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    Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

    ESTOU AGORA NO BLOGSPOT



    Depois de seis anos no blogger e mais de 1 milhão de acessos, meu blog deixa esse espaço e continua em outro endereço, agora no blogspot. Estava na hora de repor o guarda-roupa das crônicas. A nova página permitirá uma maior interação com o leitor. Atualizem seus marcadores: http://carpinejar.blogspot.com/

    11:46 AM :: Comentários:


    Sábado, Dezembro 26, 2009

    OVOS QUEBRADOS
    Arte de Arthur Dove

    Fabrício Carpinejar



    Chega um momento em que a relação precisa quebrar os ovos. É bom estar preparado.

    Será como o trabalho doméstico: transparente. Lava-se louça, roupa, estende, retira os vincos com ferro, limpa casa, recolhe o lixo, arruma os brinquedos e os filhos nem reparam que tudo está novamente no lugar e no armário, apesar da bagunça feita recentemente. É óbvio que não vão agradecer. É o que chamo de passado secreto. Aconteceu, mas não merece memória. Entretanto, a raiva fica: não fui valorizado e resta um desmemoriado mal-estar.

    Minha namorada resolveu comer omelete. Ela já fez o prato outras vezes em seu apartamento.

    Estava em casa e me antecipei na captura dos ingredientes, louco para agradá-la. Mas a minha menção de executar a tarefa a desagradou. Entenda, é o passado secreto. O ardiloso passado secreto. Com minha efusiva disposição, ela desconfiou de que não gostava de suas omeletes e que somente agora, decorrido um ano, estava com coragem de falar.

    Raciocinei que significava uma informação dispensável, meu modo era dourar os dois lados e o dela era envelopar a massa ao final, mas ela tratava o assunto com tamanha energia que até me assustou.

    - Quer que eu faça?
    - Não gosta do jeito que faço?
    - Gosto, é que eu mostraria minha predileção...
    - Gosta nada, quem já fez omelete para você? Quer do jeito de quem? Confessa?
    - De ninguém.
    - Ora, vai nessa, qual é a receita? Com queijo ralado, requeijão, fatias? Por que nunca me disse que não gostava da minha omelete? Eu me sinto uma idiota...
    - Eu gosto, só busquei uma maneira diferente.
    - Que maneira?
    (Daí eu me danei)

    Levaremos mais tempo discutindo na tentativa de prevenir a discussão. A conversa durou duas horas. Duas horas sobre absolutamente nada, a não ser o medo do que não foi vivido junto. Se aliso seu umbigo, acreditará que repito um convite libidinoso com uma antiga namorada. Quanto mais a gente se entrega, maior é o pânico de estar sozinho na doação, de ser uma miragem afetiva. Tanto que após desfiar um "eu te amo tanto", não ouse nunca mais declarar "eu te amo" - é como se amasse menos.

    O ciúme está dobrado em cada gesto, fazendo contas e pedindo estornos. Não há saída; passe manteiga na conversa, aqueça a frigideira e admire os ovos quebrados na pia.

    Repare como o negócio é tinhoso. Durante as compras, no caixa, costumava perguntar se ela estava naquele momento com troco. Não falava dinheiro, mas troco. Uso troco para tudo. Para quê? Ela já formulou uma tese de que empregava o código com a ex. Igual sina em nossas rotas românticas. Relaxados, sozinhos e prontos para namorar, peço que ela me alcance o champanhe do balde: - Por favor, me passe a "champs"? “Champs”? Feito o entrevero. Usava também esse dialeto com a ex.

    O grave é que ela tem razão. Só não desejava brigar, ainda mais quando não tenho defesa. Ela poderia ser mais justa e me dar tempo para preparar uma mentira.

    8:47 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

    QUANDO O PAI ESQUECE O FILHO DO PRIMEIRO CASAMENTO
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Um homem que se finge de burro é mais burro do que um burro honesto.

    O que me dói é ver um pai casar de novo e esquecer o filho do primeiro casamento. Esquecer. Nenhum cartão de Natal ou presente debaixo da lareira.

    É que ganhou um herdeiro do segundo casamento, está envolvido na escolha do enxoval, no anúncio do jornal, em fumar charuto com o sogro e com aquela vaidade suprema de ostentar para sua esposa que é experiente e sabe segurar a criança.

    Ele apaga a casa anterior — com o que havia dentro dela — e se apega à casa recente. Entende que sua criança ou adolescente cresceu o suficiente para não depender mais dele. Nenhum filho cresce o suficiente para ser órfão de repente, não importa a idade.

    Aquele filho a quem amava e criava com zelo, a quem aconselhava e trocava as fraldas passa a existir somente como uma pensão, uma linha do seu contracheque. Não pergunta. Não telefona. Não se encontra fora de hora. Está muito ocupado criando um bebê. O que dá para entender é que ele não ama o filho, mas a mulher com quem se encontra no momento. Faz qualquer coisa para agradá-la, inclusive negar a paternidade do primeiro casamento.

    É do tipo ou tudo ou nada, ligado à figura masculina patriarcal, que oferece e tira conforme suas vantagens. Não é bem um pai, mas um latifundiário emocional, desconfiado, sob permanente ameaça de invasão de suas terras.

    Mãe é diferente, sempre se elogia quando menciona seu filho. Mareja os olhos ao mexer na gaveta das camisas, coleciona bilhetes e desenhos, inventa uma porção de neologismos no abraço. Não se guarda para depois, para um melhor momento, está disposta a conversar pressentimentos e costurar recordações.

    Pai costuma se omitir no momento do desabafo. É comedido demais para estar vivo. Troca de personalidade, de residência, de amor, o que precisar, no sentido de prevenir a sobrecarga de problemas. Para namorar, ele some por meses (exatamente o contrário da mãe, que administra o final de semana com o apoio da babá e da avó). Homem ainda não conseguiu conciliar sua vida profissional com a afetiva. Não é capaz de unir nem a vida afetiva pregressa com a vida afetiva atual. Cuida de um afeto por vez.

    Pai não forma sindicato, não cria associação. Continua defendendo que ninguém tem o direito de se meter na vida dele e converte em inimigos os amigos que insinuam sua indisposição filial.

    Ele se separou de uma mulher, não do seu filho, mas culpa o filho porque não consegue completar uma frase com a ex. Parte do princípio de que ajudando o filho está ajudando a ex. Gostaria de matá-la, mas então se mata para o filho.

    Ou entende que seu filho deve procurá-lo, cria paranoias e neuroses para aliviar sua culpa. Age como um ressentido, fala mal do filho do primeiro casamento para a mulher do segundo casamento, alegando ingratidão. E a mulher do segundo casamento concorda com o absurdo porque está preocupada com o nenê e deseja a exclusividade do marido. E não entende que um irmão depende do outro irmão, que uma família não cresce por empréstimos.

    Homem tem que aprender a sofrer em público, sofrer por um filho o que sofre por uma dor de cotovelo, apanhar das cólicas e da coriza, desabar numa mesa de bar, beber interurbanos, fechar a rua e o sobrenome para encurtar distâncias, chorar nas apresentações escolares, fingir abandono a cada despedida, para só assim mostrar que pai, pai mesmo, nunca será dispensável.


    Coluna no site Vida Breve

    1:32 PM :: Comentários:

    DJs



    Os filhos Vicente Carpinejar, 7, e Mariana Carpinejar, 16, trocam músicas, fofocas e clipes pela rede. É o blog Rádio Mil Ponto Zero. Sintonize.

    1:32 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Dezembro 22, 2009

    YOUTUBE



    Minha namorada Cínthya Verri escreveu uma crônica muito engraçada sobre Youtube, o teste final para escolher o parceiro. Em Bouche Ville.


    10:09 PM :: Comentários:


    Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

    AUMENTE SUA DELICADEZA ATÉ 28cm
    Arte de Allen Jones

    Fabrício Carpinejar



    O que leva o homem à impotência é o cuidado.

    O que leva a mulher à frigidez é o cuidado.

    O excesso de cuidado. Cuidado demais ataca.

    Nunca vi uma mulher ou um homem gostar sem criticar.

    O embaraço do sexo não decorre da ausência de intimidade, mas da intimidade. E da cobrança que vem com ela. Mais fácil gozar com estranhos.

    Depois de partilhar meses e cadernos de jornal com nosso par, abandonamos o elogio. Passamos a cobrar e expor os defeitos para que sejam corrigidos. É o cigarro, é a alimentação, é a distração, é o pouco caso com o dinheiro, é a indeterminação do trabalho, é a preguiça. A convivência traz a preocupação com o namorado ou a namorada e uma esquisita vontade de interferir. Entre conhecer e mandar, é um passo. Ou um tropeço. As mais duras agressões não provocam hematomas, ocorrem em nome da sinceridade.

    O amor é confundido com pancadaria. Um teste de resistência. Uma prova de esgotamento nervoso. Se o outro não quer, que vá embora, que desista do prêmio maior que é a confiança.

    Há uma visão sádica que não ajuda nem o masoquista. Falta medida. Falta parar e recomeçar o namoro. Falta esquecer e perceber que o próprio passado não é imutável, não existe certo ou errado, que nem tudo por isso é duvidoso.

    A eficácia mata o erotismo. O aproveitamento total do tempo do relacionamento não colabora com a vaidade. Custa um agrado antes de transar? Uma meia-luz de palavras?

    Não estou pedindo para mentir, muito menos fingir, mas falar um pouco bem para acordar os ouvidos e despertar o interesse.

    No início, os joelhos são venerados, os ombros recebem moldura de madeira, os cabelos são alisados com a decência de um espelho. As expressões afetuosas vão e voltam, repetidas com diferentes timbres. Todo homem no começo é, ao mesmo tempo, um tenor, um barítono e um baixo. Toda mulher no começo é, ao mesmo tempo, uma soprano, uma mezzo e uma contralto. Dependendo da região que toca, a voz muda.

    Com a relação firmada, a excitação torna-se automática. O corpo tem que pegar no tranco.

    A devassidão é trocada pela devassa terapêutica. Desculpa e por favor saem de moda. Como existe o trabalho, a casa, o dia seguinte e terminou a paixão (e somente os apaixonados são sobrenaturais e não sentem cansaço), o sexo pode ser mais prático, mais direto, pode até não ser. Na cama, estaremos falando dos problemas, das contas, do que deve ser mudado na personalidade. Não encontraremos paciência diante do relógio. Não vamos procurar cheirar a pele para atrair o beijo.

    Eu compreendo perfeitamente quando um homem broxa se a cada instante é lembrado de sua barriga. Eu compreendo perfeitamente quando uma mulher decide dormir quando sua lingerie nova não foi reparada.

    Nunca acusamos quem a gente não conhece.

    Julgamos infelizmente quem vive nos absolvendo.

    10:26 AM :: Comentários:


    Domingo, Dezembro 20, 2009

    O QUE O HOMEM DEVERIA ENXERGAR
    Arte de Matisse

    Fabrício Carpinejar



    Uma faxineira me contou.

    Ela demorou muito tempo para entender a insatisfação de sua patroa.
    Lavava, arrumava, ordenava com esmero e recebia alguma reclamação sobre a falta de capricho no fim do expediente.

    Da onde tirava essa conclusão?

    Ela já confiava na hipótese de que não recebia elogio de propósito, para não se acomodar, que era um método de superação. Ou uma maldade produtiva.

    Ameaçou largar o endereço, desistir de convencê-la da injustiça, reclamou ao marido a tortura de viver esmolando elogio.

    Mas ela acabou capturando o motivo da cisma constante e semanal. Libertou-se da dúvida.

    A patroa não vistoriava a casa, não observava o conjunto, não conferia o chão ou as roupas dobradas. Talvez nem fiscalizasse o pó das mesas. Reparava em um único detalhe: os interruptores de luz. Se apareciam brancos e brilhantes, tomava como princípio que o trabalho foi bem feito. Quem lavava o interruptor pensaria em todo o resto. Logo ao acender a luz, a dona da residência aprovava ou criticava o serviço. Nem lançava as pupilas pelos aposentos.

    Essa percepção da patroa, que elege o ínfimo como senha da limpeza, e o cuidado da faxineira, que compreende a mensagem invisível, revelam as sutilezas femininas.

    O homem deveria ficar mais distraído. Só a distração nos conduz ao indispensável.

    Por exemplo, eu enlouqueço com mulher que mexe os brincos no meio de uma conversa. Há um desinteresse charmoso nesta atitude. Quase um desprezo desafiador. Redobro as gentilezas. Ofereço o que ela não ousou pedir. Sinto que vou perdê-la no próximo instante, que algo que lembrou supera a minha voz.

    Para me torturar, ela vira o pescoço sutilmente ao lado. Tal apresentadora atendendo a um ponto dos produtores. Não posso acusá-la de indiferença - mantém os olhos no meu rosto.

    Comemoro sua sofisticação, a complexidade dissimulada. Concluo que esteja conversando com seus demônios. E que o demônio no ombro direito ameaça, bem desaforado:
    - É sempre dia para o corpo. Vai, abraça esse canalha!

    Já a percebo como uma feiticeira, uma bruxa, uma doida, que está definindo sua vida tocando as curvas do lóbulo. É o detalhe que decide. O detalhe conspira, inunda, confunde. Ela diz sim a partir dos ouvidos mais do que da boca. O ouvido tem que gostar de mim.

    Por isso minha escola são os interruptores de luz: uma mulher fica realmente nua quando tira os brincos.

    Depoimento especial para Versos de Falópio
    Da série "Homem de domingo"
    Publicado em 20/12/2009


    1:34 PM :: Comentários:


    Sexta-feira, Dezembro 18, 2009

    MINHA CATEQUISTA
    Arte de Gerhard Richter

    Fabrício Carpinejar



    Intelectual traz o ateísmo como pré-requisito. Confiar em Deus é sinônimo de ingenuidade, de burrice, de falta de conhecimento histórico.

    Parece que estamos sendo enganados, no fundo do poço e nos agarramos no desespero da reza. Entre os amigos incrédulos, é previsível que pintará Darwin na discussão para mostrar que a Bíblia não aconteceu. Concordo que a Bíblia não aconteceu, é uma parábola, ela está acontecendo sempre. Agora, por exemplo.

    Eu acredito em Deus, posso perder os leitores antes do sermão. ACREDITO. Porque tive uma catequista, Ester, que acreditou em mim.

    Só acredita em Deus quem um dia foi acreditado.

    Ester não me obrigou a colocar agulha no coração de Jesus, a purgar confissões de joelhos, não dobrou a culpa pelos meus pecados, não retorquiu minhas distrações, não censurou minha liberdade de ação, não me pediu para não morder a hóstia, nem me coibiu a não pensar bobagens. Ela me aceitou inteiramente, como sou e não sou. Ela me convenceu com uma única virtude (e tinha várias): o senso de humor.

    Nunca conheci alguém com tamanha gentileza. Ela falava baixinho e sorria para explicar passagens dos evangelhos. Eu me aproximava para ouvi-la melhor. Ouvir mais o riso do que a voz. Seus olhos se apequenavam, chineses, cordiais, antecipando a gola branca da primeira comunhão.

    Não era inquisidora. Não abria inquéritos dos defeitos. Havia uma leveza que não existe no moralista.

    Eis o grande problema do moralista: ele não ri. Repare. É azedo, carrancudo, quer nos passar a limpo, não se duvida em nenhum momento, age como um exterminador dos erros, um desfragmentador de disco. Quem não ri não inspira confiança, sugere uma vida mesquinha e ingrata, com as escolhas decididas pelo medo.

    E Ester é feliz. Feliz com os filhos e netos. Feliz com as suas amizades. Feliz à toa como um grão de mostarda tingindo o bico de um pássaro. E não disputava para ser mais certa do que uma criança de sete anos. Não me inferiorizava com sua sabedoria e suas metáforas, ela me incluía em sua fé.

    Preservo a inocência auditiva daquela época, não duvido do invisível da infância.

    No momento em que uma criança diz enxergar fantasmas, duendes, gnomos e amigos imaginários, os pais têm o hábito de duvidar da veracidade, caçar ajuda médica, recorrer à assistência escolar, não dormir jurando que é um problema de personalidade. Além de alegar que essas coisas não existem, questionam o valor da própria imaginação.

    O ceticismo adulto desestimula que o pequeno supere as aparências, que enriqueça o cotidiano com mistérios e poesia. Bloqueia a fantasia logo no esplendor de sua espontaneidade, como a provar que somente importa o que é real e o que pode ser comprado.

    Evidente que o filho não vai acreditar em Deus, o grave é que não vai acreditar em si.


    Publicado na minha coluna "Primeiras Intenções"
    Revista Crescer, São Paulo, P. 60, Número 193, Dezembro de 2009


    10:41 AM :: Comentários:


    Quinta-feira, Dezembro 17, 2009

    “APRENDI A VELEJAR USANDO O SILÊNCIO”
    Foto de Ricardo Füchs

    Schneider Carpeggiani
    carpeggiani@gmail.com



    Fabrício Carpinejar nunca será um poeta “soneto”. Ou seja: um poeta tradicional, que faz o esperado. Talvez por isso ele consiga ser mais popular entre o público que entre a crítica (feito raro, tratando-se de poesia). Após transformar o consultório sentimental do seu blog num livro, ele compilou as experiências poéticas do seu Twitter num livro que tem como nome o endereço do seu microblog, www.twitter.com/fabriciocarpinejar. Nessa conversa, ele fala de provocações e define sua obra em 140 caracteres.

    JORNAL DO COMMERCIO - Você é um poeta, e a poesia é uma construção cerebral, metódica, o oposto do Twitter, que é feito para apreender o instante do internauta. Como você encontra o equilíbrio desses dois mundos?
    FABRÍCIO CARPINEJAR – Dizem que João Cabral é cerebral, acredito que ele é emocional. A investigação não elimina o relâmpago. O pensamento não elimina o desejo. O estudo não elimina a intuição. É um erro supor que aquilo que dedicamos mais tempo deixa de ser espontâneo. Assim como a poesia, o Twitter corta. Igualmente intenso, ferino. Procura também observações inusitadas do cotidiano, contraria expectativas, espalha iluminações ou sombras num espaço breve, empareda o leitor. Talvez não seja uma navalha, talvez não seja um bisturi, armas cultas e sábias de incisão. O Twitter coloca o poeta em briga de rua, o mais adequado é vê-lo como um canivete.

    JC - Os tais 140 caracteres do Twitter, para você, é uma limitação ou a provocação de uma espécie de formato poético?
    CARPINEJAR – Uma provocação saborosa. É selecionar, sugerir. Como poeta, aprendi a velejar usando o silêncio a meu favor. É o silêncio que dá velocidade ao verso. Quanto menor o aforismo, mais denso. É um laboratório da síntese, do bom humor. Só sentiremos a alegria da vírgula quando as frases são curtas. Será uma vírgula desejada, aguerrida.

    JC - Você parece que gosta de usar a internet como um meio de provocação: o consultório sentimental do seu blog virou um livro e agora o mesmo ocorre com o Twitter. Você é um autor em busca do formato ideal?
    CARPINEJAR – Eu gosto de tudo que é provocação. Um namoro começa com o casal brigando (pena que termina com o casal brigando). Não estou procurando um formato ideal, apenas não sou busto para me fixar em gesso. A mais surpreendente literatura vem quando não esperamos literatura. Brinco de esconde-esconde poético em diferentes suportes. Minha paixão é dar susto. Nasci feio, já tenho pós-graduação em assombros. Onde ninguém me espera, lá estarei com meu lirismo.

    JC - Essas tentativas suas com a internet seriam um sinal de que você estaria...
    CARPINEJAR – Farejando o tempo. Eu concordo com Elias Canetti: o poeta é o cão do seu tempo. Meter o focinho úmido nas mentiras, não deixar nada de fora, ser insaciável em sua curiosidade, revirar o lixo da linguagem para salvar significâncias. Desde pequeno, lustro moedas antigas. Sei que o melhor brilho parte de coisas abandonadas.

    JC - Há algum plano para você voltar ao formato literário mais tradicional e quase épico de livros como Cinco Marias?
    CARPINEJAR – Não sei se é épico, Cinco Marias é um livro irrepetível, centrado no jogo, com a troca de vozes entre os personagens e um final jornalístico que duplica a leitura. Onde cheguei mais perto do teatro. Preparo um livro de poemas, lentamente, que tem como ponto de partida a alegria, a leveza e a graça. Será o primeiro livro da língua portuguesa traduzido para a língua portuguesa. Eu vou me traduzir. Um poema na página e a tradução embaixo, numa nota de rodapé. Divertido, né? Para ninguém mais falar que a poesia é hermética.

    JC - Última pergunta: como você descreveria o atual momento da sua literatura em 140 caracteres?
    CARPINEJAR – Arruaça é uma alegria desesperada.

    Publicado no Jornal do Commercio
    Caderno C, Recife (PE), 17/12/09


    11:37 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

    MEU CARRO ESTÁ OUVINDO
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Há uma única divisão de classe no país: os que têm ar-condicionado e os que se abanam de qualquer jeito. As outras injustiças são decorrentes dessa partilha.

    O compressor de meu carro quebrou. Depois de dois anos de ar refrigerado, obriguei-me a dirigir com as janelas abertas do veículo. Aconteceu na pior hora, em pleno dezembro, no verão escaldante.

    Foi um susto de mundo. Na brisa artificial, só ouvia música, meus pensamentos, meus segredos, em paz como uma boia nas águas de Cancun. Apresentava a segurança de uma cabine telefônica. Gesticulava quando alguém cometia uma barbeiragem e, em seguida, retomava o fôlego como se nada houvesse acontecido. O ar-condicionado era o vidro fumê dos ouvidos. Trazia um esquecimento instantâneo das agressões ao volante.

    Com os vidros arriados, a percepção mudou radicalmente. Escutava o zumbido da rua, os gritos dos vendedores, o atropelo da saída das escolas, a avalanche das compras natalinas. Tal surdo que recupera a audição de repente e não entende o som. O som é muito violento para entender. Entrei numa rave, numa balada, não assimilando o ritmo para dançar.

    Parava um instante na faixa de segurança e representantes de caridade pulavam na minha porta, para oferecer canetas, adesivos, balas, rapaduras, camisinhas. Uma feira móvel fechava o meio-fio.

    Espantei-me com a velocidade das pernas dos meninos, com a tração das cadeiras de roda. Faziam fila para me oferecer e pedir dinheiro. Mais organizados do que pit stop de Fórmula 1. Fiquei vulnerável para as garotas das construtoras. Amontoei folhetos de prédios paradisíacos na poltrona ao lado, que apenas tinham a função de diminuir o tamanho da minha casa.

    E os motores do carro voltaram a ter barulho, e os canos de escapamento tossiam de pneumonia. Um chevette velho feria monstruosamente a sensibilidade. Enchia-me de piedade de seu motorista. Quase ofereci reboque.

    Apesar de repetir os caminhos de sempre, entrei em outra cidade, as ruas pareciam mais apertadas, o engarrafamento mais longo, os atrasos inexplicáveis. Um ansioso como eu atingia o avesso do nirvana: a histeria.

    Um caminhão fechou a frente num contorno, recuei e buzinei cheio de autoridade. Antes seguiria reto, engolindo o desaforo. Mas ouvi o motorista xingando com volúpia, ofendendo minha mãe, meu pai e minhas unhas pintadas. Barbudo, enxergava seu braço tatuado de Betty Boop me mandando para um lugar bem animado. Aquilo ferveu as sobrancelhas. Já estava discutindo junto, reduzindo a velocidade, numa corrida de bigas, um racha, trancando os carros atrás. Percebi no momento que não sabia nem ofender, apenas reclamava educadamente. Ele falava: FDP, C., M.. O máximo que consegui pronunciar foi: Seu troglodita! O que me soou muito feminino para o momento e adequado para o esmalte pistache que usava. Lamentei minha performance no conflito, estava realmente destreinado.

    Mas nunca tomei uma atitude destemperada, nunca cedi à explosão: eram os vidros abertos. Antes não ciscava o que me respondiam, agora entrei para o cinema falado. A palavra machuca.


    Coluna no site Vida Breve

    2:04 PM :: Comentários:


    Terça-feira, Dezembro 15, 2009

    EFEITO JACARÉ
    Arte de Peter Blake

    Fabrício Carpinejar



    Toda relação tem um efeito Jacaré. Ele engole pessoas ainda vivas. Tritura amores. Cuidado.

    Fui procurar uma meia na lavanderia de minha namorada. Achei um saco de brinquedos. Num canto. Mexi com o tato: hélices, bonecas, corda de pular, quebra-cabeça.

    - O que é isso, Cínthya?
    - O quê?
    - Esse saco de brinquedos aqui atrás?
    - Peças do meu consultório antigo, quando atendia crianças.

    Observei o estado de abandono das peças, exalando a condição de trastes, empoeirados e sem uso. Retirei todos para espiar se localizava algum fetiche de minha infância. Virei a lona no chão e já não me importava que estava descalço. Do pântano, saltou um jacaré. Bonito, de borracha, do tamanho de uma tábua de passar.

    Pulei de faceirice como quem reencontra um par de luvas. Combina com a minha estante, pensei. Vou colocar na ala infantil, chamará atenção.

    Naquele momento, eu me fardei de pet shop. Levei o bichinho para lavar. Retirei as manchas, a sujeira, esfreguei suas escamas, ainda dei ao luxo de aquecê-lo com o secador.

    O jacaré rejuvenesceu, já era um filhote de jacaré. Lustrado. Cintilante.

    Na sala, comuniquei minha decisão para Cínthya:

    - Peguei o Jacaré para mim.
    - Que jacaré?
    - Este! (retirei das costas como um buquê). Arrumei e aprontei para sair comigo. Vou levar para meu escritório.
    - Nãooooooooooooooooo

    A negativa me magoou. Não absorvi o tranco. Imaginei que estivesse troçando, fazendo charme. Mas ela lançou tentáculos na minha direção e puxou o jacaré para perto dos seus seios. Com a violência de uma mãe recente.

    Tentei argumentar:
    - Largou o bicho, imundo. Não duvido que permaneceu parado naquele lugar há três anos. E agora banca a interessada?
    - Não importa, é meu!

    É muito egoísmo, deduzi. E comecei a enumerar as minhas tentativas frustradas de levar algo de seu apartamento. Reclamei de sua possessividade, da ausência absoluta de gentileza. Demonizei a namorada, faltou somente colocar a bata negra da Inquisição e armar o fogo.

    Bati a porta e não me despedi. Desci lento as escadas, aguardando que ela se arrependesse. Sempre parto devagar, esperando um pedido de desculpa sôfrego pelo corredor, dando chance para que ela me alcance pelo grito.

    Não correu atrás de mim, muito menos caminhou. Não era isso que queria mesmo. A verdade é que não desejamos que a namorada corra para nos buscar, desejamos que ela rasteje.

    Perdi o jacaré. Aliás, não perdi o jacaré, não era meu, não ganhei o jacaré simplesmente.

    Por pouco, não fui engolido pela avareza. O orgulho é a mais grave avareza.

    Descobri que o egoísta era eu. Eu é que entrei em seu espaço, mexi em suas lembranças, retirei um objeto qualquer, sem perguntar que valor tinha para ela, quem havia oferecido, sua história. Vá lá que seja lembrança de um amigo que morreu ou um presente de uma amiga que não vê mais.

    É a mania de desfalcar quem amamos pelo ideal de despojamento. Há uma concepção equivocada no relacionamento de que não deve persistir limites na entrega. Com limites, acusamos que não é mais amor.

    Aproveitando a culpa, os amantes são os piores trambiqueiros, esquecem o valor dos detalhes, tiram vantagem em cada gesto.

    É o mesmo que entrar no quarto do filho e colocar, de modo arbitrário, roupas fora. Entregaremos justo sua camisa predileta ou a mais confortável para a Campanha do Agasalho. É o mesmo que promover uma limpeza nas gavetas da criança e eliminar tampinhas de garrafa, confiando que aquilo é um lixo imperdoável, sem adivinhar que serviam para sinalizar a pista de pouso dos aviões de guerra.

    Cada peça da casa é contaminada pela imaginação do seu dono, revestida da memória afetiva de seu uso. Não seria conservada se não fosse importante.

    Não desfrutei de nenhuma educação, poderia ao menos questionar qual o nome do jacaré. Recolhi o animal com a pretensão de que cuidaria melhor dele. Deixei de cuidar de minha namorada.

    10:17 AM :: Comentários:


    Domingo, Dezembro 13, 2009

    DEPOIS DE TANTO TEMPO
    Arte de Modigliani

    Fabrício Carpinejar



    O maior segredo do amor não é por que amamos, mas por que deixamos de amar.

    Nem procure recapitular o que bebeu na noite anterior. Não tomou nada. É a ressaca da sobriedade. Um imperioso repuxo da boca.

    A descoberta é sutil como perder um prendedor de cabelo. Quase insignificante como um enjoo, um cansaço. A consciência surgiu por acaso, sua origem não é bem certa, de repente na hora de escovar os dentes ou ao regar as plantas ou ao atender o interfone. Não tem lógica. Saímos do centro de gravidade que nos tornava absolutamente dependente dos gestos e das atitudes do outro. Estamos livres para pensar sozinhos e, ao mesmo tempo, presos para sempre na incompreensão.

    O desamor é tão fulminante quanto a atração, mas com consequências embaraçosas. Como abandonar a militância, a ideologia, e não ser visto como um traidor? Como narrar o que não tem enredo e reunir sentido em frases soltas e ensimesmadas?

    Qualquer um vai se envergonhar de contar, trata-se de um sopro, não mais de uma voz. Não é algo para perguntar, está resolvido, fertilizado de impressões.

    Por que é duro sair de casa sem um motivo. Duro encarar quem amamos tanto tempo sem oferecer nenhuma explicação adequada e convincente para o fim. Duro conversar sem mesmo entender como ocorreu a passagem de lado, de uma fidelidade extrema e desesperada à indiferença. Duro executar a tarefa, sabendo que alguém aguarda ansiosamente uma palavra para desaguar os traços, uma palavra onde possa colocar a culpa e amaldiçoar nosso nome. Esse alguém precisa da palavra que não temos, como um pai ou uma mãe do corpo desaparecido do filho.

    Vive-se a tragédia de não ter uma tragédia para desencadear a briga. Não haverá uma causa específica para a distância. Fugiremos do contato visual, por não corresponder mais às expectativas.

    Receberemos a fama de mentiroso, de fraco, de que estamos escondendo a verdade. Muitos forçam uma causa, para descontar o preço da loucura. Muitos revisam os últimos movimentos para justificar o término. Muitos mentem para não passar trabalho. Muitos tentam diminuir a injustiça inventando fatos.

    O que aumenta a penumbra é que incrivelmente nunca mais encontraremos nosso par, apesar de viver na mesma cidade, frequentar o mesmo bairro, dividir gostos semelhantes. Nenhum esbarrão no mercado ou no banco. Os amigos em comum apagam as pistas. Não dá para compreender se mudamos os hábitos ou os hábitos não nos pertenciam mesmo e queríamos agradar pensando que eram nossos.

    Minha namorada reviu seu ex num bar. Ele estava acuado com o imprevisto, cumprimentou nervoso ao invés de ajudar o rosto a sorrir. Ela foi ágil, venceu as cadeiras de ferro, as mesas truncadas, esforçou seu quadril para criar interesse e perguntou o que ele andava fazendo. Eu assisti ao enlace esperando o momento de ser apresentado.

    Sondei o que passou pela cabeça de Cínthya: aquele rapaz simpático, de cabelos compridos e óculos ingênuos, foi um dia seu melhor, que ela também foi um dia o melhor dele. Ela tinha que mostrar ternura e não me ferir de ciúme. Ele tinha que apresentar confiança e não se abalar comigo.

    A emoção ficou represada ou talvez já houvesse secado. A questão é que não se falavam durante cinco anos. Idealizaram um reencontro que não aconteceu. Não existe justiça depois da separação.

    12:08 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

    ARQUIVO SECRETO
    Arte de Jean Cocteau



    Fim do Campeonato Brasileiro, melhores do ano, mas alguma coisa continua errada no futebol: a homossexualidade debaixo do tapete do gramado.

    Rolo Compressor não tem medo de ofensa da torcida:

    "Não há sequer um jogador de futebol que se assumiu gay no Brasil.

    Não houve um único homem de fibra que disse em qualquer microfone de qualquer rádio em qualquer partida: Queria mandar um abraço ao meu marido."


    Leia a crônica e deixe seu palpite.

    10:39 AM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 09, 2009

    A HIERARQUIA DA CARNE
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Quando entramos numa churrascaria, esquecemos o bom senso. Ficamos meio primitivos, animais rosnando, sem tempo de repor o guardanapo na boca. A vontade é pegar a carne com as próprias mãos, cortar com os dentes e sentir o sangue escorrer pelo queixo.

    É o fim da etiqueta. Não há declaração de casamento que possa ser feita num espeto-corrido. O noivo abrirá a caixinha aveludada do anel com as mãos gordurosas? Como começará o assunto?


    — Amor, queria dizer algo importante…

    — O quê?, a possível noiva tenta se desvencilhar do bife e acelerar as mordidas.

    — Tudo bem, eu espero terminar o pedaço…

    Só que chega outro e outro e outro pedaço e não existe pausa de cinco minutos para uma confissão arrebatada. E o possível noivo suará frio, assustado com o número de pedidos de sua musa e logo vai concluir que não terá dinheiro suficiente para manter o relacionamento.

    Toda mesa é uma jaula com fome. O espeto corrido tem suas artimanhas, toalha de mesa de papel, que será retirada com o novo cliente, palitos Gina para usar tanto na dentição como de colher no cafezinho, e os potes de farinha branca e mista, que servem para a criança brincar de escorregador no prato.

    O que predomina no salão é uma melancolia de ossos. Um sentimento de inferioridade na saída, uma desilusão de que nunca seremos capazes de dar conta do recado. Há um desespero auditivo, com ofertas das mais diversas carnes disparadas de todos os lados, um desespero olfativo, complicado diferenciar os cheiros, e um desespero gustativo, o medo de perder aquela joia da brasa, o que impele o freguês a aceitar indiscriminadamente o que aparece pela frente.

    Churrascaria é uma festa de família somente com desconhecidos. É muita intimidade para ser partilhada com estranhos. Impossível ser educado, não arrotar, não cometer alguma gafe. É coisa para vikings.

    Mas há uma hierarquia secreta entre os garçons, que poucos reparam, tão concentrados em compensar o valor do rodízio.

    Já enxergou jovem segurando o espeto de picanha? Claro que não. É arte para veterano. O garçom da picanha será o mais antigo da casa, o general da faca. É o funcionário graduado, com medalhas de combate nos esbarrões. Localiza os clientes pela colônia e tem a patente abaixo unicamente do dono do restaurante.

    Em seguida, descobriremos o protagonista dos filés, um agente secreto entre a cozinha e o bar, com informações quentes dos andares da churrasqueira e da disponibilidade real do frigorífico.

    Depois, os atendentes da maminha, do vazio, da alcatra e do lombinho, um terceiro escalão ainda digno e solicitado, que costuma fazer o maior número de piadas para galgar posições e a simpatia dos comensais.

    No quarto bloco, os amigos do matambre, da costela, do cupim e da costelinha de porco, um grupo modesto, com no máximo três anos de ofício. Ambiciosos, porém sofridos com o excesso de rondas. Recebem um salário um pouco mais alto do que o guardador de carros. Escutam excessivas recusas, dependem de plantão psicológico para suportar a desvalia e a negatividade do trabalho. Obrigados a explicar, a cada instante, que a “picanha já vem”. São conhecidos como a esperança do boi. Discutem o relacionamento de madrugada com a mulher, sempre inflexível com o posto do marido, teimando que ele é frouxo e deveria tentar se impor e aumentar as estrelas do avental.

    Na rabeira, encontraremos os gurizotes. Sim, os estreantes, com espinhas na cara e barbicha de bode, admitidos recentemente no lugar, que necessitam experimentar privações e vexames para se tornarem homens duros e bravos, preparados ao selvagem atendimento do público. Eles pastam mais do que passam. Responsáveis por carregar bandejas de coração de galinha, de salsichão e de abacaxi. Não desfrutam o direito de manejar espeto e lâminas de guerra. Estarão abastecidos de patéticas colheres e pegadores.

    Formam uma brigada inofensiva, de garotos de recados. Experimentam a suprema humilhação numa churrascaria: são os únicos garçons desarmados.


    Coluna no site Vida Breve

    9:04 AM :: Comentários:

    NO PALCO

    Talvez seja a última palestra do ano. Sou o entrevistado do projeto AUTORES E ATORES, do Shopping Total, em Porto Alegre. A divertida Laurita Leão (Lauro Ramalho) conduz o bate-papo. Do elenco da peça Filhote de Cruz Credo, participam Gutto Szuster e Laura Medina. Na Livraria Nobel (Cristóvão Colombo, 545), 19h, Entrada Franca.

    9:02 AM :: Comentários:


    Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

    O HUMOR DO FODIDO
    Arte de Henri Rousseau

    Fabrício Carpinejar



    O mau humor é o melhor antídoto que existe. Nada como tomar o café da manhã com uma mulher irritada, ser passageiro de um motorista que vive reclamando do trânsito, conversar com um carrancudo que destila ódio para a classe política. São companhias estimulantes, afrodisíacas. Além de tudo, bem informadas. O pessimista é uma enciclopédia vendida de porta em porta. O otimista é que não lê jornal.

    O otimista é frouxo, repete as mesmas frases evasivas e genéricas como “precisa acreditar” ou “tenha esperança”. O pessimista é pessoal, persuasivo, abrirá seus segredos com desembaraço. O otimista rende somente auto-ajuda. O pessimista proporciona alta literatura.

    Guardo deslumbramento auditivo diante das pessoas que não respondem tudo bem no cumprimento. Enchem as vogais para declarar "tudo péssimo". Puxo a cadeira mais próxima e me sento com reverência porque percebo que descobri um corajoso no mundo, que vai se confessar com absoluta sinceridade, que tem vida própria e casa alugada.

    O azedume é a inteligência em estado bruto. Aplaudo a loquacidade da tristeza. Desespero quando não fala é fatal. Desespero que esperneia é manso. Nunca fui de brigar, por exemplo, mas de espernear. Queria ser segurado pelos colegas antes de apanhar. Minha honra fez teatro na escola.

    O mau humor do outro me deixa eufórico. Recebo uma sensação de paz que encontrei uma vez, ao soltar folhas de livro inédito no Rio Sena, apesar de não ter estado em Paris.

    Do veneno alheio, surgirá sabedoria, ensinamento, conselhos. Quase uma aula de ecologia sentimental.

    Orgulho-me desse humor muito brasileiro, incomparável. Daquele cara que deu tudo errado e ainda está achando graça. Sofreu enchente, deslizamento, seca, foi corneado e não se entrega. Não fechará o negócio, a cara, a amizade. É o que não tem motivos para rir e está rindo. Seu riso é perigoso. Seu riso é ofensivo. Seu riso é o caráter do pulmão.

    Não confio em sujeito com felicidade de sobra. Será avarento e indiferente. Quem tem esconde. Unicamente peço dinheiro emprestado ao amigo que já faliu. É um pré-requisito que não costuma falhar.

    Eu me interesso pela falta de explicação da alegria. Viva o humor do fodido. É o único que sobrevive às tragédias. Não ficará traumatizado, arrumará uma piada no acidente. Não ficará encastelado no quarto, pagará uma rodada ao pessoal do balcão.

    A desgraça o torna generoso. Repentinamente natalino.

    Meus grandes amigos estão cansados de recados, cada dia é um ultimato. Odeiam quando a atendente pergunta de onde são. Têm rancor por essa mania de rodoviária que atinge a maior parte das secretárias.

    Meus grandes amigos são mórbidos. Compraram o jazigo na juventude. Os que pensam na morte cedo demoram a morrer. Preparam-se com tanta antecedência que perdem a hora.

    A maldade preserva e o bem só traz rugas.

    Posso garantir, todo santo estava acabado aos 40 anos.

    12:02 PM :: Comentários:

    ARMAZÉM DE SECOS E MOLHADOS
    Na segunda parte de "O Pão e a Esfinge", Sergio Faraco abre sua correspondência com Mario Quintana e oferece um testemunho inédito dos 27 anos de convivência com o poeta

    Fabricio Carpinejar


    O pão e a esfinge — seguido de Quintana e Eu, de Sergio Faraco. L&PM, 96 páginas. R$ 24

    O caos do trânsito brasileiro apresenta uma origem cômica: o primeiro acidente que aconteceu em nossas estradas, em 1891, tinha um poeta como motorista. Olavo Bilac espatifou um Serpollet-Peugeot a vapor numa árvore. O carro nem era dele, mas emprestado do abolicionista José do Patrocínio.

    Esta é umas histórias do livro de crônicas "O Pão e a esfinge - seguido de Quintana e Eu", do gaúcho Sergio Faraco.

    Um dos maiores contistas brasileiros, Faraco é um sujeito que não se esconde numa escrivaninha. Não tem vergonha de palpitar sobre assuntos externos à literatura e confessar suas paixões mundanas. Já escreveu um guia sobre automóvel, ao lado de Hugo Almeida, e outro sobre a sinuca, em parceria com Paulo Dirceu Dias. Não faz questão de manter pose de intelectual, deve agora estar cuidando do forro do teto de sua casa, ou arrumando a fiação elétrica.

    E teria pretexto para ser uma cegonha atrás de óculos espessos cortejando a fama. É o que o Rio Grande do Sul melhor produziu de contos depois de Simões Lopes Neto. Suas narrativas breves, buriladas ao longo de décadas (o pequeno texto "Um Dia de Glória" demorou vinte anos para ser finalizado), capturaram a zona invisível entre Brasil e Argentina, na fronteira oeste do estado. Em prosa econômica, mas altamente voluptuosa de oralidade, apanhou o cotidiano dos contrabandistas, das famílias pobres e das expectativas por uma saída financeira a partir de bicos. Na cosmologia regionalista, altamente universal, toda aventura não é uma escolha, e sim um modo de sobrevivência. Demonstrou igualmente sensibilidade para reproduzir a migração de costumes da vida interior para a capital, onde os jovens procuravam estudo universitário, mostrando como Porto Alegre tornou-se uma extensão nostálgica dos modos campeiros.

    A facilidade em lidar com o cotidiano é a chave-mestra que abre as portas de "O Pão e a Esfinge". Uma costura de anedotas, de causos, de curiosidades (do desastre do Titanic, por exemplo) comentados como se o autor estivesse sem assunto. Entenda-se: contar algo assim, despretensiosamente, aperfeiçoa - em muito - a história. A crônica eleva-se ao detalhismo fundamental da conversa familiar. É um estilo cheio de curvas, rodeios, que se delicia em transmitir a sabedoria da experiência. Não está ensinando, porém revivendo leituras e situações dilemáticas. Traz nossa necessidade por uma realidade desnecessária. Sabe a prosa de barco de pescador? A prosa de cavalo do tropeiro? Uma dimensão semelhante: matar o tempo da espera com o tempo da lembrança.

    É uma obra curiosa diante da padronização temática das crônicas. Não é uma rede de lojas, e sim um armazém de secos e molhados, sortido, sem um núcleo definido, que oferece um pouco de tudo. Mescla divagações dos livros do uruguaio Mario Arregui com uma seleção de beijos do cinema, façanhas de campeões de snooker com as primeiras legislações de Alegrete.

    Já a segunda parte do livro tem um registro confessional, valioso como testemunho de um dos mais próximos e regulares confidentes do poeta Mario Quintana, caracterizado pelo próprio com um dos seus "chatos prediletos".

    Destranca o baú de sua correspondência, dedilhando os vinte e sete anos de amizade com o bardo até sua morte em 1994. Amizade, aliás, que começa com uma cobrança. O então jovem colunista da Gazeta do Alegrete comenta que Quintana se recusou a comparecer à inauguração de um monumento em sua homenagem, na praça central da cidade. Quintana desmente com uma carta, afirmando que a cerimônia tinha sido adiada. Ambos se aproximam e se "desconhecem progressivamente" como verdadeiros cúmplices.

    Faraco reafirma o halo de frasista de Quintana, de anjo malandro e diabólico, que perde o amigo e não a piada. Numa das correspondências, Quintana ataca o preconceito ao seu trabalho com uma autocrítica nonsense:

    "A minha opinião pessoal é que sou como o cinema brasileiro: ou faço coisa muito boa ou muito ruim - medíocre é que não sou."

    Pérolas populares do poeta vieram justamente do estranho exercício de uma paranóia criativa, sempre se prevenindo de possíveis difamações. "Nunca evoluí: sempre fui eu mesmo".

    Em passagens constantes por pastelarias ou em visitas com a freqüência de noivos, Sergio Faraco acompanha o humor temperamental e o jeito irônico e defensivo de Quintana, que convertia as adversidades em peripécias sentimentais. Em 1985, Quintana foi atropelado. Não poderia ser um atropelamento comum: pego por um carro em marcha a ré. Os dissabores viravam imediatamente teorias poéticas. Quando o jornal Correio do Povo fechou, ele continuava comparecendo ao seu antigo emprego. Para aproveitar o ar-condicionado.

    A homenagem não poderia ser mais genuína. Não ocorre a bajulação, mas o reconhecimento de um gênio ardiloso, refratário e deliciosamente comovente. Dialogar com o poeta significava observar um monólogo (com pergunta e resposta no automático). Em conversa ao telefone, Faraco acha que Quintana nem o via. "Ele era uma imensa solidão assistida".

    Publicado no blog do Prosa e Verso
    Jornal O Globo, 7/12/09


    10:41 AM :: Comentários:


    Domingo, Dezembro 06, 2009

    BÚZIOS



    Flamengo é hexacampeão. Merecido. O Inter ficou novamente em segundo, a terceira vez em cinco anos. Pelo menos, é vice-campeonato com sabor de Libertadores.

    Rolo Compressor faz o balanço final da temporada e alerta: torcer contra o próprio time é magia negra. Os gremistas devem tomar cuidado em 2010.

    11:58 PM :: Comentários:

    O QUE VALE É A GRITARIA
    Detalhe de arte de George Grosz

    Por Xico Sá
    xico.folha@uol.com.br

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    Que ganhe o time que jogou mais bonito e tem um antiprofessor no banco, o Orfeu dos treinadores
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    AMIGO TORCEDOR , amigo secador, que vingue a aliança populista do meu nobre, cosmopolita e lítero-decadente corvo Edgar com o seu primo pobre brasileiro, o urubu da Gávea e do Henfil, e tinja do vermelho e do negro a tarde-noite do próximo domingo.

    Vade retro todos os maracanazos da história. Chega. Essa torcida merece. A que tem grana para pagar o bilhete caríssimo, premiado, que sacanagem!, e a que vai queimar uma carne com a família ou com as clandestinas gostosas da laje, vendo o maior espetáculo da terra pela TV.

    O que vale, Carlão, abandono aqui minha crença na luta de classes e faço figa com os deuses que dançam em todos os terreiros, é a gritaria.

    Se bem que a luta de classes no Rio toca de ouvido um desconcerto carioca, dom Sérgio Sant'Anna, meu prosador predileto: é um raro lugar do mundo onde os miseráveis tiveram acesso a uma possibilidade de fortuna maluca, merda, tudo bem, o tráfico. Quem sou eu para me meter nestes latifúndios dos Robertos da Matta da vida, mas, quando pobre pega em dinheiro, sabe, né, dá guerra, a lei cai matando, ninguém aguenta ver um preto endinheirado.

    Ah, esquece o tema. Que ganhe o time que jogou mais bonito e tem um antiprofessor no banco, educação da água contra a pedra, o bom Jorge Luís Andrade da Silva, o Orfeu dos técnicos, como disse o Fabrício Carpinejar, torcedor do Inter, poeta, o cronista autor de "Canalha!" e de outra penca de livros no país que ainda carece gastar as pestanas por tantas causas, noites e balaiadas.

    Paz e glória aos homens de boa vontade, aos mineiro-cariocas de Juiz de Fora, caso do treinador do Flamengo, nascido em um 21 de abril tal qual Tiradentes.

    Ah, essa terra ainda vai cumprir seu ideal, velho Francisco, e que o teu Flu, o épico da parte de baixo da tabela, volte de Curitiba com o título da resistência, o mais resistível aos cupins e aos chatos que não roerão jamais a renhida resenha da madeira das cricris mesas-redondas.

    Andrade, como lembra o escriba Carpi, colorado, é um quase inédito caso de negro no comando de nossos grandes times. "Foram raros, foram poucos os que regeram a casamata do estádio. Ele põe fim ao apartheid da última hierarquia do esporte. Até o Exército foi mais justo antes."

    Daí atravesso a Oswaldo Aranha e entro no parque Farroupilha, agora com o amigo Wander Wildner, um raro punk à vera e filosófico, e não digo mais nada, pois essas quatro letras -PUNK- falam tudo no sentido igualmente gaúcho e planetário!

    Fala, Fabricio: "Como se o negro fosse um operário, vetado como engenheiro, proibido como arquiteto das emoções das arquibancadas. Como se relegasse ao negro o papel de ator, não permitindo seu desempenho como cineasta, barrando função autoral e inteligência operística".

    Andrade, nome quase impronunciável sem que a gente diga junto Andrade, Adílio e Zico. Aliás, ótima sugestão para esses fanáticos papais que batizam seus rebentos com a marca dos seus ídolos ludopédicos: Adílio Andrade Zico Fraga Pereira.

    Se bem que vale dar batismo sérvio para o menino que nasce nesse momento: Dejan Petkovic Santos da Silva. Sim, não esqueçamos da festa do Adriano, na favela onde nasceu.

    Tomara que isso aconteça, amém!

    Publicado no jornal Folha de São Paulo
    Caderno Esportes, 4/12/09


    11:32 AM :: Comentários:


    Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

    DOMINGO
    (Inter X Santo André e Flamengo X Grêmio)
    Foto Miguel Carpi Nejar



    Gre-Nal do século é agora. O Inter precisa de uma mão do Grêmio para ser tetracampeão brasileiro.



    2:02 PM :: Comentários:


    Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

    OS DESMANDAMENTOS CARPINEJARIANOS

    Fabrício Carpinejar



    I - Não roer as unhas dos pés. Se conseguir isso, vai se surpreender com a elasticidade, entrará na ioga, nos exercícios de meditação oriental e não terá mais vida inútil.
    II - Pode mijar fora do vaso, biologicamente comprovada a necessidade do homem de marcar o território.
    III - Perder tantas vezes quanto possível a chave de casa, para lembrar que ainda tem casa.
    IV - Não usar aparelho, os vampiros estão na moda.
    V - Se é escorpiano como eu, não tatue seu signo no braço. Todos tiveram a mesma idéia.
    VI - Quando quiser dar alguma coisa, empreste. Pode se arrepender ao longo da semana.
    VII - Diante da crise criativa, peça ao seu pai para contar aquela história que ele repetiu um milhão de vezes.
    VIII - Não participe de amigo secreto no final do ano, certo que seu presente será um faqueiro de quiosque ou um CD sertanejo ou um par de meias.
    IX - Quando estiver muito atrasado, nem se justifique, só diga: nem sabe o que aconteceu. Garantido o perdão no ato, ninguém nunca quer saber.
    X - Encontre um cachorro com sua cara, ele terá mais sucesso do que você na hora das cantadas e dos favores.

    Publicado no blog
    de Leandro Leite Leocadio


    10:44 PM :: Comentários:


    Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

    TÉCNICO NEGRO



    Enfim, a história escreve o último capítulo do livro "O negro no futebol brasileiro", de Mário Filho.

    Rolo Compressor tece justa homenagem a Andrade, Orfeu das pranchetas, maestro do Flamengo no Brasileirão 2009. Leia e comente:

    "Andrade poderá ser o primeiro técnico negro campeão brasileiro. Foram raros, foram poucos os que regeram a casamata do estádio. Ele põe fim ao apartheid da última hierarquia do esporte. Até o exército foi mais justo antes.

    Não há negros no comando dos nossos principais times. Existem preparadores físicos, assistentes, dirigentes. Mas nunca existiu um negro mandando numa grande esquadra, organizando taticamente o elenco, dando a palavra final sobre a escalação. É como se ele pudesse chefiar com a bola nos pés, não fora do campo. Como se o negro fosse um operário, vetado como engenheiro, proibido como arquiteto das emoções das arquibancadas. Como se relegasse ao negro o papel de ator, não permitindo seu desempenho como cineasta, barrando a função autoral e a inteligência operística."


    4:42 PM :: Comentários:

    VEJA ENTREVISTA COM CARPINEJAR VIA TWITTER

    Paula Dume
    colaboração para a Livraria da Folha


    Frases diárias, espontâneas e passionais reunidas pelo autor

    O endereço www.twitter.com/carpinejar (Bertrand Brasil, R$ 19) não é apenas o perfil de Fabrício Carpinejar no microblog, mas uma obra publicada recentemente pelo escritor. O livro é uma espécie de caderno de paradoxos de Carpinejar. Nele, frases diárias, espontâneas e passionais foram registradas.

    Na introdução do volume, o escritor que recebeu o Prêmio Jabuti 2009 na categoria "Contos e Crônicas" por "Canalha!" descreve uma das artes que fazia na infância que era a de conversar pelos canos. Os meninos divertiam-se com as palavras entupindo os encanamentos.

    "Esse livro segue a desordem dos dias, pensamentos que nasceram para a viuvez, sem trama, enredo e poema que o justifique (...) Ou é apenas mais uma molecagem de minha infância", afirma no prefácio. Em entrevista à Livraria da Folha, via Twitter, Carpinejar encorpou em suas respostas o tom que comandava suas brincadeiras: aquele que joga pedra na vidraça e sai correndo, deixando o leitor com os olhos cheios de significados diversos.

    Leia abaixo a íntegra da entrevista entre o perfil da Livraria e o de Carpinejar, realizada na última terça-feira (1), em tempo real. O bate-papo teve início às 17h40 e durou cerca de duas horas.

    *
    @livrariafolha: olá, tudo bem? vamos iniciar nosso bate-papo via twitter.
    @carpinejar: tudo bem? podemos começar.

    @livrariafolha: nada mais propício do que falar com você sobre seu novo livro do que por aqui. quantos tweets ele têm?
    @carpinejar: cerca de 400 frases, máximas, para acordar o sangue. Sangue acordado já é luz.

    @livrariafolha: falando em sangue, entremos no mundo do crime: você está sob a guarda da advocacia do ordinário?
    @carpinejar: Perfeito, o ordinário me interessa mais do que o sobrenatural. para que os olhos sejam sobrenaturais, e não ordinários.
    @carpinejar: não é por acaso que Nelson Rodrigues resolvia sua vida num terreno baldio, entrevistando seus inimigos.
    @carpinejar: Todo lugar que serve para um crime serve para falar a verdade.

    @livrariafolha: quando percebeu que era hora de relatar o ordinário em forma de aforismos por aqui?
    @carpinejar: Intimidade não significa falar o que estou fazendo, isso é disfarce. Queria a vida do pensamento, os desejos desajeitados.

    @livrariafolha: na escola imperatriz leopoldina, você se sentia praticando um crime por meio daqueles encanamentos?
    @carpinejar: sou tímido, o tímido é aquele que pensa tudo o que poderia ter dito e não disse. vive ensaiando uma conversa antiga.
    @carpinejar: meu otimismo vem porque já imaginei o pior antes.

    @livrariafolha: você sente que as palavras estão entupidas em 140 caracteres?
    @carpinejar: não sou encanador, risos, só presto para queimar a resistência das palavras. às vezes tomo banho fio.
    @carpinejar: não sou de me censurar, espero sempre o castigo. O melhor de tudo é o castigo.

    @livrariafolha: nessas resistências, alguma vez o significado de algum pensamento foi saturado e não exposto?
    @carpinejar: não sigo etiqueta, fica dentro da camisa. a etiqueta fala mal da gente pelas costas.

    @livrariafolha: seria como jogar pedra no vidro e sair correndo, como você fala. você é inteiro em cada fragmento? quando não o é?
    @carpinejar: pai separado do filho nunca é inteiro. Mariana mora em Brasília. quando aproveito algo aqui, digo: como ela iria gostar!
    @carpinejar: o vidro é pedra também, por dentro do pulso.

    @livrariafolha: brinca com seus filhos de orelhão sem fio? alguma vez sentiu-se mudo diante deles ou dos seus leitores?
    @carpinejar: gosto de brincar com os filhos de imagem-ação. péssimo em mímica. já fiz um lagarto com chifre. sou uma piada perdoada.
    @carpinejar: há momentos que fico como um assobio e o leitor dá a letra. Dificilmente, fico mudo, choro com a boca, vou gemer no almoço.

    @livrariafolha: o que sua namorada e seu amigo postavam no início do seu twitter?
    @carpinejar: @cinthyaverri e @eduardonasi criaram um carpinejar fake, de nome pfrigo. postavam frases falsas para me provocar.
    @carpinejar: fizeram o terrorismo do constrangimento. ou assume o twitter ou some. fiquei com medo de ser mais verdadeiro no camelô.

    @livrariafolha: você disse que não queria entrar no twitter. por que? se sentiu provocado?
    @carpinejar: fiquei tentado: todo apaixonado nega muitas vezes seu amor até confessar.

    @livrariafolha: falando em paixão, a réplica é guiada pelo desejo. e o escrever é pensar por empréstimo ou por fiado?
    @carpinejar: roubar é para amadores. escritor bom faz latrocínio: rouba e mata a influência. de quem mesmo é essa frase? risos

    @livrariafolha: a frase provém dos seus encanamentos... rs. de quem foi a ideia de fazer o livro do twitter?
    @carpinejar: Foi minha ideia. Mas há no mundo literário uma falsa noção de que livro sério tem que demorar.
    @carpinejar: Escritores são mais valorizados ao contar que seu inédito demorou 10 anos para ser escrito. Ninguém responde a realidade.

    @livrariafolha: seu twitter existe desde quando? quantos retweets há por dia?
    @carpinejar: um semestre. Costumo postar 5 tweets por dia. O que me emociona no twitter é a passionalidade. não há rascunho. somos.

    @livrariafolha: você sente gritar de qual andar no twitter?
    @carpinejar: O melhor lugar para gritar num edifício é do térreo, a voz ecoa em todos os outros andares.

    @livrariafolha: recenseamento, rendição, revisão, remorso, reposicionamento, retaliação, retificação, reparação, reconciliação.
    @carpinejar: Mesmo quando estou em paz, sou agressivo. A paz é agressiva.

    @livrariafolha: como surgiu essa série de re(s) que consta em seu livro? faltou algum 're'?
    @carpinejar: Escolhi de um repertório de mil frases. Alguns de minha preferência ficaram de fora. Só se acumula quem não transborda.

    @livrariafolha: arremate: "a filosofia começa onde a poesia termina". o twitter ______complete o espaço, por gentileza;)
    @carpinejar: o twitter está no meio, entre a filosofia e a poesia.

    @livrariafolha: muito obrigado pelo bate-papo em tempo real.
    @carpinejar: agradeço a compreensão dos seguidores, foi o primeiro swing do twitter.

    Publicado na Livraria da Folha
    2/12/2009


    4:23 PM :: Comentários:

    FORA DO ESQUADRO
    Arte de Osvalter

    Fabrício Carpinejar



    Batia uma vontade de telefonar para sua mulher somente para lembrar que a amava.

    Curto, lírico, quase como um recado telefônico com o interlocutor ouvindo.

    Mas ela aproveitava a chance para descrever as últimas preocupações e atividades da manhã, as brigas do trabalho, as ameaças de demissão, as atrações clandestinas dos colegas. E ele não encontrava um modo de desligar sem soar grosseiro. “Amor, amor, tenho que…” e ela emendava uma nova história e ele empurrava um “já vou” ao chefe com voz escondida de bonequeiro.

    Seu azar: a maioria das conversas não tinha pontuação, sequer uma pausa para encerrar o assunto.

    Mateus era um minicontista do relacionamento. Preferia várias e rápidas ligações ao dia do que uma longa. Reproduzia o jeito lacônico de seu pai.

    Amanda era uma romancista. Preferia várias e longas ligações ao dia. Reproduzia o jeito espichado de sua mãe.

    O caso é que a esposa andava ensimesmada com as rugas. Diante do espelho, levantava e abaixava os vincos, brincava de morto-vivo com a testa.

    Quando não tomava coragem de revelar algo que a incomodava, acentuava a loquacidade. Falava coisas desnecessárias. Esperava criar um gancho sorteando temas e disparando para todos os lados. Por mais que tentasse inserir a confissão na prosa, não aparecia contexto perfeito, como se a confidência fosse obrigada a ter um início.

    Fracassou ao contar ao marido e armou secretamente um botox. Não desejava melhorar para ele, mas contentar o próprio silêncio. Ou alguém acredita que uma mulher faz plástica para seu parceiro?

    Marcou a clínica, reservou dois dias na casa de uma amiga para não denunciar o esquema, desapareceu até voltar com a pele lisa, luminosa, resplandecente, de uma jovem de vinte anos.

    O detalhe é que ela massageou a zona durante a recuperação, desobedecendo à orientação médica. Esqueceu que tinha feito a aplicação e cumpriu, à toa, aqueles movimentos circulares e habituais nas têmporas para aliviar a dor de cabeça.

    Seu olho esquerdo caiu. Caiu de leve, porém perdeu a simetria e a régua com o outro olho. Restou um olho estalado vizinho de um olho estatelado. Como se estivesse piscando ininterruptamente. Ela se via como Gene Wilder, o Willy Wonka de A Fantástica Fábrica de Chocolate.

    Entrou, envergonhada, no quarto. O marido percebeu sua timidez. “O que houve?”

    Não achou novamente coragem para expor a plástica, ainda mais agora que deu errado. Não havia plano B. Acreditava que ficaria tão linda que ele não iria incomodar com perguntas e indiscrições.

    Mateus reparou a expressão diferente. Aproximou-se, cerceou, rodeou e não chegou a nenhuma conclusão. O que tinha certeza é que gostou, encantou-se com a novidade insondável. “O que será? O que será?” Não ousou apontar e correr o risco de desagradá-la — vá que comente que é uma coisa e é outra e entregue que nunca reconheceu um detalhe precioso.

    A excitação crescia com o mistério. Intrigava. Passou pela cabeça de que não a conhecia o suficiente apesar das três décadas de casamento. Foi tirando o pijama azul celeste, abrindo o peito, dispensando as meias.

    Agarrou seu quadril e o puxou com violência para perto.

    Sem localizar, saboreou a luxúria do olhar camoniano, a devassidão da desarmonia.

    Amanda nunca reclamou do problema ao médico.


    Coluna no site Vida Breve

    9:23 AM :: Comentários:

    REENCONTRO COM PAULO SCOTT



    9:22 AM :: Comentários:


    Terça-feira, Dezembro 01, 2009

    CREPÚSCULO DOS CASAIS
    Arte de Caetano Cury

    Fabrício Carpinejar



    A namorada de meu irmão começou a elogiar o vampiro Edward, do filme Crepúsculo.

    “Aquela palidez, aqueles traços selvagens, o corpo perfeito.”

    Enquanto ela discorria metaforicamente, tudo bem, até a hora em que entrou o corpo perfeito. Foi um banho de realidade. Ele a via se esfregando no box e dedicando o pescoço ao canastrão. Não importava se a menina ad­­­mirava o personagem ou o ator Robert Pattinson. Ambos se tornaram um inimigo declarado dele e de seu time de futebol de terça-feira.

    Homem somente arde de ciúme de um ator quando venerada sua força física e muscular. Pode falar das ideias, da inteligência, do romantismo, do caráter, nada incomodará. Erudição e sensibilidade são alcançáveis mesmo com uma barriguinha de cerveja. O trauma é acabar com a barriguinha de cerveja.

    Namorada, quando comenta o tórax, o tronco, as pernas de um ator, logo completará a provocação “eu faria qualquer coisa com ele”.

    – Qualquer coisa?, o namorado retruca.

    – Sim, qualquer coisa. Sua sorte é que ele não mora aqui.

    Ainda solta um risinho, que aumenta a malícia da frase e o conteúdo misterioso e encorajador da oferta.

    A noite estará estragada com o inofensivo diálogo.

    Em primeiro lugar, o ciumento vai concluir que não faz qualquer coisa por ele, que ela guarda segredos e posições intocadas do Kama Sutra. Já a imagina cumprindo um spacatto na mesa de jantar.

    O homem tem muito mais medo de ser corneado pela fantasia feminina do que pela parada de ônibus.

    É desvalia funcional. Se quer que o ex cometa suicídio, espalhe a fofoca de que desmanchou o relacionamento porque o tamanho não a satisfazia.

    Uma coisa é concorrer com o vizinho, outra é concorrer com Rodrigo Santoro.

    Mostrando que é do mesmo sangue, meu irmão não deixou por menos. Uma semana depois, de um modo premeditado, é óbvio, comentou olhando para o lado, assim como quem permite o guardanapo cair, de que Robert Pattinson é excêntrico e não toma banho. Desejava, no mínimo, eliminar a incômoda fantasia do box.

    – Como descobriu?

    – A notícia estava num site e li por acaso.

    – Que nojo, Robert parecia tão cheiroso.

    Ele não contou que pesquisou tudinho sobre o ator, cabulou uma tarde do serviço, criou uma pasta exclusiva com informações confidenciais de sua história, de seus hábitos e superstições, que a expressão mais pedida em seu Google era Pattison. PATTISON. Com a convivência forçada, criou uma simpatia pelo sujeito, mas era tarde para iniciar amizade.

    Mais grave foi um amigo carioca, nova vítima do Crepúsculo de Stephenie Meyer.

    – Não aguento mais esse seu calendário pilomax: lua nova, eclipse, amanhecer?

    A esposa comprou a coleção inteira e passava os dias lendo. Não é um modo de expressão: lia co­­­mendo, lia no banheiro, lia atendendo os filhos, lia de pé.

    Nem conversava mais com ele, a não ser quando surgia a palavra-chave “imortalidade”.

    Assoberbado de inveja, inventou de arrancar com estilete a última página do quarto e último volume. Nem despistou, aparecia na costura a rebarba da folha censurada.

    Pressionado pela mulher, confessou o crime, cheio de razão.

    – Nunca saberá o final da história?

    – Não preciso, a nossa termina por aqui.

    Divorciado, duro, frustrado, hoje entende que as mulheres sempre preferiram os vampiros aos lobisomens.

    Publicado no jornal Gazeta do Povo
    Caderno Viver Bem
    Curitiba (PR), 29/11/2009


    8:28 AM :: Comentários: