar a indiferença após tórrido romance.

    "Qualquer caso tem a rapidez de uma pane. Não será o barco vagaroso, empurrado da areia para o oceano, como no namoro. Está em alto-mar desde o início.

    Essa vertigem seduz muitos amantes, que entendem a entrega como um amadurecimento sobrenatural do amor, a descarga elétrica como se fosse química para o resto da história. É um encontro em estado de emergência, um desespero epidérmico, um pânico comunicativo, uma pressa para se consumir.

    Tudo parece definitivo porque desligaram as censuras."


    12:20 PM :: Comentários:


    Domingo, Setembro 13, 2009

    CRISE
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    Quando menino, meu pai
    estendia os tapetes na janela.
    Quando casado, minha mulher
    estendia os travesseiros na janela.
    Novamente solteiro,
    estendo meus casacos na janela.

    O sol do parapeito
    lava meus laços.
    A sala que foi um dia o quarto
    que foi um dia o guarda-roupa.

    Fui-me enforcando na gola,
    nervo de lã, lar reduzido.
    Não deveria ter acreditado
    na revolução sexual.

    Posso morar numa gaveta.
    Morrer no cabide.
    Não serei usado.

    Até as frutas apodrecendo
    na cozinha não estão sozinhas.
    Os insetos dividem sua despedida.

    Não trago mais reservas.

    Na infância, catava moedas
    que minha mãe deixava na bolsa.
    Baldeava provisões, limpava enganos,
    respirava o couro.

    Havia onde procurar.

    Na vida adulta, caçava rostos
    amassados dos bolsos,
    cédulas dobradas nos forros,
    guardava visitas.

    Havia onde me procurar.

    Esquecer nos enriquecia.



    Poema inédito publicado no jornal Valor
    Suplemento EU & Fim de semana
    Caderno especial sobre a crise econômica
    11/09/2009

    2:45 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Setembro 11, 2009

    A COBERTA DE LÃ
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    Não é um jantar iluminado, não é o cinema de mãos dadas, não é sentar na praça observando os aviões recortando as nuvens enquanto as crianças buscam enrolar as correntes do balanço no arco com pulos cada vez mais altos.

    Não é o medo de perdê-la para outro homem. Nem o medo de me perder para a infância. O amor se resolve na banalidade. São os cílios, os farelos, os botões, os brincos, os cabelos que não enxergamos cair no chão. São as quedas mudas, as gentilezas brandas, o costume silencioso de seguir procurando um ao outro mesmo depois do casamento.

    Minha mãe, por exemplo, antes fazia a benção em minha testa quando pequeno, nas saídas de madrugada para escola. Hoje ela faz questão de abrir e fechar o portão ao partir de sua casa. Tenho o controle, mas ela não me permite. Apertar o botão vermelho é seu jeito de continuar mantendo o sinal da cruz. Agora no rosto da estrada. Com as grades levantando lentamente a água sagrada da chuva.

    Sei que você me ama quando deito no sofá para assistir televisão. Estou sozinho, desmantelado, nem escuto o que vejo, pouso em um canal, estável, deitando a cabeça no encosto duro. A altura desajeitada, imensa, mal cabendo naquele caixote de espuma. Naquele engradado de molas. As pernas balançando perto do abajur.

    Não conversamos, suspiro sem cópia carbono. É nesse momento em que não estamos juntos que nos amamos. Porque não a vejo provando que me ama, nem me vejo confirmando que a amo.

    Apago mais pelo cansaço do que pelo desejo. Vacilo as pálpebras algumas vezes até desistir. Tento comentar notícias, mas guardo para amanhã. Não tomei banho, não escovei os dentes, Sentei um pouco para respirar e fiquei. Acabei de chegar do trabalho, das aulas que permaneço de pé, talvez pela ansiedade de abraçar as palavras.

    Não me acorda, não me empurra a cumprir horários. Me deixa ali. Até amanhecer.

    Não duvido que muitos pensem que me abandonou para desfrutar os dois lados da cama. E ler tranquila, longe da minha insistência, não precisando explicar a história do livro.

    Pareço um morto. Um morto que pode nascer de novo. Um morto obediente. Um morto crédulo.

    O morto só será de uma mulher quando ela o velar em vida. Tenho certeza disso. Feliz da viúva que pode dizer: meu morto! Sem ter que dividi-lo. Chorando, absoluta, o reinado de sua dor.

    Na dor, não queremos dividir, queremos não competir com mais ninguém. A morte é a única liberdade para sofrer. É um suicídio desperdiçá-la.

    E me acordo assustado, procurando fixar o horário e o dia da semana. Olhos em remela, boca em ressaca. Seca.

    Vejo que estou amorosamente acomodado. Diferente do estado em que adormeci.

    Alguém pôs um travesseiro, alguém retirou meus sapatos, alguém me livrou do cinto. Alguém colocou uma coberta de lã para não tremer com as janelas.

    Esse cobertor, não há dúvida, ainda é seu corpo.

    12:47 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Setembro 10, 2009

    A POESIA É IDEAL PARA A TURBULÊNCIA DIGITAL

    Em entrevista a Felipe Machado, o poeta e escritor Fabrício Carpinejar fala sobre tecnologia, e seu novo livro, "Terceira Sede".



    TV ESTADÃO, 9/09/2009

    6:40 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Setembro 08, 2009

    CHOVENDO DESGRAÇAS
    Arte de David Hockney

    Fabrício Carpinejar



    O chuveiro tem temperamento. Alguns ligam, outros nos devolvem a fé.

    A ducha de casa funcionava perfeitamente com exceção de um detalhe: uma gota fria no meio da enxurrada quente. Não sei de onde vinha, como vinha.

    Era um pingente de lago russo.

    No inverno, aquela gota gerava um maremoto de raiva. Quebrava o ritmo aconchegante do calor, desconcentrava o apetite. Eu deixava de saborear o resto da torrente para analisar sua origem intrusa, intrigado com o milagre.

    De que maneira a gota furava o aquecimento?

    A gota dava um tabefe e sumia. A cada dois minutos. Cronometrava, contava alto.

    Mais certeira do que cuspe de calha, de ar-condicionado. Tumtum nas costas. Não havia como escapar dela. Usei touca de plástico, óculos de mergulhador, equipamentos submarinos. Não surtia efeito, o minúsculo líquido prosseguia com sua acupuntura autodidata.

    Tremia ao sair do banho. Sua queda na carne retirava o luxo do banheiro vedado, trancado, com estufa. Era uma porta aberta no corpo.

    Acabava com minha custosa técnica de abrir a torneira no ponto certo, sem a luz despencar. Complicado atingir o limite ideal do registro, firmar o estalido de cofre, acertar a temperatura.

    Eu me preparava para a surpresa. Aumentava a sensibilidade para reconhecê-la. Fechava os poros para abri-los assustados.

    Vinha como um remédio de criança, sôfrego. Uma gota de paralisia. Caía lentamente, separando as vértebras.

    Foram três anos lutando contra o pingo e perdendo. Exigia uma atitude aos pais, conversava com os três irmãos e ninguém notava sua aparição. Não trocaram de aparelho. Ele permaneceu, eu é que abandonei a casa.

    Minha adolescência durou menos do que o chuveiro elétrico.

    Dessa guerra caseira, herdei a sina de não abandonar problemas. Se há uma dificuldade, tenho que resolvê-la no ato. Paro tudo o que estou fazendo e tento consertar. A leve irritação vira ofensa pessoal.

    Não suporto uma conta em aberto, uma tarefa inacabada, uma inimizade; maltrato-me até resolver as pendências. Mas sempre existe um pedido, uma nova reclamação ou um desentendimento. Ter pressa é não ter paz.

    Bastaria seguir adiante para me acostumar. Mas não, meu medo de esquecer me impede de lembrar. Fico travado, em greve, batendo na mesma tecla, insolente, insatisfeito, renitente, sem sair do lugar do incômodo.

    Elimino a sensação de toda água quente que passou pelos ombros para valorizar uma bolha gélida. Faço com que todos participem de minha mobilização imaginária. Se alguém ficar de fora será mais uma gota a ser combatida.

    É uma pequena pontada que transformo em dor que elevo em trauma que glorifico em incompreensão.

    Interrompi vários momentos bons de minha vida pela birra com um detalhe.

    O que me leva a crer que não procurava a falha, criava a falha, me dedicava para que o mal-estar prosperasse e justificasse o meu empenho na briga.

    Depois do escândalo, preparava outro escândalo para compensar o despropósito da raiva. Não desistia de argumentar para sustentar o erro.

    Não é fácil me desligar.

    A gota acentuava tão-somente a minha frieza.

    5:42 PM :: Comentários:

    CATAGUASES



    Na quinta (10/9), estarei agitando em Cataguases, terra mineira de Rosário Fusco, Guilhermino César e Luiz Ruffato. É o FELICA 2009.

    Dia 10/9, quinta-feira
    15h - Oficina de Poesia
    (reservas esgotadas)
    Local: Clube Social

    Dia 10/9, quinta-feira
    20h30 - "As palavras de amor nunca são as mesmas"
    Palestra
    Entrada Franca
    Local: Teatro Rosário Fusco

    5:38 PM :: Comentários:

    VESTIBULAR



    Meu livro de crônicas O AMOR ESQUECE DE COMEÇAR (Bertrand Brasil, 2006) é leitura obrigatória do Concurso Vestibular 2010/1 da Universidade Católica de Goiás, ao lado de Mia Couto e Manoel de Barros.

    5:31 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Setembro 07, 2009

    O QUARTO DE SUA VOZ

    Minha filha Mariana compõe desde os 11 anos. Está hoje com 15, cabelos cacheados e uma malícia ingênua. Aceitou finalmente gravar duas de suas canções: "Onde está meu mundo" e "Manias de Amor de Verdade". Vídeo caseiro como o nosso amor.

    Deixo um deles e a letra. Uma provinha.



    ONDE ESTÁ MEU MUNDO
    Já faz tanto tempo / e agora eu sou criança / quebrei o vidro da janela / jogando bola com o meu irmão / desenho demônios em nuvens / abano pro avião / nem preciso contar até dez / pra que as pessoas se escondam // Onde está meu mundo / Onde está meu mundo / Onde está meu mundo / Onde está meu mundo / ah / Cadê meu mundo / talvez / ele não seja mais tão meu / não / sou uma má garota / ainda não sei dividir.

    O outro está aqui.

    Quem quiser conhecer mais seu talento pode explorar seu Orkut e adicioná-la.

    9:55 AM :: Comentários:



    O gato é o melhor amigo do poeta brasileiro.

    O cachorro antes era o preferido dos estros. Deixou a realeza para o felino. Talvez seja a mudança de hábito, a adoção do apartamento em detrimento da casa, a adoração do silêncio dos condomínios residenciais e dos escritórios na hora de escrever, sem o alvoroço dos quintais e dos pátios.

    Não que a figura canina tenha desaparecido. Affonso Romano de Sant'Anna, em 'Textamentos" (Rocco, 1999), tece emocionada homenagem ao seu afinado cão, capaz de acompanhar o adágio da 6ª Sinfonia de Beethoven com o ritmo da respiração. O pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942-2007) escreveu um de seus últimos livros dedicado a um cão de olhos amarelos, triste, soturno, sofrendo na calçada de um bar.

    O que aconteceu é uma secreta revolução dos bichos. As patas perderam prestígio para as garras. Miados dominam o teclado e o mouse tem que se cuidar para não ser engolido.

    A verdade é que o cão ficou trancado na máquina de escrever. Pode até permanecer como o dileto na memória dos ficcionistas (destaque para Baleia, de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos), mas não manda mais nos versos. Antigamente, até os anos 70, o cachorro funcionava como um alter ego confessional. Aparecia como personagem predileto de toda a geração 60 brasileira e de grande parte dos portugueses, de Fernando Pessoa a Ruy Belo. Mario Quintana o idealizava como um paranormal do lar, "o único que enxerga o vento" e percebe sua corrida pelas árvores. João Cabral de Melo Neto chegou a fazer todo um volume comparando os movimentos do rio Capibaribe de Recife a um cão sem plumas.

    "O rio ora lembrava
    a língua mansa de um cão,
    ora o ventre triste de um cão,
    ora o outro rio
    de aquoso pano sujo
    dos olhos de um cão."


    Houve uma variação da tipologia do poeta que abandonou o aspecto baldio de vira-lata e boêmio, do senhor do boteco e da rua, do uísque cão engarrafado celebrado por Vinícius de Moraes, para assumir o espaço doméstico, individualista e caseiro do escritório.

    Os gatos são as novas beldades dos enigmas e das metáforas. Do Rio de Janeiro de Carlito Azevedo a Manaus de Aníbal Beça. Além de tomar a companhia da escrita, abocanharam a ração da bandeja.

    Poetas jovens como Alice Sant'Anna, em Dobradura (7 Letras, 2008), extravasam a predileção com humor. Cria cinco tópicos com o título "O que sei sobre os gatos". É óbvio que ela cutuca os adversários de estimação, exercendo comparações de comportamento.

    "Os cachorros mexem o rabo
    quando estão felizes, os gatos mexem o rabo
    quando estão nervosos: quando estão contentes
    os gatos fazem barulho de motor
    que se chama ronronar."


    Ter um gato perto é quase uma escolha filosófica, uma postura reflexiva. Ganhou o eleitorado lírico pela sua independência e cotidiano autônomo. Por circular entre mundos. Pelas sete inesgotáveis vidas. Como parece que não está nem aí para o que está acontecendo, excita a meditação e os símbolos. O gato já é um poema naturalmente, inescrutável, dono de uma discrição absoluta. Facilita inúmeras interpretações.

    A paulista Orides Fontela (1940-1998) demonstrava um fascínio pelas criaturas de bigodes, investigou seu domínio misterioso tanto em "Helianto" (1973) quanto em "Teia" (1996). Considerava o animal como um visitante, que não se entrega à submissão e ao controle. Tanto que gato não usa coleira, usa colar.

    "na casa
    o imperecível mito
    se aconchega
    quente (macio) ei-lo
    em nossos braços"


    O cachorro protege a residência, o gato protege a solidão. O cachorro mendiga afeto, o gato seduz com a distância. A sensação é que o cachorro é fofoqueiro, quer contar algo sempre, o gato já é um confidente, que escuta e guarda, protetor dos segredos. Nasceu com a batina no pêlo.

    Assim como pode ser um gorducho preguiçoso, comilão de pizza, ilustrado pelo temperamento Garfield, pode ser um corajoso trapezista dos telhados. Concilia a dupla personalidade com perfeição. Sadiamente bi-polar. Em “Livro de Auras” (Iluminuras, 1994), Maria Lúcia Dal Farra tenta registrar sua rápida transformação, essa metamorfose súbita, a migrar de repente da maior inércia para elasticidade de um acrobata. Define o bichano como "um viveiro de alheios". Está com um olhar aqui, atento aos mínimos movimentos próximos, e outro acolá, em pensamentos longínquos.

    Chacal, em sua antologia premiada "Belvedere" (Cosac Naify/7 Letras), traduz essa contemplação suficiente. Nem é bem um olhar, significa uma admiração.

    "o gato lhe acompanha
    onde quer que você vá
    só com olhos - não é besta -
    para ele basta olhar."


    Os gatos são os filhos dos tigres de Jorge Luís Borges, netos dos tigres de William Blake. Herdaram a floresta, resíduos elegantes do mato. Sábios, professam sabedorias em fachada de esfinge.

    Ensinam inclusive Ferreira Gullar. Em "Lição de um gato siamês", da obra "Muitas Vozes" (José Olympio, 1999), Gullar passa a entender que o tempo é eterno porque afetivo.

    "Dura eternamente
    enquanto vivo."


    Ser professor de um dos maiores poetas da língua portuguesa não é qualquer coisa. É tarefa inspirada de musa.

    Publicado na Revista da Cultura, Setembro de 2009, ps. 20-23

    DA TURMA DOS CACHORROS



    MEU CÃO
    Affonso Romano de Sant'Anna

    Meu Cão ouve comigo
    o adágio da 6ª Sinfonia de Beethoven.
    Gosta de música meu cão.

    Deitado no tapete
    ele respira no ritmo sonoro da orquestra
    apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos.

    O adágio continua.
    Agora
    foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven
    pousando na vidraça.

    O cão, a borboleta e eu,
    enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem
    se desfaz
    com a imponderável melodia.

    Textamentos (Rocco, 1999)

    REALISMO
    Moacir Amâncio

    o cão
    se decompõe
    na sarjeta

    dos ossos
    o sol expõe
    o óbvio

    sem vestígio
    um registro
    um papel

    absorve os borrões do branco.

    Ata (Record, 2007)


    O CÃO DE OLHOS AMARELOS
    Alberto da Cunha Melo

    Numa cova de sombra, um cão,
    na calçada de um bar gemia.

    Numa cova de sombra, um cão,
    na calçada de um bar gemia.
    Era um cão de olhos amarelos
    com uns tons de urina boiando
    pelo ferro podre das órbitas.

    com uns tons de urina boiando
    pelo ferro podre das órbitas.
    Jupy já não ia catar
    o que os outros cães procuravam
    nas lixeiras cheias de vômito

    o que os outros cães procuravam
    nas lixeiras cheias de vômito
    mas, sua presença de sombra
    era tão densa na calçada,
    que as outras sombras tropeçavam

    era tão densa na calçada,
    que as outras sombras tropeçavam.
    Esse cão de olhos amarelos
    sequer foi ligeira lembrança
    ou herdeiro de um ossuário

    sequer foi ligeira lembrança
    ou herdeiro de um ossuário
    Jupy, com seus olhos de pus
    novo, ou abstratíssimo ouro,
    vivia a ser o chato cão

    novo, ou abstratíssimo ouro,
    vivia a ser o chato cão.
    Um chão de pedras portuguesas
    manchadas de catarro grosso.
    Agora, vêm sujá-lo as botas

    manchadas de catarro grosso.
    Agora, vêm sujá-lo as botas
    de algum fiscal da prefeitura,
    que o leva no laço, enforcando-o,
    sem um latido de protesto,

    que o leva no laço, enforcando-o,
    sem um latido de protesto.

    O cão de olhos amarelos e outros poemas inéditos (A Girafa, 2006)


    DA TURMA DOS GATOS



    O QUE SEI SOBRE OS GATOS
    Alice Sant`Anna

    1) os gatos vigiam plantas
    no vaso, um par de sapatos
    e todos objetos inanimados, eles
    olham e às vezes deslizam
    as pálpebras, permitem
    um breve cochilo

    2) os gatos têm bigodes
    como antenas de inseto, são
    fios eriçados que espetam e, bem como
    as orelhas, estão sempre atentos
    a movimentos, ruídos, ou
    silêncios repentinos

    3) os cachorros mexem o rabo
    quando estão felizes, os gatos mexem o rabo
    quando estão nervosos: quando estão contentes
    os gatos fazem barulho de motor
    que se chama ronronar

    4) os gatos lambem as patas e as partes
    íntimas e ficam com o cheiro ruim de saliva
    de gato, mas depois ficam cheirosos
    porque é assim que eles tomam banho

    5) raramente os gatos atendem pelo nome

    Dobradura (7 Letras, 2008)

    GATOS
    Orides Fontela

    I

    Os gatos
    secretos
    saltam

    somem no abstrato
    escuro

    II

    Gatos no negro
    fluem: fosforecem

    arranham vidros destroçam
    espectros
    farejam todos
    os rumos.


    III

    No vácuo
    insone na meia-noite
    lúcida
    cuidado: gatos
    agindo.

    Teia (Geração Editorial, 1996)

    GATO
    Maria Lúcia Dal Farra

    Amarra seu sono
    a cobra que o corpo molda
    a fabricar o ninho.
    Enredos de caracol percorre o instinto enquanto
    (composto)
    o redondo se obra.

    O tigre
    (no gato entranhado)
    desperta quando ele salta
    e ata cada curva do bichano
    à floresta
    que lhe é estranha.

    No seu pêlo um desenho se ateia
    (é novelo intrincado de chamas)
    ao encerrá-lo também acalenta
    uma a uma das sete existências.

    Salamandra, caça, concha.
    Gato: viveiro de alheios.

    Livro de Auras (Iluminuras, 1994)

    O GATO
    Chacal

    o gato é mais
    que aquilo que se vê
    pois quem olha assim só vê
    o que no gato é demais

    o gatoflex
    o gato rosca
    o gato sono
    o gato miado

    o gato é o que mora
    dentro do olho do gato
    menina no centro do íris
    sua tara faro e tato

    o gato lhe acompanha
    onde quer que você vá
    só com os olhos - não é besta -
    para ele basta olhar

    mas nos olhos traz o pelo
    preto brilhante macio
    um olhar quase vazio
    de quem sabe admirar

    seu olhar nunca é pedinte
    de vira lata carente
    nem é feito de ameaça
    pastor domingo na praça

    o olhar do gato lhe abraça
    sem pieguice ou apego
    pelo prazer de abraçar
    o gato está no olhar

    Belvedere (Cosac Naify/7 Letras, 2007)

    LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS
    Ferreira Gullar

    Só agora sei
    que existe a eternidade:
    é a duração
    finita
    da minha precariedade

    O tempo fora
    de mim
    é relativo
    mas não é o tempo vivo:
    esse é eterno
    porque afetivo
    - dura eternamente
    enquanto vivo

    E como não vivo
    além do eu vivo
    não é
    tempo relativo:
    dura em si mesmo
    eterno (e transitivo)

    Muitas Vozes (José Olympio, 1999)


    12:42 AM :: Comentários:


    Domingo, Setembro 06, 2009

    DINOSSAUROS DE VOLTA


    Chulapa e Jonas do Grêmio: o pior jogador pode ser o melhor

    Rolo Compressor aproveita a reta final do Brasileirão para fazer um ensaio sobre o retorno do centroavante tradicional, monotemático, brucutu penteado, matador, ciscador da pequena área, pescador de ilusões, capaz de não jogar bem e resolver uma partida.

    Aquele que gosta de um PF.

    Leia nossa curiosa dissertação nada acadêmica.

    1:08 PM :: Comentários:


    Sábado, Setembro 05, 2009

    ATO-REFLEXIVO
    Arte de Picasso

    Fabrício Carpinejar



    O espelho é o lugar em que menos nos refletimos.

    Se um hamster se levanta ou deita, ficamos eufóricos. Se um gato senta em cima de um livro e finge que está lendo, tratamos de fotografar e divulgar a imagem aos amigos. Se um cavalo chora, somos capazes de trocar a sela das lembranças. Valorizamos os animais quando tomam atitudes humanas. O macaco e o papagaio são os preferidos. Um pelos gestos e outro pela repetição das palavras.

    Espantamos os bichos no momento em que desafiam o comportamento planejado. No instante honesto, em que seguem o impulso e escutam o corpo.

    Cachorro triste é aquele proibido de ser cachorro. Condenado a passear pela rua com mais adereços do que pêlo. Drapeado de fitas cor de rosa, enlouquecido de camisas havaianas, aluarado de vestidos floreados. Engraçadinho porém inconsistente. Perde a espessura do sangue, a indignação do focinho.

    Precisa obedecer para receber comida e ternura. Repete hábitos pelas esmolas de circo. Como pombas e pipocas. Como peixes e pão.

    Os donos confundem silêncio com submissão. Esculpem seus bichos com extravagâncias que nem os próprios vestiriam. Pet shop virou transtorno de personalidade. O engraçado é que cachorro não tem personalidade, tem temperamento. Cachorro é intimidado a não latir para estranhos. Latir é visto como uma atitude antipática. Uma agressão. Nada mais é do que proteger a casa, tudo é casa para o cachorro.

    Desde quando não atender às expectativas é errado? Antes de um encantador de cães, sentimos falta de bons entendedores.

    Domamos para não sofrer trabalho. Para espalhar que controlamos e que sabemos onde podem chegar.

    Talvez nos falte o cuidado pelo diferente. Admirar o estranho e não se ver ameaçado pelo anonimato. Forçamos comparações para anular o perigo e a surpresa.

    Acho que somente cresci pela imitação. Para me diminuir. Não que seja um macaco ou um papagaio, porém não fujo dos dois, sou estimulado pelos aplausos e vaias.

    Na infância, ninguém me parabenizava pelas molecagens. Pela naturalidade das respostas. Pelos desaforos das mãos. Pelas brincadeiras profanas. Por não largar meu tico. Pela falta de jeito.

    Mas quando ajudava a mãe a servir os jantares sociais, mas quando usava gravata, mas quando dizia ‘por favor’ e ‘obrigado’, mas quando eu me entristecia como um adulto era subitamente reverenciado. Criança presta quando deixa de ser criança. Calada, então, é uma dádiva.

    Os castigos que recebi foram para abafar a curiosidade. Quebrei lâmpadas, vasos e pratos, me defendi das provocações das amexeiras, avancei a linguagem dos terrenos baldios. Não me explicavam o que não podia fazer, não podia fazer e pronto. Ao me desculpar e fingir remorso, reencontrava o sol. O arrependimento é demasiado adulto. Criança não se arrepende, segue o dia.

    Devia ter cuspido o espinafre. Devia ter quebrado melhor meus brinquedos. Devia ter lambido a menina de sardas da primeira série. Devia ter esperneado no mercado, puxado os pés dos caixas, derrubado as prateleiras com corridas. Devia ter entrado no jogo sem licença. Hoje meu amor tem pouca crueldade.

    Sequer me pertenço para pedir ajuda.

    6:40 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Setembro 03, 2009

    "A ALMA DO INSTANTE"

    Douglas Resende
    blogdepapel@otempo.com.br



    "A medida de uma chicotada." "Um relâmpago." Ou ainda, "A alma do instante". Estas são algumas das definições que Fabrício Carpinejar dá ao microblog Twitter, espaço no qual o poeta gaúcho tem transitado com bastante frequência e naturalidade nos últimos meses. Tanto que, anunciou, vai publicar um livro pela Bertrand Brasil com uma compilação dos seus escritos postados recentemente no microblog. "O Twitter é uma maravilha para um poeta. Cento e quarenta caracteres é perfeito para forçar minha respiração", diz Carpinejar, a respeito do exercício de síntese a que leva o curto espaço disponível para cada entrada no site.

    O livro é o primeiro da história do mercado editorial a trazer editado conteúdo do Twitter. Vai ter como título o próprio endereço do espaço eletrônico - "www.twitter.com/carpinejar/" -, terá sua orelha assinada por dois seguidores do microblog e será lançado na mesma velocidade instantânea que caracteriza a informação que circula no Twitter. "É pra agora! Em outubro, no máximo", revela o poeta, autor de "As Solas do Sol". "É pra entrar na sinceridade biológica do Twitter."

    Ora definido como "sistema telegráfico da web 2.0", o Twitter faz aos seus usuários uma pergunta básica: "O que você está fazendo agora?" Mas se torna muitas vezes ou um espaço de insignificâncias e clichês ou então uma forma de link redundante, usado apenas para divulgar informações existentes em outros websites ou blogs.

    Fabrício Carpinejar é um caso de usuário que foge dessas duas vertentes. Utiliza o Twitter como espaço único, para o qual faz uma escrita particular dentro de sua produção, onde se inclui poesia e crônica. Leitor "apaixonado" de aforismos, ele nunca havia escrito nessa forma, até que as delimitações do microblog o levaram a tal exercício. São frases concisas como "Vejo gente que se esforça para ficar alegre, eu tenho que me esforçar para ficar triste." Ou, "Chorar não significa que o livro é bom. Já chorei diante de tanto filme B."

    "O Twitter acaba sendo um espaço de inexistência, de ausência, porque as pessoas acabam chamando para um link, para uma outra coisa. Percebi também que havia uma tendência de se dizer o que estava fazendo. Mas intimidade é saber o que não se está fazendo", analisa irônico Carpinejar, argumentando que prefere ver o Twitter como "uma trincheira contra lugares-comuns e contra a obviedade". "Como é bonito pisar e humilhar um clichê. O escritor deve ser o recursos humanos dos clichês, despedi-los, todos por justa causa, por uso indevido da língua portuguesa", brinca, sério, o poeta.

    Carpinejar vê nos aforismos algo do gênero lírico e também um tipo de escrita que se casa bem com o Twitter. "É aforismo, mas tem o pensamento poético, aquela iluminação. Não é poema, mas algumas vezes são esfacelamentos descritivos. O deslumbrante do processo é o improviso - estou no trânsito, bate o pensamento e, 'pá', ponho lá, pelo celular. São coisas simples - hoje acordei com dor de cabeça. Então, ao invés de dizer "Eu estou com dor de cabeça", eu digo: "A elegância, o carisma e o bom humor desaparecem com a dor de cabeça. Basta a enxaqueca para aumentar loucamente nosso índice de rejeição", diz Carpinejar, citando o último aforismo postado no seu Twitter, ontem, às 11h50.

    Bertrand

    Fabrício Carpinejar concedeu esta entrevista ao Magazine ontem, por telefone, do aeroporto de Porto Alegre, onde aguardava um voo para São Paulo. O poeta está na capital paulista para lançar hoje, no Sempre um Papo (no Sesc Vila Mariana), a nova edição do seu livro "Terceira Sede: Elegias", publicado pela Escrituras em 2001 e editado agora pela Bertrand Brasil, que está relançando toda a obra poética de Carpinejar, além do inédito "www.twitter.com/carpinejar/". O poeta considera as reedições importantes porque os livros vão ganhar um "projeto gráfico unificado" e "interligar" uma série de volumes de "um mesmo enredo, um mesmo personagem".

    Seguidores

    No Twitter, o seguidor é o usuário que se inscreve para acompanhar as atualizações no microblog alheio, recebendo alertas via celular ou web. Carpinejar não disse quem serão os dois autores da orelha de seu novo livro. Mas mencionou que serão seguidores do seu Twitter, entre os quais se encontram, entre várias pessoas, o escritor Millôr Fernandes, a quem Carpinejar credita a invenção do Twitter no Brasil. "Aqui quem criou o Twitter foi o Millôr. Ele twitava já no século passado, com aquelas suas
    máximas.".

    Autor

    Fabrício Carpinejar é autor de mais de uma dezena de livros entre volumes de poesia e crônica. Entre suas principais obras estão "Um Terno de Pássaros ao Sul", relançado pela Bertrand Brasil no ano passado; "Biografia de uma Árvore", que ganha nova edição pela mesma editora no ano que vem; "Cinco Marias", de 2004, e "Meu Filho, Minha Filha", já lançados pela Bertrand em 2004 e 2007, respectivamente; e seu livro de prosa "O Amor Esquece de Começar".

    Publicado no jornal O Tempo
    Belo Horizonte (MG), 3/09/2009


    2:39 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Setembro 02, 2009

    MÔNICA BERGAMO E CULTURA
    Foto de Estefáno Lessa



    JÁ VIROU LIVRO

    O escritor Fabrício Carpinejar vai lançar pela Bertrand Brasil uma compilação de suas frases no Twitter. A obra terá o nome de seu endereço: "www.twitter.com/carpinejar/". Ele define o Twitter como "um torpedo que a gente manda para si mesmo" e um site "ótimo para treinar epitáfios".

    Publicado na coluna da Mônica Bergamo, Ilustrada, Folha de SPaulo, p. 3, 02/09/2009

    E aqui entrevista feita por Luiz Rebinski Junior para o site da Livraria Cultura.

    11:19 AM :: Comentários: