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    Quinta-feira, Outubro 29, 2009

    VIVA-VOZ
    Arte de Matisse

    Fabrício Carpinejar



    Minha filha vive reclamando que sua mãe atrapalha seu namoro.

    Não tolera os sucessivos vexames. Vem pedir conselhos ao seu pai. Ou melhor, apoio. Na verdade, ninguém quer conselho.

    Ela jantava na casa dele quando toca o ringtone Fuck You, de Lily Allen. No outro lado da linha, sua mãe não diz oi ou faz qualquer teste no microfone; pergunta furiosa onde é que ela estava e por que não havia voltado ainda. A voz é de megafone (dentro da garganta materna, resiste o grito ancestral para avisar do almoço). O namorado ouviu inclusive o tututu da ligação. Envergonhada, ela regressou ao lar e a briga continuou. As explicações para a troca de ofensas são as mesmas da pré-história da psicanálise: a menina anda distraída, não colabora com as tarefas do apartamento e não ama a família.

    Sempre que a mãe desliga o telefone na cara da filha, a filha vai se vingar e bater a porta na cara da mãe.

    Infelizmente, não concordei com minha adolescente. Poderia ser uma chance de ganhar terreno como pai separado, angariar simpatia e abrir uma campanha para que ela morasse comigo. Contexto fértil para realizar meu sonho paterno e trocar o porta-retrato da escrivaninha pelo rosto inteiro dela em meu ombro.

    Mas não consegui. Sua mãe tinha razão.

    – Ela está ferrando meu namoro, pai?

    – Não, ela vem ajudando.

    – Fica lembrando de que mamei até os dois anos, que larguei tarde o bico, do meu medo de escuro, da minha bagunça...

    – Que bom, que bom.

    – Chegou a mostrar para o Pedro minha foto de bebê, nua, tomando banho de mangueira...

    – Que bom, que bom.

    – Bom? Tá de gozação, né? Ficou do lado dela?

    – É ótimo, não existe namoro sem oposição. Ela entusiasma o relacionamento, precisa da cumplicidade dele para enfrentá-la.

    – O quê?

    – Sim, vocês têm um inimigo em comum: os pais. O amor cresce com a resistência.

    – Tá maluco?

    Minha filha não entendia. O que seria de Romeu e Julieta sem o ódio familiar? Imagine a família Capuleto convidando Romeu para um churrasco no domingo? Acabava a atração de Julieta na hora de servir o salsichão e o coraçãozinho. Ele se tornaria um irmão, manso e amistoso como uma salada de batata. Contrariar é aumentar a expectativa e fortalecer os segredos do casal. Sem atrito, não haveria serenata, encontros fortuitos e a insônia pela chegada de um mensageiro na peça de Shakespeare. Não restariam dificuldades, nenhuma prova de amor, a trepadeira permaneceria intacta no jardim. Tudo acabaria com comentários futebolísticos entre o sogro e o genro na frente da televisão.

    – Sabe como a gente poderia realmente terminar seu namoro?

    – Tenho medo de saber...

    – Eu chamaria Pedro para uma conversa e diria: “Estou muito feliz que está cuidando de minha filha, conte com minha confiança, sinto que é a pessoa ideal, há muito tempo eu aguardava um cara sério e comprometido, já passei a economizar para fazer uma grande festa de casamento e providenciei um enxoval com as iniciais de vocês”.

    Agora, quando visita o namorado e recebe um telefonema de sua mãe, minha filha atende o celular no viva-voz.

    Publicado no jornal Zero Hora
    Porto Alegre (RS), Edição N° 16139, p. 2,
    29 de outubro de 2009


    9:51 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Outubro 28, 2009

    AGENDA ATÉ 20/11
    Arte de Fábio Godoh (ou de alguém que ele conhece)



    HENRI CARTIER-BRESSON
    SESC Pinheiros
    Um dos mais importantes fotógrafos do século XX, Bresson buscava incessantemente momentos harmônicos. A exposição e demais atividades que integram a mostra, nos revelam frações mínimas de tempo em que forma e conteúdo atingem a máxima expressão no visor da câmera.

    29/10 (quinta), 20h30, São Paulo (SP)
    Sarau Fotográfico
    Acompanhado de Marcelino Freire, recital a partir de trabalhos de Cartier-Bresson e de outros fotógrafos.

    30/10 (sexta), 20h30, São Paulo (SP)
    Oficina de crônicas fotográficas
    (25 vagas)
    Com exercícios de percepção e interpretação de imagens, a proposta da oficina é trabalhar a construção de crônicas a partir de fotografias levadas pelos participantes.
    Inscrição no balcão da Sala de Leitura.
    2º andar

    SESC PINHEIROS
    Rua Paes Leme, 195
    Pinheiros
    Telefone: 11 3095-9400


    2/11 (segunda), 17h30, 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
    Retrato falado: Elegias à maturidade
    Palestra e interpretação de textos sobre a velhice, com Izabel Íbias.
    Sessão de autógrafos do livro "Terceira Sede" (Bertrand Brasil)
    Local: Sala O Arquipélago
    Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
    (Andradas, 1223)

    5/11 (quinta), 19h, 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
    Receita Literária
    Bate-papo no estande da Caixa Econômica Federal
    (ao lado do Memorial do Rio Grande do Sul)

    7/11 (sábado), 18h30, 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
    Receita Literária
    Bate-papo no estande da Caixa Econômica Federal
    (ao lado do Memorial do Rio Grande do Sul)



    7/11 (sábado), 20h30, 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
    Sessão de autógrafos e lançamento do livro www.twitter.com/carpinejar
    Local: Pavilhão Central

    8/11 (domingo), 16h, 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
    Salva-vidas, lançamento da coletânea de crônicas dos alunos da Oficina da Caixa Econômica Federal
    Local: Memorial do Rio Grande do Sul

    10, 11 e 12/11 (terça, quarta e quinta), 18h, 55ª Feira do Livro de Porto Alegre
    Oficina de criação literária: "Qual é a cor de seu rosto?":
    A arte como ponto de partida para elaboração de textos ficcionais
    Local: Auditório do MARGS
    Contato: Câmara Rio-grandense do Livro
    (51) 3225 5096

    10/11 (terça), 9h, Igrejinha (RS)
    Palestra na Escola Machado de Assis, sobre Filhote de Cruz Credo
    Local: Rua Cristoph Schaefer, 65

    12/11 (quinta), 10h, Paraíso do Sul (RS)
    8ª Feira do Livro
    Palestra com o tema "Quem são os culpados de nossa alegria?"
    Praça Florinaldo Rohte

    13/11 (sexta), 20h, Morro Reuter (RS)
    Homenagem da Escola Municipal de Ensino Fundamental São José do Herval
    Sarau dos alunos com minhas poesias e crônicas

    PROJETO VIAGEM LITERÁRIA
    Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo

    17/11 (terça), 8h, Apiaí (SP)
    Oficina de criação literária

    17/11 (terça), 15h30, Eldorado (SP)
    Oficina de criação literária

    18/11 (quarta), 8h30, Ilha Comprida (SP)
    Oficina de criação literária

    18/11 (quarta), 18h, Itanhaém (SP)
    Oficina de criação literária

    19/11 (quinta), 18h, Cubatão (SP)
    Oficina de criação literária

    Informações: (11) 2627 8274

    5:09 PM :: Comentários:

    JORNAL DO ALMOÇO

    A RBS TV produziu uma série de vídeos com os finalistas do Prêmio Fato Literário 2009. Apareci na gravação dessa quarta (28/10), no Jornal do Almoço, ao meio-dia nos televisores de todos os gaúchos. Retransmito. A votação é aqui.



    2:05 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Outubro 26, 2009

    "OU ENTRA EM TRATAMENTO OU TERMINO O NAMORO"
    Arte de Marx Ernest

    Fabrício Carpinejar



    A infidelidade já não é um problema, e esse é um problema. Tudo é normal, ou nos normalizamos rapidamente com qualquer coisa, a tal ponto que não existe anormalidade.

    Ter uma iniciação sexual com cabra, participar de swing comunitário, revelar seus desejos por uma cicatriz na perna; nada mais assusta. Nada mais é motivo de pânico e debate para fechar um bar. O cineasta Walther Hugo Khouri não acharia mais nenhum tema para polemizar. Morreu antes dos tabus entrarem em crise criativa.

    Depois do sexo livre, da amizade colorida e do mergulho na lama, a monogamia virou um preconceito.

    Os terapeutas, psicólogos e psiquiatras ajudaram a tornar o dia-a-dia viável. Em contrapartida, as próprias traições. Óbvio que eles não têm culpa disso. Ninguém deve guardar culpa de nada.

    A moral agora é não sofrer com a moral, o que parece um paradoxo. Temos que nos aceitar como não somos.

    Você trai, logo confessa para o terapeuta e se acostuma com a idéia. Busca capturar o motivo de pular a cerca – aprende que não importa o resultado, o propósito é descobrir a origem da compulsão. E pula a fazenda inteira para respeitar a naturalidade das suas atitudes. Mergulha numa nova fase: a palavra alivia o silêncio; lavou na palavra, está novo.

    Antes os casais se traíam para procurar uma satisfação que não encontravam no casamento. Hoje você pode estar satisfeito no casamento e ainda trair. O prazer em dia não é o bastante para segurar o amor. Os pares querem fantasias. Há uma obrigação pelas fantasias. Quem não tem uma fantasia exótica fora de casa não é moderno. Quem não tem uma fantasia extravagante fora do corpo não é pós-moderno.

    E fantasia não é planejada. É na hora, do jeito que vier, pelo desafio, no calor da casualidade. Quanto maior a surpresa, maior o arrebatamento. A fantasia é incontrolável, contrariando em cheio o voto e o esforço de um casamento. Fácil de ser justificada; basta alegar que foi um disparate, uma atitude impensada. Não tem que prestar contas e cuidar do reencontro. Essencialmente provisória. Como uma bebedeira.

    Um amigo, por exemplo, acabou pressionado pela namorada a resolver sua obcecada canalhice. Não admitia a fragilidade dele nas noitadas, os olhares lânguidos por baixo dos panos e das pálpebras, os esbarrões involuntários e o papo fiado com a mulherada nos corredores. Levantou a bandeira: ou entrava em tratamento ou ela terminava o namoro. Apaixonado, ele desistiu de sua desconfiança com o consultório, que julgava perda de tempo, e assumiu o vício.

    Ao invés de trair menos, passou a trair mais para arrumar assunto com o terapeuta. Está com analista até hoje – a única relação que perdurou em sua vida.

    10:36 AM :: Comentários:


    Domingo, Outubro 25, 2009

    INFIDELIDADE FEMININA
    Arte de Salvador Dali

    Fabrício Carpinejar



    Não sei se as mulheres sabem trair melhor os homens ou eles são tão ciumentos que não escolhem os verdadeiros indícios.

    Certo é que os homens são precipitados, revelam suas escapadas para tentar inclusive salvar o casamento. Ficam engatilhados com o pecado, ansiosos, esperando o primeiro cutucão do silêncio para disparar a confissão (o negócio é deixar a televisão sempre ligada). As mulheres só revelam como um ultimato, quando estão dispostas a terminar de vez com o casamento e não acharam nenhuma maneira cortês de mandá-lo embora.

    O homem é corno desde o ventre, quando perde a exclusividade de sua mãe. Depois resta como consolação ser manso ou ativo.

    Por prevenção, repasso dicas para se manter atento às investidas dela.

    As traições femininas costumam irromper no ambiente de trabalho. Com a falta de tempo, o entusiasmo sexual se revela pela cumplicidade profissional. Não será muito longe do escritório. Ela vai começar a elogiar uma parceria, dedicar-se a um projeto com uma disposição sobrenatural, tomando as horas de lazer e os finais de semana. Não falará de outra coisa e se penalizará diante do término da sexta-feira. Pode esquecer a sesta. Qualquer reclamação de sua parte cairá mal, como ciúme da independência dela. Não há o que palpitar, todo comentário correrá o risco de ser enquadrado como machismo.

    Diante da inoperância de sua reação, ela vai elogiar o sujeito daquela parceria, destacar o raro entendimento dos problemas, a afinidade de preferências e escolhas.

    Entrou no jogo de insinuações, sem nota fiscal. Tipo assim: você não é aquilo que ele é.

    Controle-se, ainda não é oportuno meter o bedelho, apesar de perceber que o cara se tornou assunto obrigatório e referência constante nas conversas. Deve compreender que ele levantou a estima de sua parceira e, por conseqüência, possibilitou sua sonhada liberação para o futebol. É um amigo, coloque na cabeça, não é elegante isolá-la das amizades heterossexuais. Soa como tirania. Precisa confiar. Cuidará antes da úlcera que surgiu, sem explicação nenhuma, na última semana. Volte para academia e tome menos café.

    O próximo passo é definitivo. Num jantar prosaico, com o claro objetivo de relaxar, ela criticará abertamente a namorada dele com uma paixão incomum, unicamente vista no início da relação de vocês. Comentará defeitos, exemplificará cenas de descaso e abrirá detalhes estranhos do convívio dos dois. Em seguida, sentirá uma coceira na garganta: “Como ela conhece tanto?” A coceira atinge à úlcera que não teve tempo de curar: “Será que ela confidencia o mesmo de mim?”

    Duro aturar o processo, mas permaneça tranqüilo, enfrentou o pior com dignidade; ela não dirá mais nada pela frente. É o momento de procurar ajuda. Ou porque ela está o traindo ou porque você está seriamente paranóico.

    10:49 AM :: Comentários:


    Sábado, Outubro 24, 2009

    FATO!

    Sou um dos três finalistas do Prêmio Fato Literário 2009, da RBS TV, na categoria Personalidade, acompanhado dos amigos João Gilberto Noll e Altair Martins. O resultado sairá no dia 15 de novembro, às 18h, dentro da Feira do Livro de Porto Alegre. O vencedor do júri oficial recebe R$ 20 mil. O vencedor do júri popular ganha R$ 10 mil. Na votação aberta ao público, concorrem também os indicados como projetos (Biblioteca Ilê Ará, Maratona Literária de Porto Alegre e Leia Menino). Todos podem escolher seu nome preferido. Aqui.



    PRÊMIO PARA AS LETRAS
    Conheça os finalistas da nova edição do Prêmio Fato Literário.

    A partir deste domingo (25/10), o público já pode votar em um dos seis indicados ao Prêmio Fato Literário 2009, realização do Grupo RBS em parceira com o Banrisul e o governo do Estado, que reconhece personalidades ou instituições que tenham se destacado no cenário da literatura do Rio Grande do Sul. Os três vencedores da sétima edição do Fato serão anunciados no encerramento da Feira do Livro, em 15 de novembro. Na categoria Personalidade, concorrem os escritores Altair Martins, Fabrício Carpinejar e João Gilberto Noll. Na categoria Projetos, estão a Biblioteca Ilê Ará, a Maratona Literária de Porto Alegre e o Projeto Leia Menino (ao lado e abaixo, saiba mais sobre cada um deles).

    Os premiados são escolhidos por dois júris: o oficial, formado por personalidades e representantes de entidades ligadas ao meio literário, e o popular. Este ano, o público poderá votar através de cupons e pela internet, no site www.fatoliterario.com.br a partir deste domingo e até 12 de novembro. Os cupons estarão disponíveis apenas a partir do dia 30 de outubro e também até 12 de novembro, na Feira do Livro. Devem ser depositados nos estandes do Grupo RBS e do Banrisul na Praça da Alfândega.

    São seis indicados divididos em duas categorias: personalidade e projeto literário. O júri oficial escolhe dois vencedores, um em cada categoria, em votação acompanhada pela PriceWhiteHouseCoopers. O público continua escolhendo apenas um vencedor, como nas edições de 2007 e 2008, em qualquer uma das duas categorias. Desta forma, ao final da apuração dos votos, são eleitos três vencedores: dois escolhidos pelo júri oficial, recebendo cada um R$ 20 mil, e um pelo júri popular, que leva R$ 10 mil.

    Os indicados também votam, só que para escolher uma entidade a ser beneficiada pela doação de livros. A arrecadação será feita durante a Feira do Livro. Seis instituições foram indicadas (confira no quadro). Nos dois últimos anos, cerca de 3 mil livros foram arrecadados no estande do Grupo RBS e do Banrisul na Feira do Livro.

    Os vencedores do Fato Literário 2009 serão divulgados em evento que ocorre no encerramento da feira do Livro, dia 15 de novembro, às 18h, com transmissão da TVCOM para todo o Estado. Ano passado, um empate inédito premiou dois indicados na categoria projeto: o Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins e o Liberdade pela Escrita, da Penitenciária Feminina Madre Pelletier, obtiveram 78 votos cada do júri oficial. O professor e escritor Luís Augusto Fischer levou o prêmio como Personalidade, e o voto popular consagrou a professora e pesquisadora Zilá Bernd.

    PRÊMIO FATO LITERÁRIO 2009

    PARA VOTAR
    Acesse o site oficial do prêmio, www.fatoliterario.com.br, a partir do dia 25 de outubro e até as 23h59min de 12 de novembro. Se preferir, utilize os cupons disponíveis nos estandes do Grupo RBS e do Banrisul na Feira do Livro de Porto Alegre. Ali, a votação deve ser feita a partir do dia 30 de outubro e até 12 de novembro.

    AS PERSONALIDADES

    JOÃO GILBERTO NOLL

    Autor de livros como A Fúria do Corpo (1981), Canoas e Marolas (1999) e Lorde (2004), João Gilberto Noll recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Jabuti em cinco diferentes ocasiões. Seu romance Harmada consta da lista dos cem livros brasileiros de qualquer gênero e de todas as épocas tidos como essenciais pelo júri da revista Bravo! O porto-alegrense Noll, 63 anos, tem títulos publicados na Argentina, na Inglaterra e na Itália. Um de seus contos, Alguma Coisa Urgentemente, foi adaptado para o cinema sob o título de Nunca Fomos tão Felizes. Seu livro mais recente, Acenos e Afagos, figura entre os 10 finalistas do cobiçado Prêmio Portugal Telecom.

    ALTAIR MARTINS

    Bacharel em Letras e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, Altair Martins leciona em escolas da Capital e é responsável pela cadeira de Conto no curso de Formação de Escritores da Unisinos, em São Leopoldo. A Parede no Escuro, seu primeiro romance, foi vencedor este ano do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Primeiro Romance. Porto-alegrense de 34 anos, Altair iniciou a carreira com a antologia de contos Como se Moesse Ferro (1999), seguida de Se Choverem Pássaros. Venceu o Prêmio Guimarães Rosa da Radio France Internationale, em 1999, o Prêmio Luiz Vilela e o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em 2001, além do Açorianos na categoria Contos. Foi finalista do Jabuti em 2001.

    FABRÍCIO CARPINEJAR

    Coordenador do curso de Formação de Escritores e Agentes Literários da Unisinos, Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Maestrale/San Marco (2001), o Açorianos (2001 e 2002), o Cecília Meireles (2002), o Olavo Bilac (2003) e o Prêmio Erico Verissimo (2006). Entre seus livros, estão Cinco Marias (2004) e Meu Filho, Minha Filha (2007). Carpinejar foi traduzido para o alemão e assinou contratos na Itália e na França. Participou de antologias no México, na Colômbia, na Índia e na Espanha. Com a coletânea de crônicas Canalha!, ganhou o Jabuti de 2009. Gaúcho de Caxias do Sul, acaba de completar 37 anos

    Os indicados na categoria PROJETOS

    BIBLIOTECA ILÊ ARÁ

    Criada a partir de uma parceria do Instituto C&A com o Instituto Leonardo Murialdo, a Biblioteca Ilê Ará conta com 2,9 mil exemplares e foi reformada para qualificar e adequar seus espaços, com salas temáticas. Situada no ponto mais alto do Morro da Cruz, na Capital, inclui espaço para literatura infanto-juvenil, onde são realizadas rodas de leitura, recanto para periódicos, com jornais e revistas antigos e novos, e sala de estudo. Mensalmente, a biblioteca atende cerca de 500 pessoas. Mantém uma média de 400 empréstimos.

    MARATONA LITERÁRIA

    Organizada pela Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Porto Alegre, a Maratona Literária consiste na leitura coletiva de um livro. Em sua primeira edição, no dia 22 de abril de 2009, véspera do Dia Internacional do Livro, os “maratonistas” leram do início ao fim o romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, reunindo mais de 500 pessoas ao longo da noite e da madrugada. O evento teve outras três edições em 2009. A última delas foi em pleno Acampamento Farroupilha, em setembro.

    PROJETO LEIA MENINO

    Em 1973, professores e um grupo de alunos criaram um movimento cultural para incrementar o hábito da leitura na cidade de Três Passos. Em outubro daquele ano, surgia a 1ª Feira Três-Passense do Livro (Fetreli). O Projeto Leia Menino trata-se de uma ação entre amigos, cuja arrecadação reverte integralmente para estudantes e para as bibliotecas das escolas do município. Os alunos e as escolas que participam do Leia Menino devem trocar os valores arrecadados por bônus no mesmo valor para, durante a Fetreli, converter o montante em livros a sua livre escolha.

    Publicado no jornal Zero Hora
    Porto Alegre (RS), Edição N° 16134, Caderno Cultura, p. 8
    24 de outubro de 2009


    11:42 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Outubro 22, 2009

    ATÉ 2012

    Fabrício Carpinejar




    Eu estaciono no mesmo lugar. Na Rua Tobias da Silva, para almoçar no Suzanne Marie.

    É quase automático. Tomo a vaga menos trabalhosa, de preferência perto de uma garagem, para não manobrar. E nem vem com essa de que homem tem que fazer baliza para mostrar sua habilidade. Baliza serve para treino de futebol e não há dia amistoso em minha vida. Acertei uma vez na autoescola e não pretendo arranhar meu feito.

    Sou ritualístico. Um pouco de improviso e me perco. Ao acender os faróis sem querer, não sei mais se fechei a casa direito, desliguei a cafeteira, recolhi as roupas, apaguei o gás. Um esquecimento acorda todos os possíveis extravios. Reabro casos arquivados da minha motricidade. Eu penso no que fiz e me dá medo de ter esquecido alguma coisa. Porque fazer é esquecer. Algo fora do programa e confio que errei todos os passos anteriores. Neurose? Sim, uma neurose habilidosa, graduada.

    Entre os atos habituais, deixo um troco para o guardador da rua na saída. Quando estou otimista (o que significa que não acendi os faróis), ofereço R$ 2. No azedume, busco uma moeda de R$ 1 e não puxo conversa.

    O flanelinha me trata sempre da mesma forma, com bom-dia e bom trabalho.

    Retribuo o bom-dia.

    Dependendo da paciência, comento sobre futebol, apesar de não descobrir para qual time ele torce, o que prejudica a passionalidade dos comentários.

    Mas naquela manhã retirei uma nota de R$ 2 da carteira, no impulso. Entreguei já com o pé na embreagem.

    Ele insistiu para que abrisse o vidro.

    “Será que está pedindo correção salarial?”, pensei. “Só o que falta é reclamar”, atropelei o primeiro pensamento.

    Deu dois toques na janela e falou:

    – Obrigado, meu irmão, Deus te abençoe e ilumine seu caminho, Deus possa retribuir a ajuda, minha família agradece, tenho dois filhos para criar, precisava mesmo comprar remédio e...

    Não parava sua lamúria contente. Não sei o que é pior: o agradecimento ou a reclamação. Óbvio que é o elogio. Da segunda, a gente tem como se defender.

    De cabelos cacheados e perflex na mão, o rapaz entrou em surto. Tive que acenar em movimento antes do fim de seu discurso.

    Suspirei, aliviado, ele realmente compreendia o significado do dinheiro, o quanto custava cada centavo. Voltei a acreditar na evolução da espécie.

    Segui meu dia, fui a uma festa de aniversário de noite. Durante a despedida dos amigos, no caixa, não encontrava a nota de R$ 100, somente a maldita de R$ 2. Escuro, embaçado pelo cigarro e bebida, cheguei a grudar a cédula em meus olhos como lente de contato para verificar se o azul de uma era o azul da outra. Não era e reprisei novamente o filme das últimas 12 horas e descobri que alcancei a grana para o guardador de carro, o que explicava sua euforia mística.

    Eu estaciono no mesmo lugar e não pago mais o flanelinha. Ele tentou se aproximar nesta semana. Arriscou uma súplica, tímida, abafada.

    – Hoje não tem nada?

    Respondi que não, nem hoje nem amanhã, a rua era minha até 2012.

    Publicado no jornal Zero Hora
    Porto Alegre (RS), Edição N° 16132, p. 2,
    22 de outubro de 2009


    10:20 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Outubro 20, 2009

    RUA DOS BEATLES

    Fabrício Carpinejar



    Depois que se publica um livro, o escritor perde o anonimato. Pensa que será denunciado. Apedrejado ou pela chuva ou por algum leitor intempestivo.

    Atravessei a sinaleira da rua Doutor Timóteo com meu filho Vicente. Ambos calmos, conversando o quanto é complicado escolher a árvore mais bonita na primavera, já que todas parecem que estão saindo do salão de beleza e se arrumando para um casamento. Observávamos os troncos e a floração na tentativa de adivinhar quem era a noiva, o noivo, os padrinhos, as aias. No devaneio poético de encher um altar com personagens silvestres que somente um pai e um filho podem se permitir no meio de um dia útil.

    Paramos diante de uma pitangueira.

    - Não está certa a expressão chorar pitangas. Não vejo a pitangueira chorar.
    - É que as pitangas caem como as lágrimas.
    - Por que não rir pitangas? A risada também deixa cair frutas.

    Do outro lado da rua, avançou uma senhora de passo firme e decidido, deslizando no patinete de seu vestido. Ela apontava o dedo com precipitação, como a gritar em silêncio para que esperássemos.

    Não a conhecia, mas a esperei.

    Ao chegar perto, não cumprimentou:
    - Posso fazer uma crítica?

    Apertei firme a mãozinha do meu piá. Seja o que Deus quiser. Havia publicado uma crônica no jornal Zero Hora, será que ela detestou? Ou leu algum livro e se viu citada e pede um direito de resposta? Na hora em que realizamos ficção, vá lá que a gente acerte em cheio e sem querer a descrição de uma vida. A casualidade é vidente. Tremi a garganta. Será que namorei uma filha dela no Ensino Médio e ela não quis mais saber de homem? Ai...

    - Pode, à vontade.
    - Eu vi o senhor atravessando a sinaleira e não tinha como deixar de falar.

    A franqueza é sempre inadiável. A franqueza é ansiosa; fui trocando as marchas das ideias. As pessoas nunca conseguem deixar de falar. São imbuídas de uma missão divina. Um espírito baixa e não há como controlar. A franqueza não sofre de prisão de ventre.

    - O senhor não reparou que a sinaleira é de dois tempos?
    - Sim, quando estava no meio dela.
    - Colocou seu filho sob risco de vida... Foi perigoso.
    - O quê? Não havia nenhum carro e atravessamos com segurança.
    - Teve sorte, não prudência.

    Sua crítica era que atravessei mal a rua, que não aguardei o sinal fechar os dois turnos. Por ela, nunca os Beatles fariam a capa do Abbey Road, mesmo o quarteto pisando na faixa. Tampouco surtiria efeito alegar que sou de uma cidade do interior onde olhar para os dois lados era o único semáforo que funcionava.

    - O senhor é uma figura pública, não deve tomar atitudes impensadas, deve dar o exemplo.

    Agradeci, desconcertado, desejando que tivesse sido uma ofensa literária, bem mais fácil de responder.

    Vicente não se conteve:

    - Pai, ela que é perigosa.

    E voltamos a rir e falar sobre o casamento das árvores, protegidos pelo anonimato do amor, que a literatura nunca tira.

    10:45 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Outubro 15, 2009

    NOVIDADE

    Estou substituíndo meu mestre Luis Fernando Verissimo (ele merecia cada acento em seu nome e, modesto, não usa nenhum) no jornal Zero Hora. Vou cobrir suas férias até 15 de novembro. Hoje foi publicada a primeira crônica. Estarei sorrindo no alto da página toda quinta-feira. Minha missão é deixar os leitores com saudade dele.

    VAGA PREFERENCIAL
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    Há casamentos que terminam pelo freio de mão puxado. É o que já escutei por aí, nas mesas dos botecos menos respeitados.

    O freio de mão sempre foi uma arma contra lombas. Para quem não confia na embreagem. Para quem tem medo de descer ribanceira abaixo e bater no veículo de trás.

    É saída de emergência dos motoristas cautelosos. Uma prevenção contra desastres e buzinaços. Não é algo que será ensinado na autoescola, consiste num mecanismo quase instintivo, um último recurso corporal. Como mexer desesperadamente os braços na água. Como gritar na hora do assalto.

    Não é para ser empregado ostensivamente, requer economia e parcimônia, assim como não pode ser lavada diariamente a fronha do travesseiro. Fronha gostosa é aquela que guarda o nosso tato.

    No amor, o freio de mão assumiu um significado trágico, sinônimo de conversa travada, arrastada, sem surpresa. Quando os casais estão prestes a se odiar por escrito, tão cansados da voz um do outro.

    Na Vara de Família, é a desculpa mais frequente: “Não existe chance de reconciliação, o freio de mão está puxado”. A juíza nem discute – conclui que é um caso irrecuperável.

    Vem sendo a justificativa unânime na entrega das alianças, dividindo a vilania sexual com a impotência e o pijama listrado.

    Não entendo desse modo, na minha mania de ouvir errado para falar certo. Ou de falar errado para ouvir certo.

    Ao estacionar o carro, puxei o freio de mão com excesso de força. Provoquei um rasgo. Trammmmm. Um estrondo de relâmpago. Primeiro o som seco, para depois o rugido se espalhar pelos lençóis subterrâneos. Dava para contar os segundos e descobrir onde o raio caiu.

    Minha namorada virou o rosto de súbito. Ela me observou espantada, carente como vendedor de flores na sinaleira. Pensei que me criticaria pela grosseria. Jurei que me denunciaria para o Detran.

    O tranco poderia ter deslocado algum osso, lembrança, pensamento dela. Não são aconselháveis movimentos bruscos.

    Mas percebi em seguida uma malícia imprevista em seu olhar, um assanhamento de íris, as covinhas do riso estavam mais fundas e convidativas. Havia uma tensão que não era desconforto. Pelo contrário, predominava um suspense, uma hesitação longa de descoberta.

    E ela pediu o que não esperava.

    – Faz de novo?

    – Como?

    – Faz de novo, faz?

    E repeti mais duas vezes, escandalizando a alavanca. Seus ouvidos foram deitando, atentos, acelerados de silêncio.

    Ela suspirou dentro do gemido. Disse que foi viril. Muito viril.

    O que me põe a concluir que o freio de mão é um afrodisíaco. Excita. Arrebata. Pára a vida por um bom motivo.

    Publicado no jornal Zero Hora
    Porto Alegre (RS), Edição Nº 16125, p. 2,
    15 de outubro de 2009


    9:28 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Outubro 14, 2009

    SEGREDO DE UM VIOLINO

    Fabrício Carpinejar



    Estava na casa materna. Quieto, lendo um romance, enrolado num cobertor xadrez, que serviu de tapete pelas madrugadas adolescentes.

    O filho se aproximou fazendo música. Numa outra freqüência. Carnavalesca. Animada. Batia o pé num ritmo que somente ele captava. Parecia que segurava um cavaquinho. Pelo modo inclinado do instrumento ao peito. Como que embalando um bebê de cordas.

    Achei mimoso, mas não dei a mínima. Recuei uma página para recuperar o fio da meada.

    Vicente desapareceu.

    Voltou em dez minutos. Com uma arruaça maior. Deveria entender. Nenhum filho entra na sala como quem não quer nada, entra já querendo tudo. Larguei o livro como um prato usado. Olhei firme para meu menino e sua disposição de mudar o planeta com uma nova brincadeira.

    Foi quando reparei no instrumento. Era um violino. Onde ele arrumou esse troço?

    Na verdade, complicamos o contentamento do filho. Interrogamos demais. A pergunta vai criando suspeitas. Pai é escrivão recalcado. Por que não simplesmente admiramos e ouvimos?

    Sei lá, não pensei isso na hora, e avancei:

    - O que é isso?

    É óbvio que não o permiti responder. Peguei o violino de sua mão. Era antigo. Muito antigo. Aproximei o bojo do abajur e descobri uma etiqueta puída, quase apagada: “1879”

    - O quê?

    Vicente fisgou a subida de minha sobrancelha, da curiosidade ao pânico.

    - A vó me deixou...

    Sim, meu avô era violinista na Itália. Tenho 36 anos e nunca soube que havia esse violino na família. A mãe mostrou ao seu neto algo que nunca mostrou ao seu filho. Foi uma traição. Semelhante a desvendar a própria adoção na maturidade. Um segredo que se manteve sem pista e pegadas de coelho no andar superior do armário.

    Logo cismei que ele carregava o violino com displicência, estragando seu manuseio. Batucava na madeira.

    - Vicente, isso vale mais do que 20 mil dólares, pode parar.

    Ele se entristeceu. Sempre o adulto com essa mania de gerar importância estipulando preço.

    Continuou a tocar, para me provocar ou para provar que estava certo ou as duas alternativas.

    Tentei conversar com a mãe e cobrar satisfação.

    - De onde tirou o violino? Por que não me contou antes? Compreende o quanto custa, são 130 anos? Isso não é coisa para uma criança brincar.

    Ela ria da minha seriedade. Da minha obrigação de ser correto e justo a qualquer momento. De ser duro e exemplar em qualquer instante.

    - Desde quando não podemos brincar com uma lembrança?, ela questionou.

    Vicente concordou com a cabeça. Só deu tempo de ver minha mãe alcançar o arco para ele.

    - Ah... faltou isso.

    Reparei que o amor de avó é desobrigado. Não tem castigo. Não tem horário. Feito de conselhos e juras. Não sofre da lógica da cobrança, da recompensa, da censura e da fiscalização. Alegria à toa. Tem uma generosidade inalcançável para quem ainda é pai.


    Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
    Revista Crescer, São Paulo, Número 191, Outubro de 2009


    8:15 PM :: Comentários:

    RUFFATO EM PORTO ALEGRE



    "Alcancei a beira do Tejo, uma ignorância tanta água, perto dele o infeliz do Pompa parece corguinho, comprei um cartão-postal para exibir praquele povo incréu de Cataguases, mas às vezes fico pensando, acho que não vou mostrar não, pra que humilhar o pobre do nosso rio?"

    Meu irmão Luiz Ruffato autografa o lírico, divertido e sofrido romance "Estive em Lisboa e lembrei de você" (Companhia das Letras, 83 páginas), volume integrante da coleção "Amores Expressos", nesta quinta (15/10), às 19h, em Porto Alegre (RS). Guarde um lugar na fila.

    Local: Livraria Cultura
    Bourbon Shopping Country
    (Av. Tulio de Rose, 80)


    5:06 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Outubro 13, 2009

    FUTEBOL DENTRO E FORA DE CASA
    Arte de Leonardo da Vinci



    Conhece a história do cavalo que carregava tudo, até que seu dono decidiu que ele poderia continuar levando o mesmo peso e ainda comer menos?

    Rolo Compressor repercute as cocheiras do Inter. Faça sua aposta.



    Por falar em futebol, meu filho Vicente, 7 anos, abriu um outro blog, além do Eu Vi Bichos. É a Zona de Agrião, para comentar sobre os tumultos da pequena área. O guri se multiplica na rede.

    2:25 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Outubro 12, 2009

    CONSULTÓRIO POÉTICO ESPECIAL
    (perguntas sempre insinuadas)
    Arte de Francis Bacon

    Fabrício Carpinejar



    Ela não fala de suas relações passadas. Como devo reagir?
    As relações passadas devem surgir na conversa como uma caricatura. Rápidas pinceladas para uma fisionomia cômica e inofensiva.

    O certo é não falar demais, assim como não deixar de responder.

    Se o ex surge em todo momento na conversa, ficará tridimensional, ornamentado de elogios e atributos. É complicado não sentir ciúme. Estará participando da regravação de Dona Flor e seus dois maridos. É saudável sempre conhecer algum defeito do ex para poder superá-lo. Um bom defeito. Se ele não transava direito, melhor ainda. Ou se era parado e acomodado, indiscutíveis confissões para retomar a confiança amorosa.

    Mas se ela não comenta anda, cuidado, pode estar repetindo a separação que teve com eles. E não quer adiantar os problemas que enfrentou e suas dificuldades.

    Ele oscila de humor, de alegre fica repentinamente tenso?
    Cada um tem uma maneira de reagir ao mundo. Há pessoas que são hipersensíveis. O importante é que ele tenha paciência para explicar seus pensamentos. Talvez a tristeza não vá embora, mas com certeza a tensão. No amor, cabe ser didático, notar que o outro não está em sua cabeça, muito menos pensar que a companhia sabe o que está acontecendo. As suposições são fatos inventados. Tomaria precauções quanto a confiar exageradamente nas impressões. A arrogância surge quando concluímos por conta própria o que é assunto dos dois.

    Mas pergunto o que está ocorrendo e ele não responde?
    Ele supõe que você está o criticando, desdenha suas intenções. Já deve ter sofrido antes. Somos crianças repetindo traumas. Seu namorado (ou marido) deve se sentir acuado, ao invés de entender que a preocupação não é para irritar, e sim para ajudar, algo como a gentileza de emprestar o casaco quando está frio.

    Ela aceitou o fim rapidamente e disse que não tem forças para o nosso amor?
    Isso é covardia. Talvez ela não o ame. A fraqueza já é uma força. Quem ama nem pergunta como ama, vai amando e se abastecendo do inacreditável. E não aceita o fim. Quem aceita o fim é o orgulho arrumando uma desculpa para sair de cena, defendendo a equivocada ideia de que fez tudo e ainda era pouco. Difícil é seguir firme por dentro da incompreensão. A incompreensão é a adrenalina do relacionamento. Ao resolvê-la, estará inutilizando a própria esperança. Amor de consultório é amor organizado. Tem frigobar. Amor de boteco é cerveja quente, haverá a chance de uma segunda para contrabalançar a primeira. Muitas vezes, diminuímos o namorado (a) para que ele (a) fique do tamanho de nosso amor. Não confiar no que o outro pode dar é subestimar o que estamos oferecendo.

    Percebo que ele evoluiu durante o relacionamento. Mas se esforça demais para ser gentil. A gentileza tinha que ser um esforço?
    Para alguns, em especial aqueles que criaram uma vida para não depender de ninguém. Existe quem avalia a dependência como um retrocesso. Temem precisar e não ter mais. E antecipam a falta com o alheamento. Já vi muitos casais que terminaram porque estavam realmente amando. Pela primeira vez, amando e teriam que mudar seus hábitos.

    O esforço tem dois lados: a tentativa saudável de ser diferente e a vingança por ter sido diferente. É provisório: logo vai cobrar o reconhecimento.

    O que faz um casal permanecer junto apesar das constantes brigas?
    Casais realizam uma disputa secreta de poder. Quem ama mais, quem é que vai torcer o braço, quem tem mais razão? Poucos têm o discernimento para entender que o sucesso do outro não significa o próprio fracasso. A delicadeza pousa com o fim da concorrência.

    Ela pode voltar mesmo dizendo que não vem?
    O arrebatamento é a resposta.

    Você acredita realmente em suas respostas?
    De modo nenhum. Aguardo, ansioso, o contraditório.

    6:22 PM :: Comentários:

    CEDER/SE DER



    Cínthya Verri criou a balada "Se der". Está lá para ouvir, audição em preto&branco.

    11:36 AM :: Comentários:


    Domingo, Outubro 11, 2009

    BRANQUINHA!
    Rafal Olbinski

    Fabrício Carpinejar



    Acabamos na noite de sábado. De manhã, o computador pergunta se desejo trocar a senha com seu nome. Faltam 12 dias para expirar. Cheira implicância. Daqui a doze dias, é meu aniversário. Não estará presente, pelo jeito. Será o primeiro aniversário da minha vida adulta que atravesso solteiro. Sem surpresas. Sem jantar. Sem os aplausos das velas. Sem aquela vontade de atravessar a idade de mãos dadas.

    Tenho que controlar o coitadismo. Não há vítima na briga, há dois agressores. Sou um deles. As pedras no bolso são versáteis, servem tanto para o suicídio como para o homicídio.

    Nenhum dos dois quis mudar. Mudar era visto como piorar, infelizmente. Nos amamos o suficiente para morrer, não o suficiente para nascer de novo.

    Não vou telefonar, não vou mandar torpedo, apesar da vontade imensa de reatar. O orgulho assumiu meu quarto. Conversa com ele agora. Com essa governanta das minhas desvalias, do meu guarda-roupa e sapatos. Estou de castigo, protegido, ausente, impedido de responder por mim. Se fosse responder, avisaria que dependo de você, que a desejo de volta. Infelizmente sou capacho de minha angústia. Piso em minhas palavras para limpar os pés da chuva.

    O desamor é treino. Não existe desamor. Existe ensaio, simulação da indiferença, controle absurdo do cumprimento. Não que não sinta nada por você, sinto absolutamente tudo mais do que nunca e não consigo comunicar. Os cotovelos latejam, a cabeça bóia, as pernas mergulham numa fraqueza de maratona.

    É esquisito ser seu ex. O corpo não aceita participar da greve de fome. No dia seguinte, sou seu ex-namorado. Acordei ex. Pronto. Na noite anterior, era o homem mais importante. Agora virei um estranho, um engano. É excessivamente cruel. Largar uma história em comum sem nenhuma desintoxicação, tratamento, cuidado. Sem nenhuma ante-sala para chorar, berrar, espernear, expiar a febre. É muito mais grave do que um vício.

    Quando você ardia alguma angústia, dizia que logo passava.

    Não passará logo. Fingirei. Fingirei que me darei melhor sozinho. É uma estrondosa mentira que também acreditará porque não tem escolha. Sou uma mesa para dois, serei sempre uma mesa para dois. Levarei minhas malas para ocupar a cadeira ao lado. Enfrentarei os questionamentos: "onde você anda?": nos lugares em que frequentávamos juntos. Explicarei que brigamos, escutarei dos amigos que é normal e que logo faremos as pazes, comentarei que é definitivo por educação e para não sofrer mais.

    O ex mente, integralmente mente, complicado porque você me ensinou a gostar da verdade. Não tivemos filhos, não tivemos uma casa para dividir a partilha, não tivemos um cachorro para se procurar novamente. Não projetamos pretextos para a reconciliação, como esquecemos disso? Nosso amor não tem endereço como um circo, montado e desmontado na estrada.

    Resisto a trocar a senha, aceito as migalhas da casualidade, não estou pronto, ninguém está pronto para se separar. O computador é mais caridoso do que a gente. Coloca prazos. O prazo é uma esperança disfarçada de adiamento.

    Como dói o que não começou a doer. Não preciso de férias, preciso de outra vida.

    12:17 PM :: Comentários:

    AUTORRETRATO | Fabrício Carpinejar
    Fotografia de Renata Stoduto

    OS GAMBITOS INCOMODAM
    Depois de mais de uma década de carreira como poeta, iniciada em 1998 com As Solas do Sol, Fabrício Carpinejar recebeu seu primeiro Jabuti, este ano, pelas crônicas em prosa de Canalha!. Jornalista de formação, nasceu em 1972, em Caxias do Sul.



    Que cena da sua vida você escolheria para reviver?
    Duas com os filhos. A primeira, quando fui contar uma história para Mariana e dormi no meio do livro, ela continuou lendo para mim. Ao acordar de repente, não sabendo bem o que aconteceu, ela me acalmou e explicou que controlava meus sonhos pela palavra. E a outra quando Vicente aprendeu a ler no supermercado. Ele já sabia e nunca havia falado. Fui mostrar um produto, por teimosia, e ele disse exatamente certo. E mostrei outro e outro e o menino lia tudo com rapidez apaixonada. Folhetos, cartazes, peças promocionais, nunca gostei tanto de propaganda. Apresentei alguns mais difíceis: Sapólio Radium. E soletrava com fidelidade. Eu e sua mãe Ana choramos debruçados no carrinho. Assustado, ele nos questionou:

    - Vocês querem que eu pare?

    Qual seu maior medo?
    Pode soar estranho, mas o meu maior medo é uma parede coberta por cortinas, sem janela. Já vi. É macabro.

    Que traço do seu temperamento o incomoda?
    Obsessão. Tenho que terminar uma tarefa para começar uma nova. Agora pode me imaginar numa DR? Não termino até acertar cada aresta. Dependo da paz da palavra para me acalmar.

    E nas outras pessoas?
    O descaso. Não valorizar algo porque não interessa. Não gosto do olhar carreirista.

    Que habilidade você gostaria de ter?
    De ser invisível. Passava um seriado na minha infância. Tentei uma vez, atravessei pelado a sala cheia de visitas. Até o Mario Quintana estava lá conversando com o pai. Ninguém comentou nada. Vibrei, deu certo. Repeti para confirmar o dom. Foi um escândalo e fiquei de castigo. Desapareci mesmo para o jogo de futebol durante uma semana.

    Qual a maior extravagância que já cometeu?
    Não existe extravagância, existe coragem. Namorar e casar em cinco dias.

    O que menos gosta em sua aparência?
    As pernas magras. Os gambitos. Minhas pernas não deixaram a infância. Sofrem do Complexo de Peter Pan.

    Qual o seu bem mais precioso?
    Os filhos. Os cílios enormes do Vicente e os olhos renascentistas de Mariana. Meu rosto puxou minhas crianças.

    Qual você considera a maior das virtudes que uma pessoa pode ter?
    Generosidade. No meu caso, o que acaba se agravando porque sou perdulário. Sou o típico caso em que a bondade vira dívida.

    Qual é a sua ocupação favorita?
    Subir nos telhados sem escada.

    Prefere planejar ou ser surpreendido?
    Planejar, sou adepto do messianismo amoroso. Adivinhar, pressentir, exagerar. Acho incrível alguém procurar uma relação equilibrada no amor. Se é amor é puro desequilíbrio. Um pássaro só aprende a voar quando cai. O voo da ave é um suicídio frustrado. Fico encabulado quando sou surpreendido.

    Que lembrança de infância é mais nítida em sua memória?
    Minha mãe escrevendo no avental para não extraviar um verso.

    Que presente você ganhou e nunca esqueceu?
    Meus amigos só me dão uísque. Não consigo esquecê-los.

    Que experiência artística (um filme, um livro, uma música...) teve mais impacto em você recentemente?
    O Animal Agonizante, de Philip Roth; Foi Apenas um Sonho, de Sam Mendes, e Procura-se Quem Fez Isso, banda gaúcha do hipnótico vocalista Lule.

    Qual a paisagem natural mais deslumbrante que você conhece?
    A nuca de minha namorada. Quando o diálogo é feito somente de sopro.

    Que presente você daria para a sua cidade-natal?
    Eu encheria as principais árvores da cidade com sapatos e tênis. Para mostrar que os pés também floresceram de tanto que pisaram em uvas.

    Cite um nome de pessoa que você acha bonito.
    Jandira. Pelo poema de Murilo Mendes.

    Que personalidade pública você admira?
    Mário Corso, o silêncio mais exigente que conheço.

    O que você mais faz na internet?
    Mantenho atualizado três blogs, lanço dardos no twitter, leio jornal.

    Que projeto de vida você está determinado a realizar nos próximos 10 anos?
    Não lembrar que sou feliz para procurar mais felicidade em mim.

    Publicado no jornal Zero Hora, caderno Donna, p. 12
    11 de outubro de 2009 | N° 16121


    12:08 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Outubro 08, 2009

    AMBIGÜIDADES MASCULINAS
    Arte de Keith Haring

    Fabrício Carpinejar



    Encontrei meu amigo no avião, estava de escala, já com o cinto e a cara de quem comeu duas vezes o bolinho de chocolate e não suportava mais o serviço de bordo.

    Ficou uma poltrona atrás, tentamos engatar uma conversa das últimas notícias da última década. Mas os passageiros ao lado pareciam interessados em acompanhar o assunto e nos calamos. Sempre que alguém pega uma revista para ler é que vai fingir que não está ouvindo. A revista é o headphone dos curiosos.

    Fábio questionou se eu havia me separado mesmo. Sim, respondi, com a tranqüilidade treinada de um suicida.

    - Precisamos pôr o papo em dia.
    - Ok, quando pousarmos em Porto Alegre, tomaremos um café, que tal?

    Depois de enfrentar um aeroporto enlouquecido com o feriado, pedir mais licença do que maternidade, aquietamos as malas na lancheria.

    Seus olhinhos eram lantejoulas de carência. Ele me narrou o seu divórcio, o quanto experimentava uma encruzilhada. Amava sua mulher, mas não conseguia superar o fim da paixão por um sentimento mais calmo. Permanecia ligado na arrebentação, naquela loucura de se exibir em todo momento. Sofria para aceitar a serenidade do mar.

    - Mas o mar está mais profundo agora, melhor de mergulhar, não reparou?

    Ele entendeu, assentiu arrumando as franjas, e elogiou a cumplicidade com ela, comentou as recaídas, afirmou que basta encontrá-la e toda intimidade volta. Só não viajou a França para resolver primeiro o impasse, que faz sala dentro dele para ajudar o retorno.

    Confessou sua insegurança, que atualmente os dois moram em cidades diferentes, que tem medo dos casos dela, de perdê-la em definitivo.

    Eu fui me sentando nos cotovelos, deliciado com a declaração de amor. Lia novamente Sabrina, Júlia e Bianca. Agora não mais escondido no porão. As fotonovelas corriam em balões apanhando suas palavras.

    Um homem é capaz de amar verdadeiramente, pensei, e fui afrouxando o nó da gravata, me avaliando incapaz, troglodita, amaldiçoado de pessimismo.

    Passei a perguntar apenas para que ele continuasse a falar. Admirava sua coragem.

    Fábio concluiu que se separou porque não acreditava que poderia ser melhor, antecipou o término como forma de prevenir o despejo. Não tolerou sua decadência.

    Tanta decência. Tanta honestidade. Logo orientei que deveria apostar na história. Não adiar mais.

    Ele concordou, desistiria de enganar a saudade. De sofrer em segredo, pois sofrer já vinha se tornando um segredo.

    Descemos a escada rolante pacificados, resolvidos. As chaves no bolso esquerdo e as moedas no direito, como homens organizados. Agradeceu meus conselhos, fundamentais para sua decisão e adiantou que seria o padrinho da reconciliação e me convidaria para jantar.

    Ao dirigirmos a um táxi, eu o vi cumprimentando uma amiga na fila. Aproximou-se de meu ouvido e me explicou:

    - Ainda terei um rolo com ela.

    9:42 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Outubro 05, 2009

    TITEPORCARIA



    Os colorados não têm ânimo de pensar em compras natalinas. Por favor, não nos venha com canecas, chaveiros, abrigos, cuia, bomba, tip-top. O único boneco que interessa aos torcedores é o do Tite. Para vodu.

    Magia negra no Rolo Compressor.

    1:24 AM :: Comentários:


    Domingo, Outubro 04, 2009

    PRÓXIMAS PARADAS



    5/10 (segunda), Cachoeira do Sul (RS)
    XXV Feira do Livro
    19h - Palestra
    Local: Casa de Cultura Paulo Salzano Vieira da Cunha
    (Rua 7 de Setembro, 1121, Centro)

    6/10 (terça), Porto Alegre (RS)
    Sarau Elétrico - Homenagem ao "Canalha!"
    22h - Leitura de crônicas de meu livro, ao lado de Luís Augusto Fischer, Cláudio Moreno, Kátia Suman e Claudia Tajes
    Show: Acústico Zen, Izmália Ibias, Paulo Arenhart, Homero Luz e Rafael Carneiro
    Ingresso: R$ 10
    Local: Ocidente
    (João Telles esquina Osvaldo Aranha, 51 3312-1347)

    8/10 (quinta), Curitiba (PR)
    Feira de Livros Sesc 2009
    Jornalismo e Literatura
    9h30 - Literatura e jornalismo online, com Sérgio Rodrigues
    Local: Sesc Paço da Liberdade
    (Praça Generoso marques, s/n)

    9/10 (sexta), Teutônia (RS)
    XVI Feira do Livro e VI Escola Aberta
    9h - Palestra
    Colégio Teutônia
    (Rua Asido Dreyer, 154 51 3762-4040)

    9/10 (sexta), Bento Gonçalves (RS)
    XVII Congresso Brasileiro de Poesia e II Jornada SESC de Estudos de Poesia
    19h30 - A poesia da crônica e a crônica da poesia
    Mediador do debate de Rubem Penz e Marlon de Almeida
    Local: Auditório Santo Antonio
    (Rua Marechal Deodoro. 260)

    16/10 (sexta), Novo Hamburgo (RS)
    27ª Feira Regional do Livro
    19h30 - Palestra
    Praça 20 de Setembro

    17/10 (sábado), Morro Reuter (RS)
    17ª Feira do Livro
    19h30 - Sarau Em Busca do Tempo Perdido
    com Frank Jorge

    8:19 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Outubro 02, 2009

    LONGE DO INTERFONE
    Arte de Paul Klee
    Para Domingos Pellegrini

    Fabrício Carpinejar



    Estava me espreguiçando, com a luz ainda mordendo os lábios e uma curiosidade mansa de quem não definiu se era quinta ou sexta-feira.

    Quando vejo na frente de minha casa, no outro lado da rua, um casal se beijando fervorosamente dentro do carro. Seis horas e 30, nem isso. Os passarinhos aprontavam as merendeiras de seus filhotes.

    O beijo do casal ultrapassava a medida de uma xícara. Era cálice noturno. Os dois continuavam a madrugada, não despertavam como eu, prosseguiam, agitados e insones. Volúveis, contentes da fraqueza de opinião: despediam-se e retornavam repetidamente. Abraçavam-se e se davam distância para logo repor o enlace. Cada vez mais forte. Cada vez mais denso. Enforcados de cabelos.

    Encontrei naquele momento o início da paixão. Não precisavam telefonar no dia seguinte, já vinham mergulhados nele. O início sem reservas. O despudor da confiança, onde não há futuro, nem perspectiva, somente uma indigência feroz de pedir mais e mais entre um gesto e o seguinte.

    O começo disposto do dia de dois apaixonados. Com um ritmo só deles, só possível para quem passou a noite transando ou procurando não dormir fazendo barulho com as unhas nos travesseiros. Eu invejava o espírito aventureiro que nada nega, que nada discorda, que nada dificulta, que coloca sua casa numa mochila de pano.

    Os dois seguiam se cheirando, se fungando, até que ela desceu e vi que ele não havia estacionado diante do prédio dela. Ficou distante, e ela correu, meio embaraçada, por uns metros. E enxerguei que ela não podia dizer que tinha voltado com ele. Por um motivo proibido, secreto. Enganavam as ruas de bairro. Não foi falta de cavalheirismo, foi um pedido, um consenso de consoantes.

    Ela voltou os olhos para trás. E ele a imitou ondulando os braços, girando o volante como um leme, deslizando pelos cantos. Ela enrijeceu o dedo indicador. Aquilo me emocionou: o casal já tinha intimidade para se ofender e não se magoar. O insulto dela escandalizou os filhotes de aves que iam para a escola de nuvens.

    Eu me acordava lento e o rapaz acelerava e desaparecia. Reparei nas árvores que escoltavam minhas janelas. Duas sibipirunas. A sibipiruna cresce mais alto na cidade. Não que seja feliz. É para fugir do ar manchado, da pressão dos telhados e arranha-céus, do barulho do trânsito. Se ela morasse na mata, cresceria para os lados, espalhando seus galhos. Mas ela se sente emparedada e sobe, sobe como quem segura seus pertences na cabeça enquanto atravessa um pântano, sobe para levantar ao máximo as sementes da copa e protegê-las.

    Eu entendi o quanto nossa altura é uma saída violenta por um pouco de paz. De qualquer jeito.

    6:49 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Outubro 01, 2009

    CARICATURA



    Costumo dizer que nunca tive foto 3x4, já nasci uma caricatura. Gilmar Fraga enfrentou o desafio e acabou por fazer uma fabulosa fotografia dos meus excessos.

    A homenagem saiu na capa do jornal Zero Hora na quarta (30/9).

    5:02 PM :: Comentários: